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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Organizações promovem lançamento de relatório que expõe casos de violações dos direitos humanos na pandemia


Organizações promovem lançamento de relatório que expõe casos de violações dos direitos humanos na pandemia

Evento pretende fortalecer a atuação conjunta em direitos humanos e dar visibilidade ao documento que especifica as violações e apresenta recomendações aos órgãos e instituições locais, nacionais e internacionais, relativos a cada caso apresentado.


Foto: Gilnei Silva


A pandemia da Covid-19, que assola o mundo, tem afetado com muita força os direitos humanos. Os impactos sobre os grupos e populações que historicamente já tem muitos de seus direitos violados, é imensamente maior do que para a população em geral. Apresentando esta situação, a Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH), anuncia o Lançamento Virtual do documento: "Violações dos Direitos Humanos no Brasil: Relatório de Casos no Contexto da Pandemia da Covid 19" que acontece nesta terça-feira, 22 de fevereiro, às 19h. O evento será transmitido ao vivo para o público no Facebook e no canal do Youtube da organização.

A transmissão tem o objetivo de dar publicidade ao Relatório de Casos e, em especial, denunciar muitas das violações ocorridas no contexto da pandemia da Covid-19 no Brasil. A publicação é resultado de um trabalho coletivo de, aproximadamente, um ano e meio, com muitos encontros virtuais, diálogos, escutas, trocas e elaborações com um conjunto diverso de organizações e sujeitos/as que atuam com direitos humanos em diferentes territórios e regiões do Brasil. O relatório está organizado em duas partes, sendo que a primeira traz uma contextualização geral sobre a pandemia e as violações dos direitos humanos e a segunda trata da documentação dos 17 casos, envolvendo diferentes grupos e temáticas: povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, comunidades urbanas vulnerabilizadas, população em situação de rua, população encarcerada e juventudes na periferia.

O evento contará com a presença de representações institucionais que já estão confirmadas, sendo elas: Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Dr. Yuri Costa, Vice- Presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e o Senador Humberto Costa (PT/PE), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal. Também estão convidados a Dep. Erika Kokay (PT/DF), representando a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, e o Procurador Federal dos Direitos do Cidadão, Dr. Carlos Vilhena. Além disso, as organizações responsáveis pela documentação dos casos expostos também estarão presentes para o lançamento.

O relatório de casos especifica as violações e apresenta recomendações aos órgãos e instituições locais, nacionais e internacionais, relativos a cada caso apresentado. Enéias da Rosa, secretário executivo da Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH), comenta sobre os próximos passos que virão após o lançamento deste documento: “Após o importante trabalho de documentação realizado em conjunto com um amplo e diverso coletivo de organizações, parceiros e lideranças, agora o Relatório será encaminhado às instituições e organismos nacionais e internacionais responsáveis pelos direitos humanos, a fim de que em posse das denúncias de violações dos direitos humanos e das recomendações recebidas, manifestem-se e ajam no sentido de promover a investigação das denúncias, e propor ações de responsabilização e reparação das violações relatadas”. Para mais, já existem outros materiais que complementam esse mesmo processo. Para sintetizar todos os 17 casos tratados no documento, foi lançado recentemente o podcast Direitos Humanos em Ação, contendo 6 episódios divididos pelas mesmas temáticas do relatório.

A iniciativa de monitoramento “Direitos Humanos em Ação” foi pensada com o objetivo de acompanhar as situações de violações de direitos e de medidas de retrocessos dos direitos humanos no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil. Lançada em julho de 2020, é uma ação da Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH), sob coordenação do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), do Processo de Articulação e Diálogo (PAD) e do Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil). A ação conta com a participação direta de cerca de 100 organizações e movimentos sociais que atuam com direitos humanos em boa parte dos Estados Brasileiros.

Manoela Nunes
Assessora de comunicação da Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH)

E-mail: comunicacao@monitoramentodh.org.br








terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

13 livros infantis para ensinar a importância dos direitos humanos às crianças

https://www.huffpostbrasil.com/2015/05/23/13-livros-infantis-para-ensinar-a-importancia-dos-direitos-human_a_21681081/?ncid=other_facebook_eucluwzme5k&utm_campaign=share_facebook

