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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Até os ventos contrários nos conduzirão ao porto seguro

   Até os ventos contrários nos conduzirão ao porto seguro                                  
                                                           Leonardo Boff

         O povo brasileiro se habituou a “enfrentar a vida” e a conseguir tudo “na luta e na amarra”, quer dizer, superando dificuldades e com muito trabalho. Por que não iria “enfrentar” também o derradeiro desafio de fazer as mudanças necessárias, no meio da atua crise, que nos coloquem no reto caminho da justiça para todos.
O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. O que herdamos foi a Empresa-Brasil com uma elite escravagista e uma massa de destituídos. Mas do seio desta massa, nasceram lideranças e movimentos sociais com consciência e organização. Seu sonho? Reinventar o Brasil. O processo começou a partir de baixo e não há mais como detê-lo nem pelos sucessivos golpes sofridos como o de 1964  civil-militar e o de 2016 parlamentar-juridico-mediático.
Apesar da pobreza, da marginalização e da perversa desigualdade social, os pobres sabiamente inventaram caminhos de sobrevivência. Para superar esta anti-realidade, o Estado e os políticos precisam escutar e valorizar o que o povo já sabe e inventou. Só então teremos superado a divisão elites-povo e seremos uma nação não mais cindida mas coesa.
O brasileiro tem um compromisso com a esperança. É a última que morre. Por isso, tem a certeza de que Deus escreve direito por linhas tortas. A esperança é o segredo de seu otimismo, que lhe permite relativizar os dramas, dançar seu carnaval, torcer por seu time de futebol e manter acesa a utopia de que a vida é bela e que amanhã pode ser melhor.  A esperança nos remete ao princípio-esperança de Ernst Bloch que é mais que uma virtude; é uma pulsão vital que sempre nos faz suscitar novos sonhos, utopias e projetos de um mundo melhor.
Existe, no momento atual, marcado por um quase naufrágio do pais, certo medo. O oposto ao medo, porém, não é a coragem. É a fé de que as coisas podem ser diferentes e que, organizados, podemos avançar. O Brasil mostrou que não é apenas bom no carnaval e na música. Mas  pode ser bom na agricultura, na arquitetura, nas artes e na sua inesgotável alegria de viver.
Uma das características da cultura brasileira é a jovialidade e o sentido de humor, que ajudam  aliviar as contradições  sociais. Essa alegria jovial nasce da convicção de que a vida vale mais do que qualquer outra coisa. Por isso deve ser celebrada com festa e diante do fracasso, manter o humor que o relativiza e o torna suportável. O efeito é a leveza  e a vivacidade que tantos admiram em nós.
Está havendo um casamento que nunca antes fora feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular. O saber popular é “um saber de experiências feito”, que  nasce do sofrimento e dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo,  bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem, teremos reinventado um outro Brasil. E seremos todos mais sábios.
O cuidado pertence à essência do humano e  de toda a vida. Sem o cuidado adoecemos  e morremos.. Com cuidado, tudo  é protegido e dura muito  mais. O desafio hoje é entender a  política como cuidado do Brasil, de sua gente, especialmente dos mais vulneráveis, como índios e negros, cudado  da natureza, da educação, da saúde, da justiça para todos. Esse cuidado é a prova de que amamos  o nosso pais e queremos todos incluídos.
Uma das marcas do povo brasileiro bem analisada pelo antropólogo Roberto da Matta, é sua capacidade de se relacionar com todo mundo, de somar, juntar, sincretizar e sintetizar. Por isso, em geral, ele não é intolerante nem dogmático. Ele gosta  de acolher bem os estrangeiros. Ora, esses valores são  fundamentais para uma globalização de rosto humano. Estamos mostrando que ela é possível e a estamos construindo. Infelizmente nos últimos anos surgiu, contra a nossa tradição, uma onda de ódio, discriminação, fanatismo, homofobia e desprezo pelos pobres (o lado sombrio da cordialidade, segundo Buarque de Holanda) que nos mostram que somos, como todos os humanos, sapiens e demens e agora mais demens.. Mas isso, seguramente, passará e predominará a convivência mais tolerante e apreciadora das diferenças.
O Brasil é a maior nação neolatina do mundo. Temos tudo para sermos  também a maior civilização dos trópicos, não imperial, mas solidária com todas as nações, porque incorporou em si representantes de 60 povos diferentes que para cá vieram. Nosso desafio é mostrar que o Brasil pode ser, de fato, uma pequena antecipação simbólica de que tudo é resgatável: a humanidade unida, una e diversa,  sentados à mesa numa fraterna comensalidade, desfrutando dos bons frutos de nossa boníssima,  grande, genersosa Mãe Terra , nossa Casa Comum.
É um sonho? Sim, aquele necessário e bom.
Leonardo Boff escreveu Brasil: concluir a refundação ou porolongar a dependência? Vozes 2018.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre maldade humana, “monstros” e cultura

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http://outraspalavras.net/destaques/sobre-maldade-humana-monstros-e-cultura/


