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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Agenda Brasil: tratado de rendição definitiva ao neoliberalismo?

carta maior
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Agenda Brasil: tratado de rendição definitiva ao neoliberalismo?

Entidades denunciam que propostas apresentadas pelo presidente do Senado reduzem o Estado e retiram direitos dos trabalhadores.


Najla Passos
Antônio Cruz / Agência Brasil
Da forma que está sendo negociada - e pelos atores que a estão negociando -, a chamada Agenda Brasil, o conjunto de propostas apresentadas ao governo federal pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), com o objetivo declarado de contribuir com a retomada do desenvolvimento do país, pode significar um tratado de rendição definitiva ao neoliberalismo.
 
“Trata-se de uma agenda extremamente neoliberal, imposta ao governo como uma nota promissória que ele deve assinar para ter o apoio do parlamento”, denuncia Grazielle David, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). “É preciso deixar claro que se trata de uma pauta de interesse do mercado”, alerta o diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz.
 
Uma das autoras do artigo A (des) Agenda Brasil desmonta o Estado e retira direitos dos brasileiros, Grazielle afirma que o documento contém pontos polêmicos que, na sua maioria, apresentam benefícios ao setor privado, em detrimento das questões defendidas por organizações e movimentos sociais.
 
“Em linhas gerais a agenda propõe expressivo encolhimento do Estado, com privatizações, PPPs e concessões, além de diminuição da já frágil autonomia das agências reguladoras; redução das proteções ao meio ambiente com alteração dos marcos jurídicos; perda de direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, em especial à saúde, via esvaziamento do orçamento da seguridade social”, alerta.
 
De acordo com a analista política, a maioria das propostas são matérias de interesse da direita que já tramitam no Congresso e, em outra conjuntura econômica e política, não teriam o apoio deste governo. “Cerca de dois terços das propostas são matérias que já tramitam no Congresso. Portanto, não é uma pauta nova”, alerta.
 
Para o diretor do Diap, a Agenda Brasil não contém nenhuma pauta de interesse dos trabalhadores. E apesar de classificá-la como importante para dar um fôlego ao já muito desgastado governo da presidenta Dilma Rousseff, denuncia no artigo Agenda Brasil: ameaças e oportunidades os pontos que considera mais prejudiciais ao seguimento.
 
Entre eles, a prioridade conferida à regulamentação da terceirização que, em nome de proteger os terceirizados, generaliza a prática para todas as empresas, e a instituição de idade mínima para a aposentadoria, na contramão do que indicam todos os estudos previdenciários. O analista político também critica a quebra da universalidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e a proibição de liminares para fornecimento de medicamentos não disponíveis no sistema.
 
Grazielle acrescenta críticas às propostas que a agenda define como pensadas para melhorar o ambiente de negócios e a infraestrutura, como a blindagem dos contratos de parceria público-privada e a ampliação das concessões dos setores estratégicos. “Essas medidas apresentam elevado risco de entrega do patrimônio público”, avalia.
 
Ela também alerta sobre o risco das propostas de relativização da legislação de proteção ambiental e indígena, já frontalmente atacadas por interesses do grande capital internacional. Exemplos são revisão do marco regulatório da mineração; revisão dos marcos jurídicos que regulam áreas indígenas; avanço da exploração econômica em áreas protegidas; flexibilização do licenciamento ambiental para agilizar e rebaixar condicionantes em grandes obras.  
 
Grazielle acrescenta que o direito à educação também é atacado, a partir da proposta que vincula os gastos com o setor a interesses econômicos e não ao direito e necessidades da população. A tendência, segundo ela, é a redução de recursos para o ensino superior público, o que significa maior enriquecimento das instituições privadas. “Medidas como essa reforçam as desigualdades e retiram oportunidades dos mais pobres”, afirma em seu artigo.
 
Conquista dos movimentos
 
Em reunião com senadores dos mais diversos partidos e ministros da equipe econômica do governo, na quarta (13), Calheiros já incorporou mais duas dezenas de sugestões, principalmente dos seus pares, à agenda apresentada um dia antes. A boa notícia da reunião, conforme Grazielle, foi o anúncio de que o documento não insistiria na proposta de cobrança dos usuários do SUS por faixa de renda, como constava no original, devido à grande reação negativa que a proposta suscitou.
 
De acordo com a analista política do Inesc, a rápida reação dos movimentos sociais que lutam em defesa da saúde foi decisiva para a retirada da pauta. “Os movimentos sociais estão cada vez mais articulados e, logo após a divulgação da agenda, várias entidades e ex-ministros já se posicionaram contra a quebra da universalidade do SUS, o que teve grande repercussão, inclusive na mídia”, afirma.
 
