sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Membros do Conselho Estadual de Direitos Humanos são vítimas de prisão arbitrária

jus brasil
http://pr-pb.jusbrasil.com.br/noticias/100044191/membros-do-conselho-estadual-de-direitos-humanos-sao-vitimas-de-prisao-arbitraria


Membros do Conselho Estadual de Direitos Humanos são vítimas de prisão arbitrária

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Os integrantes do Conselho Estadual de Direitos Humanos na Paraíba (CEDH-PB) Padre Bosco (presidente), Guiany Campos, Nazaré Zenaide, a ouvidora da Secretaria de Segurança Valdênia Paulino e Lídia Nóbrega foram presos arbitrariamente por mais de três horas na noite desta terça-feira (28) quando realizavam uma inspeção para apurar denúncias de tortura no presídio PB-1, em João Pessoa.
Os integrantes do Conselho foram detidos sob o argumento de que estavam tirando fotos de presos. O CEDH-PB sempre faz suas vistorias com máquina fotográfica, a fim de registrar o estado dos detentos. As fotos são publicadas, com descaracterização quando necessário, nos relatórios do Conselho, divulgados na internet.
A ordem de prisão ilegal foi dada pelo diretor do presídio, Sérgio, por telefone (ele estaria em férias). Emcontato telefônico com o capitão Juliemerson, que esteve no local para cumprir a prisão, o procurador da República Duciran Farena, avisado pelo celular de um dos conselheiros, pode constatar o absurdo da prisão. "No primeiro contato, o capitão disse que estavam presos por tirarem fotos não autorizadas. Quando informei que tirar fotos é prerrogativa do Conselho, o capitão respondeu que a ordem de prisão não era de responsabilidade dele. Logo em seguida, passou a dizer que não havia ordem de prisão nenhuma. Mas não deixava ninguém sair", relatou o procurador.
Com a chegada do promotor de Justiça Marinho Mendes, os conselheiros foram liberados, quase três horas depois de sua detenção. Não foi formalizada nenhuma acusação de crime contra nenhum conselheiro.
Para o procurador Duciran Farena, além da ocorrência de crime de constrangimento ilegal, o episódio demonstra que os órgãos de controle social não têm liberdade alguma na Paraíba, estando à mercê dos abusos das autoridades que buscam impedir as ações de fiscalização. "Como o governo estadual pretende por em funcionamento o Comitê de Prevenção e Combate à Tortura, se não assegura sequer aos órgãos existentes, como o CEDH-PB, a possibilidade de investigar denúncias de tortura?" questiona o procurador.
Assessoria de Comunicação
Procuradoria da República na Paraíba
Fone Fixo: (83)3044-6258
Celular: (83) 9132-6751
No twitter: @MPF_PB

Indígenas, integrantes do MPF e da Funai são atacados por pistoleiros no Mato Grosso do Sul

blog do gilson sampaio
http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2012/08/indigenas-integrantes-do-mpf-e-da-funai.html


QUARTA-FEIRA, 29 DE AGOSTO DE 2012

Indígenas, integrantes do MPF e da Funai são atacados por pistoleiros no Mato Grosso do Sul

Sanguessugado do Língua Ferina
Renato Santana*
Pistoleiros atiraram na tarde desta terça-feira, 28, contra o tekoha Arroio Korá, do povo Guarani Kaiowá, localizado no município de Paranhos, fronteira do estado do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Por enquanto, não há notícias de feridos, mas a violência imposta pelos jagunços dessa vez não respeitou ao menos órgãos federais. 
Durante o ataque dos atiradores, a comunidade indígena estava reunida com o antropólogo do Ministério Público Federal (MPF) do estado, Marcos Homero. Com ele estavam representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e agentes da Força Nacional. Em Arroio Korá vivem cerca de 400 Guarani Kaiowá.
Os tiros foram desferidos contra o grupo reunido, que se dispersou. “Ficamos assustados. Acontece sempre de atirarem contra nós, por cima do acampamento. Hoje estava o Ministério Público, a Funai. Eles viram como acontece”, declarou a liderança de Arroio Korá, Dionísio Guarani Kaiowá.
Ameaçado de morte, o indígena não pode se locomover livremente pela Terra Indígena de sete mil hectares homologada em 21 de dezembro de 2009, mas que nunca teve os não-índios retirados pela Funai. Conforme decisão do Aty Guasu, grande reunião Guarani Kaiowá, a situação não poderia mais se manter.  
No último dia 10 de agosto a comunidade decidiu iniciar a retomada da área e desde então Dionísio está marcado para morrer, além de seguir exigindo das autoridades providências quanto ao desaparecimento de Eduardo Pires Guarani Kaiowá, levado pelos pistoleiros durante ataque no dia do movimento de retomada.
“Aqui estamos vivendo assim porque os invasores de nossas terras estão todos aqui dentro e não aceitam que estamos retomando o que é nosso. Estamos aqui e não vamos sair”, decretou Dionísio. Na última semana, o indígena entrou para o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos da Presidência da República.
Violência é recorrente
O Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul solicitou a instauração, pela Polícia Federal de Ponta Porã, de inquérito policial para averiguar a violência sofrida pelos Guarani Kaiowá e Ñhandeva durante reocupação da Terra Indígena Arroio Korá.
Uma criança morreu durante o ataque dos pistoleiros, ocorrido logo após o movimento de retomada. Um indígena chamado Eduardo Pires ainda está desaparecido e conforme testemunhas ele teria sido levado pelos pistoleiros. Segundo o MPF, o objetivo da investigação, além de apurar a ocorrência de crimes, é também o de preservar o local dos fatos para futuros exames periciais.
Relatório de Identificação da Terra Indígena, realizado pelo antropólogo Levi Marques Pereira e publicado pela Funai, atesta, em fontes documentais e bibliográficas, a presença dos guarani na região desde o século XVIII.
Em 1767, com a instalação do Forte de Iguatemi, os índios começaram a ter contato com os “brancos”, que aos poucos passaram a habitar a região com o objetivo de mantê-la sob a guarda da corte portuguesa. A partir de 1940, fazendeiros ocuparam a área e passaram a pressionar os indígenas para que deixassem suas terras tradicionais.
Os primeiros proprietários adquiriram as terras junto ao Governo do, então, Estado de Mato Grosso e, aos poucos, expulsaram os índios, prática comum naquela época. Contudo, os indígenas de Arroio Korá permaneceram no solo de seus ancestrais, trabalhando como peões em fazendas.
Homologação contestada
No dia 21 de dezembro de 2009, o presidente Luís Inácio Lula da Silva homologou os sete mil hectares da Terra Indígena Arroio Korá. Desrespeitando o recesso do STF, o ministro Gilmar Mendes, oito dias depois do ato de homologação, embargou 184 hectares da área a pedido dos fazendeiros.
“O que perguntamos é: por que o processo ainda está parado e qual a razão da Funai não retirar os invasores de todo o resto da terra que não foi embargada? A guerra que nos declaramos é contra essa morosidade. Não vamos aceitar mais tanta demora em devolver nossas terras”, disse Eliseu Guarani Kaiowá.

