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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Agronegócio e mídia brasileira: onde duas monoculturas se conectam

le monde
https://diplomatique.org.br/agronegocio-e-midia-brasileira-onde-duas-monoculturas-se-conectam/

PROPRIETÁRIOS DA MÍDIA NO BRASIL

Agronegócio e mídia brasileira: onde duas monoculturas se conectam

por Camila Nobrega e Olívia Bandeira
Janeiro 21, 2019
Imagem por Henry Koster


Entender de que forma interesses empresariais podem influenciar a produção da notícia é fundamental para que a população possa consumir a informação produzida por esses veículos de forma crítica. Confira o nono artigo da série especial Proprietários da Mídia no Brasil
Em letras garrafais, o prefixo “Agro” ocupa espaço em um conjunto de peças publicitárias exibidas há cerca de dois anos na emissora de maior audiência do país, a Rede Globo, exaltando principalmente produtos voltados para exportação e a produção agrícola em massa. Em uma dessas propagandas, a voz de um narrador introduz o vídeo com a frase “cana é agro”, para em seguida conduzir o telespectador por duas ilustrações que reproduzem um engenho dos tempos coloniais. Nas imagens, pessoas mantidas escravizadas carregam nos ombros o corte do canavial. A voz completa a narrativa, dizendo que “desde o Brasil colonial, a cana ajuda a movimentar a nossa economia”. Nada é dito sobre a estrutura social daquele tempo histórico. Ao contrário, o vídeo da campanha segue com imagens dos maquinários utilizados no campo hoje e termina com um tom de conclusão absoluta: “Cana é agro. Agro é tech, é pop, é tudo”.
Cortamos a cena para o mês de dezembro de 2018, quando a então futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM-MS), produtora rural indicada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), começou a se pronunciar sobre os seus planos para a pasta. Em suas falas, destacavam-se expressões como “agricultura de baixo carbono” e “produção sustentável”, uma linguagem revestida de modernidade e progresso que faz parte da mesma construção da ideia de “agro” defendida na campanha da Globo. Tudo sem tocar, porém, nas questões sociais do campo brasileiro, onde os níveis de desigualdade são alarmantes e as condições de insegurança alimentar avançam. E muito menos sem dizer que o tipo de agricultura representada na campanha e no discurso da ministra pouco tem a ver com a alimentação da população brasileira. Há mais em comum entre as duas narrativas – e há mais tempo – do que se costuma imaginar.
Já que as linhas de conexão não costumam ser expostas, é preciso buscar mais elementos sobre o que significa o agro nos dois discursos, na mídia e na narrativa política. Sobre a campanha “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é Tudo”, um texto publicado no site G1 sob o título Agronegócio é valorizado em campanha da Rede Globo já deixa bastante evidente a abordagem. Em palestras, o diretor de Marketing da emissora, Roberto Schmidt, falou no sentimento de aproximação e de “criação de orgulho” em relação ao agronegócio por meio da campanha. Ao mesmo tempo, o histórico da nova ministra também traz elementos. Na Câmara, ela teve atuação marcada pela defesa à aprovação do Projeto de Lei 6.299, de 2002, que flexibiliza as regras para fiscalização e aplicação de agrotóxicos no país.
Em ambos os casos, o agro em questão tem apenas um complemento – é o agronegócio que está em questão. Ou seja, é a parte da agricultura brasileira que, ao contrário do que a bancada ruralista diz e da representação majoritária na mídia, pouco tem a ver com alimentos. Cerca de 80% da produção do agronegócio corresponde a commodities agrícolas, enquanto quem responde por 70% da alimentação das brasileiras e dos brasileiros é a agricultura familiar,[1] praticada em todo o país, inclusive em centros urbanos, mas que tem sido negligenciada na cobertura dos veículos de comunicação e nas políticas públicas.
Em silêncio, avançam os impactos sociais e ambientais trazidos pelo agronegócio. Segundo dados recentes do IBGE, cresceu 20,4% o uso de agrotóxicos entre 2006 e 2017, resultado da expansão do cultivo de monoculturas pelo agronegócio. Grandes proprietários de terra controlam 116 mil dos 350 mil hectares cultivados no Brasil.[2] A concentração é grande: 45% da área rural brasileira está em 0,91% das propriedades rurais. Já as áreas menores de 10 hectares, apesar de representarem 47% do total de propriedades rurais, abarcam apenas 2,3% da área total cultivada.
Após as primeiras semanas de governo de Jair Bolsonaro, são muitos os indícios de que a situação de concentração de terras e enorme desigualdade social no Brasil tendem a se agravar. Uma das evidências foi a oficialização de um antigo desejo da bancada ruralista: a entrega da demarcação de terras indígenas e quilombolas e do Serviço Florestal Brasileiro para a pasta da Agricultura, comandada por uma integrante do setor. Além disso, não foram poucas as menções de Bolsonaro à promessa de flexibilização da legislação ambiental e desregulamentação de áreas protegidas. Embora esses sejam debates fundamentais para a sociedade brasileira, eles não estiveram no foco da maior parte dos veículos de comunicação. Também sumiu do foco rapidamente a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão que era de assessoramento imediato da Presidência da República e teve papel fundamental nas políticas de combate à fome e à pobreza, assim como no fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no país, que se tornou referência internacional no tema.

Agroecologia brasileira: referência mundial, mas fora da cobertura da grande mídia
Enquanto as diversas formas de ocupação do território nas zonas rurais multiplicam-se e buscam visibilidade, a mídia e o Congresso brasileiro seguem majoritariamente no ritmo da monocultura. Em contracorrente, é fortalecida mundialmente a agroecologia – que nasce na América Latina sob a ideia de um cultivo de alimentos saudáveis, a partir da agricultura local e familiar e sem agrotóxicos, tendo como base a justiça socioambiental. Na prática, significa a implementação de sistemas de produção agrícola diversos, os agroecossistemas, que sejam socialmente justos, economicamente viáveis para grupos de diferentes contextos e que mantenham a diversidade ecológica.[3]
Mesmo que o Brasil ocupe posição internacional de destaque no tema, a baixa cobertura sobre a agroecologia e outras alternativas de produção nos meios de comunicação tradicionais não corresponde ao real tamanho e à importância que possuem.
Essa monocultura de discursos tem algumas razões. Uma delas é a concentração da propriedade da mídia, definida por padrões internacionais como um dos principais indicadores de risco à pluralidade de ideais em circulação na sociedade. No Brasil, a situação é preocupante: apenas cinco grupos concentram mais da metade dos cinquenta veículos de comunicação de maior audiência, segundo dados do Monitoramento da Propriedade da Mídia (Media Ownership Monitor – MOM), pesquisa realizada pelo Intervozes e pela Repórteres Sem Fronteiras e publicada no final de 2017. De acordo com o estudo, o sistema de mídia brasileiro tem alta concentração de audiência e alta concentração geográfica, falta de transparência, além de interferências políticas, religiosas e econômicas. Entre as interferências econômicas, um dos destaques é que parte dos proprietários dos meios de comunicação de maior alcance no país possuem negócios no setor agropecuário.
As relações entre os grandes grupos de mídia brasileiros e o agronegócio são antigas. A Folha de S.Paulo, por exemplo, jornal impresso de maior tiragem do país, teve origem na Folha da Manhã S.A., empresa constituída em 1931 tendo em seu quadro de diretores e acionistas nomes como Otaviano Alves de Lima, que reforçou a adoção de uma linha editorial voltada para os “lavradores de São Paulo”, como o jornal designava os proprietários de terras, principalmente os cafeicultores.
Essas relações se mantiveram ao longo do tempo. De um lado, há aqueles que são ao mesmo tempo proprietários de terras e de veículos de comunicação. É o caso de João Carlos Di Genio, dono do Grupo Mix de Comunicação, responsável pela rádio Mix FM, sexta rede nacional de maior audiência. Além de ser o dono do Grupo Objetivo, um dos maiores grupos de educação privada no país, Di Genio tem cinco fazendas de produção de gado e reprodução de animais, em parceria com sua universidade, a Unip, e é um dos maiores proprietários de imóveis da cidade de São Paulo. Já o Alfa, um dos principais conglomerados financeiros do país, comandado por Aloysio de Andrade Faria, tem entre seus negócios ligados à terra a Agropalma, empresa de extração de óleo de palma, uma empresa de produção de couro (Soubach) e uma de exploração de água mineral (Águas Prata). O Alfa é proprietário da Rede Transamérica de Rádio, quinta rede nacional de maior audiência.
De outro lado, há aqueles que não apenas detêm os dois tipos de propriedade, como fazem um investimento grande na produção de conteúdo voltado ao agronegócio. O caso mais emblemático é o do já citado Grupo Globo, que aparece no MOM-Brasil como proprietário de nove dos cinquenta veículos de maior audiência no país. Os membros da família Marinho, donos do conglomerado, também têm fazendas e empresas de produção agrícola, como a Fazenda Bananal Agropecuária, as Fazendas Guara Agropecuária e a Mangaba Cultivo de Coco. Além disso, a Globo Comunicações e Participações S/A é integrante da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).
Além da campanha Agro – A indústria riqueza do Brasil, na grade de programação do principal veículo do grupo, a Rede Globo, é apresentado o programa jornalístico Globo Rural, no ar desde 1980. O programa deu origem à revista de mesmo nome, publicada pela Editora Globo desde 1985, e à editoria Agro do portal de notícias G1. O produtor rural também é foco de projetos da Globo Negócios, como o Mapa da Mina, que permite o planejamento do investimento publicitário dos diversos setores da economia em audiências estratégicas a partir de levantamentos de dados do setor agropecuário.
Outro caso é o do Grupo Bandeirantes, que aparece no MOM-Brasil com cinco dos cinquenta veículos de maior audiência. A família Saad, dona do grupo, também é proprietária de terras e teve algumas delas desapropriadas para a reforma agrária em 1989. O grupo possui o Canal de TV Terraviva, no ar desde 2005 e em exibição através de múltiplas plataformas, atingindo 98,8 milhões de espectadores, segundo o site da emissora. O mote do Terraviva é “O canal de quem planta e cria” e em seu perfil institucional se define como “um aliado do agronegócio”. A grade de programação mostra o perfil do canal que, de um lado, procura levar informações aos produtores rurais e, de outro, sensibilizar a sociedade sobre a importância do agronegócio ou agrobusiness, dois termos frequentemente utilizados pelo canal.
O caso do Terraviva permite observar que interesses empresariais aparecem não só na propriedade da mídia, mas entre aqueles que são responsáveis por levar informação ao telespectador. Os programas Agrimercado e Consutor Terraviva, por exemplo, são apresentados por Silmar Cesar Müller, repórter que também faz participações em programas das outras emissoras do grupo, como BandNewsTV e rádio BandNews FM e tem ampla atuação no mercado do agronegócio como consultor. Foi fundador e presidente durante 26 anos da Consultoria SAFRAS & Mercado, especializada em consultoria de planejamento para o agronegócio, criador da Agência SAFRAS, canal de notícias voltado para o mercado de commodities e agronegócios no Brasil e América do Sul, vice-presidente do Grupo IT Mídia e vice-presidente de Agronegócios do braço brasileiro e latino-americano da IBC–International Business Communications, empresa do grupo britânico INFORMA Group. Já o Direito & Certo é apresentado por Samanta Pineda, advogada especialista em Direito Socioambiental que trabalha também como “consultora e colaboradora” da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso Nacional, da Abag e da Sociedade Rural Brasileira.

