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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Incêndio na Favela do Piolho: ‘os policiais impediram os bombeiros de apagar o fogo’

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http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10043:submanchete120914&catid=72:imagens-rolantes

 Incêndio na Favela do Piolho: ‘os policiais impediram os bombeiros de apagar o fogo’


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ESCRITO POR GABRIEL BRITO E PAULO SILVA JUNIOR, DA REDAÇÃO   
SEXTA, 12 DE SETEMBRO DE 2014


“Dessa vez, antes de o incêndio (em 07/09) começar já tinha policiais na favela. Quando começou o fogo e os bombeiros chegaram, os próprios policiais os impediram de entrar e apagar. Depois, espalharam boatos de que os moradores receberam os bombeiros com pedras e não os deixaram passar. É pura mentira, pode perguntar pra qualquer um aqui como esse fato não é real, não aconteceu”. Foi com essa dura denúncia que começou a entrevista do Correio com uma moradora da favela do Piolho.

No que talvez reforce sua tese a respeito da “má vontade” estatal, a moradora da área, cujo nome tivemos a obrigação de preservar, lembra de uma grosseira visita da prefeitura dias antes do fogo e, claro, dos projetos imobiliários em andamento, numa das regiões da cidade que mais se verticaliza, localizada exatamente onde se pretende construir o Monotrilho – linha 17 do metrô.

Dessa forma, mostrou descrença durante toda a conversa, tanto em relação aos políticos e governos como também ao próprio futuro dos moradores da comunidade.
“Eu não sei o que eles querem. Até agora não veio nenhum governador, deputado, nada. O negócio tá muito estranho. No incêndio anterior, que também foi em época de eleição, choveu deputado, político não sei de onde... Acho que nem a política está interessada em nós. Vejo que estão deixando os moradores de favela jogados”, lamentou.

A entrevista completa com a moradora que já vivenciou três incêndios na Favela do Piolho foi produzida nos estúdios da webrádio Central 3 e pode ser lida abaixo.

Correio da Cidadania: O que você pode contar do incêndio do dia 7? Você acha que tem relação com o incêndio de 2012?

Moradora: O incêndio deste ano foi muito diferente do outro, pois este apresentou mais suspeita sobre ter sido criminoso, alguns moradores já falavam de uma possível substância química. E havia uma substância, realmente. Foi criminoso. O do ano retrasado foi diferente, queimou só um pouco da favela porque os bombeiros conseguiram conter o fogo.

Dessa vez, antes de o incêndio começar já tinha policiais na favela. Quando começou o fogo e os bombeiros chegaram, os próprios policiais os impediram de entrar e apagar. Depois, espalharam boatos de que os moradores receberam os bombeiros com pedras e não os deixaram passar. É pura mentira, pode perguntar pra qualquer um aqui como esse fato não é real, não aconteceu.

Os policiais que impediram os bombeiros de apagar o fogo. Se tivessem permitido, não teríamos todo o tumulto, os bombeiros teriam apagado e evitado que o fogo se espalhasse pela favela toda.

Correio da Cidadania: Além do que você fala sobre as atitudes da polícia, aconteceram fatos suspeitos nos dias anteriores ao fogo?

Moradora: Sim, já havia algo estranho antes. O incêndio foi no domingo. Na segunda anterior, seis dias antes, uma representante da subprefeitura foi na comunidade e falou sobre um projeto de descer uma rua, bem no meio da favela. E disseram aos moradores que, gostando ou não, a rua iria passar ali. Junta uma peça na outra e vai formando o quebra-cabeça. Depois da visita da prefeitura, dizendo que de um jeito ou de outro a rua passaria ali, é bom a gente pensar no fato.

Correio da Cidadania: Apareceu alguém falando em nome do terreno?

Moradora: Não. Sabemos que o terreno é particular, mas ninguém veio reivindicar sua posse. Só se fizeram isso antes, mas, nos dias que antecederam o fogo, não apareceu ninguém nesse sentido.

Correio da Cidadania: Quais são os interesses em torno da área do Piolho e como o projeto do monotrilho, que passaria exatamente na região da comunidade, em sua visão, pode estar relacionado a tudo isso?

Moradora: A tentativa de tirar a comunidade da beira da Avenida Roberto Marinho vem de anos. Já estive em três incêndios aqui. O primeiro foi parecido com o último, também constatado como criminoso. Na época tiveram mais cautela, deixaram os bombeiros entrar e não teve todo o problema deste último.

