sexta-feira, 26 de março de 2021

Coletivo cria frente com sociedade civil para discutir enfrentamento da pandemia em MT

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Sexta-Feira, 26 de Março de 2021, 10h:23 | - A | + A

COVID-19

Coletivo cria frente com sociedade civil para discutir enfrentamento da pandemia em MT

Discussão contará com a participação de representantes de entidades e do governo, além de cientistas, profissionais da saúde e políticos do estado.

Safira Campos

Da Redação

Tchélo Figueiredo - SECOM/MT

centro de triagem covid 19 arena pantanal.jpg

 

O coletivo Amigos do Pantanal, criado por ativistas e cientistas de Mato Grosso em 2020, está organizando uma frente para discutir o combate à pandemia de covid-19 no estado. A ideia é que a iniciativa dê protagonismo à sociedade civil organizada no debate sobre a elaboração de estratégias e medidas para barrar o avanço da doença que já matou mais de 7 mil pessoas em Mato Grosso. 

 

No próximo dia 10, o grupo realiza um fórum com pesquisadores, profissionais da saúde, e representantes de entidades e dos governos municipal e estadual. Um dos organizadores da iniciativa é o indigenista Sebastião Moreira, também responsável pela criação do coletivo. Tião do Cimi, como é conhecido, conta que a ideia é que a frente de mobilização pressione as autoridades a tomar iniciativas mais contundentes em relação à pandemia. 

 

“Vamos discutir sobre a aquisição de vacinas, que é algo primordial para que possamos sair dessa condição que estamos agora. Fora isso, é nítido que precisamos de um lockdown logo, urgentemente. Autoridades no assunto têm apontado cenários ainda mais assustadores se nada for feito. Temos que trabalhar em uma perspectiva de isolamento social, com distribuição de auxílios. Com o corte do Governo Federal, esperamos que o Município e o Estado ajam”, afirma Sebastião.  

 

O fórum será dividido em duas mesas. Na primeira, que acontece pela manhã e será moderada pela pesquisadora e professora Michele Sato, as contribuições vêm do campo científico, com médicos, biólogos e cientistas, além do secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo. Para Sato, que tem estudado a pandemia no pós-doutorado realizado atualmente no Rio de Janeiro, o fórum será uma oportunidade de debater aspectos diversos da disseminação da doença no mundo. 

 

“Trabalho com a hipótese de que a pandemia não pode ser encarada como uma crise sanitária pontual, mas proveniente de uma crise ambiental prolongada da humanidade destruindo a natureza. O agronegócio e o aumento do consumo energético são pontos muito relevantes na discussão. Há autores que defendem que o agronegócio é um dos maiores propagadores de patógenos, por exemplo. De alguma maneira, a Organização Mundial da Saúde já tinha como saber que aconteceria uma pandemia, mas não sabia quando e nem que seria nessa intensidade”, afirma. 

 

À tarde a discussão centra-se no aspecto político do enfrentamento à pandemia. Foram convidados para o debate o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), e o  Várzea Grande, Kalil Baracat (MDB); os presidentes das Câmaras Municipais das duas cidades, Juca do Guaraná (MDB) e  Fábio José Tardin (DEM); o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), Max Russi (PDB); a deputada federal Rosa Neide (PT) e o senador Wellington Fagundes (PL), além do Secretário-geral da OAB-MT, Flávio José Ferreira. 


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Massacre Chiquitanos





#MassacreChiquitanos 

A comunidade Chiquitana de San José de la Frontera (San Matías, Bolívia), mas especialmente os familiares das 4 vítimas da chacina ocorrida no dia 11/08/2020 na Fazenda São Luiz (Cáceres – MT) falam com desejo de que se faça Justiça, pois foram caçar e foram mortos pelo Gefron de forma cruel. 

Os Direitos Humanos de Cuiabá e Cáceres (MT) foram ao local no dia 02/09/2020, momento em que foram recolhidas as falas que agora são disponibilizadas com um mínimo de edição, para deixar mais evidente o caráter de documentário, pois possui prioritariamente o objetivo de compreender o ocorrido nessa situação de violência que aumentou muito na Fronteira com o governo Bolsonaro.