Sobre maldade humana, “monstros” e cultura

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As atrocidades do ISIS ou as torturas de Guantánamo são praticadas por pessoas comuns, em torno dos quais se construíram muralhas de valores
Por Ladislau Dowbor
Um aluno um dia me perguntou o que eu achava do homem: naturalmente bom mas pervertido pela sociedade, na linha do “bom selvagem” de Rousseau, ou esta desgraça mesmo que vemos por aí, em estado natural? Na realidade, não acho nem uma coisa nem outra. Acho que temos todos imensos potenciais para o bem e para o mal, para o divino e a barbárie. Cabe a nós, que trabalhamos com o estudo da sociedade e em particular das instituições, pensar o que faz a balança pender mais para um lado ou para outro. Pois deixando de lado alguns traumas e deformações individuais, domínio dos psiquiatras, aqui nos interessa a misteriosa bestialidade coletiva de grandes grupos sociais.
Muitos dizem que a solução está na educação e na cultura. Tenho minhas dúvidas, pois sou de família polonesa, e vi refletido nas angústias dos meus pais o que tinham vivido frente ao nazismo. Ninguém irá pensar que os alemães eram um povo de baixo nível educacional ou cultural. E no entanto, com que entusiasmo vestiram as botas e as camisas negras ou marrons, com que elevado sentimento de dever cumprido matavam pessoas por serem diferentes, por um critério real ou imaginário. Cerca de 50% dos médicos alemães aderiram ao partido nazista. Isto é que é realmente preocupante. Estupidez é uma doença que pega.
Poder dar vazão ao que há de mais podre dentro de nós, de mais escuro em termos de ódio contido, de mais baixo em termos humanos, em nome de elevadas aspirações éticas, parece ser muito satisfatório. Os nazistas agiam em nome da pureza da raça. E erguiam bem alto a bandeira do “Gott mit uns”, Deus está conosco. Tornar-se de certa maneira o braço executivo da cólera divina parece ser profundamente agradável. Há gente disposta a morrer por esta satisfação.
Quem não leu O Martelo da Feiticeira, manual de interrogatório dos inquisidores católicos perdeu uma importante fonte de conhecimento sobre os nossos lados escuros. O manual recomenda, por exemplo, que os religiosos encarregados de torturar as possíveis feiticeiras as torturassem nuas, pois se tornam mais frágeis, e de costas para os torturadores, pois a era tal a perversidade destas mulheres que de frente para os torturadores poderiam comovê-los com suas súplicas e expressões de desespero. Eram religiosos, e o faziam em nome de Cristo.
TEXTO-MEIO
Somos hoje mais civilizados? Sinto-me profundamente abalado, chocado, pelo bárbaro assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris, por profissionais da morte que matam em nome de Deus, e que claramente mostraram nos seus gritos que se sentiam como justiceiros que haviam cumprido o seu dever. São monstros? Se fossem, seria muito mais simples compreender e prevenir. Mas são seres humanos em torno dos quais se construiu uma muralha de valores que os protege de qualquer crítica. Se sentem pertencentes a uma comunidade que os apoia e recompensa, ou seja, praticam a barbárie em nome do bem. Podemos matar os terroristas, mas transformar a dinâmica que os forma é bem mais complexo.
Podemos tratar um psicopata, e proteger a sociedade dos riscos individuais. E uma sociedade doente? Quem não viu Os fantasmas de Abu-Ghraib, veja, é profundamente instrutivo. O documentário é montado a partir de selfies e de filmagens por celular de práticas de tortura no Iraque por jovens americanos, contra supostos inimigos. Tortura praticada no Iraque em nome da defesa dos direitos humanos, por um exército invasor, e por funcionários de empresas privadas de segurança terceirizadas para esta tarefa. Estes jovens são monstros? As imagens das torturas e dos risonhos rapazes circulam em todo o mundo islâmico. Com que impacto e efeito multiplicador?
Hoje temos tortura sistemática aplicada pelo Mossad em Israel, em Guantánamo onde quando os prisioneiros tentam morrer para escapar ao sofrimento se lhes introduz à força alimento pelo nariz ou pelo anus, tudo em nome do bem, como em nome de Deus os fanáticos do ISIS decapitam prisioneiros ou os do Boko Haram raptam crianças.
A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e organizam a sua expressão em nome da justiça, de Deus, da pátria, da pureza racial ou o que seja.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Direitos não humanos. Artigo de Massimo Di Felice

