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sábado, 24 de novembro de 2018

Coreias do Norte e do Sul abrem estrada que liga os dois países


https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/54077/coreias-do-norte-e-do-sul-abrem-estrada-que-liga-os-dois-paises

Coreias do Norte e do Sul abrem estrada que liga os dois países

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Obra se tornou primeira conexão viária em funcionamento entre os dois países em 14 anos; trecho servirá para auxiliar em escavações de restos mortais de soldados mortos na Guerra da Coreia

Redação

A Coreia do Norte e a Coreia do Sul abriram nesta quinta-feira (22/11) uma estrada de três quilômetros que cruza a fronteira ligando os dois países. O trecho se tornou a primeira conexão viária entre as nações em 14 anos.
A obra, que está dentro da Zona Desmilitarizada, começa na província sul-coreana de Cheorwon, a 90 km de Seul, e servirá para auxiliar em escavações de artefatos e restos mortais de soldados mortos na Guerra da Coreia (1950-1953).
A medida faz parte de um acordo assinado entre Pyongyang e Seul em 15 de outubro que visava reconectar ferrovias e estradas entre os dois territórios da Península.
"Ela carrega um grande significado porque a estrada foi construída em Cheorwon, que fica bem no centro da Península", disse o ministro da Defesa da Coreia do Sul em nota.
Segundo a agência de notícias sul-coreana Yonhap News, a parte da estrada que fica no norte possui cerca de 1,3 km, enquanto que a parte sul tem 1,7 km. Ainda de acordo com a agência, a via servirá para transportar equipamentos e equipes de trabalho para as escavações a partir de abril de 2019.
O projeto das escavações foi acertado entre os governos coreanos durante cúpula em que se assinaram acordos pela desmilitarização da fronteira entre os países.
De acordo com a Yonhap News, estima-se que mais de 200 soldados coreanos estejam enterrados na região, além de dezenas de combatentes da ONU, militares franceses e norte-americanos.
Reprodução
Medida faz parte de um acordo assinado entre Pyongyang e Seul em 15 de outubro que visava reconectar ferrovias e estradas

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Justiça suíça condena repressor guatemalteco

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=80992

Justiça suíça condena repressor guatemalteco

Sergio Ferrari
Adital
O Tribunal Criminal de Genebra, condenou nesta sexta-feira, 06 de junho, a vida do repressor guatemalteco Erwin Sperisen. O ex chefe da polícia nacional civil da Guatemala foi reconhecido como co-autor de seis assassinatos e responsável direto por um durante uma ação repressiva implementada na prisão de Pavón, nesse país centro-americano, em 2006.
Ao pronunciarem a sentença os juízes assinalaram a motivação egoísta e particularmente odiosa, assim como o método de atuação de Sperisen. Ressaltaram também a gravidade dos fatos, o número de vítimas e a ausência de qualquer tipo de reconhecimento dos fatos por parte do acusado.
Os sete detidos foram vítimas de execuções extrajudiciais, insistiu o Tribunal Criminal, baseando-se em numerosos testemunhos considerados com credibilidade. O único argumento da defesa foi afirmar que as testemunhas mentiam.
Sperisen foi alvo de outra causa, a do assassinato de três fugitivos do "El Infiernito”, em outubro de 2005, logo após a evasão de 19 presos. Sperisen e seus colegas implementaram o Plano Gavilán com o objetivo de capturar os evadidos e executá-los, dissimulando provas. Três dos recapturados tiveram essa sorte. A justiça genebrina considerou que não havia elementos suficientes nesse caso para culpar o ex chefe policial.
A condenação à prisão perpétua desta sexta-feira encerra a última etapa do proceso, que incluiu, desde 15 de maio último, as apresentações da promotoria e da defesa. Três semanas de uma verdadeira maratona jurídica, que ocupou a principal atenção midiática na Suíça.
O julgamento e a sentença marcam um precedente significativo na luta internacional contra a impunidade. Sperisen, duplo cidadão suíço e guatemalteco tinha fugido desse país centro-americano em 2007, radicando-se numa localidade de Genebra, onde teria se "convertido” em militante do Partido Evangélico.
A denúncia e a pressão de várias organizações sociais, e de solidariedade helvéticas levaram a que as instâncias judiciais genebrinas iniciassem o processo. Entre as mais ativas denunciantes encontram-se a Comunidade Genebrina de Ação Sindical, a Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura e o sindicato rural UNITERRE (membro da Via Campesina). A organização internacional TRIAL sistematizou a causa e a relançou em 2010.
O ex- chefe da polícia guatemalteca foi detido em 31 de agosto 2012, logo após ter gozado de liberdade total a partir de sua instalação em dito localidade, e 2007.
"El Vikingo” foi também acusado pela Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG) de ter sido um dos chefes dos esquadrões da norte, que operaram no país centro-americano entre julho de 2004 e março de 2007.
Tal Comissão é um organismo estabelecido conjuntamente pelas Nações Unidas e a Guatemala em 2007. A Comissão comprovou a existência nesses anos de um "Grupo Criminoso Autônomo” integrado por 19 pessoas, que operava com total impunidade. Todos eram funcionários dos serviços de Seguridad del Estado o fuerzas aparentadas y habrían implementado execuções extrajudiciais de prisioneiros.
Em março de 2007, Sperisen teve que renunciar a seu cargo dado que o corpo policial que dirigia se viu envolvido no escândalo resultante do assassinato na Guatemala de três deputados salvadorenhos, membros do Parlamento Centro-Americano.
Dado que Sperisen conta com a dupla nacionalidade, a Suíça não aceita a eventual extradição para a Guatemala com o objetivo de processá-lo. Daí a trascendência do veredito deste dia 06 de junho. Um desafio não apenas para a justiça helvética, mas também no combate internacional contra a impunidade.