A comunidade Chiquitana de San José de la Frontera (San Matías, Bolívia), mas especialmente os familiares das 4 vítimas da chacina ocorrida no dia 11/08/2020 na Fazenda São Luiz (Cáceres – MT) falam com desejo de que se faça Justiça, pois foram caçar e foram mortos pelo Gefron de forma cruel. Os Direitos Humanos de Cuiabá e Cáceres (MT) foram ao local no dia 02/09/2020, momento em que foram recolhidas imagens do local da chacina, as poças de sangue ainda podiam ser encontradas no chão seco e aberto de pastagem para o gado. A árvore cravejada de balas chamada catinguinha ou fedebosta recebeu na sua sombra uma cruz com os nomes de Arsino, Pablo, Yona e Esequiel esculpido na sua madeira de ipê roxo. Nesse dia da celebração eucarística presidida pelo bispo de San Ignácio de Velasco foram gravadas as falas que agora são disponibilizadas com um mínimo de edição, para deixar mais evidente o caráter de documentário, pois possui prioritariamente o objetivo de compreender o ocorrido nessa situação de violência que aumentou muito na Fronteira.

#PovosIndígenas #PovoChiquitano #Massacre #Brasil #Bolívia #DireitosHumanos #FHDTMatoGrosso
Massacre Chiquitanos
https://youtu.be/Wlc81Oh_k_c

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A ganância e a idolatria ao dinheiro transformaram o Pantanal em terra arrasada. Entrevista especial com Teobaldo Witter Faltou compromisso do governo para enfrentar as queimadas no Pantanal, diz o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil em Mato Grosso

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A ganância e a idolatria ao dinheiro transformaram o Pantanal em terra arrasada. Entrevista especial com Teobaldo Witter Faltou compromisso do governo para enfrentar as queimadas no Pantanal, diz o pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil em Mato Grosso


Por: Patricia Fachin | 19 Outubro 2020

A tragédia ambiental e social que atinge o Pantanal nos últimos meses, em decorrência do aumento das queimadas, não é um problema estritamente local do bioma brasileiro, considerado uma das maiores áreas úmidas contínuas do planeta. As causas que levam à destruição do ecossistema são mais profundas e podem ser vistas em nível regional, nacional e global, manifestadas através da "ganância humana".

 

Teobaldo Witter, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB em Mato Grosso, e integrante dos movimentos religiosos e sociais comprometidos com o cuidado da nossa casa comum, é enfático ao observar esse aspecto. "A vida da humanidade está ameaçada. Um grande mal ocupa todos os espaços, e há poderes querendo assumir o papel de Deus. Quem, porém, cede a essa tentação e é detentor de poder, procura despir-se de sua condição de criatura para submeter homens e mulheres, jovens e crianças, a natureza e o mundo a seus próprios interesses. O fruto dessa autossuficiência incorpora-se num verdadeiro ídolo – designado na Escritura como poder do dinheiro ('Mamon'). Esse mesmo ídolo, adorado e venerado, é o fundamento do sistema sócio-econômico-político hegemônico no mundo de hoje", assegura.

 

Há mais de 40 anos, ele transita entre a Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal e relata que as queimadas deste ano são incomparáveis a outros períodos. "Durante duas madrugadas, pássaros do Pantanal vieram se abrigar no cajueiro do pátio e nas árvores das praças. Macacos vieram se alimentar das frutas das mangueiras. Isso nunca havia acontecido. Cinzas, poeira tóxica, calor alto, umidade baixa, o fundo da piscina preto de carvão que vem com o vento", sem falar nas comunidades quilombolaspantaneiros ribeirinhosindígenas, como GuatóXaraiésBororo e outros, que são diretamente afetadas.

 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-LineWitter também critica a lentidão do governo federal em tomar uma atitude para conter as queimadas e fala sobre as expectativas acerca do trabalho da Comissão Externa Queimadas em Biomas Brasileiros da Câmara Federal, na criação de "leis justas para a promoção dos direitos humanos e da terra".