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534639-direitos-nao-humanos

Direitos não humanos. Artigo de Massimo Di Felice

"Nossa interação com as redes digitais está criando uma nova humanidade. As leis dos homens valem para mediar essa simbiose com as máquinas?", escreve Massimo Di Felice, professor da USP e coordenador do Centro Internacional de Pesquisa Sobre Redes Digitais Atopos em artigo publicado pelo O Estado de S. Paulo, 24-08-2014.
Segundo ele, "se entre nós existe uma memória capaz de esquecer ou de remover, no campo digital, entre os arquivos e as arquiteturas interativas, ao contrário, as memórias tendem a ser eternas, não esquecem e não apagam e, portanto, não preveem o esquecimento. Reivindicar a supremacia do sujeito humano e os seus direitos sobre as máquinas significa não ter compreendido a qualidade da questão".
"O que as redes e os contextos digitais nos oferecem - afirma o pesquisador - é a condição singular de nos encontrarmos diante de um novo tipo de fronteira do pensamento diante da qual é preciso assumir outra atitude. Seria necessário, em vez de colonizar o não humano, criando e aplicando leis e normas humanas ao que humano não é, começar a pensar a internet não como uma realidade separada, nem como um mundo virtual, mas como um ecossistema vivo e complexo que já habitamos e que, pela sinergia simbiótica entre a inteligência humana e a artificial, depois de já ter criado outro gênero de social, está criando outro tipo de humanidade conectando esta última a tudo o que existe, proporcionando-nos, desse modo, a possibilidade de um outro tipo de futuro".
Eis o artigo.
As mudanças ocorridas nos últimos dez anos em nossas sociedades têm, em sua maior parte, uma origem comum. Elas nascem das formas peculiares de interação proporcionadas pelas redes digitais e pelas práticas e situações decorrentes das interações entre nós, humanos, e os circuitos informativos digitais. Nossa dimensão social estende-se até as fronteiras da biosfera e, hoje, inclui, após algumas dezenas de anos de conexão, não apenas atores humanos, mas um conjunto de entidades de naturezas diferentes (vegetais, animais, minerais) que se conectam e comunicam entre si, tornando-se todas atuantes e ativas nos diversos aspectos do nosso cotidiano. Diante dessa nova dimensão ecológica do social nos encontramos completamente despreparados.
O nosso social se ampliou e não podemos mais considerar possível regulá-lo somente por meio das práticas da política ou do direito, elaboradas apenas pelos habitantes da polis em defesa de seus interesses. Os resultados deste ativismo regulador, enquanto expressão de uma cegueira conceitual que não reconhece outra sociedade senão a constituída pelos humanos, acabam sempre revelando a nossa inadequação diante dos desafios do presente. Uma das últimas questões polêmicas foi a levantada pelo site da Wikimedia Foundation, a entidade que gere a Wikipedia, a enciclopédia editada colaborativamente online, e que publicou as notificações por meio das quais o Google informou ter eliminado alguns links existentes na Wikipedia relacionados a determinados nomes de pessoas. O motivo da eliminação nasceu em consequência da sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia que acolheu a solicitação de alguns cidadãos de retirar da internet certas informações associadas ao seu nome no motor de busca. A instituição jurídica europeia entendeu que tais solicitações se baseavam num tipo específico de direito, o direito ao esquecimento. Em razão desta sentença, o Googlerecebeu cerca de 90 mil solicitações de exclusão que comportaram a modificação de cerca de cinquenta páginas daWikipedia.
O fato é provavelmente menos grave do que parece, pois a decisão do tribunal, e a consequente adequação do Google, não implicou o desaparecimento das páginas do motor de busca. Ou seja, não se trata de uma retirada dos conteúdos. Os verbetes da enciclopédia continuam acessíveis e ainda podem ser encontrados mediante o motor de busca, só não o serão quando na busca for inserido o nome próprio de alguém que não quer ser associado a determinados conteúdos.
Com esta sentença, o cidadão europeu pode solicitar aos motores de busca que eliminem dos resultados das pesquisas online alguns links que ele considera inadequados ou comprometedores. Em consequência disso, a Wikimedia Foundationlançou por intermédio da diretora executiva da fundação, Lila Tretikov, um alarme para a defesa da liberdade da rede. “Os resultados precisos das pesquisas estão desaparecendo da Europa sem nenhuma explicação pública. O resultado é um lugar em que as informações incômodas simplesmente desaparecem”. A tais declarações fizeram eco as palavras deJimmy Wales, um dos fundadores de Wikipedia: “A história é um direito humano. Eu me encontro debaixo do foco dos refletores há bastante tempo. As pessoas falam de mim coisas boas e outras tantas ruins. Mas esta é a história, e jamais usaria um procedimento legal como este para tentar esconder a verdade. Acho isto profundamente imoral”.
O próprio Google procurou distanciar-se oficialmente da sentença por meio do porta-voz do seu escritório de advocacia D. Drummond que recentemente declarou: “Não concordamos com a sentença; equivale aproximadamente a dizer que um livro pode se encontrar na biblioteca, mas não pode ser incluído no seu catálogo”.
Por outro lado, a motivação dos juízes do Tribunal da União Europeia considerou o motor de busca do Google uma arquitetura de manipulação das informações, que, graças a algoritmos específicos, permite criar associações entre notícias e pessoas revelando nesta peculiaridade, na sua opinião, o caráter artificial da produção de conteúdos, e portanto o direito do cidadão de pedir sua modificação.
O que resulta evidente da complexidade das questões levantadas neste enésimo caso é que, não só não possuímos instrumentos adequados para os novos contextos digitais, mas que também não temos condições de compreender a qualidade dos desafios que eles nos apresentam. Um direito que se estende aos dispositivos, aos algoritmos, aos motores de busca e aos não humanos não pode ser baseado nas normas que regulamentam os humanos. Se entre nós existe uma memória capaz de esquecer ou de remover, no campo digital, entre os arquivos e as arquiteturas interativas, ao contrário, as memórias tendem a ser eternas, não esquecem e não apagam e, portanto, não preveem o esquecimento. Reivindicar a supremacia do sujeito humano e os seus direitos sobre as máquinas significa não ter compreendido a qualidade da questão.
O que as redes e os contextos digitais nos oferecem é a condição singular de nos encontrarmos diante de um novo tipo de fronteira do pensamento diante da qual é preciso assumir outra atitude. Seria necessário, em vez de colonizar o não humano, criando e aplicando leis e normas humanas ao que humano não é, começar a pensar a internet não como uma realidade separada, nem como um mundo virtual, mas como um ecossistema vivo e complexo que já habitamos e que, pela sinergia simbiótica entre a inteligência humana e a artificial, depois de já ter criado outro gênero de social, está criando outro tipo de humanidade conectando esta última a tudo o que existe, proporcionando-nos, desse modo, a possibilidade de um outro tipo de futuro. 