Estrutura fundiária: marca de desigualdade no país
Entender de que forma interesses empresariais podem influenciar a produção da notícia é fundamental para que a população possa consumir a informação produzida por esses veículos de forma crítica. A relação de propriedade entre mídia e agronegócio tem reflexos diretos em como a questão da terra é tratada no país, como mostra pesquisa recente desenvolvida por Ana Manuela Chã e publicada no livro Agronegócio e indústria cultural: estratégia das empresas para construir a hegemonia.
O quadro de concentração da comunicação e da estrutura fundiária brasileira se baseiam no imaginário social que legitimou a propriedade privada, a família heteronormativa e o acúmulo de capital a partir de processos coloniais. Outras formas de vida foram simbolicamente consolidadas como estranhas, exóticas, primitivas e pobres, subalternizando e/ou invisibilizando diversas identidades com base no racismo e no patriarcado, como mostrou Maristella Svampa.[4]
Por outro lado, a democratização da comunicação e a defesa da liberdade de expressão significam a desconcentração da propriedade em busca de espaços para novas narrativas, como aquelas que questionam a noção de “desenvolvimento” como caminho dado para todas as realidades culturais e sociais. Diversas correntes disputam a ideia de “sustentável”, a partir de cosmovisões em que a terra não significa apenas um suporte ao trabalho humano, mas a uma ideia de sociedade baseada na reciprocidade, complementaridade e cooperação[5] e na ideia de bem-viver.[6] São racionalidades em que a terra, assim como outros recursos naturais, não pode ser um bem privado e objeto de acúmulo de capital, mas sim um bem comum.

*Camila Nobrega é jornalista e doutoranda em Ciência Política na Universidade Livre de Berlim; e Olívia Bandeira é jornalista, doutora em Antropologia e membro do conselho diretor do Intervozes.
[1] Ver em: http://www.mda.gov.br/sitemda/noticias/brasil-70-dos-alimentos-que-v%C3%A3o-%C3%A0-mesa-dos-brasileiros-s%C3%A3o-da-agricultura-familiar
[2] Censo Agropecuário de 2006/IBGE.
[3] Mais referências no artigo “Agroecologia, Agricultura Camponesa e Soberania Alimentar”, de Miguel Altieri. Disponível em http://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/view/1362. Acesso em 05.01.2019
[4] Maristella Svampa. Feminismos del sur y ecofeminismo. Nueva sociedad (256), 2015, p.127-131.
[5] Idem.
[6] Margarita Aguinaga et al. Más allá del desarrollo. Fundação Rosa Luxemburgo; Abya Yala, 2011.

Especial Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil
1 Investigando os donos da mídia no Brasil pós-golpe
2 Mídia e interesses empresariais: quem controla a notícia no Brasil?
3 Igrejas cristãs no topo da audiência
4 Mídia, religião e política: igrejas cristãs intensificam presença na esfera pública
5 Afiliações políticas na mídia brasileira
6 Na internet, a combinação de novas e velhas formas de concentração
7 Regulação da mídia: a invisibilidade de uma agenda essencial à democracia
8 Mídia antipetista: quem controla “O Antagonista”?
9 Agronegócio e mídia brasileira: onde duas monoculturas se conectam

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Infográfico: Quem financia os deputados da CPI da Funai?


http://apublica.org/2015/12/truco-infografico-quem-financia-os-deputados-da-cpi-da-funai/

Infográfico: Quem financia os deputados da CPI da Funai?

Parlamentares que ocupam os sete principais cargos da comissão receberam R$ 9 milhões do agronegócio nas eleições de 2014
Para entender melhor o caso, leia também a reportagem “Devassa ruralista na Funai e no Incra”.
Infografico-CPI-Funai-site

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Retireiros: lidando com gado em terras alagáveis

Maíra Ribeiro

O Vale do Araguaia tem muitos retireiros, mas um grupo tem se destacado por sua luta pelo território. No município de Luciara, uma pequena cidade de 2.224 habitantes, os retireiros do Araguaia vivem da criação coletiva de gado na beira do Araguaia, numa região chamada de Mato Verdinho. Cada retireiro tem sua história. Os primeiros chegaram há mais de um século e outros foram vindo. A família de Jossiney Evangelista, por exemplo, chegou há 60 anos.
Jossiney, além de retireiro, é vereador. Ele explica que nos retiros o gado é criado solto.  São utilizadas pastagens naturais do cerrado, por isso eles conhecem diversos tipos de capins, como o palha-fina, o canarana e o cebola. Jossiney conta que “se você plantar braquiária ou outro tipo de capim, acaba mexendo com o ecossistema. Lá tem muita biodiversidade, e a vantagem é que a gente vai tentando sempre seguir a natureza”.
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Reserva de Desenvolvimento Sustentável – o que é e como funciona?
Áreas de Preservação Permanente e o interesse da União: a Portaria da SPU
Quem tem medo da regularização fundiária? O latifúndio, a mentira e a violência
Cercas de arame e limitações políticas

Tocando gado em terras alagáveis. Foto: Jossiney Evangelista.
Os retireiros preservam a natureza sem esforço, pois esse é o seu modo de vida há gerações. Mas tudo em volta está mudando, e esse modo de vida está cada vez mais ameaçado. A grilagem de terra é uma prática cada vez mais comum, as cercas estão aumentando e os impactos no ambiente já são sentidos. A saída encontrada pelos retireiros é a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mato Verdinho. A intenção é que, com a RDS, a terra continue sendo usada coletivamente, impedindo o avanço da grilagem de terra e preservando as margens do rio Araguaia.

Até um tempo atrás se pensava que para conservar um ambiente natural era preciso tirar todas as pessoas que viviam nele. Esquecia-se que todo o território brasileiro era antes habitado pelos indígenas e que a natureza não era “intocada”, muito pelo contrário, a natureza sempre foi manejada. Percebeu-se então que, não só os índios, mas também muitas populações tradicionais desempenham um papel fundamental na proteção da natureza, bem como na manutenção da diversidade biológica.
A partir dessa percepção, se criou no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) a categoria Reserva de Desenvolvimento Sustentável, que tem como principal característica a integração de pessoas com a conservação do ambiente. É o reconhecimento do Estado de que as pessoas que viveram em determinado território desenvolveram, ao longo de gerações, uma série de conhecimentos para utilizar os recursos naturais sem esgotá-los, ou seja, de modo sustentável.
Os territórios das RDS são de domínio público, entendendo, portanto, que aquela população desempenha um papel importante para toda a nação, e por isso, tem por direito viver daquela terra. A população deve ser a responsável pela gestão da área, participando das atividades de manejo dos recursos naturais e fazendo a vigilância da reserva.
Jossiney conta que os retireiros do Araguaia entraram com o pedido da criação da RDS em 2003. De lá para cá, segundo ele, “a coisa ficou solta”. “A gente luta pela RDS para evitar a entrada do agronegócio que acaba com tudo. O modelo de agricultura que a gente vê hoje limpa a terra e tira tudo, matando muitos animais e plantas nativas”, afirma. A RDS Mato Verdinho, se criada, estaria localizada em terras alagáveis, que são Áreas de Preservação Permanente (APP).

