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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Deus acima de (quase) todos

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Deus acima de (quase) todos

"As Forças Armadas conhecem o valor estratégico da Amazônia. Deveriam unir-se ao papa e a toda a sociedade na busca de soluções para seu desenvolvimento sustentável em vez de ressuscitar antigas paranoias", escreve Carlos Rittl, ambientalista e integrante do comitê de coordenação do Observatório do Clima, em artigo publicado por El País, 15-02-2019.

Eis o artigo.

“Agora nós falamos em Deus”, escreveu o chanceler brasileiro Ernesto Araújo, num famoso artigo em que atribui a crise brasileira ao fato de as pessoas não conversarem sobre o Altíssimo em público. A julgar pelo noticiário recente, o próximo édito do nosso ministro terá como título: “Agora nós espionamos Deus”. Ou pelo menos um de seus representantes na Terra, o papa Francisco.
Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo no último dia 10 mostrou como o general Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidênciainiciou uma cruzada para “neutralizar” o Sínodo da Amazônia, um encontro de bispos católicos convocado pelo papa para discutir a situação da floresta e de seus povos, em outubro.
Segundo o jornal, arapongas da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) estão sendo mobilizados para monitorar reuniões de paróquias em preparação para o Sínodo. A tese dos militares é que a Igreja Católica é um refúgio da “esquerda” e uma espécie de braço celestial do PT, pronta para usar o palco internacional para criticar a política de Jair Bolsonaro para a Amazônia. Diante da repercussão do caso, o GSI soltou uma nota tranquilizadora, só que não: “não estamos espionando a Igreja Católica”. Dá quase para ver a piscadinha marota do Didi Mocó lendo o comunicado.
Se fossem um pouquinho menos ideológicos e um pouquinho menos obcecados em encontrar perigosos comunas armando uma revolução atrás de cada moita, os militares entenderiam que ninguém precisa espionar os padres. Afinal, o que a Igreja e o papa querem para a Amazônia é basicamente a mesma coisa que Bolsonaro prometeu instituir no país: lei e ordem. As agendas do quartel e da Santa  são bastante convergentes.
A pergunta que ronda os solidéus dos bispos, e que deveria igualmente tirar o sono dos militares, é por que a Amazônia vive à margem da lei. A região Norte foi a que teve o maior crescimento no número de homicídios na última década, segundo o Atlas da Violência do IBGE.
violência no campo, em decorrência de conflitos por terra, retornou a patamares da década de 1980; em 2017, segundo a Comissão Pastoral da TerraRondônia e Pará concentraram 54% dos 70 assassinatos no campo no Brasil. A Abin empregaria melhor seus agentes no mapeamento desses conflitos e na prevenção dessas mortes.
O crime organizado está por trás de uma fatia significativa do desmatamento na floresta. Em 2018, 59% do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou em áreas públicas griladas. Há quadrilhas especializadas em roubo de madeira e quadrilhas especializadas em invadir terra pública, com ajuda da melhor tecnologia de sensoriamento remoto, pôr a floresta abaixo —usando trabalho escravo—, forjar títulos e vender a área para pecuaristas e agricultores que sempre poderão alegar que não sabiam de nada.
desmatamento gera emissões de carbono — 46% das emissões do Brasil em 2017 vieram da destruição das florestas—, que por sua vez agravam o aquecimento do planeta, pondo em risco o que o papa chamou de “casa comum”. Como já disse o ecólogo Tom Lovejoy, esta é verdadeira internacionalização da Amazônia: transformar a floresta em fumaça, que polui o mundo todo.
E, o que é pior, sem gerar riqueza. O PIB do agronegócio brasileiro subiu 75% e a produção de carne e soja na Amazônia cresceram no período em que o desmatamento na floresta caiu 80%, entre 2004 e 2012. O presidente Bolsonaro, em sua investida míope e mal assessorada contra terras indígenas e proteção ambiental, não está ajudando o agronegócio; está criando-lhe um problema sério de imagem. Os generais, que tiveram mais estudo sobre estratégia que o capitão, deveriam aconselhá-lo melhor.
Igreja tem justa preocupação com o desmatamento, que é uma agenda para além de inclinações ideológicas. O carbono, afinal, não é de esquerda, nem de direita. Como o aquecimento da Terra acarreta problemas sérios de segurança nacional e internacional —cada um dos generais que está no Governo lê atentamente estudos sobre o tema produzidos pelo Pentágono—, o desmatamento deveria estar também no alto da lista das preocupações dos militares. Aliás, como o general Heleno vai também lembrar, o desmatamento na Amazônia começou a cair em 2005, quando o Exército ocupou o sul do Pará após o assassinato da irmã Dorothy Stang.
As organizações criminosas que promovem a devastação da Amazônia são um desafio permanente à soberania do Brasil sobre vastas porções da floresta e ameaçam cerca de 70 milhões de hectares de terras pertencentes ao Estado brasileiro e ainda não destinadas. O Ibama e a PF certamente adorariam ter a ajuda da Abin para desbaratar essas quadrilhas.
Por fim, grande parte das mazelas da Amazônia tem a mesma origem que as chagas do resto do Brasil e também preocupa a Santa Madre: a corrupção. Além de ser o lubrificante da atividade criminosa do roubo de terras e de madeira, a corrupção tem-se revelado peça central do planejamento de infraestrutura esdrúxula na Amazônia, como as usinas do Madeira e de Belo Monte.
Jair Bolsonaro foi eleito por um contingente significativo de brasileiros que queriam dar um basta à corrupção e ao crime. Combater esses males no restante do país e deixar a Amazônia entregue a eles não faz nenhum sentido. As Forças Armadas conhecem o valor estratégico da Amazônia. Deveriam unir-se ao papa e a toda a sociedade na busca de soluções para seu desenvolvimento sustentável em vez de ressuscitar antigas paranoias.