Favela nunca esteve tão na moda

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Favela nunca esteve tão na moda

Neste sábado, 1º de setembro, um evento marcará na Cidade de Deus o aniversário de 10 anos do lançamento do filme de Fernando Meirelles que leva o nome da favela. Ao longo desta década, muitos outros filmes sobre favelas e periferias foram para as telonas. O tema também foi parar nas telas menores, abordado em novelas, programas de auditório e jornais na TV, o que demonstra que cada vez mais a favela está na mídia e na pauta do dia.
Jaílson de Souza e Silva. Foto: Observatório de Favelas.
Para o geógrafo Jaílson de Souza e Silva, fundador do Observatório de Favelas e integrante do grupo de referência do Programa Morar Carioca, da Prefeitura do Rio de Janeiro, a “moda” da mídia em falar da favela está intimamente ligada à ascensão econômica que as classes mais baixas experimentaram no Brasil no século XXI. Ou, em outras palavras, à formação de uma nova classe de consumidores. “Está na ‘moda’ muito mais a representação de um novo tipo de consumidor do que o reconhecimento de um efetivo cidadão”, afirma.
Isso porque, ainda segundo o professor, neste período, as taxas de homicídio no Brasil continuaram crescendo e atingindo principalmente esta mesma parcela da população, negra e pobre. Segundo o Mapa da Violência 2012, em 2002 morriam, proporcionalmente, 45,2% mais negros do que brancos no Brasil. Em 2010, essa taxa subiu para 82,7%. Jaílson também chama a atenção para o fato de o Brasil ser o quarto país do mundo com maior número de presidiários, que, em sua maioria, também são negros e pobres.
O Brasil e, especificamente, o Rio de Janeiro têm experimentado, sim, uma mudança com relação à forma como se vê a favela e seu morador. Mas, para Jaílson, essa diferença não diz respeito ao reconhecimento dessas pessoas como efetivos sujeitos de direitos. O preconceito contra os moradores de favelas, por exemplo, continua forte, sendo amenizado nos casos onde as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) facilitaram o acesso aos territórios controlados por traficantes de drogas. “O racismo continua sendo um componente fundamental das relações sociais brasileiras. Logo, no cotidiano, o preconceito contra os moradores dos territórios populares não tem diminuído, embora seus espaços venham se tornando mais acessíveis”, comenta.
Existe uma “cultura da favela”?
Acompanhado a essa glamourização vem também um preconceito bem sutil, que pode mesmo ser disfarçado de boa intenção e valorização da população favelada. É o preconceito de acreditar que, na favela, só se produz uma “arte favelada”, só existe uma “cultura favelada”. E o que é, afinal, essa cultura? É possível falar numa só arte favelada? “A arte com adjetivos é sempre um problema. A questão é que se cristalizou a ideia de que as práticas cotidianas, em particular dos grupos rurais e étnicos, são o máximo de cultura que os pobres podem fazer”, responde Jaílson.
Ele acredita que o morador da favela pode produzir arte visual, literatura, música, tanto quanto qualquer outro, sem,  necessariamente, seguir um modelo relacionado ao território em que habita. “O problema é não se reconhecer, nem se oferecer condições de legitimidade para as práticas artísticas dos moradores das periferias. De qualquer forma, cada vez mais, grupos e artistas desses territórios se impõem no cenário contemporâneo, afirmando uma nova centralidade para as periferias, no campo artístico inclusive”. Jaílson conclui sugerindo um caminho: “deve-se criar novos equipamentos e ampliar as condições de formação, produção, difusão e mobilização nesses territórios, estimulando a partilha e o convívio com diferentes tipos de linguagens, de variados espaços da cidade e do mundo”.

Neoliberalismo, um dogma inabalável?

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Neoliberalismo, um dogma inabalável?

