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sábado, 13 de junho de 2015

Nos escombros de Gaza, nova resistência

http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=161749


Nos escombros de Gaza, nova resistência

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Crianças convivem com a tragédia da guerra.
Crônica fotográfica de uma viagem, em palavras e imagens: nos ferros retorcidos dos brinquedos que ainda restam, meninos e meninas se divertem, como se não tivessem a infância roubada
Texto e fotos de João Laet*, na Adital
É indescritível a experiência de percorrer os bairros da Faixa de Gaza e ver de perto o cenário de guerra deste pequeno território — um enclave palestino pobre e superpovoado, controlado pelo Hamas. Diante do quadro trágico com que nos deparamos, nos perguntamos se não é otimista a previsão da ONU [Organização das Nações Unidas] de que a situação de miséria dos cidadãos desta região poderá se modificar ao longo dos próximos 15 anos, se o bloqueio imposto por Israel e Egito for suspenso. Centenas de prédios públicos e privados, escolas, parques, pontes e grande parte da infraestrutura não resistiram aos sucessivos ataques lançados pelo exército israelense por terra e ar.
Ao mesmo tempo, impressiona observar a persistência e a capacidade de resistência heroica dos sobreviventes, que insistem em tentar manter a rotina de vida e de trabalho em meio aos escombros de suas lojas e casas comerciais deste pequeno território de 352 km², situado junto ao Mediterrâneo, a sudoeste de Israel e na fronteira com o Egito, onde vivem 1,5 milhão de palestinos.
Talvez tenha sido a capacidade dos palestinos que ali vivem de resistir aos sucessivos ataques que sofrem há décadas, com maior ou menor intensidade, que me levaram a decidir viajar para a região e registrar, como fotógrafo, aquela realidade tão cruel. O número de vítimas desta guerra sem fim é alarmante. Só na operação Borda Protetora, desencadeada por Israel no período de 8 de julho a 26 de agosto, 2.157 palestinos morreram em Gaza, entre eles crianças, mulheres e idosos. Outros 11 mil ficaram feridos. Do lado israelense, as baixas foram muito menores: 73 mortos, dos quais 69 soldados e 4 civis. Esses dados revelam com nitidez o desequilíbrio de forças entre os dois lados.
Na verdade, os conflitos entre palestinos e israelenses começaram no início do século passado. Entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, quando houve uma migração em massa de judeus procedentes de vários países para a Palestina. Como não podia deixar de ser, isso mudou totalmente a demografia local. A região, habitada majoritariamente por árabes, passou a receber uma população judaica a cada dia em maior número.
Hoje, apesar da destruição que se vê por toda parte, os homens continuam trabalhando e as mulheres mantêm, como podem e apesar das inúmeras dificuldades, os afazeres domésticos do dia a dia. Em vários bairros, as crianças convivem com a tragédia da guerra, que é o dia a dia delas. Uniformizadas, vão para o que restou das escolas com as paredes perfuradas por balas, assistem às aulas, brincam no recreio, cantam e dão vivas a Alá. As jovens professoras parecem conseguir manter uma certa normalidade. A maioria delas não se deixa fotografar. Nos ferros retorcidos dos brinquedos que ainda restam nos locais onde um dia existiram parques, meninos e meninas se divertem, como se não tivessem a infância roubada pela guerra fratricida dos adultos.
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Estudantes vão para o que restou das escolas com paredes perfuradas por balas. Foto: João Laet.
Um israelense que conheci em Jerusalém contou que durante o último conflito o Hamas lançou 4.594 foguetes a partir de Gaza. Seiscentos foram interceptados pelo Iron Dome, o sistema antimíssil de Israel. Sessenta atingiram áreas habitadas e o restante caiu no mar ou no deserto.
Depois de 10 dias em Jerusalém, parti para Gaza, o foco de minha viagem. Contratei um carro para me levar para o GPO (Goverment Press Office) e, de lá, seguir direto para Gaza. O desafio era não ter nenhum tipo de problema ou demora para pegar a carteira de imprensa local, sem a qual não entraria em Gaza, e chegar a tempo no Portão Erez, único acesso via Israel para Gaza, que fechava às 15h30min.
Cruzei a fronteira com uma equipe do Médicos sem fronteiras, que conhecera em Jerusalém. A entrada na Faixa de Gaza lembra um pequeno aeroporto. Chega-se através de um corredor, com um pé direito muito alto, envidraçado, com várias placas de vidro quebradas pelo abalo dos bombardeios e apenas dois guichês funcionando. A sensação é de estar entrando em um presídio moderno, com detectores de metais e diversas portas giratórias. Ao fundo, uma porta automática que lembra a de um elevador de carga. Depois dela, finalmente, a Faixa de Gaza.