 

Teobaldo Witter (Foto: Arquivo pessoal)

Teobaldo Witter é doutor em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso, com a tese "A prática solidária luterana, no Sínodo Mato Grosso-IECLB, MT: dimensões pedagógica e teológica", mestre em Teologia com ênfase em práticas sociais e gestão de redes, pela Escola Superior de Teologia - EST, São Leopoldo, e graduado em Pedagogia pelas Faculdades Integradas de Várzea Grande, MT.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Os ambientalistas dizem que o Pantanal vive a maior tragédia ambiental das últimas décadas. Como está a situação na região atualmente e quais foram as áreas mais afetadas pelas queimadas no Pantanal?

Teobaldo Witter - Antes de falar ou escrever qualquer palavra, eu expresso minha solidariedade com todas as pessoas que, sensibilizadas, arriscam suas próprias vidas para salvar animais, floresta e a terra. Um gigantesco mutirão de voluntários está nesta luta justa. Chegaram antes de qualquer governo. Em memória do artista plástico Sebastião Mendes, de 54 anos, que morreu, na tarde de 8 de outubro, ao sofrer um infarto enquanto ajudava a apagar o fogo na Serra do Taquaral, em CáceresMT. (E Jesus chorou, João 11.35).

Vivo no Mato Grosso e Pará há 44 anos. São duas gerações. Andei por muitas regiões da Floresta Amazônica, do Cerrado e do Pantanal. Era terra de florestas, águas e vegetações rasteiras. Nas áreas da maioria das atuais cidades de hoje se ouvia o cantar das aves, dos pássaros, o rastro dos animais terrestres e o pular dos peixes livres nos rios límpidos. Secas sempre teve. Geralmente, de maio a outubro é essa seca. Mas fumaça havia somente em locais onde foram instaladas as grandes serrarias. Em 1979 foi uma das secas mais longas. Mais de seis meses. Mas havia fumaça aqui e acolá. Havia poeira e ar seco, isso sim. Penso que aí pela virada do milênio, ou um pouco antes, as chamas surgiram mais violentas. E não respeitavam mais o que vinha pela frente: capim, mato seco, animais etc.

Pantanal é a grande área alagada no Brasil, na Bolívia, no Paraguai. O Pantanal foi o caminho pelas águas para ir à Europa e a outros continentes. Isso foi até a década de 1940. Mas durante as últimas décadas houve vários embates para preservar o PantanalProjetos econômicos e de navegação ameaçam a vida do bioma.

 

 

14 de novembro é o Dia do Rio Paraguai, de articulação internacional para cuidar do rio, coordenado pela entidade Fé e Vida, de CáceresMT. É dia de fazer a síntese das atividades diárias do cuidar: recolher lixo, educar a população, preservar a floresta ciliar, celebrar a vida. Em 2008, o Conselho Nacional do Meio Ambiente - Conama aprovou este “Dia do Pantanal”. Esta data é significativa porque lembra a luta contra a instalação das usinas de álcool e açúcar no Pantanal. Cuidar do Pantanal está sendo difícil e até ameaçador. Talvez isso explique o fogo criminoso.
Aqui na região onde vivo, as áreas de vegetação nos municípios do entorno de Cuiabá e a estrada Transpantaneira foram queimadas. Os animais que ainda vivem vêm para a cidade em busca de água e alimentação. Aves voam durante a noite e se abrigam das ruas. Tragédia. Em outras épocas, já teve fogo no Pantanal, mas nada se compara ao que ocorre nestes dias; é terra arrasada. Por onde o fogo passa, tem cinzas, animais das espécies pantaneiras mortos ou feridos, sem comida e sem água. Os que conseguem fugir do fogo, perambulam pelas cinzas.

 

 

Mapa do pantanal (Foto: Turismoria)

 

IHU On-Line - Quais são os principais efeitos das queimadas no Pantanal no estado de Mato Grosso, onde o senhor vive?

Teobaldo Witter - Eu vivo em CuiabáMT. Durante duas madrugadas, pássaros do Pantanal vieram se abrigar no cajueiro do pátio e nas árvores das praças. Macacos vieram se alimentar das frutas das mangueiras. Isso nunca havia acontecido. Cinzas, poeira tóxica, calor alto, umidade baixa, o fundo da piscina preto de carvão que vem com o vento.