Sergio Ferrari

Colaborador de Adital na Suiça. Colaboração E-CHANGER

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ucrânia: entre máfias e o expansionismo militar

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Ucrania-entre-mafias-e-o-expansionismo-militar/6/30412


Ucrânia: entre máfias e o expansionismo militar

Mesmo que não desemboque em uma guerra, o conflito na Ucrânia e na Crimeia marcará de maneira decisiva as relações internacionais nos próximos anos.


Alejandro Nadal - La Jornada, México
Arquivo

A crise na Ucrânia pode desembocar em uma luta armada de consequências terríveis. Mesmo que não desemboque em uma guerra, o conflito na Ucrânia e na Crimeia marcará de maneira decisiva as relações internacionais e as percepções entre os europeus, norte-americanos e russos durante os próximos quinquênios.

As raízes dessa crise constituem um tema complexo e, por isso, é preciso desconfiar das narrativas simplistas (provenientes de Moscou ou Washington).
 
Entre as causas que levam ao conflito atual se encontram na expansão do militarismo norte-americano, que nunca abandonou suas obsessões da Guerra Fria. Também está na voracidade do capital financeiro, que busca consolidar o neoliberalismo na Ucrânia.

As máfias que estão no poder na Rússia e em Kiev são o complemento perfeito para detonar o conflito. Para o povo ucraniano, as opções foram permanecer sob o domínio de máfias que simpatizam com Moscou ou se entregar a máfias inclinadas à aproximação com a União Europeia e Washington. O pano de fundo desse coquetel explosivo é a longa história de nacionalismos e movimentos separatistas.
 
Sem dúvidas, para muitos leitores, falar de “expansão do militarismo norte-americano” soa como exagero. Mas é preciso considerar os seguintes elementos. Em 1949, criou-se a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Sua missão era clara: enfrentar as forças que a União Soviética tinha estacionadas em seu território e nos países da Europa do leste. A URSS respondeu criando seu próprio bloco, com o Tratado de Varsóvia.

A OTAN parecia ter perdido sua razão de existir com a derrocada da URSS. Os arsenais nucleares dos Estados Unidos e da Rússia foram objeto de vários tratados de redução de armas estratégicas e, em termos gerais, criou-se uma atmosfera de certa distensão. Mas as correntes mais conservadoras nos Estados Unidos não resistiram à tentação de aproveitar o momento para buscar a expansão da OTAN e deslocar a linha divisória da antiga Guerra Fria até a fronteira com a Rússia.

A OTAN não apenas manteve, mas também cultivou suas ambições estratégicas no que havia sido o espaço soviético durante a Guerra Fria. Essa expansão se iniciou com Clinton e prosseguiu com Bush. Para alguns analistas, a isso se somam os sonhos do Pentágono de um dia ver a frota norte-americana ancorar em Sebastopol e Balaclava, os principais portos da Crimeia. Mas o sonho do Pentágono é um pesadelo para o nacionalismo russo.

Em 1999, Polônia, Hungria e República Tcheca entraram na OTAN em meio a um feroz debate e à oposição da Rússia. Em 2004, foi a vez das repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia), além da Eslovênia, da Bulgária e da Romênia. Poucos analistas se detiveram para pensar como a Rússia interpretaria esse processo.

George F. Kennan, provavelmente o mais perspicaz e experiente artífice da política externa norte-americana, advertiu em 1997 que a expansão da OTAN constituía “o erro mais grave e detestável dos Estados Unidos na história do pós-guerra”. Para Kennan, esse ato “inflamaria o militarismo russo e afogaria a democracia, porque impulsionaria a política externa russa em direção a objetivos que não seriam de nosso agrado”.

Ninguém o escutou e, em 2008, George W. Bush fez planos para que a Geórgia e a Ucrânia se tornassem membros da OTAN. Por isso, o comunicado do encontro da OTAN em abril desse ano ressalta que “Georgia e Ucrânia serão membros da OTAN”, ainda que sem especificicar a data. O conflito entre Rússia e Geórgia em 2008 alertou os europeus sobre o risco de continuar por essa via, e isso freou os planos de outorgar à Ucrânia um “plano de condição de membro”, o primeiro passo para entrar na OTAN. A leitura russa de todo esse processo foi imediata: Washington e seus aliados não abandonaram suas prioridades da guerra fria, e sua estratégia continuava sendo rodear a Rússia por todos os seus flancos.

Depois do colapso da URSS, a Ucrânia se converteu no terceiro maior estado em quantidade de armas nucleares (depois de Estados Unidos e Rússia). Mas, em 1996, todo o seu armamento nuclear havia sido entregue à Rússia, e a Ucrânia se transformou em um estado livre de armas nucleares. Embora o exército ucraniano não possa deter uma ofensiva russa, tampouco estamos falando de uma força desprezável, e qualquer conflito armado teria consequências desastrosas. A economia mundial, e em especial a europeia, não estão prontas para enfrentar o castigo de um espetacular aumento nos preços do petróleo, além do desabamento dos mercados de capital e a volatilidade sem par das principais divisas.

