domingo, 9 de agosto de 2020

Morreu o bispo do Brasil que se destacou na defesa da reforma agrária

 https://www.esquerda.net/artigo/morreu-o-bispo-do-brasil-que-se-destacou-na-defesa-da-reforma-agraria/69618


Morreu o bispo do Brasil que se destacou na defesa da reforma agrária

Morreu este sábado, o bispo Pedro Casaldáliga reconhecido defensor dos direitos humanos e dos mais pobres. Lançou em 1971 a Carta Pastoral por uma Igreja da Amazónia, que constitui a primeira denúncia mundial da situação social na área da floresta.
Pedro Casaldáliga foi sempre um grande defensor dos indígenas – Foto de vermelho.org.br
Pedro Casaldáliga foi sempre um grande defensor dos indígenas – Foto de vermelho.org.br

Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, morreu este sábado, 8 de agosto, com 92 anos, vitimado por uma embolia pulmonar. Além da avançada idade, o bispo tinha a doença de Parkinson. O velório começou este sábado, na cidade de Batatais, depois seguirá no dia 10 de agosto para Mato Grosso e posteriormente para São Félix do Araguaia, onde será sepultado.

Pedro Casaldáliga, que não gostava do uso de Dom1, nasceu em Barcelona e desembarcou no Brasil em 1968, em plena ditadura militar. Foi consagrado bispo em 1971.

Segundo o Brasil de Fato2, lançou a Carta Pastoral por uma Igreja da Amazónia, também em 1971, documento conhecido nacional e internacionalmente e que marcou o seu percurso.

De acordo com o Instituto Humanitas Unisinos3, a carta constitui a primeira denúncia mundial da situação da Amazónia, sendo um documento de defesa dos povos indígenas e de luta contra a marginalização social.

Pedro Casaldáliga foi também um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)(link is external) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT)(link is external), entidades que têm desde então atuado na defesa dos indígenas, das comunidades tradicionais e dos trabalhadores do campo.

Em artigo assinado por José Carlos Ruy4 do PC do B, assinala-se: “Uma vida dedicada aos humildes, à luta pela justiça, ao combate à desigualdade social, contra a opressão. Há mais de 50 anos (em 1968), ele se mudou para a Amazônia, onde lutou contra o latifúndio e o roubo de terras de índios, camponeses, ribeirinhos – o povo pobre do qual foi o grande defensor”.

Também o PSOL, em nota5 assinada pelo seu presidente nacional, Juliano Medeiros, manifesta o pesar pelo falecimento e sublinha: “Defensor da reforma agrária e da justiça social, há cinco décadas ele vivia e se dedicava àquela região, se tornando um ícone da luta pelos direitos dos camponeses, trabalhadores sem terra e povos indígenas. Também teve atuação fundamental no movimento pela redemocratização do país e na luta contra a Ditadura Militar. Para garantir dignidade à vida dos outros, ele arriscou a sua própria em diversas situações. Sua perda é inestimável e fará enorme falta”.

Guilherme Boulos destacou no twitter: “A morte de Pedro Casaldáliga deixa um vazio na luta contra o autoritarismo, tão fundamental neste momento,”

O Diário de Notícias, em artigo(link is external) assinado por César Avó, recorda que Pedro Casaldáliga foi um dos protagonistas da Teologia de Libertação, que foi preso e ameaçado de morte.

A notícia refere igualmente as homenagens de Lula e Dilma Rousseff (ver tweet abaixo).


Notas:

Termos relacionados Internacional

Nos 92 anos de Pedro Casaldáliga

 http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596194-nos-92-anos-de-pedro-casaldaliga

Nos 92 anos de Pedro Casaldáliga

11 Fevereiro 2020

 

    "Tu és um dos derradeiros membros daqueles que Comblin chamava os grandes Padres da Igreja Latino-americana", escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo, em homenagem ao aniversário de Dom Pedro Casaldáliga.


    Meu caro Pedro

     (Imagem enviada pelo autor)

    Tu és um dos derradeiros membros daqueles que Comblin chamava os grandes Padres da Igreja Latino-americana.