A porta se fechou atrás de mim. Dali, seguimos 800 metros andando num corredor gradeado. A impressão de estar numa cidade presídio se repetiu ao longo da viagem e, principalmente, na volta, quando a revista israelense foi muito mais minuciosa.
Em novembro de 1998, os moradores de Gaza receberam com euforia a inauguração do primeiro aeroporto, batizado Yasser Arafat, em homenagem ao ex-líder da Autoridade Palestina e presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Entretanto, dois anos depois, o aeroporto foi destruído pelos conflitos com Israel. Hoje, as pistas se transformaram em local de passagem de beduínos e suas ovelhas.
Em Gaza, fiquei hospedado no hotel Oriente. O quarto era mais espaçoso que o do hotel em que ficara em Jerusalém: cama de casal e outra de solteiro, banheiro com uma grande pia, escrivaninha, frigobar, armário, acarpetado, de frente para o mar. Embora não tenha sido atingido por bombardeios até minha estadia lá, as consequências da guerra são visíveis: a água é salobra, há goteiras em todos os cômodos e, apesar de um barulhento gerador, só há fornecimento de energia durante seis horas por dia.
Proibição da entrada de materiais de construção impede reconstrução da infraestrutura dos bairros. Foto: João Laet.
Proibição da entrada de materiais de construção impede reconstrução da infraestrutura dos bairros. Foto: João Laet.
Hospitalidade
Um traço comum nos palestinos é a hospitalidade. Todos que, de alguma forma, me ajudaram e também às pessoas com as quais trabalhei — tradutor, guia e motorista — fizeram questão de me receberem para jantares e almoços. Em todos esses momentos, apenas os homens confraternizam. As mulheres, embora cobertas da cabeça aos pés, não participam.
Gaza é um território pobre, mas não miserável. Nos bairros que percorri, não vi morador nem criança vivendo na rua. Não encontrei áreas de lazer frequentadas por homens e mulheres solteiros: nem cinema, nem teatro. Drogas e bebida alcoólica, nem pensar. Uma curiosidade: não existe sinal de trânsito.
TEXTO-MEIO
Chamou minha atenção o fato de não existir violência urbana em Gaza. Andei sozinho à noite pelo centro de Gaza, no cais do porto, na praia, a qualquer hora do dia e da noite. Em Jerusalém e Tel Aviv presenciei confrontos entre militantes israelenses e palestinos, mas não vi assaltos.
Médicos sem fronteiras
Mais de dez mil feridos mantêm os hospitais de Gaza no limite do atendimento, enquanto os profissionais de saúde do Médicos sem fronteiras se desdobram. Estrangeiros e palestinos, homens e mulheres, formam uma equipe incansável. Com a ajuda de voluntários, eles fazem verdadeiros milagres para salvar vidas mutiladas por bombas e mísseis. Percorri o centro de fisioterapia com total liberdade. A única orientação que recebi foi a de tomar cuidado antes de fotografar mulheres, por razões culturais, e homens jovens, porque poderiam ser pessoas procuradas pelo governo de Israel.
Além dos feridos pela guerra e por acidentes de trânsito, vi muitas crianças queimadas por água fervendo, devido ao hábito de tomar chá e café. Como todos os palestinos que moram em Gaza, os médicos locais não podem sair dali. Só os resta aguardar o próximo ataque.
No caminho para o escritório da organização Médicos sem fronteiras, muita destruição. Cerca de 50 mil casas e edifícios públicos sofreram danos graves ou foram totalmente destruídos pelos bombardeios israelenses, que provocaram o deslocamento de mais de 100 mil palestinos.
Quem teve a residência destruída foi para casas de parentes ou está abrigado nas escolas da ONU. Chamou minha atenção o fato de muitas famílias voltarem para suas casas, apesar do estado precário das construções. Elas vivem o cotidiano em meio aos escombros quase com naturalidade.
Hamdan Hamada mostra o depósito de sua fábrica de molhos totalmente destruído. Ele espera ansioso a chegada dos materiais de construção para poder reativar sua indústria, que tem 60 funcionários, agora sem ter como ganhar dinheiro para sobreviver. “Não demiti ninguém, mas eles não têm o que fazer”, disse o palestino, que importa produtos, inclusive café do Brasil.
As opções profissionais são escassas nessa economia em frangalhos: o desemprego atinge 40% da população, percentual que, entre os jovens, chega a 63%. E um dado ainda mais alarmante: cerca de 80% dos habitantes de Gaza conta com ajuda humanitária para sobreviver.
Até mesmo para trabalhar corre-se o risco de ser assassinado. Os barcos dos pescadores só podem se distanciar da costa até seis milhas náuticas do litoral. Se passarem deste limite, são baleados, e isso acontece com certa frequência, inclusive depois do cessar fogo.