domingo, 22 de junho de 2014

Rose Mrie Muraro: a saga de uma mulher impossível

leonardo boff


                    Rose Mrie Muraro: a saga de uma mulher impossível

                                     Leonardo Boff, teólogo e escritor

         No dia 21 de junho concluíu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida. Cedo intiuíu que só o impossível abre o novo; só o impossível cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher impossível (1999,35). Com parquíssima visão formou-se em física e economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma pensadora da condição humana especialmente da condição feminina. Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no  sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raíz principal deste sistema que desumaniza  mulheres e também  homens.
         Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Mas a obra quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como  é vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalítico. Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender a  vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que tipo de processo de  individuação pode realizar uma mulher famélica que para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio  seio?      Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela responsável pela parte científica e eu pela parte religiosa. Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão millitar, Rose tinha a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso Paulo Freire os  cadernos do CEBRAP e outros. Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas convergências num livro que considero seminal Feminino   & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010). Destaco apenas uma frase dela:”educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.
         Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher) voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969 lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo do trabalho.  
         A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do capital/dinheiro com o livro Reinventando o  capital/dinheiro (Idéias e Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista dominante.
         Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e reflexões culturais se  intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se confronta com a ponta da ciência, com  a nanotecnologia, a robótica, a engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes, pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave  risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os conhecimentos para redesenharem a espécie humana. Daí o sub-título: Querendo ser Deus?  Essa é a  ingênua ilusão dos cientistas. O que nos salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a “Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um jogo ganha-perde e sim no terrrivel jogo perde-perde que significará a destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos”(Reinventando o Capital/dinheiro, 238).
         Rose possuía um sentimento do mundo agudíssimo: sofria com os dramas globais e celebrava  os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro. Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase:”quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que  é, mas que intuímos desde sempre”(p. 354).
         Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente, Patrona do Feminismo Brasileiro e com a criação da  Fundação Cultural Rose Marie Muraro em  2009 deixará um legado de fecundo humanismo para as futuras gerações. Rose Marie Muraro mostrou em sua saga pessoal que o impossível não é um limite mas um desafio. Ela se inscreve na linhagem das grandes mulheres arquetípicas que ajudam a humanidade a preservar viva a lamparina sagrada do cuidado por tudo o que existe e vive. Nesse afã ela se tornou imorredoura.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Contra a imbecilidade do atual anticomunismo

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79197


Artigos - Opinião
20.12.2013
Mundo ]
Contra a imbecilidade do atual anticomunismo

Leonardo Boff
Adital



17/12/2013
Mauro Santayana é um dos jornalistas mais eruditos do jornalismo brasileiro. Sempre comprometido com causas humanitárias, contundente e dotado de um estilo de grande elegância. Somos colegas como colunistas do Jornal do Brasil-online.
Recentemente, no dia 17/12/2013, publicou um artigo sob o título HAMEUS PAPAM com o qual me identifiquei imediatamente. Sofro ataques imbecis de que sou comunista e marxista, como se para um teólogo com 50 anos de atividade, fosse uma banalidade fazer esta acusação. Sou cristão, teólogo e escritor. Marx nunca foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação que ajudei a formular. O atual anticomunismo revela a anemia de espírito e a pobreza de pensamento que estão prevalecendo como disfarce para esconder o desastre que significa a economia de mercado, altamente predadora da natureza e agressora de todo tipo de direitos humanos e agora numa crise da qual não sabem como sair. Há tempos o Zürcher Zeitung, o maior jornal suíço e pouco depois o Times diziam que o autor mais lido hoje é Marx. Não só por estudiosos, mas por banqueiros e financistas conscientes que querem saber por que seu sistema foi a falência e por que tem tantas dificuldades em sair dele, se é que encontram uma saída que não signifique mais sacrifício para a natureza (injustiça ecológica) e para a humanidade já sofredora (injustiça social). Hoje mais e mais se percebe que este sistema é antivida, antidemocracia e antiTerra. Se não cuidarmos poderá nos levar a um abismo fatal. É uma reflexão que faço contra meus acusadores gratuitos e faltos de razão. Penso às vezes que Einstein tinha razão quando disse: "Existem dois infinitos: um do universo e outro dos estultos; do primeiro tenho dúvidas, do segundo, absoluta certeza”. Estimo que muitos dos anticomunistas atuais se inscrevem nesse segundo infinito. É fácil serrar árvore caída e covardia chutar cachorro morto. Pensemos, antes, no presente com sentido de responsabilidade, unidos face a um feixe de crises que nos poderá levar a uma tragédia ecológico-social. Como fazer tudo para evitá-la e garantir um futuro comum para todos, inclusive para a nossa civilização e para nossa Casa Comum. Essa é a questão maior a ser pensada e sobre ela inaugurar práticas salvadoras e não distrair-se com discutir um comunismo inexistente, morto e sepultado. LBoff
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Habemus Papam
Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida muitos marxistas que eram boas pessoas.
A declaração do papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.
A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo — no Brasil, particularmente, está ficando chique ser de extrema direita — baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.
Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, "museus do comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, 100 milhões de mortos ao comunismo.
Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em que os alemães e seus aliados perderam 850 mil homens, e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho — que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em seu covil — a Alemanha nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.
Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica, se esquece de que, sem a heroica resistência, o complexo industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética — que perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes — boa parte dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas, teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.
Espalha-se, na internet — e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso — que o Golpe Militar de 1964 — apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos — foi uma contrarrevolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do Estado de Direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck presidente da República em 1965.
1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais — não todos, graças a Deus — golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.
Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras — e não são os monstros apresentados pela extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do "marxismo cultural” — representam um apelo à razão e um alento.
Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis chaminés do Vaticano.
Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado pelo seu rebanho.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mandela, Hannah Arendt e o perdão

valor econômico
http://www.valor.com.br/opiniao/3364156/mandela-hannah-arendt-e-o-perdao#ixzz2mhaOypLE


