domingo, 29 de setembro de 2013

Prisões privadas: governo de SP quer mercantilizar até punição

outras palavras
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/prisoes-privadas-governo-de-sp-quer-mercantilizar-ate-punicao/

Prisões privadas: governo de SP quer mercantilizar até punição

130927-presidios
Medida estimula encarceramento em massa, restringe adoção de penas alternativas e onera Estado, ao obrigá-lo a sustentar aprisionamentos fúteis
Por Eduardo Maretti na Rede Brasil Atual
A ideia do governo de São Paulo de criar megapresídios na Grande São Paulo é condenada com veemência por especialistas, sob os aspectos jurídico e econômico. Por meio de parceria público-privada (PPP), o governo de Geraldo Alckmin pretende construir três presídios com capacidade total para 10.500 presos.
O defensor do Núcleo de Situação Carcerária da Defensoria Pública de São Paulo, Bruno Shimizu, considera o projeto preocupante. “Para a defensoria, há um problema de constitucionalidade grave. O Estado tem o monopólio da força e da violência. O sofrimento não pode ser mercantilizado. A partir do momento em que se começa a transformar o poder de polícia do Estado em mercadoria, isso significa o colapso das instituições democráticas.” Segundo ele, já houve uma reunião informal entre representantes da secretaria e da Defensoria, mas a proposta ainda está pouco clara para se tirar conclusões.
Na quarta-feira, durante audiência na Assembleia Legislativa, o secretário de Administração Penitenciária, Lourival Gomes, disse que está à procura de terrenos para a criação de três PPPs. “É uma experiência que envolve a região metropolitana de São Paulo, não há a ideia de se expandir isso para o estado todo”, disse, argumentando ainda que as empresas vão se interessar pela ideia porque poderão lucrar “nos serviços de hotelaria, de segurança e de recuperação”.
Um dos perigos da gestão privada do sistema carcerário diz respeito à impossibilidade da convivência entre direitos individuais e lucro. “Nos Estados Unidos há cláusulas nos contratos de privatização pelos quais a unidade tem de se manter com 90% do limite máximo da lotação. Se a própria unidade vai administrar, ela não vai fazer grandes esforços para que as pessoas saiam de lá”, avalia o defensor público. “Quanto mais encarceramento, mais lucro. A unidade é que vai controlar as faltas graves, a emissão de documentos para a progressão de regime. Isso tudo pode ser barrado em função do lucro.”
O sistema paulista teria como modelo o que atualmente funciona em Ribeirão das Neves,a 45 minutos de Belo Horizonte. Inaugurado em janeiro de 2013 pelo governo mineiro de Antonio Anastasia (PSDB), o projeto foi anunciado como “modelo inédito de parceria público-privada” e é considerado o primeiro construído e administrado inteiramente pela iniciativa privada no Brasil.
O deputado estadual Durval Angelo (PT), oposição ao governador Anastasia na Assembleia Legislativa mineira, também vê graves problemas na solução encontrada para o sistema carcerário com PPPs. “Algumas atividades são específicas e próprias do Estado. A segurança e defesa social, assim como saúde e educação, é competência do Estado. Ele não pode abrir mão disso. Se abdicar disso, é o fracasso do Estado”, diz.
Na mesma linha, Marcos Fuchs, diretor-adjunto da ONG Conectas, diz que “zelar pelo preso é uma função do Estado, prevista na Constituição. O Poder Judiciário determinou a privação da liberdade. Cabe ao Estado receber esse preso para o cumprimento dessa determinação”.
Segundo o diretor da Conectas, a política de encarceramento em massa nos Estados Unidos, decorrente de o preso ser um negócio, vitimiza dependentes e usuários de drogas, autores de furtos e outros delitos de pequeno potencial ofensivo, o que faz com que a política seja cada vez mais criticada naquele país.
Solução onerosa
O custo do projeto tocado pela PPP em Minas, de R$ 280 milhões, ficou sob responsabilidade do consórcio Gestores Prisionais Associados (GPA), que venceu a licitação. O consórcio é composto por CCI Construções, Construtora Augusto Velloso, Empresa Tejofran de Saneamento e Serviços Ltda, N.F Motta Construções e Comércio e Instituto Nacional de Administração Prisional.
No modelo mineiro, cada preso custa R$ 2.800 por mês ao estado. O contrato prevê a gestão e administração do negócio pelo consórcio por 27 anos. Considerando o modelo de Minas como parâmetro, já que o paulista ainda está em gestação e há poucos detalhes, o estado de São Paulo desembolsaria R$ 28,35 milhões por mês (ou R$ 340 milhões anuais), caso o complexo chegue aos 10.500 presos anunciados pelo governo.
“Não seria melhor o estado montar escolas, centros de aprendizado, convênios com empresas dentro dos presídios, para empregar a mão de obra dos presos, até para se reduzirem as penas?”, questiona Fuchs. “Se o Estado vai pagar à empresa R$ 2.800 por preso, quem vão ser esses presos? Vai ser escolhido, vai ser aleatório? Certamente vai haver uma tendência a um maior encarceramento, porque vai virar um negócio. Vai haver um lobby fortíssimo por prender mais. Mas preso não pode ser objeto de contrato.”
O deputado Durval Ângelo usa de uma imagem para explicar como vê a parceria em Ribeirão das Neves. “A PPP é um acordo igual ao pescoço com a guilhotina. O poder público entra com o pescoço. O dinheiro do contribuinte e dos impostos é o pescoço.”
Segundo ele, devido à morosidade do projeto de Minas, ainda é cedo para se tirar conclusão definitiva. “Não conseguimos avaliar aqui ainda porque, como tudo em Minas, tem mais propaganda do que realidade. O sistema anunciado há oito anos era para ter cinco penitenciárias no complexo, com mais de 3 mil presos, mas tem uma só funcionando e outra para terminar. Está muito no início”.
Ao inaugurar a primeira unidade no início do ano, o governo previa que as quatro restantes seriam concluídas até dezembro de 2013, segundo reportagens publicadas à época.

