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sábado, 13 de junho de 2015

Nos escombros de Gaza, nova resistência

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Nos escombros de Gaza, nova resistência

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Crianças convivem com a tragédia da guerra.
Crônica fotográfica de uma viagem, em palavras e imagens: nos ferros retorcidos dos brinquedos que ainda restam, meninos e meninas se divertem, como se não tivessem a infância roubada
Texto e fotos de João Laet*, na Adital
É indescritível a experiência de percorrer os bairros da Faixa de Gaza e ver de perto o cenário de guerra deste pequeno território — um enclave palestino pobre e superpovoado, controlado pelo Hamas. Diante do quadro trágico com que nos deparamos, nos perguntamos se não é otimista a previsão da ONU [Organização das Nações Unidas] de que a situação de miséria dos cidadãos desta região poderá se modificar ao longo dos próximos 15 anos, se o bloqueio imposto por Israel e Egito for suspenso. Centenas de prédios públicos e privados, escolas, parques, pontes e grande parte da infraestrutura não resistiram aos sucessivos ataques lançados pelo exército israelense por terra e ar.
Ao mesmo tempo, impressiona observar a persistência e a capacidade de resistência heroica dos sobreviventes, que insistem em tentar manter a rotina de vida e de trabalho em meio aos escombros de suas lojas e casas comerciais deste pequeno território de 352 km², situado junto ao Mediterrâneo, a sudoeste de Israel e na fronteira com o Egito, onde vivem 1,5 milhão de palestinos.
Talvez tenha sido a capacidade dos palestinos que ali vivem de resistir aos sucessivos ataques que sofrem há décadas, com maior ou menor intensidade, que me levaram a decidir viajar para a região e registrar, como fotógrafo, aquela realidade tão cruel. O número de vítimas desta guerra sem fim é alarmante. Só na operação Borda Protetora, desencadeada por Israel no período de 8 de julho a 26 de agosto, 2.157 palestinos morreram em Gaza, entre eles crianças, mulheres e idosos. Outros 11 mil ficaram feridos. Do lado israelense, as baixas foram muito menores: 73 mortos, dos quais 69 soldados e 4 civis. Esses dados revelam com nitidez o desequilíbrio de forças entre os dois lados.
Na verdade, os conflitos entre palestinos e israelenses começaram no início do século passado. Entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, quando houve uma migração em massa de judeus procedentes de vários países para a Palestina. Como não podia deixar de ser, isso mudou totalmente a demografia local. A região, habitada majoritariamente por árabes, passou a receber uma população judaica a cada dia em maior número.
Hoje, apesar da destruição que se vê por toda parte, os homens continuam trabalhando e as mulheres mantêm, como podem e apesar das inúmeras dificuldades, os afazeres domésticos do dia a dia. Em vários bairros, as crianças convivem com a tragédia da guerra, que é o dia a dia delas. Uniformizadas, vão para o que restou das escolas com as paredes perfuradas por balas, assistem às aulas, brincam no recreio, cantam e dão vivas a Alá. As jovens professoras parecem conseguir manter uma certa normalidade. A maioria delas não se deixa fotografar. Nos ferros retorcidos dos brinquedos que ainda restam nos locais onde um dia existiram parques, meninos e meninas se divertem, como se não tivessem a infância roubada pela guerra fratricida dos adultos.
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Estudantes vão para o que restou das escolas com paredes perfuradas por balas. Foto: João Laet.
Um israelense que conheci em Jerusalém contou que durante o último conflito o Hamas lançou 4.594 foguetes a partir de Gaza. Seiscentos foram interceptados pelo Iron Dome, o sistema antimíssil de Israel. Sessenta atingiram áreas habitadas e o restante caiu no mar ou no deserto.
Depois de 10 dias em Jerusalém, parti para Gaza, o foco de minha viagem. Contratei um carro para me levar para o GPO (Goverment Press Office) e, de lá, seguir direto para Gaza. O desafio era não ter nenhum tipo de problema ou demora para pegar a carteira de imprensa local, sem a qual não entraria em Gaza, e chegar a tempo no Portão Erez, único acesso via Israel para Gaza, que fechava às 15h30min.
Cruzei a fronteira com uma equipe do Médicos sem fronteiras, que conhecera em Jerusalém. A entrada na Faixa de Gaza lembra um pequeno aeroporto. Chega-se através de um corredor, com um pé direito muito alto, envidraçado, com várias placas de vidro quebradas pelo abalo dos bombardeios e apenas dois guichês funcionando. A sensação é de estar entrando em um presídio moderno, com detectores de metais e diversas portas giratórias. Ao fundo, uma porta automática que lembra a de um elevador de carga. Depois dela, finalmente, a Faixa de Gaza.
A porta se fechou atrás de mim. Dali, seguimos 800 metros andando num corredor gradeado. A impressão de estar numa cidade presídio se repetiu ao longo da viagem e, principalmente, na volta, quando a revista israelense foi muito mais minuciosa.
Em novembro de 1998, os moradores de Gaza receberam com euforia a inauguração do primeiro aeroporto, batizado Yasser Arafat, em homenagem ao ex-líder da Autoridade Palestina e presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Entretanto, dois anos depois, o aeroporto foi destruído pelos conflitos com Israel. Hoje, as pistas se transformaram em local de passagem de beduínos e suas ovelhas.
Em Gaza, fiquei hospedado no hotel Oriente. O quarto era mais espaçoso que o do hotel em que ficara em Jerusalém: cama de casal e outra de solteiro, banheiro com uma grande pia, escrivaninha, frigobar, armário, acarpetado, de frente para o mar. Embora não tenha sido atingido por bombardeios até minha estadia lá, as consequências da guerra são visíveis: a água é salobra, há goteiras em todos os cômodos e, apesar de um barulhento gerador, só há fornecimento de energia durante seis horas por dia.
Proibição da entrada de materiais de construção impede reconstrução da infraestrutura dos bairros. Foto: João Laet.
Proibição da entrada de materiais de construção impede reconstrução da infraestrutura dos bairros. Foto: João Laet.
Hospitalidade
Um traço comum nos palestinos é a hospitalidade. Todos que, de alguma forma, me ajudaram e também às pessoas com as quais trabalhei — tradutor, guia e motorista — fizeram questão de me receberem para jantares e almoços. Em todos esses momentos, apenas os homens confraternizam. As mulheres, embora cobertas da cabeça aos pés, não participam.
Gaza é um território pobre, mas não miserável. Nos bairros que percorri, não vi morador nem criança vivendo na rua. Não encontrei áreas de lazer frequentadas por homens e mulheres solteiros: nem cinema, nem teatro. Drogas e bebida alcoólica, nem pensar. Uma curiosidade: não existe sinal de trânsito.
TEXTO-MEIO
Chamou minha atenção o fato de não existir violência urbana em Gaza. Andei sozinho à noite pelo centro de Gaza, no cais do porto, na praia, a qualquer hora do dia e da noite. Em Jerusalém e Tel Aviv presenciei confrontos entre militantes israelenses e palestinos, mas não vi assaltos.