06/12/2013 às 00h00

Mandela, Hannah Arendt e o perdão

Por Celso Lafer
Nelson Mandela foi um dos mais importantes personagens do século XX por suas grandes virtudes pessoais e pelo exemplo que deixa ao mundo de como um líder determinado é capaz de superar enormes obstáculos, moldar o processo histórico-político e obter mudanças sociais que parecem "realisticamente" impossíveis à maioria absoluta das pessoas. Em síntese, Mandela logrou, pela sua atuação, tornar efetiva a visão de uma renovada África do Sul pós-apartheid. Daí a sua grandeza.
Estive com ele em 2002, em companhia do presidente Fernando Henrique Cardoso, durante a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), que se realizou em Johanesburgo.
Poucas pessoas que eu conheci em minha vida me impressionaram tanto no contato pessoal. Mandela transmitia uma rara, imantadora e positiva aura.
Essa aura, que lastreava a especificidade de sua autoridade provinha do fato de que ele era dotado de algumas características de personalidade que podem ser importantes para qualquer pessoa, mas são indispensáveis para o bom exercício de funções públicas.
André Comte-Sponville, em seu livro "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", examina e discorre sobre 18 qualidades humanas. Ele as escolheu a partir de uma lista inicial de 30 e da definição aristotélica de que "a virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem".
Só Nelson Mandela, com a autoridade do seu exemplo, tinha condição de valer-se da reconciliação pela verdade factual e pelo perdão para criar um novo ponto de partida apto a reconstruir a África do Sul pós - apartheid. Ele agiu para o bem de seu país
Minha impressão, por conta desse rápido contato pessoal, é a de que Mandela possuía a maior parte delas. Justiça, compaixão, temperança, simplicidade, tolerância, boa fé seguramente fizeram parte da sua maneira de ser. No contexto deste artigo vou concentrar-me, no entanto, em uma delas: a coragem, que é uma virtude que sustenta as demais e que é uma "virtude forte", como dizia Bobbio, indispensável na vida pública.
Montesquieu define a coragem como o sentimento de suas próprias forças. Provém de uma firmeza de espírito que permite enfrentar os perigos e as provações. Quando aliada à generosidade e ao otimismo em relação ao futuro e voltada para o bem, como foi o caso da trajetória de Mandela, ela se torna exemplar no alcance geral do seu significado.
Ele a demonstrou desde que, em 1942, com 23 anos, se engajou na luta contra o odioso sistema do apartheid, na África do Sul, ao se filiar ao Congresso Nacional Africano, do qual se tornaria o maior líder.
Mandela comandou centenas de atos pacíficos de protesto e de desafio às leis segregacionistas. Sua banca de direito Mandela e Tambo, em sociedade com Oliver Tambo, provia a defesa de militantes do movimento que eram presos e processados pelo governo.
Em 1956, o próprio Mandela foi preso pela primeira vez, fato que se repetiu em diversas outras ocasiões, até que em 1963 foi condenado à prisão perpétua. Ele passou 27 anos encarcerado, 18 dos quais na tristemente célebre Robben Island, muitos deles em confinamento solitário, recebendo os piores tipos de tratamento imagináveis, que lhe causaram inúmeras enfermidades, inclusive uma tuberculose.
Durante todo esse período, o caráter de Mandela não esmoreceu, apesar de tantas provações. Ele se aprofundou nos estudos de direito, manteve a liderança do CNA e tomou inúmeras decisões importantes para o desenvolvimento da luta contra o apartheid.
Foi esse exemplo de coragem e determinação que fez com que Hannah Arendt se incluísse entre os muitos admiradores de Mandela, de quem ela primeiro teve notícia por meio de seu amigo Dan Jacobson, um escritor judeu sul-africano, no início dos anos 1960.
AP Photo/Themba Hadebe / AP Photo/Themba HadebeMandela: ele logrou, pela sua atuação, tornar efetiva a visão de uma renovada África do Sul pós-apartheid
Hannah Arendt defendeu que Mandela recebesse o Prêmio Internacional da Fundação Balzan, dedicado à promoção das mais meritórias iniciativas em favor da humanidade no ano de 1963. Ela fazia parte da comissão responsável pela indicação de candidatos, e seu amigo Karl Jaspers era membro do júri a quem cabia a decisão final.
No notável livro que contém a correspondência entre esses dois luminosos intelectuais do século XX, em diversas ocasiões Hannah Arendt argumentava sobre a importância de dar mais visibilidade à questão da integração das raças como forma de propagação da defesa dos direitos humanos, e como a premiação de Mandela, na época sendo julgado por sabotagem ao regime sul-africano, poderia ser importante nesse sentido. O prêmio acabaria sendo dado ao papa João XXIII, mas a admiração de Hannah Arendt por Nelson Mandela não diminuiu.
É interessante observar que, muitos anos depois da morte de Hannah Arendt, alguns de seus importantes conceitos (entre eles, a verdade factual como a verdade da política; o poder redentor da narrativa na lida com o sofrimento; o perdão como a faculdade de lidar com a irreversibilidade do que foi feito) estiveram presentes no encaminhamento da Justiça de Transição na África do Sul.
Justiça de Transição como o modo pelo qual uma sociedade lida com um passado de repressão assumiu na África do Sul, por inspiração de Mandela, o caminho de uma Comissão da Verdade e Reconciliação. Esta abriu espaço público para o testemunho das vítimas do apartheid, colocou-as num diálogo direto com os seus perpetradores, apontou para a compreensão e não para a vingança, para a reparação e não para a retaliação. Afirmou a indispensabilidade da verdade factual e promoveu, pelo perdão, a reconciliação, criando condições para que ela ocorresse entre brancos e negros num país previamente separado, durante décadas, pela hostilidade e pelo ódio.
A Comissão da Verdade e de Reconciliação da África do Sul permitiu que, pela primeira vez na história, o exercício do perdão como a faculdade de lidar com a irreversibilidade do que foi feito, se tornasse um princípio-guia de um Estado Sul-Africano renovado e redemocratizado. É o que aponta Elizabeth Young-Bruehl em seu "Why Arendt Matters".
Só Nelson Mandela, com a autoridade do seu exemplo, tinha condição de valer-se da reconciliação pela verdade factual, pelo poder redentor da narrativa e pelo perdão para criar um novo ponto de partida apto a reconstruir a África do Sul pós-apartheid. Ele agiu, assim, com suas qualidades e virtudes, como um estadista voltado para o bem de seu país, empenhado em manter de pé e unificada a África do Sul.
O mundo perde, com a morte de Nelson Mandela, um líder admirável e único na sua grandeza.
Celso Lafer foi ministro das Relações Exteriores nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso e atualmente é professor emérito do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Fapesp

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Súditos do Rei Midas

carta maior
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28/10/2013 - Copyleft

Súditos do Rei Midas

Em Serra Pelada (2013), Heitor Dhalia mostra homens e mais homens sangrando o solo em busca de ouro. Eis ou não uma síntese de nossas vidas?


