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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Os Retireiros do Araguaia e o reconhecimento de seu território

amaz
http://amazonia.org.br/2015/01/os-retireiros-do-araguaia-e-o-reconhecimento-de-seu-territ%C3%B3rio/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+21+de+janeiro+de+2015


Os Retireiros do Araguaia e o reconhecimento de seu território

Rubem Taverny Sales, representante dos Retireiros do Araguaia na Comissão Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), e Wilson Rocha de Assis, procurador da República do Ministério Público Federal (MPF) em Barra do Garças (Mato Grosso), falam sobre quem são esse povo que vive às margens do rio Araguaia, região entre Mato Grosso e Tocantins. E comentam sobre a luta pelo reconhecimento do território tradicional.
Recentemente, a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) reconheceu, por meio da portaria 294/2014, o domínio público de uma área do Vale do Araguaia, com mais de 1,6 milhões de hectares entre MT e TO. Na entrevista, o procurador da República comenta sobre a conquista e lembra que o direito territorial dos Retireiros poderá ter maior garantia quando se consolidar uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) na região. Ouça:
Fonte: Portal Ypadê

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Relatório final da Comissão da Verdade pode ficar sem capítulo sobre o Araguaia

amazonia
http://amazonia.org.br/2014/08/relat%C3%B3rio-final-da-comiss%C3%A3o-da-verdade-pode-ficar-sem-cap%C3%ADtulo-sobre-o-araguaia/