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domingo, 14 de junho de 2015

Papa lamenta grilagem de terras por multinacionais e Estados

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Papa lamenta grilagem de terras por multinacionais e Estados

Francisco estava se referindo a uma situação comum na África, onde países como a China exploram vastas áreas para exportar comida para seu próprio mercado.


mst.org.br
Raffaele Esposito / flickr
O papa Francisco denunciou nesta quinta-feira a grilagem de terras em países pobres por empresas multinacionais e de outros Estados, recomendando fortemente o apoio à agricultura familiar de subsistência, ao receber uma delegação da conferência da FAO.

"A grilagem de terras cultiváveis por empresas transnacionais e Estados continua a preocupar. Não só priva os agricultores de um bem essencial, mas atinge diretamente a soberania dos Estados. Em muitas áreas, os produtos alimentícios vão para no exterior e a população local se vê empobrecida duplamente porque não tem nem comida, nem terra", ressaltou.

Francisco estava se referindo a uma situação particularmente comum na África, onde países como a China exploram vastas áreas para exportar comida para seu próprio mercado.

A FAO precisa "fortalecer projetos em favor das empresas familiares e estimular os Estados a regular de maneira justa o uso e posse da terra", disse, denunciando o fato de que "em muitos países, as mulheres não podem possuir a terra que trabalham".

"No Sul a produção local é substituída por mercadorias provenientes do estrangeiro, mesmo com a ajuda. A ajuda de emergência é insuficiente e nem sempre acaba em boas mãos. Isso cria uma dependência dos grandes produtores".

Em registros que anunciam sua encíclica muito aguardada sobre a ecologia humana, "Laudato se", a ser publicada em 18 de junho e que terá acentos tanto éticos quanto sociais, o Papa argentino falou de "educação para a nutrição adequada, o desperdício de alimentos que ocorre com um terço dos produtos alimentares e o uso não-alimentar dos produtos agrícolas, para alimentação animal e biocombustíveis".

Um grande compromisso da comunidade internacional é necessário, de acordo com Francisco, para "mudar estilos de vida". "A sobriedade não se opõe ao desenvolvimento, mas tornou-se sua condição."

O Papa recebeu no Vaticano os participantes da 39ª Conferência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que está sendo realizada em Roma.


Créditos da foto: Raffaele Esposito / flickr

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sínodo. Uma mudança impressionante

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536281-uma-mudanca-impressionante-artigo-de-james-martin