sábado, 28 de setembro de 2013

Anistia Internacional pede ação urgente pelos Guarani Kaiowá

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524158-anistia-internacional-pede-acao-urgente-pelos-guarani-kaiowa

Anistia Internacional pede ação urgente pelos Guarani Kaiowá

“Participe de nossa Ação Urgente pela garantia de direitos dos Guarani-Kaiowás no Mato Grosso do Sul”, pede aAnistia Internacional em seu portal em campanha lançada nessa semana.
O pedido da Anistia Internacional:
Há preocupações pela segurança de cerca de 60 Guarani-Kaiowás, incluindo crianças, que no dia 15 de setembro ocuparam um canavial que eles afirmam ser sua terra ancestral, no estado do Mato Grosso do Sul. Eles têm sido ameaçados por seguranças armados de uma empresa privada, que trabalham na plantação.
No dia 15 de setembro de 2013, cerca de 60 Guarani Kaiowá da comunidade Apyka´i e de outras aldeias ocuparam a terra, onde atualmente há um canavial. Eles viveram nesta terra desde o século XIX, depois foram expulsos e estão acampados à beira de uma rodovia desde 1999. Desde que retomaram a terra, membros da comunidade relatam que seguranças de uma empresa privada trabalhando no canavial ameaçam matá-los.
A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) deveria ter definido a terra ancestral da comunidade Apyka'I em 2010, pelo compromisso assumido em Termo de Ajuste de Conduta assinado em novembro de 2007 pela Funai, Ministério da Justiça, Ministério Público Federal e 23 líderes indígenas.
A comunidade Guarani-Kaiowá de Apyka´i denunciou ao Ministério Público Federal que vem sendo ameaçada pelos vigias, que também a impede de recolher água de um córrego que atravessa o canavial. Funcionários dessa empresa de segurança foram acusados de crimes, incluindo dois assassinatos, em processos ainda em andamento. O procurador da República afirmou que a empresa realiza atividades “indiscutivelmente ilícitas” e demandou seu fechamento.
Por favor, escreva imediatamente em português ou no seu próprio idioma:
 - Instando as autoridades a garantir que os Guarani-Kaiowá não sejam submetidos a agressões e ameaças;
-Apelando às autoridades para que cumpram suas obrigações sob a Constituição brasileira, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, completando todas as demarcações de terra.
POR FAVOR, ENVIE OS APELOS ANTES DE 4 DE NOVEMBRO DE 2013 PARA:
Ministério da Justiça
Exmo. Sr. José Eduardo Martins Cardozo,
Esplanada dos Ministérios, Bloco "T", 4º andar,
70064-900 – Brasilia - DF, BRASIL                                                               
Fax: + 55 61 2025 7803
Saudação: Exmo. Sr. Ministro
 