Flávio Ricardo Vassoler
Divulgação
“A maior concentração de seres humanos para trabalho manual desde a construção das pirâmides do Egito”. Eu (ainda) não sei como alguém se sente quando o oncologista diz que a biopsia acaba de diagnosticar um tumor maligno, mas quando me deparei com a frase garimpada do filme Serra Pelada (2013), direção de Heitor Dhalia, fiquei pensando em como era morrer de câncer nos tempos dos faraós. O leitor e a leitora talvez se sintam algo desnorteados com o parágrafo (propositalmente) desconexo, mas foi desse modo que me senti quando as tomadas panorâmicas do filme capturaram um formigueiro humano interminável, no início da década de 1980 – eu nasci em 1981 –, em busca de um único objetivo: ouro.


 

Não se sabia o que era o câncer no tempo dos faraós. Quem poderia imaginar algo como a “humanidade” se as margens do Nilo delimitavam o mundo? As pirâmides têm os nomes dos grandes governantes. Ora, foram eles que as erigiram? Se chegarmos perto das pirâmides e as tocarmos com nossa compaixão, sentiremos que a verdadeira base que as sustenta é o chicote. O suor. O trabalho anônimo daqueles que jamais foram considerados os protagonistas da história. Séculos mais tarde, quando o capitalismo começou a forjar a pirâmide da humanidade sobre o mercado mundial, quando passou a ser necessário educar para (re)produzir, Beltolt Brecht (1898-1956) reconheceu asPerguntas de um trabalhador que lê:



“Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída —
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos Na noite em que o mar a tragou.
 
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele? 
 
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
 
Tantas histórias.
Tantas questões”.

 
Quais são os pressupostos históricos dos versos de Brecht? Um aprofundamento sem igual na história humana da noção de (busca por) igualdade. A consciência de classe. A descoberta politicamente orientada de que é a base que soergue o cume da pirâmide. Ainda assim, a consciência aguçada anuncia que continuamos a morrer de câncer. E pior: precisamos nos deparar com as tomadas panorâmicas de Heitor Dhalia a descortinar os milhares e milhares de trabalhadores à procura de um único elixir. A revolução? Não. O ouro burguês.


 

Creio que nosso momento histórico distópico precisa ler o poema de Brecht a contrapelo da consciência de classe. Quando a dialética passa pelo mercúrio do garimpo da Serra Pelada, uma pergunta não deixa de despontar: por que essa energia assombrosa em busca da propriedade áurea simplesmente não consegue ser canalizada para a sociedade como um todo? Por que precisamos ser empresas em miniatura – do it yourself!, faça você mesmo! – para que a partilha do ouro seja feita em detrimento de nós mesmos? Legítimo ouro de tolos. Se o Egito ficou para trás e já não acreditamos em faraós, por que o fetiche do ouro consegue congregar milhares, milhões e bilhões de espoliados ao redor do seu altar?


 

É curioso: dizem que Deus não existe. Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Fiódor Dostoiévski (1821-1881) conceberam os maiores réquiens ad majorem Dei gloriam,para a maior glória de Deus. “Se Deus está morto e se Deus não existe, tudo é permitido”. No Velho Testamento judaico há a noção de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Mas não há imagens de Deus em uma sinagoga. A onipresença de Deus sempre foi uma abstração. O ouro, como os santos católicos – o ouro dos santos católicos –, era o corpo da alma ausente. Mas o ouro já é anacrônico. Em uma cidade violenta como São Paulo, quem carrega muito dinheiro na carteira? Cartões. O dinheiro deixou de ser dourado para virar a maior das abstrações. A maior das ficções. E nossa era secular que já não acredita em Deus não consegue deixar de acreditar no dinheiro.


 

Sim, muitos reclamam do dinheiro e de seus princípios. Mas a dialética, a contrapelo de sua esperança de superação e a partir do sentido e do ressentimento de nossos tempos, a dialética combalida me faz perguntar: que valores e práticas agregariam as pessoas em sociedade para além da lógica do dinheiro? Antes que os(as) mais otimistas soem as trombetas de alerta, gostaria de mencionar, ainda uma vez, as imagens panorâmicas de Heitor Dhalia. Homens e mais homens sangrando o solo em busca de ouro. Eis ou não uma síntese de nossas vidas? Seriam estas as Perguntas de um leitor que trabalha?


 

Quando Karl Marx (1818-1883), n’A Ideologia Alemã, trouxe soslaios do que seria a sociedade emancipada com a noção de que poderíamos pescar durante o dia e fazer crítica literária à noite, certa vez me perguntei se, em Utópolis, seria possível, de alguma maneira, que a Serra Pelada retornasse, que o hedonismo da Serra Pelada retornasse, que o Bezerro de Ouro voltasse a ser o nosso ídolo. Não estamos no século XIX e, salvo engano, as revoluções de 1848 não batem à nossa porta. A noção de bela vida que embasou os soslaios de Marx foi efetivamente solapada pelo princípio burguês. (Salvo novo engano, ela apenas respira com a ajuda de aparelhos.) Refiro-me à noção de uma vida ética e esteticamente completa em si mesma, plena de sentido e realizações com trabalhos relacionados às nossas vocações e escolhas potencializadas pela sociedade organizada racionalmente, isto é, segundo os princípios da humanidade reconciliada. (Mas que princípios seriam esses?!) Hoje, a Serra Pelada apenas nos apresenta a escatologia de nossas vidas, a sucessão burocrática de nossos dias como a reprodução desordenada das células até que o tumor vindouro nos diga qual foi o sentido – e o ressentimento – do que (não) fizemos. Ou pior: do que não pudemos fazer. Se já houve um tempo em que se pensou que era possível imaginar algo para além de Serra Pelada, Heitor Dhalia nos leva a imaginar por que ainda somos garimpados.