Mais de dez mil feridos mantêm os hospitais de Gaza no limite do atendimento. Foto: João Laet.
Mais de dez mil feridos mantêm os hospitais de Gaza no limite do atendimento. Foto: João Laet.
Agricultura e construção civil arrasadas
Em Khanyunis, sul de Gaza, vi agricultores trabalhando na colheita de azeitona, para fabricação de azeite de oliva. Os 1,8 milhão de habitantes de Gaza têm uma produção agrícola muito inferior às necessidades. Dependem de bens importados, que só podem chegar ao seu território de duas maneiras oficiais: pela fronteira com o Egito, em Rafah, sul de Gaza, e pelas passagens liberadas por Israel.
Entre 2007 e 2010 só era permitida a entrada de bens considerados essenciais e em quantidades limitadas. O cimento, por exemplo, que pode ter uso militar, foi banido. Isso significou a paralisação total da construção civil. As exportações também foram restritas.
Segundo a ONU, o bloqueio feito por Israel, que impede a entrada de materiais de construção e outros bens, impossibilita o desenvolvimento econômico na Faixa de Gaza. E foi em decorrência de tantas restrições que os túneis clandestinos, construídos e controlados pelo Hamas para contrabandear armamentos, passaram a ser importantes para os palestinos receberem combustível, mantimentos, cigarros, todo tipo de produto.
Os túneis são bem construídos, iluminados, com abertura suficiente para um adulto transitar de um lado a outro deitado. Os primeiros caminhões carregando o que Gaza precisa mais no momento — material de construção — começaram a chegar somente no dia 14 de outubro, um mês e meio após o fim do conflito. O primeiro carregamento tinha 75 caminhões. O segundo tinha apenas 28. Mas, enquanto estive na região, nenhuma obra foi iniciada e a situação piorou com as chuvas torrenciais daquele período, que obrigaram as autoridades locais a declarar estado de emergência. Economistas de Gaza calculam que seria necessário o envio de 400 caminhões por dia ao longo de seis meses.
Construções das ruas de Gaza destruídas. Foto: João Laet.
Construções das ruas de Gaza destruídas. Foto: João Laet.
Alto índice de alfabetização
Na escola primária de Beit Hanoon, marcas de tiros nas paredes e muros. Há seis meses sem receber salário, os professores fizeram greve de 24 horas. A escola funciona em um prédio de três andares. O terceiro está interditado. No segundo, muitas salas de aulas não têm portas nem janelas. Por um buraco de bala na parede, fotografei uma aula. Numa outra sala, um buraco ainda maior servia de comunicação entre as crianças que passavam pelo corredor.
Na hora do recreio, os estudantes perceberam meu equipamento e vieram em minha direção fazendo com os dedos o V da vitória contra Israel e o indicador apontado para o alto, que significa Alá, deus único. Um dado impressiona: apesar de anos de conflitos, a taxa de alfabetização é de 97% e a consciência política é muito grande.
Hamas
Em conversa com um militante do Hamas, ele contou que a população de Gaza aplaudiu a decisão da presidente [do Brasil] Dilma Rousseff de condenar os ataques israelenses. Fiquei surpreso ao constatar que, em meio à tragédia da guerra, eles acompanham a política no Ocidente, tão distante da realidade local.
O diretor de Operações da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) em Gaza, Robert Tumer, afirma que não existe um governo palestino efetivo ou unido na Faixa de Gaza. E adverte: se não houver um cessar fogo a curto prazo, se não houver um alívio no bloqueio, outro conflito ocorrerá. O desequilíbrio entre as forças militares é flagrante. Tumer considera também essencial para uma relativa estabilidade política a formação de um governo nacional palestino.
As estimativas mais recentes indicam que a reconstrução levará de dois a três anos. E a extensão dos danos e do número de desabrigados é inimaginável.
Por um buraco de bala na parede, fotógrafo registrou aula nas salas que já não possuem portas ou janelas. Foto: João Laet.
Por um buraco de bala na parede, fotógrafo registrou aula nas salas que já não possuem portas ou janelas. Foto: João Laet.
* João Laet é fotógrafo desde 2000. Trabalhou para a Comissão Pastoral da Terra, no Sul do Pará, em 2004 e 2005. Fotografa para o jornal O Dia desde 2005. No ano de 2011, recebeu o prêmio Award of Excellence, da Society for News Desing, na categoria Photography/Multiple Photos, pelo projeto fotográfico “Rio em dois tempos”. Na Faixa de Gaza, tenta compreender como vive os moradores do território.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Não houve vitória de Israel