Relatório final da Comissão da Verdade pode ficar sem capítulo sobre o Araguaia

O caso da guerrilha, que fez o Brasil ser condenado internacionalmente, é um dos vários pontos que parecem não ter a atenção devida por parte da CNV.
Corpos de guerrilheiros mortos na Guerrilha do Araguaia
A repressão à Guerrilha do Araguaia, um dos casos mais emblemáticos da ditadura brasileira, corre o risco de não ter um capítulo específico no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV). O episódio de repressão contra o movimento, formado por membros do PcdoB e camponeses na região amazônica entre os estados de Goiás, Maranhão e Pará (atualmente o Tocantins), de 1967 e 1974, levou em 2010 a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a condenar o Estado brasileiro por utilizar a Lei de Anistia como argumento para não julgar os envolvidos em casos de tortura e na morte de 70 pessoas.
O “descaso” com o episódio, a menos de quatro meses do prazo para a entrega do relatório, é fruto da falta de organização e planejamento da CNV, apontam ativistas de comissões estaduais, que preparam relatórios parciais para servir de subsídio para a elaboração do documento que deve ser entregue até dia 16 de dezembro.
“Já escrevemos sobre 15 mortos no Araguaia que eram de São Paulo e, se tivermos tempo e fôlego, vamos fazer os outros 55 casos referentes a esse episódio, pois ninguém da Comissão Nacional está fazendo”, disse Maria Amélia Teles, da Comissão da Verdade “Rubens Paiva” da Assembleia Legislativa de São Paulo. Amelinha, como é conhecida, explica ainda que a comissão de São Paulo está elaborando um volume à parte do relatório final sobre mortos e desaparecidos na ditadura. Das 437 vítimas reconhecidas oficialmente, 168 são de São Paulo ou dizem respeito a paulistas em outros estados.
Amelinha concorda que o Araguaia, um dos casos de maior notoriedade da repressão ditatorial, não parece estar recebendo a devida atenção pela CNV e acrescenta: nesse número total de vítimas do Araguaia não estão camponeses da região que teriam sido torturados. “Não foi feita nenhuma investigação mais apurada em relação à população local. E o que se tem dos guerrilheiros é aquilo que os familiares estão apurando há muitos anos”, lembra.
A CNV fez em 12 de agosto uma audiência sobre o Araguaia e ouviu uma série de militares sobre o caso em novembro de 2013. Não falta material coletado. A questão é o planejamento. Até o momento ninguém está encarregado de elaborar o trecho que discorrerá exclusivamente sobre o Araguaia. Caso isso ocorra, explica o presidente da comissão de São Paulo, o deputado estadual Adriano Diogo (PT), é provável que seja São Paulo quem fará.
A falta de organização e transparência na elaboração do relatório final traz à tona problemas que permearam a relação da CNV com as outras comissões desde o início. “A CNV trabalha de uma forma que é difícil a gente saber exatamente o que está acontecendo. Não é transparente”, reclama Amelinha. “Se você faz sem um planejamento anterior, acaba fazendo tudo correndo, às pressas e faltando informação em tempo hábil. A investigação que se pretendia com a CNV era caso a caso, detalhada, essa era a ideia. Mas, até os dias de hoje, a nossa base é a pesquisa dos familiares, quando na verdade tinha de ser algo maior”.
Responsável pela parte que abordará as violações contra homossexuais, travestis e membros da comunidade LGBT, juntamente com o brasilianista James Green (Universidade de Brown, nos EUA), Renan Quinalha também critica o fato de não haver clareza sobre como as contribuições serão incorporadas. “Há abertura, mas não critérios claros. Eles ainda estão concebendo a estrutura do documento, e isso reflete o problema de a CNV ter pensando no documento tardiamente. O relatório foi uma preocupação mais ao final da comissão, e isso coloca uma série de obstáculos para saber o que realmente vai entrar”, explica Quinalha, que finaliza um texto de 20 páginas para encaminhar à CNV.
O trecho sobre a comunidade LGBT corre ainda o risco de entrar em um capítulo sobre violações de gênero e raça, o que é mal visto pelos pesquisadores. “A ditadura brasileira fez vítimas em diversos setores da sociedade brasileira, que não são apenas os perseguidos políticos”, disse, ao frisar que as forças de repressão viam a homossexualidade como parte de uma conspiração comunista. O próprio Itamaraty, lembra, cassou diplomatas suspeitos de serem homossexuais, assim como constituiu uma comissão que examinasse casos de “funcionários do ministério suscetíveis de comprometer o decoro e o bom nome da casa, tendo em vista o possível enquadramento dos indiciados nos dispositivos do Ato Institucional n. 5”.
Da mesma incerteza compartilham grupos que lutam pelo reconhecimento do Estado das graves violações de direitos humanos contra indígenas. Insatisfeito com o espaço reservado para o grupo social que mais sofreu abusos na ditadura, Marcelo Zelic, coordenador do projeto Armazém da Memória, diz que as 35 páginas previstas pela CNV para o documento final não são suficientes: “O trecho sobre o Araguaia terá apenas 35 páginas? A parte sobre mortos e desparecidos terá só 35 páginas? Por que essa diferenciação da violência?”
Zelic luta para a mudança do texto final, no qual o foco da CNV está voltado para o primeiro contato com algumas tribos, um material muito inicial, segundo ele. “Os números apresentados para o período de 1964-1985 pela CNV dizem respeito a uma parcela dos casos a estudar e com certeza não abrange a totalidade de casos acontecidos no período militar”, ressalta.
Parte dessas frustrações pode ser explicada pelas próprias divergências entre os membros da CNV, que discordam em pontos sensíveis, como a revisão ou reinterpretação da Lei de Anistia, de 1979. “A CNV ficou muito tempo nessa briga de egos”, afirma Amelinha, para quem uma das recomendações que o relatório final trará deve ser a de pedir uma nova Comissão Nacional da Verdade. “Temos de ter uma comissão para apurar e encaminhar esses casos para a Justiça. Não faz sentido o Brasil saber que houve cinco coronéis envolvidos na morte de Rubens Paiva e ficar por isso mesmo. Aí se estará pedagogicamente ensinando a sociedade a ser hipócrita”.
Além do pedido para a extensão do mandato da CNV ou da instauração de uma comissão permanente, há outra certeza uníssona das comissões estaduais sobre um ponto que “não pode faltar” dentre as recomendações do documento final: a reinterpretação ou a revisão da Lei de Anistia, movimento que pode levar agentes torturadores do Estado ao banco dos réus. “Seria mais um trabalho de interpretação da lei”, explica Fernando Coelho, coordenador da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco, parlamentar pelo MDB à época da votação da lei no Congresso Nacional. “Houve um equívoco na decisão do STF ao falar sobre a existência de um acordo para a votação, no qual se teria negociado a volta dos exilados em troca da anistia dos torturadores. Esse acordo nunca existiu”.
Para a presidente da Comissão Estadual do Rio, Nadine Borges, o pedido de revisão da lei é elementar, assim como a abertura dos arquivos da época. “Será uma vergonha histórica se isso não constar no relatório final da CNV”, enfatiza. Ela explica ainda que o relatório parcial do Rio pedirá ainda a inclusão em livros didáticos de um resumo dos trabalhos das comissões da verdade; a formação de direitos humanos em todos os níveis hierárquicos das Forças Armadas; e a alteração de nomes de logradouros públicos que homenageiem figuras ligadas ao regime militar.
Diogo observa ainda que o documento final da CNV não pode deixar de conter um trecho sobre a participação dos empresários na repressão, enquanto Quinalha lembra a importância de se pedir reparação às pessoas LGBT perseguidas e prejudicadas pelas violências do Estado; e a alteração do artigo 235 do Código Penal Militar de 1969 que estabelece ser crime “praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar”.
Já a Comissão da Verdade do Rio Grande do Sul mantém a esperança de haver ainda uma recomendação específica sobre a desmilitarização das polícias militares. “As forças públicas estaduais foram transformadas, na ditadura, em auxiliares das Forças Armadas, por isso participaram da repressão também. Essa ideologia que identifica o povo como inimigo é incompatível com a função policial”, diz o coordenador Carlos Frederico Guazzelli. “Mesmo que haja governantes democráticos, a sua polícia acaba sendo extremamente autoritária”.
Procurada por CartaCapital, a CNV não esteve disponível para prestar esclarecimentos a respeito do relatório final. A previsão é de que o documento tenha 33 capítulos divididos em cinco partes que falarão sobre resumo das atividades; comprometimento das estruturas do Estado na repressão; práticas, métodos e eventos emblemáticos; vítimas e grupos sociais vitimados; instituições do Estado e a sociedade face às graves violações de direitos humanos; além de um anexo sobre mortos e desaparecidos e outro com hiperlinks para documentos citados. Até o dia 30 de setembro, a CNV recebe sugestões do público para o relatório final que podem ser enviadas através do site da comissão.
Por: Marsílea Gombata
Fonte: Carta Capital  