 
 

Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/deus-acredita-em-todos-os-seres-humanos-entrevista-especial-com-leonardo-boff/514475-deus-acredita-em-todos-os-seres-humanos-entrevista-especial-com-leonardo-boff

Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada. Entrevista especial com Leonardo Boff

“Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora”, defende o teólogo.

Confira a entrevista.


“A Teologia é séria quando toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida, pessoalmente, à IHU On-Line.
Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que dagruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.
Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).
Leonardo Boff é autor do artigo A busca de um ethos planetário publicado nos Cadernos IHU ideias, no. 169.
Confira a entrevista.
IHU On-Line  Qual a diferença da Teologia da Libertação das décadas de 1970 e 1980 e hoje, com a globalização neoliberal? Ela é capaz de responder aos desafios contemporâneos?
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação parte do grito dos oprimidos, que hoje são os pobres. Até 2008 havia 860 milhões de pobres no mundo e a crise econômica e financeira elevou esse número a um bilhão e 200 milhões. Os gritos viraram um clamor. Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de forma libertadora. Então, é uma teologia permanente, porque, pela condição humana, todos, até os mais ricos e equilibrados, carregam suas cruzes: é o medo da morte, a exposição a acidentes, a perda do filho ou da esposa; não temos uma vida assegurada. A condição humana é assim e deve ser construída a cada dia, com sua angústia e opressão. Nesse sentido, a fé cristã oferece um caminho para a pessoa se liberar, colocando a vida  mesmo uma vida que fracassou  na palma da mão de Deus, obtendo assim uma libertação espiritual. A mensagem de Jesus é libertadora por isso. E uma teologia que não produz esse efeito humanizador não pode ser chamada herdeira ou que está no legado de Jesus.

IHU On-Line  Como compreender que o cristianismo, que nasceu no primeiro mundo, hoje não faça parte deste universo europeu, ou ao menos não tenha tanta relevância entre ele, e se demonstre mais vivo no terceiro mundo?
Leonardo Boff – Primeiro, há um problema de estatística. Mais da metade dos cristãos e católicos vive no terceiro mundo. De fato, é uma religião do terceiro mundo, embora as origens sejam no primeiro. E se falarmos em termos de criatividade, de presença, veremos que a criatividade não está no primeiro mundo, onde temos culturas agônicas, que lentamente estão “descendo a rampa” da vida; são civilizações que não cultivam a esperança porque não veem qual é a esperança para elas. No fundo, conquistaram tudo o que queriam, dominaram o mundo, impuseram suas ideias, suas filosofias, seus valores, sua música, e agora dizem que são infelizes. Isso significa que o ser humano não só tem fome de pão, de bens materiais, mas também tem fome de beleza, de comunicação, de amor, de solidariedade. E esses valores estão presentes principalmente entre os pobres. Se há uma coisa que os pobres guardam é a cultura da solidariedade, a alegria de viver com o pouco que têm. Isso aparece até nas novelas da Globo, como essa chamada Avenida Brasil: onde estão a vida, a solidariedade e a alegria? Não estão na alta burguesia; estão na favela do Divino. Nesses lugares da Ásia, da África, da América Latina, o cristianismo se mostra criativo. Ele se encarna nas culturas locais, e então passa a ter um rosto diferente, músicas e símbolos diferentes. Agora estão aparecendo novos santos e mártires que são nossos. E tem a questão das mulheres daqui também. E não é só o fato de serem mulheres fazendo teologia, porque a mulher americana rica também a faz. Aqui temos a mulher pobre que não quer ingressar no mundo dos ricos, mas quer ser solidária. Então, faz uma teologia feminina diferente. Elas até brigam com as americanas, por exemplo, fazendo a crítica a elas, dizendo que não adianta fazer teologia só para integrar as mulheres, pois estarão apenas contribuindo para engrossar o mundo dos opressores. As latino-americanas pedem solidariedade a elas como mulheres e como oprimidas. Se não for isso, não será uma verdadeira Teologia da Libertação.

IHU On-Line  A partir da vivência, na prática da Teologia da Libertação, como o senhor define que deveria ser uma teologia séria? 
Leonardo Boff – A Teologia é séria quando ela toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta. É um saber, como diz Camões, “de experiências feito”. Somos sérios quando damos valor ao que o povo diz, que não são palavras, mas dramas e gritos. Em segundo lugar, é preciso saber formular isso de uma maneira rigorosa e universal, de forma que todos possam entender.

IHU On-Line  Quais os limites da Teologia no mundo hoje? Que desafios ela tem a enfrentar no século XXI, considerando a contribuição que pode oferecer à sociedade contemporânea, principalmente à crise ecológica e ambiental?
Leonardo Boff – A primeira tarefa da Teologia e das igrejas é elas assumirem que são cúmplices do mundo a que chegamos hoje. Isso significa que houve algum erro na nossa transmissão da fé, na nossa vivência bíblica, pelo qual não conseguimos evitar a crise ecológica e a crise econômica mundial. Não temos a chave da salvação, somos parte do problema. E com muita humildade, precisamos renunciar a toda a arrogância de que “temos a palavra da revelação e então sabemos”. Nós não sabemos. Temos que nos unir a todos os grupos, começando pelos pobres – que têm sua sabedoria , e depois com o discurso das ciências, das outras igrejas, com todos os discursos que criam sentido. Além disso, é muito importante sentir-se um discurso junto com os demais, não tendo exclusividade, afirmando que “nós temos a revelação; nós temos a chave”, porque, na verdade, não a temos. Quando a Igreja teve essa arrogância e assumiu o poder, foi um fiasco. Governou mal, até 1890 ainda havia pena de morte nos estados do Vaticano, além de cometer grandes erros históricos contra a modernidade e os direitos humanos. Então, ela não pode apresentar títulos de credibilidade. Primeiro, precisa reconhecer que pode aprender no diálogo e que pode dar uma contribuição a partir do que vem do exemplo de Jesus. Nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado.