COMPORTAMENTO
23/05/2015 09:51 -03 | Atualizado 11/01/2019 11:02 -02

13 livros infantis para ensinar a importância dos direitos humanos às crianças 



"Você conhece a Malala?"
"Sim. Minha professora de história me contou que ela é muito importante"
Um adulto fez a pergunta acima e quem respondeu foi uma menina de sete anos, enquanto esperava na fila para autografar seu livro novo. O título? Nada de histórias pré-fabricadas sobre príncipes e princesas, mas a de uma das vozes mais importantes contra a opressão feminina no mundo: Malala Yousafzai.
Escrito pela jornalista Adriana Carranca, Malala - A menina que queria ir para a escola (Companhia das Letrinhas, R$ 29,90), inaugura um novo gênero que foi batizado de "livro-reportagem para crianças". Carranca viajou até o vale do Swat, no Paquistão, e conta de forma didática como era a vida da menina que ficou conhecida por defender o direito à educação, sofreu um atentado por isso, e sobreviveu para contar. Hoje Malala é ativista na ONU e dona de um prêmio Nobel da Paz.
"Ali havia príncipes, guerreiros, rainhas. Havia os vilões, que eram os homens barbudos das montanhas. Tinha o sonho da menina que queria ser alguém, mas não pela via do casamento. Tudo isso em um vale que parecia encantado. Fui percebendo como tudo seria interessante para as crianças", disse Adriana para O Globo.
Além de Malala, outros títulos publicados colaboram para que a discussão sobre direitos humanos no dia a dia com as crianças se torne frequente -- com histórias que vão muuuuuuito além dos contos de fadas e histórias para dormir. Aqui estão 13 deles para você escolher:
  • Malala - A menina que queria ir para a escola
    Reprodução
    No primeiro livro-reportagem destinado ao público infantil, a jornalista Adriana Carranca relata às crianças a história da adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, baleada por membros do Talibã aos catorze anos por defender a educação feminina. Na obra, a repórter traz suas percepções sobre o vale do Swat, a história da região e a definição dos termos mais importantes para entender a vida desta menina tão corajosa. (Companhia das Letrinhas, R$ 29,90)
  • A esperança é uma menina que vende frutas
    Reprodução
    Viajando de trem para uma cidade grande, uma garota sobe em seu beliche, silenciosa mas com olhos que parecem dizer muitas coisas, e permanece ali, sem comida e companhia. É com essa recordação que Amrita Das inicia este livro, resultado de uma oficina de texto e ilustração que cursou em Chennai, na Índia. Como uma das mais importantes representantes da arte folclórica indiana chamada Mithila, a artista aproveita este espaço para falar sobre as dificuldades de uma infância pobre, a vida das mulheres na Índia, a luta pela liberdade em uma sociedade patriarcal, entre outros assuntos que, de uma forma ou de outra, dizem respeito a todos nós. Através de belas palavras e imagens, ela apresenta a sua história e dissemina um pouco da esperança que parece acompanhar sua arte. (Companhia das Letrinhas, R$ 29,90)
  • O que é a Liberdade?
    Reprodução
    Para muitos, o passarinho é um símbolo da liberdade. Mas será que ele se sente livre mesmo? E afinal, o que é a liberdade? Foi pensando nesse conceito tão difícil de compreender que Renata Bueno escreveu este livro recheado de diálogos curiosos entre um passarinho e personagens como um lápis, um camaleão, um espelho, um mágico... As respostas poéticas de cada um deles sobre o que é a tal da liberdade vão fazer tanto o passarinho quanto os leitores perceberem que essa sensação pode ser diferente para cada um de nós — e nem por isso menos autêntica. (Companhia das Letrinhas, R$ 34,90)
  • Flicts
    Divulgação
    Em Flicts, Ziraldo conta a história de um mundo que é feito de cores, mas nenhuma é Flicts. Uma cor rara, frágil, triste, que procurou em vão por um amigo. Abandonada, Flicts olhou para longe, para o alto, e subiu, e teve que sumir, para finalmente encontrar-se. (Melhoramentos, R$ 41,00)
  • Acompanhando meu pincel
    Divulgação
    Ao percorrer as delicadas e vibrantes ilustrações nas páginas deste livro, o leitor fica conhecendo a história de como a sua autora, a indiana Dulari Devi, se tornou uma artista. Nascida em uma família pobre, de tradição pescadora, ela precisou trabalhar na infância, ajudando a mãe na plantação de arroz, cuidando dos irmãos mais novos em casa, fazendo trabalhos domésticos para os vizinhos. O que mais gostava de fazer, no entanto, era parar no caminho para ver as outras crianças brincarem (Martins Fontes, R$ 32,50)
  • A diaba e sua filha
    Divulgação
    Todos os dias, ao anoitecer, uma diaba de pele escura, olhos brilhantes e roupas muito limpas sai pelas ruas da cidade, batendo de porta em porta, em busca de sua filha perdida. Prestes a ajudá-la, as pessoas reparam que ela tem cascos negros e delicados no lugar dos pés e imediatamente a expulsam de suas casas, apagando as luzes até que se afaste. Ao narrar esse conto de mistério, antes uma alegoria sobre nossos próprios medos e preconceitos, a autora coloca bem e mal, humanidade e demônios, nós e os outros na mesma página, nos desafiando a buscar qualquer traço de humanidade dentro de nós mesmos. (Cosac Naify, R$ 29,90)
  • A Bela Desadormecida
    Divulgação
    Quando Belinha nasceu, seus pais deram uma grande festa e chamaram todo o mundo, menos a bruxa. Mas ela compareceu mesmo sem convite e levou como presente uma maldição: ao completar catorze anos, Belinha seria picada no dedo e, nesse instante, ela e todos os que estivessem por perto dormiriam um século. Os pais de Bela passaram catorze anos evitando que a filha se aproximasse de objetos pontudos ou cortantes. Mas o que aconteceu quando chegou o dia tão temido? É para esse momento que converge toda a emoção da história. O desenlace, como se verá, é adequado à época em que Belinha vive: ela é uma menina da metrópole, mora num apartamento e gosta de rock. As ilustrações, que têm um colorido pouco habitual nos livros infantis, colaboram para que nada seja adocicado nessa Belinha que desadormece, ainda que nela se espelhe a doçura dos contos de fada. (Companhia das Letrinhas, R$ 34,00)
  • A História de Júlia - E sua sombra de menino
    Reprodução
    Os pais de Júlia a criticam muito, sempre dizendo que ela se parece com um menino, no jeito, nas rouaps etc. Numa manhã, a garota percebe que sua sombra adquire o formato de um garoto, repetindo todos os seus gestos. Júlia se sente triste e acaba questionando sua própria identidade. (Editora Scipione, R$ 34,90)
  • É tudo família!
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    Davi tem um três-quartos-de-pai que ele adora. Carla e Maurício têm duas mães e dois pais. Carolina está muito triste e não quer ter outra mãe. Paula ganha duas festas por ano: a de aniversário e a de dia da chegada. O pai de Maurício chama-o de pituquinho. Lucinha tem a voz igualzinha à da mãe. Porém, todos têm algo em comum: pertencem a uma família, e toda família é única! (L&PM Editores, R$ 31,50)
  • O nascimento de Celestine
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    O nascimento de Celestine ocupa um lugar especial na obra da artista belga Gabrielle Vincent (1928-2000), criadora da série de álbuns ilustrados Ernest e Celestine, que conta com admiradores em todo o mundo - e já inspirou um longa-metragem de animação de mesmo nome, finalista do Oscar 2014. Neste livro de imagens, com delicadas ilustrações a pincel e tinta sépia, a autora narra a história de como Ernest, um urso solitário e de bom coração, encontrou a ratinha Celestine - e de como ambos se tornaram companheiros inseparáveis. Um clássico sensível e comovente, que praticamente dispensa as palavras, e toca direto o coração do leitor. (Editora 34, R$ 49,00)
  • O mundo no black power de Tay'o
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    Tayó é uma princesinha que chega em forma de espelho para que outras princesinhas se mirem, se reconheçam e cresçam, cumprindo a única missão que nos foi dada, ao virmos viver neste planeta: a de sermos felizes. (Peirópolis, R$ 34,00)
  • Um outro país para Azzi
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    A partir do olhar da menina Azzi, este livro retrata uma família do Oriente Médio, que se vê obrigada a fugir quando a guerra começa a afetar sua rotina. “Às vezes, o barulho das metralhadoras nos helicópteros era tão alto que as galinhas ficavam assustadas e paravam de botar ovos”, conta a protagonista, nessa narrativa ricamente ilustrada, revelando sua perspectiva da aproximação do conflito. (O Pulo do Gato, R$ 42,10)
  • Crianças como você
    Divulgação
    Celina, do Brasil, Ji-Koo, da Coréia do Sul, Houda, do Marrocos, Meena, da Índa, Esta, da Tanzânia... Crianças de verdade falam e escrevem sobre sua vida e seu jeito de ser. Surpreendente e emocionante, este livro é um marco. Ele faz uma viagem pelas diferentes culturas do mundo e mostra o cotidiano das crianças nos mais variados países. Editado em associação com o Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Editora Ática, R$ 42,50)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Agora mais do que nunca: Irmã Dorothy Stang