Médicos sem fronteiras
Mais de dez mil feridos mantêm os hospitais de Gaza no limite do atendimento, enquanto os profissionais de saúde do Médicos sem fronteiras se desdobram. Estrangeiros e palestinos, homens e mulheres, formam uma equipe incansável. Com a ajuda de voluntários, eles fazem verdadeiros milagres para salvar vidas mutiladas por bombas e mísseis. Percorri o centro de fisioterapia com total liberdade. A única orientação que recebi foi a de tomar cuidado antes de fotografar mulheres, por razões culturais, e homens jovens, porque poderiam ser pessoas procuradas pelo governo de Israel.
Além dos feridos pela guerra e por acidentes de trânsito, vi muitas crianças queimadas por água fervendo, devido ao hábito de tomar chá e café. Como todos os palestinos que moram em Gaza, os médicos locais não podem sair dali. Só os resta aguardar o próximo ataque.
No caminho para o escritório da organização Médicos sem fronteiras, muita destruição. Cerca de 50 mil casas e edifícios públicos sofreram danos graves ou foram totalmente destruídos pelos bombardeios israelenses, que provocaram o deslocamento de mais de 100 mil palestinos.
Quem teve a residência destruída foi para casas de parentes ou está abrigado nas escolas da ONU. Chamou minha atenção o fato de muitas famílias voltarem para suas casas, apesar do estado precário das construções. Elas vivem o cotidiano em meio aos escombros quase com naturalidade.
Hamdan Hamada mostra o depósito de sua fábrica de molhos totalmente destruído. Ele espera ansioso a chegada dos materiais de construção para poder reativar sua indústria, que tem 60 funcionários, agora sem ter como ganhar dinheiro para sobreviver. “Não demiti ninguém, mas eles não têm o que fazer”, disse o palestino, que importa produtos, inclusive café do Brasil.
As opções profissionais são escassas nessa economia em frangalhos: o desemprego atinge 40% da população, percentual que, entre os jovens, chega a 63%. E um dado ainda mais alarmante: cerca de 80% dos habitantes de Gaza conta com ajuda humanitária para sobreviver.
Até mesmo para trabalhar corre-se o risco de ser assassinado. Os barcos dos pescadores só podem se distanciar da costa até seis milhas náuticas do litoral. Se passarem deste limite, são baleados, e isso acontece com certa frequência, inclusive depois do cessar fogo.
Mais de dez mil feridos mantêm os hospitais de Gaza no limite do atendimento. Foto: João Laet.
Mais de dez mil feridos mantêm os hospitais de Gaza no limite do atendimento. Foto: João Laet.
Agricultura e construção civil arrasadas
Em Khanyunis, sul de Gaza, vi agricultores trabalhando na colheita de azeitona, para fabricação de azeite de oliva. Os 1,8 milhão de habitantes de Gaza têm uma produção agrícola muito inferior às necessidades. Dependem de bens importados, que só podem chegar ao seu território de duas maneiras oficiais: pela fronteira com o Egito, em Rafah, sul de Gaza, e pelas passagens liberadas por Israel.
Entre 2007 e 2010 só era permitida a entrada de bens considerados essenciais e em quantidades limitadas. O cimento, por exemplo, que pode ter uso militar, foi banido. Isso significou a paralisação total da construção civil. As exportações também foram restritas.
Segundo a ONU, o bloqueio feito por Israel, que impede a entrada de materiais de construção e outros bens, impossibilita o desenvolvimento econômico na Faixa de Gaza. E foi em decorrência de tantas restrições que os túneis clandestinos, construídos e controlados pelo Hamas para contrabandear armamentos, passaram a ser importantes para os palestinos receberem combustível, mantimentos, cigarros, todo tipo de produto.
Os túneis são bem construídos, iluminados, com abertura suficiente para um adulto transitar de um lado a outro deitado. Os primeiros caminhões carregando o que Gaza precisa mais no momento — material de construção — começaram a chegar somente no dia 14 de outubro, um mês e meio após o fim do conflito. O primeiro carregamento tinha 75 caminhões. O segundo tinha apenas 28. Mas, enquanto estive na região, nenhuma obra foi iniciada e a situação piorou com as chuvas torrenciais daquele período, que obrigaram as autoridades locais a declarar estado de emergência. Economistas de Gaza calculam que seria necessário o envio de 400 caminhões por dia ao longo de seis meses.
Construções das ruas de Gaza destruídas. Foto: João Laet.
Construções das ruas de Gaza destruídas. Foto: João Laet.
Alto índice de alfabetização
Na escola primária de Beit Hanoon, marcas de tiros nas paredes e muros. Há seis meses sem receber salário, os professores fizeram greve de 24 horas. A escola funciona em um prédio de três andares. O terceiro está interditado. No segundo, muitas salas de aulas não têm portas nem janelas. Por um buraco de bala na parede, fotografei uma aula. Numa outra sala, um buraco ainda maior servia de comunicação entre as crianças que passavam pelo corredor.
Na hora do recreio, os estudantes perceberam meu equipamento e vieram em minha direção fazendo com os dedos o V da vitória contra Israel e o indicador apontado para o alto, que significa Alá, deus único. Um dado impressiona: apesar de anos de conflitos, a taxa de alfabetização é de 97% e a consciência política é muito grande.
Hamas
Em conversa com um militante do Hamas, ele contou que a população de Gaza aplaudiu a decisão da presidente [do Brasil] Dilma Rousseff de condenar os ataques israelenses. Fiquei surpreso ao constatar que, em meio à tragédia da guerra, eles acompanham a política no Ocidente, tão distante da realidade local.
O diretor de Operações da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) em Gaza, Robert Tumer, afirma que não existe um governo palestino efetivo ou unido na Faixa de Gaza. E adverte: se não houver um cessar fogo a curto prazo, se não houver um alívio no bloqueio, outro conflito ocorrerá. O desequilíbrio entre as forças militares é flagrante. Tumer considera também essencial para uma relativa estabilidade política a formação de um governo nacional palestino.
As estimativas mais recentes indicam que a reconstrução levará de dois a três anos. E a extensão dos danos e do número de desabrigados é inimaginável.
Por um buraco de bala na parede, fotógrafo registrou aula nas salas que já não possuem portas ou janelas. Foto: João Laet.
Por um buraco de bala na parede, fotógrafo registrou aula nas salas que já não possuem portas ou janelas. Foto: João Laet.
* João Laet é fotógrafo desde 2000. Trabalhou para a Comissão Pastoral da Terra, no Sul do Pará, em 2004 e 2005. Fotografa para o jornal O Dia desde 2005. No ano de 2011, recebeu o prêmio Award of Excellence, da Society for News Desing, na categoria Photography/Multiple Photos, pelo projeto fotográfico “Rio em dois tempos”. Na Faixa de Gaza, tenta compreender como vive os moradores do território.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Cangaço: 12 fotos e 7 fatos impressionantes sobre um Brasil fora da lei