A pesquisadora ressaltou também a atuação expressiva dos movimentos ambientalistas que, tal como os da saúde, atacaram imediatamente o pacote de medidas que visam à flexibilização das legislações ambiental, mineral e indígena. “Os movimentos de defesa do meio ambiente, dos indígenas e dos quilombolas também se articularam muito rapidamente contra o projeto, mas ainda não conseguiram reverter a postura dos senadores de colocar essas pautas em votação”, explica.
 
Potencial positivo
 
Segundo Graziella, são apenas três as pautas da agenda que têm potencial para se transformaram em marcos legais positivos, caso sejam bem elaboradas no parlamento. A primeira delas é a proposta de regulamentação do Imposto Sobre Herança, um tributo que atingiria, no máximo, a renda dos 5% mais ricos da população para ajudar a financiar as políticas sociais do estado.
 
Outra medida que ela elenca como positiva é a proposta de repatriação de ativos financeiros do exterior. “É uma forma que trazer para o país parte do dinheiro que brasileiros, por motivos diversos, depositam em paraísos fiscais”, esclarece. A preocupação é que, dependendo da forma que a matéria seja trabalhada, a evasão fiscal, principalmente de dinheiro proveniente do crime, fique sem punição.
 
Por fim, a pesquisadora cita a proposta de regulamentação do reajuste dos servidores públicos dos três poderes, que hoje dependem apenas do poder de pressão de cada categoria. O diretor do Diap, porém, alerta que essa pauta pode ser uma armadilha, já que a última proposta do gênero aprovada pelo Senado, o o PLP 549/2009, que foi arquivada na Câmara, pretendia congelar os gastos com pessoal.
 
Segundo o projeto, a União só poderia destinar para a despesa de pessoal, incluindo a contratação de novos serviços, até dois 2% além da inflação anual e desde que o PIB não fosse menor que os 2%. “O risco é que se proponha algo semelhante, que na prática impeça até a reposição da inflação, já que a verba destinada ao reajuste incluiria todas as despesas com pessoal, tais como encargos, reposição de servidores aposentados e contratos de novos servidores, crescimento vegetativo da folha (progressões e promoções), despesa com previdência complementar, e isso poderia congelar as despesas com pessoal”, esclarece.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O catastrofismo, uma via para a catástrofe

http://cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/O-catastrofismo-uma-via-para-a-catastrofe/2/33654


O catastrofismo, uma via para a catástrofe

O futuro se constrói abrindo novos horizontes, novas perspectivas, novas utopias, resgatando o que fomos capazes de construir.

por Emir Sader em 05/06/2015 às 08:03




Emir Sader
- Seguir no labirinto ou jogar tudo pela janela? O falso dilema -
 
Quando a história nos coloca dilemas difíceis de resolver, o catastrofismo é um bom consolo: tudo vai para o pior dos mundos. Ou mudamos tudo radicalmente, abandonando tudo o que foi feito até aqui ou despencaremos inevitavelmente no abismo que nos aguarda ali na esquina.
 
Nessas visões coincidem vozes distintas. Por um lado, as bem intencionadas, que acusam como as formas predatórias de vida predominantes dilapidam os recursos naturais, aprofundam formas de vida irresponsáveis, fazem o mundo se aproximar de catástrofes naturais e sociais. São vozes que absolutizam tendências realmente existentes, sem levar em conta as contra tendências. É o problema de todo catastrofismo: isolam tendências e as projetam para o futuro, sem tomar em consideração as outras diretrizes igualmente presentes, de forma contraditória, na realidade concreta. Terminam se refugiando numa visão escatológica, que não capta os movimentos e as contra tendências que disputam a hegemonia no mundo realmente existentes. São vozes que sempre existiram e servem como chamados morais sobre os riscos presentes nos dilemas atuais, sem servir para orientar a construção de vias alternativas nos marcos históricos do mundo real.
 
Por outro, estão as aves de rapina, aquelas que só aparecem quando aparentemente não existem alternativas concretas e eles pretendem apontar para soluções messiânicas, que jogariam tudo pela janela, para aderir a suas visões intelectualistas e sem nenhum vínculo com a realidade concreta. São fabricantes de programas para todo politico que lhe solicite, de distintas tendências, dispostos a contratar seu verbo. São os mesmos que haviam anunciado catástrofes irresolúveis no fim do século passado e nunca se renderam aos avanços que países como o Brasil e outros da região conseguiram avançar, em meio a labirintos que pareciam insolúveis.
 