http://www.ihu.unisinos.br/586645-agora-mais-do-que-nunca-irma-dorothy-stang

Agora mais do que nunca: Irmã Dorothy Stang

Esta semana, comemoramos o aniversário de falecimento de uma mártir e inspiração: a Irmã Dorothy Stang
Ícone da Irmã Dorothy Stang, criado por 
Rev. Bill McNichols, SJ.
Dorothy nasceu nos Estados Unidos, mas se mudou para uma região rural do Brasilpara viver com os pobres. Lá, ela testemunhou em primeira mão pecuaristasmadeireiros explorando agricultores e povos indígenas, roubando terras, derrubando florestas e assassinando aqueles que contestassem.
A reportagem foi publicada por Movimento Católico Global pelo Clima, 13-02-2019.
Irmã Dorothy contestou com coragem. Durante várias décadas, exigiu a proteção dos pobres da região rural do Brasil, em especial daqueles que viviam na Amazônia. Por causa de seu trabalho em favor da justiça, ela entrou para uma lista negra e acabou sendo assassinada.
É assim que suas irmãs contam a história: “no dia 12 de fevereiro de 2005, numa estrada de chão do acampamento de Boa Esperança, em uma zona rural do Pará, dois matadores de aluguel dispararam seis tiros e mataram a Irmã Dorothy… Quando os atiradores se aproximaram da Irmã Dorothy, ela tirou sua Bíblia da bolsa e começou a ler as Bem-aventuranças: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça .”
A Irmã Dorothy disse que “apenas uma profunda mudança em nosso modo de vida – nossos valores e atitudes – pode trazer uma nova vida ao nosso mundo”.
Em outubro, bispos de todas as partes do mundo se reunirão no Vaticano para um diálogo com duração de um mês sobre a proteção da Amazônia e seus povos. Ao longo deste ano, nós do Movimento Católico Global pelo Clima incluiremos o cuidado pela Amazônia em nossos programas. Marque no seu calendário os momentos importantes das próximas semanas:
  • Para a Quaresma, nós o convidamos a incluir refeições vegetarianas na sua dieta. Por incrível que pareça, a pecuária é a maior causa de desmatamento no Brasil, e uma porção média de carne acarreta 60 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que uma porção de frutas, legumes, verduras e cereais. Fazer refeições vegetarianas é uma forma de honrar nossa tradição de simplicidade na Quaresma e de mostrarmos solidariedade aos nossos irmãos e irmãs. Aguarde os recursos para a Quaresma na próxima semana.
  • Para o Dia da Terra, nós o convidamos a plantar uma árvore em sua comunidade para simbolizar seu compromisso de proteger a Amazônia e seus povos. Comece a planejar! Em breve, compartilharemos um guia de planejamento completo para o Dia da Terra.
A Irmã Dorothy Stang disse: “nós passamos poucas décadas aqui na terra. Use cada dia para levar alegria, não ganância, à nossa terra exaurida, tão cheia de angústia”.
Nossas escolhas e ações importam. Damos graças pelo testemunho da Irmã Dorothy e rezamos para que seu espírito de justiça ilumine nosso caminho este ano.