Secretaria de Direitos Humanos
Ministra-Chefe da Secretaria de Direitos Humanos
Exma Sra. Maria do Rosário Nunes
Setor Comercial Sul-B, Quadra 9, Lote C, Edificio Parque Cidade Corporate,Torre "A", 10º andar,
70308-200 – Brasília - DF, BRASIL
Fax: + 55 61 2025 9414
Saudação: Exma. Sra. Ministra
 
E cópias para:
Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
CIMI Regional Mato Grosso do Sul,
Av. Afonso Pena,1557 Sala 208 Bl.B,
79002-070 Campo Grande - MS, BRASIL
 
Por favor, confirme com sua seção ou escritório para enviar apelos depois da data mencionada acima.
Jandira Queiroz Praça São Salvador, 5 Laranjeiras Fax (21) 31748617
Email rau@anistia.org.br
INFORMAÇÃO ADICIONAL
O estado do Mato Grosso do Sul contém algumas das menores, mais pobres e mais densamente povoadas áreas indígenas do Brasil: bolsões rurais de pobreza cercados por grandes plantações de soja, canaviais e fazendas de criação de gado, nos quais a vida é afetada por más condições de saúde e de moradia. Cerca de 60.000 integrantes do povo Guarani-Kaiowá vivem uma existência precária – a ruptura de laços sociais levou a altos níveis de violência, suicídio e desnutrição. Frustrados pela demora no processo de demarcação de terra, os Guarani-Kaiowá começaram a reocupar suas terras ancestrais, mas têm sido submetidos à intimidação e remoções violentas.
Devido ao fracasso contínuo em solucionar as demandas pendentes por terra, diversas comunidades Guarani-Kaiowá terminaram vivendo à margem de rodovias, como a BR-463. Elas têm sido ameaçadas por seguranças contratados para impedi-las de tentar reocupar suas terras, e sofrem com problemas de saúde por causa da vida em abrigos temporários, sem assistência médica. Além disso, muitos foram mortos e feridos em acidentes de trânsito.
Tanto a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (que o Brasil assinou em 2007), quanto a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é parte, asseguram os direitos dos povos indígenas às suas terras ancestrais e convoca os Estados a estabelecer mecanismos para reconhecê-los e defendê-los nos tribunais. A Constituição brasileira (1988) também confirma esses direitos e a responsabilidade do Brasil em demarcar as terras indígenas.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Policiais pressionam acampamento que bloqueia obras da Monsanto

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=77869


Meio Ambiente
27.09.2013
Policiais pressionam acampamento que bloqueia obras da Monsanto