    Tive a alegria de participar em muitos encontros em teu centro pastoral às margens do mágico rio Araguaia.
    Ali acolheste tantos jovens que foram agentes de pastoral em tua prelazia e pelo continente afora.
    São Felix passou a ser um ponto de referência para a Igreja de toda a região.
    E, ao mesmo tempo, tua presença na América Central era uma luz que orientava
    uma caminhada valente e profética, vencendo tantas contradições.
    Aliás, tens sido desde tanto tempo, o grande profeta da Pátria Grande.

    Quero ler junto contigo e com os que estão aí celebrando tua vida luminosa, aquele soneto onde apareces de corpo inteiro:


    Si no sabeis quien soy. Si os desconcierta
    la amálgama de amores que cultivo:
    una flor para el Che, toda la huerta
    para el Dios de Jesús. Si me desvivo
    por bendecir una alambrada abierta
    y el mito de una aldea redivivo.
    Si tiento a Dios por Nicaragua alerta,
    por este Continente aún cautivo.
    Si ofrezco el Pan y el Vino en mis altares
    sobre un mantel de manos populares
    sabed del Pueblo vengo, al Reino voy.
    Tenedme por latinoamericano,
    tenedme simplemente por cristiano,
    si me creéis y no sabéis quien soy!


    Deus fez em ti maravilhas!

    Com um profundo carinho,
    pedindo que rezes por todos
    os que estamos resistindo neste Brasil ferido,

    teu Luiz Alberto.

     

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    Pedro Casaldáliga, presente!

     http://www.ihu.unisinos.br/601689-pedro-casaldaliga-presente


    08 Agosto 2020

    Pedro Casaldáliga, presente!

    Pedro Casadáliga, santo, profeta e poeta nos acompanha agora na casa do Pai.

    O último da grande geração dos Padres da Igreja que marcaram com luz a América Latina.

    Está sendo velado na casa dos seus claretianos em Batatais, depois passará por Ribeirão Cascalheira, onde enfrentou a repressão, para dormir definitivamente em São Félix, às margens de seu mágico Araguaia.

    A informação é de Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo.

    E tempo de festa na sua chegada aos céus. Lembramos um poema de Manuel Bandeira, Pedro abrindo de par em par as portas das quais é guardião: "Entra Pedro, tua casa te espera.".

    Foi ficando leve, leve, como uma pétala levada pelo vento da história.

    Não é necessária confirmação canônica, ele é e já era em vida, Santo.

    Soam suas duras palavras:


    "Malditas sejam todas as cercas!

    Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar!

    Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos".
     

    Nada como relembrar o soneto em que revela sua identidade:

     
    "Si no sabeis quien soy. Si os desconcierta
    la amálgama de amores que cultivo:
    una flor para el Che, toda la huerta
    para el Dios de Jesús. Si me desvivo
    por bendecir una alambrada abierta
    y el mito de una aldea redivivo.
    Si tiento a Dios por Nicaragua alerta,
    por este Continente aún cautivo.
    Si ofrezco el Pan y el Vino en mis altares
    sobre un mantel de manos populares
    sabed del Pueblo vengo, al Reino voy.
    Tenedme por latinoamericano,
    tenedme simplemente por cristiano,
    si me creéis y no sabéis quien soy!"

     

    Vida sem fronteiras, derramando misericórdia, clamando por justiça, em união mística com o Pai.

    Dali nos acompanhe nesta quadra triste de nossa história.

    Não rezamos por ele, que vive a plenitude. Pedimos que reze por nós e pela América Latina ferida.


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    Morre Dom Pedro Casaldáliga, bispo que dedicou a vida em defesa do povo brasileiro

     br de fato

    https://www.brasildefato.com.br/2020/08/08/morre-dom-pedro-casaldaliga-bispo-que-dedicou-a-vida-em-defesa-do-povo-brasileiro

    Morre Dom Pedro Casaldáliga, bispo que dedicou a vida em defesa do povo brasileiro

    Velório ocorre neste sábado, 8, em Batatais

    Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
     


    Morreu às 09h40 deste sábado, 08, Dom Pedro Casaldáliga Plá, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT) e Missionário Claretiano. Dom Pedro estava internado na UTI da Santa Casa de Batatais, interior de São Paulo. A Prelazia de São Félix do Araguaia, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria e a Ordem de Santo Agostinho confirmaram a morte do religioso por embolia pulmonar. 