 

IHU On-Line - Como as queimadas atingem a população que vive no entorno do bioma? Quem são os mais afetados pelas queimadas?

Teobaldo Witter - Toda a população é afetada. Mas as pessoas mais afetadas são as que vivem em situação de vulnerabilidade: quilombolaspantaneiros ribeirinhosindígenas, como GuatóXaraiésBororo e outros. Alguns ficaram sem caça, pesca e lavoura.

 

IHU On-Line - Além da seca, que contribui para as queimadas no Pantanal, que fatores têm contribuído para o aumento das queimadas?

Teobaldo Witter - A seca é apenas um facilitador. A ganância humana é que mais contribui para as queimadas. O valor de mercado da terra é tentador. Dominadas pela ganância de ter mais, as pessoas cometem loucuras. Inclusive queimar terras de domínio da União para grilar e fazer lavoura ou pastagem e, posteriormente, legalizar em seu nome ou de algum parente.

 

 

IHU On-Line - Quais são os crimes ambientais em curso no Pantanal?

Teobaldo Witter - Pois é. Vários procedimentos, mesmo que legalizados, trazem prejuízos à natureza. Por exemplo, o agrotóxico, jogado no ar e nas lavouras de todo entorno do Pantanal, prejudica. Fica na terra por muito tempo. Pela água das chuvas e dos rios é levado para as partes mais baixas, junto com vegetais e animais mortos. Com a construção das cidades, as fontes e afluentes são entupidos de lixo urbano. Com o assoreamento, com o acúmulo de lixo, os rios e lagos diminuem o fluxo da água. Menos águamenos Pantanal.

Historicamente, o Pantanal serviu como uma esponja que segura as águas das chuvas e as libera aos poucos. A falta de saneamento, além de produzir água tóxica, diminui esse processo natural. Há existência de garimpos em algumas áreas, como em Poconé, onde são cavoucadas enormes crateras. É claro que isso fere e mata o ecossistema da vida. Quanto ao fogo, segundo imagens de satélite, a maior parte é ilegal. É criminoso. Os crimes são facilitados pela impunidade. É proibido usar fogo nesta época, mas quem fiscaliza? Quem pune quem? Parece que o crime compensa. O cara queima, expulsa o pobre e aquele em situação de vulnerabilidade, mata os animais e a natureza. Depois o Estado legaliza terra para ele?

 

 

IHU On-Line - Como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs - Conic e outras instituições ligadas às igrejas estão atuando diante das queimadas no Pantanal?

Teobaldo Witter - O Conic tem boa perspectiva e contribuição para colaborar com o cuidado da vida no Pantanal. Reúne igrejas e entidades ecumênicas e pessoas de boa vontade. Temos a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. A sua metodologia: ver, julgar, agir, celebrar e continuar é adequada para a realidade do Pantanal. Tem o gesto concreto das ofertas. Comunidade e grupos podem recorrer ao fundo para auxiliar nos seus projetos de promoção da vida humana e da natureza. Tem também a Semana de Oração pela Unidade Cristã, quando diferentes comunidades se encontram para celebrar e assumir compromissos individuais, familiares, sociais e comunitários. A boniteza, como escreve Paulo Freire, se expressa na união de esforços para cuidar mais do Pantanal.

 

IHU On-Line - Como foi o encontro dos movimentos religiosos e sociais da região do Pantanal com deputados para tratar sobre o enfrentamento das queimadas? Qual seu balanço deste encontro?

Teobaldo Witter - O encontro com lideranças de diferentes igrejas, bispo, padre, pastor, pesquisador e entidades que trabalham diretamente na área do Pantanal, do Cerrado e da Amazônia foi muito bom. A Comissão Externa Queimadas em Biomas Brasileiros da Câmara Federal fez e está fazendo pesquisa contextualizada com quem vive nesta região. Com isso, esta comissão percebe o que está acontecendo e cria sensibilidade com a vida ameaçada nos biomas. E recolhe sugestões de leis justas para a promoção dos direitos humanos e da terra.

