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sábado, 28 de novembro de 2015

Atentado de Paris: 13 perguntas e 24 reflexões

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Atentado de Paris: 13 perguntas e 24 reflexões

Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente.


Nazanín Armanian*
UNRWA 30/01/2014
“A verdade é a primeira vítima de toda guerra”

1. Quais são as mentiras dos atentados do dia 13 de novembro, em Paris para que o presidente Hollande utilize a palavra “guerra” no combate contra o terrorismo? Pois uma “guerra” – investida militar – se declara entre Estados, e não de um país contra um grupo terrorista com sede e presença em mais de vinte países, inclusive na França.

2. Que garantia há de que as notícias que nos transmitem reflitam a verdade? Robert Menard, fundador da organização Repórteres Sem Fronteiras e prefeito de Bèziers, por exemplo, é um ultradireitista que encabeça a campanha de expulsão dos refugiados sírios.

3. Por que as imagens (falsas ou verdadeiras) dos bombardeios russos na Síria mostram vítimas civis, enquanto nas correspondentes aos ataques da coalizão ocidental só se possam ver pontinhos negros no deserto, quando a cidade de Al Raqa, agredida e cercada militarmente, milhares de pessoas que não puderam fugir da guerra vivem sem eletricidade? Estão aplicando o ilegal castigo colectivo?

4. Bashar al-Assad teria direito de bombardear França, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, entre outros, caso dissesse que há células terroristas que viajam ao seu país para criar distúrbios?

5. Não foi o próprio Estado Islâmico (EI) o alvo de cerca de 200 bombardeios franceses, entre setembro e novembro de 2014? O que mais pretendem fazer?

6. Como é possível que os Estados Unidos e seus sócios, em poucos dias, destruissem o exército líbio, mas não puderam com alguns poucos terroristas carentes de armamento pesado?

7. A Turquia tem o direito de organizar milhares de homens armados para desmontar outro Estado-membro da ONU, sem a autorização da OTAN (Pentágono)? Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes, que abrigassem bases militares estadunidenses, podem fazer o mesmo? É como se a Espanha treinasse 30 mil terroristas nas fronteiras com o Marrocos ou a França para derrubar o seu governo, fornecendo bombas, mísseis e apoio logístico, sem prévia permissão de Bruxelas e Washington?

8. Segundo alguns analistas ocidentais, a expansão do jihadismo é uma das consequências das guerras contra o Iraque e o Afeganistão. Acaso pretenderão alimentar uma maior expansão deste fenômeno, que tem sido um ninho para os militaristas do Ocidente e do Oriente?

9. O que querem nos dizer é que a “inteligência” ocidental, com tantos artefatos ultrassofisticados, é menos inteligente que um grupo de garotos aventureiros?

10. Sobre a piada dos “documentos de identidade” que não se queimam e que teriam sido deixados pelos terroristas antes de explodirem seus próprios corpos, cabe a pergunta: como dois dos suicidas se mataram nas ruas vazias do lado de fora do Estádio de Saint-Denis e não no meio da aglomeração dos torcedores que saiam do campo?

11. Como é possível que as grandes potências tenham alcançado cessar fogo na Síria com os terroristas do Estado Islâmico? Alguém tem contato direto com eles? Por que não o fizeram durante os quatro anos anteriores? Utilizar esse argumento justifica a ação de desmantelar o Estado sírio?

12. Que grupo assassino é considerado “terrorista” para o Ocidente? Os Talibãs, coautores dos atentados do dia 11 de setembro de 2001, o são?

13. Qual o interesse da OTAN ao destruir os Estados não religiosos como Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, respaldando os islamistas, para logo viver com eles numa espécie de “coexistência pacífica”? O terrorismo islâmico é uma cortina de fumaça?

Objetivos e consequências do atentado

1. Empurrar a Europa a uma mega intervenção na Síria, capaz de derrubar Assad, e desatar a “crise de refugiados” na Europa.

2. Desmontar o “Plano Putin-Obama” de manter Assad no poder durante a transição política, ao qual Arábia Saudita, Qatar e Turquia se opõem. O diário republicano New York Post chegou a pedir que Obama renunciasse ou atuasse contra Assad. Mais atentados no Ocidente abrirão o caminho para os novos “Bushs” na Casa Branca.

3. Mudar o balanço militar nesta fase quase final do conflito a benefício da OTAN, justamente quando Rússia e Irã foram transformados em protagonistas absolutos do cenário. O atentado contra o avião russo também se encaixaria nesse contexto. Se trata nada menos que da conquista da Eurásia por parte das potências mundiais.

4. Tomar uma região desocupada pelos Estados Unidos, agora que Obama leva as suas tropas a cercar a China. Um traje grande demais para a França, que carece de recursos para fazer esse papel.

5. Segundo o “Instituto para a Paz e a Prosperidade” e a Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, a aviação da coalizão Anti-EI, liderada pelo Pentágono, bombardeia as posições dos curdos da Síria, e não as dos jihadistas, e afirma que  “o apoio aos rebeldes sírios significa financiar grupos terroristas com o dinheiro dos contribuintes”. Esta é uma das 23 verdades incômodas sobre o Estado Islâmico.

6. Abrir caminho para a conquista militar da Síria, que de outra forma seria impossível. Hillary Clinton confessou ao diário The Atlantic, no dia 1 de agosto de 2014, que a intervenção dos Estados Unidos na Síria foi desenhada para “mudar a equação” em favor dos rebeldes: de alguma forma, os jihadistas vem atuando como tropas terrestres da Coalizão para fazer da Síria um Estado falido.