As áreas alagáveis de um rio são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP), que de acordo com o Código Florestal (Lei nº12.651/12) são áreas naturais intocáveis, com rígidos limites de exploração. As APPs se destinam a conservar solos e, principalmente, as matas ciliares, protegendo os rios e reservatórios de assoreamentos, garantindo a preservação da vida aquática.
Somente órgãos ambientais podem abrir exceção à restrição e autorizar o uso de uma APP (art. 8º da Lei 12.651/12). A presença dos retireiros do Araguaia nestas áreas alagáveis seria, portanto, uma exceção, só permitida porque o Estado reconhece que seu modo de vida é sustentável. Em 26 de novembro de 2014 foi publicada a Portaria nº 294 da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), declarando as áreas de várzea do rio Araguaia como terras de interesse público da União.
O Procurador Wilson Rocha de Assis, da Procuradoria da República no Município de Barra do Garças, defende que esta é uma definição legítima. Ele afirma que “não se trata de desapropriação de terras particulares, de tomada de terra de ninguém, mas tão somente da formalização e da delimitação de uma área que por lei pertence à União e que vinha sendo ocupada de uma forma irregular, através da grilagem de terras, e invariavelmente expulsando populações que já estavam nessa região há décadas ou séculos”.
Com 1.627.686 hectares, a área indicada pela Portaria nº294 abrange os municípios mato-grossenses de Luciara, Canabrava do Norte, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do Norte, Santa Terezinha e São Félix do Araguaia, e os municípios tocantinenses Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão e Pium. Apesar de ser apenas uma formalização já prevista na legislação, a iniciativa gerou polêmica e os latifundiários rapidamente se organizaram. Foram propagados rumores de que toda a área seria “Reserva Indígena” (sic), que os moradores seriam expulsos dali e que o preço das terras na região havia despencado.
No dia 30 de janeiro de 2015, a Portaria nº 294/2014 foi revogada, sendo substituída pela Portaria nº10/2015, que instituiu um Grupo de Trabalho para realizar um estudo técnico das áreas então desapropriadas a que fazia referência, a fim de analisar sua situação fundiária.
Com a regularização fundiária na região, os grileiros, aqueles que se apropriaram ilegalmente de grandes áreas de terras devolutas através de documentos falsos, teriam suas fazendas passíveis de desapropriação. A grilagem de terras geralmente é feita para a aquisição de financiamentos bancários dando a terra como garantia. Os produtores de soja estariam também interessados em adquirir quotas de Reserva Legal, já que o novo Código Florestal permite que sejam compradas reservas fora da propriedade na qual ocorre o desmatamento, desde que seja no mesmo bioma.
Com a expansão do agronegócio na região, as terras estão cada vez mais valorizadas. A regularização fundiária, prevista na Portaria nº294/2015, impediria a compra e venda das áreas de várzea do Araguaia, e este é o maior temor dos poderosos da região. Já os posseiros, pessoas que se apropriam de terra para morar e trabalhar, não seriam prejudicados. Do mesmo modo, estariam resguardados os direitos das comunidades tradicionais que ali vivem, como pescadores, os indígenas Kanela do Araguaia e os retireiros do Araguaia.
Para Jossiney, a população urbana de Luciara também se beneficiaria com a preservação da área, pois, segundo ele, a maioria dos moradores são ribeirinhos, vivem da pesca. “A criação da RDS é uma forma de conservar esse modo de vida. A fiscalização poderia diminuir ou até extinguir a prática da pesca predatória, porque a gente só respeita um local se tem alguém”. E completa, “Se tem uma casa de ‘fulano de tal’, eu não vou entrar. Mas se continuar do jeito que está, não tem sentido a gente ficar lá dentro. O retireiro sem a natureza preservada nem vale a pena”.

Não é novidade: a grilagem corre solta no Araguaia. O interesse pelas terras é tanto que a violência se torna uma prática comum na busca de mais lucro. Luciara viveu dias violentos em 2013, com diversos atentados cometidos contra os retireiros do Araguaia. Foram queimadas duas casas, tentaram atear fogo em um veículo, pneus foram queimados em frente a residências e foram proferidas ameaças de morte contra diversos membros da comunidade.
A casa de uma liderança religiosa que apoia a causa dos retireiros foi alvejada por tiros e um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foi ameaçado e impedido de entrar na cidade. A MT-100, único acesso terrestre à Luciara foi obstruída, máquinas foram colocadas na pista de pouso do aeroporto e até mesmo o acesso ao lago e beira de rio onde ficam os retireiros foi fechado.
Jossiney era o proprietário de uma das casas queimadas. Dois anos após o crime, ele ainda não superou os momentos de horror. “Até hoje eu lembro do pessoal querendo me linchar, foi muito violento. Eu sou representante do povo, sou vereador, mas muitas vezes eu deixo de ir em algum lugar para resguardar minha vida. Agora que eu estou voltando ao meu retiro normalmente, agora que eu estou conseguindo refazer a casa”, desabafa.
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Casa de Jossiney após incêndio criminoso. Foto: Jossiney Evangelista.
Para ele, a situação permanece tensa, ainda que as ameaças sejam veladas. “Não tem ameaças diretas, mas a posição de quem é contra continua sendo a mesma. O silencio é pior, porque você não sabe quem é a pessoa que vai fazer alguma coisa ruim”, afirma. Ele defende que a criação da RDS é a única saída para os retireiros. “Todo mundo tem o direito de ser contra ou a favor, mas qual é a proposta que eles tem? É só ser contra e pronto? Se houvesse outra alternativa para a gente manter nosso modo de vida, eu iria abraçar a causa”, afirma o vereador.
Em maio de 2014, oito integrantes da Associação dos Produtores Rurais (Aprorurais) de Luciara foram denunciados pelo Ministério Público Federal de Barra do Garças pelos crimes de associação criminosa, sequestro, cárcere privado e ameaça contra a comunidade tradicional retireiros do Araguaia, professores e estudantes da UFMT. A investigação, conduzida pela polícia e pelo Ministério Público Federal, comprovou que as manifestações contra a comunidade tradicional da região do rio Araguaia foram orquestrados, coordenados, financiados e estimulados pela associação criminosa da qual fazem parte os denunciados.
De acordo com o Procurador Wilson Rocha de Assis, o grupo usava a desinformação e controle político para tentar colocar a população da cidade contra os retireiros. “Esses setores têm afirmado que é um ato de desapropriação, que o poder público vai tomar as áreas e vai expulsar as pessoas que residem na região, o que não é verdade, especialmente considerando que é uma região que tem uma ocupação antiga. A boa fé dessas pessoas tem que ser contemplada na medida que a lei autorize”, afirmou.
Mesmo sendo mentira, a maioria do povo acreditou. Segundo Jossiney, esta campanha de desinformação enfraqueceu a luta pelo território. “Pregaram um terrorismo na cabeça das pessoas com informação falsa. Eu sou o único vereador que apoia a criação da RDS, os outros são declarados contra e até o prefeito se declara contra”, lamentou.

No dia 17 de agosto de 2015, uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, em Cuiabá, debateu sobre as Portarias nº 10/2015 e nº 294/2014 da SPU. De acordo com o Procurador Wilson, este foi um momento de democratização do debate. Segundo ele, “o Ministério Público e a SPU foram muito acusados de não estarem ouvindo outros setores, especialmente o setor produtivo. Agora esse argumento não pode mais ser usado. O debate foi praticamente dominado pelo setor ruralista, que está muito bem representado na Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso”.
Não podia ser diferente. A Audiência Pública foi realizada pela Comissão de Agropecuária, Desenvolvimento Florestal e Agrário e Regulamentação Fundiária, e contou com a presença de Sindicatos Rurais dos municípios afetados, prefeitos, vereadores e apenas um representante indígena e um retireiro. “O que a gente ouviu foi a oposição desses setores em garantir os direitos das comunidades tradicionais e dos povos indígenas”, disse o Procurador. “Apesar dessa oposição, a gente conseguiu explicar a legislação, que favorece os povos indígenas e as comunidades tradicionais. O Ministério Público e a SPU deram todos os esclarecimentos que foram solicitados”, afirmou Wilson.
A recomendação do Ministério Público é que se faça primeiro a regularização dos territórios dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. A prioridade dada aos povos indígenas e comunidades tradicionais não parte de um interesse ideológico. De acordo com o Procurador Wilson, “a lei que estabelece como se faz regularização fundiária na Amazônia Legal, a Constituição e os tratados internacionais deixam clara a necessidade de respeitar as comunidades tradicionais”. Ele ainda afirma: “eu não posso ser avesso à propriedade privada ou ao agronegócio, mas o que a gente defende é que seja observada essa ordem, primeiro a garantia dos territórios tradicionais e depois as propriedades privadas”.
Enquanto agem nas esferas de decisões políticas, os fazendeiros também intervêm na área reivindicada pelos retireiros. O procurador afirma que o Ministério Público tem recebido diversos relatos sobre novas cercas e atos de invasão de terras públicas. “Estamos tomando todas as providências para que esses atos sejam processados e punidos na forma da lei.”, garante.
Após anos de luta, Jossiney começa a perder as esperanças. “Já tem mais de dez anos que a gente vem esperando acontecer a RDS e nada. O poder de articulação dos fazendeiros é grande. Sempre o mais fraco é o que termina perdendo”, lamenta.
O medo também afeta a esperança. Após as ameaças e cenas de terror vividas, Jossiney teme pelo futuro. “Não é só aqui na região, em vários lugares quem lutou por uma causa acabou morrendo e só viu as coisas acontecendo depois da morte. Eu queria ver em vida”, desabafa. “A gente só tem uma vida. Quem vivencia uma cena de terror, mesmo depois de algum tempo, as imagens não se apagam da mente. A gente pode se acostumar, mas não quer mais vivenciar aquilo”, conclui.
A regularização fundiária é o caminho para construir a segurança jurídica na região e, consequentemente, a segurança das pessoas que lutam pelo direito legítimo ao território.