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domingo, 3 de fevereiro de 2019

OS DIREITOS HUMANOS, UM BLOCO INDIVISÍVEL Sem igualdade não há liberdade

le monde
https://diplomatique.org.br/sem-igualdade-nao-ha-liberdade-2/

OS DIREITOS HUMANOS, UM BLOCO INDIVISÍVEL

Sem igualdade não há liberdade

por Kumi Naidoo
Janeiro 31, 2019
Imagem por Cau Gomez


Ao adotarem a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro de 1948, 58 países entraram, pela primeira vez, em acordo sobre os princípios que permitem a cada um viver em liberdade, igualdade e dignidade. Muito progresso se fez desde então, mas a explosão das desigualdades ameaça tanto as liberdades políticas como os direitos econômicos e sociais

Ler e reler a Declaração Universal dos Direitos Humanos, setenta anos após sua adoção pelas Nações Unidas em Paris, é sempre um exercício útil, pois o texto propõe, ainda hoje, a visão mais progressista daquilo que nosso mundo poderia ser. No momento de comemorar seu aniversário, seria lógico ressaltar os inegáveis progressos realizados em conjunto nos últimos anos a fim de transformar essa visão em realidade. Mas a honestidade nos obriga a dizer que a intolerância aumenta e que as desigualdades extremas se disseminam, enquanto os Estados parecem incapazes de tomar coletivamente as medidas necessárias para enfrentar as ameaças globais. Encontramo-nos exatamente na situação que os países signatários da Declaração prometeram evitar. Por isso, não nos contentemos com uma simples comemoração e aproveitemos a ocasião histórica para fazer um balanço e tentar concretizar os direitos humanos para o maior número.
O artigo 2 da Declaração Universal reza que os direitos por ela proclamados pertencem a cada um de nós, sejamos ricos ou pobres, não importando nosso sexo ou a cor de nossa pele, o país onde vivemos, a língua que falamos, aquilo que pensamos e aquilo em que acreditamos. Longe de se traduzir em fatos, esse universalismo, que subentende todos os direitos da pessoa humana, sofre hoje ataques violentos. A Anistia Internacional, à semelhança de outras organizações, não cessa de sublinhar que os discursos promotores da estigmatização, do ódio e do medo se desenvolveram de maneira inédita no mundo a partir dos anos 1930.
A recente vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial brasileira, apesar de um programa francamente hostil aos direitos fundamentais, ilustra muito bem os desafios que temos pela frente. Se conseguir pôr em prática as promessas de uma campanha desumanizadora, Bolsonaro, chegando ao poder, ameaçará as populações indígenas, as comunidades rurais tradicionais – chamadas “quilombos” –, as lésbicas, os gays, os bissexuais, os transgêneros e intersexuais (LGBTI), a juventude negra, as mulheres, os militantes e as organizações da sociedade civil.
É crucial nos perguntarmos por que estamos exatamente na situação que a Declaração pretendia evitar – uma situação na qual os direitos humanos são atacados e repelidos porque protegeriam alguns, e não todos.