Adital
Foto:Divulgação/DivulgaciónJá dura 10 dias o acampamento que está bloqueando a frente do prédio onde a multinacional estadunidense Monsanto está construindo sua nova fábrica na Argentina, no município de Malvinas Argentinas, em Córdoba, para a produção de sementes de milho. A Assembleia Malvinas Luta pela Vida juntamente com outras organizações sociais, como o Jubileu Sul, denunciam que, nesta sexta-feira, 27 de setembro, o acampamento foi assaltado por um forte contingente policial, com membros da infantaria e das forças da Equipe de Táticas Especiais Recomendável (Eter), para romper o bloqueio formado por aproximadamente uma centena de manifestantes.
No dia anterior, sindicalistas da União Operária da Construção da Argentina (Uocra) juntamente com empregados da obra tentaram furar o bloqueio e abrir um dos portões. Segundo relatam os manifestantes na página da Assembleia Malvinas Luta pela Vida no Facebook, foram momentos de tensão quando os operários e sindicalistas começaram a quebrar bandeiras, chutar barracas, empurrar, gritar, insultar e maltratar os manifestantes, sem que a polícia e a infantaria, que presenciaram tudo, interviessem para conter o conflito. Logo depois, os agentes policiais ocuparam o espaço que foi tomado dos acampados.
"Convidamos todos os habitantes e cidadãos a fazerem-se presentes no acampamento e bloqueio a partir das 6h da manhã”, divulgaram os manifestantes, pedindo ajuda para fazer frente à política nesta sexta-feira, 27. Há informações de que a infantaria anunciou que iria liberar à força os acessos para a passagem dos caminhões que carregam material para a obra.
O acampamento, liderado além da Assembleia, pelas Mães do Bairro Ituzaigo Anexo, está montado desde o último dia 18 de setembro. Não há prazo para que os manifestantes deixem o local. Eles exigem no mínimo que o governo realize uma consulta popular para saber se a população aprova a instalação da fábrica da Monsanto no local. "Chamamos toda a sociedade organizada a acompanhar essa medida de força, a se solidarizar com essa luta contra a multinacional e a favor da soberania alimentar e da vida. É necessário unir forças com todos os conflitos ambientais e territoriais da Argentina. E também para nos mantermos alertas ante as pressões constantes das instituições estatais, que antecedem os interesses econômicos frente à voz popular que diz Não aos alimentos transgênicos, Não à lei de sementes e Não às fumigações com agrotóxicos”, assinala a Assembleia.
O movimento lamenta que o Estado continue se colocando a serviço de interesses privadose se posicionando contra as organizações sociais. Priorizando os interesses das grandes empresas em detrimento do direito dos moradores. Para o movimento, o que está acontecendo em Malvinas não é um caso isolado, mas responde a um modelo produtivo baseado na destruição dos recursos naturais.

Foto:Divulgação/DivulgaciónO plano de investimentos da Monsanto na Argentina, firmado com a presidente Cristina Fernández de Kirchner, totaliza 1,67 bilhão de pesos. Contempla a construção de uma fábrica para a produção de sementes de milho, duas estações experimentais e 170 milhões de pesos para pesquisa e desenvolvimento em milho e soja.
A Monsanto chegou na Argentina em 1956 para produzir plásticos e, em 1978, começou as atividades de produção de sementes híbridas de milho em Pergamino, província de Buenos Aires. Atualmente, possui cinco fábricas no país: duas processadoras de sementes, uma produtora de herbicidas e duas estações experimentais.

Persistente degradação ambiental

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=77854


Persistente degradação ambiental

Noticias Aliadas
Adital

25/09/2013
Países latino-americanos encabeçam lista de nações que mais contribuem ao impacto negativo sobre o meio ambiente.
Tradução: ADITAL

Brasil, México e Peru encontram-se entre os 10 países do mundo que mais contribuem à degradação ambiental, de acordo com a "Avaliação do Impacto Ambiental Relativo dos Países”, realizada pelas Universidades de Adelaide (Austrália), Princeton (EUA) e Nacional de Singapura.
O estudo, que avaliou 171 países, utilizou sete indicadores de degradação ambiental: perda de bosques naturais, transformação dos habitats, capturas pesqueiras, uso de fertilizantes, contaminação das fontes de água, emissões de carbono e espécies ameaçadas.
Uma importante conclusão é que: quanto maior a riqueza de um país, maior é seu impacto sobre o ambiente.
"Correlacionamos os rankings frente a três variáveis socioeconômicas (tamanho da população, produto interno bruto e qualidade de governança) e encontramos que a riqueza total era a variável explicativa mais importante; quanto mais rico um país, maior é seu impacto ambiental médio”, explicou o professor Corey Bradshaw, que dirigiu a investigação realizada em 2010. "Há uma teoria sobre que à medida que aumenta a riqueza, os países têm mais acesso a tecnologia limpa e adquirem mais consciência ambiental, de tal forma que os impactos sobre o ambiente começam a declinar. Isso não pode ser confirmado”.
No entanto, a investigação também encontrou que em países com má qualidade de governança e elevada corrupção, as políticas de proteção ambiental são inexistentes ou não são implementadas adequadamente.
O documento alertou que "a contínua degradação da natureza, apesar de décadas de advertências, junto com o crescimento da população humana, sugerem que a qualidade de vida humana poderia diminuir consideravelmente em um futuro próximo. A crescente competição pelos recursos poderia desencadear conflitos sociais e guerras com cada vez mais frequência. A permanente degradação ambiental exige que os países que necessitam soluções sejam identificados com urgência para que recebam ajuda na conservação e restauração ambiental”.