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http://www.historiailustrada.com.br/2014/11/o-cangaco-12-fotos-e-7-fatos.html#.VKKImsAAA

O Cangaço: 12 fotos e 7 fatos impressionantes sobre um Brasil fora da lei

Zé Sereno e outros três cangaceiros de seu bando, 1936. (Benjamin Abrahão/Acervo Abafilm).

Essa é uma parte do país que por séculos se manteve oculta, um Brasil quase mitológico de tamanha particularidade. À própria sorte desde que se tem notícia, onde o Estado só comparece para cobrar tributos e a escassez está sempre por perto. Cidades e minúsculos distritos são controlados por figuras que muito bem se assemelhariam a senhores feudais, os coronéis, como eram conhecidos, eram autoridade máxima. Autoridade quase sempre incompatível com as péssimas condições de vida do sertão nordestino.

Foi nesse contexto que surgiu o Cangaço. Um banditismo digno dos clássicos filmes de faroeste, onde criminosos itinerantes driblavam a lei atravessando fronteiras estaduais.Sempre acompanhadas de sangue,  as histórias do Cangaço remetem a pessoas muito humildes que, por um motivo ou outro, se recusaram a seguir a inércia de permanecer sob controle dos coronéis, optando por um caminho incerto que tratava com especial truculência aqueles tidos como seus inimigos. 

Mas o Cangaço não possuía apenas inimigos, entre fazendeiros estrategicamente aliados e outros pobres sertanejos, a opinião pública se manteve dividida. Se os miseráveis insatisfeitos com os abusos dos coronéis se sentiam representados na contestação desaforada daqueles homens e mulheres fora da lei, os frequentes requintes de crueldade e frieza garantiam o medo e a tensão permanente nas cidades por onde passavam os bandos de cangaceiros. 


Maria Bonita, mulher de Lampião, posa para o fotógrafo libanês Benjamin Abrahão junto aos seus dois cães, Guary e Ligeiro, 1936. (Benjamin Abrahão/Acervo Abafilm).

#1 - O poder absoluto dos coronéis no Sertão. 

Desde os tempos do Império, a falta de interesse do Estado pelo Sertão obteve efeitos sangrentos na região. Entre os mais devastadores episódios de clara resposta à situação negligente e única presença para cobrança de tributos, destaca-se a Guerra de Canudos e o fenômeno de banditismo conhecido como Cangaço. Ambas as experiências possuíam em sua essência o sentido de contestação das figuras conhecidas como coronéis.

Em meio a uma vasta extensão territorial de pouco interesse público, o Império instituiu a titulação de Coronéis da Guarda Nacional para grandes latifundiários Brasil a dentro. Na prática, o governo passou a legitimar uma relação de domínio que já se fazia efetiva desde os tempos coloniais.Os coronéis eram, quase sempre, pessoas que possuíam total influência na atividade econômica de cidades inteiras. O que representava poder absoluto em uma região onde a opção era se submeter ou sucumbir.