7. Justificar os bombardeios ilegais do Ocidente contra a Síria, já aprovados pelo próprio Conselho de Segurança, o mesmo que rejeitou a petição de atacar o país em julho de 2012.

8. Reconstruir a coesão político-militar da OTAN no Pentágono, impedindo que os europeus pragmáticos retomassem suas relações de cooperação com a Rússia.

9. Reforçar as bases militares da OTAN na Turquia (e na Espanha). Nas últimas eleições, os atentados atribuídos aos jihadistas deram a maioria absoluta aos islamistas de Tayyab Erdogan – outro dos patrocinadores do terrorismo religioso: a OTAN para atuar na Síria, necessita uma Turquia estável, onde pode dirigir as operações de conquista de Damasco.

10. Mostrar a eficacia da tática de Obama, de transformar a Síria num pântano onde pode desgastar os inimigos e rivais dos Estados Unidos e de Israel.

11. A ameaça terrorista contribuirá para que mais cortes sociais e mais pobreza não sejam contestados: as novas leis “Patriot” e o aumento das mordaças aos críticos se propagarão: todos os cidadãos, exceto os governantes, serão suspeitos de terrorismo.

12. Multiplicar os lucros das empresas armamentistas: as estadunidenses Honeywell e General Dynamics, a francesa Thales e as britânicas Bae Systems e Rolls Royce estão faturando alto.

13. A França deixa de ser uma bárbara potência colonial, e passa a ser uma vítima de bárbaros procedentes da região que um dia ela avassalou. Agora, além disso, pode pedir sua parte da Síria como prêmio, o que está sendo dividido entre os sócios do G20.

14. Atacar a solidariedade dos europeus com os refugiados e vinculá-los com o terrorismo, dentro da miserável tática do “dividir para vencer”. Para a maioria dos muçulmanos do mundo –principais vítimas do jihadismo –, o Islã é uma espiritualidade privada e não uma doutrina política.

15. Legitimar as boas relações das potências mundiais com os regimes autoritários e obscurantistas de Oriente Próximo e Norte de África (OPNA), apresentando a eles como “moderados” em comparação com os impiedosos jihadistas. A notícia é que Ali al Nimr, cidadão da monarquia “moderada” da Arábia Saudita e ativista de 21 anos, depois de três anos vivendo sob torturas, foi condenado à morte por decapitação e crucificação em público. Logo depois, a ONU apontou Riad como referência mundial da defesa dos direitos humanos.

16. Presentar a Coalizão Árabe da Síria – a nova cria da OTAN – como alternativa ao governo de Assad.

17. Impedir novas marchas contra os cortes de gastos sociais e contra o TTIP (sigla em inglês do Tratado Transatlântico de Investimentos), que partiram de várias cidades (Berlim, Madri, Londres, entre outras) rumo a Bruxelas. Conectar os atentados de Paris com a Bélgica e declarar Estado de emergência na sede da Comissão Europeia, o que motivará a suspensão de novas marchas contra a hegemonia das multinacionais e atentando contra os direitos dos trabalhadores.

18. Enviar mais efetivos militares ao Mali, aproveitando o atentado num hotel naquele estratégico país. França já conta com 3 mil soldados no Sahel, disputando suas grandes reservas de urânio (que abastecem meia centena das suas centrais nucleares), ouro e outros minerais com a China.

E a nível interno:

19. Resgatar François Hollande, que chegou a ser considerado “o pior presidente da história da França”. Agora, pode sonhar com uma possível reeleição em 2017.

20. Forçar o crescimento das forças fascistas. Assim, a esquerda poderia até mesmo votar em Nicolas Sarkozy, o NeoCon europeu, nas próximas eleições  presidenciais. É a mesma jogada desenhada em maio de 2002.

21. Fazer com que os cidadãos franceses renunciem voluntariamente aos seus direitos políticos. Já foram tirados os direitos econômicos e sociais, e agora vão fazer o mesmo com os direitos políticos. Mas que diferença real existe entre o ataque de um estrangeiro (ou o cometido por um compatriota) e as conquistas de um povo?

22. Impulsionar a “unidade nacional” burguesa, baseada no medo, contra os mais pobres, representados pelos refugiados da guerra na Síria, os imigrantes e a classe trabalhadora própria. É como a estranha relação entre um preso e seu carcereiro. Na verdade, se trata de ódio aos pobres, disfarçado de ódio ao islã. Basta ver a magnífica relação entre os líderes do imperialismo com os sheiks do Golfo Pérsico.

23. A França é um dos países que há 30 anos vem enviando homens e mulheres de religião “cristã”, sem visto e armados até os dentes, aos países do OPNA. Soldados “civilizados”, que mataram cerca de um milhão e meio de pessoas, ferindo umas 20 milhões, obrigando a fugir dos seus lares a outras 30 milhões, ocupando suas terras e levando suas fortunas pessoais e nacionais. E ainda assim, eles não são “cristianófobos”.

24. Fechar as fronteiras da Europa. Imaginem a felicidade sentida agora pelo presidente búlgaro Boyko Borisov! Afinal, seu colega Hollande, defensor da “fraternité”, apoiado pelos cidadãos do seu país, respalda as políticas anti imigratórias da ultradireita.

Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo. Ainda que o Estado Islâmico despareça (o que não acontecerá), a guerra na Síria continuará: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente, e têm catastróficos planos para esta região.

* Nazanín Armanian é iraniana, residente em Barcelona desde 1983, quando se exilou no país. Licenciada em Ciências Políticas, dá aulas em cursos online da Universidade de Barcelona. Também é colunista de Público.es.

Tradução: Victor Farinelli

domingo, 14 de junho de 2015

Grécia: encurralada pelos países ricos

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Grecia-encurralada-pelos-paises-ricos/6/33717


Grécia: encurralada pelos países ricos

A Grécia se coloca o verdadeiro adversário do 'status quo'. O objetivo ao combatero Syriza é demostrar que a esquerda não pode dirigir um país europeu.


Roberto Savio
Theophilos Papadopoulos /  Flickr
ROMA, junho (IPS) – Cinquenta anos de Guerra Fria e o fato de que Angela Merkel cresceu onde então era a Alemanha Oriental poderiam explicar, possivelmente, a curiosa influência política que os Estados Unidos exerce sobre a Europa.
 
Uma reunião bilateral entre Merkel e o presidente estadunidense Barack Obama, durante a cúpula do grupo dos sete países mais ricos do planeta (G-7) – na cidade alemã de Elmau, nos dias 7 e 8 deste mês –, terminou com um acordo para solucionar os problemas de ambos os países.
 
A mandatária germânica aceitou que a União Europeia (UE) continue aplicando sanções à Rússia, o que induziu os demais países a seguir sua decisão. Por sua parte, Obama modificou a posição de Washington a respeito da ajuda econômica à Grécia.
 
Essa postura foi claramente expressada aos líderes europeus alguns dias antes, pelo secretário do tesouro estadunidense, Jack Lew, que defendeu a necessidade de o problema grego para evitar um impacto global que não se deve permitir.
 
Essa posição acelerou repentinamente as negociações, com a esperança de que tudo se resolveria antes da cúpula do G-7.
 
Mas a Grécia não aceitou o plano que foi apresentado pelo presidente da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, porque era suspeitosamente semelhante à postura do Fundo Monetário Internacional (FMI), a favor de mais cortes de gastos sociais e mais austeridade.
 
Na cúpula, Obama endureceu essa posição dos Estados Unidos a respeito da Grécia, ao dizer, de forma imperativa, que “Atenas deve executar as reformas necessárias”.
 
A queda de braço entre a Grécia e seus sócios europeus já dura cinco anos.
 
A crise grega foi produzida pelos gastos excessivos dos que precederam o atual governo de Alexis Tsipras, que levaram a um aumento em grande escala do emprego público e a um sistema de previdência extremadamente oneroso.
 
Em 2009, o Movimento Socialista Pan-helênico (Pasok) ganhou as eleições e foi revelado que as cifras econômicas que Atenas enviava a Bruxelas eram falsas.
 
O deficit anual real era várias vezes superior ao declarado, de quase 12,5% do produto interno bruto (PIB). Foi a confirmação do que a UE e seus organismos suspeitavam há muito tempo, apesar de que nada havia sido feito ainda.
 
Sem entrar em detalhes sobre as angustiantes negociações anteriores entre a Grécia e a UE, se chega às eleições de janeiro deste ano, com a vitória do Syriza, o partido progressista de Tsipras.
 
Seu programa era claro: rechaçar o plano de austeridade imposto pela Troica, o FMI, a UE e o Banco Central Europeu – iniciativa impulsada por Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia.
 
A Grécia está de joelhos. Oficialmente, o desemprego saltou de 11,9% em 2010 para 25,5% na atualidade, mas alguns concordam que, na realidade, esse número já deve estar próximo dos 30%.
 
Entre os jovens, a ociosidade chega a alcançar os 60%. O PIB caiu 25%, os cidadãos gregos perderam ao redor de 30% de sua renda média e o gasto público foi reduzido de tal forma que os hospitais têm grandes dificuldades para funcionar minimamente.
 
Contudo, a exigência da Troica é simples: cortem e sigam cortando até a eliminação do deficit.
 
Por exemplo, a previdência sofreu cortes importante, e já foi solicitada uma nova redução. Com isso, foi possível economizar apenas 100 milhões de euros, e causar um prejuízo enorme aos aposentados e pensionistas que vivem com 685 euros por mês – alguns com até menos que isso.
 
Quando Juncker assumiu a presidência da Comissão Europeia (o órgão executivo da UE), anunciou um grandioso Plano Marshall para o continente. Após sua proclamação, porém, o projeto desapareceu completamente.
 
A austeridade é a brecha que divide as opções dos Estados Unidos e da União Europeia.
 
Os norte-americanos escolheram o caminho do investimento para o crescimento – apesar da pressão do opositor Partido Republicano a favor da austeridade –, e a economia está crescendo de novo.
 
Mas na Europa liderada pela Alemanha, se impôs a tese – com a insistência dos próprios alemães – de que o exemplo germânico é universalmente válido.
 
Existe um consenso generalizado de que a crise da Grécia, que representa somente 2% do PIB da UE, poderia ter sido solucionada logo no começo, com um empréstimo de algo entre 50 e 60 bilhões de euros (56 e 68 bilhões de dólares).
 