sábado, 13 de junho de 2015

Vídeo e publicação mostram estratégia para a construção de uma cadeia de pecuária sustentável na Amazônia

http://amazonia.org.br/2015/06/v%C3%ADdeo-e-publica%C3%A7%C3%A3o-mostram-estrat%C3%A9gia-para-a-constru%C3%A7%C3%A3o-de-uma-cadeia-de-pecu%C3%A1ria-sustent%C3%A1vel-na-amaz%C3%B4nia/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+10+de+junho+de+2015




Vídeo e publicação mostram estratégia para a construção de uma cadeia de pecuária sustentável na Amazônia

O Instituto Centro de Vida (ICV) acaba de lançar um vídeo e uma publicação que apresentam a estratégia para a construção de uma cadeia de pecuária sustentável na região norte de Mato Grosso. Os materiais trazem informações sobre os desafios da pecuária na Amazônia, projeções para produção agropecuária no estado nos próximos sete anos, as intervenções realizadas nas fazendas, os principais resultados obtidos e as perspectivas futuras para expansão da proposta para outros municípios.
O vídeo e a publicação retratam um trabalho que começou em 2012, através de um projeto piloto em 10 fazendas de Alta Floresta, onde foi testado um novo modelo produtivo baseado na gestão integrada da propriedade. Os resultados mostraram, na prática, a viabilidade da proposta, que teve como base técnica o Guia de Boas Práticas Agropecuárias (BPA) desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Os bons resultados impulsionaram, a partir do segundo semestre de 2014, o início de uma nova fase para levar a proposta a ganhar escala regional, através do Programa Novo Campo.
Clique na imagem para baixar o documento
O Novo Campo promove práticas sustentáveis em fazendas de pecuária na Amazônia, melhorando seu desempenho econômico, social e ambiental para reduzir o desmatamento, conservar ou recuperar os recursos naturais e fortalecer a economia local. O Programa é coordenado pelo ICV e tem como parceiros a Embrapa, o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), a Fundação Solidaridad, a empresa multinacional de carnes JBS S.A e os Sindicatos Rurais de Alta Floresta e de Cotriguaçu. Conta também com o apoio do Fundo Vale, da Fundação Moore, do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) e da Cooperação da Noruega (Norad).
Daniela Torezzan
Fonte: ICV

Friboi, a campeã nacional em acidentes

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=85323


Friboi, a campeã nacional em acidentes

Agência Pública
Adital
Por Maurício Moraes
Dados do Ministério da Previdência mostram que a JBS, dona da marca Friboi, é a campeã em acidentes de trabalho em frigoríficos no Brasil
Nos comerciais da Friboi na TV, o roteiro se repete. O ator Tony Ramos faz uma visita-surpresa à casa de um consumidor, para perguntar qual carne costuma comprar, e encontra um produto da marca na geladeira. "Carne confiável tem nome”, diz o artista. Quando fiscais aparecem, repentinamente, nas unidades da JBS, dona da Friboi, o resultado tende a ser previsível como a propaganda. Irregularidades e violações de direitos trabalhistas são tão frequentes que deixaram 7.822 funcionários da empresa doentes ou incapacitados para o trabalho nos últimos quatro anos. Isto equivale a cinco acidentes por dia durante todo o período.
Dados inéditos obtidos pela Públicacom o Ministério da Previdência Social, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que a JBS foi a campeã em comunicados de acidentes de trabalho, de 2011 a 2014, somando-se os setores de abate de gado e de fabricação de produtos de carne. No setor de abate de aves – em que começou a se expandir nos últimos dois anos, com a compra da Seara e de outros frigoríficos –, a empresa já subiu para o segundo lugar, em 2014, e ficou quase empatada com a BRF (antiga Brasil Foods).

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Funcionários da JBS trabalham em uma linha de produção da unidade de Rolândia (PR), interditada após fiscalização. Foto: MPT/PR


Com lucro líquido de US$ 2,04 bilhões, em 2014, a JBS é, hoje, o maior grupo privado do país em faturamento e a maior processadora de carnes do mundo. No ano passado, as vendas somaram R$ 120 bilhões. Este gigantismo foi conseguido com a ajuda de dinheiro público. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da BNDES Participações (BNDESPar), fez aportes de R$ 8,1 bilhões para favorecer aquisições, tornando-se seu maior sócio. A BNDESPar chegou a deter um terço do grupo. Em 2012, repassou uma cota equivalente a 10% de participação para a Caixa Econômica Federal e manteve-se com 24,5%. O grupo foi também o maior doador na campanha eleitoral do ano passado e destinou R$ 366,8 milhões a candidatos e partidos políticos.
A maioria dos acidentes da JBS no país ocorreu no setor de abate de bovinos, uma área historicamente perigosa para os trabalhadores. Foram registrados 4.867 comunicados no total: 1.294, em 2011, 1.225, em 2012, 1.261, em 2013, e 1.087, em 2014. Nesse setor, a empresa foi responsável por um em cada quatro acidentes informados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2011 e 2013 – cerca de 25% ao ano. Houve redução de 14% nos comunicados da JBS de 2013 para 2014, mas a empresa ainda concentrou um em cada cinco acidentes reportados no último ano (21%) e ficou atrás apenas da Marfrig.

Evolução dos acidentes de trabalho na JBS (2011-2014)
apublicaNa área de fabricação de produtos de carne, foram 506 acidentes reportados em 2011, 262, em 2012, 327, em 2013, e 369, em 2014 (incluindo a Seara, comprada em 2013). Nos quatro anos, a JBS foi a empresa com maior quantidade de casos. Já no setor de abate de aves, os incidentes começaram a aparecer em 2012, com a criação da divisão JBS Aves a partir do arrendamento da Doux Frangosul. Foram 49 comunicados naquele ano. Em 2013, a quantidade subiu para 289. Em 2014, depois da aquisição da Seara, houve um salto para 1.153 casos.
Ao todo, 3.110 acidentes da JBS de 2011 a 2014 (39%) ocorreram na Amazônia Legal, principalmente no Mato Grosso. O Estado tem o maior rebanho bovino do país, com 28,3 milhões de cabeças, segundo a pesquisa Produção da Pecuária Municipal de 2013, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O grupo mantém unidades também no Acre, no Maranhão, no Pará e em Rondônia. Foram registrados 713 incidentes na Amazônia Legal em 2011. O número passou para 821 em 2012, 840 em 2013 e 736 em 2014. Apesar das flutuações, foram dois por dia, em média, a cada ano.
Acidentes de trabalho na JBS por estado (2011-2014)
apublicaBaixe a tabela completa com os dados sobre comunicados de acidentes de trabalho em frigoríficos, de 2011 a 2014