Para conseguir uma maior integração econômica com a Ucrânia, a União Europeia buscou negociar um pacto que daria a Kiev um status privilegiado comercial e financeiramente. Bruxelas ainda ofereceu um trato especial em matéria de vistos e outros incentivos, mas em dar a condição de membro. O verdadeiro objetivo da UE é reduzir a influência russa, especialmente depois da iniciativa de Putin na Síria (que esfriou os planos mais intervencionistas dos Estados Unidos) e da concessão do asilo a Snowden (fato que Washington não perdoa).

O pacote oferecido pela UE incluía as típicas medidas de austeridade que colocaram a Grécia de joelhos e causaram tanto dano à Europa. Mas o mais importante é que o tratado com a UE incluía cláusulas de conteúdo militar que obrigariam a Ucrânia a seguir os alinhamentos estratégicos da OTAN. Para Moscou, isso seria o cúmulo e, por isso, intensificou a pressão sobre o corrupto presidente ucraniano Yanukovich.
 
No último dia 9 de novembro, Putin se reuniu secretamente com seu colega ucraniano para assinar um tratado alternativo entre Kiev e Moscou. Na reta final, além do acesso ao mercado russo, Putin se dispôs a perdoar parte importante da dívida ucraniana, além de vários milhões de euros em créditos.

O anúnciou gerou uma onda de protestos que terminou por derrubar Yanukovich. Moscou sentiu que perdeu a oportunidade de frear as pretensões de expansão dos norte-americanos e europeus. A intervenção na Crimeia é uma resposta arbitrária, perigosa e para lá de ilegal. Infelizmente, nenhuma das potências que hoje pretende dar lições de civilidade a Moscou tem as mãos limpas. A hipocrisia de Washington é grande, mas no chega a ocultar seu desprezo pelo direito internacional. Os exemplos de invasão ao Iraque e ao Afeganistão (antes de o Conselho de Segurança autorizar uma intervenção) ainda estão frescos na memória.

Sobra pouco tempo para resolver a crise. Se ele não for aproveitado, será trilhado o caminho que conduz ao conflito armado. Moscou poderia retirar suas tropas da Crimeia em troca de voltar ao status quo ex-ante (leis de estrangeiros e do idioma russo). Mas o tom belicoso e a ameaça de sanções provenientes de Washington e Bruxelas não vão acalmar os ânimos.
 
Tradução: Daniella Cambaúva

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Espionagem dos EUA mira recursos naturais

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/528679-espionagem-dos-eua-mira-recursos-naturais-diz-celso-amorim


Espionagem dos EUA mira recursos naturais, diz Celso Amorim

Em palestra para militares durante cerimônia pelo centenário da Escola de Guerra Naval, no Rio, o ministro da Defesa,Celso Amorim, associou na segunda-feira, 24, o episódio de espionagem do governo brasileiro pelos Estados Unidos à competição por recursos naturais.
"Não é à toa que a Petrobrás e o nosso Ministério das Minas e Energia foram alvo de espionagem digital", disse o ministro.
A informação é publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 24-02-2014.
No discurso, Amorim destacou o programa de submarinos da Marinha, a criação do Centro de Defesa Cibernética do Exército e a recente aquisição de novas aeronaves de combate da Força Aérea, classificados por ele como "marcos históricos da modernização da Defesa no Brasil".
Após a palestra, o ministro não quis comentar a recente revisão do Manual da Garantia da Lei e da Ordem, documento que define normas para o engajamento das Forças Armadas no papel de polícia.
Na primeira versão, publicada em dezembro, o manual apresentava movimentos sociais como "força oponente" a ser enfrentada. "O manual foi revisto, não tenho nada a dizer, está autoexplicado", disse Amorim.
O ministro lembrou os esforços capitaneados por Brasil e Alemanha com o objetivo de estabelecer um quadro normativo global que proteja a privacidade dos cidadãos e a segurança dos Estados. "Mas também é preciso ter presente o nexo que associa a competição por recursos naturais às intrusões eletrônicas em nossa soberania."
Em setembro de 2013, na Assembleia-Geral das Nações Unidas, a presidente Dilma Rousseff criticou a espionagem americana, que definiu como "violação de direitos humanos". As revelações fizeram Dilma cancelar a visita de Estado que faria aos EUA

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O que houve na Ucrânia?

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-que-houve-na-Ucrania-/6/30327


O que houve na Ucrânia?

Na Ucrânia houve de tudo, menos uma revolução popular. Três grandes jogadores estão assentados neste terreno: a Rússia, a União Europeia e os EUA.


Flávio Aguiar
Arquivo

Na Ucrânia houve de tudo, menos uma revolução popular.

Tudo começou com uma série de manifestação empilhadas umas sobre as outras: uma juventude ansiosa por se identificar com a União Europeia, uma classe média cansada pelas sucessivas vagas de corrupção dos sucessivos governos, uma insatisfação com o autoritarismo e o fechamento do governo de Viktor Yanukovitch, o desejo de maior ascendência de grupos do oeste do país em detrimento de grupos do leste do país.