CARTA MAIOR
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Nao-houve-vitoria-de-Israel/6/31721


Não houve vitória de Israel

Israel disse que o Hamas tem que ser desarmado. Não foi desarmado. Israel disse que devia ser esmagado, destruído e erradicado, o que não aconteceu.


Robert Fisk
Esquerda.net

Bom, de fato, Hamas, o horrível, sem escrúpulos e terrorista Hamas que nós (isto é o Ocidente, Tony Blair, Israel, Estados Unidos e todos os homens e mulheres honrados) não queremos nem sequer mencionar que saiu vitorioso.

Israel disse que o Hamas tem que ser desarmado. Não foi desarmado. Israel disse que devia ser esmagado, destruído e erradicado, e não foi nem esmagado nem destruído nem erradicado. Os túneis serão arrasados, proclamou Israel, mas não foi assim. Todos os mísseis serão confiscados, mas não foram. Morreram 65 soldados israelenses e para quê? Do subsolo, literalmente, trepou na terça-feira a liderança política do Hamas (e da Jihad Islâmica) cujos irmãos participaram nas conversas de paz no Cairo, muito contra a vontade de Israel, Estados Unidos e Egito.

Em Israel, significativamente, não houve celebrações. O governo de ultra-direita de Benjamin Netanyahu uma vez mais enfatizou as suas exigências em caso de vitória e terminou com outro cessar-fogo tão débil quanto a frágil trégua que se seguiu às guerras em Gaza de 2009 e 2012.

No estrito sentido físico, Israel ganhou; todas essas vidas destruídas, os edifícios arrasados e as infraestrutura rebentadas não sugerem que os palestinnos “prevaleceram” (para usar um termo do Bushismo). Mas estrategicamente os palestinos ganharam. Continuam em Gaza, o Hamas ainda está no território de Gaza e o governo de coligação entre a Autoridade Nacional Palestiniana e o Hamas ainda parece ser uma realidade.

Disse-se muitas vezes que os fundadores do Estado de Israel enfrentavam um problema: uma terra chamada Palestina. Eles lidaram com este problema de maneira fria, impiedosa e eficiente. Agora o problema é: os palestinos. A sua terra bem pôde ter sido apropriada por Israel, os territórios que lhes sobraram estão a encher-se de colonatos israelenses, mas esses miseráveis palestinos simplesmente não se vão embora. E matá-los em grande número –especialmente frente às câmaras de televisão – está tornando-se excessivo, mesmo para aqueles que ainda tremem de medo quando alguém sussurra a calúnia “anti-semitismo”.

Os porta-vozes israelenses chegaram mesmo a comparar as suas ações com os sangrentos bombardeamentos da aviação britânica durante a Segunda Guerra Mundial, o que é uma ação de propaganda que é duvidoso que seja bem sucedida em pleno século XXI.

Mas o mundo poderá fazer reflexões infelizes sobre outras coisas. Os porta-vozes do Hamas, por exemplo, com as suas vociferantes declarações sobre a destruição de Israel e do sionismo; exageros que são tão absurdos como as desculpas de Israel. A maior vitória que o mundo já viu! Sim, claro! O Hezbollah afugentou todo o exército israelense do Líbano após uma guerra de guerrilhas de 18 anos, com muito mais baixas para ambos lados do que as que o Hamas pode imaginar.