Infrações deliberadas
Os dados fornecidos pelo Ministério da Previdência Social confirmam a percepção dos procuradores do Ministério Público do Trabalho que fiscalizam de perto esses setores. "A JBS tem uma política deliberada de precarização dos direitos fundamentais dos trabalhadores”, afirma o procurador Sandro Eduardo Sardá, gerente nacional do Programa de Adequação das Condições de Trabalho nos Frigoríficos. "Isso vem gerando uma legião de trabalhadores amputados e mortos em razão de acidentes de trabalho.” O grupo foi criado em 2010 por causa do elevado número de problemas registrados nesse tipo de empresa.
De acordo com Sardá, a JBS mantém condições ruins de trabalho para obter o máximo de lucro. Isso é feito de várias maneiras. Em uma das mais comuns, adota-se um ritmo excessivo – e, portanto, ilegal – na jornada dos funcionários. "É um ritmo de trabalho incompatível com a proteção à saúde dos trabalhadores”, diz o procurador. Nos frigoríficos de aves, isso leva muitos dos funcionários a adquirirem doenças ocupacionais. Nos frigoríficos de bovinos, tem como resultado uma grande quantidade de amputações.
Uma amostra da extensão do problema pôde ser vista recentemente. No dia 13 de maio, uma força-tarefa formada pelo Ministério Público do Trabalho, pelo Ministério do Trabalho e Emprego, pelo INSS, pela Receita Federal e pela Advocacia-Geral da União interditou 45 máquinas que apresentavam riscos à saúde dos trabalhadores, em uma unidade de abate de frangos da empresa em Rolândia, no Paraná. Com 4 mil funcionários, a fábrica pertence à Big Frango, adquirida pela JBS no ano passado, e abate 400 mil frangos por dia.
Entrevistas feitas com 400 trabalhadores durante a operação mostram as consequências de uma jornada excessiva. Uma parcela de 52,9% dos funcionários ouvidos – ou seja, mais da metade – admitiu terem tomado algum tipo de remédio, aplicado emplastros ou feito compressas para poderem trabalhar nos 12 meses anteriores. Além disso, 38% deles disseram sentir uma dor forte durante a realização de suas atividades. Terminado o dia de trabalho, 75,4% afirmaram ficarem cansados (35,1%), muito cansados (23%) ou exaustos (17,3%).
A força-tarefa escolheu essa unidade, entre tantas outras, por meio de cruzamentos de dados públicos e privados. Os procuradores identificaram uma enorme quantidade de consultas médicas relacionadas ao trabalho no ano passado. Foram 2.033, além de 70.279 atendimentos de enfermagem, equivalentes a 225 por dia nessa fábrica. Já os afastamentos por doenças osteomusculares ou traumas somaram 6 mil horas em 2014.
Tipos de acidentes de trabalho na JBS (2011-2014)
Muitos dos problemas vêm da gestão anterior, mas os resultados da operação indicam que não houve mudanças significativas. "Algumas empresas já tinham condições ruins de trabalho, em razão de má administração. Eles vieram, adquiriram essas indústrias e a situação dos trabalhadores piorou, envolvendo a questão salarial e a questão de saúde”, diz Ernane Garcia Ferreira, presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação do Estado do Paraná (FTIAPR). "Lucro, lucro, lucro. Essa é a visão da empresa.”
Mais rápidos que máquinas
Uma fiscalização na unidade de Montenegro (Rio Grande do Sul), no início do ano passado, resultou na interdição de máquinas e atividades. Foram aplicados 33 autos de infração após a visita. Entre as irregularidades, uma das que mais chamaram a atenção dos fiscais foi a situação dos funcionários responsáveis por embalar frangos do tipo griller – um galeto pequeno, exportado principalmente para o Oriente Médio. Para colocar a ave dentro de um saco plástico, é necessário passá-la dentro de um funil. Os funcionários escalados para a tarefa realizavam nada menos de 90 movimentos por minuto com os braços.
Com isso, os trabalhadores conseguiam embalar 30 frangos por minuto, ou um frango a cada dois segundos, aproximadamente, com três movimentos. Não existem máquinas capazes de atingirem tamanha produtividade. As mais rápidas embalavam 15 frangos por minuto, metade da velocidade de um funcionário da JBS. "Se uma máquina consegue dar conta apenas dessa produção, imagine o nível de exigência dos músculos, dos tendões, dos braços do trabalhador nesse posto”, afirma Mauro Müller, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego no Rio Grande do Sul. Ao todo, 93% dos empregados entrevistados no setor disseram terem sentido dor na semana anterior à visita.
A mesma operação verificou as condições na unidade de Passo Fundo (RS) e encontrou funcionários lidando com uma quantidade de peso acima do normal. No setor de descarregamento de frango vivo, havia pessoas manuseando 50 toneladas por dia. O máximo permitido pela legislação, no entanto, são 10 toneladas diárias. A fábrica também usa empilhadeiras e paleteiras elétricas movidas à bateria, que pesam 1,1 tonelada cada. A troca dessas baterias, feita a cada turno, era manual. Os funcionários usavam o corpo para fazer a substituição, empurrando ou puxando as peças.
A fiscalização dos relógios de ponto na unidade de Passo Fundo, de 16 de maio a 15 de dezembro do ano passado, identificou cerca de 27 mil jornadas além do limite permitido. "É muita coisa. É, praticamente, o setor produtivo todo trabalhando uma média diária de 9h40”, diz Müller. "A partir do momento em que você prorroga a jornada além das oito horas, estaria aumentando em 50% o risco de adoecimento por LER/Dort [lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho]. É muito grave. Há o aumento da jornada, o aumento da fadiga e o aumento do risco de adoecimento num ambiente que tem vários outros fatores de risco”.
No Mato Grosso, estado que concentra a maior quantidade de acidentes da JBS, uma das linhas de atuação do Ministério Público do Trabalho tem sido impedir as horas extras em ambientes insalubres. "A atividade do frigorífico tem ritmo intenso, com um grande número de movimentos na unidade do tempo, atuando em baixas temperaturas. Então, há uma porção de riscos”, explica Leomar Daroncho, procurador do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso. "Tem uma série de condenações com fundamento da insalubridade. Nessas condições, não é razoável que os trabalhadores fiquem expostos além do número de horas que a legislação permite”.
Desobedecer à jornada de trabalho máxima permitida, no entanto, não é exclusividade da JBS. Isso vale para outras transgressões à legislação cometidas em frigoríficos. "Os problemas que o setor tem, a JBS também tem. Sob o ponto de vista trabalhista, não é muito diferente do que ocorre com as demais empresas. Como é a maior, é claro que tem mais problemas”, diz Daroncho. "No Mato Grosso, o setor de frigoríficos é o que mais tem mais acidentes de trabalho e está bem à frente do segundo lugar.” Ele estima que de 30% a 35% das ações na Justiça do Trabalho no estado envolvam essas empresas.
As 10 empresas do setor frigorífico com mais acidentes (2011-2014)
apublicaSalários baixos são comuns, principalmente porque muitos frigoríficos estão instalados em cidades pequenas, com poucas opções de inserção no mercado de trabalho. Isso estimula a prestação de horas extras. "O trabalhador acaba buscando na jornada excedente uma forma de sobreviver, de custear a sua vida. E com isso ele produz a médio prazo sérios problemas em relação à integridade física dele mesmo”, ressalta Daroncho.
Também falta muitas vezes uma estrutura física adequada para o trabalho. Funcionários da JBS da área fria na unidade de Pontes e Lacerda (MT), por exemplo, não tinham um lugar adequado para descansar. Depois de trabalharem a quase zero grau, ficavam em ambiente externo, cuja temperatura às vezes beirava 40 graus. Uma decisão judicial, de novembro do ano passado, obrigou a empresa a construir um espaço refrigerado para as pausas. Determinações como essa trazem multas pesadas se forem descumpridas.

Realidade oculta
Os dados de acidentes de trabalho da JBS e de outras empresas podem esconder um cenário muito pior. Isso porque o setor de frigoríficos é conhecido por não comunicar muitas das ocorrências. Com medo de perder o emprego ou as bonificações que melhoram os baixos salários, funcionários costumam trabalhar adoentados. "Há os casos que vão para a mídia e também aqueles que não aparecem. O trabalhador corta o dedo, recebe quatro, cinco pontos e vai trabalhar, porque é o encarregado daquele dia. Se faltar, perde prêmio de abate, de couro, de desossa. Então prefere trabalhar acidentado a ficar afastado”, diz Vilson Gimenes Gregório, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Carne e Derivados de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Acidentes de trabalho na JBS por tipo de atividade econômica (2011-2014)
O assédio moral na linha de produção, segundo Gregório, também é comum. "O trabalhador está ali, fazendo o serviço. Os supervisores querem que faça mais rápido e gritam. As mulheres querem ir ao banheiro e não podem ir antes do intervalo. Se forem, são preguiçosas, não querem trabalhar. Esse é o tratamento deles”, afirma o sindicalista. Benefícios acertados em convenção coletiva, como cesta básica, às vezes, são cortados pela empresa se o funcionário faltar, o que é ilegal. "Eles não respeitam os acordos coletivos. Passam por cima de tudo e fazem do jeito deles”, diz Gregório. Até mesmo atestados de saúde que determinam afastamentos têm o tempo reduzido sem a devida justificativa.
O índice de subnotificação de acidentes de trabalho no setor pode passar de 90% a 95%, calcula o procurador Heiler Ivens de Souza Natali, coordenador nacional do Programa de Adequação das Condições de Trabalho nos Frigoríficos. De acordo com Natali, o problema acaba sendo evidenciado com a atuação das forças-tarefa que fazem inspeções nas unidades. Quando os fiscais descobrem afastamentos que podem ter ocorrido devido à natureza da atividade e não foram comunicados, isso pode resultar em uma ação judicial, por exemplo. Por isso, os dados de comunicados de acidentes de trabalho segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), divulgados pelo Ministério da Previdência Social, são apenas uma amostra do que ocorre de fato.
Diante do enorme número de problemas, Natali afirma que a JBS tem feito algumas mudanças para diminuir a quantidade de acidentes de trabalho nos seus frigoríficos. "A JBS tem uma política de segurança que está tentando implementar. Isso é verdade”, afirma. "Só que há uma outra discussão: se essa política está adequada e se ela está em vigor nas unidades do Brasil inteiro. E, para os dois questionamentos, a resposta, em princípio, não é afirmativa.” A realidade não corresponde às imagens mostradas na publicidade.

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Apesar de um acidente já ter ocorrido nesta máquina de limpar moela, ela continuava em operação sem as proteções necessárias em unidade da JBS Friboi. Foto: Divulgação MTE / Repórter Brasil


A situação torna-se ainda mais complicada por causa do modo como o grupo se expande no país. Em vez de comprar empresas saudáveis e lucrativas, a JBS prefere adquirir frigoríficos altamente endividados. "Considerada a política de aquisições da JBS, que não parece levar em consideração as condições de trabalho oferecidas pela empresa que está sendo adquirida, imaginamos que o reflexo disso seja a existência de um número de unidades com elevado nível de violações de direitos trabalhistas”, afirma Natali. Segundo o procurador, isso resultará, mais tarde, em um cenário litigioso.
Pública procurou a JBS para saber por que o número de acidentes de trabalho nas unidades da empresa é tão elevado. Perguntamos também que tipos de medidas vêm sendo tomadas para diminuir esse tipo de ocorrência e quanto do faturamento tem sido investido em programas de prevenção e redução de acidentes nos últimos anos. Questionamos ainda por que interdições de máquinas e condenações judiciais são tão frequentes nas unidades do grupo.

Um vídeo incômodo

Um dos atritos mais recentes entre os sindicatos e a JBS é a questão do plano de saúde. Nas unidades de Forquilhinha (Santa Catarina) e Nova Veneza (Paraná), a empresa reajustou o valor do plano individual e tentou cobrar uma taxa adicional de R$ 104 para cada dependente. Isso aumentaria o impacto no contracheque dos funcionários. Como os salários giram em torno de R$ 1.000, abatimentos extras poderiam inviabilizar a adoção do benefício. Em outros locais, como os frigoríficos de abate de bovinos, os trabalhadores não têm plano e a empresa não queria concedê-lo.
Como o grupo se recusava a negociar, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Alimentação (Contac/CUT) produziu um vídeo em que denunciava o problema e publicou o conteúdo no YouTube, em fevereiro deste ano. O filme, de pouco mais de um minuto, foi inspirado nas propagandas da JBS e recebeu legendas em inglês. Uma consumidora chega ao açougue e pede a carne "daquele ator famoso”. O atendente, então, fala sobre o reajuste do plano de saúde. Assustada, a cliente decide adquirir outro produto.