Homo Economicus
Por Michel Husson
Publicado no site Esquerda.net
Na França, muitas centenas de economistas reuniram-se para dizer até que ponto estavam “aterrados” em razão das políticas levadas a cabo na Europa. Diante da crise, as medidas de apoio à atividade foram rapidamente substituídas por uma austeridade generalizada. Esta desencadeia uma espiral recessiva que não pode resolver a questão da dívida, e muito menos do desemprego. A vontade cega de voltar ao business as usual vem acompanhada de uma aplicação brutal das receitas neoliberais, que se parece muito a uma terapia de choque.
Podemos falar aqui de dogma, no sentido de que o corpus neoliberal é um conjunto “de ideias mortas que circulam ainda entre nós”, como explica John Quiggin no notável livro “Zombie economics. How dead ideas still walk among us”. Ele cita cinco, entre as quais a hipótese da “eficiência dos mercados” (os preços determinados pelos mercados financeiros representam a melhor estimativa possível de um investimento) ou a “teoria do escoamento” (trickle down economics) segundo a qual o bem-estar dos “1%” acaba por beneficiar o conjunto da população.
A crise, e o aumento das desigualdades que a precedeu, deveriam ter reduzido a pó estas ideias: mas elas sobrevivem, como testemunham a ausência de medidas significativas de regulação financeira ou de redução das desigualdades. Isto acontece porque o dogma neoliberal é constantemente renovado segundo um processo de produção permanente, no seio de verdadeiras fábricas: instituições internacionais, universidades, think tanks. Estes “aparelhos ideológicos” são ricamente dotados de meios e tendem a marginalizar todo o programa de investigação heterodoxa. A sua legitimidade assenta na ideia de que a economia é uma ciência de leis incontornáveis, tão intangíveis quanto as leis da física. Este cientifismo é o fundamento sobre o qual pode construir-se o crescimento econômico. Eis porque certos economistas podem sinceramente pensar que são depositários da razão econômica. Mas nem todos. Um grupo de economistas tomou recentemente posição “sem opção ideológica” a favor de Nicolas Sarkozy, precisando que “nem de direita nem de esquerda, a ciência econômica ajuda a deliberar as escolhas [sic]”.
Angela Merkel enunciou de maneira muito clara as “reformas estruturais” que deveriam acompanhar o “pacto do crescimento” proposto por Mário Draghi, presidente do BCE: “os custos salariais não devem ser muito elevados, as barreiras no mercado de trabalho devem ser baixas, para que cada qual possa conseguir um emprego”. Aqui temos dois artigos essenciais do dogma: o desemprego resulta de um “custo do trabalho” muito elevado e da rigidez do mercado de trabalho. Temos o direito de falar aqui de um dogma, porque esta causalidade nunca foi estabelecida. No entanto, muito se investiu para consegui-lo e a OCDE construiu mesmo toda uma bateria de indicadores com este fim.
Mas o resultado foi um fracasso: apesar dos estudos truncados, dos “consensos” duvidosos e das regras de três abusivas, nenhum resultado sólido pôde ser identificado. O último relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) consagra um capítulo ao balanço desta literatura e conclui assim: “Os dados empíricos confirmam a conclusão de estudos anteriores: não existe ligação clara entre a legislação protetora do emprego e o nível de emprego”.
Promover políticas cujos efeitos contraproducentes são comprovados (recessão e precariedade) demonstra uma obstinação dogmática de que Jacques Freyssinet deu a chave na crônica “Trou d’air, récession ou rupture? Continuités et inflexions dans les politiques de l’emploi” (Turbulência, recessão, ou ruptura? Continuidades e inflexões nas políticas de emprego): “Quando a situação melhora, isso prova a eficácia das reformas realizadas; quando a situação se degrada, isso prova a necessidade de acelerar o seu ritmo”.
Mas o dogma não é simplesmente irracional. Ele funda uma irracionalidade restrita, fornecendo elementos de legitimidade a políticas que procuram preservar os privilégios de uma camada social estreita. Neste sentido, o dogma é um dos instrumentos que permitem reforçar o poder do capital. Mas esta arma ideológica não é suficiente para contornar o grande dilema que a crise fez aparecer: o capitalismo neoliberal já não pode funcionar nas mesmas bases, mas não aceita espontaneamente outras regras de funcionamento. Só um grau suplementar de afundamento na crise e/ou uma pressão social suficiente poderia afastá-lo do dogma neoliberal.
Retirado de Salut et Fraternité, PDF no site hussonet.
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net.

Por que lutar pela neutralidade da rede?

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Por que lutar pela neutralidade da rede?