Se as múltiplas razões que conduziram a esse impasse de fato são complexas, uma coisa parece certa: o que está em causa é, em parte, nossa incapacidade de considerar os direitos humanos como um conjunto indivisível de direitos intrinsecamente associados e aplicáveis a todos. A Declaração Universal não separava os direitos cívicos dos direitos culturais, econômicos, políticos e sociais. Não distinguia a necessidade de concretizar o direito à alimentação da exigência de garantir a liberdade de expressão. Já reconhecia o que hoje admitimos naturalmente: as duas são estreitamente ligadas.
No curso das décadas que se seguiram à adoção do documento, os Estados seccionaram os dois tipos de direito, instaurando o desequilíbrio em sua percepção e proteção.1 Mas as organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, devem também assumir sua parte de culpa nessa distorção. Nossa entidade é conhecida sobretudo pela defesa da liberdade de consciência e por seu apoio aos prisioneiros políticos, isto é, às pessoas presas em razão do que são e daquilo em que acreditam. Lutamos também contra a tortura, pela abolição da pena de morte e em favor da liberdade de expressão. Só começamos a estudar e a defender ativamente os direitos econômicos, sociais e culturais nos anos 2000. Desde então, promovemos campanhas conjuntas contra as violações do direito à moradia decente, à saúde e à educação. Sabemos que ainda há muito a fazer.
A crise econômica mundial, cujas consequências se fazem sentir em profundidade, ilustra perfeitamente a urgência de aceitar esses desafios do ponto de vista dos direitos humanos. Os acontecimentos em diversos países europeus puseram a nu a fragilidade, talvez mesmo a inexistência prática, de uma proteção social de base. Pior ainda: nos países mais afetados, as legislações econômicas e sociais continuam na maioria dos casos insuficientes. Isso significa que os cidadãos não podem fazer valer seus direitos na justiça, mesmo quando estes são notoriamente violados.
Em vários países, os governos preferiram responder à crise econômica com medidas de austeridade de elevado custo humano, entravando o acesso aos bens de primeira necessidade, à saúde, à moradia e à alimentação. A Espanha fornece um bom exemplo: após a crise econômica, o governo reduziu as despesas públicas, inclusive na área da saúde. Os tratamentos de qualidade estão agora inacessíveis e mais caros, em detrimento sobretudo dos pobres, mas também das pessoas afetadas por doenças crônicas e deficiências físicas ou mentais. Um homem interrogado sobre esse assunto declarou que deverá agora escolher entre comida e medicamentos: “Sofro muito e preciso tomar meus remédios. Ou me cuido ou me mato [de tal forma a dor é insuportável]… Portanto, se for necessário me privar de comida, farei isso, do contrário não poderei comprar os medicamentos”.2 A maneira como os governos reagiram aos movimentos antiausteridade é outra prova do caráter indissociável dos direitos políticos, econômicos, sociais e culturais. No Chade, as medidas restritivas adotadas pelas autoridades mergulharam ainda mais a população na pobreza. Barraram o acesso aos cuidados de saúde elementares e colocaram a educação fora do alcance da maioria. Muitos chadianos se manifestaram e fizeram greves. Em vez de ouvir suas reivindicações, o governo decidiu calar os contestadores. Optou pela repressão brutal, prendendo os militantes e atentando flagrantemente contra sua liberdade de reunião.
A crise mundial pode parecer distante, mas ainda observamos suas ramificações sociais e econômicas. As desigualdades, a corrupção, o desemprego e a estagnação econômica, que castigam as populações, criam terreno propício à emergência de dirigentes prontos a semear a divisão e o ódio, com as consequências explosivas que todos conhecem.
O presidente francês Emmanuel Macron se arvora em paladino da luta contra esses discursos, que ameaçam enraizar-se. “A Europa pende quase em toda parte para os extremos e, de novo, cede ao nacionalismo”, declarou ele pela televisão em 16 de outubro de 2018. “Precisamos, nestes tempos conturbados, de todas as energias da nação […]. Confio em vocês, confio em nós.” Contudo, o povo francês está inquieto com as políticas de Macron nas áreas de direito trabalhista, aposentadoria e acesso à universidade. A Anistia Internacional pôs em evidência também as restrições impostas ao direito de manifestação na França, sob a alegação de estado de emergência. Em 2018, as mobilizações em favor de leis respeitosas dos direitos econômicos, sociais e culturais suscitam, no máximo, a indiferença do presidente francês e, no mínimo, uma violenta repressão policial.
Esse esquema está por toda parte no mundo. Impõe-se que os governos se reconheçam incapazes de fazer respeitar todos os direitos, de todos os tipos. Para esse fim, não basta reclamar a liberdade de expressão e de manifestação; devemos examinar igualmente os motivos da contestação. Tomemos o exemplo de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita agora conhecido no mundo inteiro por ter sido brutalmente assassinado, em outubro último, no consulado da Arábia Saudita em Istambul. Como inúmeros defensores dos direitos humanos em seu país, ele estava na mira de Riad por ter ousado exercer sua liberdade de expressão. Em um último artigo, publicado no Washington Post, escreveu que seus compatriotas não podem tratar abertamente das questões relativas à vida cotidiana. “Padecemos de pobreza, incúria política e má educação”, disse ele. “A criação de um fórum internacional, independente dos governos nacionalistas que semeiam o ódio, permitiria aos cidadãos comuns do mundo árabe encontrar soluções para os problemas estruturais de sua sociedade.”3 Khashoggi havia compreendido perfeitamente por que os direitos humanos formam um todo. A liberdade de expressão é essencial por nos permitir reivindicar os outros direitos; mas não basta. Por isso, o povo egípcio entoava “Pão, liberdade, justiça social!” durante a Primavera Árabe de 2011. O que nem sempre conseguimos entender, os manifestantes da Praça Tahrir, no Cairo, já entendiam dolorosamente há sete anos: em matéria de direitos humanos, é tudo ou nada. Ou exercemos todos ou não exercemos nenhum.
Se quisermos que, verdadeiramente, os direitos humanos se tornem uma realidade para todos, impõem-se medidas de emergência. Como movimento de defesa dos direitos humanos, precisamos não apenas salvaguardar, como sempre fizemos, a liberdade de expressão e de manifestação, mas também estabelecer um vínculo com as decisões econômicas e financeiras tomadas por nossos dirigentes. Temos de trabalhar com organizações semelhantes à nossa para exigir, dos responsáveis políticos, que prestem contas da utilização do dinheiro público no combate à corrupção, às transações ilegais de capitais e às falhas na fiscalização internacional. Devemos nos empenhar na busca de soluções para os problemas estruturais de nossas sociedades.
Esse é um projeto de grande envergadura, que só se concretizará se unirmos nossas forças para a criação de coalizões com nossos parceiros de outros movimentos: militantes de direitos humanos, advogados, sindicalistas, representantes de movimentos sociais, economistas e líderes religiosos. Com a ajuda de nossos aliados em todas as regiões do mundo, seremos os porta-vozes daqueles que precisam ser ouvidos. Somente a solidariedade nos permitirá edificar um mundo sem desigualdades e injustiças, um mundo à altura dos compromissos assumidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

*Kumi Naidoo é secretário-geral da Anistia Internacional.


1 Ver Jean Bricmont, “Une gauche endormie par l’hypocrisie impériale” [Uma esquerda adormecida pela hipocrisia imperial], Le Monde Diplomatique, ago. 2006.
2 “Wrong prescription: the impact of austerity measures on the right to health in Spain” [Receita errada: o impacto das medidas de austeridade no direito à saúde na Espanha], Anistia Internacional, Londres, 24 abr. 2018.
3 Jamal Khashoggi, “What the Arab world needs most is free expression” [É da livre expressão que o mundo árabe mais precisa], The Washington Post, 17 out. 2018.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

No Brasil pós-golpe e de governo fascista, defensores dos Direitos Humanos são alvo de ameaças


https://blogdacidadania.com.br/2019/01/no-brasil-pos-golpe-e-de-governo-fascista-defensores-dos-direitos-humanos-sao-alvo-de-ameacas/