Mas a tentativa de tirar a comunidade por causa do monotrilho, e porque querem construir novos prédios e praças, os faz esquecerem a favela. A prefeitura veio aqui e falou: “não temos projetos pra vocês”. Como eles têm projeto de passar uma rua bem no meio da favela e não têm projeto e moradia pra quem mora nela? Vão nos jogar em albergue?

Correio da Cidadania: Como os moradores do Piolho veem as políticas e relação da prefeitura e do governo estadual com a comunidade?

Moradora: Esse negócio de promessa, fazer isso ou aquilo, é pura enganação, roubada. Desde o primeiro incêndio, estamos tentando urbanizar a favela, colocar luz (que os moradores consigam pagar), água encanada... Moramos aqui, mas nunca nada disso foi feito corretamente. E depois eles vêm dizer que querem ajudar os pobres. Uma mentira, não ajudam ninguém e só fazem média. Tiraram uma outra favela aqui do lado, mas não foi a prefeitura, e sim o pessoal do metrô, pois uma nova estação passaria por ali. Tiraram e indenizaram as famílias.

Como o terreno da nossa comunidade é particular, mas foi perdido pelo dono por não pagar imposto, a prefeitura quer tomá-lo. Se formos lutar pelo usucapião, ganhamos, porque já estamos aqui há 20 anos. Ganharíamos o usucapião. Na quarta, a prefeitura tentou nos tirar daqui, porque já tem gente voltando e construindo de novo a moradia. Estão tentando tirar o pessoal daqui e levar a outro terreno.

Por que não urbanizam e fazem uma coisa legal aqui, já que o foco deles é ajudar as pessoas que necessitam, que não têm nada melhor? Por isso, acho uma roubada, não acredito nas promessas de urbanizarem favelas. Pode até acontecer, mas é muito raro e só pra sair na mídia.

Correio da Cidadania: O que esperam das eleições presidenciais e estaduais? Alguma das candidaturas espelha, em alguma medida, os interesses da comunidade?

Moradora: Eu não sei o que eles querem. Até agora não veio nenhum governador, deputado, nada. O negócio tá muito estranho. No incêndio anterior, que também foi em época de eleição, choveu deputado, político não sei de onde... Dessa vez, só veio o Suplicy.

Mas acho que nem a política está interessada em nós. Vejo que estão deixando os moradores de favela jogados. Precisam entender que favelado não é cachorro. Se mora nessa situação, não é porque quer. É gente que tem filhos, não tem condição de pagar aluguel, que hoje em dia é supercaro...

Portanto, não acredito em político que nos promete melhorias, urbanização. Não querem nada disso. Querem entrar no poder e se aproveitar do povo, ou roubar mais. Essa é a real. Porque ajudar gente pobre e carente não é intenção, pode ter certeza. Se fosse, viriam aqui conversar numa boa e falar: “olha, precisamos fazer isso, aquilo etc.”.

Estamos recebendo ajuda de pessoas, material de construção, blocos, mas como vamos construir num lugar em que não se decide nada e não nos deixam entrar ou sair? Aí fica naquela de não conversar conosco, não trazer propostas... Não dá para sobreviver no meio disso. Como fica a cabeça das pessoas? Por isso constroem tudo de madeira. Não dão apoio para a população que mora aqui. Não estou aqui porque quero ser favelada – o que também não tem problema nenhum.

De toda forma, eles pensam que somos cachorros, estamos aqui por vontade nossa. Quem ajuda são famílias, que doam materiais e cesta básica. O governo nunca veio ajudar de verdade. Eleição virou uma roubada, não cumprem nada.

Correio da Cidadania: O que você imagina como destino das famílias que moram no Piolho?

Moradora: Sobre as famílias que perderam casa, algumas já estão voltando ao terreno, pois a prefeitura veio aqui e prometeu vale-aluguel. Mas em 2012 também prometeram o mesmo vale-aluguel e no terceiro mês já não tinha nada. Assim, a população não acredita mais no vale, por mais que venham aqui reforçar promessa.

Acho que vai acabar acontecendo igual nas outras vezes: todo mundo construindo no terreno de novo e tudo pegando fogo de novo, porque a prefeitura não vem tomar uma atitude, não encana água, não arruma a energia, não faz nada direito. Vai acontecer de todo mundo ficar novamente no mesmo lugar e as coisas se repetirem.