Mas desde que Tsipras se tornou primeiro-ministro, e graças ao apoio popular da vitória eleitoral, o governo grego começou a se negar a implantar o plano dos credores e a Grécia se transformou num tema de grande importância.
 
Agora se fala num possível “Grexit”, a saída da Grécia da Zona Euro e da União Europeia. Algo que poderia gerar um efeito dominó, e significaria o fim do sonho de uma Europa baseada na solidariedade e no sentido de comunidade.
 
No G-7, Obama insistiu nos investimentos e no estímulo à demanda como uma forma de sair da crise. Merkel reiterou uma vez mais que a Europa não necessita de estímulos financiados pelo endividamento, mas sim de incentivos procedentes da reforma das economias ineficientes.
 
Este espetáculo me faz lembrar de uma frase do famoso jornalista cingalês Tarzie Vittachi: “tudo sempre é sobre outra coisa”.
 
É interessante observar que uma das razões citadas para justificar a para postura dura contra o Syriza é que os cidadãos da Espanha, de Portugal e da Irlanda, os primeiros que tragaram a amarga pílula da austeridade, se indignariam se a Grécia pudesse optar por um caminho diferente. Casualmente, esses três países possuem governos conservadores.
 
Todo o sistema político europeu se estremeceu quando Syriza ganhou as eleições, e voltou a se sacudir dias atrás, quando as eleições regionais espanholas terminaram com uma vitória do Podemos, o partido de nova esquerda, contrário à austeridade.
 
Por alguma razão, o governo húngaro de Viktor Orbán, extremamente autoritário e conservador, a recente vitória do também muito conservador Andrzej Duda na Polônia, assim como o crescimento de Matteo Salvini na Itália, mesmo sendo parte da xenófoba e antieuropeísta Liga Norte, não criam nenhum pânico.
 
No panorama atual, a Grécia se coloca o verdadeiro adversário do “status quo”. O objetivo ao combater Tsipras e o Syriza é castigar uma figura antissistema e demostrar que a esquerda radical não pode dirigir um país europeu.
 
Porém, alguém realmente acredita que as massas de cidadãos em Madrid, Lisboa ou Dublín iriam às ruas para protestar se a Europa fizesse um salto mortal de solidariedade e idealismo, e decidisse atenuar suas draconianas exigências à Grécia?
 
* Jornalista ítalo-argentino. Cofundador e ex-diretor-geral de Inter Press Service (IPS). Nos últimos anos, também fundou Other News, um serviço que proporciona “informação que os mercados eliminam”. Other News – em espanhol: http://www.other-news.info/noticias/ em inglês: http://www.other-net.info/


Créditos da foto: Theophilos Papadopoulos / Flickr

sábado, 13 de junho de 2015

Stiglitz: a Europa brinca à beira do abismo

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Stiglitz-a-Europa-brinca-a-beira-do-abismo/6/33708


Stiglitz: a Europa brinca à beira do abismo

Exigências absurdas à Grécia revelam governantes incapazes tanto de agir solidariamente quanto de compreender riscos de sua ambição e cegueira.


Joseph Stiglitz, prêmio nobel de Economia
outraspalavras.net
Atenas atendeu a bem mais da metade das demandas de seus credores. Mas os governos da Alemanha e de outros países continuam a exigir que Atenas assine um programa que comprovadamente fracassou, e que poucos economistas acreditam que poderia, deveria ou seria implementado.

A mudança na situação fiscal da Grécia, de um grande déficit primário para um superávit, foi quase inédita, mas a exigência de que o país obtivesse o superávit primário de 4,5% do PIB foi insana. Infelizmente, no momento em que a “troika” – Comissão Europeia, Banco Central Europeu-BCE e Fundo Monetário Internacional – incluíram esta reivindicação irresponsável no programa de financiamento internacional para a Grécia, as autoridades do país não tinham escolha, exceto aceitá-la.

A loucura de continuar perseguindo este programa é particularmente aguda agora, depois que o PIB da Grécia declinou 25% desde o início da crise. A troika avaliou muito mal os efeitos macroeconômicos do programa que impôs. Segundo suas previsões oficiais, acreditavam que, após a redução de salários e outras medidas de austeridade, as exportações gregas cresceriam e o país logo retomaria o crescimento. Também supunham que a primeira reestruturação dos débitos levaria a uma dívida sustentávavel.

As previsões da troika fracassaram repetidamente. E não por pouco, mas por uma margem enorme. Os eleitores gregos estavam certos quando exigiram uma mudança de trajetória, e seu governo está certo quando se recusa a assinar um programa profundamente falho.

Isso dito, é importante lembrar que há espaço para um acordo. A Grécia deixou clara sua vontade de realizar reformas e saudou o possível apoio da Europa na implementação de algumas delas. Uma dose de realismo por parte dos credores – sobre o que é alcançável e sobre as consequências macroeconômicas de diferentes tipos de reforma fiscal e estrutural – poderia criar as bases para um acordo bom não apenas para a Grécia, mas para toda a Europa.

Mas na Europa, e especialmente na Alemanha, alguns parecem indiferentes quanto a uma possível saída da Grécia da zona do euro. O mercado, dizem eles, “já precificou” tal ruptura. Alguns até sugerem que ela seria útil à união monetária.