Natália Mazotte
do Canal Ibase
Você pode nunca ter ouvido falar nela, mas a neutralidade da rede afeta cada bit de informação que trocamos online. O assunto é técnico e por isso mesmo costuma ser o patinho feio dos debates sobre liberdade digital. Entendê-lo é o primeiro passo para engrossar o coro de seus defensores.
Pelo princípio da neutralidade da rede, todo tráfego de dados na internet deve ser tratado da mesma forma, sem qualquer segregação com base em conteúdo, autor, origem ou destino. Entretanto, como todo bom princípio, ele não é absoluto. A natureza multimídia da internet faz com que seus gestores precisem discriminar alguns dados.
Como explica Gustavo Gindre, membro do Coletivo Intervozes que já integrou por dois mandatos o Comitê Gestor da Internet (CGI.br), “os pacotes de dados precisam carregar um cabeçalho com informações sobre quem são, de onde vêm e para onde vão. Isso porque, do ponto de vista da engenharia da rede, eu preciso dar tratamento diferenciado a determinados conteúdos”. É como o trânsito das cidades, uma ambulância, por sua especificidade e função, está sujeita a normas diferentes das aplicadas a um veículo de passeio e deve ter prioridade nas vias. Na internet, um pacote de vídeo deve trafegar com mais rapidez do que um e-mail, por exemplo. Isso porque o e-mail pode atrasar 20 segundos ou um minuto sem prejudicar a comunicação. Mas se um pacote de dados de vídeo atrasar, vai travar e perder sua finalidade. O e-mail é uma forma assíncrona de comunicação, o vídeo, não.
O critério técnico de segregação é legítimo e necessário, segundo Gindre, mas acaba abrindo espaço para outros tipos de gestão não legítimos. “A partir do momento que o conteúdo tem identidade e pode ser ‘farejado’ [sniff é o termo usado em inglês], duas formas de uso que derivam da mesma leitura técnica dos pacotes de dados são perigosas: a política e a comercial”, afirma o especialista.
Episódios protagonizados por dois gigantes da economia global expõem os problemas da quebra indevida da neutralidade da rede. Na China, a identificação dos pacotes de dados é usada politicamente para censurar o que vai ou não ser transmitido de um internauta aos demais. Estados Unidos, fervoroso no combate ao vazamento de informações do Wikileaks, foi acusado pela União Europeia de espionagem industrial por interceptar dados sigilosos de uma operação comercial e beneficiar uma empresa americana com os detalhes da negociação.
Mas censura estatal e espionagem industrial são só a ponta do iceberg quando se trata da má gestão da rede. A segregação comercial dos dados, segunda forma ilegítima de ferir a neutralidade, atinge diretamente todos os usuários da web.
As operadoras dos serviços de telecomunicações são responsáveis por investir na infraestrutura da “malha viária” da internet. Com os investimentos aquém do necessário, a qualidade do serviço fica prejudicada. Quando firmamos um contrato de banda larga de 10 megas com uma operadora, esperamos receber os 10 megas. Só que o que é oferecido, de fato, tem como base um cálculo de uso médio. A empresa, na verdade, não tem aquilo que ela vendeu. Como observa Gindre, se todo mundo quiser usar os 10 megas, a rede da operadora não vai suportar, portanto “ela precisa evitar que as pessoas usem a rede o tempo inteiro e, para isso, degrada sua qualidade”. A prática infringe os direitos do consumidor, pois o serviço anunciado não corresponde ao entregue.
Criar um gargalo artificial na conexão também é uma estratégia utilizada para “extorquir” empresas de conteúdo. Após degradar o serviço, as teles cobram por “vias expressas”. Ou seja, se o Youtube não quiser cansar sua audiência com vídeos que levam muito tempo para carregar, deve pagar mais caro.
Por estas razões, a Declaração Conjunta de 2011 sobre a Liberdade de Expressão e a Internet, feita pelos relatores para a liberdade de expressão das Nações Unidas, expressa a importância da neutralidade da rede e a obrigação de transparência dos provedores de internet na gestão de informações e de todo o tráfego online.
“As pessoas precisam entender que o fim da neutralidade significa o fim da internet. Graças a ela, não temos de pedir licença a ninguém para criar coisas novas na rede e nem ver a internet comandada pelo poder econômico”, salientou João Carlos Caribé, ativista digital responsável pela Campanha Mega Não, que combate as ameaças à liberdade na web.
Marco Civil da Internet
Se quebrar a neutralidade da rede pode ser aceitável ou não, garantir uma legislação que faça exatamente essa distinção e que defina um fiscal para evitar usos indevidos é o “x” da questão. O Brasil pode se tornar o segundo país da América Latina a ter essa legislação, o Marco Civil da internet.
Projeto de Lei 2.126/11, conhecido como Marco Civil, estabelece direitos e responsabilidades de usuários, provedores e poder público no uso da internet. Seu texto já passou por uma consulta pública online, sofreu modificações, foi para a Casa Civil e, em julho deste ano, chegou à Câmara na versão final formatada pelo deputado Alessandro Molon (PT-RJ).
Embora consiga separar o joio do trigo, ou seja, a segregação de dados técnica da política e comercial, a versão final do Marco Civil não define um fiscal para acompanhar essa regulação. A proposta inicial colocava o Comitê Gestor da Internet nesse papel, mas as empresas de telecom querem que a Anatel seja a fiscal. A decisão ainda está em aberto.
Marco Civil aguarda votação em uma comissão especial da Câmara, o que deve acontecer só em 19 de setembro, para a ansiedade de muitos ativistas da liberdade digital. No último dia 16, foi lançado o aplicativo “Marco Civil”, que permite ter informações básicas sobre o projeto de lei e sua tramitação. Também é possível acompanhar todas as ações pró-votação e aprovação da iniciativa. Se a sociedade civil se mostrou ativa na expansão da internet no Brasil, com o trabalho iniciado pelo Ibase na época da Eco-92, agora seu engajamento é fundamental na luta em prol de uma internet livre para todos.

Soldados de Israel narram violências contra meninos palestinos

correio da cidadania
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Soldados de Israel narram violências contra meninos palestinos


ESCRITO POR LUIZ EÇA   
QUI, 30 DE AGOSTO DE 2012

Soldados entraram numa vila onde havia acontecido um conflito, batendo nas pessoas com bastões de madeira.

No fim, restaram algumas crianças presas. Elas foram forçadas a correr; quem corria menos era espancada com bastões.

Segundo um ex-sargento de um Corpo de Engenharia do exército israelense, isso aconteceu com crianças palestinas, sendo que a punição foi repetida quatro a cinco vezes, até sobre as mesmas crianças.

Cerca de 30 atuais e antigos soldados israelenses revelaram a forma violenta como crianças palestinas são rotineiramente tratadas durante as operações militares e prisões na Margem Oeste.

São 850 relatos, publicados pela organização Breaking The Silence(Quebrando o Silêncio), formada, em 2004, por ex-soldados israelenses, que se dedica a expor as ações do exército nos territórios ocupados.

São fatos estarrecedores: espancamentos, humilhações, ofensas, prisões noturnas e ferimentos impostos a crianças.

Yehuda Shaul, da Breaking the Silence, explica que os depoimentos foram reunidos para mostrar a realidade do tratamento habitual imposto pelos soldados aos palestinos, particularmente crianças. “Infelizmente”, ele diz, “esta é a conseqüência moral da prolongada ocupação sofrida pelo povo palestino”.

Alguns dos fatos narrados relacionam-se à detenção e às violências praticadas contra meninos que jogam pedras nos soldados e à imposição do controle israelense em áreas ocupadas.

O relatório documenta numerosos casos de meninos com menos de 16 anos que, depois de presos, têm os olhos vendados e são privados de comida e água.

Como as organizações de direitos humanos sempre afirmaram, as crianças palestinas são normalmente presas durante a noite. Na prisão são maltratadas e lhes negam acesso à família e a advogados.

Um sargento dos paraquedistas, que regularmente levava sob custódia crianças de 12 a 14 anos por tentarem cruzar a fronteira com Israel, disse que foi instruído a tratá-las não como crianças, mas como terroristas.

“O oficial de inteligência”, conta o sargento, ”observou dois soldados batendo num dos presos, garoto de uns 16 anos. Não se opôs”.

Em outro depoimento, um ex-soldado descreveu como sua tropa destruía lojas e casas simplesmente por estarem chateados, provocando tumultos propositadamente.

Ele relatou ainda um incidente no qual soldados israelenses, esperando por civis suspeitos no lado de fora de uma mesquita, começaram a disparar tiros de balas de borracha para provocar um conflito. Caso alguma criança árabe atirasse pedras neles, eles a usariam como escudos humanos.