Essa é minha opinião do futuro. Parece que ficam com medo de nós. Não chegam em nós pra conversar, com todo mundo. Juntam grupinhos, fazem reunião com 10 pessoas e ‘já era’, pra eles a reunião foi feita. Mas na verdade tem que chamar e conversar com todo mundo, pois não são só 10 pessoas sem casa. São 4000 famílias que perderam a casa. Acho que vai ser isso: vamos invadir e construir de novo e ficar esperando pela vontade dos governos.


Leia também:
‘Dados oficiais mostram que poder público mente sobre moradia em MG’ – entrevista com Leonardo Péricles, da ocupação do Isidoro, em Belo Horizonte
‘É preciso se mobilizar contra o fascismo e a direitização das instituições’ – entrevista com Benedito Barbosa, advogado do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos

Gabriel Brito e Paulo Silva Junior são jornalistas.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Nas favelas do Rio, "Pobre Bom é Pobre Morto!"

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http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=9514



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ESCRITO POR LEONARDO SOARES DOS SANTOS   
SEXTA, 11 DE ABRIL DE 2014



Tentem imaginar a cena.

Num certo país ao norte da América do Sul, um dos governos mais autoritários, totalitários, comunistas e chavistas do mundo (sim, a imprensa, na hora de elaborar conceitos, só perde para a filósofa Valeska Popozuda), manda enviar tropas federais para conter uma onda de protestos sangrentos, violentos e de contornos fascistas por parte do segmento mais conservador da sociedade, a classe média e a elite econômica – bastante insatisfeitas com a aproximação das classes “mais baixas” na estrutura social, como decorrência das políticas sociais implementadas ainda ao tempo de Chávez, e que de fato foram uma das mais bem sucedidas do mundo, mas, claro, vistas como a manifestação de um satânico projeto de implantação do comunismo bolivariano.

Tais segmentos fascistas querem fazer a roda do tempo girar para trás de novo. Ver o populacho regredir, parar de falar de política e de fazê-la acontecer em favor de seus interesses. Que o povinho preto, pobre, favelado e mulambento volte a ser submisso; que volte a ter consciência do seu lugar (bem subalterno) e se comporte como tal.

Para impedir que a vaga fascista de extrema-direita viceje, o governo de Maduro fez cumprir as prerrogativas que a Carta Constitucional lhe confere. Botou as tropas nas ruas para conter o terrorismo dessa direita.

Mas mal as tropas pisaram o solo das cidades aterrorizadas pela sanha extremista da “oposição” fascista, o pasquim global do golpismo iniciou uma virulenta ofensiva midiática de contra-informação, proclamando para os quatro ventos que se tratava de mais uma demonstração de autoritarismo de um dos governos mais ditatoriais da história recente da América Latina.  (Seria cômico, se não fosse trágico, se isso não ocorresse ao mesmo tempo em que aqui se comemoram os 50 anos do Golpe Militar de 1964 – o qual contou com extremada simpatia e apoio do pasquim global.)

O envio de tropas é mais um claro indício do desprezo que o governo Maduro demonstra pelos “verdadeiros valores democráticos”, a sua recusa em aceitar conviver e respeitar quem lhe faz “oposição”, o seu ódio pela pluralidade de idéias e opiniões – mais uma vez, o cinismo aqui dá o tom, ainda mais vindo de um veículo comprometido com a defesa radical do monopólio das telecomunicações e do uso aberrante da máquina judiciária contra os seus concorrentes e opositores.

Bom, estando certo ou errado, essa é a opinião do pasquim e a forma que ele encontrou para enaltecer os símbolos dessa nossa conhecida de nome Democracia.

Mas muito pior do que estar errado, o pasquim se mostra um incurável órgão golpista esquizofrênico.

A mesma iniciativa que na Venezuela é vista como um golpe contra a cidadania e os valores democráticos, é tida e havida na mais nova ocupação militar das favelas do Rio como expressão do mais desbragado comprometimento com a ... cidadania e os valores democráticos.

As forças armadas ocupam novamente algumas das favelas cariocas, com armas em punho, com escopetas apontadas indiscriminadamente para as cabeças dos seus moradores. Mais uma vez se consagra a idéia de que os moradores pretos e favelados devem ser alvos ou de políticas públicas pobres (e de quinta categoria, posto que voltada para cidadãos de segunda classe) ou de repressão armada direta. Pois só assim para esse povinho se colocar no seu lugar. É essa a política que resolve a situação desse tipo de raça.

E escola? Cadê hospital, posto de saúde, coleta de lixo, esgoto, água potável, banco, correios, segurança, teatro, cinema, biblioteca? Cadê a cidadania? Cadê a Justiça? Cadê a Liberdade? Cadê o Estado de Direito? Cadê os direitos? Cadê Amarildo?