A Contac também convocou uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, para denunciar as más condições de trabalho nos frigoríficos do grupo. Foi o que bastou para a JBS criar uma mesa de negociações com os sindicalistas. A primeira reunião ocorreu em 12 de março, dia do protesto, que acabou desmarcado. "A empresa passou a dialogar com a gente”, afirma Wagner do Nascimento Rodrigues, secretário-geral da FTIAPR. "Infelizmente o diálogo ainda não gerou como fruto a solução de problemas”.
Os encontros com os sindicalistas têm ocorrido uma vez por mês, em média, desde março. Outras questões trabalhistas também são debatidas com Wesley Batista, presidente executivo da JBS, como a adoção de um piso salarial unificado para os funcionários em todo o país. "Iniciamos uma pauta nacional”, diz Siderlei de Oliveira, presidente da Contac. "Já começamos a discutir o plano de saúde. Vamos ver se avançamos mais aí. Pelo menos mudou esse aspecto de relação sindical, que nós não tínhamos há anos”.
Leia também:

Veja a resposta da JBS [Friboi] sobre acidentes de trabalho


Agência Pública

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A opção do país pelo agronegócio faz o brasileiro consumir 5,2 litros de agrotóxicos por ano

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/A-opcao-do-pais-pelo-agronegocio-faz-o-brasileiro-consumir-5-2-litros-de-agrotoxicos-por-ano/3/32594

A opção do país pelo agronegócio faz o brasileiro consumir 5,2 litros de agrotóxicos por ano

O agronegócio cria áreas de monocultivo que destroem toda a biodiversidade, tornando o ambiente propício para elevadas populações de insetos e doenças


João Vitor Santos - Instituto Humanas Unisinos
Secretaria de agricultura e abastecimento / Flickr
Pensar um Brasil que não priorize uma produção agrícola em latifúndios de monoculturas para exterminar o uso de agrotóxicos. É o que propõe Fran Paula, engenheira agrônoma da coordenação nacional da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line. Para ela, “o agronegócio utiliza largas extensões de terras, criando áreas de monocultivos. Dessa maneira, destrói toda a biodiversidade do local e desequilibra o ambiente natural, tornando o ambiente propício para o surgimento de elevadas populações de insetos e de doenças”. E a priorização por esse tipo de produção se reforça no conjunto de normas que concedem muito mais benefícios a quem adota o cultivo à base de agrotóxicos ao invés de optar por culturas ecológicas. Um exemplo: redução de impostos sobre produção desses agentes químicos, tornando o produto muito mais barato. Segundo Fran, em estados como Mato Grosso e Ceará essa isenção de tributos chega a 100%.
 
E, ao contrário do que se possa supor, a luta pela redução do consumo de agrotóxicos não passa necessariamente por uma reforma na legislação brasileira. Para a agrônoma, basta aplicar de forma eficaz o que dizem as leis e cobrar ações mais duras de órgãos governamentais. O desafio maior, para ela, é enfrentar a bancada ruralista e sua bandeira do agronegócio, além de cobrar ações que levem à efetivação da Política Nacional de Agroecologia. “A bancada ruralista ocupa hoje mais de 50% do Congresso brasileiro e vem constantemente atuando na tentativa do que consideramos legalizar a contaminação. Isso à medida que exerce forte pressão no governo sobre os órgãos reguladores, dificultando processos de fiscalização, monitoramento e retirada de agrotóxicos do mercado. E, ainda, vem tentando constantemente flexibilizar a lei no intuito de facilitar a liberação de mais agrotóxicos a interesse da indústria química financiadora de campanhas eleitorais”, completa.
 
Fran Paula é engenheira Agrônoma e também técnica da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE. Hoje, atua na coordenação nacional da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. É um grupo que congrega ações com objetivo de sensibilizar a população brasileira para os riscos que os agrotóxicos representam e, a partir disso, adotar ações para acabar com o uso dessas substâncias.
 
Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - No último dia 3 de dezembro, dia internacional da luta contra agrotóxicos, a Campanha contra os Agrotóxicos divulgou que cada brasileiro consome 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Como chegaram à contabilização desses dados? O que esse valor indica acerca do uso de agrotóxicos no Brasil em relação a outros países do mundo que utilizam esses produtos na agricultura?
 
Fran Paula - O dado se refere à exposição ocupacional, ambiental e alimentar a que o brasileiro se encontra, devido ao uso indiscriminado de agrotóxico no país. O número se refere à média de exposição de agrotóxicos utilizados no ano em relação ao número da população brasileira. Esse número se eleva quando a referência são alguns estados produtores de grãos, como o caso do Estado de Mato Grosso. No ano de 2013, utilizou 150 milhões de litros de agrotóxicos, levando a população do Estado a uma exposição de 50 litros de agrotóxicos por pessoa ao ano.
 
Um dado revela que o Brasil é, desde 2008, o campeão no ranking mundial de uso de agrotóxicos. Ou seja, somos o país que mais consome venenos no Planeta.
IHU On-Line - A que atribuem esse consumo elevado de agrotóxicos?
 
Fran Paula - A opção clara da política agrícola brasileira pelo agronegócio é a grande responsável pela situação. O agronegócio utiliza largas extensões de terras, criando áreas de monocultivos. Por exemplo: soja, milho, algodão, eucalipto ou cana-de-açúcar. Dessa maneira, destrói toda a biodiversidade do local e desequilibra o ambiente natural, tornando o ambiente propício para o surgimento de elevadas populações de insetos e de doenças. Por isso este modelo de produção é dependente da química, só funciona com muito veneno. E, além de usar grande quantidade de agrotóxicos e transgênicos, não gera empregos e não produz alimentos.
 
A bancada ruralista ocupa hoje mais de 50% do Congresso brasileiro e vem constantemente atuando na tentativa do que consideramos legalizar a contaminação. Isso à medida que exerce forte pressão no governo sobre os órgãos reguladores (principalmente saúde e meio ambiente), dificultando processos de fiscalização, monitoramento e retirada de agrotóxicos do mercado. E, ainda, vem tentando constantemente flexibilizar a lei no intuito de facilitar a liberação de mais agrotóxicos a interesse da indústria química financiadora de campanhas eleitorais. Política essa que permite absurdos como o uso de agrotóxicos já banidos em outros países, havendo comprovação científica do grau de periculosidade destes produtos na saúde dos humanos e do meio ambiente.
 
No Brasil, um conjunto de normas reduz a cobrança de impostos sobre agrotóxicos. E a isenção destes impostos (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços - ICMS, Contribuição para Financiamento da Seguridade Social - COFINS, Programa de Integração Social – PIS e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PASEP, Tabela de Incidência do Imposto Sobre Produtos Industrializados - TIPI) pode chegar a 100% em alguns estados como Ceará e Mato Grosso.
 
Contradizendo as promessas das sementes transgênicas, os transgênicos elevaram o uso de agrotóxicos no país. Um exemplo é o da soja Roundup Ready, resistente ao herbicida glifosato. Com a entrada da soja transgênica, o consumo de glifosato se elevou mais de 150%. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, considerando o potencial aumento de resíduos do herbicida, determinou o aumento de 50 vezes no Limite Máximo Residual - LMR do glifosato na soja transgênica, passando de 0,2 mg/kg para 10 mg/kg. Assim, a ANVISA demonstra que os argumentos da Monsanto anunciando uma diminuição do uso de herbicida com o advento da soja transgênica não são verificáveis na realidade, o que já estava previsto com a expansão da indústria de Roundup no Brasil.
 
IHU On-Line - Quais são as culturas que recebem uma carga mais pesada de defensivos?
 
Fran Paula – Primeiramente: não existem defensivos. Defesa para quem? E do quê? Não existe essa terminologia na legislação. O termo é agrotóxicos e assim devemos tratar do assunto. O termo defensivo é utilizado pelos setores do agronegócio, incluindo as indústrias que os produzem, para tirar de foco a função desses produtos e seus efeitos nocivos à saúde da população e do meio ambiente. Da mesma forma que uso seguro de agrotóxicos é um mito. Isso faz parte do lobby da indústria química para esvaziar o debate sobre o risco que os agrotóxicos representam.
 
Entre os mais utilizados, destacamos: o Abamectina, um tipo de inseticida altamente tóxico, utilizado em plantações de batata, algodão e frutíferas; o Acefato, que é um inseticida que pertence à classe toxicológica III - Medianamente Tóxico e que é utilizado com frequência em plantações de couve, amendoim, brócolis, fumo, crisântemo, repolho, melão, tomate, soja, rosas, citros e batata; e o Glifosato, um herbicida bastante utilizado no combate a ervas indesejáveis no cultivo de soja, principalmente.
 
Não é o tipo de cultura que define a quantidade de agrotóxico utilizada. O que define é o modelo de produção. Posso ter um pimentão com alta concentração de agrotóxico, como posso ter um pimentão orgânico.
 
IHU On-Line - Quais os efeitos na saúde de quem consome alimentos com traços de agrotóxicos?
 
Fran Paula - Não existe agrotóxico que não seja tóxico. Portanto, não há nenhum que não apresente risco à saúde humana mediante exposição e posterior contaminação. Os agrotóxicos provocam dois tipos de efeitos: os agudos, provocados nas horas seguintes à exposição; e os crônicos, que podem se manifestar em meses, anos e até décadas, como resultado da acumulação dos resíduos químicos no organismo das pessoas.
 