    O velório ocorrerá a partir das 15h deste sábado na capela do Clareitiano, na cidade de Batatais - SP. Em Mato Grosso, o corpo deverá chegar no dia 10 de agosto e será velado Santuário dos Mártires, na cidade de Ribeirão Cascalheira. Depois, o corpo de Dom Pedro, será encaminhado para a cidade de São Félix do Aráguaia onde será velado no Centro Comunitário Tia Irene e depois sepultado. 

    Histórico

    O religioso foi transferido para a unidade hospitalar de Batatais, a 354 km da capital, na noite da última terça-feira (4), após apresentar problemas respiratórios e permanecer uma semana internado no Hospital de São Félix do Araguaia (MT). Aos 92 anos de idade, Casaldáliga sofria do Mal de Parkinson. Ainda jovem, o bispo foi acometido por uma forte pneumonia que deixou uma sequela permanente no órgão do sistema respiratório, o que torna o quadro ainda mais delicado neste momento.

    Repercussão 

    Ao longo do dia, diversas lideranças e personalidades lamentaram a morte de Dom Pedro Casaldáliga nas redes sociais. Confira: 

     

     

     

     

    Trajetória

    Nascido em uma aldeia há quilômetros de Barcelona, na Espanha, em 1928, Dom Pedro Casaldáliga Plá é de família camponesa. Desembarcou no Brasil em 1968, em plena ditadura militar, e foi consagrado bispo em 1971, quando lançou a Carta Pastoral por Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. O texto ficou conhecido nacional e internacionalmente e marcou o perfil do missionário como porta-voz de índios e agricultores.

    O bispo também foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que até hoje atua na defesa de indígenas, comunidades tradicionais e trabalhadores do campo.

    Além de sua atuação junto aos pobres e em defesa da democracia, Casaldáliga também se destaca por suas poesias que abordam a urgência da reforma agrária e da luta contra o agronegócio. Confira:

    "Por onde passei, plantei a cerca farpada, plantei a queimada.

    Por onde passei, plantei a morte matada. Por onde passei, matei a tribo calada,

    A roça suada, a terra esperada... Por onde passei, tendo tudo em lei, eu plantei o nada."


    Confissão do latinfúndio

    Edição: Marina Selerges

    Igreja no mundo se despede de dom Pedro Casaldáliga, falecido hoje, aos 92 anos

     https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-08/falecimento-dom-pedro-casaldaliga-92-anos-batatais-sao-paulo.html

    Igreja no mundo se despede de dom Pedro Casaldáliga, falecido hoje, aos 92 anos



    O bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia faleceu na manhã deste sábado (8), em Batatais, São Paulo. O missionário espanhol estava internado desde terça-feira (4) no hospital da Santa Casa de Misericórdia com graves complicações pulmonares. O arcebispo de Ribeirão Preto, dom Moacir Silva, que fez uma rápida, mas significativa visita na quinta-feira (6), disse: “dom Pedro é um ícone no Brasil pela sua dedicação plena e total ao povo de Deus, de modo especial, aos mais pobres e necessitados. Ele sofreu diversos reveses na vida por causa dessa sua opção, mas sempre foi fiel a Cristo, à Igreja e à missão”.

    Andressa Collet – Vatican News

    Ouça a reportagem e compartilhe

    A Prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria – os Claretianos e a Ordem de Santo Agostinho – os Agostinianos comunicam o falecimento dom Pedro Casaldáliga (1928-2020), bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia. O missionário claretiano estava com 92 anos, fragilizado e internado há 5 dias por causa de uma insuficiência respiratória no hospital da Santa Casa de Misericórdia na cidade de Batatais, em São Paulo, e veio a falecer às 9h40 deste sábado (8). O estado de saúde, com complicações pulmonares, estava sendo acompanhado pela Rádio Claretiana FM que, inclusive, divulgou um boletim médico em 5 de agosto: segundo o médico Antônio Marcos, dom Pedro testou negativo para a Covid-19 em 4 exames.