Mas vocês só podem estar brincando? – assim indagaria o pasquim da Família (da Zona Sul) Com Deus.

É muito estranho, para um jornal com esse tipo de mentalidade, que algumas  categorias sociais (e raciais) possam ter a audácia de querer algo mais do que um prato de comida e uma cama para descansar o esqueleto.

Política pública e social não é para qualquer um. Política para pobre, a verdadeira, a mais eficaz, é aquela que se baseia no poder do fuzil e no peso de tanques e “caveirões”. E nada mais. Se na pátria de Maduro tal iniciativa é abominada, aqui, ela é prontamente festejada pelo pasquim e seus companheiros de quadrilha midiática.

As ações militares que subjugam e impõem medo aos cidadãos são apresentadas como a reação necessária das forças de segurança contra os “inimigos” da paz, da cidade e dos cidadãos decentes.

Mas se olharmos com mais atenção, vamos perceber que, longe de incoerente, o pasquim faz uso de um argumento de uma lógica impecável, de uma coerência cartesiana: a democracia no mundo é perfeita, o que estraga é a droga do pobre! Tanto aqui como na Venezuela.


Leonardo Soares dos Santos é professor de História da UFF.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Mapa colaborativo denuncia violência contra moradores da Favela do Moinho

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/gentrificacao/mapa-colaborativo-denuncia-violencia-cometida-contra-moradores-da-favela-do-moinho/?utm_source=emailcampaign767&utm_medium=phpList&utm_content=HTMLemail&utm_campaign=Escravid%C3%A3o+urbana+passa+a+rural


Mapa colaborativo denuncia violência contra moradores da Favela do Moinho

Imagem geral do mapa colaborativo. Cada ícone "fixado" sobre a região da favela traz uma denúncia
Imagem geral do mapa colaborativo. Cada ícone “fixado” sobre a região da favela traz uma denúncia
Arquitetura da Gentrificação (AG) lança nesta segunda-feira, 3 de fevereiro, um mapa online colaborativo cujo objetivo é reunir, arquivar e disseminar denúncias de violações dos direitos humanos cometidas por gestores e agentes públicos contra os moradores da Favela do Moinho, localizada no centro da capital paulista.
A ideia do mapa surgiu como demanda percebida no âmbito da própria comunidade ao longo dos três meses que a reportagem do AG visitou a favela e conversou com lideranças para a produção de um dossiê sobre o Moinho. Há tempos os moradores e moradoras da favela já registram em fotos, vídeos, áudios e textos a violência que sofrem diariamente, desde a histórica falta de saneamento básico até os “enquadros” ilegais e truculentos realizados tanto pela Polícia Militar quanto pela Guarda Civil Metropolitana. O mapa, portanto, nada mais é do que um possível “centralizador e disseminador” dessas informações produzidas pela comunidade.
Além da demanda dos moradores, também justifica a criação do mapa a constatação de que a violência contra populações vulneráveis – especialmente a violência institucional – se alimenta e se perpetua com a falta de memória histórica e análise crítica dos fatos recentes, que esvazia os porquês da resistência e da luta coletiva. Ao fomentar o registro das violações e sua preservação em um arquivo único, público e de fácil acesso, amplia-se a força da população e seu controle sobre os gestores; ao mesmo tempo, neutraliza-se a tentativa dos violadores de apagar, por meio de agendas difusas, factoides plantados e mesmo incêndios suspeitos de arquivos e pessoas, os crimes cometidos.
Exemplo de postagem com foto e texto.
Exemplo de postagem com foto e texto. Para conhecer cada denúncia, basta clicar nos ícones
AutonomiaPara criar uma nova denúncia, basta que o morador acesse o painel de controle do mapa, com login e senha, e descreva com suas próprias palavras o ocorrido. Também no mapa é possível incluir fotos e links para vídeos hospedados em outras páginas, como o YouTube. A não inclusão de vídeos dentro do próprio mapa foi uma escolha técnica para evitar a sobrecarga do site e a navegação lenta.
As denúncias podem ser cadastradas em três categorias gerais, cada qual com um ícone que a identifica: “violação do direito à moradia”, “falta de saneamento básico” e “fogo no Moinho” – esta última categoria criada em função do alto índice de incêndios na favela, muitos dos quais classificados como criminosos por quem vive na comunidade. Uma quarta categoria, “história do Moinho”, foi criada para que os moradores registrem fatos históricos da favela – não necessariamente denúncias – que ajudam a manter viva a memória comunitária e o próprio trajeto de lutas e conquistas dos homens, mulheres e crianças que vivem ali.
Cada nova denúncia ou história vem acompanhada de um ícone que pode ser posicionado no local exato ou aproximado onde ocorreu. O fato de o mapa ser uma imagem aérea da Favela do Moinho facilita a identificação detalhada de casas, descampados, vielas e ruas próximas à comunidade.
Evolução a partir da versão betaO mapa não está em sua versão final. Outras categorias, funcionalidades e aperfeiçoamentos podem ser agregados ao longo do tempo. Essa evolução a partir da versão beta ficará a cargo da Associação da Comunidade do Moinho, que é, a partir de agora, a única responsável pela ferramenta, desde sua manutenção técnica, atualização de posts e conteúdo publicado até o pagamento anual pelo uso do domínio moinhovivo.org.br ao RegistroBR, entidade que centraliza os registros de domínios de internet no país. O papel do AG foi apenas de formulação e criação técnica do mapa e a produção dos cinco primeiros posts a título de testes de linguagem, recursos e funcionalidade do mapa.
Dados técnicosA ferramenta foi desenvolvida por Eden Cardim, diretor técnico do site Urby. Como explica o desenvolvedor, o mapa da Favela do Moinho “foi feito com tempo livre e não há nenhuma associação formal com a empresa [em que trabalha]“. A plataforma utilizada nessa ferramenta é a WordPress com o plugin MapsMaker. A hospedagem é na Amazon Web Services.
Postado sob Resistência em 03 de fevereiro de 2014
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SP: a notável re-existência da Favela do Moinho