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terça-feira, 17 de junho de 2014

MPF denuncia oito produtores rurais por crimes contra comunidade

midia news
http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=3&cid=200844


MPF denuncia oito produtores rurais por crimes contra comunidade

Associação criminosa, sequestro e cárcere privado estão entre crimes

MidiaNews
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MPF denunciou oito integrantes da Associação dos Produtores Rurais
DA REDAÇÃO
Oito integrantes da Associação dos Produtores Rurais (Aprorurais), do município de Luciara (MT), foram denunciados pelo Ministério Público Federal de Barra do Garças pelos crimes de associação criminosa, sequestro e cárcere privado e ameaça contra a comunidade tradicional Retireiros do Araguaia, professores e estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso, por conta de uma disputa fundiária na região.

De acordo com a denúncia oferecida no dia dois de maio, a investigação conduzida pela polícia e pelo Ministério Público Federal possui elementos que comprovam que as manifestações contra a comunidade tradicional da região do rio Araguaia não decorreram da manifestação espontânea e de pessoas insatisfeitas com a proposta de constituição da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mato Verdinho, destinada a assegurar o modo de vida retireiro.

“As manifestações e os crimes delas decorrentes foram efetivamente orquestrados, coordenados, financiados e estimulados pela associação criminosa da qual fazem parte todos os denunciados”, afirma o procurador da República Wilson Rocha Assis, na denúncia.

Os envolvidos nos atos de violência são contrários à presença da comunidade na região e à proposta de criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mato Verdinho na região de Luciara para contemplar a área tradicionalmente e historicamente utilizada pela comunidade de retireiros. A proposta da RDS tramita no Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio).

Em parecer do ano de 2010, o ICMBio afirma que “entre os principais conflitos e ameaças ao ambiente e à cultura local dos retireiros do Araguaia, situa-se a grilagem de terras, que historicamente tem contribuído para o aumento da pressão sobre as áreas de retireiros e posseiros locais. Em geral, a grilagem de terras é feita para a aquisição de financiamentos bancários dando a terra como garantia. Nos últimos tempos, no entanto, a pressão da grilagem tem cada vez mais penetrando as áreas inundáveis do Araguaia no sentido oeste-leste, ou seja, vinda do eixo da BR 158 em direção ao rio Araguaia”.

A comunidade dos Retireiros do Araguaia é reconhecida como uma comunidade tradicional que vive na região nordeste de Mato Grosso e possui uma estreita ligação com as áreas inundáveis do rio Araguaia e praticando, de forma tradicional e sustentável, a pecuária de subsistência.

Atentados 

Em setembro de 2013, diversos atentados violentos foram planejados pelos oito integrantes da Aprorurais e cometidos com o intuito de intimidar a comunidade dos Retireiros do Araguaia que reivindica a demarcação de uma unidade de conservação de uso sustentável na região. Diversos atos criminosos foram praticados: duas residências foram incendiadas; houve a tentativa de atear fogo no veículo de um retireiro, pneus foram queimados em frente a residências, além de ameaças proferidas contra diversos membros da comunidade. A casa de uma liderança religiosa que apoia a causa dos retireiros foi alvejada por disparos de arma de fogo.

Além dos atentados e ameaças contra os membros da comunidade de retireiros, outros atos de violência foram cometidos durante a semana do dia 19 de setembro de 2013. Um professor, dois motoristas e 16 alunos do curso de mestrado em Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso, que seguiam para um estudo da comunidade tradicional, foram mantidos em cárcere dentro do ônibus em que seguiam para Luciara e ameaçados de terem o veículo incendiado se não atendessem a ordem de sair da região, sob escolta.

O que diz a legislação:


Código Penal

Ameaça

Art. 147 - Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave.

Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.

Cárcere
Artigo 148 - Privar alguém de sua liberdade, mediante seqüestro ou cárcere privado:

Pena - reclusão, de um a três anos.

Associação Criminosa

Art. 288. Associarem-se três ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes:

Pena - reclusão, de um a três anos.

Parágrafo único. A pena aumenta-se até a metade se a associação é armada ou se houver a participação de criança ou adolescente.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Queimadas abrem espaço para soja na região do Araguaia

o eco
http://www.oeco.org.br/oeco-data/27789-queimadas-abrem-espaco-para-soja-na-regiao-do-araguaia


Queimadas abrem espaço para soja na região do Araguaia
Daniel Santini - 26/11/13

No começo desta década, as queimadas que marcaram a substituição de largas áreas de Floresta Amazônica por soja na região do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso, foram registradas pelo novo levantamento do Projeto Panamazônia II, do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE). A metodologia que permite o levantamento, a cargo da Divisão de Sensoriamento Remoto do órgão, foi divulgada na semana passada e permite visualizar onde e em que meses as principais queimadas aconteceram no estado durante o período de seca de 2010.
A região do Araguaia, no nordeste do estado, fica em destaque como a mais afetada, conforme é possível observar em vermelho no mapa abaixo.
mapa - queimadas