Os coronéis eram homens acima da lei. A
lém da tradicionais forças policias, também submetidas aos seus interesses, eles tinham sua própria "polícia", eram capangas conhecidos como jagunços: figuras armadas que tratavam de fazer a guarda de terras, castigar e executar inimigos de seus chefes. Foi a truculência desses jagunços que deu origem à jornada de diversos cangaceiros motivados pelo desejo de vingança. 
Virgínio Fortunato, cunhado de Lampião, posa sorridente junto aos "cabras" e mulheres de seu bando para as lentes de Benjamin Abrahão, 1936. (Benjamin Abrahão/Acervo Abafilm).

#2 - A vida criminosa como alternativa à miséria e submissão. 

As condições naturais do Sertão são especialmente infavoráveis à vida humana. Os longos períodos de estiagem castigam seus habitantes através dos efeitos consecutivos que a falta d'água produz. O gado morre e as plantações ficam comprometidas, assim, famílias inteiras tentam se equilibrar num contexto de subsistência precária. Quando havia oferta de emprego, ou melhor, de trabalho, ela era ligada ao coronel da região, figura nem sempre louvável.

"Inteiramente só, o sertanejo é um homem abandonado a sua própria sorte, nada lhe resta senão a desesperança. Ou a rebeldia, que é um simples efeito de causas profundas, da ausência de justiça, analfabetismo, precariedade de comunicação, baixos salários, débil capitalismo e um lentíssimo desenvolvimento das forças produtivas."

Pensar nas autoridades da região como figuras de violência e senso de justiça similar aos dos temidos cangaceiros faz com que se compreenda melhor como tantos sertanejos optaram por esse caminho. A vida criminosa não era nada cordial, mas entre fugas e investidas, oferecia o poder de ter tudo aquilo que passava longe da realidade da maioria: ouro, respeito e mulheres (e sobre este último ponto, como é de se imaginar, o estupro era algo recorrente).


Corisco, o primeiro a esquerda, tendo ao seu lado a companheira Dadá e integrantes do seu grupo, 1936. (Benjamin Abrahão/Acervo Abafilm).

#3 - O sangrento preço da vida entre os cangaceiros. 

O vermelho é uma cor muito compatível com o trajeto do Cangaço, não apenas pelo coro de luta ou coragem, mas principalmente pelo sangue. Se entre os coronéis, representantes da lei no Sertão, a violência já era evidente, no Cangaço ela era uma assinatura. O traço hediondo da tradicional execução por sangramento era regido pelo punhal, introduzido em pontos vitais de suas vítimas. Para lidar com tamanha rotina, outra característica chamava atenção: a frieza aterrorizante. 

Ao passo que se comandava torturas e execuções, as histórias também falam dos cangaceiros como figuras musicais e risonhas. Como se a vida e a morte fosse (e era mesmo) parte do dia-a-dia daquelas pessoas. 

Já dizia o mítico Rei do Cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião:

"Três coisas eu trago de Pernambuco: dinheiro, coragem e bala."

Bem como a tradição oral transmite, em certa ocasião um sujeito estava cometendo incesto e foi flagrado por Lampião, o cangaceiro separou os dois irmãos e trouxe o rapaz para conversar. Ele falou para o homem que ele devia colocar os seus testículos dentro da gaveta e fechar com chave. Em seguida, Lampião colocou um punhal sobre o criado-mudo e disse "Volto em dez minutos, se você ainda estiver aqui eu te mato".

Assim se construiu uma lenda, e essa é só uma das histórias que se contam até hoje. 

O lendário cangaceiro Lampião posa para foto segurando uma edição de um dos jornais que costumava ler, "O Globo", 1936. (Benjamin Abrahão/Acervo Abafilm).

#4 - A opinião pública dividida entre amor e ódio.

Lampião já era uma lenda viva antes mesmo de sua vida ser documentado pelo corajoso jornalista sírio-libanês, Benjamin Abrahão.  Tratado pela polícia dos estados como uma verdadeira praga a ser exterminada, temido por onde passava, ainda assim ganhou a simpatia de muita gente. Virgulino tinha a confiança de gente de diversos setores da sociedade: coronéis, sertanejos e até mesmo a igreja, representada pelo inigualado Padre Cícero, a quem se deposita regionalmente o prestígio de uma santidade. 

A situação de considerável apoio da sociedade pode se amparar no senso de justiça em crítica à força oficial vigente. O respeitado historiador britânico, Eric Hobsbawn, em uma de suas obras (Bandidos/1969), apontou o Cangaço brasileiro como um exemplo claro do fenômeno do banditismo social, que se alinhava ao princípio de contestação, como um sentido primitivo de revolta. 

“O ponto sobre bandidos sociais é que eles são criminosos camponeses a quem o senhor feudal e o Estado enxergam como criminosos, mas que permanecem dentro da sociedade camponesa, e são considerados por seu povo como heróis, como campeões, vingadores, lutadores pela justiça, talvez até mesmo líderes de libertação e, em qualquer caso, homens para serem admirados, ajudados e apoiados. Esta relação entre o camponês comum e o rebelde, bandido e ladrão é o que faz o banditismo social interessante e significativo.
Eric Hobsbawn

Volantes do estado da Bahia em registro de Benjamin Abrahão, circa 1936. (Benjamin Abrahão/Acervo Abafilm).

#5 - Volantes: a polícia especial dos estados treinada com as mesmas práticas dos cangaceiros.