Comunicar a outra economia

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524094-comunicar-a-outra-economia

Comunicar a outra economia

“Durante os últimos anos, a economia social e solidária começou a ganhar cada vez mais lugar na agenda pública. As práticas de diversos atores sociais [...] encontraram eco no âmbito das universidades e em diversas políticas destinadas à sua promoção, colocando de manifesto uma forma diferente de abordar a temática do trabalho, da produção, do comércio e do consumo, entre outros aspectos. Em suma, uma proposta que tira o foco do afã do lucro como única motivação, para colocar o centro no ser humano e na reprodução da vida como objetivo essencial da economia”, escreve Marcos Pearson.
E acrescenta: “Nesse andar coletivo aprendemos que cada feira é uma mensagem em si mesma, um fato cultural e comunicacional que sintetiza de modo insuperável o que queremos dizer quando falamos de uma economia diferente”.
Marcos Pearson, licenciado em Comunicação Social, coordenador do Programa de Economia Social e Solidária da Secretaria de Extensão da Universidade Nacional do Centro da província de Buenos Aires (Unicen). O artigo está publicado no jornal argentino Página/12, 25-09-2013. A tradução é de André Langer.
Eis o artigo.
Durante os últimos anos, a economia social e solidária começou a ganhar cada vez mais lugar na agenda pública. As práticas de diversos atores sociais – organizações sociais, cooperativas, associações de pequenos produtores, fábricas recuperadas, movimentos de trabalhadores desempregados, etc. – encontraram eco no âmbito das universidades e em diversas políticas destinadas à sua promoção, colocando de manifesto uma forma diferente de abordar a temática do trabalho, da produção, do comércio e do consumo, entre outros aspectos. Em suma, uma proposta que tira o foco do afã do lucro como única motivação, para colocar o centro no ser humano e na reprodução da vida como objetivo essencial da economia.
Como dado contextual é bom saber que em alguns dos nossos países irmãos há leis federais e houve reformas constitucionais que incluem estas perspectivas. Em nosso país (Argentina) contamos também com uma bateria importante de políticas públicas, programas e áreas em diferentes organismos, assim como diversas leis provinciais e ordenações municipais que dão conta da existência e buscam promover a grande quantidade de práticas que o movimento e as organizações da economia social e solidária geraram durante as longas décadas de neoliberalismo.
A feira é a mensagem
economia social e solidária é uma proposta integral que entende o econômico na sua vinculação inseparável com o social, o cultural e o político. Isto nos coloca a necessidade de abordar “o comunicacional” e assumir o desafio que implica promover outra economia, como disputa de sentidos pela ampliação dos próprios horizontes.
As feiras e mercados da economia social e solidária são uma expressão que – primeiro desde as organizações e agora com o impulso do Estado – têm muito para ensinar neste sentido.
Assim como Marshall McLuhan defende que “o meio é a mensagem” ao analisar os condicionamentos, mas também as potencialidades que vêm incorporadas em cada suporte da comunicação, podemos dizer também que, para a economia social e solidária, “a feira é a mensagem”, o que ao menos constitui um importante instrumento comunicacional para chegar a outros setores da sociedade.
Convencidos disto, na Universidade Nacional do Centro, junto com outras instituições e organizações que integram aMesa da Economia Social e Solidária de Tandil, há mais de dois anos começamos a impulsionar iniciativas deste tipo. Assim se concretizou o Circuito de Feiras da Economia Social e Solidária de Tandil. Nesse andar coletivo aprendemos que cada feira é uma mensagem em si mesma, um fato cultural e comunicacional que sintetiza de modo insuperável o que queremos dizer quando falamos de uma economia diferente.
Em cada feira coloca-se em valor a nossa produção e cultura local. O encontro entre produtor e consumidor permite-nos conhecer de onde vêm e como foram elaborados os produtos que vamos consumir. Mas, sobretudo, permite-nos conhecer (e reconhecer) e valorizar as mãos e as pessoas que os criaram.
Cada feira – além disso – nos obriga a ressignificar a relação mercado-consumo predominante no capitalismo, nos interpela a refletir sobre o nosso próprio consumo e nos desafia a pensar em como multiplicar estes outros tipos de intercâmbios. Nos é indiferente se os produtos que consumimos sejam feitos sob relações equitativas, associativas e cooperativas? Dá no mesmo se esses produtos são elaborados cuidando do ambiente ou não tragam carga residual de químicos? Por acaso não importa se um produto do nosso consumo diário é extremamente barato porque traz consigo relações de exploração sobre centenas de pessoas?
Em suma, cada feira, no marco da economia social e solidária, é uma pequena maquete e uma potente ferramenta através da qual podemos comunicar a outros e outras como é essa sociedade que queremos e estamos construindo.