No Brasil pós-golpe e de governo fascista, defensores dos Direitos Humanos são alvo de ameaças

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Da Ponte Jornalismo:
A Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos nesta segunda-feira (10/12). Mas não tem sido tarefa muito fácil fazer valer o que dizem os 30 artigos do documento aprovado em 10 de dezembro de 1948 e que até hoje serve de base para garantia de direitos fundamentais, como à vida, à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, ao trabalho e à educação. O 7 a 1 para a intolerância tem sido constante.
“A minha vida é uma vida pela metade”. É assim que o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) responde como tem sido viver sob escolta. “Eu fico constrangido de ir num lugar de passeio, de lazer, com uma escolta. Não é bacana. Nos últimos meses eu fui apenas uma vez ao cinema. Quando eventualmente consigo ir ao teatro vou de escolta. Moro a duas quadras da praia de Copacabana e tem dois meses que não piso na areia. Eu posso ser atacado a qualquer momento. Essa não é apenas uma sensação, é uma constatação”, ressalta o parlamentar em entrevista à Ponte.
Na semana passada, a CIDH (Comissão Interamericano de Direitos Humanos) da OEA (Organização dos Estados Americanos) fez uma solicitação formal para que o Estado brasileiro tome providências no sentido de proteger o direito à vida e à integridade pessoal do deputado federal Jean Wyllys. A comissão da OEA concluiu que as provas apresentadas e as ameaças “demostram prima fascie [à primeira vista] que o senhor Jean Wyllys de Matos Santos se encontra em uma situação de gravidade e urgência, posto que seus direitos à vida e à integridade pessoal estão em grave risco”.
Jean explica que as ameaças não são algo exatamente novo. Desde 2011, acabou tendo que se habituar às ofensas dos que discordam de sua agenda de direitos humanos e defesa da população LGBT e o fato de, desde lá trás, ser o personagem preferido das fake news. Pior que isso: desde então, passou a ser alvo constante de ameaças de morte por meio publicações em redes sociais, mensagens enviadas ao seu e-mail institucional ou de cartas que chegam ao seu escritório no Congresso. No ano passado, e-mails enviados ao deputado faziam afirmações como “Jean Wyllys é uma aberração política e se esse país fosse um país decente, ele já estaria morto há muito tempo”, “Sua hora vai chegar, Falta pouco viadinho” e “Quero ver se vc ainda vai continuar levando sua vidinha de merda com ironia… (…) terá consequências ruins e as suas estão chegando”.
“O Brasil virou um local inseguro para pessoas LGBTs e particularmente para mim que represento também a agenda LGBT. [No recente processo eleitoral] Eu estava em 90% das fake news contra Haddad e Manuela D’Ávila. A principal fake news que é a historia do kit gay me envolvia. Foi inclusive uma mentira fabricada em 2011, contra mim. Já naquele momento eu disse para todos os órgãos de imprensa que aquilo não existia, que aquilo de kit gay era uma mentira e a imprensa ignorou isso. Então a coisa foi aumentando de lá pra cá”, explica.
Nesse sentido, Jean é bastante crítico à construção narrativa perpetrada por parte da imprensa, a quem atribui parcela de responsabilidade sobre o crescimento e consolidação da extrema direita, que tem como maior símbolo a eleição de Jair Bolsonaro. “A imprensa é a responsável direta pela ascensão da extrema direita na medida em que ela ensejou o antipetismo irresponsável, odioso, sem discernimento. Sem ouvir o que houve de bom nos governos petistas, sem dividir entre os petistas quem se envolveu e quem não se envolveu com corrupção, em criar esse significante vazio em que tudo foi colocado: a xenofobia, o racismo, a homofobia, a barbárie, tudo cabe no significante vazio que é o antipetismo”, destaca o parlamentar.
Em determinado momento da conversa, Jean lembra, com muita tristeza, a morte da também defensora dos direitos humanos e vereadora Marielle Franco. “Essa violência difusa é real, tem a possibilidade da violência política, do assassinato planejado como aconteceu com Marielle e tem a possibilidade de ataques de fanáticos religiosos e psicóticos que diante de informações deturpadas podem partir para o ataque”, afirma.
“A gente ia fazer uma agenda juntos em Itaperuna uma semana depois que ela foi assassinada. Pouco tempo antes, nós tivemos uma atividade juntos na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], com recursos destinados por mim através de emendas. Foi uma Mostra de cinema LGBT em parceria com a Embaixada do Canadá. Me lembro até hoje que estávamos na abertura desse evento eu, Marielle e Matheusa, uma artista performática. As duas estão mortas e eu estou sob escolta policial. Isso é muito significativo do que o brasil virou”, declara Jean, que no Rio de Janeiro só tem andado de veículo blindado.