Por décadas a República simplesmente amargou a inferioridade de suas forças diante do preparo e conhecimento preciso dos bandos cangaceiros. Equipados com cangas de madeira e utensílios metálicos (daí o nome cangaço: canga+aço), esses grupos eram compostos por homens (e também, muito raramente, mulheres) de invejável experiência de combate, sempre furtivos e ágeis.

Nas cidadelas invadidas, a polícia costumava ser ínfima e sem a menor condição para impedir investidas tão bem articuladas. Quando chegava algum reforço capaz de enfrentá-los, os cangaceiros simplesmente desapareciam em rotas de fuga que os levavam para outros estados, onde somente as forças policiais correspondentes poderiam atuar.

A reação dos estados foi precisa: responder na mesma moeda. Foram constituídas as chamadas forças volantes, o braço cangaceiro da polícia, formadas por homens (alguns deles até ex-cangaceiros) de preparo e práticas de combate idênticas às dos bandos criminosos. Assim, rotas de fuga, abrigos e investidas furtivas estavam mais sujeitas a falhas. 

O encontro de Abrahão com o bando de Virgulino, em foto tirada pelo cangaceiro Juriti. Da esquerda para a direita: Vila Nova, não identificado, Luís Pedro, Benjamin Abrahão (à frente), Amoroso, Lampião, Cacheado (ao fundo), Maria Bonita, não identificado, Quinta-Feira, foto de 1936. (Acervo Abafilm).

#6 - O jornalista libanês que documentou a vida dos cangaceiros.

Figura responsável pelos mais preciosos registros iconográficos do Cangaço, Benjamin Abrahão Botto conheceu de perto, por vários meses, a rotina de diversos bandos cangaceiros, inclusive os dos notáveis Corisco e Lampião. Ele foi por muitos anos secretário de Padre Cícero em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará, até que com a morte do sacerdote em 1934, colocou em prática seu projeto mais ambicioso: filmar e fotografar Lampião e seu bando.

Se aproveitando da ligação de Lampião com Padre Cícero, Abrahão facilmente se aproximou do cangaceiro. Lampião era uma figura extremamente vaidosa, característica que o consolidava como Rei do Cangaço, se deixando acompanhar pelo jornalista. O material coletado ao longo de cerca de 2 anos (1936 e 1937) era de extrema preciosidade e foi recebido nas grandes metrópoles como um verdadeiro escândalo. O Cangaço era uma ofensa ao Estado Novo de Getúlio Vargas, que tratou de censurar e confiscar o registro de Benjamin. 

“As fotos e filmes de Benjamim eram um atestado da incompetência das forças policiais e uma afronta ao Palácio do Catete”
Frederico Pernambucano de Mello

O sírio-libanês Benjamin Abrahão trouxe a público relatos detalhados sobre a rotina e características dos bandos cangaceiros, o que pode ter sido nocivo à estratégia dos bandos, cada vez mais combatidos em esfera interestadual. Em menos de três anos a maior parte dos principais bandos foi desmantelada, inclusive com a execução de Lampião (1938) e Corisco (1940). O próprio Benjamin também teve seu fim em 1938 (dois meses antes da morte de Lampião e seu bando), vítima de nada menos que 42 facadas em um assassinato até hoje não esclarecido. Segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello, a mesma força que matou Lampião, matou Benjamin: o desmoralizado Estado Novo. 

“Antes que o Estado Novo espatifasse o sistema de poder do sertão, era alto negócio para qualquer fazendeiro comercializar com o cangaceiro. O Estado Novo acabou com esse colaboracionismo. A morte de Benjamin foi, sobretudo, uma queima de arquivo histórica.
Frederico Pernambucano de Mello
Cangaceiro Barreira posa junto à cabeça de seu ex-companheiro de bando, Atividade, como prova de lealdade à volante. 

#7 - Um cerco que se fechava: a falência dos bandos e o fortalecimento do combate ao cangaço.

Com o passar dos anos, a forma que o Estado tratava o Cangaço era cada vez mais madura. A segunda metade dos anos 1930 foi especialmente difícil para os bandos cangaceiros. Um a um, os criminosos iam sucumbindo ou se entregando em troca da anistia. O marco do fim dos tempos do Cangaço foi a emboscada que executou Lampião, Maria Bonita e diversos membros de seu bando. Suas cabeças foram expostas ao público em muitas cidades do Sertão nordestino.

“Naquela época, Lampião mobilizava grossos capitais. Travava com coronéis da região que financiavam seus roubos e recebiam parte do lucro. Seu bando era a imagem do sucesso da organização fora da lei."
Frederico Pernambucano de Mello

O fim do Cangaço foi causa direta da insatisfação com tamanha desmoralização do Estado Novo causada pelas imagens de Abrahão. Não só como atividade marginal, mas também como exemplo escancarado da corrupção de coronéis colaboradores, Cangaço era uma afronta a Getúlio Vargas e sua proposta ideológica. E sistematicamente pagou o preço da visibilidade que adquiriu.

Cadáver do cangaceiro Cirilo de Engrácia, morto por civis e usado como exemplo pela volante alagoana. A cabeça de Cirilo já havia sido decepada, foi recolocada para a foto. 1935. (Autor desconhecido/Acervo Sociedade do Cangaço).

Cabeças cortadas de membros do bando de Lampião, incluindo o próprio e sua parceira, Maria Bonita, mortos em uma emboscada em Porto da Folha, Sergipe. Elas foram expostas como troféu na escadaria da Prefeitura de Piranhas, no estado de Alagoas, este episódio simbolizou o fim dos tempos áureos do Cangaço. Foto de 1938 (Autor desconhecido/Acervo Sociedade do Cangaço).