A área do entorno do Rio Araguaia é vizinha ao Parque Nacional do Araguaia, e tem fauna e flora bastante particular, com trechos de transição entre Cerrado e Amazônia. É marcada por planícies e cortada por rios e riachos, o que favoreceu a expansão da soja nos últimos anos. O estudo permite identificar onde foi utilizado fogo para acabar com a vegetação e abrir espaço para novos plantios.

sojaEm vez de árvores, soja na região do Araguaia, na Amazônia matogrossense Foto: Daniel Santini

O mapa foi reproduzido da página do Inpe (clique aqui para acessar o sistema e consultar este e outros recortes possíveis de se fazer com a ferramenta). O Mato Grosso é uma das principais áreas piloto do Projeto PanAmazônia II e por isso foi escolhido para a primeira análise de queimadas baseada no registro de emissão de gases por satélites. O instituto tem planos ampliar o monitoramento de queimadas para toda a Amazônia e, no futuro, para toda a América do Sul.
O uso de satélites para monitorar o desmatamento na Amazônia tem sido importante para frear o ritmo da derrubada de florestas no país e os resultados obtidos nos últimos anos foram elogiados em estudo divulgado pela revista Science sobre o recém-lançado mapa mundial de perdas florestais ocorridas no mundo entre 2000 e 2012.Importante ressaltar que nem o artigo nem o mapeamento consideram o aumento de 28% de desmatamentodivulgado este mês pelo Governo Federal. A volta do crescimento após anos de seguida redução, na visão de especialistas, está relacionada à mudança no Código Florestal e outros fatores, e pode tornar-se uma tendência se medidas de contenção não forem tomadas.  


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ata de reunião da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo realizada em Luciara

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Sandra <sandra.alcantara@mda.gov.br>
Data: 26 de outubro de 2013 13:41
Assunto: Prezados Senhores - Remessa de ata de reunião ocorrida em Luciara - MT, no dia 24.10.2013 **SR-13**
Para:

        Prezados Senhores,

    Cumprindo ordem do ouvidor agrário nacional, desembargador Gercino José da Silva Filho, encaminho-lhes cópia de ata de reunião da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo realizada em Luciara, no auditório da Universidade de Mato Grosso, no dia 24 de outubro de 2013, quando foi discutida questão envolvendo trabalhadores rurais da Associação dos Produtores e Retireiros do Araguaia de Luciara, vinculada à possível criação, dentro dos limites do município de Luciara, da Reserva de Desenvolvimento Sustentável denominada Mato Verdinho, conforme documento constante de arquivo anexo.
        Atenciosamente,

Sandra Alcantara de Matos
Assistente-Técnico da Ouvidoria Agrária NacionalTelefone (61) 2020.0799 Fax (61) 2020.0525



-- 
mais informações com:
CPT Araguaia
Fone/Fax: 66 - 3569 - 1148
Porto Alegre do Norte-MT
skipecpt_araguaia

--
baixar a ata
aqui
*

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Terras férteis do Araguaia geraram ‘badernaço’ em cidade de Mato Grosso

24horas
http://www.24horasnews.com.br/m444045/disputa_de_terra_frteis_do_araguaia_geraram_badernao.html
13/10/2013 15:44:00
Terra férteis do Araguaia geraram ‘badernaço’ em cidade de Mato Grosso
Redação 24 Horas News
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A cobiça pelas terras férteis da União nas margens do Rio Araguaia, no nordeste de Mato Grosso, divisa com Goiás, é apontada como a razão dos incêndios de casas, tiros, ameaças de morte e fechamento da cidade de Luciara, cidade de pouco mais de 2 mil habitantes, que praticamente ficou a mercê, no mês passado.  Um grupo de grileiros e fazendeiros provocou um ‘badernaço’ para protestar contra um projeto do governo federal de criar uma reserva de desenvolvimento sustentável na região.
 
Entre os dias 20 e 22 do mês passado, os grileiros bloquearam a rodovia MT-100, única via de acesso à cidade, com pneus e pedras e fizeram uma série de ameaças a ambientalistas e defensores da proposta da reserva. Pessoas não identificadas incendiaram as casas do vereador Jossiney Evangelista Silva (PSDB) e do líder camponês Rubem Salles. 
 
Na noite de domingo, foram disparados tiros na casa do diácono José Raimundo Ribeiro, da Paróquia Nossa Senhora das Graças. O comércio fechou na sexta-feira e só reabriu na manhã desta segunda, 23. Uma parte dos comerciantes defende a manifestação dos grileiros.
 
O clima na cidade é de guerra. O vereador Jossiney Evangelista Salles, que teve a casa incendiada, relatou que está sendo ameaçado por defender a criação da reserva. Ao passar por um bloqueio na rodovia em companhia de quatro policiais militares, ele foi alvo de ataques verbais de um grupo de grileiros. "Sofri agressões. Eles partiram para cima, fiquei com medo", afirma, em entrevista publicada pela Agenda Estado. "Não sei quem pôs fogo na minha casa. Só sei que a polícia deveria ser mais ágil nessa questão."
 