OP
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/a-notavel-re-existencia-da-favela-do-moinho/


SP: a notável re-existência da Favela do Moinho

A piscina é montada diariamente pelos moradores durante o verão.
A piscina é montada diariamente pelos moradores durante o verão.
Piscina, campo de futebol, “Vermelhão”, “Casa Pública”. Como moradores organizam-se para tornar mais humana vida em comunidade cobiçada por especuladores e destruída por incêndios criminosos
Por Pedro Ribeiro Nogueira, no Aprendiz
Ao atravessar o Elevado Costa e Silva, a Avenida Angélica, artéria principal de Higienópolis, vira Alameda Eduardo Prado e troca de mão. Seguindo o curso contrariado da via, chega-se até um trilho de trem da Companhia de Transportes Metropolitanos de São Paulo, que passa embaixo de um viaduto.
Após apitos, depois do trem, a cancela se abre. Atravessando trilhos que te convidam ao tropeço, é aberto o sinuoso caminho da favela do Moinho, a última favela do centro de São Paulo. Com 25 anos de existência, ela abriga atualmente cerca de 500 famílias – onde já estiveram 1.200. Em 2011 e 2012, dois incêndios destruíram centenas de casas e mataram um número até hoje contestado de pessoas: a imprensa noticiou dois, os moradores dizem que foram até 30. Apesar da falta de laudos oficiais, esses incêndios são apontados pelos moradores como criminosos, e deixaram um recado claro: em São Paulo, quem teima queima.
Caminhando, sempre à esquerda, encontra-se um terreno rebaixado, de piso de azulejos vermelhos, ladeado por muros e desníveis. Nele, crianças e jovens de férias se jogam numa piscina inflável e se refrescam da estufada tarde paulistana de janeiro.
Observada por prédios altos e pelas velhas construções industrias, lá está o embrião do Parque Vermelhão, uma área cimentada de cerca de 100 m² que, mesmo não finalizada, serve como uma fonte de lazer adaptadas da comunidade. O Parque fica ao lado da Casa Pública, uma casa de madeira que abriga reuniões, atividades e Caio Castor, 30, morador da favela há dois anos e membro do Coletivo Comboio, um projeto de pesquisa e intervenção urbana em comunidades, que atua no espaço do Moinho.
O local escolhido para a construção do Vermelhão e da Casa Pública foi um dos lugares incinerados pelo fogo. Seus azulejos contam história: era o chão de fábrica do Moinho Matarazzo, que lá funcionava. Virou uma área de brincar das crianças, um espaço vazio. Adjacente às queimadas, serviu de depósito de entulho. Hoje desentulhado, volta a ser um espaço ocupado pelos moradores, que trabalham comunitariamente na sua construção. Quando a reportagem do Portal Aprendiz chegou lá, estavam sendo assentados velhos tijolos do Moinho, na rampa que dá acesso ao pátio, sobrepondo histórias e histórias.
Memórias do fogo
Não há no Moinho quem não tenha o gosto de fumaça no céu da boca. Quando a moradia de madeira é o combustível e o reagente são anos de descaso do poder público somados a uma das áreas que mais se valoriza na cidade – e que está em disputa judicial (entre os moradores por usucapião, a prefeitura e uma incorporada) -, as memórias da chama habitam as preocupações cotidianas dos que se foram de vez, dos que aguardam a vez e dos que permanecem. “É um trauma coletivo”, relata Caio Castor, “eles sempre sonham com isso”.
O movimento conseguiu, desde os últimos incêndios, avançar em medidas de prevenção. Alguns moradores fizeram cursos de bombeiro civil e há poucos meses um incêndio foi controlado nos primeiros minutos. Além disso, em agosto do ano passado, um muro construído pela gestão de Gilberto Kassab (PSD), que dividia a favela em dois e impedia, segundo laudos técnicos, a entrada de caminhões de bombeiros e estabelecimento de rotas de fuga, foi derrubado  – literalmente – por moradores em ato.