Cabeças dos cangaceiros expostas em Santana do Ipanema/AL, 1938. (Autor desconhecido/Acervo Sociedade do Cangaço).

O médico legista Charles Pittex segura as cabeças mumificadas de Lampião e Maria Bonita, elas ficaram expostas por muitos anos na Faculdade de Medicina da Bahia, foto de 1939. (Autor desconhecido).

Fontes:
HOBSBAWM, E.J. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1969.
MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do sol – violência e banditismo no nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.
http://cebes.com.br/2014/07/a-historia-do-odio-no-brasil-por-fred-di-giacomo/
http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?id=1472857&tit=O-cangaco-segundo-Graciliano-Ramos
http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/a-morte-de-lampiao-9394818
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/um_sertanejo_das_arabias.html
http://www.ufrgs.br/gthistoriaculturalrs/marcosclemente.html
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,iconografia-do-cangaco-traz-revelacoes-sobre-lampiao,869874
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/sobrecultura/2013/05/entre-deus-e-o-diabo-1
http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL703549-5598,00-CONHECA+AS+SEIS+PRINCIPAIS+LENDAS+SOBRE+LAMPIAO.html

Bruno Henrique Brito Lopes 
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"Mandei matarem os estudantes e destruírem tudo"

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539394-qmandei-matarem-os-estudantes-e-destruirem-tudoq


"Mandei matarem os estudantes e destruírem tudo"

Os 43 estudantes da Escola Normal Rural da Ayotzinapa deixaram o mundo dos desaparecidos e entraram oficialmente no dos mortos. Na terça-feira, as autoridades mexicanas concluíram, já sem indício de dúvida, que os jovens foram capturados, assassinados e incinerados. E tudo por uma terrível confusão: os pistoleiros de Guerreros Unidos acreditavam que eram integrantes de um cartel rival, Los Rojos.
A reportagem é de Jan Martínez Ahrens, publicada pelo jornal El País, 28-01-2015.
A conclusão, inteiramente rejeitada pelas famílias, abre caminho para o encerramento de um caso que convulsionou o país como poucos na história recente e cuja persistência nas primeiras páginas, alimentada por dúvidas sobre a investigação oficial, fez dele um hóspede incômodo para o Executivo. Um foco de erosão e protesto diante do qual o presidente, cuja popularidade chega a mínimos históricos, decidiu virar a página: “Estou convencido de que este instante, este momento da história do México, de sofrimento, tragédia e dor, não pode nos deixar imobilizados; não podemos ficar aí”.
JAN MARTÍNEZ AHRENS
Pai de uma das vítimas, no lixão onde estudantes foram mortos. / SAÚL RUIZ
Neste novo capítulo da tragédia de Iguala teve um papel fundamental a recente detenção do Felipe Rodríguez Salgado, também conhecido como El Cepillo. O pistoleiro de Guerreros Unidos, líder de uma célula de 10 criminosos, foi o homem que, segundo confissão própria, recebeu de seu chefe a instrução de liquidar os estudantes. O núcleo de sua horripilante declaração fala por si: “Chucky [seu chefe] me telefonou para dizer que iam me entregar dois pacotes com detidos e que eram de Los Rojos […] Eram entre 38 e 41, não contei; alguns vinham amarrados com cordas ou algemados, e outros espancados e ensanguentados […]. Ao chegar ao lixão de Cocula, descemos os estudantes das caminhonetes. Percebi que alguns, os que estavam por baixo, já tinham morrido, acredito que por asfixia. Continuavam vivos 15 a 18 estudantes[…]. Mandei El Pato se encarregar de tudo, interrogar, dar um fim neles e destruir tudo […]. El Pato já tinha deitado quatro no chão e deu um tiro na nuca deles”.
Com essa explosiva confissão na mão, o Governo mexicano decidiu pôr ponto final nas especulações sobre a tragédia deIguala. Para isso, pôs diante das câmaras o procurador-geral, Jesús Murillo Karam, e o diretor da Agência de Investigação Criminal, Tomas Zerón. Ambos repassaram minuciosamente as investigações efetuadas: 487 relatórios periciais, 386 declarações, 99 detidos, 95 telefones celulares investigados, 14 registros… Dessa bateria de provas destacaram os restos ósseos (um deles identificado pelo DNA como pertencente ao normalista Alexander Mora Venancio), os vestígios da fogueira que supostamente consumiu os cadáveres, as confissões dos pistoleiros e dos agentes municipais, os reconhecimentos dos sobreviventes, assim como as conexões e localizações dos telefones celulares naquela noite. Tudo isso permitiu oferecer um quadro final, “uma verdade histórica” do ocorrido, e que, em essência, corresponde à reconstrução oficial conhecida desde novembro passado.
Relato do horror
O relato começa na tarde de 26 de setembro, quando os normalistas entraram em Iguala (Guerrero) com a intenção de arrecadar recursos para suas atividades e tomar à força quatro ônibus para participar dos atos em memória da matança deTlatelolco na Cidade do México. Sua chegada a uma localidade dominada pelo cartel de Guerreros Unidos não passou inadvertida. Os falcões alertaram seus chefes, entre eles o próprio prefeito e sua esposa, dois importantes integrantes da organização criminosa. A ordem de pará-los terminou em loucura. A Polícia Municipal de Iguala, um terminal do narco, iniciou uma feroz perseguição que deixou seis mortos sobre o asfalto e permitiu a captura de 43 estudantes aterrorizados. Para apagar rastros, colocou-os nas mãos dos agentes do município vizinho de Cocula, igualmente corruptos. Os pistoleiros estavam convencidos de que entre os estudantes havia membros do cartel rival, Los Rojos. E da captura se passou ao extermínio. Os normalistas foram entregues aos pistoleiros em Lomas Del Coyote. Colocados em duas caminhonetes, foram levados para o depósito de lixo de Cocula. Empilhados como animais, um em cima do outro, a maioria chegou morta por asfixia. Os sobreviventes foram mortos com um tiro na nuca. Seus cadáveres foram incinerados em uma fogueira e os restos, sempre segundo essa versão, jogados em sacos de lixo no rio San Juan.
Em vista da abundância de testemunhos, a intenção governamental de virar a página vai ser difícil de cumprir. O próprio procurador-geral reconheceu que enquanto não forem detidos todos os envolvidos a investigação continuará aberta. Entre os foragidos estão os chefes de polícia de Iguala e Cocula e também os tenentes do Guerreros Unidos que deram a ordem de matar os estudantes. Seus testemunhos são peças-chave para esclarecer as últimas dúvidas. Entre elas, a fundamental: por que os pistoleiros acharam que os estudantes eram de um cartel rival. Murillo Karam assinalou que não há prova que indique a presença de infiltrados do narcotráfico entre os estudantes. E se é assim, o que ocasionou essa terrível confusão?
Tampouco será fácil para o Governo, em pleno ano eleitoral, restaurar a confiança. As famílias dos falecidos se distanciaram das teses oficiais. Para muitos deles, o Executivo carece de credibilidade e se nega a chegar ao final da trama. “Repudiamos a forma de atuação do Governo, pretendem encerrar o caso de maneira descarada, sem se importar com o dano que causam às famílias. Não bastam as declarações dos assassinos, queremos uma demonstração científica. Os pais continuam na luta”, assinalou o porta-voz das famílias, Felipe de la Cruz. “Na falta de informação detalhada, não podemos permitir que este caso seja encerrado de um dia para outro”, afirmou o representante dos normalistas, David Flores.
Em meio à tempestade, alguns veículos de imprensa chegaram a apontar a responsabilidade do Exército e da Polícia Federal na matança. Uma acusação desmentida pelas autoridades mexicanas. Mas a fogueira dificilmente se apagará. Os protestos pela tragédia de Iguala continuam reunindo milhares de pessoas e, em um país que se viu sacudido em poucos meses por uma sucessão de escândalos nas mais altas esferas, qualquer fagulha pode aprofundar a crise.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Batalha de Argel: Um fantasma sempre presente