Simples é abandonar o caminho quando parece que todas as vias apontam para a mesma direção, quando parece que os labirintos nos condenam a repetir caminhos sem saída. Dificil é seguir a sábia orientação: de um labirinto se sai por cima, ao invés de ficar rodando interminavelmente pelos seus meandros de sempre.
 
O ceticismo que corre solto por aí, típico de época em que as alternativas não aparecem claras, joga tudo pela janela.  Como não valoriza a forma espetacular de reação dos governos progressistas latino-americanos a uma situação similar a esta – em que parecia que não se sairia mais nem do neoliberalismo, nem do endividamento com o FMI -,  afirma que nada de importante aconteceu neste século.
 
Senão, teria que valorizar que o continente mais desigual do mundo – e, dentro dele, em especial o Brasil, o pais mais desigual do continente mais desigual – tenha conseguido diminuir a pobreza, a miséria, a exclusão social e a desigualdade. Tendo construído, num marco internacional e recebendo uma herança maldita, um modelo que conseguiu retomar o crescimento econômico intrinsecamente vinculado à maior distribuição de renda que nossa historia já conheceu.
 
O Brasil precisa dar uma virada na sua trajetória. O esquema montado por Lula entrou em crise.  Mas a alternativa não pode desconhecer tudo o que foi construído. Ao contrário, terá como objetivo a forma de preservar e aprofundar tudo o que foi conquistado. Não se trata nem de retroceder ao que havia antes, nem de desconhecer tudo o que foi avançado.
 
O futuro se constrói abrindo novos horizontes, novas perspectivas, novas utopias, mas resgatando o que fomos capazes – contra vento e tempestade, contra todos os ceticismos e os catastrofismos – de construir.
 
Tags: Economia, Política 

domingo, 14 de junho de 2015

Grécia: encurralada pelos países ricos

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Grecia-encurralada-pelos-paises-ricos/6/33717


Grécia: encurralada pelos países ricos

A Grécia se coloca o verdadeiro adversário do 'status quo'. O objetivo ao combatero Syriza é demostrar que a esquerda não pode dirigir um país europeu.


Roberto Savio
Theophilos Papadopoulos /  Flickr
ROMA, junho (IPS) – Cinquenta anos de Guerra Fria e o fato de que Angela Merkel cresceu onde então era a Alemanha Oriental poderiam explicar, possivelmente, a curiosa influência política que os Estados Unidos exerce sobre a Europa.
 
Uma reunião bilateral entre Merkel e o presidente estadunidense Barack Obama, durante a cúpula do grupo dos sete países mais ricos do planeta (G-7) – na cidade alemã de Elmau, nos dias 7 e 8 deste mês –, terminou com um acordo para solucionar os problemas de ambos os países.
 
A mandatária germânica aceitou que a União Europeia (UE) continue aplicando sanções à Rússia, o que induziu os demais países a seguir sua decisão. Por sua parte, Obama modificou a posição de Washington a respeito da ajuda econômica à Grécia.
 
Essa postura foi claramente expressada aos líderes europeus alguns dias antes, pelo secretário do tesouro estadunidense, Jack Lew, que defendeu a necessidade de o problema grego para evitar um impacto global que não se deve permitir.
 
Essa posição acelerou repentinamente as negociações, com a esperança de que tudo se resolveria antes da cúpula do G-7.
 
Mas a Grécia não aceitou o plano que foi apresentado pelo presidente da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, porque era suspeitosamente semelhante à postura do Fundo Monetário Internacional (FMI), a favor de mais cortes de gastos sociais e mais austeridade.
 
Na cúpula, Obama endureceu essa posição dos Estados Unidos a respeito da Grécia, ao dizer, de forma imperativa, que “Atenas deve executar as reformas necessárias”.
 
A queda de braço entre a Grécia e seus sócios europeus já dura cinco anos.
 
A crise grega foi produzida pelos gastos excessivos dos que precederam o atual governo de Alexis Tsipras, que levaram a um aumento em grande escala do emprego público e a um sistema de previdência extremadamente oneroso.
 
Em 2009, o Movimento Socialista Pan-helênico (Pasok) ganhou as eleições e foi revelado que as cifras econômicas que Atenas enviava a Bruxelas eram falsas.
 
O deficit anual real era várias vezes superior ao declarado, de quase 12,5% do produto interno bruto (PIB). Foi a confirmação do que a UE e seus organismos suspeitavam há muito tempo, apesar de que nada havia sido feito ainda.
 