Estou convencido que tais pontos de vista subestimam gravemente os riscos envolvidos – tanto presentes, quanto futuros. Um grau similar de alienação era evidente nos Estados Unidos, antes do colapso do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. A fragilidade dos bancos norte-americanos era conhecida há muito – ao menos desde a quebra do Bear Stearns, meses antes. Mas, dada a falta de transparência (devida em parte à frágil regulação), tanto os mercados quanto os políticos não enxergaram completamente os laços e o risco de contágio entre as instituições financeiras.

Ocorre que o sistema financeiro mundial ainda sofre os choques derivados do colapso do Lehman. Os bancos permanecem opacos, e portanto sob risco. Não sabemos a extensão real dos vínculos entre as instituições financeiras, inclusive aquelas mergulhadas em derivativos e operações de troca de dívida vencida não transparentes.

Na Europa, já é possível ver algumas das consequências da regulação inadequada e do desenho torto da própria zona do euro. Sabemos que a estrutura da eurozona encoraja a divergência, não a convergência: quando o capital e pessoas talentosas deixam as economias atingidas por crises, estes países tornam-se menos capazes de pagar suas dívidas. Quando os mercados percebem que uma espiral descendente viciosa está estruturalmente associada ao euro, as consequências da próximacrise tornam-se profundas. E outra crise é inevitável: isso está na própria natureza do capitalismo.

O truque de confiança do presidente do BCE, Mario Draghi – na forma de sua declaração de 2012, segundo a qual as autoridades monetárias farão “o que fosse necessário” para preservar o euro – funcionou até agora. Mas a percepção de que preservar a eurozona nãoé um compromisso pétreo, entre seus membros, tornará este truque muito mais frágil, da próxima vez. Os juros impostos aos títulos dos países devedores poderiam disparar, e nenhuma declaração de conforto do BCE ou dos líderes europeus seria suficiente para baixá-los de níveis estratosféricos, porque o mundo agora saberia que tais autoridades não farão “o que for necessário”. O exemplo grego teria demonstrado que elas farão o que os cálculos de curto prazo da política eleitoral demandarem…

Temo que a consequência mais importante seja o enfraquecimento da solidariedade europeia. Esperava-se que o euro pudesse fortalecê-la. Ele provocou o efeito oposto.

Não é de interesse da Europa – ou do mundo – afastar um país periférico europeu de seus vizinhos, especialmente agora, quando a instabilidade política é tão evidente. O Oriente Médio está em chamas. O Ocidente tenta conter a Rússia. A China, já hoje a maior fonte mundial de poupança, o país com maior comercio externo e a maior economia (se levado em conta o poder de compra das moedas) confronta o Ocidente com novas realidades econômicas e estratégicas. Não é hora de uma Desunião Europeia.

Os líderes europeus viam a si mesmos como visionários, quando criaram o euro. Pensavam enxergar além das demandas de curto prazo que normalmente ocupam os líderes políticos.

Infelizmente, sua compreensão sobre Economia foi menor que sua ambição; e a política daquele momento não permitiu criar uma estrutura institucional que tivesse permitido ao euro funcionar como se esperava. Embora se acreditasse que a moeda única traria prosperidade inédita, é difícil detectar um efeito positivo para a zona do euro como um todo, no período anterior à crise. Quando ela sobreveio, os efeitos adversos foram enormes.

O futuro da Europa e do euro depende agora de uma pergunta. Seus governantes serão capazes de combinar algum entendimento de Economia com sentido visionário e preocupação com a solidariedade europeia? Provavelmente, começaremos a descobrir a resposta desta questão existencial nas próximas semanas.
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A tradução é de Antonio Martins, do OutrasPalavras.net. Contribua aqui com o OutrasPalavras.


Créditos da foto: outraspalavras.net



domingo, 10 de maio de 2015

Jornalistas francesas vítimas de machismo

carta
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Jornalistas-francesas-vitimas-de-machismo/5/33455


Jornalistas francesas vítimas de machismo

Jornalistas publicaram um manifesto onde relataram casos de políticos machistas, que fazem desde piadas e elogios a convites e insinuações.


Leneide Duarte-Plon, de Paris
MacPepper / Flickr
A denúncia de 40 jornalistas francesas em forma de manifesto revela que mesmo numa democracia madura e altamente politizada as mulheres têm que se proteger do assédio dos homens que vivem no universo da política.
 
Na terça-feira, 5 de maio, 40 jornalistas que cobrem política publicaram no jornal Libération o manifesto intitulado « Bas les pattes » (Tirem as mãos) no qual relataram casos de um machismo anacrônico que vai de piadas e elogios a convites e insinuações. As jornalistas mais jovens ou que exercem a profissão em caráter precário não tiveram coragem de assinar o próprio nome. Mas as mais experientes não somente assinaram como deram longas entrevistas em programas políticos de rádio e TV a fim de denunciar « o machismo de que são vítimas no exercício da profissão ».
 
Elas cobrem o mundo político numa das cidades mais civilizadas da Europa mas vivem no quotidiano o machismo ordinário, que no imaginário coletivo é característico dos países latino-americanos. No convívio com « eleitos do povo », ministros ou seus assessores, as jornalistas vivem situações que envergonhariam os eleitores de muitos deles.
 
Uma « informação » em troca de um « aperitivo », observações quanto a um decote que insinua apenas um colo ou elogios à elegância ou às belas pernas de moças que cobrem os trabalhos parlamentares são constrangimentos a que se viam expostas diversas profissionais. Até descobrir em conversas entre colegas que era um comportamento recorrente. Reunidas, resolveram dizer « basta ». Libération fez uma manchete de primeira página sem fotos, com o peso no título e no inusitado da denúncia do manifesto.
 