A repressão que o governo desencadeou abriu caminho para uma intensificação do descontentamento, açulado pelos partidos de oposição representados no Parlamento e pelo  encorajamento internacional – da União Europeia a políticos norte-americanos, republicanos e democratas.  De todos os mais animado foi o senador republicano John McCain, em dezembro, gritando na praça da Independência (Maidan), foco e espaço das concentrações: “O mundo livre está com vocês! A América está com vocês!” Melhor lembrança da Guerra Fria e do dito “A América para os [norte-]americanos” seriam impossível. Como nos velhos “bons” tempos, o alvo continua sendo a Rússia.

No pano de fundo destas confrontações estão as desigualdades do país. O leste e o sul – junto à Rússia e ao Mar Negro são mais desenvolvidos e industrializados do que o oeste, mais pobre. O leste, de um modo geral, tem seu foco econômico voltado para a vizinha Rússia, de que depende o abastecimento de gás do país, vital para a indústria e para o aquecimento durante o rigoroso inverno. Se a Rússia endurecer a questão do fornecimento de gás, cortando-o ou simplesmente cobrando o preço de mercado, a Ucrânia literalmente congela – em todos os sentidos. Entretanto para o oeste, mais  próximo da União Europeia, a aproximação com esta significaria em tese uma maior autonomia em relação ao governo central e às demais regiões do país, além de mais oportunidades de colher investimentos. Pelo menos em tese.
 
Há também a questão do histórico repúdio aos russos, maior no oeste, um repúdio cujas últimas e trágicas edições foram uma relação ambígua – para dizer o mínimo – de movimentos nacionalistas ucranianos com o regime nazista da Alemanha, e um conflito sangrento e frequentemente descrito como “inútil” com o regime soviético. No leste há também um fator étnico: o número de habitantes russos é muito grande, o que mexe com os brios dos movimentos nacionalistas. E é bom lembrar que na Europa, ao contrário da América Latina, nacionalismo é sempre coisa de direita.

Se este é o pano de fundo , deve-se levar em conta o que acontece nos bastidores e também no palco da política ucraniana. Nos bastidores pairam as sombras dos grupos econômicos – assim como na Rússia liderados pelos chamados “oligarcas” – que se formaram depois do desmanche da ex-União Soviética, dos processos de privatização de tudo, feitos a toque de caixa, e da independência. Estes grupos de oligarquias é que dão as cartas – o poder do dinheiro – para os que estão no palco, os políticos e seus partidos.
 
Entretanto na Ucrânia não houve, pelo menos até o momento, um Vladimir Putin que, na Rússia, digamos, “botou a casa em ordem”, oferecendo aos oligarcas a manutenção de suas fortunas recém feitas (sobretudo durante o governo de Boris Yeltsin) desde que não se metessem em política. Enfiando os principais desobedientes na cadeia ou mandando-os para o exílio – confortável, na verdade – Putin e seu neoczarismo disfarçado de república impuseram uma espécie de “pax romana” em seu território. Na Ucrânia não houve este Putin, mas uma guerra de grupos ora antangônicos, ora aliados, pelas benesses dos oligarcas e pelos espaços de poder, o que conduziu todos a uma política onde alianças ocasionais são apenas passos para uma ideal tomada total do poder, no melhor estilo do “para mim e os meus tudo, para os demais os rigores da lei”. Este foi o conflito que se estabeleceu entre o atualmente já ex-presidente  Viktor Yanukovitch e sua maior rival, Yulia Tymoschenko, que já fora primeira-ministra por duas vezes, líder do partido chamado de União de Toda a Ucrânia – Pátria Mãe, diríamos em português, embora em ucraniano seja “Pátria Pai”.

Yanukovitch, chegando à presidência em 2010, ensaiou e pôs em prática uma reforma consitucional para aumentar a concentração de poderes em torno da presidência, alijando os demais partidos – inclusive o do Tymoschenko – até mesmo das suas franjas. E através de denúncias de corrupção e de um julgamento carregado de suspeitas botou Yulia na cadeia. Aqui pode-se ter uma ideia das complicações da política ucraniana. Yanukovitch é visto em geral como próximo da Rússia e Tymoschenko como aliada da União Europeia. Pois o primeiro processo aberto contra ela acusava a ex-primeira ministra de abuso de poder e super-faturamento no contrato de fornecimento de gás para Gazprom, a principal empresa russa do setor e uma das maiores do mundo que, como a Petrobrás, reúne capitais privados mas tem seu controle acionário e de fundos nas mãos do Estado.

Entrementes, o pró-Rússia Yanukovitch se aproximava da União Europeia e aprestava-se a assinar um acordo de livre-comercio com ela. Nesta altura, Moscou acendeu a luz vermelha. Para se entender isto precisamos sair do teatro da política ucraniana e olhar o terreno em volta onde ele está localizado. Três grandes jogadores estão assentados neste terreno, como os bispos de um jogo de xadrez, mais um cavalo que joga com dois deles, contra o terceiro. Os jogadores são a Rússia, a União Europeia e os Estados Unidos, e o cavalo é a OTAN, a aliança militar que teve como principal inimiga a antiga União Soviética e que agora, além de policiar o norte da África  e áreas próximas, continua, nem que seja por força do hábito, a cercar seu adversário  histórico, atraindo para si os ex-satélites deste.