Sem entrar em detalhes sobre as angustiantes negociações anteriores entre a Grécia e a UE, se chega às eleições de janeiro deste ano, com a vitória do Syriza, o partido progressista de Tsipras.
 
Seu programa era claro: rechaçar o plano de austeridade imposto pela Troica, o FMI, a UE e o Banco Central Europeu – iniciativa impulsada por Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia.
 
A Grécia está de joelhos. Oficialmente, o desemprego saltou de 11,9% em 2010 para 25,5% na atualidade, mas alguns concordam que, na realidade, esse número já deve estar próximo dos 30%.
 
Entre os jovens, a ociosidade chega a alcançar os 60%. O PIB caiu 25%, os cidadãos gregos perderam ao redor de 30% de sua renda média e o gasto público foi reduzido de tal forma que os hospitais têm grandes dificuldades para funcionar minimamente.
 
Contudo, a exigência da Troica é simples: cortem e sigam cortando até a eliminação do deficit.
 
Por exemplo, a previdência sofreu cortes importante, e já foi solicitada uma nova redução. Com isso, foi possível economizar apenas 100 milhões de euros, e causar um prejuízo enorme aos aposentados e pensionistas que vivem com 685 euros por mês – alguns com até menos que isso.
 
Quando Juncker assumiu a presidência da Comissão Europeia (o órgão executivo da UE), anunciou um grandioso Plano Marshall para o continente. Após sua proclamação, porém, o projeto desapareceu completamente.
 
A austeridade é a brecha que divide as opções dos Estados Unidos e da União Europeia.
 
Os norte-americanos escolheram o caminho do investimento para o crescimento – apesar da pressão do opositor Partido Republicano a favor da austeridade –, e a economia está crescendo de novo.
 
Mas na Europa liderada pela Alemanha, se impôs a tese – com a insistência dos próprios alemães – de que o exemplo germânico é universalmente válido.
 
Existe um consenso generalizado de que a crise da Grécia, que representa somente 2% do PIB da UE, poderia ter sido solucionada logo no começo, com um empréstimo de algo entre 50 e 60 bilhões de euros (56 e 68 bilhões de dólares).
 
Mas desde que Tsipras se tornou primeiro-ministro, e graças ao apoio popular da vitória eleitoral, o governo grego começou a se negar a implantar o plano dos credores e a Grécia se transformou num tema de grande importância.
 
Agora se fala num possível “Grexit”, a saída da Grécia da Zona Euro e da União Europeia. Algo que poderia gerar um efeito dominó, e significaria o fim do sonho de uma Europa baseada na solidariedade e no sentido de comunidade.
 
No G-7, Obama insistiu nos investimentos e no estímulo à demanda como uma forma de sair da crise. Merkel reiterou uma vez mais que a Europa não necessita de estímulos financiados pelo endividamento, mas sim de incentivos procedentes da reforma das economias ineficientes.
 
Este espetáculo me faz lembrar de uma frase do famoso jornalista cingalês Tarzie Vittachi: “tudo sempre é sobre outra coisa”.
 
É interessante observar que uma das razões citadas para justificar a para postura dura contra o Syriza é que os cidadãos da Espanha, de Portugal e da Irlanda, os primeiros que tragaram a amarga pílula da austeridade, se indignariam se a Grécia pudesse optar por um caminho diferente. Casualmente, esses três países possuem governos conservadores.
 
Todo o sistema político europeu se estremeceu quando Syriza ganhou as eleições, e voltou a se sacudir dias atrás, quando as eleições regionais espanholas terminaram com uma vitória do Podemos, o partido de nova esquerda, contrário à austeridade.
 
Por alguma razão, o governo húngaro de Viktor Orbán, extremamente autoritário e conservador, a recente vitória do também muito conservador Andrzej Duda na Polônia, assim como o crescimento de Matteo Salvini na Itália, mesmo sendo parte da xenófoba e antieuropeísta Liga Norte, não criam nenhum pânico.
 
No panorama atual, a Grécia se coloca o verdadeiro adversário do “status quo”. O objetivo ao combater Tsipras e o Syriza é castigar uma figura antissistema e demostrar que a esquerda radical não pode dirigir um país europeu.
 
Porém, alguém realmente acredita que as massas de cidadãos em Madrid, Lisboa ou Dublín iriam às ruas para protestar se a Europa fizesse um salto mortal de solidariedade e idealismo, e decidisse atenuar suas draconianas exigências à Grécia?
 