Sínodo. Uma mudança impressionante

"O Sínodo disse que os gays têm "dons e talentos para oferecer à comunidade cristã". Isso é algo que até poucos anos atrás seria impensável, até mesmo por parte dos prelados mais mente aberta", escreve o padre jesuíta James Martin, redator da revista America, dos jesuítas dos EUA.
O artigo foi publicado na revista America, 13-10-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
Eis o artigo.
O Sínodo dos bispos emitiu um documento que representa uma mudança surpreendente na maneira que a Igreja Católica fala sobre a comunidade LGBT.
O Sínodo disse que os gays têm "dons e talentos para oferecer à comunidade cristã." Isso é algo que até poucos anos atrás seria impensável, até mesmo por parte dos prelados mais mente aberta - isto é, uma declaração completa de louvor pela contribuição de gays e lésbicas, sem ressalvas e nenhuma menção reflexiva de pecado. E, sobre os parceiros do mesmo sexo, o documento do Sínodo declarou, curiosamente, "Sem negar os problemas morais relacionados às uniões homossexuais cabe-se notar que há casos em que a ajuda mútua, a ponto de sacrifício, constitui um apoio precioso na vida dos parceiros". Um documento da Igreja que elogia os "parceiros" homossexuais de qualquer forma (e até mesmo usar a palavra "parceiros") é surpreendente.
O Sínodo também faz perguntas, desafiando dioceses e paróquias: "Os homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã: somos capazes de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço fraterno em nossas comunidades? Muitas vezes, eles querem encontrar uma Igreja que ofereça-lhes um lar acolhedor. As nossas comunidades sãoo capazes de oferecer isso, aceitando e valorizando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?".
Isso representa uma mudança revolucionária na maneira como a Igreja se dirige à comunidade LGBT. Em nenhum lugar do documento encontram-se termos como "intrinsecamente desordenados", "objetivamente desordenada", ou até mesmo a ideia de "amizades desinteressadas" entre gays e lésbicas, como foi usado recentemente. O veterano vaticanista John Thavisjustamente chamou o documento de um "earthquake", um "terremoto".
O documento do Sínodo também se voltou para várias outras questões importantes relacionadas com as famílias, incluindo o controle de natalidade, aqui lembrando a Igreja da "necessidade de respeitar a dignidade da pessoa, na avaliação moral dos métodos de controle de natalidade", isto é, a necessidade de respeitar a consciência pessoal do indivíduo. E o documento do Sínodo recomendou a ideia da "gradualidade" quando tratou da "coabitação".
O documento é apenas o resumo do ponto médio das reuniões dos bispos durante a última semana, e não é uma declaração final. (Além disso, o Sínodo tem mais uma sessão no próximo ano, para somente depois o Papa Francisco emitir sua exortação apostólica final, que será o seu próprio ensinamento sobre as deliberações do Sínodo). Mesmo assim, ele ainda é revolucionário, como foram alguns dos comentários dos participantes durante a coletiva de imprensa na segunda-feira. Claramente, o apelo do Papa Francisco na abertura do Sínodo tem possibilitado aos bispos ouvir atentamente, falar o que pensam e estar abertos a novas maneiras de pensar. Como foi o caso no Concílio Vaticano II, os participantes podem ter ido para esse Sínodo sem esperar muita abertura ou alteração, mas o Espírito Santo está em ação.

sábado, 4 de outubro de 2014

A hipocrisia dos candidatos à presidência frente ao casamento gay

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/535814-a-hipocrisia-dos-candidatos-a-presidencia-frente-ao-casamento-gay