 

 Queimadas em biomas brasileiros - Organismos Eclesiásticos, Pastorais e Direitos Humanos - 08/10/20:

 

IHU On-Line - Os movimentos religiosos e sociais reclamaram da lentidão do governo em lidar com os incêndios. O que poderia ter sido feito?

Teobaldo Witter - O fogo é instrumento útil para a humanidade há milênios. Tem seu espaço na vida. Mas ele escapou do controle no Pantanal, na Amazônia, no Cerrado e em outras áreas. Aí, não tem jeito; ele arrasa. No entanto, todo ser humano sabe muito bem disso. A história está cheia deste conhecimento, tem muitas experiências. O que faltou? Faltou respeito do governo brasileiro à natureza e às informações da Ciência, que estava anunciando a tragédia. O Pantanal em chamas, e o ministro continuava negando o perigo. Faltou compromisso. Todo fogo pode ser combatido, desde que se assuma a responsabilidade de fazê-lo. O Estado não se comprometeu, deixou tomar conta. O governo está chegando quando o fogo já queimou e está se apagando; é irresponsabilidade total. O governo tem a força nacional, tem exército e outras forças para agir no combate ao fogo. Por que não agiu?

 

 

Tem questões históricas. A ganância humana quer acabar com os biomas. O uso sustentável da natureza deve ser planejado, e podemos tirar dela o sustento humano; isso é direitos humanos. Mas a natureza também tem direito de viver. No entanto o modelo de desenvolvimento é predatório. Até quando a terra vai nos aguentar? É preciso mudar o modelo.

 

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Teobaldo Witter - Sim, desejo lembrar uma bela reflexão que o Concílio da Igreja elaborou no ano 2000, na Chapada dos Guimarães, na região do PantanalMT. Não há como negar. O problema é local, mas não é somente local: é regional, nacional e global. A vida da humanidade está ameaçada. Um grande mal ocupa todos os espaços, e há poderes querendo assumir o papel de Deus. Quem, porém, cede a essa tentação e é detentor de poder, procura despir-se de sua condição de criatura para submeter homens e mulheres, jovens e crianças, a natureza e o mundo a seus próprios interesses. O fruto dessa autossuficiência incorpora-se num verdadeiro ídolo – designado na Escritura como poder do dinheiro (“Mamon”). Esse mesmo ídolo, adorado e venerado, é o fundamento do sistema sócio-econômico-político hegemônico no mundo de hoje. Somos testemunhas de que esse sistema requer sacrifícios, faz suas vítimas e promove dor, sofrimento e morte. Jesus diz: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10.10).

 

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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Pedro descansa onde ele sonhou, na beira do Araguaia, entre um peão e uma prostituta

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Pedro descansa onde ele sonhou, na beira do Araguaia, entre um peão e uma prostituta

13 Agosto 2020

Descansar eternamente em meio àqueles que marcaram sua vida, os que não contam, os que o mundo colocou do lado de fora da história. O desejo de Pedro foi cumprido, ele descansa no cemitério dos Karajás, na beira do Araguaia, que regou sua vida por mais de 50 anos, lá onde eram sepultados os sem nome, lá onde ele sempre sonhou em ficar para sempre, no meio de um peão e uma prostituta.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

Pedro sempre foi um homem cheio de sonhos, “o sonho de Deus, foi o sonho de Pedro também, o sonho do Reino”, como afirmava Dom Adriano Ciocca, bispo de São Félix do Araguaia, na missa exequial celebrada neste 12 de agosto no Centro de Pastoral Tia IrenePedro vai ficar no meio daqueles que foram parte fundamental da sua vida, pois “ele queria justiça, queria fartura, queria alegria, vida plena para todos e para todas. Não importa a raça, não importa o sexo, não importa a cultura, não importa nem a religião”, insistia o bispo.

 

Ao falar desses sonhos de PedroDom Adriano, afirmava que “ele sonhou, e sonhou com os pés no chão, porque não só ficou no sonho, mas ele procurou viver e lutar para que esse sonho se realizasse. O banquete do Reino tem que começar aqui na terra e nós somos responsáveis para que a alegria da partilha, a plenitude da fraternidade tenha pelos menos alguns sinais entre nós”. Esse sonho, presente na vida de Pedro, o tornou realidade. Para que acontecesse esse sonho, “Pedro decidiu seguir Jesus, seu Mestre, na radicalidade, na fidelidade que todos nós conhecemos”, segundo o atual bispo de São Félix, que destacava em Casaldáliga sua disposição para se colocar no no último lugar, Pedro “se fez peão com os peões, se fez índio com os índios, se fez solidário com quem Deus se solidarizou, os abandonados, os excluídos, os escravos”.