“Você segura o garoto, empurra sua arma contra o corpo dele. Ele não pode fazer um só movimento, fica totalmente petrificado. Apenas grita: No, no, army!”.

Um veterano que serviu em Hebron, em 2010, conta como era o contato com as crianças palestinas presas: “Você nunca sabia seus nomes, você nunca conversava com elas, elas sempre choravam, defecavam nas calças... Havia aqueles momentos desagradáveis quando você está numa missão de aprisionamento e não há espaço nas celas da polícia, então você apenas leva o garoto de volta, venda os olhos dele, põe ele numa sala e espera pela polícia chegar e levá-lo de novo, de manhã. Ele fica lá sentado como um cachorro...”.

Segundo os testemunhos, as crianças freqüentemente se sujavam. “Eu me lembro de ouvir o som delas evacuando nas calças... Eu me lembro também, algumas vezes, quando alguém urinava nas calças. Eu ficava indiferente a isso, não podia me preocupar menos. Eu ouvia o garoto se urinando, percebia sua vergonha. Mas não ligava”.

Um outro antigo sargento descreve uma operação contra a vila de Azzun, onde foram atiradas pedras contra motoristas de um assentamento judaico numa curva da estrada.

“Nós entramos na vila, fomos até a casa mais próxima da curva, quando vimos um grupo de crianças de 9 a 10 anos fugindo”, ele contou.

“Elas correram para dentro do terraço de uma casa e então nosso comandante pegou uma granada paralisante e atirou-a no terraço. Ela explodiu, não acho que feriu alguém, mas fez os meninos saírem do terraço”.

Seguiu-se uma perseguição, as crianças foram agarradas e o comandante encostou sua arma no rosto de uma delas.

“O garoto ficou histérico, certo de que iria ser morto. Pediu e suplicou por sua vida”, o soldado contou. “Um garoto precisa pedir por sua vida? Uma arma carregada é apontada contra ele e ele tem de pedir piedade? Isso é algo que vai marcar toda a vida dele”.

Gerald Horton, da ONG Defense for Children International Palestine (DCI), sustenta que os testemunhos representam um padrão de comportamento das forças israelenses no seu relacionamento com a população da Margem Oeste.

“Não são incidentes isolados ou uma questão de umas poucas ‘maçãs podres’. É a conseqüência natural e previsível da política do governo”.

O exército de Israel condenou a iniciativa do Breaking the Silence, afirmando que seu objetivo era somente criar escândalo. Do contrário teriam levado suas informações às autoridades militares para que tomassem as devidas medidas.

Yehuda Shaul, da ONG de ex-militares, respondeu: “Mais de 70 dos nossos depoentes já vieram a público com denúncias, citando nomes e identidades, e eu sou um deles. Se o Exército de Israel estivesse interessado em investigar nossas denúncias, nós provavelmente já teríamos sido convocados para prestar testemunho”.

Como isso não aconteceu, Breaking the Silence teve de se fazer ouvir.

Comissão aprova MP do Código Florestal


IHU - UNISINOS
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512978-comissao-aprova-mp-do-codigo-florestal

Comissão aprova MP do Código Florestal

Após mais de sete horas de discussão, a comissão mista que analisa a medida provisória do novo Código Florestalcedeu na recomposição das áreas de preservação permanente (APP) e aprovou, por unanimidade, o novo texto apresentado pelo relator, senador Luiz Henrique (PMDB-SC). O relatório agora segue para a Câmara e depois para o Senado. O impasse colocava em risco a aprovação da MP 571, que foi apresentada em 28 de maio e caduca em 8 de outubro.
A reportagem é de Tarso Veloso e publicada pelo jornal Valor, 30-08-2012.

Após entrar em um impasse, o governo considerou uma boa estratégia ceder à mudança nas APPs e conseguir ontem a aprovação de um novo texto, substituindo o fechado no dia 12 de junho. Ontem, a ministra das Relações Institucionais,Ideli Salvatti, avisou à base governista que era para votar "ganhando ou perdendo". Assim, foi reduzida de 20 para 15 metros a recomposição das APPs, em margens de rios de até 10 metros, em propriedades de 4 a 15 módulos fiscais. Em propriedades acima de 15 módulos fiscais, independentemente da largura do curso de água, a recomposição ficará entre 20 a 100 metros. Neste caso, a definição da área de reflorestamento será decidida pelo Programa de Regulamentação Ambiental (PRA).

Por outro lado, o relator conseguiu reincorporar ao texto a preservação de cursos d'água intermitentes, que secam em determinadas épocas do ano. A redação determina que, para rios de até dois metros de largura, deverão ser reflorestados cinco metros. Esse artigo havia sido derrubado na audiência do dia 8 de agosto.

Essa mudança na APP para médias propriedades foi concebida de última hora após uma intensa pressão dos deputadosRonaldo Caiado (DEM-GO) e Abelardo Lupion (DEM-PR) que travaram o acordo costurado pelo governo. No trato anterior, antes do recesso parlamentar, foi aprovado o texto e as emendas seriam votadas uma por uma. Neste caso, o governo não possuía voto para vencer a bancada ruralista. Com a aprovação de um novo texto, o governo "escapou" de votar outros destaques neste momento. Regimentalmente, só seria possível fechar o acordo se todos os parlamentares votassem positivamente ao novo relatório, em detrimento do aprovado em julho, já que a manobra altera o rito normal de tramitação e não tem previsão regimental.

A mudança nas APPs foi proposta pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a senadora Kátia Abreu (PSD-TO). Para ela, os novos limites trarão "paz ao campo", garantindo a segurança jurídica para o setor agropecuário e preservação ambiental. "A nova regra inclui 98% dos produtores brasileiros. Essa mudança não foi uma derrota para o meio ambiente. Hoje, o Brasil possui 61% do seu território original preservado", disse a senadora.

Partido Verde repudiou, em nota, a conduta da comissão. "A pressão para finalizar a votação da matéria foi de tamanha intensidade que, sob a tutela de um pseudo acordo, coordenado pelos ruralistas, destaques deixaram de ser votados, matérias antes rejeitadas voltaram a integrar o texto, numa clara afronta ao processo legislativo", define a nota, assinada pelo líder do partido na Câmara, Sarney Filho (MA).