Há mais de um século, caboclos conhecidos por "retireiros" vivem da criação coletiva de gado em Mato Verdinho, uma terra da União na beira do Araguaia. Em 1999, um grupo de famílias criou a Associação dos Retireiros do Araguaia (ARA) para garantir a permanência no local e frear o avanço de pecuaristas que começaram a chegar do Paraná e do Rio Grande do Sul. Atualmente, a entidade defende direitos de 97 famílias, num total de 450 pessoas, que seriam beneficiadas pela criação da reserva.
 
A presença de pecuaristas e grileiros em Mato Verdinho, de acordo com a agên cia,  passou a alterar a vida da comunidade dos "retireiros" a partir do fechamento do acesso de lagos e trechos do rio. O projeto da reserva está sendo desenvolvido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e conta com o apoio de entidades de direitos humanos e sindicatos de pequenos agricultores de Mato Grosso e de Goiás.
 
A baderna do fim de semana contou com apoio de pessoas influentes da cidade, reclamam defensores da criação da reserva. Faixas com frases de repúdio ao trabalho de ambientalistas e técnicos do ICMBio foram espalhadas pelo centro de Luciara. "Os grileiros estão fazendo uma arruaça na cidade", afirma Rubem Salles, o Rubão, que hoje preside a ARA. "Eles inventaram que a criação da reserva vai atingir todo o município e obrigar fazendeiros de outras regiões de Luciara a irem embora", completa.
 
Rubão observa que as terras das margens do rio são cobiçadas pelos pecuaristas por causa da qualidade do pasto natural, que ganha reforço com os sedimentos trazidos pelas águas do Araguaia em tempo de cheia. Um comércio ilegal de venda de terras da União funciona em Luciara. "Os grileiros do Sul do Brasil correram para cá", constata o líder da associação. "Vamos defender nosso direito de permanecer aqui." 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Reunião tenta colocar fim a boatos de criação de Reserva

gazeta digital
http://www.gazetadigital.com.br/conteudo/show/secao/9/materia/398798

Sexta, 11 de outubro de 2013, 10h07
LUCIARA

Reunião tenta colocar fim a boatos de criação de Reserva

Gostou do conteúdo então divulgue 
 


 
Gláucio Nogueira, repórter do GD
Reprodução Facebook
Rancho de retireiro foi incendiado por conta dos boatos
Os conflitos por conta da criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) em Luciara (1.166 km a nordeste da Capital) foram tema de reunião, nesta semana em Brasília (DF). Na ocasião, o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Roberto Vizentin, afirmou que o projeto ainda encontra-se em fase inicial e que várias etapas precisam ser respeitadas para que haja uma nova demarcação.
Vizentin ressaltou que um grupo técnico será criado para rever toda a proposta, com a análise de documentos juntados ao processo desde 2003. “Não existe a possibilidade de criação de uma Reserva por imposição do Governo Federal por meio de um Decreto, contra a vontade da maioria da população”. A informação que corria no município dava conta que a reserva seria criada em breve e ocuparia 104 mil hectares, desalojando centenas de famílias.
Além do grupo técnico, o presidente do ICMBio explicou que o Estado é ouvido em uma das etapas prévias á criação da RDS. “Antes da criação de uma Unidade de Conservação o Executivo Federal consulta o governador quanto a importância econômica e social daquela área para o município e para o Estado”.
A reunião foi articulada por deputados federais e estaduais, por conta da insegurança causada pela notícia. Para o deputado Dilmar Dal’Bosco, é fundamental que a população do município seja ouvida no processo. “Mesmo ocupando a terra há mais de 80 anos, a maioria desses pequenos agricultores de Luciara são posseiros, ou seja, não possuem título de propriedade e, por esse motivo, não poderão pertencer a RDS, sequer receberão indenização do Governo Federal”.
A tensão atingiu o ponto alto no final do mês passado, quando fazendeiros fecharam os acessos ao município e impediram a chegada de acadêmicos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que participavam de uma aula de campo. Duas casas foram queimadas e outra alvo de tiros. As residências pertencem à simpatizantes da RDS e a retireiros, pessoas que utilizam as margens do Rio Araguaia para a criação de gado de forma a causar o mínimo impacto ambiental à região.
Por incitar os protestos, duas pessoas foram presas pela Polícia Federal, enviada ao município para restabelecer a ordem. Eles foram indiciados pelos crimes de constrangimento ilegal, dano, incêndios, formação de quadrilha e ameaça.

domingo, 29 de setembro de 2013

Em Luciara, latifúndio sem máscaras

outras palavras
http://outraspalavras.net/blog/2013/09/29/em-luciara-latifundio-sem-mascaras/