* Jornalista ítalo-argentino. Cofundador e ex-diretor-geral de Inter Press Service (IPS). Nos últimos anos, também fundou Other News, um serviço que proporciona “informação que os mercados eliminam”. Other News – em espanhol: http://www.other-news.info/noticias/ em inglês: http://www.other-net.info/


Créditos da foto: Theophilos Papadopoulos / Flickr

sábado, 13 de junho de 2015

Stiglitz: a Europa brinca à beira do abismo

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Stiglitz: a Europa brinca à beira do abismo

Exigências absurdas à Grécia revelam governantes incapazes tanto de agir solidariamente quanto de compreender riscos de sua ambição e cegueira.


Joseph Stiglitz, prêmio nobel de Economia
outraspalavras.net
Atenas atendeu a bem mais da metade das demandas de seus credores. Mas os governos da Alemanha e de outros países continuam a exigir que Atenas assine um programa que comprovadamente fracassou, e que poucos economistas acreditam que poderia, deveria ou seria implementado.

A mudança na situação fiscal da Grécia, de um grande déficit primário para um superávit, foi quase inédita, mas a exigência de que o país obtivesse o superávit primário de 4,5% do PIB foi insana. Infelizmente, no momento em que a “troika” – Comissão Europeia, Banco Central Europeu-BCE e Fundo Monetário Internacional – incluíram esta reivindicação irresponsável no programa de financiamento internacional para a Grécia, as autoridades do país não tinham escolha, exceto aceitá-la.

A loucura de continuar perseguindo este programa é particularmente aguda agora, depois que o PIB da Grécia declinou 25% desde o início da crise. A troika avaliou muito mal os efeitos macroeconômicos do programa que impôs. Segundo suas previsões oficiais, acreditavam que, após a redução de salários e outras medidas de austeridade, as exportações gregas cresceriam e o país logo retomaria o crescimento. Também supunham que a primeira reestruturação dos débitos levaria a uma dívida sustentávavel.

As previsões da troika fracassaram repetidamente. E não por pouco, mas por uma margem enorme. Os eleitores gregos estavam certos quando exigiram uma mudança de trajetória, e seu governo está certo quando se recusa a assinar um programa profundamente falho.

Isso dito, é importante lembrar que há espaço para um acordo. A Grécia deixou clara sua vontade de realizar reformas e saudou o possível apoio da Europa na implementação de algumas delas. Uma dose de realismo por parte dos credores – sobre o que é alcançável e sobre as consequências macroeconômicas de diferentes tipos de reforma fiscal e estrutural – poderia criar as bases para um acordo bom não apenas para a Grécia, mas para toda a Europa.

Mas na Europa, e especialmente na Alemanha, alguns parecem indiferentes quanto a uma possível saída da Grécia da zona do euro. O mercado, dizem eles, “já precificou” tal ruptura. Alguns até sugerem que ela seria útil à união monetária.

Estou convencido que tais pontos de vista subestimam gravemente os riscos envolvidos – tanto presentes, quanto futuros. Um grau similar de alienação era evidente nos Estados Unidos, antes do colapso do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. A fragilidade dos bancos norte-americanos era conhecida há muito – ao menos desde a quebra do Bear Stearns, meses antes. Mas, dada a falta de transparência (devida em parte à frágil regulação), tanto os mercados quanto os políticos não enxergaram completamente os laços e o risco de contágio entre as instituições financeiras.

Ocorre que o sistema financeiro mundial ainda sofre os choques derivados do colapso do Lehman. Os bancos permanecem opacos, e portanto sob risco. Não sabemos a extensão real dos vínculos entre as instituições financeiras, inclusive aquelas mergulhadas em derivativos e operações de troca de dívida vencida não transparentes.

Na Europa, já é possível ver algumas das consequências da regulação inadequada e do desenho torto da própria zona do euro. Sabemos que a estrutura da eurozona encoraja a divergência, não a convergência: quando o capital e pessoas talentosas deixam as economias atingidas por crises, estes países tornam-se menos capazes de pagar suas dívidas. Quando os mercados percebem que uma espiral descendente viciosa está estruturalmente associada ao euro, as consequências da próximacrise tornam-se profundas. E outra crise é inevitável: isso está na própria natureza do capitalismo.

O truque de confiança do presidente do BCE, Mario Draghi – na forma de sua declaração de 2012, segundo a qual as autoridades monetárias farão “o que fosse necessário” para preservar o euro – funcionou até agora. Mas a percepção de que preservar a eurozona nãoé um compromisso pétreo, entre seus membros, tornará este truque muito mais frágil, da próxima vez. Os juros impostos aos títulos dos países devedores poderiam disparar, e nenhuma declaração de conforto do BCE ou dos líderes europeus seria suficiente para baixá-los de níveis estratosféricos, porque o mundo agora saberia que tais autoridades não farão “o que for necessário”. O exemplo grego teria demonstrado que elas farão o que os cálculos de curto prazo da política eleitoral demandarem…

Temo que a consequência mais importante seja o enfraquecimento da solidariedade europeia. Esperava-se que o euro pudesse fortalecê-la. Ele provocou o efeito oposto.