Mas ainda falta muito. Uma das principais brigas dos moradores da região é a regularização da rede elétrica e de saneamento básico, construídas artesanalmente pela necessidade. Promessa de campanha de Fernando Haddad, lugar de visitação na época da eleição, o Moinho aguarda, mas o faz se refazendo.
“Uma coisa é você passar um trator onde tem um monte de barraco velho. Outra coisa é passar onde tem gente, tem planta, tem tijolo, tem construção, tem trabalho, tá cuidado”, afirma Castor, que aposta na organização comunitária em torno do espaço e na criação de um projeto popular de urbanismo como um centro aglutinador na região.
“É a questão do fazer, de colocar o corpo em ação, jovens, crianças, adultos. As pessoas daqui sabem mais que um arquiteto. E quanto mais a galera trabalha junto, mais vão se unindo em torno da mesma causa, pensando no espaço. Passa pela construção de espaços coletivos, de reforçar esse sentido”, analisa Castor, interrompido por uma vizinha que trouxe uma trouxinha com o jantar. “É pra gente?”, pergunta. “Para os dois”, responde. “Deus lhe pague em dobro”, conclui.
Flávia Lobo, sua parceira na Comboio,  lembra que após um dia destinado ao plantio, diversos moradores começaram a buscar mudas para suas casas. A intervenção, singela, despertou novos espaços de sociabilidade, em portas de casas. “É impressionante como é forte, contagiante”, declara Flávia, que agora trabalha na construção de um dragão de concreto armado que servirá como brinquedo para as crianças no Vermelhão. Uma criatura mítica que solta fogo pelas ventas, num Moinho tantas vezes destruído por chamas, não deixa de passar uma imagem de transformação de sentidos.
Vermelhão
André Moreira, 15, é um dos mais empenhados na construção do parque, apesar de ser mais velho que as crianças que lá estão brincando. “Eu queria fazer alguma coisa, deixar o lugar mais bonito, para poder assistir uns filmes na telona, se divertir. É importante estarmos juntos, para ajudar o próximo. E isso aqui tá ficando até com cara de parque”, afirma, encabulado.
Enquanto vai tomando forma, o Vermelhão mostra suas potencialidades. O paredão ao fundo já foi pintado de branco e servirá de tela para projeções de filmes. Os declives do terreno são aproveitados como futuras arquibancadas. O espaço também poderá servir como teatro de arena, playground e lugar para assembleias e reunião. A Casa Pública, ao lado, tem funcionado como sede para reuniões, uma vez que a Associação de Moradores do Moinho nunca contou com sede própria.
No entanto, todo este esforço não vem do investimento de uma ONG ou de um orgão público. Após algumas experiências com movimentos de moradia, Caio resolveu morar no Moinho. Hoje com 30 anos, ele havia abandonado sua carreira na fotografia para tentar encontrar alguma coisa que fizesse sentido para si e para o mundo.
Passou meses apenas vivendo ali, conversando com as pessoas, jogando bola, buscando brechas e observando as incursões intimidadoras das polícias. Desconfia bastante do conceito de “mutirão” e de “ajuda” e sabe quem é e de onde vem: “A gente é branco demais, sabe?”, observa enquanto olha o Vermelhão. “Aqui não tem projeto express,  tudo aconteceu fazendo errado, tentando o certo. Levou muito tempo para conhecer. Eu sei que tenho o que ensinar, mas tenho muito mais o que aprender”, conta.
Sem financiamento e com independência, a construção do parque depende muitas vezes de doações de materiais, ferramentas e dinheiro. “Com 600 reais a gente faz um monte de coisa”, afirma Caio, enquanto recebe uma caixa de pregos. Quem quiser ajudar pode fazer contatos pelo e-mail projetocomboio@gmail, pelos telefones (11) 97229-1503 (Caio Castor) e (11) 99740-5409 e aproveitar para conhecer o trabalho, os moinhos, os quixotes, os pixotes, os dragões e todos aqueles e aquelas que enfrentam a última tempestade no centro do furacão.