    Dedicação plena ao povo de Deus

    Segundo a reportagem da emissora da última quinta-feira (6), o arcebispo de Ribeirão Preto, dom Moacir Silva, visitou dom Pedro, rezou e abençoou o missionário espanhol, natural de Balsareny, na Catalunha. Um encontro rápido, mas muito significativo e expressivo: “dom Pedro é um ícone no Brasil pela sua dedicação plena e total ao povo de Deus, de modo especial, aos mais pobres e necessitados. Ele sofreu diversos revezes na vida por causa dessa sua opção, mas sempre foi fiel a Cristo, fiel à Igreja, fiel à missão”.

    O próprio Papa Francisco na sua Exortação Apostólica pós-sinodal "Querida Amazonia", publicada em 12 de fevereiro de 2020, citou uma das suas poesias: “Carta de navegar (Por el Tocantins amazónico)” in El tiempo y la espera, Santander, 1986.

    Povo no meio do povo

    Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia desde 1971, Casaldáliga trabalhou sempre em favor dos peões, dos camponeses, dos sem-terra e dos povos indígenas. Em comunicado, as associações Araguaia com o Bispo Casaldàliga, da Catalunha, e a Associação ANSA, de São Félix do Araguaia, lamentaram o falecimento de Pedro Casaldáliga, a quem devem as atividades destes 40 anos de existência. Na nota, descreveram o bispo como "poeta, escritor e comunicador por vocação, autor ou co-autor de mais de 100 obras traduzidas para várias línguas e através das quais expressou os seus sentimentos e paixões mais íntimos".

    Além disso, o comunicado descreveu a rotina de um missionário que "morava há mais de 50 anos em uma casa humilde, com as portas sempre abertas na pequena cidade de São Félix do Araguaia, perto de seus amigos e no meio de sua comunidade. Fez centenas de viagens de ônibus pelo Brasil e visitou frequentemente as comunidades da sua Prelazia a cavalo. Casaldáliga sempre foi 'povo no meio do povo' e sempre defendeu a necessidade de termos um compromisso pessoal e comunitário com os mais pobres".

    A despedida do missionário em três cidades

    Segundo a Prelazia, a despedida do espanhol será realizada em três momentos especiais. Em Batatais, o corpo de dom Pedro será velado neste sábado, a partir das 15h, na capela do Claretiano, que fica no Centro Universitário de Batatais, unidade educativa dirigida pelos Missionários Claretianos. A missa de exéquias será celebrada neste domingo (9), às 15h, no mesmo local e será aberta ao público em geral, além de ser transmitida ao vivo pelo link https://youtu.be/spto8rbKye0. O link estará aberto para que outros veículos de comunicação possam retransmitir.

    A partir de segunda-feira (10), o corpo de dom Pedro será velado no Santuário dos Mártires, sem previsão de horário de chegada do corpo. Após o velório acontece na cidade de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, no Centro Comunitário Tia Irene. O sepultamento, sem previsão de data pois o corpo ainda deve passar por Ribeirão Cascalheira, será em São Félix do Araguaia. 

    Morre Pedro Casaldáliga, a pedra no sapato do autoritarismo brasileiro

     https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/08/08/morre-pedro-casaldaliga-a-pedra-no-sapato-do-autoritarismo-brasileiro.htm

    COLUNA

    LEONARDO SAKAMOTO

    Morre Pedro Casaldáliga, a pedra no sapato do autoritarismo brasileiro... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/08/08/morre-pedro-casaldaliga-a-pedra-no-sapato-do-autoritarismo-brasileiro.htm?cmpid=copiaecola

    RESUMO DA NOTÍCIA

    • Pedro Calsadáliga, expoente da Teologia da Libertacão, é considerado um dos mais importantes defensores dos direitos humanos do país.
    • Foi um dos principais defensores dos povos indígenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia desde a ditadura militar.
    • Casaldáliga foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no início da década de 1970.
    • Aos 84 anos, teve que deixar sua casa pelas ameaças de morte sofridas em decorrência do governo ter retirado invasores da terra indígena Marãiwatsédé

    Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e um dos maiores defensores dos direitos humanos do país, morreu aos 92 anos, às 9h40 deste sábado (8), em Batatais (SP), onde havia sido removido para tratamento médico devido a problemas respiratórios.