Não é de interesse da Europa – ou do mundo – afastar um país periférico europeu de seus vizinhos, especialmente agora, quando a instabilidade política é tão evidente. O Oriente Médio está em chamas. O Ocidente tenta conter a Rússia. A China, já hoje a maior fonte mundial de poupança, o país com maior comercio externo e a maior economia (se levado em conta o poder de compra das moedas) confronta o Ocidente com novas realidades econômicas e estratégicas. Não é hora de uma Desunião Europeia.

Os líderes europeus viam a si mesmos como visionários, quando criaram o euro. Pensavam enxergar além das demandas de curto prazo que normalmente ocupam os líderes políticos.

Infelizmente, sua compreensão sobre Economia foi menor que sua ambição; e a política daquele momento não permitiu criar uma estrutura institucional que tivesse permitido ao euro funcionar como se esperava. Embora se acreditasse que a moeda única traria prosperidade inédita, é difícil detectar um efeito positivo para a zona do euro como um todo, no período anterior à crise. Quando ela sobreveio, os efeitos adversos foram enormes.

O futuro da Europa e do euro depende agora de uma pergunta. Seus governantes serão capazes de combinar algum entendimento de Economia com sentido visionário e preocupação com a solidariedade europeia? Provavelmente, começaremos a descobrir a resposta desta questão existencial nas próximas semanas.
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A tradução é de Antonio Martins, do OutrasPalavras.net. Contribua aqui com o OutrasPalavras.


Créditos da foto: outraspalavras.net



sábado, 16 de maio de 2015

Por trás da fome, as verdades da economia e da política. Artigo de Amartya Sen

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542627-por-tras-da-fome-as-verdade-da-economia-e-da-politica-artigo-de-amartya-sen


Por trás da fome, as verdades da economia e da política. Artigo de Amartya Sen

Uma grande variedade de temas econômicos, sanitários, sociais e políticos, de fato, está ligada à permanência da fomeendêmica e das carestias recorrentes. Devemos entender profundamente muitas relações de causa e efeito, se quisermos conseguir vencer e, por fim, apagar o fantasma da fome no mundo.
A opinião é do economista e filósofo indiano Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia de 1998, em artigo publicado no jornal La Stampa, 14-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A persistência generalizada da fome no mundo, um mundo muito mais rico do que antigamente, é um problema que encerra um desafio. Devemos compreender as causas tanto da fome endêmica de que sofre uma parcela significativa da população mundial, quanto do surto recorrente de fomes que matam um grande número de pessoas e abalam a vida de muitas outras.
A primeira coisa a se esclarecer é que devemos considerar a falta de alimentos como um problema econômico.
É um problema econômico em vez de um "problema alimentar" em sentido estrito. Há mais de 40 anos, em 1981, em um livro intitulado "Pobreza e fomes", eu tentei usar um conceito que defini como "capacidade de obter comida" para explicar as fomes, mas a mesma ideia também serve para entender as causas da fome nas suas diversas manifestações, endêmica, moderada e às vezes catastrófica.
A ideia de base da capacidade de obter comida é extremamente simples. Porque os alimentos e os outros recursos não são distribuídos gratuitamente à população. A sua utilização depende, por força, de coisas da cesta de bens e serviços que podemos nos dar ao luxo de comprar.
Em uma economia de mercado, a variável que conta é a quantidade de alimentos que uma pessoa pode adquirir, tanto diretamente, quanto por tê-los produzido no seu próprio lote de terra.
A existência de grandes quantidades de alimentos no mundo ou no mercado local, por si só, não torna mais fácil o problema de ter comida suficiente para se alimentar. O que podemos comprar depende das nossas rendas, e isso, por sua vez, depende daquilo que temos para vender.
A fome e a privação são o resultado do fato de que as pessoas não têm o suficiente para comer, e não o fato de que não haja isto no país ou na região. Depois, é preciso considerar também outros fatores, incluindo a distribuição de alimentos dentro da família. Nem todos os seus membros têm renda: as crianças e as pessoas muito idosas não o têm, e, em muitas sociedades, as mulheres trabalham em casa, mas não são elas que levam o pão para casa.
A condição dos membros da família depende, por conseguinte, das regras que regem a distribuição dos alimentos. A análise da situação, por isso, deve ser ampliada e compreende as problemáticas relacionadas às normas sociais e às convenções que estabelecem quem tem direito a quê.
Por exemplo, é típico das sociedades sexistas considerar que as mulheres têm menos direito de atenção no âmbito da família em relação aos homens ou que as meninas têm menos título de receber uma boa comida ou bons tratamentos médicos, e tudo isso demonstra a necessidade de ampliar a ideia de "capacidade" no que diz respeito às regras e aos costumes.
Essas convenções e essas normas relativas à partilha dos alimentos e dos outros recursos requerem um exame atento e, muitas vezes, reformas ponderadas.
A fome e as carestias, finalmente, não são influenciadas apenas por fatores econômicos e sanitários, mas também pelo sistema político. Isso vale especialmente para as fomes que ocorrem nas sociedades autoritárias, onde não há nenhuma participação no processo decisional da política, como acontece, ao contrário, nas democracias.
Quando uma democracia é realmente tal, o governo está sujeito a exame e exposto às críticas e não pode permitir que se verifiquem as condições para uma fome. Por outro lado, um ditador pode sobreviver a uma carestia fazendo uso do seu poder. A ocorrência de uma fome é sempre influenciada pelo sistema político e, em geral, é prevenido graças às práticas da participação democrática, como eleições regulares, jornais cotidianos e meios de comunicação não sujeitos a censura.
A ideia da "capacidade" dos indivíduos, portanto, abre a porta para muitas áreas de intervenção. Uma grande variedade de temas econômicos, sanitários, sociais e políticos, de fato, está ligada à permanência da fome endêmica e das carestias recorrentes.
Devemos entender profundamente muitas relações de causa e efeito, se quisermos conseguir vencer e, por fim, apagar o fantasma da fome no mundo.