Transferência de uma luta

Assim como Jean Wyllys, a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, chamou a atenção da Comissão Interamericana de Direitos Humanos em agosto deste ano. Desde o assassinato da vereadora, em 14 de março, crime ainda sem solução, Mônica assumiu protagonismo encampando o legado da antiga companheira: a representatividade LGBT, o povo favelado e a justiça social. Além disso, Mônica fez cobranças diretas as autoridades envolvidas na elucidação do caso pela ausência de respostas. Acabou virando alvo.
A CIDH exigiu por meio de uma medida cautelar internacional que o Estado brasileiro conceda “proteção do direito à vida e integridade pessoal” de Mônica. Em nota, a Comissão afirmou que baseou sua decisão no relato de Mônica de que “havia sido alvo de ameaças, ataques e perseguições” após “assumir o trabalho de defesa dos direitos humanos de Marielle Franco, denunciando as circunstâncias do assassinato e o atraso na investigação”. Na época, Mônica também relatou à CIDH que, embora o Estado brasileiro houvesse lhe informado sobre a existência de um mecanismo de proteção para defensores de direitos humanos, não havia concedido a ela qualquer medida protetiva nem investigado a origem das ameaças. Em setembro, ela foi incluída.
A arquiteta disse, em várias oportunidades, que é um caminho sem volta a missão de levar a luta de Marielle adiante. Em entrevista à Ponte, em agosto deste ano, quando o crime brutal contra o amor da vida dela completava seis meses, Mônica declarou que está na luta e não tem medo. “Se a gente deixar essa cadeira vazia, de vida e luta, a gente vai deixar de lutar com a potência que Marielle fazia e isso não pode acontecer, a gente não pode perder potência, a gente tem que ganhar potência nesse momento pra poder fazer valer o 14 de março. E, para o que aconteceu com Marielle não seja motivo de perder a esperança, mas que a gente transforme o que aconteceu em uma releitura para ressignificar a esperança”, declarou, na época.

Ameaças constantes e ódio ao pobre

“Avisa lá o padre que ele é o próximo.” Esse recado de policiais militares que atuam na região da Mooca, na zona leste de São Paulo, chegou até o padre Julio Lancellotti através de um morador em situação de rua acolhido pelo trabalho pastoral que o pároco desenvolve há 3 décadas. Faz parte da rotina do religioso ouvir frases como: “Assim que o Bolsonaro assumir, vocês vão sumir”, “Não temos medo do padre”, “Não vamos prender vocês, vamos enterrar mesmo”. A maior parte das frases partem de agentes de segurança do Estado – policiais militares e guardas civis. “Nunca vi PM e GCM se darem tão bem em um propósito”.
Na semana passada, PMs da Força Tática faziam patrulhamento da região da radial leste quando encontraram um grupo de moradores de rua e o rapaz, que pediu para não ser identificado, disse que depois de ser abordado, os agentes disseram: “A gente não vai prender você. A gente vai enterrar você até a cabeça. E depois a gente vai pegar o padre”.
Lancelotti explica que sente muita tristeza porque acredita que as investidas contra a população de rua, no final das contas, são para atingi-lo de tal maneira que abandone o trabalho da Pastoral do Povo de Rua e na paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca.
“Eu não chego a ter medo. Eu sinto muita tristeza porque eles maltratam o irmão de rua para me atingir. Os irmãos sentem até medo de falar meu nome, às vezes. Porque se por um lado dá a sensação de proteção, por outro é comum eles dizerem: ‘chama o padre que nós não temos medo dele’, como que desafiando”, explica.
O padre conta que há duas semanas houve uma discussão entre um GCM e um morador de rua. O guarda atirou para cima e disse: “Você não dura até o Natal”. “Tive que tirar ele e a companheira da cidade, por um tempo. A prática de humilhar, escrachar, fazer tortura psicológica é permanente”, critica. “O curioso é que nunca vi PM e GCM se darem tão bem como agora”, ironiza.
Sobre a investigação da agressão e ameaça sofrida pelo padre e por moradores de rua, em setembro deste ano, no Centro Comunitário São Martinho de Lima, Lancelotti alerta: a Guarda Civil Metropolitana tem tentado inverter o jogo. “Alguns irmãos de rua que chegaram a prestar esclarecimentos sobre o caso como testemunhas me contaram que eles ficam perguntando: ‘não foi o padre que insuflou a confusão? não foi o padre que causou o problema?’.”
A pressão tem vindo também de seus pares, religiosos como ele, da comunidade eclesial. “Muito me dizem, até em tom de preocupação: ‘Você fala demais’. Tem outros que cobram alguma mudança de comportamento minha: ‘você pensa que esses moradores são santos’. E eu sempre respondo: ‘São humanos’.”
Por fim, Júlio critica também a atuação dos Consegs (Conselhos de Segurança formados pela sociedade civil em bairros de São Paulo). Para ele, existe um patrocínio e inventivo dentro dos Consegs que passam pelos lojistas dos bairros onde atuam até interesses imobiliários. “Aumentou muito a população de rua e a intolerância também, uma raiva muito grande. Então tem a sensação de insegurança, que passa a ser combatida com uma visão de mundo higienista somado a especulação imobiliária. Eles querem que o bairro que é bonito, que é arrumado, não tenha gente pobre junto”, conclui.