Contra Reserva de Desenvolvimento Sustentável, ruralistas sitiam cidade no Mato Grosso

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2013/09/contra-reserva-de-desenvolvimento-sustentavel-ruralistas-sitiam-cidade-no-mato-grosso/

27/09/2013 - 10:42

Contra Reserva de Desenvolvimento Sustentável, ruralistas sitiam cidade no Mato Grosso

Fazendeiros locais espalham boatos, fecham acessos, queimam casas e fazem ameaças contra camponeses em Luciara, situada na região do Araguaia
Por Daniel Santini | Categoria(s): Notícias
Disparo de bala no portão da casa de José Raimundo Ribeiro da Silva. Foto: Arquivo Pessoal
Disparo de bala no portão da casa de José Raimundo Ribeiro da Silva. Clique na imagem para ampliar. Foto: Arquivo Pessoal
A cidade de Luciara, na região do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso, foi sitiada com episódios de violência no último final de semana. Em protesto contra os estudos para a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável em uma região de várzea nas margens do rio Araguaia, ruralistas bloquearam todos os acessos à cidade de quinta-feira, 19, a domingo, 22, queimaram duas casas de camponeses locais, expulsaram professores e estudantes universitários que visitavam a região, fizeram ameaças e espalharam boatos de que a cidade seria totalmente desocupada pelo Governo Federal, provocando revolta entre a população. Um tiro chegou a ser disparado contra a casa de José Raimundo Ribeiro da Silva, professor de filosofia e história e diácono local, e o vereador Jossiney Evangelista Silva (PSDB), indígena da etnia Kanela, foi cercado, impedido de entrar na cidade e ameaçado em um dos bloqueios. Ambos são favoráveis à criação da reserva.
Dada a gravidade da situação, o Ministério Público Federal entrou com pedido de prisão provisória contra quatro pessoas no domingo, 22, deferido no mesmo dia pela Justiça. No começo da semana, a Polícia Federal cumpriu os mandados e prendeu três dos acusados de um conjunto de crimes que inclui incêndio, ameaça à vida, formação de quadrilha e cárcere privado. Um quarto suspeito continuava foragido até a publicação desta reportagem. “Além das prisões, estamos investigando o motivo de os órgãos públicos da cidade não terem funcionado na sexta-feira. A menos que estejam apoiando, não faz sentido repartições fecharem as portas”, diz o procurador federal Lucas Aguilar Sette, que visitou a cidade para reunir provas e identificar os responsáveis pelo que classifica como uma explosão de violência. “Os fazendeiros e políticos locais cooptaram pessoas promovendo um churrasco de três dias e passando informações equivocadas para a população. As pessoas bebiam, iam fazer ameaças e voltavam para a festa”, explica o procurador, que diz que, para provocar pânico, os agitadores utilizaram o exemplo de Posto da Mata, vilarejo irregular construído dentro da Terra Indígena Maraiwatsédé e desocupado no ano passado.
Autoridades federais e estaduais também foram mobilizadas e informadas sobre o problema, incluindo o Ministério da Justiça, a Delegacia Geral da Polícia Federal, a Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos e a Secretaria Estadual de Segurança Pública. “A população está muito mal informada. A mídia está vendendo essa ideia. E é uma situação completamente diferente. Luciara não será desocupada, não tem relação”, diz o procurador.
Fazendeiros e grileiros mentiram dizendo que
a cidade seria evacuada
e que viraria uma reserva. Enganam o povo e
fazem ameaças