E como esquecemos rapidamente os esquadrões assassinos do Hamas que executaram na semana passada pelo menos 21 espiões, dos quais duas mulheres, a sangue frio em plena rua contra as paredes de Gaza. Notei que estas pessoas não apareceram no saldo total de mortos palestinnos e pergunto-me porquê. Será que não são considerados humanos?

Numa semana em que o EIIL ostentou as suas execuções, o Hamas demonstrou que o seu velho instinto assassino continua intacto. Que esperávamos depois de três dos seus principais líderes militares terem sido liquidados pelos israelenses? É interessante que nem um palestino protestou contra essas execuções sem tribunal nem júri, assim como ninguém protestou pela violação dos direitos humanos de 17 espiões palestinos que foram executados em Gaza na guerra de 2008 e 2009 (que pelo visto foi esquecido). Outros seis espiões esquecidos foram executados em 2012.

E depois temos as vítimas militares. Destas umas 500 eram combatentes do Hamas, em 2008-2009 talvez tenham morrido 200. Mas nessa guerra anterior só seis israelensess morreram. Na mais recente ofensiva israelense este número foi multiplicado por 10. Em outras palavras, o Hamas, e suponho que a Jihad Islâmica, aprenderam a lutar. O Hezbollah, o exército guerrilheiro mais eficiente de todo o  Oriente Médio certamente notou isso. Além disso, os foguetes de Gaza estenderam-se por milhares de quilômetros quadrados de Israel, apesar da sua “Cúpula de Ferro”. Antes ameaçavam apenas quem vivia em Sderot; agora foram cancelados voos no aeroporto de Ben Gurion.

Falta mencionar que Mahmoud Abbas está se arrastando perante os egípcios e os norte-americanos, agradecido pela trégua. Mas no novo governo palestino de unidade, o Hamas será quem diz a Abbas quantas concessões está autorizado a fazer.

Quanto ao presidente egípcio, o marechal Al Sisi, longe de isolar a Irmandade Muçulmana e pôr de lado o Hamas para fazer o seu acordo de paz feito no Cairo, viu-se obrigado a reconhecer o grupo político palestino como um participante árabe primordial na negociação da trégua.

Agora, o Egito bombardeia os islamitas na Líbia enquanto os Estados Unidos se preparam para bombardear os islamitas da Síria, depois de acabarem de bombardear os islamitas no Iraque. Mas em Gaza os islamitas acabam de ganhar. Isto certamente não pode durar.

(*) Artigo de Robert Fisk, publicado em “The Independent”, traduzido para “La Jornada” por Gabriela Fonseca e por Carlos Santos para esquerda.net




Créditos da foto: Esquerda.net




Ezequiel Faria - 31/08/2014
Why I support Israel https://www.youtube.com/watch?v=HHC8KC5cLs8

Roméro Samuel Carneiro - 31/08/2014
Longa vida ao Sr. FISK;que bom saber que esta cambada de titica (pra não falar cambada de merda)teve que engolir os "terroristas do HAMAS",como se eles,os judeus, não fossem os maiores terroristas,cartas bombas,e tudo que é de ruim. Mas Israel não vai entregar o produto do roubo praticado contra os miseráveis Palestinos,não vai reerguer as residências destruídas,nem devolver as vidas de inocentes que foram ceifadas. Continue assim Israel,e o mundo todo, muito antes que você imagina,vai se tornar anti-semita; Infelizmente todos os judeus,assim como gatos,serão enfiados num mesmo saco.

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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Gaza: o tamanho da devastação

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9972:submanchete250814&catid=72:imagens-rolantes

 Gaza: o tamanho da devastação

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ESCRITO POR LUIZ EÇA   
SEGUNDA, 25 DE AGOSTO DE 2014



Se a situação do povo de Gaza já era precária, com a terceira guerra movida por Israel tornou-se desastrosa.

Nos 45 dias que já duram os ataques, estima-se que os danos causados à economia da Faixa foram três vezes piores do que os causados pela primeira guerra de Gaza, em 2008-2009. Que, aliás, excederam em destruições os “feitos” do exército de Israel na segunda guerra, em 2012.

Nada menos do que 360 fábricas e oficinas foram riscadas do mapa, segundo a Federação das Indústrias de Gaza.