domingo, 14 de outubro de 2012

Mestre Derli: a Cidade de Deus ontem e hoje

ibase
http://www.canalibase.org.br/mestre-derli-a-cidade-de-deus-ontem-e-hoje/


Mestre Derli: a Cidade de Deus ontem e hoje

Marília Gonçalves
do Canal Ibase
Quando Derli foi morar na Cidade de Deus, a comunidade ainda não era tão grande. As casas, construídas pelo governo do Estado da Guanabara, não eram separadas por muros e eram bem pequenas, tinham apenas quarto e sala. Era 1966, um ano depois da grande enchente que aconteceu na cidade e fez o governo remover uma parte da população afetada – além de moradores de outras favelas do Rio, como a Rocinha – para a Cidade de Deus, que havia sido inicialmente planejada como um conjunto de habitação popular. Hoje, a favela tem 36,5 mil habitantes, segundo o Censo de 2010 realizado pelo IBGE. Moradores, no entanto, afirmam que o número é bem maior.
A percepção de Derli da Silva Costa, ou Mestre Derli, como é conhecido, é de que a comunidade melhorou muito nessas últimas quatro décadas, em termos de urbanização e serviços públicos oferecidos. Derli é conhecido dentro e fora da CDD por ser capoeirista e ter importante trabalho na formação de crianças, jovens e adultos para a manutenção desta cultura. Atualmente, ele dá aula em uma escola municipal dentro da comunidade, na Casa de Cultura da Cidade de Deus, além de uma academia particular dentro da favela e uma instituição filantrópica em Jacarepaguá.
Agora com 56 anos, Derli é casado e tem duas filhas. Vive tranquilo no Karatê, uma das regiões da Cidade de Deus. Já se apresentou para Barack Obama, quando o presidente dos Estados Unidos visitou a comunidade, ganhou prêmios internacionais e virou até personagem de livro: um pouquinho de sua história é contada por Valéria Barbosa no livro “Os grandes Mestres Guardiões da Cidade de Deus”. Mas sua infância não foi tão tranquila: Derli foi menino de rua dos sete aos nove anos de idade. Conta que, com oito anos, enquanto dormia, três pessoas lhe atearam fogo. Foi socorrido e acolhido por outros três que lhe apresentaram a arte da capoeira, aperfeiçoada ao longo dos anos com outros mestres. Morava nas ruas de Ipanema, onde participava de rodas de capoeira e era, vez ou outra, alimentado por artistas como Leila Diniz e Marieta Severo.
Ainda não está cem por cento: o que tem de melhorar na Cidade de Deus
Derli acredita que os serviços públicos prestados na comunidade ainda não estão “cem por cento”. A quantidade oferecida não dá conta de atender toda a população, logo, aumentar a oferta dos serviços que já existem, como a coleta de lixo, por exemplo, já seria um grande avanço. O poder público, que planejou a Cidade de Deus, parece não ter dado conta de seu crescimento. Apesar da comunidade ter diminuído 3,98% nos últimos dez anos, ainda segundo dados do Censo 2010, os serviços não atendem a todos.
Quanto à urbanização, Derli reclama das obras que estão acontecendo atualmente na CDD, realizadas pelo projeto Bairro Maravilha. “O cimento é fraco, quebra toda hora”, comenta. Ele diz que para os moradores da Beira do Rio, outra favela da CDD, a situação é pior. “É uma região em que passam muitos caminhões, carros de carga, então o asfalto não aguenta”. Essa área depende de uma manutenção mais cuidadosa. Apesar disso tudo, Derli diz estar satisfeito. “A Cidade de Deus está melhorando bastante. Antes não tinha nada aqui”, afirma.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O jornalismo dos pobres

observatório da imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_jornalismo_dos_pobres_1