sexta-feira, 6 de março de 2015

E se Outro Dinheiro for possível?

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http://outraspalavras.net/destaques/e-se-outro-dinheiro-for-possivel/

E se Outro Dinheiro for possível?

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151024-Dinheiro2
Tentativa de sufocar financeiramente a Grécia demonstra: não será possível mudar o mundo sem criar novas relações com moeda e crédito
Por George Monbiot | Tradução: Antonio Martins
Compare as exigências feitas ao governo grego com as facilidades oferecidas aos bancos que provocaram a crise financeira de 2008. Os ministros da zona do euro insistem na rendição incondicional de Atenas: uma humilhação nacional que zomba da democracia. Mas quando os bancos foram socorridos, os governos inventaram o dinheiro necessário quase sem exigir condição alguma. Pediram timidamente algumas poucas reformas; e fingiram que não viram, quando os banqueiros as desrespeitaram.
O governo alemão, que agora dedica-se a infernizar a vida no sul da Europa, apenas arranhou seus próprios bancos. Como relatou o New York Times, embora o corrupoto sistema bancário alemão “necessitasse de um resgate maior que o destinado aos bancos norte-americanos”, “houve pouco apetite para mudanças, porque o sistema bancário está imbricado demais com a política, servindo como fonte permanente de patrocínio e financiamento para projetos locais”.
Os gregos estão certos, quando reclamam que foram reduzidos a súditos coloniais, mas os senhores não são os governos no Norte da eurozona. São os bancos privados. Os governos que parecem determinados a destruir um Estado soberano por sua ousadia são apenas intermediários do poder.
Nada disso procura negar a corrupção e promiscuidade fiscal dos governos gregos anteriores. Mas enquanto os bancos escaparam, tendo praticado atos muito piores, os valentões da eurozona insistem em extrair até a última gota de sangue dos povos que não foram responsáveis pela irresponsabilidade de seus governos.
TEXTO-MEIO
A Grécia chegou ao fim da linha – é o que se diz. Talvez. Ou, talvez, haja possibilidades que ainda não examinamos com atenção, espaços para esperança em meio à ruína.
Uma ideia radical, sobre dívida e dinheiro, foi proposta há alguns meses por Martin Wolf, editorialista do Financial Times. Ele propõe retirar dos bancos privados seu notável poder de criar dinheiro a partir do nada. Por poderem emitir crédito, eles fornecem entre 95% e 97% do dinheiro disponível nas sociedades. Se os Estados estabelecessem monopólio na criação de dinheiro, os governos poderiam ampliar a oferta sem criar dívida. A senhoriagem (diferença entre o custo de produzir dinheiro e seu valor) favoreceria o Estado, somando bilhões aos cofres públicos. Os bancos seriam reduzidos a servidores, e não mais senhores, da economia.
"Zero Cruzeiro" de Cildo Meireles
“Zero Cruzeiro” (1978), de Cildo Meireles
Um enfoque inteiramente distinto foi proposto por Ann Pettifor, em Just Money — How Society Can Break the Despotic Power of Finance[Dinheiro Justo – Como as sociedades podem quebrar o poder despótico das Finanças, sem edição em português] – um livro fascinante, ainda que mal escrito e caótico. Ela argumenta que os governos não foram capazes de entender o que é o dinheiro. Ele não deveria ser visto como uma mercadoria, argumenta Ann, mas como uma relação social baseada em confiança. Algo raro, para uma crítica radical das finanças, ela enxerga a criação de dinheiro pelos bancos privados como “um grande avanço civilizacional”, à sua época – porque libertou as nações dos usurários que antes monopolizavam e restringiam o acesso à riqueza monetária.