« Pensávamos que o caso Dominique Strauss-Kahn tinha ocasionado mudanças e que as atitudes machistas, símbolo de um atraso na cidadania e na política estavam em vias de extinção. Nada disso », diz o texto.
 
Quanto ao nome de políticos que ultrapassam a linha vermelha, as jornalistas preferiram calar. Queriam denunciar práticas inaceitáveis e não as pessoas que as praticam, estigmatizando-as. Das 40 jornalistas que se dizem vítimas de machismo, somente 16 assinaram seus nomes e o nome da mídia para a qual trabalham. As outras se recusaram a assinar para não ser prejudicadas nas próprias redações, o que mostra que a luta antimachismo não é uma unanimidade.
 
Histórias de amor entre políticos e jornalistas
 
Os excessos e os constrangimentos devem diminuir com a denúncia da prática de assédio. Mas histórias de amor entre políticos e jornalistas vão sempre existir. O próprio Dominique Strauss-Kahn foi casado muitos anos com a jornalista Anne Sinclair até o fatídico acontecimento do Sofitel de Nova York, em 2011. François Hollande separou-se de Ségolène Royal - com quem nunca foi casado - depois de conhecer Valérie Trierweiler, jornalista de Paris Match. A relação durou até o ano passado, quando a França e o mundo descobriram estupefatos que por baixo da aparente falta de atrativos físicos de Hollande se esconde um don Juan.  
 
A sociedade francesa percorreu um longo caminho para chegar ao século XXI com garantias de direitos e liberdades iguais para os dois sexos. Apesar disso, na Câmara dos Deputados (Assemblée Legislative), apenas 27% dos eleitos são mulheres. Não é ainda o ideal mas é um grande progresso quando se sabe que até 1944 as mulheres francesas não podiam sequer votar, muito menos eleger outras mulheres para a Câmara ou o Senado. Mas falta ainda eleger uma mulher para a presidência da República, como o Brasil, o Chile ou a Argentina já fizeram.
 
Parece difícil de conceber hoje, mas até 1965 as francesas não podiam ter uma conta bancária. E mais, não podiam exercer uma atividade profissional sem o consentimento do marido.
 
Maio de 68 serviu para sacudir o conservadorismo da França em diversos campos. Graças ao movimento feminista que preconizava « mon corps m’appartient », em 1975 as francesas se tornaram totalmente donas de seus corpos : a lei Simone Veil, ministra da Saúde, garantiu às mulheres o direito de decidir se querem ou não levar a termo uma gravidez. As que não podem ou não querem ter um filho têm a total liberdade de fazer um IVG (Interrupção voluntária da gravidez) em total segurança e gratuitamente em qualquer hospital público. Foi a primeira coisa que me perguntaram no Hospital Rothschild quando, recém-chegada a Paris no ano da implantação da lei Veil, o médico confirmou minha gravidez. Se tivesse optado por fazer o IVG, o próprio hospital marcaria os exames e o dia.
 
O Brasil já elegeu uma presidente. Resta saber quando as brasileiras vão poder realizar um aborto sem infringir a lei ou, pior, colocar a vida em risco.

sexta-feira, 6 de março de 2015

E se Outro Dinheiro for possível?

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http://outraspalavras.net/destaques/e-se-outro-dinheiro-for-possivel/

E se Outro Dinheiro for possível?