Foto: Luis Miguel Modino

Uma postura de vida radical, assim é como Dom Adriano Ciocca definia Dom Pedro, como aquele “que serviu de exemplo e continua servindo de exemplo para nós”. Ele é visto pelo bispo como “uma semente plantada na beira do Rio Araguaia, uma semente que deve crescer, e deve produzir muitos frutos”. Seguindo seu exemplo, Dom Adriano lançava o desafio de “que cabe a nós fazer que aquilo que semeou, aquilo que Pedro acreditou, o modo como ele viveu o Evangelho, nessa dedicação e serviço total, de encarnação plena, possa ser um dos sinais, possa ser a marca registrada e continue definindo nossa Igreja de São Félix do Araguaia, nossa Prelazia”.

 

Mas o exemplo de Pedro tem que se fazer presente na vida do povo, “tem que ser a marca de vida que nós devemos levar, tem que ser essa força de transformação, tem que ser essa força que vai fazer brotar frutos de justiça, frutos de vida, frutos de amor”, insistia Dom Adriano, que via como caminho para que a vida de Pedro possa marcar nossa vida, retomar, meditar seus versos, fazer que eles se tornem parte concreta de nossa existência. O desafio é que “essa luz possa continuar iluminando para que o sonho do grande banquete da vida seja visibilizado, apesar de todos os entraves que nós conhecemos e que estamos vivendo neste tempo”, afirmava o bispo, que agradecia Dom Pedro pelo seu exemplo, sua fidelidade a Cristo.

 

Foto: Luis Miguel Modino

 

Aquele que nunca mais voltou na Catalunha que o viu nascer, nunca esqueceu o que suas origens representavam em sua vida. Aquele Pere que sendo criança corria nas ruas de Balsareny quis que essa terra que pisou se misture com a terra do Araguaia para sempre, algo que foi realizado quando foi colocada a terra de Balsareny no seu caixão junto com um pedra do Mosteiro de Montserrat, referência de fé na vida de todo catalão.

 

A despedida de Pedro foi momento de homenagens, de celebração esperançada. Foram muitos, gente conhecida, mas também o povo anônimo, que quis fazer sua homenagem. Sirvam de exemplo as palavras que desde Manaus enviava o sucessor de Dom Pedro como bispo de São FélixDom Leonardo Ulrich Steiner, que definiu seu predecessor como um místico, “enraizado na terra, na humanidade e em Deus”, alguém livre, ousado, inspirado, de vida simples e despojada, que percorreu as veredas do Evangelho dos pobres, uma prova daquilo que o primeiro bispo de São Félix transmitia com sua vida. Por tudo isso, o arcebispo de Manaus mostrava sua gratidão profunda a Deus e a Pedro, por tudo o que viveu no Vale dos Esquecidos, mas sobretudo pelos pequenos detalhes da convivência.

 

Foto: Luis Miguel Modino

 

Adolfo Pérez Esquivel, que sempre viu Pedro como um sinal de justiça e de paz, também enviava sua mensagem ao amigo. Foram homenagens e palavras de agradecimento que foram repartidas pelos presentes, pelos bispos, pelo povo, também pelos indígenas do povo xavante, que o homenageavam com reverência e admiração, reconhecendo a importância que as lutas de Pedro, um valente guerreiro, tiveram para que hoje, mesmo diante das dificuldades e perseguições, eles continuem vivos, sem perder a esperança.

 

Foto: Raul Vico

 

Pedro está ressuscitado, contemplando o Araguaia desde sua beira, lá onde ele sentava para rezar, para contemplar a obra do Deus Criador, para inspirar sua mente que se traduzia em poesia, em Evangelho encarnado na vida de um povo e uma terra que nunca irão esquecer seu profeta, seu poeta.

 

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