A oferta de dinheiro é, na verdade, ilimitada: enquanto houver atividade produtiva suficiente para absorvê-lo, não há razão óbvia alguma para restringir o volume de dinheiro que pode ser emitido. Portanto, quando os governos e os bancos centrais disserem que o dinheiro acabou, prossegue Pettifor, ou eles estarão mentindo para nós, ou para si mesmos. O que limita a atividade econômica é uma restrição desnecessária e artificial dos meios de troca.
O grande avanço civilizacional da atividade bancária foi destruído por meio de sua desregulamentação, cujo resultado foi uma novo sistema de usura, especulação e exploração. Os bancos privados emprestam por muito o dinheiro que recolhem por quase nada, forçando-nos a trabalhar cada vez mais e a devastar ainda mais a natureza para honrar nossas dívidas. Pettifor sugere que os governos deveriam reassumir o controle sobre as taxas de juros em todos os níveis das operações de crédito.
Mas é possível que as maiores transformações possam se dar em plano local. A Grécia já tem algumas moedas locais, que mantiveram a circulação de dinheiro em diversas cidades, já que não podem ser recolhidas (há sistemas similares em muitos países). Mas, estranhamente, ainda não se utiliza um sistema marcante e transformador que por pouco não salvou a Europa do fascismo: a moeda desenvolvida pelo economista Silvio Gesell, baseada num vale-selo. Ele é explicado em The Future of Moneyum livro magnífico de Bernard Lietaer.
Em sua forma original, o vale-selo era um pedaço de papel onde estavam impressos diversos quadradinhos. A moeda perdia validade exceto se um selo, que custava 1% de seu valor, fosse fixado num dos quadradinhos, a cada mês. Em outras palavras, a moeda perdia dinheiro ao longo do tempo, de modo que não havia incentivo para acumulá-la. Projetos de vale-selo multiplicaram-se na Alemanha e Áustria, quando as moedas nacionais entraram em colapso no início dos anos 1930. Em 1932, por exemplo, a cidade austríaca de Wörgl quase quebrou, por se tornar incapaz de financiar as obras públicas, ou de apoiar sua população empobrecida. Até que o prefeito soube da proposta de Gesell.
Ele usou os poucos fundos que restavam nos cofres públicos como garantias para os vales-selos – e usou-os para pagar uma obra. Os trabalhadores faziam a moeda circular tão rapidamente quanto possível. Como mágica, este pequeno volume de dinheiro manteve-se em circulação, permitindo que Wörgl repavimentasse suas ruas, reconstruísse o sistema de abastecimento de água, construísse novas casas, uma ponte e até uma pista de ski. Nos 13 meses que durou a experiência, as notas circularam centenas de vezes, criando entre 12 e 14 vezes mais emprego do que teria feito a moeda convencional. O desemprego acabou, e a venda de selos garantiu, sozinha, um restaurante gratuito que alimentava 220 famílias.
Os governos da Alemanha e da Áustria, profundamente ameaçados pelo sucesso destes projetos, liquidaram-nos. O emprego desabou de novo, e um pintor austríaco, tresloucado porém carismático, encontrou o caminho para o poder que buscava há muito.
Quando o grande economista norte-americano Irving Fisher examinou estes experimentos, ele concluiu que “a aplicação correta do vale-selo revolveria a crise de depressão nos Estados Unidos em três semanas. Mas o governo de Roosevelt, ciente de que tais moedas poderiam acarretar, para o governo federal, vasta perda de poder, prontamente as baniu.
Tais ideias poderiam ser úteis para a Grécia e outros países. Não sei. Mas se Atenas abandonar o euro, talvez possa se abrir um mundo de possibilidades, para as quais temos permanecido de olhos fechados.