“Fazendeiros e grileiros mentiram dizendo que a cidade seria evacuada e que viraria uma reserva. Enganam o povo e fazem ameaças. Falam como se fosse igual, mas Luciara é um município constituído e Posto da Mata era uma vila em uma Terra Indígena.Pedro Casaldáliga sempre disse para não erguermos igrejas em Posto da Mata porque a cidade estava em Terra Indígena. Precisamos que órgãos governamentais mostrem ao cidadão comum a realidade”, diz José Raimundo Ribeiro da Silva, o Zecão, como é conhecido o professor e diácono que teve sua casa atingida por um disparo. “Estamos sendo vítimas do ‘agrobanditismo’. Sou a favor da criação da reserva, da preservação da margem do rio Araguaia, de que o avanço da soja não suje a água de veneno. Tenho recebido ameaças e temo pela minha vida”, completa. A Comissão Pastoral da Terra divulgou nota denunciando o atentado contra o diácono.
Os retireiros
A revolta está relacionada à insatisfação de latifundiários locais com a perspectiva de criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, que beneficiaria camponeses conhecidos como “retireiros”. São criadores de gado que usam as áreas de várzea do rio Araguaia para o pastoreio durante as secas e, quando o rio sobe, retiram os animais para terras mais elevadas. Eles criam o gado de maneira solta em uma região de pastagem comum, nativa. Não há cercas nas áreas, já que impediriam o acesso à água pelo gado e acarretariam no pisoteio exagerado de algumas áreas de pastagens.
“Temos de preservar uma comunidade que há mais de 60 anos lida com gado no ‘varjão’ do Araguaia. Esse gado se sustenta ali e fica quatro, cinco meses na área de várzea. Depois, o retireiro retira e vai para o lugar alto, onde constrói sua casa, tem uma horta. Ele tira o leite e espera a água baixar para voltar com o gado para lá. Nessa labuta, [os retireiros] construíram saberes sobre a biodiversidade, a fauna e flora, o relacionamento com o rio. Eles conhecem a natureza como poucos”, diz Zecão.
Incêndio destruiu casa de Rubem Sales, presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia. Foto: Arquivo Pessoal
Incêndio destruiu casa de Rubem Sales, presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia. Foto: Arquivo Pessoal
“Houve um recrudescimento [da violência] por parte de algumas pessoas que são contrários à criação da Unidade de Conservação. Esse é o motivo”, explica Fernando Francisco Xavier, coordenador Regional do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia do Ministério do Meio Ambiente responsável pelas Unidades de Conservação Federais. “Pode haver oposição, mas não podemos admitir que um Estado paralelo se instale, que interesse apenas alguns grupos. Isso é inadmissível”, diz Fernando. 
A mobilização está diretamente relacionada com a disputa por terras. Há grilagem na região e envolvidos temem não poder mais comercializar áreas.
Acadêmicos expulsos
A confusão começou, segundo o coordenador do ICMBio, porque pesquisadores ligados à Universidade Federal da Amazônia que visitavam a região foram confundidos com funcionários do Governo. “Surgiu o boato de que iríamos fazer uma consulta pública sobre a criação da reserva e a barreira visava impedir o acesso do Instituto Chico Mendes. Não tem sentido fazer uma consulta pública às escondidas, elas são previamente agendadas e amplamente divulgadas”, afirma. “Podemos fazer o debate e é legítimo [que haja oposição], mas aconteceram atentados contra representantes da comunidade que revelam a fragilidade e vulnerabilidade a que as lideranças estão submetidas”, completa o representante do ICMBio.
Mesmo com a prisão de três pessoas e a operação realizada no começo da semana, as lideranças locais ainda temem que a situação se agrave. “Estamos sozinhos aqui agora que a Polícia Federal foi embora, sem nenhuma proteção”, diz Rubem Taverny Sales, presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia, proprietário de uma das casas queimadas durante os ataques.
                                  