Um exemplo nacional que tivemos de contaminação por agrotóxicos e acumulação destes resíduos no organismo foi a pesquisa que revelou contaminação do leite materno. Os efeitos de resíduos de agrotóxicos no nosso organismo podem manifestar complicações como alterações genéticas, problemas neurotóxicos, má-formação fetal, abortos, efeitos teratogênicos, desregulação hormonal, desenvolvimento de células cancerígenas. Reforço que a maioria dos agrotóxicos possui ação sistêmica e que medidas como lavar superficialmente os alimentos com água e sabão não são suficientes para eliminar os resíduos de agrotóxicos.
 
IHU On-Line - A campanha também alerta que há regiões no país em que o consumo de agrotóxicos é ainda maior. Quais são essas regiões e por que o consumo é tão elevado?
 
Fran Paula - Como já havia citado anteriormente, em alguns estados onde o agronegócio exerce um aparelhamento político forte e detém grandes áreas de monocultivos de soja e outras commodities, o consumo de agrotóxicos é maior.

Fran Paula - Estão submetidas a problemas de saúde devido à exposição direta aos agrotóxicos, devido à contaminação da água para consumo, do ar que respiram e do solo. Ainda sofrem as ameaças da pulverização aérea, como os milhares de casos pelo Brasil de populações que são banhadas diariamente por venenos, principalmente pelo desrespeito às medidas legais quanto aos limites desta pulverização tanto aérea quanto terrestre no entorno dessas comunidades. A este contingente de populações expostas a agrotóxicos cobramos atenção especial dos serviços de saúde como forma de promoção da vida e sobrevivência destas pessoas. Por isso uma das bandeiras de luta da Campanha tem sido a criação de áreas livres de agrotóxicos e transgênicos.IHU On-Line - Além do consumo de alimentos que foram expostos a agrotóxicos, a que riscos as pessoas que vivem em regiões de altos índices de aplicação desses defensivos estão submetidas?
 
IHU On-Line - O que é possível fazer para frear esse uso tão grande de agrotóxicos? Quais as alternativas junto às plantações para o controle de pragas?
 
Fran Paula - Analisemos a história da agricultura no mundo, com registros de 12 mil anos atrás. Já a história dos agrotóxicos tem registros de pouco mais de 50 anos. Ou seja, desde muito tempo é possível produzir sem usar agrotóxicos. São crescentes os investimentos em países da União Europeia, Japão, Índia, em práticas e técnicas de produção de não uso de agrotóxicos. O Brasil é um país atrasado na medida em que ainda utiliza um arsenal de produtos químicos provenientes da guerra. Nosso país precisa urgentemente rever o modelo de produção quem vem adotando, centrado no Agronegócio. Esse modelo concentra a terra, cria áreas de monocultivos e desertos verdes, adota pacotes tecnológicos (adubos químicos, sementes híbridas e transgênicas e agrotóxicos) ofertados pelas indústrias químicas. É preciso implementar o Plano Nacional de Redução de Agrotóxicos – PRONARA, vinculado à Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, construído em 2014. Essa legislação prevê ações no campo da pesquisa de tecnologias sustentáveis de produção, crédito para o fortalecimento da agricultura de base agroecológica responsável pela produção de alimentos, investimentos em assistência técnica e extensão ruralagroecológica aos agricultores, retirada imediata dos agrotóxicos já banidos em outros países e que são utilizados livremente no Brasil e fim do subsídio fiscal aos agrotóxicos. Além disso, adoção de práticas de menor impacto, como o controle biológico de pragas e o manejo integrado; adoção de práticas agroecológicas de produção, que permitem a seleção natural das culturas, e variedades crioulas com maior resistência à incidência de insetos e doenças e que permitam a diversificação da produção e oferta de alimentos com base nos princípios da segurança alimentar e nutricional.
 
IHU On-Line - Uma das bandeiras da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida é o fim da prática de pulverização aérea das lavouras. Por quê?
 
Fran Paula - A pulverização aérea de agrotóxicos é uma prática ameaçadora à vida. Diversos estudos científicos e casos de intoxicação humana e contaminação ambiental têm reiterado que não existem condições seguras para pulverização aérea. Além de tratar-se de uma técnica atrasada em termos de eficiência de aplicação, requer que sejam pulverizadas grandes quantidades de veneno para se atingir a quantidade desejada do ponto de vista agronômico, por conta das elevadas perdas. Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA mostraram que o percentual de perda pode chegar a mais de 80% em algumas culturas. Esse elevado percentual corrobora o fato de que grande parte do que é pulverizado atinge outros alvos que não os desejados, podendo contaminar água, lençóis freáticos e ainda atingir diretamente pessoas e outros seres vivos.
 
Entre os casos de contaminação via pulverização aérea, temos o ocorrido em 2013 na Escola Municipal de São José do Pontal, localizada na região rural do município de Rio Verde, Goiás. Ali, essa prática resultou em diversos casos de intoxicação aguda de trabalhadores e de alunos de 9 a 16 anos. Nesse episódio, a pulverização teria sido feita sobre a lavoura de milho localizada a poucos metros da escola, não obedecendo aos limites mínimos de distância recomendados na legislação. O produto pulverizado, segundo a empresa de aviação agrícola, era o inseticida Engeo Pleno, fabricado pela multinacional Syngenta. Um de seus componentes é o tiametoxam, do grupo dos neonicotinoides, produto altamente tóxico para abelhas e que por isso havia sido proibido para uso por pulverização aérea pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente - IBAMA. No entanto, após pressão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, a proibição foi suspensa.
 
IHU On-Line - Qual sua avaliação sobre a legislação brasileira no que diz respeito à liberação e uso de agrotóxicos? Recentemente, a ANVISA aprovou a iniciativa para propor o banimento dos agrotóxicos Forato e Parationa Metílica. Como avalia essa iniciativa e quais as implicações desses agrotóxicos?
 
O efeito danoso dos agrotóxicos é reconhecido e estabelecido em lei. A ANVISA é o órgão responsável no âmbito do Ministério da Saúde pela avaliação da toxicidade dos agrotóxicos e seus impactos à saúde humana; emite o parecer toxicológico favorável ou desfavorável à concessão do registro pelo Ministério da Agricultura.
 
Fran Paula - O problema em geral não está na lei 7802/89, que define a Legislação dos Agrotóxicos no Brasil, e sim no não cumprimento da mesma. Quanto ao registro de agrotóxicos, a lei estabelece a proibição para os quais o Brasil não disponha de métodos para desativação de seus componentes, de modo a impedir que os seus resíduos remanescentes provoquem riscos ao meio ambiente e à saúde pública, para os quais não haja antídoto ou tratamento eficaz no Brasil. Ainda proíbe registro aos que revelem características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, de acordo com os resultados atualizados de experiências da comunidade científica, que provoquem distúrbios hormonais, danos ao aparelho reprodutor, de acordo com procedimentos e experiências atualizadas na comunidade científica. Não permite registro de agrotóxicos que se revelem mais perigosos para o homem do que os testes de laboratório com animais tenham demonstrado, segundo critérios técnicos e científicos atualizados e também cujas características causem danos ao meio ambiente. O risco maior está nas inúmeras tentativas de flexibilização da lei por parte da bancada ruralista, cujo propósito é defender os interesses das indústrias químicas e assim liberar o registro de mais agrotóxicos no mercado.
 
IHU On-Line - Quais os pontos mais urgentes em que a legislação precisa avançar ou ser revista?
 
Fran Paula - A legislação brasileira, apesar de conter normas de restrição ao registro de agrotóxicos, não estipula tempo para reavaliação dos agrotóxicos. Acaba ficando a critério dos órgãos responsáveis pelo registro solicitarem a mesma. No Brasil, a validade do registro do produto é de tempo indeterminado, ao contrário de países como Estados Unidos, onde o registro tem validade por 15 anos. Na União Europeia são 10 anos, no Japão três anos e no Uruguai quatro anos. Apesar de a lei atribuir responsabilidades quanto ao monitoramento e fiscalização, o cenário é de uma capacidade reduzida dos órgãos de saúde e de meio ambiente. Isso ocorre nas três esferas de governo, no que diz respeito ao desenvolvimento de serviços de monitoramento e controle de agrotóxicos.
 
IHU On-Line - Um dos herbicidas mais usados e conhecidos no Brasil e no mundo é o Glifosato, chamado “mata mato”. Como acaba com praticamente todas as ervas daninhas, além da aplicação em zona rural, há municípios que usam em áreas urbanas, fazendo o que algumas pessoas chamam de “capina química”. Que problemas para o meio ambiente, no campo e na cidade, o uso indiscriminado dessa substância pode causar?
 
Fran Paula - Mata mato é um dos nomes comerciais do herbicida Glifosato. Possui uma ação sistêmica, ou seja, ao ser aplicado nas folhas das plantas é translocado até as raízes e é não seletivo. Mata todo tipo de plantas, exceto as transgênicas que apresentam resistência a este princípio ativo. Dentre os riscos ao meio ambiente estão a contaminação do lençol freático e do solo, com a morte de microrganismos e consequente perda da fertilidade. E se tratando de capina química, há uma nota técnica da ANVISA de 2010 recomendando a proibição dessa prática em ambientes urbanos, devido à exposição da população ao risco de intoxicação, além de contaminar a fauna e a flora local.
 
IHU ON-Line - E para a saúde de quem se expõe ao Glifosato?
 