Ontem, durante as negociações, houve confronto para viabilizar o acordo. Com a mudança proposta pelo relator e acatada pela maioria, os deputados Caiado Lupion não aceitaram e partiram para a briga. O primeiro, disse que não concordava com a mudança das regras e não faria acordo. "Essa tentativa de um novo texto, diferente do aprovado, é uma manobra do governo, que estava perdendo a votação dos destaques em separado", disse. "Não fiz parte de acordo de textos alternativos. Quando o governo perde muda tudo?", questionou CaiadoLupion foi mais direto e disse que não colocaria "sua digital nesse excrecência".

A comissão mista, formada em sua maioria por ruralistas, ficou do lado do governo. Durante os discursos, a senadorKátia Abreu chegou a pedir "pelo amor de Deus" para que Caiado mudasse de ideia. O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Homero Pereira (PSD-MT), e o ex-presidente da FPA, Moreira Mendes (PSD-RO), também insistiram para que o entendimento fosse concretizado. As discussões continuaram até que os parlamentares mudaram de ideia.

Apesar do resultado ter dado a ideia de ser uma vitória dos ruralistas, os ambientalistas também saíram satisfeitos com o acordo fechado. "Foi uma negociação duríssima porque a causa ambiental tem sempre poucos votos aqui. Mas foi o melhor possível, porque se essa MP caduca, ela deixaria os pequenos agricultores em uma situação muito difícil", disse o senador Jorge Viana (PT-AC).

O presidente da comissão, Elvino Bohn Gass (PT-RS), fez coro ao colega do Acre. "Os ruralistas queriam todas as áreas já desmatadas fossem consolidadas. Nós conseguimos ampliar as áreas de reservas entorno de nascentes, não ter anistia e trazer de volta as áreas de preservação em rios intermitentes. Então nós tivemos grandes avanços", explicou.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Brutalidade do sistema prisional e bárbaras humilhações

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Brutalidade do sistema prisional e bárbaras humilhações a parentes são denunciadas em Ato Público 


ESCRITO POR GABRIEL BRITO, DA REDAÇÃO   
TERÇA, 28 DE AGOSTO DE 2012


Atualmente a sexta economia mundial, o Brasil também se destaca no ranking internacional de aprisionamentos. São aproximadamente 520 mil pessoas nos cárceres do país, sendo que 40% ainda esperam pela acusação oficial, isto é, poderiam responder seus atuais processos em liberdade.

Dentro deste universo, sabe-se largamente da precariedade das prisões brasileiras, autênticas jaulas superlotadas do que alguns chamam de “descarte social”. Além disso, os corredores de tais locais são permeados por tensas relações entre detentos e oficiais do Estado encarregados de vigiá-los. Somadas às condições subumanas das celas, ocorrem freqüentes denúncias de abusos e violações dos direitos humanos dos presos, em muitos casos tratados como animais pelo Estado supostamente responsável por sua “ressocialização”.

Diante da falta de condições dignas nas celas e do crescimento do encarceramento no país (o número de detentos é 69% superior à capacidade dos recintos), nota-se um crescente desconforto social a respeito da situação, principalmente quando organismos internacionais começam a tomar ciência de que a violência oficial empregada contra a “delinqüência interna” é absolutamente desproporcional.

“Precisamos entender mais Loi Wacquant (sociólogo francês especialista em criminalística) quando ele constata que a diminuição das políticas sociais sempre é seguida de aumento do número de prisões”, afirmou Deivison Mendes Faustino, professor de História e Cultura da África da UFSCAR, em ato de lançamento da revista PUC Viva no último dia 16, no prédio da universidade católica – a nova edição da revista tem como tema exclusivo o “Estado penal brasileiro”.

A análise de Faustino se sustenta no atual momento de crise econômica internacional, quando governos de todo o planeta anunciam seguidos cortes orçamentários nas áreas de interesse social, preteridas por políticas de resgate ao sistema financeiro. Ao lado disso, os sinais de que tal crise realmente assola o Brasil começam a ficar mais claros, bastando conferir as pessimistas previsões de crescimento para 2012.

“Precisamos entender quem ganha e quem perde, quem afinal lucra com isso. Ainda mais em épocas de eleição, com toda a sua espetacularização. Temos uma criminalização da pobreza ou do pobre? A pobreza é intrínseca à riqueza capitalista. De modo que, dentro desse sistema, o atual Estado penal poderia mesmo ser substituído pelo Estado de Direito?”, indaga Faustino, lançando um olhar político na abordagem do crescente número de prisões em nosso país.

Uma urgente revisão geral

Com uma vasta massa que ainda não cabe em nossa atual sociedade de mercado, decerto também por nossas deficiências no campo da educação, a queda do crescimento econômico e, consequentemente, da oferta de empregos sempre cobram uma fatura visível em sociedades menos desenvolvidas, nas quais os direitos essenciais da população ainda não foram assegurados.

“É necessário encarar de outra forma a questão das drogas e o aprisionamento em massa que ela gera. A prisão, de forma alguma, ressocializa alguém, muito pelo contrário, nunca resolveu e sempre criou mais revolta”, pontuou a coordenadora da Pastoral Carcerária da Mulher, Heidi Ann Cerneka, na mesa de debate que mediou o ato.

Heidi destaca a questão, pois já é de amplo conhecimento o fato de que, em países nos quais os governos declararam a chamada “guerra às drogas”, verificaram-se enorme aumento do encarceramento, especialmente de jovens traficantes, e (paradoxalmente ou não) um simétrico crescimento do consumo de variadas substâncias ilícitas por lei.

Assim, gera-se uma percepção social nem sempre verdadeira que, em determinados momentos, assola cidades brasileiras: a de que a criminalidade estaria atingindo índices alarmantes e seria necessário redobrar esforços em seu combate, o que aqui significa o reforço do poder de fogo do braço militar estatal. Em momentos assim, fica ainda mais difícil discutir os direitos dos infratores.