IHU On-Line  Quais as principais ameaças que pesam sobre nosso futuro?
Leonardo Boff – São dois blocos de ameaças. Um vem pela máquina de morte, que é nossa cultura militarista, que criou um tal número de armas nucleares, químicas e biológicas que pode destruir muitas vezes toda a vida do planeta. São armas muito deletérias, que estão em segurança, mas nunca segurança em absoluto. Vimos isso em Chernobyl Fukushima. Além disso, temos as nanotecnologias. A guerra cibernética pode ser de alta destruição. Trata-se de uma guerra não declarada, de extrema violência e que pune os inocentes. O segundo bloco de ameaças é aquilo que nosso processo industrialista fez nos últimos 300, 400 anos, com a sistemática agressão à Terra, aos seus bens, seus recursos. Chegamos a um ponto em que desestabilizamos totalmente o sistema Terra, e a manifestação disso é o aquecimento global. Para repor o que tiramos da Terra em um ano, ela precisa de um ano e meio. Então, a Terra já está exterminada. Estamos alcançando uma temperatura perto de 2º C e a comunidade científica norte-americana alertou para o fato de que, com a entrada do metano, do degelo das camadas polares e outros fatores, a Terra vai se aquecendo devagar e, de repente, a febre de 37º C pula para 45º C. Com esse aquecimento abrupto, a vida que conhecemos hoje não vai subsistir, nem animal, nem vegetal, nem humana. Como temos tecnologia, podemos criar pequenos oásis refrigerados para grupos de seres humanos que, seguramente, vão invejar quem morreu antes, tão miserável será a vida. Isso pesa sobre a humanidade nos próximos decênios e ninguém acredita nisso, porque vai contra o sistema da acumulação, contra o capitalismo, contra as grandes empresas. Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre isso.

IHU On-Line  Em que situações de nossa sociedade mais se pode ver o Cristo Crucificado?
Leonardo Boff – Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre, aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade.

IHU On-Line 
 Em que sentido o capitalismo pode ser apontado como anticristão?
Leonardo Boff – Em primeiro lugar, o capitalismo é antivida. Ele assassina as vidas humanas para acumular. Para que alguns tenham qualidade de vida, muitos devem ter péssima qualidade de vida. E isso é injusto. E tudo o que vai contra a vida acaba sendo contra aquele que disse: “Eu vim trazer vida e vida em abundância”. Por isso é anticristão. E isso custou muito aos cristãos reconhecerem, porque as igrejas se instalaram muito bem dentro do sistema capitalista. A Igreja teve dificuldade de condenar, pois o capitalismo não nega a Igreja, nem a religião. Pelo contrário, defende a Igreja e a moral. Só que, na prática, nega tudo isso. E essa é a grande ilusão da Igreja, pois o capitalismo passa por cima de todo mundo, sem solidariedade. Nele, só o forte ganha.

IHU On-Line  Baseado em que o senhor afirma que os Estados Unidos é o grande terrorista mundial?
Leonardo Boff – Na prática ele é o grande terrorista porque, na América Latina, apoiou todas as ditaduras e participou ativamente de atentados, sequestros de pessoas, fornecendo informações. E continua com essa estratégia, que é a estratégia do império. Onde há uma oposição, ele vai e destrói. Só me admiro que não conseguiu eliminar aindaHugo Chávez, na Venezuela, nem Fidel Castro, mesmo tentando por 17 vezes, sem resultado. Os Estados Unidos sempre usa a violência militar para se impor. E faz isso em todas as partes, como fez na Líbia, por exemplo, com os aviões não pilotados. Acredito que assim que passar as eleições fará uma intervenção na Síria com aviões não pilotados também. 

IHU On-Line – Independentemente se Obama fica ou não?
Leonardo Boff – Independentemente. Até o próprio Obama. Porque eles não vão segurar Israel e também não vão liquidar com o Irã. Então, a arma não é a diplomacia e a busca de caminhos de paz, mas a arma da submissão. E eles são fortes, hoje, não na economia – pois a China é mais , nem na tecnologia – o Japão e outros países são mais ; eles só têm o domínio militar do mundo, com a possibilidade de matar a todos. Em nome disso, submetem todo o mundo. Não há ninguém que se oponha ao império, a não ser Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Todos os demais, inclusive o Brasil, fazem inclinação aos Estados Unidos. É um império cujo imperador é afro-americano, mas com a mesma perversidade de Bush e outros, porque o projeto não mudou. 

IHU On-Line  O senhor disse que reconhecer a Igreja de Roma como a única verdadeira é um erro teológico. Por quê?
Leonardo Boff – É um erro teológico porque supõe o conceito reducionista de Deus, como se Ele dissesse: “Esses são meus filhos e aqueles não são; essas são minhas criaturas queridas e aquelas são filhos abandonados”. Isso não existe para Deus. Todos nasceram do seu coração. Deus acredita em todos os seres humanos. Todos são filhos e filhas, não só os batizados, que por acaso nasceram no Ocidente. Então, uma Igreja que não faz isso se opõe a Deus.
(Por Graziela Wolfart. Foto de Wagner Altes)