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/A-Batalha-de-Argel-Um-fantasma-sempre-presente%0a/39/32706


A Batalha de Argel: Um fantasma sempre presente

A 'Batalha de Argel' mostra como muitos dos problemas que a Europa está precisando resolver hoje são consequência do seu passado colonial.


Léa Maria Aarão Reis
reprodução
Não há, praticamente, crítico de cinema nem jornalista de editoria internacional que não tenha escrito, ou ao menos não conheça o filme do italiano Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel (1966/Premio Leão de Veneza), um dos clássicos mais admirados do cinema político.
 
Do ponto de vista estrito, cinematográfico, o filme de Pontecorvo é obra prima de agilidade, ritmo, clareza e beleza plástica. É resultado da admirável fotografia rústica, preto-e-branco, utilizada propositadamente para sublinhar a natureza dos cine jornais da época, da trilha musical perfeita de Enio Morricone e do roteiro emocionante que equilibra diálogos esclarecedores para o leigo com as cenas e sequências memoráveis, das ações da Frente Nacional de Libertação da Argelia (a FLN) nas ruas, nos anos 50/60, e do povo árabe na luta para se libertar da opressão e da expropriação das suas terras. Uma colonização francesa que durou 130 anos.
 
Tão contundente, volta e meia a situação mostrada pelo filme é evocada como consequência do mundo Sykes-Picot*, o período histórico da década dos anos 30 do século vinte, no qual as grandes potências ocidentais, França e Inglaterra, decidiram, numa cruel e insolente ação entre amigos, dividir o Oriente árabe e a África entre si, ao bel prazer dos interesses econômicos das suas corporações.

Aí, a origem de todo tipo de terrorismo, seja de estado e das mais variadas formas de fundamentalismo, reconhecida, dez anos atrás, até por um ministro britânico reacionário, das Relações Exteriores, Jack Straw. Candidamente ele declarou: “Muitos dos problemas que estamos precisando resolver, hoje, são consequência do nosso passado colonial”.

La Batagllia dei Argeli mostra o confronto entre os árabes e as forças militares francesas. Entre elas, oito mil  paraquedistas, os pará, com experiência na Indochina e na resistência aos nazistas, na Normandia e na Itália, como se vê no relato. Desembarcaram em Argel em 1957.

“Entre eles, as brigadas dos temíveis ‘leopardos’ que lutariam para manter a ‘França africana” – ou como diziam os generais enviados para lá: ‘Para proteger as pessoas e a propriedade privada’ – ou seja, as terras roubadas dos árabes – e para isolar e destruir a Frente Nacional de Libertação.

Mas a independência do país só ocorreu em 62. Apenas quatro anos depois, ainda sob o calor das lutas sangrentas, Pontecorvo fazia seu filme baseado no livro de Saadi Yacef, Lembranças da Argélia.

Robert Fisk, um dos mais respeitados jornalistas europeus, correspondente de experiência notável, que vive no Líbano e é um dos melhores conhecedores e analistas da história do mundo árabe, conta (inclusive, aqui, em Carta Maior) que quando ouviu as primeiras notícias sobre o massacre aos jornalistas do Charlie Hebdo, imediatamente murmurou para ele próprio: ”Argélia...” Horas depois foram divulgadas as identidades dos assassinos: os irmãos Chérif e Said Kouachi eram de origem argelina.