Fran Paula - Há estudos toxicológicos do Glifosato em diversos países e todos são unânimes nos resultados para efeitos tóxicos na saúde. Estes estudos revelam que a toxicidade do Glifosato provoca os seguintes efeitos: toxicidade subaguda (lesões em glândulas salivares), toxicidade crônica (inflamação gástrica), danos genéticos (em células sanguíneas humanas), transtornos reprodutivos (diminuição de espermatozoides e aumento da frequência de anomalias espermáticas) e carcinogênese (aumento da frequência de tumores hepáticos e de câncer de tireoide). Os sintomas de intoxicação incluem irritações na pele e nos olhos, náuseas e tonturas, edema pulmonar, queda da pressão sanguínea, alergias, dor abdominal, perda de líquido gastrointestinal, vômito, desmaios, destruição de glóbulos vermelhos no sangue e danos no sistema renal. O herbicida ainda pode continuar presente em alimentos num período de até dois anos após o contato com o produto. Em solos pode estar presente por mais de três anos, dependendo do tipo de solo e clima. Apesar da classificação toxicológica que recebe no Brasil, o produto é considerado um biocida. Tanto que já foi banido de países como a Noruega, Suécia e Dinamarca.
 
IHU On-Line - Qual o papel de outros órgãos, como Ministério Público, nas discussões e no combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos?
Fran Paula - A atuação do Ministério Público é fundamental diante do contexto e cenário que o Brasil se encontra, de ineficiência de aplicação da lei e da omissão dos órgãos de monitoramento e fiscalização. O Ministério Público do Trabalho lançou em 2009 o Fórum Nacional de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos. Criado para funcionar como instrumento de controle social, o Fórum Nacional conta com a participação de organizações governamentais e não governamentais, sindicatos, universidades e movimentos sociais, além do Ministério Público. Além do Fórum Nacional, foram sendo criados os fóruns estaduais de combate aos impactos dos agrotóxicos com o mesmo objetivo. A Campanha participa do Fórum Nacional e dos estaduais, com objetivo de levantar elementos e embasar o Ministério Público em ações que visem à redução do uso de agrotóxicos e promoção da agroecologia.
 
IHU On-Line - A Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida já destacou que 2015 será um ano em que se desenvolverão diversas políticas nacionais de agroecologia e produção orgânica. Que políticas são essas?
Fran Paula - Em agosto de 2012, a presidenta Dilma Rousseff instituiu a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – PNAPO, por meio do Decreto nº 7.794, de 20-08-2012, resultado de intensos diálogos e reivindicações dos movimentos sociais. A partir de então, governo e sociedade civil se debruçaram na tarefa de construção de um Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – PLANAPO.
 
No campo produtivo, o Plano propõe mecanismos capazes de atender à demanda por tecnologias ambientalmente apropriadas, compatíveis com os distintos sistemas culturais e com as dimensões econômicas, sociais, políticas e éticas no campo do desenvolvimento agrícola e rural. Ao mesmo tempo, apresenta alternativas que buscam assegurar melhores condições de saúde e de qualidade de vida para a população rural. Assim foi criado, no âmbito da PNAPO, o Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos – PRONARA. É construído numa parceria da Campanha com diversos ministérios e órgãos subordinados, além de outros movimentos sociais. O PRONARA contém 35 iniciativas que, se levadas a cabo, melhorariam drasticamente as condições de saúde do povo brasileiro em relação aos agrotóxicos. A lógica do PRONARA se desenvolve como base em iniciativas estruturadas de forma articulada, cobrindo seis dimensões: registro; controle, monitoramento e responsabilização da cadeia produtiva; medidas econômicas e financeiras; desenvolvimento de alternativas; informação, participação e controle social; e formação e capacitação.
 
O prazo de três anos para execução desta primeira edição do Plano Nacional de Agroecologia vincula suas iniciativas às ações orçamentárias já aprovadas no Plano Plurianual de 2012 a 2015. Trata-se, portanto, de um forte compromisso para trazer a agroecologia, seus princípios e práticas, não só para dentro das unidades produtivas, como para as próprias instituições do Estado, influenciando a agenda produtiva e de pesquisa e os mais diferentes órgãos gestores de políticas públicas. Em síntese, um grande avanço da sociedade brasileira na construção de um modelo de desenvolvimento sustentável.
 
IHU On-Line - O que mais deve pautar a luta do movimento em 2015?
Fran Paula - Já avaliamos que 2015 será um ano de grandes desafios e lutas intensas, a começar pelo cenário sombrio da nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Ela tem sido até agora uma representante atuante da bancada ruralista no Congresso e defensora dos interesses do agribusiness brasileiro. Também queremos garantir mobilização social articulada e contrária às iniciativas da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CTNBIO para a não liberação de mais variedades transgênicas.
 
Hoje, a Campanha tem mais de 100 organizações e movimentos sociais atuando de ponta a ponta do país. A meta para 2015 é ampliar e fortalecer nosso diálogo com a sociedade, alertando para o risco que os agrotóxicos representam, reforçando a necessidade e urgência da efetivação de políticas públicas de promoção da agroecologia, solução para a produção de alimentos saudáveis a todos os brasileiros.
 
Temos, ainda, nossa agenda de luta, onde são organizadas as ações massivas da Campanha: 07 de abril – Dia Mundial da Saúde e o aniversário de quatro anos da Campanha, 16 de outubro – Dia Mundial da Alimentação Saudável e 03 de dezembro – Dia Mundial de Luta contra os Agrotóxicos. 2015 será um ano das Conferências Nacionais, a exemplo da Conferência Nacional de Saúde e a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. São espaços onde estaremos reforçando a necessidade do controle social e da importância da efetivação das políticas públicas de promoção da agroecologia e do não uso de agrotóxicos.


Créditos da foto: Secretaria de agricultura e abastecimento / Flickr




Altamir Gonçalves Filgueiras et Silva - 16/01/2015
Olá, Parabéns pela matéria! Vale ressaltar que a utilização indiscriminada de agrotóxicos produz até mutação genética, além do que há muitos remédios em função dela... Eu acho que seria legal pensar e também sonhar com uma reposição de fauna mais nossa, com uma supercomputação capaz de promover alguns entendimentos e mudanças nas cadeias alimentares envolvidas com a agricultura, para repor algo e regular de uma maneira mais profissional essa produção. É preciso pensar na Ciência também e desenvolvê-la com esta nova mentalidade... Os transgênicos é um passo que precisa ser bem melhor compreendido neste processo mais em função da biodiversidade e da Ciência do que do mercado. Concordo com a matéria! Valeu,

MARCEL willl - 13/01/2015
Realmente, o Congresso hj esta na contra mao da vida e buscando a morte e de forma muito dolorosa.

Adriano Camolese - 12/01/2015
Acredito que esta matéria generaliza todo o agronegócio em uma só coisa, um bicho papão que visa destruir o mundo. Visão antiquada e equivocada. Pois sou filho de produtor rural ou agricultor como preferir, biólogo, estou saindo da área acadêmica (mestrado) e me aprofundando na agricultura. Muito do generalizado agronegócio dito na matéria é feito ainda por famílias que já estão em suas terceiras e até quarta gerações de agricultores. Ocorre sim, muita desinformação por parte dos agricultores, seja por falta de buscar informações ou por falta de órgão públicos ou privados que disponibilize a informação. Destruidor de ambientes? Mentira. A agricultura é impactante ao meio ambiente sem dúvida, mas gostaria de saber a porcentagem das pessoas que leram ou redigiram esta reportagem que possuem ao menos 20% de seus terrenos reservados a conservação?! A maioria das propriedades rurais devem ter no mínimo isso. Vou além, se a legislação deve ser aplicada a todos o que dizer das margens dos rios Tietê e Pinheiros (como exemplo). Outro ponto, agricultura evoluiu e muito, graças ao agronegócio somos exportadores de alimentos para inúmeros países e ainda temos aproximadamente 60% da cobertura vegetal nativa preservada, qual outra nação no mundo tem isso? Estude os custos de produção por unidade de área atualmente, nenhum produtor faz uma aplicação sem que o seu lucros sejam maiores que os custos. Os agroquímicos ou agrotóxicos, evoluíram também, graças a pesquisa e a pressão da sociedade, a quantidade de principio ativo utilizado por área diminuiu e muito devido a evolução das técnicas de aplicação e eficácia dos produtos. Monocultura é problema? Sem dúvidas, no entanto convido quem quiser a plantar trigo e TENTAR vender, ter lucro e dar dignidade a sua família com o lucro da venda durante 6 meses? Agricultura orgânica é boa saída para uma produção mais sustentável?! Sem dúvidas, no entanto as técnicas empregadas não permitem AINDA cultivo em larga escala como na agricultura convencional, no momento que passar a ser viável economicamente e operacionalmente, pode ter certeza que muito mais agricultores irão aderir. Sobre a soja, faça uma pesquisa em quantos processos na indústria ela entra como matéria prima?! Posso citar alguns: soja in natura, óleo de soja, biodiesel, farelo de soja (ração animal), proteína de soja texturizda...... Então senhoras e senhores, me desculpem pelo texto alongado, mas por favor, saiam de suas salas refrigeradas, passem uma temporada pelo menos em uma propriedade rural séria e somente depois venham falar de agricultura. E já peço desculpa a autora, pois não pude ler o texto todo.

JOACY DE SOUZA - 10/01/2015
Sou técnico de laboratório de analises clinicas e tenho visto e acompanhado o aumento de doenças renais de intoxicações hepáticas, alergias, canceres e tantos outros males devido o aumento de uso de agrotóxicos ! Precisamos urgentemente deter o uso indiscriminado destes venenos !

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