Em Luciara, latifúndio sem máscaras

130929-Lucimara6
Numa pequena localidade à beira do Rio Araguaia, emerge a brutalidade dos que se julgam donos do Brasil
Por Taís González e Bruna Bernacchio
Tiros foram disparados contra casas de religiosos. As moradas de dois pequenos agricultores (um deles, também vereador) foram queimadas até a completa destruição. A rodovia MT 100, que dá acesso à cidade, foi bloqueada. Milícias armadas detiveram um ônibus com pesquisadores e estudantes do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia e tentaram revistar seus ocupantes. Máquinas foram colocadas na pista de pouso do aeroporto e montaram-se estratégias para evitar a chegada de pessoas pelo rio Araguaia. Entre 20 e 22 de setembro, a pequena cidade de Luciara (2.300 habitantes), no extremo nordeste do Mato Grosso (1160 km. de Cuiabá), viveu de forma concentrada a violência que os grandes proprietários rurais praticam há séculos contra os que resistem a seu poder no campo.
Motivo: um pequeno grupo de fazendeiros quer evitar, à força, a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável no município. A constituição da unidade é proposta do Instituto Chico Mendes (ICMBio), Visa evitar que se concretize uma ameaça social e ambiental. Há algum tempo, os latifundiários – na verdade “grileiros”, que ocuparam terras públicas – estão avançando sobre os pequenos sítios mantidos, em condições comunais, sustentáveis e de integração com a natureza, por cerca de cem famílias. São os “retireiros do Araguaia”.
130929-Luciara
A casa de um líder dos retireiros, devastada pelo fogo
Há mais de um século, desde a colonização de Luciara, caboclos vivem da criação coletiva de gado em Mato Verdinho, uma terra da União na beira do Araguaia. São pequenos ordenhadores, que criam à solta seu gado nas pastagens naturais do cerrado e varjões da região, numa dinâmica de agroextrativismo do capim nativo, de forma extensiva e com pouca alteração da paisagem natural. É uma prática tradicional, adequada às características ecológicas e sociais locais. Nestas áreas, há o espaço do retiro, local de moradia e manejo do gado, organizado individualmente ou em grupo. Nos retiros são construídas casas, piquetes para manejo de gado, currais e cisternas. Varjões, lagos, rios, matas não inundáveis e toda a paisagem é de uso comum.
Há cerca de quinze anos, os caboclos articularam-se e formaram duas organizações: Associação dos Retireiros do Araguaia (ARA), e Associação dos Produtores Rurais do Mato Verdinho (Aprumav), apoiada por professores e alunos da Unemat, que mantém uma unidade em Luciara. Aos poucos, desenhou-se a ideia de instituir a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Trata-se de uma das categorias definidas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). Visa preservar territórios onde populações tradicionais têm sua subsistência emsistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais. A reserva, julgam os retireiros, poderá frear o avanço de pecuaristas.
Praia do Araguaia: do outro lado do rio, a Ilha do Bananal
Praia do Araguaia: do outro lado do rio, a Ilha do Bananal
Em 21 de setembro, espalhou-se o boato – depois não confirmado – de que técnicos do ICMBio chegariam à cidade, para iniciar os estudos necessários à criação da RDS. “Tem algumas pessoas, com interesses contrários, disseminando informações erradas de que esses fazendeiros seriam retirados da área. O processo ainda não está pronto, mas precisamos aprofundar esse debate”, disse Fernando Francisco Xavier, representante do instituto no Mato Grosso. Já em 19 de setembro, aliás, os grileiros haviam barrado, segundo a Comissão Pastoral da Terra, dois geógrafos. Tambémbarraram na estrada, por duas vezes, o ônibus da Nova Cartografia Social – umprojeto que estimula os povos amazônicos a se auto-conhecerem e mapearem, como parte do desenvolvimento de suas identidades coletivas. Jagunços queriam revistar o veículo, ameaçaram incendiá-lo e proibiram que fossem tiradas fotografias. Também impediram que o grupo seguisse até São Félix do Araguaia. Os geógrafos e alunos pretendiam realizar uma Oficina de Mapas com os retireiros de Luciara.
A cidade, de 2,6  mil habitantes
A cidade, de 2,6 mil habitantes
A prelazia da cidade, braço da Igreja Católica, também virou alvo porque é “acusada” de apoiar o projeto de reserva. Há alguns meses, padres e líderes comunitários foram ameaçados por grupos ligados aos políticos e fazendeiros da região, contrários à demarcação da Terra Indígena Marãiwatsédé, área ocupada pelos Xavantes até a década de 60. O bispo Emérito de São Félix do Araguaia, D. Pedro Casaldáliga, teve que deixar sua casa após seguidas ameaças de morte realizadas por esses grupos.
Na terça-feira (24/9), a Polícia Federal finalmente chegou ao local. Cumprindo ordem judicial, executou a prisão temporária de dois homens, indiciados pelos crimes de constrangimento ilegal, dano, incêndios e formação de quadrilha. A situação segue tensa em Luciara. Lá, o latifúndio expôs suas garras – mas encontrou resistência.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Contra Reserva de Desenvolvimento Sustentável, ruralistas sitiam cidade no Mato Grosso

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2013/09/contra-reserva-de-desenvolvimento-sustentavel-ruralistas-sitiam-cidade-no-mato-grosso/

27/09/2013 - 10:42

Contra Reserva de Desenvolvimento Sustentável, ruralistas sitiam cidade no Mato Grosso