    A informação foi comunicada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). Ele havia testado negativo para covid-19.

    Num ano em que o Brasil já ficou 100 mil vezes menor por conta de uma doença estúpida, a morte de Pedro consegue deixar um vazio profundo. Ele não era apenas um defensor da vida, mas a representação viva da resistência ao autoritarismo.

    Nascido na Catalunha como Pere Casaldàliga, chegou ao Brasil em 1968. Desde então, subvertendo o Evangelho de Mateus, capítulo 16, versículo 18, Pedro não foi apenas a pedra em torno do qual edificou-se uma igreja na Amazônia, mas a pedra no caminho dos planos da ditadura e de seus sócios na iniciativa privada de passar por cima dos direitos e da vida de camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas.

    Foi dele a primeira denúncia por trabalho escravo contemporâneo que ganhou o mundo no início da década de 1970. Essa mão de obra foi largamente utilizada em empreendimentos agropecuários na ocupação da região, com a cumplicidade dos militares.

    Por conta de sua atuação contra a ditadura e a violência de grileiros, madeireiros, garimpeiros e grandes produtores rurais passou boa parte da vida marcado para morrer. Foi alvo de processos de expulsão do país. Poeta e escritor, tornou-se uma das principais vítimas da censura baixada pelos verde-oliva durante os anos de chumbo.

    "Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos", escreveu.

    Para entender o que é a longevidade da luta de Pedro: aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso - ação pelo qual sempre lutou.

    Governos nunca foram competentes para garantir os direitos dos povos indígenas. Agora, temos um que é abertamente contra a demarcação de novos territórios. E Pedro, mesmo enfrentando um Parkinson avançado, manteve-se na trincheira contra a necropolítica.

    "Ele conseguiu, pela denúncia intrépida e pelo testemunho arriscado, pela profecia inconveniente, pela poesia cortante, pela mística e pela espiritualidade que encarnava, contagiar a muitos e muitas. Contagiar a nós da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dos movimentos sociais, lutadores por um outro mundo justo, fraterno e possível", diz frei Xavier Plassat, da CPT. Pedro ajudou a criar ambas as instituições, vinculadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

    Foi um dos expoentes da Teologia da Libertação - linha progressista da igreja católica que acredita que a alma só será livre se o corpo também for, que tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante na periferia do mundo. Na prática, esses religiosos realizam a fé que muitos não querem ver materializada a partir do livro sagrado do cristianismo.

    Para traduzir o que ela significa, nada como uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que também lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista".

    Pedro não ensinou que solidariedade significa uma forma distorcida de caridade, como uma política de distribuição de sobras - o que consola mais a alma dos ricos do que o corpo dos pobres. Mas que solidariedade passa por reconhecer no outro e na outra seus semelhantes e caminhar junto a eles. Ou seja, não é doar migalhas, mas compartilhar o pão, produzido com diálogo e respeito. "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar", assumiu Pedro como lema de vida. Tão simples, tão poderoso.

    Pedro nunca voltou para a Espanha. Até porque ele era brasileiro. Nasceu por engano em outro continente.

    Pessoas assim não morrem, não podem morrer. Não tenho a mesma fé que Pedro, mas não tenho dúvida que ele atingiu a imortalidade.

    Seu corpo será velado, a partir das 15 horas deste sábado, na capela do Claretiano, em Batatais. E, antes de ser velado e sepultado em São Félix do Araguaia, também passará pelo município de Ribeirão Cascalheira (MT).