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151024-Dinheiro2
Tentativa de sufocar financeiramente a Grécia demonstra: não será possível mudar o mundo sem criar novas relações com moeda e crédito
Por George Monbiot | Tradução: Antonio Martins
Compare as exigências feitas ao governo grego com as facilidades oferecidas aos bancos que provocaram a crise financeira de 2008. Os ministros da zona do euro insistem na rendição incondicional de Atenas: uma humilhação nacional que zomba da democracia. Mas quando os bancos foram socorridos, os governos inventaram o dinheiro necessário quase sem exigir condição alguma. Pediram timidamente algumas poucas reformas; e fingiram que não viram, quando os banqueiros as desrespeitaram.
O governo alemão, que agora dedica-se a infernizar a vida no sul da Europa, apenas arranhou seus próprios bancos. Como relatou o New York Times, embora o corrupoto sistema bancário alemão “necessitasse de um resgate maior que o destinado aos bancos norte-americanos”, “houve pouco apetite para mudanças, porque o sistema bancário está imbricado demais com a política, servindo como fonte permanente de patrocínio e financiamento para projetos locais”.
Os gregos estão certos, quando reclamam que foram reduzidos a súditos coloniais, mas os senhores não são os governos no Norte da eurozona. São os bancos privados. Os governos que parecem determinados a destruir um Estado soberano por sua ousadia são apenas intermediários do poder.
Nada disso procura negar a corrupção e promiscuidade fiscal dos governos gregos anteriores. Mas enquanto os bancos escaparam, tendo praticado atos muito piores, os valentões da eurozona insistem em extrair até a última gota de sangue dos povos que não foram responsáveis pela irresponsabilidade de seus governos.
TEXTO-MEIO
A Grécia chegou ao fim da linha – é o que se diz. Talvez. Ou, talvez, haja possibilidades que ainda não examinamos com atenção, espaços para esperança em meio à ruína.
Uma ideia radical, sobre dívida e dinheiro, foi proposta há alguns meses por Martin Wolf, editorialista do Financial Times. Ele propõe retirar dos bancos privados seu notável poder de criar dinheiro a partir do nada. Por poderem emitir crédito, eles fornecem entre 95% e 97% do dinheiro disponível nas sociedades. Se os Estados estabelecessem monopólio na criação de dinheiro, os governos poderiam ampliar a oferta sem criar dívida. A senhoriagem (diferença entre o custo de produzir dinheiro e seu valor) favoreceria o Estado, somando bilhões aos cofres públicos. Os bancos seriam reduzidos a servidores, e não mais senhores, da economia.
"Zero Cruzeiro" de Cildo Meireles
“Zero Cruzeiro” (1978), de Cildo Meireles
Um enfoque inteiramente distinto foi proposto por Ann Pettifor, em Just Money — How Society Can Break the Despotic Power of Finance[Dinheiro Justo – Como as sociedades podem quebrar o poder despótico das Finanças, sem edição em português] – um livro fascinante, ainda que mal escrito e caótico. Ela argumenta que os governos não foram capazes de entender o que é o dinheiro. Ele não deveria ser visto como uma mercadoria, argumenta Ann, mas como uma relação social baseada em confiança. Algo raro, para uma crítica radical das finanças, ela enxerga a criação de dinheiro pelos bancos privados como “um grande avanço civilizacional”, à sua época – porque libertou as nações dos usurários que antes monopolizavam e restringiam o acesso à riqueza monetária.
A oferta de dinheiro é, na verdade, ilimitada: enquanto houver atividade produtiva suficiente para absorvê-lo, não há razão óbvia alguma para restringir o volume de dinheiro que pode ser emitido. Portanto, quando os governos e os bancos centrais disserem que o dinheiro acabou, prossegue Pettifor, ou eles estarão mentindo para nós, ou para si mesmos. O que limita a atividade econômica é uma restrição desnecessária e artificial dos meios de troca.
O grande avanço civilizacional da atividade bancária foi destruído por meio de sua desregulamentação, cujo resultado foi uma novo sistema de usura, especulação e exploração. Os bancos privados emprestam por muito o dinheiro que recolhem por quase nada, forçando-nos a trabalhar cada vez mais e a devastar ainda mais a natureza para honrar nossas dívidas. Pettifor sugere que os governos deveriam reassumir o controle sobre as taxas de juros em todos os níveis das operações de crédito.
Mas é possível que as maiores transformações possam se dar em plano local. A Grécia já tem algumas moedas locais, que mantiveram a circulação de dinheiro em diversas cidades, já que não podem ser recolhidas (há sistemas similares em muitos países). Mas, estranhamente, ainda não se utiliza um sistema marcante e transformador que por pouco não salvou a Europa do fascismo: a moeda desenvolvida pelo economista Silvio Gesell, baseada num vale-selo. Ele é explicado em The Future of Moneyum livro magnífico de Bernard Lietaer.
Em sua forma original, o vale-selo era um pedaço de papel onde estavam impressos diversos quadradinhos. A moeda perdia validade exceto se um selo, que custava 1% de seu valor, fosse fixado num dos quadradinhos, a cada mês. Em outras palavras, a moeda perdia dinheiro ao longo do tempo, de modo que não havia incentivo para acumulá-la. Projetos de vale-selo multiplicaram-se na Alemanha e Áustria, quando as moedas nacionais entraram em colapso no início dos anos 1930. Em 1932, por exemplo, a cidade austríaca de Wörgl quase quebrou, por se tornar incapaz de financiar as obras públicas, ou de apoiar sua população empobrecida. Até que o prefeito soube da proposta de Gesell.
Ele usou os poucos fundos que restavam nos cofres públicos como garantias para os vales-selos – e usou-os para pagar uma obra. Os trabalhadores faziam a moeda circular tão rapidamente quanto possível. Como mágica, este pequeno volume de dinheiro manteve-se em circulação, permitindo que Wörgl repavimentasse suas ruas, reconstruísse o sistema de abastecimento de água, construísse novas casas, uma ponte e até uma pista de ski. Nos 13 meses que durou a experiência, as notas circularam centenas de vezes, criando entre 12 e 14 vezes mais emprego do que teria feito a moeda convencional. O desemprego acabou, e a venda de selos garantiu, sozinha, um restaurante gratuito que alimentava 220 famílias.
Os governos da Alemanha e da Áustria, profundamente ameaçados pelo sucesso destes projetos, liquidaram-nos. O emprego desabou de novo, e um pintor austríaco, tresloucado porém carismático, encontrou o caminho para o poder que buscava há muito.
Quando o grande economista norte-americano Irving Fisher examinou estes experimentos, ele concluiu que “a aplicação correta do vale-selo revolveria a crise de depressão nos Estados Unidos em três semanas. Mas o governo de Roosevelt, ciente de que tais moedas poderiam acarretar, para o governo federal, vasta perda de poder, prontamente as baniu.
Tais ideias poderiam ser úteis para a Grécia e outros países. Não sei. Mas se Atenas abandonar o euro, talvez possa se abrir um mundo de possibilidades, para as quais temos permanecido de olhos fechados.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Projeto colhe depoimentos inéditos de sobreviventes do Holocausto no Brasil

bbc
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150127_projeto_sobreviventes_holocausto_lgb