Fazendeiros locais espalham boatos, fecham acessos, queimam casas e fazem ameaças contra camponeses em Luciara, situada na região do Araguaia
Por Daniel Santini | Categoria(s): Notícias
Disparo de bala no portão da casa de José Raimundo Ribeiro da Silva. Foto: Arquivo Pessoal
Disparo de bala no portão da casa de José Raimundo Ribeiro da Silva. Clique na imagem para ampliar. Foto: Arquivo Pessoal
A cidade de Luciara, na região do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso, foi sitiada com episódios de violência no último final de semana. Em protesto contra os estudos para a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável em uma região de várzea nas margens do rio Araguaia, ruralistas bloquearam todos os acessos à cidade de quinta-feira, 19, a domingo, 22, queimaram duas casas de camponeses locais, expulsaram professores e estudantes universitários que visitavam a região, fizeram ameaças e espalharam boatos de que a cidade seria totalmente desocupada pelo Governo Federal, provocando revolta entre a população. Um tiro chegou a ser disparado contra a casa de José Raimundo Ribeiro da Silva, professor de filosofia e história e diácono local, e o vereador Jossiney Evangelista Silva (PSDB), indígena da etnia Kanela, foi cercado, impedido de entrar na cidade e ameaçado em um dos bloqueios. Ambos são favoráveis à criação da reserva.
Dada a gravidade da situação, o Ministério Público Federal entrou com pedido de prisão provisória contra quatro pessoas no domingo, 22, deferido no mesmo dia pela Justiça. No começo da semana, a Polícia Federal cumpriu os mandados e prendeu três dos acusados de um conjunto de crimes que inclui incêndio, ameaça à vida, formação de quadrilha e cárcere privado. Um quarto suspeito continuava foragido até a publicação desta reportagem. “Além das prisões, estamos investigando o motivo de os órgãos públicos da cidade não terem funcionado na sexta-feira. A menos que estejam apoiando, não faz sentido repartições fecharem as portas”, diz o procurador federal Lucas Aguilar Sette, que visitou a cidade para reunir provas e identificar os responsáveis pelo que classifica como uma explosão de violência. “Os fazendeiros e políticos locais cooptaram pessoas promovendo um churrasco de três dias e passando informações equivocadas para a população. As pessoas bebiam, iam fazer ameaças e voltavam para a festa”, explica o procurador, que diz que, para provocar pânico, os agitadores utilizaram o exemplo de Posto da Mata, vilarejo irregular construído dentro da Terra Indígena Maraiwatsédé e desocupado no ano passado.
Autoridades federais e estaduais também foram mobilizadas e informadas sobre o problema, incluindo o Ministério da Justiça, a Delegacia Geral da Polícia Federal, a Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos e a Secretaria Estadual de Segurança Pública. “A população está muito mal informada. A mídia está vendendo essa ideia. E é uma situação completamente diferente. Luciara não será desocupada, não tem relação”, diz o procurador.
Fazendeiros e grileiros mentiram dizendo que
a cidade seria evacuada
e que viraria uma reserva. Enganam o povo e
fazem ameaças
“Fazendeiros e grileiros mentiram dizendo que a cidade seria evacuada e que viraria uma reserva. Enganam o povo e fazem ameaças. Falam como se fosse igual, mas Luciara é um município constituído e Posto da Mata era uma vila em uma Terra Indígena.Pedro Casaldáliga sempre disse para não erguermos igrejas em Posto da Mata porque a cidade estava em Terra Indígena. Precisamos que órgãos governamentais mostrem ao cidadão comum a realidade”, diz José Raimundo Ribeiro da Silva, o Zecão, como é conhecido o professor e diácono que teve sua casa atingida por um disparo. “Estamos sendo vítimas do ‘agrobanditismo’. Sou a favor da criação da reserva, da preservação da margem do rio Araguaia, de que o avanço da soja não suje a água de veneno. Tenho recebido ameaças e temo pela minha vida”, completa. A Comissão Pastoral da Terra divulgou nota denunciando o atentado contra o diácono.
Os retireiros
A revolta está relacionada à insatisfação de latifundiários locais com a perspectiva de criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, que beneficiaria camponeses conhecidos como “retireiros”. São criadores de gado que usam as áreas de várzea do rio Araguaia para o pastoreio durante as secas e, quando o rio sobe, retiram os animais para terras mais elevadas. Eles criam o gado de maneira solta em uma região de pastagem comum, nativa. Não há cercas nas áreas, já que impediriam o acesso à água pelo gado e acarretariam no pisoteio exagerado de algumas áreas de pastagens.
“Temos de preservar uma comunidade que há mais de 60 anos lida com gado no ‘varjão’ do Araguaia. Esse gado se sustenta ali e fica quatro, cinco meses na área de várzea. Depois, o retireiro retira e vai para o lugar alto, onde constrói sua casa, tem uma horta. Ele tira o leite e espera a água baixar para voltar com o gado para lá. Nessa labuta, [os retireiros] construíram saberes sobre a biodiversidade, a fauna e flora, o relacionamento com o rio. Eles conhecem a natureza como poucos”, diz Zecão.
Incêndio destruiu casa de Rubem Sales, presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia. Foto: Arquivo Pessoal
Incêndio destruiu casa de Rubem Sales, presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia. Foto: Arquivo Pessoal
“Houve um recrudescimento [da violência] por parte de algumas pessoas que são contrários à criação da Unidade de Conservação. Esse é o motivo”, explica Fernando Francisco Xavier, coordenador Regional do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia do Ministério do Meio Ambiente responsável pelas Unidades de Conservação Federais. “Pode haver oposição, mas não podemos admitir que um Estado paralelo se instale, que interesse apenas alguns grupos. Isso é inadmissível”, diz Fernando. 
A mobilização está diretamente relacionada com a disputa por terras. Há grilagem na região e envolvidos temem não poder mais comercializar áreas.
Acadêmicos expulsos
A confusão começou, segundo o coordenador do ICMBio, porque pesquisadores ligados à Universidade Federal da Amazônia que visitavam a região foram confundidos com funcionários do Governo. “Surgiu o boato de que iríamos fazer uma consulta pública sobre a criação da reserva e a barreira visava impedir o acesso do Instituto Chico Mendes. Não tem sentido fazer uma consulta pública às escondidas, elas são previamente agendadas e amplamente divulgadas”, afirma. “Podemos fazer o debate e é legítimo [que haja oposição], mas aconteceram atentados contra representantes da comunidade que revelam a fragilidade e vulnerabilidade a que as lideranças estão submetidas”, completa o representante do ICMBio.
Mesmo com a prisão de três pessoas e a operação realizada no começo da semana, as lideranças locais ainda temem que a situação se agrave. “Estamos sozinhos aqui agora que a Polícia Federal foi embora, sem nenhuma proteção”, diz Rubem Taverny Sales, presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia, proprietário de uma das casas queimadas durante os ataques.
                                  