“É muito importante levantarmos bandeiras dos direitos humanos neste momento em que se constroem sensos comuns contra esses mesmos direitos humanos. Na minha vida de promotor penal, que incluía visitas a prisões, os presos nos mostravam bastões da polícia usados para agredi-los nos quais se podia ler ‘direitos humanos’”, alertou Haroldo Caetano da Silva, um dos idealizadores do Programa de Atenção Integral ao Louco Infrator (Paili), também presente ao ato e, dentre outras histórias, refém da famosa rebelião comandada por Leonardo Pareja no Centro Penitenciário de Goiás, em abril de 1996.

Além de denunciar o alto grau de letalidade do Estado brasileiro na relação com suas camadas mais pobres, o encontro serviu também para denunciar uma especificidade pouco difundida ao público, mas que martiriza semanalmente os familiares dos presos.

“Os presos sofrem uma sobrepena, pois, além da pena que já cumprem, têm de conviver com a humilhação dos parentes. É uma situação comum, mas destaco especialmente a situação de São Paulo”, disse Andreia de Almeida Torres, membro do Conselho Regional de Serviços Social (CRESS).

Torres se refere ao fato, mote principal do ato, de que, em muitas prisões brasileiras, aqueles que visitam seus parentes passam por verdadeira via-crúcis, por vezes extremamente cruel, para alcançarem um momento ao lado de quem os fizeram sair de casa. “Nós passamos por muitas humilhações, pois os parentes que visitam seus filhos, maridos, primos presos também são ‘condenados’ pelos carcereiros e funcionários do presídio. Sofremos muitos abusos, qualquer suspeita que eles alegam já gera uma enorme repressão”, contou Andrea MF, ex-presidiária e membro da Amparar (Associação de Amigos e Familiares de Presos(as)).

Ela ilustrou com um exemplo que, seguido da exibição de um curto vídeo que circula na internet, deixou atônitos e até sem reação uma boa parte dos presentes. Trata-se de procedimento qualificado pelos especialistas como “revista vexatória”. Geralmente, as mulheres são obrigadas a se despir completamente na sala de espera diante de uma carcereira, chegando finalmente a ficar de cócoras, de modo a deixar claro que não portam drogas em seu corpo. Em alguns casos, o(a) oficial não se contenta e leva a pessoa em questão para exames como raio-x em hospitais e prontos-socorros, fazendo o parente perder todo o dia em idas e vindas fajutas.

“Assim, sou vítima de um sistema que não reabilita. Não estou defendendo o preso naquele artigo em que foi condenado, e sim em outros direitos que não devem ser violados por causa disso”, completou Andrea MF. “Por isso, precisamos estar atentos às atuais discussões do novo Código Penal e da Lei de Execução Penal, nesses tempos tão conservadores”, acrescentou Andréia Torres.

Apesar de estarmos habituados às notícias a respeito da eterna “guerra” entre crime, em São Paulo simbolizado pelo PCC, e polícia, como se viu nosangrento bimestre junho/julho de 2012, nem sempre se reportam as mazelas das prisões, menos ainda em relação aos parentes visitantes. Alguns relatos soam inverossímeis, tamanho barbarismo empregado.

“Vemos essa história de cada preso custar 1500 reais por mês ao Estado. Onde está esse dinheiro? Pois o que sabemos é que servem comida podre, até com caramujo, nas refeições dos presos. Já vi parente meu falar que tinha vidro na comida”, denunciou Andrea MF, em referência ao distrito penal da Baixada Santista, onde a relação crime-estado tem resultado em dezenas de mortes nos últimos anos, denunciadas até internacionalmente. “Ninguém sabe como é usado o orçamento dessa área, do sistema prisional”, emendou Torres.

“Tenho cunhado, irmão e primo presos. E para ter comida boa, só se for da família mesmo, pois, como disse a colega, eles dão comida estragada, com qualquer coisa misturada. Eu e minha nora passamos pela mesma humilhação nas revistas, sendo que, em uma dessas revistas, ela perdeu um bebê de quatro meses”, contou Rose, outra parente de prisioneiro presente ao ato, presenciado por algumas caravanas de parentes de detentos da Zona Norte da capital, Baixada Santista, entre outros locais do estado.

“Tenho 40 anos de Brasil e sempre me perguntei o que aconteceu neste país para que o respeito à dignidade humana ficasse abaixo da sola do sapato. E hoje vejo cada vez mais juventude presa. Precisamos multiplicar encontros como o de hoje e informar mais a sociedade sobre essas realidades”, espantou-se irmã Alberta, da Pastoral Carcerária.

No final do encontro, que ressaltou a necessidade de mais mobilização social pela defesa dos direitos dos presos e divulgação de sua destruidora estadia no sistema prisional, vários parentes aproveitaram o momento para divulgar semelhantes casos de abusos de direitos humanos, tanto de presos como de seus visitantes.

Não é simples se deparar diretamente com histórias tão repletas de sofrimento em carne viva, ainda por cima propiciadas pelo ente que deveria garantir dignidade e bem estar a todos. E é relativamente fácil nos apoiarmos em contextos paralelos de prosperidade para esvaziar a consciência de amarguras referentes a uma minoria de “degenerados”. “Tem gente que acha que a prisão ressocializa. Há quem chame o preso de ‘reeduncando’. É muita hipocrisia”, lamenta o promotor Haroldo Caetano.

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO EM QUARTA, 29 DE AGOSTO DE 2012

Belo Monte: Supremo acata argumento econômico e libera obras

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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ayres Britto (acima) autorizou a retomada das obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
 
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Britto, autorizou o consórcio Norte Energia a retomar as obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, suspensa há duas semanas por descumprir a Constituição. Esta obriga o Congresso a ouvir a opinião dos índios antes de autorizar uma obra em suas terras. Britto atendeu a um pedido de liminar da Advocacia-Geral da União. Na rodada anterior da disputa judicial, as obras foram paralisadas por decisão tomada em 14 de agosto pela 5ª turma do 1º Tribunal Regional Federal de Brasília.