Os interesses dos Estados Unidos e da UE não são coincidentes na região, pois na atual conjuntura interna de Washington não interessa atiçar o confronto – a não ser na retórica – com a Rússia, devido às necessidades de acertos na Síria, no Irã, etc. Já a UE tem interesse em desembarcar seus avatares dentro do teatro ucraniano, ampliando sua área de influência econômica, seu mercado e suas ‘reformas de austeridade’. Outro fator que complica este movimento é o temor histórico dos EUA de que, mesmo com rivalidades marcantes, a proximidade entre Alemanha e Rússia termine por forjar  uma aliança estável  e poderosa que desenvolva um outro núcleo regional de poder. Na base de um movimento destes estaria novamente o gás russo, de que a Alemanha já depende e vai depender mais quando – e se – cumprir a promessa de desativar suas usinas nucleares.

De um modo ou de outro, o fato é que a Rússia colocou um sinal de “Pare!” nos movimentos de Yanukovitch: prometeu 15 bilhões de euros em empréstimos quase a fundo perdido – coisa que a UE, às voltas com suas próprias quebradeiras, não tem condições de oferecer à quebrada Ucrânia – baixou ainda mais o preço do gás e pôs à disposição um acordo de livre-comércio consigo mesma, mais outros países da região, ex-repúblicas, como a Ucrânia, da antiga URSS. Yanukovitch, que já estava com a caneta na mão e embarcando para Bruxelas, tampou aquela e desceu do avião. Junto aos projetos de novos capitalistas e da classe média do oeste ucraniano (onde o desemprego também é grande entre os jovens), que já sentiam o doce odor dos euros ao alcance da mão, este recuo foi a gota d’água.

Voltando ao cenário político, a gôta d’água acabou se transformando num mar de sangue. É verdade que as manifestações foram reprimidas duramente pela polícia. Mas rapidamente sua linha de frente e também seu espaço foram ocupados por movimentos de extrema-direita, nacionalistas xenófobos, antirrussos, anti-direitos humanos, anti-imigrantes, antissemitas, anti-etc., tradicionais na Ucrânia. São grupos de combate, armados, que fizeram frente a uma polícia que progressivamente foi se tornando caótica e desorganizada. Estes grupos são ligados, mas não necessariamente subordinados, ao Partido Svoboda, de extrema-direita, que tem representação no Parlamento. Na última semana os confrontos chegaram ao paroxismo.

Na frente de negociação assentaram-se à mesa três ministros de Relações da União Europeia (Alemanha, França e Polônia), Yanukovitch, três partidos de oposição e mais um representante da Rússia. Enquanto isto, na praça em frente, o conflito de agudizou, com armas de fogo de parte a parte, e franco-atiradores que provavelmente eram de ambos os lados, embora a polícia tivesse ainda maior poder de fogo. O resultado foi de centenas de feridos e muitas dezenas de mortos; as cifras destes últimos variavam entre cerca de 50 a mais de 70, com pelo menos 11 policiais. A certa altura o noticiário chegou a informar que 70 policiais tinham sido “sequestrados” pelos “manifestantes”.

Coloquei “manifestantes” agora, logo acima, entre aspas, porque houve um movimento constante por parte da mídia do Ocidente de idealizar o que ocorria na praça principal de Kiev, apresentando os acontecimentos como um confronto desproporcional entre a brutal repressão do governo e os “amantes da liberdade”.
 
Apesar desta cortina de fumaça, logo começaram a vazar as informações de que estes últimos eram na maioria e na verdadeira verdadeiras gangues neo-fascistas que não aceitavam nenhuma negociação nem nada , a não ser a queda de Yanukokovitch e o afastamento da arqui-inimiga Rússia.

Na mesa de negociação chegou-se a um acordo, envolvendo um recuo nas reformas constitucionais promovidas pelo presidente, eleições em dezembro deste ano e a formação de um governo provisório de coalizão. Mas na praça a força policial vinha recuando cada vez mais diante dos “manifestantes”, a tal ponto que estes ampliaram os espaço sob seu controle, chegando inclusive a tomar as entradas do palácio presidencial. Sentindo-se sem condições de segurança, Yanukovitch deixou a capital em direção ao nordeste do país.

Seguiu-se nesta altura um verdadeiro golpe de estado no novo estilo “legalizado” corrente em várias ocasiões neste século XXI (Honduras, Paraguai, Grécia, Itália...): o Parlamento declarou que Yanukovitch “abandonara o cargo” e destituiu-o da presidência, com vários ex-membros de seu partido bandeando-se para o lado da oposição, antecipando as eleições para maio e libertando Tymoschenko, que já declarou-se candidata.

Que acontecerá no futuro? É uma boa pergunta. Antes de conjeturar, um parêntese: e as Forças Armadas da Ucrânia? Trata-se mesmo de um parêntese. Depois da independência em relação à ex-União Soviética, as FFAA abriram mão do arsenal nuclear que estava acantonado em seu território, passando-o à nova Rússia emergente, e diminuiram seu contingente de quase 800 mil para pouco mais de 300 mil homens. Estão entre a cruz e a caldeirinha, realizando manobras tanto com a Rússia quanto com a OTAN, que já se declarou de braços abertos para receber este novo aliado quando ele quiser aderir. O namoro está no ar, e só não se concretizou por causa da vigilância do chá-de-pera Rússia. Até o momento, pelo menos, as FFAA ucranianas parecem estar olhando para o lado – pois nem mesmo a segurança do presidente foram capazes de garantir.