Fiquei apavorado, tive
medo que eles me torturassem. As pessoas
estavam exaltadas,
um grupo me cercou,
tirou a chave da
ignição da moto e
tentou agredir
minha prima
A outra é de Jossiney Evangelista Silva, o vereador indígena da etnia Kanela, que foi impedido de entrar na cidade, cercado e ameaçado. “Fiquei apavorado, tive medo que eles me torturassem”, conta. Ele procurou a polícia imediatamente ao saber que haviam ateado fogo na sua casa, e, ao tentar se dirigir à delegacia para registrar a ocorrência, foi parado no bloqueio. Nem a presença de policiais, que haviam ido com o vereador até o incêndio, impediu que ele fosse intimidado. “As pessoas estavam exaltadas, um grupo me cercou, tirou a chave da ignição da moto e tentou agredir minha prima Lidiane, tentando tomar a máquina fotográfica da mão dela”, conta. “Do bloqueio ninguém teve coragem nem de tirar foto. Eles falaram que eu tinha de deixar a moto e voltar a pé, mas eu não aceitei. No fim, conseguimos ir embora.”
Na barreira armada, além dos primeiros pesquisadores, também foram parados professores e estudantes ligados ao projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, que realizariam uma Oficina de Mapas com os retireiros. Entre os expulsos estão os professores Cornélio Silvano Vilarinho Neto e Antonio João Castrillon. Os acadêmicos fizeram críticas públicas à postura agressiva dos ruralistas. “A violência que atinge as pessoas pelo constrangimento, intimidação e destruição, visa também enfraquecer e desestruturar a identidade coletiva do grupo, que está fortemente ligada ao processo de territorialização específica das áreas de retiro”, escreveu Castrillon.
Soja, grilagem e terras públicas 
A disputa fundiária em Luciara está relacionada ao avanço do monocultivo de soja na região do Araguaia, assunto que foi tema de reportagem publicada em fevereiro pela Repórter BrasilCom a expansão das plantações na região, as terras estão cada vez mais valorizadas e o desmatamento aumenta devido à necessidade de novas áreas para plantio. Além do espaço necessário para o cultivo, o fato de o veneno utilizado nas lavouras afetar os rios também é motivo de conflitos.
Em Luciara, em 2009, como parte dos estudos para criação da reserva, foi feito um levantamento fundiário completo de títulos e ocupantes de uma área de 198 mil hectares, considerada ideal para a reserva. Para minimizar a tensão fundiária, porém, o ICMBio passou a trabalhar com 110 mil hectares. “Vimos a necessidade de diminuir para uma área menor em função dos conflitos existentes. Decidimos delimitar o espaço de uso da comunidade, ainda que em prejuízo dos retireiros para viabilizar a reserva. Isso mesmo considerando que muitas terras não têm atividade agrícola”, explica Fernando Francisco Xavier, o coordenador do ICMBio. A Secretaria de Patrimônio da União foi acionada para averiguar quais são as áreas públicas que poderiam ser incluídas na reserva. Os retireiros já entraram com pedido de Concessão de Autorização de Uso Sustentável (Caus).
Plantações de soja avançam em direção ao município de Luciara, conforme é possível ver via satélite. Imagens: MapBox
Plantações de soja avançam em direção ao município de Luciara, conforme é possível ver via satélite. Imagem: MapBox