Panorama e monitoramento

Atualmente, 462 defensores e defensoras de direitos humanos estão incluídos no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, que faz articulação visando proteção de ativistas entre as esferas federal e estadual. Pelo menos 108 casos de pedidos de inclusão no programa estão em análise neste momento. Dentre as diversas áreas de militância, 86% dos casos são causas indígenas e direito à terra. E não é para menos: dados do CPT (Comissão Pastoral da Terra) indicam que os assassinatos no campo atingiram o maior número desde 2003 com 70 mortes.
Em maio deste ano, o advogado Rivelino Zarpellon, que vive no Pará, concedeu entrevista exclusiva à Ponte para contar que estava sendo ameaçado de morte e, incluído no programa de proteção desde 2011, foi orientado a deixar o estado por dois meses. Zarpellon era testemunha da chacina de Pau D’Arco, que matou pelo menos dez pessoas e teve participação de policiais.
Um dos casos recentes de inclusão no programa e que gerou grande repercussão é o de Débora Diniz, antropóloga, professora da UnB (Universidade de Brasília) e fundadora da Anis, um instituto de bioética. Em agosto, durante um debate no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a ADPF 442, que discutia flexibilizar as leis que regulam o aborto legal no país, Débora fez um discurso em defesa da legalização. O resultado: passou a sofrer perseguições e ameaças de morte.
Em recente entrevista ao Correio Braziliense, Débora, que está fora do Brasil por questões de segurança, afirma que não vai se calar. “Recentemente, eu ia participar de um evento mundial sediado no Rio de Janeiro e decidi, em conjunto com o PPDDH, não participar. Poderia ser muito arriscado. Mas, assumir que isso vai se transformar em um fenômeno populacional, não podemos dizer que sim nem que não. Eu espero que não, porque não quero a desgraça para depois dizer ‘eu avisei’”, analisa.
O PPDDH existe desde 2004 e em 4 de setembro foi publicada uma nova portaria que tem objetivo de aperfeiçoar o programa com a inclusão de comunicadores. Apenas no período eleitoral, que deu vitória ao candidato de extrema direita Jair Bolsonaro, de acordo com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), 137 jornalistas foram agredidos ou ameaçados.
Na semana passada, o Brasil compareceu a uma audiência pública da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, a CIDH-OEA, em Washington, nos Estados Unidos, para reforçar as denúncias de violações ocorridas em território nacional e as perseguições contra os defensores dos direitos. Na ocasião, entidades representando a sociedade civil pediram a criação de um observatório permanente de violações contra defensores de direitos humanos.
Para Melisandra Trentin, coordenadora da Justiça Global, que esteve na audiência como uma das representantes da sociedade civil, quem atua no território corre risco. “O que está mais evidenciado é o risco que os povos tradicionais, quilombolas, camponeses, indígenas estão expostos nesse período após a eleição de Bolsonaro. É um quadro que já vinha se agudizando e agora tende a piorar”, analisa.
Melisandra destaca a necessidade da implementação de políticas públicas que ataquem as causas das violações. “A gente entende que essas pessoas serão protegidas se as causas estruturais forem trabalhadas, ou seja, a titulação de terras, reforma agrária entre outras medidas. Se essas medidas fossem tomadas, a gente não precisaria proteger as pessoas, porque elas estão justamente lutando pelos direitos humanos delas e das comunidades onde moram ou que representam”, explicou à Ponte.
No último sábado (8/12), os trabalhadores sem-terra Rodrigo Celestino e José Bernardo da Silva foram brutalmente assassinados quando estavam jantando no acampamento Dom José Maria Pires, no município de Alhandra, litoral paraibano. Quatro homens armados entraram na área e dispararam contra eles. O acampamento Dom José Maria Pires completou um ano em julho deste ano e está na área da antiga fazenda Garapu, vinculado ao Grupo Santa Tereza.
As mortes geraram comoção e até mesmo uma nota de repúdio do Ministério Público Federal. “Diante desse quadro, a PGR, a PFDC e a PRDC/PB reiteram o compromisso com a proteção dos direitos humanos dos assentados e envidarão todos os esforços perante os órgãos de investigação para que a autoria do duplo assassinato seja esclarecida e os responsáveis punidos conforme a lei”, diz a nota.

Medo? Deixo para os covardes

Ser ameaçado não é exatamente uma novidade para Padre Julio Lancellotti e as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade com quem ele trabalha na cidade de São Paulo. “Eu estou num caminho que não tem volta. Eu não me vejo fora desse compromisso e dessa convivência, cheia de desafios do jeito que é. Eu sou o que eu faço. Por um lado seria muita ousadia [me matarem], mas talvez possam combinar que alguém faça algo contra mim ou para me atingir”, afirma.
O deputado federal Jean Wyllys comunga, de certa forma, da mesma visão do religioso quando questionado sobre algum possível arrependimento. “Não me arrependo de nada, porque defender essas bandeiras é a defesa da minha vida. Eu não trabalho no distanciamento político. Tudo que eu luto tem a ver comigo. Vim da periferia, sou filho de um negro com uma branca, conheço o racismo de perto, as privações, fui aluno de escola público, sou gay, conheço a LGBTfobia no meu corpo. Venho do Nordeste, sou migrante no Rio, tenho uma família ligada ao candomblé. Tudo que eu trabalho tem a ver com minha vida. É uma luta com algo que me diz respeito”, explica.
“Posso estar vivendo uma situação horrorosa, estar vivendo pela metade, mas não me arrependo de nada. O Mujica [Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio] me disse recentemente: ‘se cuide, porque os mártires não são heróis’. E é isso, eu não quero ser mártir, minha amiga já foi mártir, ela foi martirizada com uma rajada de metralhadora. Ela nunca pediu isso. Tem que estar vivo para continuar lutando”, conclui.

Outro lado

Sobre as ameaças alegadas pelo padre Júlio Lancelotti, a Guarda Civil Metropolitana informa em nota que “a Corregedoria ouviu o depoimento de Lancelotti em novembro e, à época, ele não indicou nenhum guarda que o teria ameaçado ou os moradores em situação de rua. Uma sindicância está em andamento e os GCMs que atuam na região da Mooca estão sendo ouvidos”.
Já a SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) informou, em nota, que o secretário Mágino Alves Barbosa e o comandante da PM de São Paulo, Nivaldo Restivo, receberam o religioso em outubro, ocasião em que ele foi ouvido e  a Corregedoria instaurou inquérito administrativo para apurar as denúncias. “Importante destacar que as condutas descritas não condizem com os valores e princípios da Polícia Militar”.
Da Ponte Jornalismo