A este caldo complicado junta-se a ameaça do país rachar em dois (pelo menos): a Criméia já manifestou desejos de se separar do restante do país e pedir sua reintegração à Rússia. E no oeste também há manifestações de separatismo e aproximação com a UE, à revelia das outras regiões.

O que vai acontecer vai depender das mensagens que estarão neste momento sendo trocadas entre Moscou, Washington, Bruxelas, Berlim, Paris e em menor grau outras capitais europeias, como Londres e Varsóvia. Qual será o novo arranjo entre os partidos políticos ucranianos? É uma boa pergunta. Tymoschenko vai mesmo recuperar seu antigo espaço na oposição  que liderava, hoje ocupado por Vitali Klitschko, do Partido Democrático Aliança pela Reforma? O Svoboda vai aumentar seu poder de fogo? O que fará Yanukovitch? Os movimentos de trabalhadores, sobretudo no leste, ainda se mantinham a seu favor, embora no momento, com seu enfraquecimento,  isto não tenha significado muito no tabuleiro enxadrístico ucraniano. E o que farão os grupos neofascistas que mantém Kiev sob seu controle?

O que estes farão ainda não se sabe. Mas já se sabe o que estão fazendo. No domingo pela manhã (23), enquanto eu redigia estas notas, corria a notícia – em tom discreto, ao lado da retumbância triunfal dada ao discurso de Yulia Tymoschenko na praça da Independência – de que a Embaixada de Israel na Ucrânia emitira um comunicado pedindo que todos os judeus se abstivessem de sair às ruas de Kiev ou até mesmo deixassem a capital, se pudessem, diante dos ataques contra eles que vem se sucedendo e intensificando nas ruas, com espancamentos, perseguições e outras coisas deste tipo.

Como em velhos mas nada bons tempos, brinca-se com fogo por aqui.

(*) Publicado originalmente no Blog do Velho Mundo, na Rede Brasil Atual.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Jogos olímpicos de inverno na Rússia evidenciam violência homofóbica

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79407


Jogos olímpicos de inverno na Rússia evidenciam violência homofóbica

Adital
Os jogos olímpicos de inverno de Sochi na Rússia tiveram início no último dia 07 deste mês e, para além de evidenciar o momento esportivo, passaram a chamar a atenção do mundo pelo desrespeito do país sede à Carta Olímpica, que tem em um dos seus princípios o da não discriminação. A Rússia continua omissa em relação aos casos de discriminação conta grupos LGBT (Lésbicas, Gay, Bissexuais e Transexuais).
Segundo a ONG humans Rights Wacth, as autoridades russas devem agir mais incisivamente contra os graves abusos e crimes comentidos contra as pessoas e ativistas LGBT. A omissão do governo russo estaria alimentando cada vez mais a intolerância e violência. A ONG salienta que a Rússia agora é o centro das atenções mundiais não apenas por sediar os jogos olímpicos de inverno, mas pela atitude de intolerância, violência, desrespeito e omissão das autoridades a respeito de crimes contra os direitos humanos.
A pesquisadora da Humans Right Watch Tanya CooperLas afirma que as autoridades russas tem o poder de proteger os direitos das pessoas LGBT, mas, ao invés disso, estão ignoram sua responsabilidade. As vítimas de homofobia e crimes de ódio relatam que, desde o final de 2013, os crimes e intolerância tem se intensificado na Rússia.
A Humans Rights Watch ouviu vítimas oriundas das cidades de Moscou, São Petersburgo e Novosibirik, que relataram espancamentos, sequestros e abusos psicológicos provocados por pessoas que são contra os grupos LGBT. Muitas vítimas têm medo de ir à polícia para denunciar os crimes, pois temem futuras represálias e até a falta de empenho da polícia russa para elucidar os casos e punir os culpados.
A ONG destaca que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse, durante uma visita a uma das instalações olímpicas, em janeiro deste ano, que os homossexuais eram bem vindos a Sochi. No entanto, ele também pediu para que os homossexuais deixassem as crianças em paz. Na Rússia, há uma distorcida relação entre homossexualidade e pedofilia, além de leis repressivas e infundadas que incitam à violência homofóbica, informa a Humans Right Watch.
Para a Anistia Internacional, O Comitê Olímpico Internacional (COI) não deve ignorar as graves violações e desrespeito aos direitos humanos durante a realização dos Jogos Olímpicos de Sochi. A entidade reuniu mais de 330 mil assinaturas com o intuito de pedir ao presidente Putin para que as leis repressivas na Rússia sejam revogadas. Mesmo com essa iniciativa, o país tem se mostrado omisso e intolerante para com a reivindicação.
O secretário geral da Anistia frisa que as autoridades russas devem seguir os princípios que formam a base da Carta Olímpica, de respeitar o espírito de amizade, solidariedade e de jogo limpo. Além dos casos de homofobia, a Anistia Internacional destaca o caso de assédio e abusos contra os ambientalistas Igor Kharchenko e Evgeny Vitishko, que fazem parte de uma organização no norte do Cáucaso Watcher Ambiental em Krasnodar. Os ambientalistas foram presos e receberam tratamentos impróprios. A entidade defende que ambos são prisioneiros de consciência.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bilhões de pobres no mundo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/85-ricos-tem-dinheiro-igual-a-3-57-bilhoes-de-pobres-no-mundo/7/30114


28/01/2014 - Copyleft

85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bilhões de pobres no mundo

Essa é a conclusão do relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e desigualdade econômica, que a ONG Oxfam Intermón publicou em 19/01/14.