Fiquei apavorado, tive
medo que eles me torturassem. As pessoas
estavam exaltadas,
um grupo me cercou,
tirou a chave da
ignição da moto e
tentou agredir
minha prima
A outra é de Jossiney Evangelista Silva, o vereador indígena da etnia Kanela, que foi impedido de entrar na cidade, cercado e ameaçado. “Fiquei apavorado, tive medo que eles me torturassem”, conta. Ele procurou a polícia imediatamente ao saber que haviam ateado fogo na sua casa, e, ao tentar se dirigir à delegacia para registrar a ocorrência, foi parado no bloqueio. Nem a presença de policiais, que haviam ido com o vereador até o incêndio, impediu que ele fosse intimidado. “As pessoas estavam exaltadas, um grupo me cercou, tirou a chave da ignição da moto e tentou agredir minha prima Lidiane, tentando tomar a máquina fotográfica da mão dela”, conta. “Do bloqueio ninguém teve coragem nem de tirar foto. Eles falaram que eu tinha de deixar a moto e voltar a pé, mas eu não aceitei. No fim, conseguimos ir embora.”
Na barreira armada, além dos primeiros pesquisadores, também foram parados professores e estudantes ligados ao projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, que realizariam uma Oficina de Mapas com os retireiros. Entre os expulsos estão os professores Cornélio Silvano Vilarinho Neto e Antonio João Castrillon. Os acadêmicos fizeram críticas públicas à postura agressiva dos ruralistas. “A violência que atinge as pessoas pelo constrangimento, intimidação e destruição, visa também enfraquecer e desestruturar a identidade coletiva do grupo, que está fortemente ligada ao processo de territorialização específica das áreas de retiro”, escreveu Castrillon.
Soja, grilagem e terras públicas 
A disputa fundiária em Luciara está relacionada ao avanço do monocultivo de soja na região do Araguaia, assunto que foi tema de reportagem publicada em fevereiro pela Repórter BrasilCom a expansão das plantações na região, as terras estão cada vez mais valorizadas e o desmatamento aumenta devido à necessidade de novas áreas para plantio. Além do espaço necessário para o cultivo, o fato de o veneno utilizado nas lavouras afetar os rios também é motivo de conflitos.
Em Luciara, em 2009, como parte dos estudos para criação da reserva, foi feito um levantamento fundiário completo de títulos e ocupantes de uma área de 198 mil hectares, considerada ideal para a reserva. Para minimizar a tensão fundiária, porém, o ICMBio passou a trabalhar com 110 mil hectares. “Vimos a necessidade de diminuir para uma área menor em função dos conflitos existentes. Decidimos delimitar o espaço de uso da comunidade, ainda que em prejuízo dos retireiros para viabilizar a reserva. Isso mesmo considerando que muitas terras não têm atividade agrícola”, explica Fernando Francisco Xavier, o coordenador do ICMBio. A Secretaria de Patrimônio da União foi acionada para averiguar quais são as áreas públicas que poderiam ser incluídas na reserva. Os retireiros já entraram com pedido de Concessão de Autorização de Uso Sustentável (Caus).
Plantações de soja avançam em direção ao município de Luciara, conforme é possível ver via satélite. Imagens: MapBox
Plantações de soja avançam em direção ao município de Luciara, conforme é possível ver via satélite. Imagem: MapBox