Projeto colhe depoimentos inéditos de sobreviventes do Holocausto no Brasil

  • Há 8 horas
(Getty)
Em 27 de janeiro de 1945, Auschwitz, o maior campo de concentração nazista, foi libertado por tropas soviéticas
Um projeto coordenado por uma pesquisadora brasileira pretende colher depoimentos, grande parte deles inéditos, de mais de 250 sobreviventes do Holocausto ─ o assassinato em massa perpetrado pelos nazistas contra os judeus durante a 2ª Guerra Mundial ─ que vivem no Brasil.
À frente da iniciativa está Maria Luiza Tucci Carneiro, professora de História da USP e uma das maiores estudiosas sobre o tema no país. Segundo Carneiro, que também dirige o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da universidade, o objetivo é gravar os testemunhos em vídeo até o fim de 2016.
Intitulado 'Vozes do Holocausto', o projeto ocorre em meio ao desafio de manter viva a memória de um dos maiores genocídios do século 20 uma vez que grande parte dos sobreviventes morreu e os poucos vivos possuem idade avançada.
"É uma corrida contra o tempo", diz Tucci Carneiro à BBC Brasil. "Nosso objetivo é registrar em vídeo o máximo de depoimentos possível, já que, nos próximos dez anos, possivelmente não haverá mais sobreviventes para contar a história de uma das maiores atrocidades que já ocorreram no mundo", acrescenta.
"É uma memória que corre perigo de ser esquecida, especialmente porque, sem os sobreviventes, abre-se espaço para os que insistem em negar a existência do Holocausto."

Testemunhos

A primeira fase do projeto terá início em fevereiro e durará seis meses, período em que Tucci Carneiro espera gravar testemunhos de 90 dos 284 sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil.
Desse total, revela a pesquisadora, grande parte mora em São Paulo e chegou ao país vinda da Alemanha, Áustria, Polônia e Romênia durante a 2ª Guerra Mundial.
Os recursos para custear esta etapa, diz Tucci Carneiro, virão do Instituto Samuel Klein, criado após a morte do empresário em novembro do ano passado. Judeu nascido na Polônia e naturalizado brasileiro, o fundador da rede de lojas de departamento Casas Bahia sobreviveu a dois campos de concentração, o de Majdanek e o de Auschwitz-Birkenau, este último o maior do regime nazista.
Segundo Tucci Carneiro, dos 90 depoimentos gravados, serão escolhidos os dez melhores, que vão se tornar cada um, um DVD. O registro será acompanhado de material paradidático e distribuído em escolas públicas, inicialmente da cidade de São Paulo.
"O projeto tem caráter multidisciplinar e pedagógico. O objetivo é propor uma reflexão sobre todas as formas de intolerância a partir do Holocausto. Normalmente, as escolas não dão a esse tema a sua devida importância", diz a pesquisadora.
"Em outras palavras, queremos mostrar para os mais jovens que quando se investe contra uma etnia ou um grupo específico, também se lapidam a memória e a cultura de um povo. Com isso, chamamos atenção para o perigo do racismo e ensinamos esses alunos a conviver com a diferença", acrescenta.

Importância histórica

Tucci Carneiro conta que obteve a lista dos nomes dos mais de 250 sobreviventes por intermédio da Claims Conference, instituição sediada nos Estados Unidos que zela pelo bem-estar de sobreviventes do Holocausto no mundo.
Segundo ela, alguns sobreviventes costumam relutar inicialmente em contar a história de como escaparam da máquina de morte criada e executada pelos nazistas.
"Alguns deles não querem passar pelo trauma de ter de relembrar um período difícil. Muitos perderam a família inteira e vieram ao Brasil sem um único centavo", assinala Tucci Carneiro.
"Nossa abordagem é sempre feita com muito cuidado e sempre ressaltamos a importância histórica do depoimento para as gerações futuras", complementa.
A pesquisadora, que também coordena o Arquivo Virtual do Holocausto (ArqShoah) da USP, diz ainda que muitos dos entrevistados possuem documentos de "inestimável valor histórico".
"Eles acabam nos cedendo cópias e registros importantes da época, que nos permitem remontar com maior verossimilhança os horrores do Holocausto", afirma.
"Também sensibilizamos as famílias no sentido de resguardar esse material", acrescenta.

Projeto maior

(Getty)
Estima-se que apenas em Auschwitz 1,6 milhão de pessoas - a imensa maioria judeus - tenha morrido
A iniciativa de Tucci Carneiro é parte de um projeto maior, chamado 'Travessias: Narrativas e Representações dos Sobreviventes e Refugiados do Nazismo no Brasil'.
Segundo a pesquisadora, a intenção é reunir o maior número de informações possível sobre os judeus que, forçados a deixar seus países de origem em meio à ascensão da Alemanha nazista, passaram pelo Brasil durante a 2ª Guerra Mundial.
"Temos um número expressivo de artistas e intelectuais judeus, entre refugiados e sobreviventes, que aportaram no país antes, durante ou depois do confronto", diz Tucci Carneiro.
"Um dos exemplos foi a pianista polonesa Felicja Blumental, posteriormente naturalizada brasileira. Grande colaboradora de Villa-Lobos e uma das maiores intérpretes de Chopin, ela tornou-se uma das principais promotoras da música clássica brasileira."
"O Brasil precisa dessa memória ─ que nunca pode ser esquecida", diz Tucci Carneiro.