Na ocasião, ficou decidido que o Ibama estava impedido de dar qualquer tipo de licença ao empreendimento. "São incalculáveis as consequências dessa proibição de realização de qualquer ato de licenciamento da usina hidrelétrica de Belo Monte por parte do Ibama no cronograma governamental de planejamento estratégico do setor elétrico do país", afirmou a Advocacia-Geral da União na sua defesa da retomada. E continuou enfatizando o prejuízo à política energética do país: “Para que se evite a ocorrência de dano vultoso e irreparável ao patrimônio público, à ordem administrativa, à ordem econômica, e à política energética brasileira, a União desde logo requer [...] seja liminarmente suspensa a eficácia do acórdão proferido”, diz o texto.

O ministro Ayres Britto concordou, ao menos provisoriamente, com o pedido da Advocacia-Geral da União. O mérito do acordão da 5ª Turma do TRF1 ainda será julgado, a posterior, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal. Como estamos em pleno julgamento do mensalão, uma nova decisão sobre Belo Monte terá que esperar.

Esse era o temor expresso no parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR), que enviou um relatórioao Supremo Tribunal Federal na tarde de ontem (27/08), pedindo a manutenção da decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, de paralisar a obra. “A concessão da medida liminar postulada condenaria os povos indígenas alcançados pela UHE Belo Monte a um fato consumado. Ainda há tempo para que o Congresso Nacional promova a oitiva dessas comunidades e delibere adequadamente. Mas, à medida em que o empreendimento avança, mais remota fica essa possibilidade”, diz o parecer da PGR.

Segundo nota divulgada pelo Consórcio Norte Energia, as obras da hidrelétrica já foram retomadas pela manhã. 

Funai prepara retirada de ocupantes de terra indígena no MT


A Fundação Nacional do Índio (Funai) está aguardando a Justiça fazer a notificação aos ocupantes ilegais da Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé, pertencente aos índios xavantes, para iniciar a desocupação da área de 165 mil hectares, localizada no norte do Mato Grosso (nos municípios de São Félix do Araguaia e Alto Boa Vista). O plano para a retirada pacífica dos ocupantes foi apresentado à Justiça.
Advogados dos fazendeiros dizem que 7 mil pessoas ocupam o território, número não confirmado pela Funai. A data exata do início da operação (prevista para setembro) ainda não está definida e, por razões estratégicas, não será divulgada. A desocupação mobilizará a Força Nacional de Segurança, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal. O Exército poderá ser acionado para dar apoio logístico.
Além do aparato policial e militar, o trabalho requer o cruzamento de dados sobre as ocupações irregulares. Algumas informações, como o dado de desmatamento, têm como origem o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama); outras, como a situação fundiária, são fornecidas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Segundo dados do Censo 2010, divulgados no início do mês, mais de 30 mil pessoas declaradas não índias habitam 505 terras indígenas que foram reconhecidas pelo governo até 31 de dezembro de 2010. A TI Marãiwatsédé foi homologada em 1998 por decreto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e está registrada na Secretaria do Patrimônio da União.
De acordo com a Funai, o plano apresentado à Justiça prevê todas as ações para a retirada pacífica dos ocupantes. "Esta tudo pronto para iniciar a retirada desses ocupantes em atendimento à decisão inicial", disse à Agência Brasil, o diretor de Proteção Territorial da Funai, Aluízio Azanha.
Apesar de já dispor de alguns dados, a Funai ainda não tem informação fechada sobre o número de ocupantes irregulares, aguardando levantamento que está sendo feito pelo Incra. Segundo os advogados dos fazendeiros que tentaram ações para suspender a demarcação e a desocupação da TI, entre as 7 mil pessoas que moram na área estão 800 alunos do ensino fundamental. Alegam também que a TI demarcada não corresponde ao território original dos xavantes.
Em ação apresentada ao Tribunal Regional Federal (TRF), os advogados "desafiam" a Funai a explicar "qual o motivo lógico e plausível para que as antigas aldeias e antigos cemitérios xavantes não se encontrem dentro dos limites da área demarcada" e "qual o motivo do Rio Xavantinho, que tem este nome evidentemente por causa dos xavantes, não margear a área demarcada".
Em resposta, o diretor de Proteção Territorial da Funai admite que "eventualmente, se deixou parcelas de áreas tradicionais, mas isso não atesta que a área demarcada não é de ocupação tradicional". Ele lembra que "nenhuma demarcação de terra indígena, com raras exceções, corresponde à totalidade do território tradicional"; e pondera: "se partirmos dos pressupostos desses argumentos, deveremos demarcar o Brasil todo".
Para o prefeito de São Félix do Araguaia, Filemon Gomes Limoeiro, o processo de desocupação poderá resultar em conflitos, como o ocorrido durante a retirada de produtores rurais da Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, em 2009.
De acordo com imagens de satélite usado pelo Ibama (Sistema Prodes), o desmatamento da área aumentou na última década (após a homologação). Segundo Aluízio Azanha, as TI em litígio são "as mais vulneráveis" e "mais desmatadas". Em compensação, as TI onde concluíram o processo de regularização fundiária são as mais protegidas do ponto de vista ambiental - "porque tem a posse dos indígenas", ressaltou.
A recuperação ambiental será objetivo do plano de gestão dos territórios, que ainda não foi elaborado. A Funai espera a desocupação - que chama de desintrusão - para iniciar as discussões com os próprios xavantes. O plano também vai tratar da reocupação de aldeias, da vigilância do território e atividades econômicas na área, que já foi o maior latifúndio do Brasil, iniciado com a expulsão dos xavantes em 1966.
Ele ainda garante que os agricultores familiares que estejam na TI serão reassentados. "Isso é uma obrigação do Estado". Com a mesma contundência, o diretor nega que os grandes fazendeiros terão direito à indenização. "Lucraram em cima da terra da União, nunca pagaram imposto territorial, nunca pediram licença ambiental, nunca pagaram multas de infração ambiental. Eles não têm título, lucram em cima de uma área da união e ainda querem ser indenizados?".
Agência Brasil