E mais: a pensar na idade da dupla, na casa dos 30 anos, deveriam ser filhos de cidadãos que presenciaram ou participaram das ferozes lutas pela independência argelina relatadas no filme, quando o terrorismo de ambas as partes era usado como recurso de dissuasão. Os pais dos Chérife poderiam, talvez, ter imigrado para a França por volta dessa época. Pouco ou nada se conhece sobre a origem mais remota dos dois, exceto informações sobre a infância em um orfanato francês.

Parece, realmente, que uma ferida não fecha, 53 anos depois da independência do país do norte da África, entre a França e a Argélia, como aponta Fisk. Um fantasma ronda, relembrando o terror continuado das bombas carregadas em suas sacolas pelas mulheres árabes da Casbah de Argel e detonadas nos cafés franceses do bairro europeu - onde se dançava cumbias ao som das juke Box - e o terror de milícias e militares, até nas ruas de Paris não só contra argelinos, mas contra os árabes em geral.

Os alvos, às vezes, eram marroquinos, caso do célebre episódio em que o dirigente de esquerda Ben Barka foi sequestrado, anos depois, já em 65, defronte de um cinema, em pleno dia, no Boulevard Saint Germain. Depois, foi assassinado. O corpo nunca foi encontrado. O atentado é atribuído aos agentes secretos franceses com a colaboração do Mossad e da CIA.

O vigor de A Batalha de Argel é tal que, através dele, as lembranças emergem.

O filme se inicia em 1954, primeiros tempos da organização da FLN entre os moradores da Casbah. Mostra como ela ocorreu. O uso do álcool e das drogas era usado livremente e estimulado pelos colonizadores para controlar melhor a população dos 400 mil cidadãos árabes da cidade. Mesma estratégia usada pelos ingleses com as populações chinesas e seus vizinhos durante a Guerra do Ópio.

Sete atentados por dia era o saldo da violência na capital argelina. Bombas explodiam as residências de prisioneiros com suas famílias dormindo dentro delas. Cercos policiais montados com check points faziam a vida miserável no bairro transformado em gueto. Começava a chamada Operação Champanha. Em resposta, os da FLN retaliavam, fuzilavam e esfaqueavam policiais. Muitos dos apanhados eram guilhotinados.

Pouco a pouco os árabes promovem uma limpeza entre habitantes da Casbah. Nesta segunda parte do filme, vemos como se formando forte e organizada resistência e consciência política.

Alguns aspectos, sempre oportunos, são sublinhados no filme de Pontecorvo:

- O voto da ONU pela não-intervenção de forças de paz na Argélia. A guerra se prolongava e se tornava uma chacina. Discutiu-se a questão argelina e votou-se a favor dos franceses.

- A importância do papel da imprensa de Paris escondendo ou deturpando fatos que não eram de interesse do governo francês divulgar. “Muito depende do que vocês escreverem”, dizia o coronel Mathieu, o insolente comandante dos paraquedistas, nome fictício para o general Jacques Massu** (de triste memória), nas muitas entrevistas coletivas convocadas, se referindo à vitória. “Escrevam bem,” ele exortava. No dia seguinte as manchetes dos jornais franceses diziam: “Tudo calmo no bairro muçulmano.” Era mentira. Mathieu/Massu declarava: ”A palavra tortura não consta das nossas ordens...”

- As técnicas sistematizadas de torturas de prisioneiros depois exportadas para os Estados Unidos, América do Sul e para o Brasil. Afogamentos, choques elétricos, queimaduras com maçaricos, pau-de-arara. Torturas promovidas nas residências dos árabes sob as vistas das famílias.

- E a sequência final de A Batalha de Argel com cenas antológicas de rebelião popular. Desde 11 de dezembro de 1960 até o dia 29 do mesmo mês a população árabe não deixou as ruas embora muitos tenham sido metralhados e esmagados pelos tanques. Milhares de bandeiras do país, com o símbolo da meia lua e da estrela foram feitas de retalhos, trapos, com qualquer pedaço de pano encontrado. “Tudo virou bandeira!” anunciavam os cine jornais e as emissões de rádio. Agitadas na brisa marinha do céu da Casbah e, depois, de toda a cidade, elas são uma visão emocionante no filme.

Em 1962, foi, enfim, dada a resposta à pergunta que Mathieu/Massu costumava fazer aos jornalistas nas arrogantes entrevistas em que negava praticar a tortura: “A FLN quer nos ver fora da Argélia e nós queremos ficar. E vocês?” Os franceses tiveram que sair.

Robert Fisk pode ter mesmo razão: há ainda contas a ajustar entre a França e a Argélia? Quanto permanece de ressentimento pelo passado violento para ambas as partes? Entre os pieds noirs,*** obrigados a devolver as terras que tinham sido confiscadas aos árabes e retornar à Europa, e os habitantes do interior, das montanhas argelinas, e os da Casbah de Argel que se viram obrigados a imigrar?

*Os diplomatas Mark Sykes e François Georges-Picot arquitetaram um ‘novo’ Oriente Médio, depois da I Guerra Mundial, desenhando linhas arbitrárias de fronteiras e criando vários países árabes que não existiam antes. Ver aventuras de T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia.


**Massu declarou ao Le Monde em 2000: “ O mais duro de suportar foi o fato de meu nome ficar para sempre associado à tortura.” Ficou.


***Descendentes de colonos europeus, em particular de franceses, que regressaram aos seus países depois das guerras de independência do norte da África.
 

 


Créditos da foto: reprodução