Luiz Flávio Gomes
Lucas Braga
Essa é a conclusão do relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e desigualdade econômica, que a ONG Oxfam Intermón publicou em 19/01/14. A desequilibrada concentração de renda nas mãos de poucos (típica do capitalismo retrógrado, exageradamente desigual) significa menos renda per capita para cada habitante e cada família do país. Mas isso não implica automaticamente mais violência (mais homicídios). Outros fatores devem ser considerados: escolaridade (sobretudo), emprego estável ou não, perspectiva de futuro, a racionalidade ou irracionalidade da política criminal adotada, religião, tradição, existência ou não do “tabu do sangue” (ninguém pode sangrar outra pessoa) etc.
 
O que sabemos? Que cruzando os dados objetivos do IDH (índice de desenvolvimento humano), Coeficiente Gini (distribuição da renda familiar), renda per capita e o número de homicídios temos uma tese: quanto mais elevado o IDH e menor o Gini menos desigualdade e menos violento é o país (e vice-versa: quanto mais baixo o IDH e mais alto o Gini, mais desigualdade e mais violência existe). Como regra geral essa premissa é bastante válida. As exceções confirmam a regra.
 
O que essa tese aconselha ao bom governo assim como às lúcidas classes burguesas dominantes? Que o incremento (a melhora substancial) dos fatores estruturadores do IDH (escolaridade, longevidade e renda per capita) e do Gini (distribuição da renda familiar) não pode ser desconsiderado como fator preventivo da violência. É de se chamar a atenção aqui, especialmente, para a educação. No lapso temporal de uma geração a Coréia do Sul se revolucionou completamente por meio da educação massiva de qualidade. Esse é o fator preventivo mais relevante de todos. Como já dizia Beccaria, em 1764: “Finalmente, o mais seguro, porém o mais difícil meio de evitar os delitos, é aperfeiçoar a educação” (Capítulo 45, do livro Dos delitos e das penas).
 
Os dez países de mais alto IDH do mundo são os menos violentos (1,8 homicídios para cada 100 mil) e ainda estão dentre os menos desiguais, com exceção dos EUA. Contam, ademais, com rendimento per capita muito alto e um excelente nível de alfabetização. O mais desigual neste grupo (EUA) é precisamente um dos mais violentos (conta com quase o triplo de homicídios da média dos 47 países de maior IDH, que é de 1,8 para cada 100 mil pessoas). Isso nos conduz a concluir que não devemos nunca considerar um único fator (IDH) para medir ou prognosticar a violência.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Jamal Juma: Primavera Árabe não ajudou Palestina. Situação é insustentável

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Jamal-Juma-Primavera-arabe-nao-ajudou-Palestina-Situacao-e-insustentavel/6/30098


26/01/2014 - Copyleft

Jamal Juma: Primavera Árabe não ajudou Palestina. Situação é insustentável

Em entrevista à Carta Maior, o ativista palestino Jamal Juma fala sobre a situação de seu povo e sobre a realidade política na região pós-Primavera Árabe.


Marco Aurélio Weissheimer
Marco Aurélio Weissheimer


Porto Alegre - A situação na Palestina está chegando a um ponto insustentável. O processo de negociação capitaneado pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry, não visa a oferecer uma solução de justiça e paz para os palestinos, mas sim dar a Israel a possibilidade de continuar a construir mais assentamentos. Desde a retomada das negociações, 42 palestinos foram mortos pelo exército israelense, quatro comunidades palestinas foram despejadas no Vale do Jordão e aumentou o processo de judaização de Jerusalém. A chamada Primavera Árabe, para o povo palestino, teve apenas o efeito de desviar a atenção de sua luta e diminuir a possibilidade de apoio de outros países árabes. A avaliação é de Jamal Juma, coordenador da Campanha Popular Palestina contra o Muro do Apartheid, Stop the Wall.

Jamal esteve em Porto Alegre na última semana participando do Fórum Social Temático 2014. Em entrevista à Carta Maior, ele fala sobre a situação de seu povo e sobre a mensagem que trouxe nesta visita ao Brasil: “Nós estamos aqui para trazer uma mensagem para nossos amigos da América Latina e, em particular, do Brasil, que é um grande país e tem uma longa história de luta contra o colonialismo e a opressão. Estamos pedindo ao Brasil e aos demais países da América Latina que cortem as relações econômicas e militares com Israel”.

Qual é a situação vivida pela Palestina neste momento? Qual a sua avaliação sobre a retomada do processo de negociações com Israel, capitaneado pelos Estados Unidos?

Jamal Juma: 2014 é um ano muito importante para a Palestina. Foi retomado um processo de negociação, mas essa negociação não visa chegar a uma solução com justiça, mas sim dar a Israel a possibilidade de continuar a construir mais assentamentos. Essas negociações não vão levar a nenhum lugar bom para os palestinos. Elas começaram em agosto (de 2013) e, de lá para cá, 9.500 novas unidades habitacionais começaram a ser construídas em assentamentos em diferentes áreas da Palestina. Isso significa que Israel prossegue sua política de colonização e de construção de fatos consumados para inviabilizar na prática a existência de um Estado palestino.