FOGO NA FAVELA

O jornalismo dos pobres

Por Luciano Martins Costa em 11/09/2012 na edição 711
Comentário para o programa radiofônico do OI, 11/9/2012
   
Na Folha de S. Paulo saiu apenas uma fotografia, com uma legenda de duas linhas, e no Estado de S. Paulouma notícia curta num rodapé de página, nas edições de terça-feira (11/9). O fato é o 33º incêndio ocorrido em favelas da cidade de São Paulo apenas neste ano. Desta vez, a ocorrência foi em Paraisópolis, na Zona Sul, e novamente a imprensa faz apenas um registro burocrático do incidente.
Aliás, “incidente” é a palavra escolhida pelos jornalistas quando se referem a um acontecimento negativo de uma maneira distanciada.
Mas, como tratar dessa forma indiferente um fato tão crucial para tantas pessoas? Afinal, as vítimas são aquela parte da população que está excluída dos direitos mais básicos entre todos os cidadãos.
Para ficar apenas nas estatísticas, que compõem a abordagem predileta da imprensa quando se trata de “incidentes” que afetam a população mais pobre, convém registrar que, neste ano, São Paulo teve exatamente um incêndio por semana em favelas.
Será que a insensibilidade dos jornais em relação aos paulistanos que vivem em circunstâncias precárias chega a embotar até mesmo a natural curiosidade dos profissionais da imprensa? Se houvesse um incêndio por semana em praças ou parques nas zonas mais bem aquinhoadas com equipamentos urbanos, como estariam reagindo os jornais?
Alguma coincidência
No Estadão de terça-feira, as estatísticas registram que, em pouco mais de um ano, os incêndios em favelas já deixaram 1.386 pessoas desabrigadas. Esses são os números oficiais, baseados nos pedidos de bolsa-aluguel feitos pelos que perdem suas moradias, pagos até que as famílias sejam realocadas.
Diz o jornal que, em 2006, eram 5 mil os desalojados por incêndios, enchentes e outras ocorrências. Neste ano, a orefeitura está pagando 27.422 auxílios-moradia, ou seja, esse é o número mínimo de pessoas que perderam suas casas e ainda não foram reinstaladas em outras moradias.
Não é preciso muita imaginação para se chegar ao grau de transtornos e sofrimento que atingem esses brasileiros: além de serem obrigados a viver em alojamentos precários, sem perspectiva de um teto decente, muitos acabam deslocados para longe de seus trabalhos, para longe das escolas e creches de seus filhos – quando havia tais benefícios.
O registro burocrático dos incêndios em favelas é a manifestação mais escrachada da visão de mundo que predomina nas redações: os jornais são capazes de dedicar página inteira, em edição dominical, para falar de hospitais para cães, mas não demonstram nenhum interesse em saber por que há tantos incêndios em favelas.
Em alguns casos, um mínimo de curiosidade mandaria averiguar alguma coincidência entre certos eventos e projetos de avenidas que estão travados pela existência de barracos no trajeto. Em outros, seria o caso de investigar se os incêndios guardam alguma coincidência com processos judiciais por reintegração de posse de imóveis valorizados pela falta de espaços na cidade.
Sem perguntas
Desde o polêmico episódio da expulsão dos ocupantes do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), quando compraram a versão oficial, os jornais parecem ter abandonado o assunto das moradias precárias.
Mas a fumaça de barracos queimados não pode ser ignorada, mesmo porque os programas populares da televisão vasculham a cidade com seus helicópteros e têm registrado todos esses acontecimentos.
O que chama atenção é a insensibilidade dos jornais diante de tantas perguntas sem respostas – ou tantas respostas sem perguntas.
Mesmo que se admita que a vida dos favelados não tem o charme de uma nova butique para animais de estimação, é de se esperar que haja pelo menos alguma curiosidade nas redações quanto à frequência e regularidade dos acontecimentos.
Os incêndios são provocados pela seca? O trânsito complicado, tema de todas as semanas, impede a mobilização dos bombeiros? Nesse caso, diante de tanta regularidade nas ocorrências, não seria o caso de criar um sistema preventivo, com postos avançados nas áreas mais vulneráveis? Como funciona o sistema de defesa civil nessas regiões? O que acontece depois do incêndio? Os barracos são reconstruídos? O espaço é dominado e revendido por traficantes? Há vereadores envolvidos? O que acontece com os cidadãos que perdem documentos – inclusive o título de eleitor – nesses incêndios?
São muitas as perguntas que caberiam nessa pauta. Mas o silêncio da imprensa diz o suficiente.