Entre as restantes, a maioria teve de suspender a produção devido à chuva de bombas.

Tudo somado, as perdas já passam de mais de 570 milhões de dólares, o que não é pouco para as empresas de Gaza que, em geral, são modestas.

Por sua vez, a organização de alimentos e agricultura da ONU (FAO) informa que 42.000 acres de terras de cultivo sofreram pesados danos e metade da criação de aves foi perdida devido aos bombardeios ou pela impossibilidade de os agricultores prestarem cuidados, já que o acesso às granjas próximas à fronteira com Israel ficou impossível.

A ação do exército israelense para vibrar um golpe decisivo na já combalida economia de Gaza avançou com a aviação, a artilharia e os tanques destruindo a única usina de energia elétrica de Gaza.

A economia tem agora de enfrentar um forte obstáculo ao seu desenvolvimento normal, pois somente a reconstrução da usina levará de seis meses a um ano.

Isso se as autoridades israelenses consentirem na importação do cimento necessário, o que é sempre difícil, pois temem que seja usado na construção de túneis.

Também a estação de tratamento de água precisará ser reconstruída, pois foi dos primeiros alvos dos mísseis certeiros da aviação de Israel.

A ONG inglesa OXFAM informa que o bombardeio de poços, tubulações e
reservatórios causou a contaminação da água fresca com esgotos e o vazamento pelas ruas de Gaza de 15 mil toneladas de detritos sólidos.

De agora em diante, a população de Gaza só poderá consumir metade da água disponível antes da guerra.

É difícil de acreditar que o Hamas tenha instalado estruturas militares nesses locais – fábricas, granjas e usinas.

A precisão cirúrgica com que foram reduzidas a escombros faz supor que a intenção era mesmo vibrar um duro golpe na economia de Gaza.

Essa mesma precisão foi vista no ataque a quarteirões residenciais inteiros, transformados em ruínas pelos projéteis israelenses.

Frode Mauring, o representante especial da ONU para Programas de Desenvolvimento, calcula que entre 16 mil e 18 mil lares foram totalmente destruídos e 30 mil sofreram pesados danos.

E a estimativa é que levarão 18 anos para reconstruir estas casas, caso o bloqueio de Gaza continue, limitando a entrada de pessoas e materiais necessários às obras.

A ONU previa que haveria 50 mil desalojados a serem colocados em seus abrigos.

Mas, foi muito pior: entre 350 mil e 400 mil cidadãos apareceram em busca de abrigo.

A maioria deles obedecia às ordens do exército de Israel para que abandonassem seus lares que seriam bombardeados.

Essa prática do exército, segundo a jornalista israelense Amira Hass, é : “Sadismo e hipocrisia disfarçados de piedade. Uma mensagem gravada obrigando centenas de milhares de pessoas a fugir de seus lares alvejados para um outro lugar, igualmente perigoso, a 10 quilômetros de distância”.

De fato, as bombas israelenses não pouparam abrigos da ONU, matando muitos dos palestinos ali refugiados

Somando todos aqueles vitimados pela agressão israelense, verificou-se que até hoje (23 de agosto) morreram cerca de 2020 pessoas, das quais pelo menos 80% eram civis desarmados.

Nada menos do que 469 crianças foram mortas, sendo que mais de três mil saíram feridas. Mas o sofrimento da população infantil de Gaza foi além.

Em conferência de imprensa em Nova Iorque, no dia 21, Pernilla Ironside, representante da UNESCO, afirmou que 373 mil crianças de Gaza precisam de “ajuda psicológica imediata”. E a Unesco só conta com 50 psicólogos na região, que teriam condições de atender apenas 3 mil crianças.

Traumatizadas pelas bombas e mísseis, que não param de cair em sua volta, matando e destruindo, sentem que para elas não existe nenhum lugar seguro em Gaza. Muitas viveram a guerra de 2008-2012. Dificilmente se livrarão das marcas desse horror que se repete.

Mas a guerra lhes infringirá mais danos. Todo o sistema de educação infantil de Gaza já está irreparavelmente lesado; 219 escolas não escaparam da mira dos artilheiros e pilotos israelenses, sendo que em 22 delas nada restou.

E o exército de Israel se proclama o mais ético do mundo.


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Luiz Eça é jornalista.
Website: Olhar o Mundo.