Desde a retomada das negociações, 42 palestinos foram mortos pelo exército israelense, quatro comunidades palestinas foram despejadas no Vale do Jordão. Neste período, também ocorreram ataques praticamente diários na zona da mesquita de Al Aqsa contra a comunidade muçulmana, criando uma situação muito explosiva em Jerusalém. Os colonos israelenses continuam atacando os palestinos em suas aldeias, fazendo incursões noturnas para queimar mesquitas e casas e para atacar pessoas nas ruas. A judaização de Jerusalém também prossegue, visando aniquilar qualquer sinal das culturas muçulmana e cristã e construir uma identidade unicamente judaica na cidade. Essa política se traduz, por exemplo, na mudança de nomes de rua ou na criação de colônias no centro de Jerusalém.

Ao mesmo tempo, como parte dessas negociações, os palestinos são proibidos de pedir reconhecimento como Estado membro junto à Organização das Nações Unidas e a outras organizações internacionais. Então, podemos esperar que essa retomada das negociações pode trazer paz para a Palestina? É claro que não. O que ocorre é uma forte pressão internacional para convencer os palestinos a se render e a aceitar a atual situação. É isso que Israel, os Estados Unidos e seus aliados querem.

Qual é a posição das forças políticas palestinas em relação a essas negociações?

Jamal Juma: Há um consenso entre todas as forças políticas e entre o povo palestino contra essas negociações. Nas ruas, percebe-se também uma raiva muito forte contra esse processo. Estamos aguentando esse processo para evitar que digam ao mundo que os palestinos são os responsáveis pelo fracasso das negociações. John Kerry tentou obter algumas concessões de Israel como o reconhecimento do Vale do Jordão como território palestino, a definição de um status compartilhado em Jerusalém ou algum outro reconhecimento dos direitos dos palestinos. Obviamente, não conseguiu nada disso. Neste momento, Kerry trabalha somente para conseguir um marco geral para continuar as negociações pela eternidade afora.

O secretário de Estado dos EUA está fazendo isso somente para não ter que admitir um fracasso completo, mas ninguém vai dar ele o mandato para prosseguir essas negociações indefinidamente. Então, em abril, quando terminar o período de nove meses de negociação, a situação tende a se deteriorar. Ou a Autoridade Palestina aceita as condições impostas, o que seria um suicídio político, ou parte para criar um consenso entre as forças políticas palestinas e abrir uma batalha legal contra Israel usando as leis e o direito internacional em todos os organismos internacionais, inclusive o Tribunal Penal Internacional, buscando conseguir o isolamento de Israel como um poder colonial e de apartheid.

Como está o movimento internacional de boicote a Israel? Parece que ele conseguiu ampliar sua força, principalmente em alguns países europeus.

Jamal Juma: Sim. Na Europa, diversos governos começaram a fazer pressão sobre suas empresas para que não invistam nos assentamentos israelenses localizados em territórios ocupados. É muito importante que no Brasil e na América Latina também se adotem essas diretrizes para cortar relações com empresas e instituições israelenses em vários níveis. Para citar um exemplo de relações comerciais, temos o caso da Mekorot, empresa de águas israelense que rouba água dos palestinos e a revende aos próprios palestinos pelo dobro do preço, e que está expandindo muito fortemente seus negócios na América Latina, em cidades como Buenos Aires e São Paulo, entre outras.

Nós estamos aqui para trazer uma mensagem para nossos amigos da América Latina e, em particular, do Brasil, que é um grande país e tem uma longa história de luta contra o colonialismo e a opressão. Estamos pedindo ao Brasil e aos demais países da América Latina que cortem as relações econômicas e militares com Israel. Até porque, historicamente, Israel apoiou as ditaduras nesta região e foi cúmplice das violações de direitos humanos. Queremos discutir esse tema. Não é possível que o Brasil seja o segundo maior importador de armas israelenses. É preciso revisar os acordos militares e econômicos firmados com Israel.

Como os recentes acontecimentos políticos em países como Egito e Síria estão afetando a luta dos palestinos? A chamada Primavera Árabe trouxe efeitos positivos ou negativos para a causa palestina?

Jamal Juma: O impacto que houve foi ter retirado atenção da luta palestina e desviar a atenção dos países da região para o que está acontecendo na Síria e no Egito. Como consequência disso também a possibilidade de ter mais apoio no mundo árabe ficou menor neste momento. Neste sentido o impacto foi negativo. A situação nestes países é muito incerta. Mas creio que temos todas as condições para a chegada de uma primavera palestina. A situação atual é insustentável. É uma situação de contínua humilhação e ocupação. Aceitar a negociação nos termos em que estão sendo colocados significa render-se a uma situação de apartheid e de escravidão.

Qual é a situação econômica do povo palestino hoje? Como são as condições de trabalho? Qual o cotidiano econômico?

Jamal Juma: Em realidade, não se pode sequer falar de uma economia palestina, pois ela se resume hoje praticamente às doações que chegam de fora. Uma vez que se corte essas doações não há mais economia palestina. Há algumas fábricas, mas a maior parte de quem está empregado depende diretamente dessas doações internacionais. Nossos recursos naturais, nossa terra e nossa água estão sob controle israelense. Nossas fronteiras estão sob controle israelense. Para exportarmos algo precisamos passar pelo controle israelense. Não há como construir uma economia sob tais condições de ocupação e controle.
Créditos da foto: Marco Aurélio Weissheimer