A hipocrisia dos candidatos à presidência frente ao casamento gay

"Os hierarcas católicos e evangélicos deveriam analisar seus preconceitos contra o matrimônio religioso dos gays e lésbicas à luz dessa nova abertura que começa a se dar no próprio coração do cristianismo", afirma Juan Arias, colunista, em artigo publicado pelo jornal El País, 30-09-2014.
Eis o artigo.
Todos os presidenciáveis estão escorregando numa grande hipocrisia em relação ao casamento de pessoas do mesmo gênero, gays ou lésbicas, por medo de perderem votos entre católicos e evangélicos. Uma hipocrisia que é uma contradição com os novos caminhos que o papa Francisco, por exemplo, está abrindo na Igreja Católica, ao se tornar o primeiro sucessor de Pedro a admitir: "Quem sou eu para julgar os homossexuais?".
Os candidatos se escudam no medo de perder os votos de católicos e evangélicos, e assim parecem temerosos de revelarem o que fariam, se conquistarem a Presidência, com um tema tão delicado e atual como o do novo tipo de família que está nascendo no mundo, no qual uma criança pode ter dois homens como pais ou duas mulheres como mães.
O Brasil é um país fundamentalmente crente e concretamente cristão, já que católicos e evangélicos, somados, constituem 80% da população. E não se pode ignorar – como sabe muito bem, por exemplo, a candidata Marina Silva, que já foi católica e hoje é evangélica pentecostal – que todas essas Igrejas, chamem-se protestantes ou evangélicas, têm suas raízes e origens no cristianismo. O "Livro" de ambas as confissões é a Bíblia, o Antigo e o Novo Testamento. E o personagem que as Escrituras anunciam é Jesus de Nazaré, o profeta revolucionário e dotado de compaixão, mais misericordioso que uma mãe, como já anunciava antes de sua existência o profeta Isaías.
No caso do papa Francisco, ele sacudiu o velho destempero da Igreja Católica contra os homossexuais ao retornar às origens históricas do cristianismo e aos escritos dos Evangelhos, quando declara que não os julga. Foi ele também quem pela primeira vez lembrou à Igreja que hoje, na sociedade moderna, existem "novas formas de família", referindo-se tanto às uniões dos divorciados como às dos homossexuais.
Isso fez os teólogos pensarem que o papa Francisco poderia estar cogitando a hipótese de autorizar a Igreja a "abençoar" também uniões que não sejam as tradicionais entre homem e mulher, mas que desejem se transformar em verdadeiros lares, onde meninos e meninas adotados possam ser acolhidos como filhos.
Toda a grande discussão na Igreja sobre a possibilidade ou não de conceder o sacramento do matrimônio a casais do mesmo sexo apoiou-se até agora no fato de que, para ela, tais casais ou famílias podem gozar de todos os direitos civis dos casais ditos "normais", mas sem poder receber o sacramento ou a bênção da Igreja. Alegam que o sacramento cristão do matrimônio foi legislado em toda a tradição da Igreja só para abençoar e consagrar a união entre um homem e uma mulher.
É verdade isso? Historicamente, não. O conceito de sacramento na Igreja nasce muito tarde: no século XII. Decorre de uma ideia mais jurídica e de controle de poder do que das origens do cristianismo.
São Bernardo, no século XII, reconhece só três sacramentos, e no século XIV, em vez dos sete atuais, existiam até 30, entre eles o simples enterro de um cristão.
Não existe nenhuma certeza de que Jesus instituíra ou reconhecera o sacramento do matrimônio. E, dos sete sacramentos atuais, o matrimônio é o mais fácil de ser revisto pela Igreja Católica, pelo fato de ser o único sacramento que não é administrado pelo sacerdote ou ministro da Igreja. Desde as origens dos sacramentos, no matrimônio "os que se casam" são os cônjuges. Não é o sacerdote quem os casa, pois ele neste caso é uma simples "testemunha". Poderiam portanto, teoricamente, se casar perante um leigo e receber igualmente a graça do sacramento. Algo que não ocorre com os outros sacramentos, com o que não existiriam nem a eucaristia nem a penitência. Durante muitos séculos, os cristãos que desejavam se casar se limitavam a avisar a comunidade, sem necessidade de irem até um sacerdote ou bispos.
Ou seja, na Igreja, o sacerdote possui o poder, por exemplo, de consagrar ou de perdoar pecados, mas ele não casa ninguém. São os noivos que se casam e de alguma forma se administram entre si o sacramento.
Tudo isso para entender como a abertura do papa Francisco, eliminando incrustações do poder temporal herdadas de quando os imperadores romanos transformaram a Igreja, antes perseguida, em braço armado do seu poder, tenta devolvê-la à simplicidade de suas origens. Por isso, poderia muito bem chegar a aceitar o sacramento do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, se seus protagonistas forem considerados cristãos e desejarem iniciar a formação de uma família com a bênção sacramental da Igreja.
Os hierarcas católicos e evangélicos deveriam analisar seus preconceitos contra o matrimônio religioso dos gays e lésbicas à luz dessa nova abertura que começa a se dar no próprio coração do cristianismo.
Francisco, o papa de quem se diz ser o personagem que hoje mais recorda o profeta Jesus de Nazaré em sua ideia de compreensão e amor universal, que abraça todas as diferenças não só de gênero, mas também, inclusive, de credo religioso, está escandalizando uma parte da Igreja tradicional para a qual continua sendo mais importante o Direito Canônico, a lei, do que a misericórdia que goteja dos evangelhos. Uma misericórdia que o fundador do cristianismo, em quem hoje continuam se inspirando católicos e evangélicos, ostentava ao se misturar a toda a ralé do seu tempo, a todos os desprezados por serem diferentes, das prostitutas às adulteras.
"Ninguém te condena?", disse ele à mulher flagrada em pleno adultério e arrastada até ele, porque a lei exigia que fosse apedrejada. "Ninguém, rabino." E Jesus: "Pois eu tampouco te condeno. Vá em paz".
Se Jesus perdoou uma mulher que tinha cometido adultério e chegou a exaltar as prostitutas, escandalizando os doutores da sua Igreja, negaria hoje a bênção ou o sacramento do matrimônio a dois homens ou duas mulheres que de coração e por amor desejem criar uma família?
Estamos, portanto, do ponto de vista do medo dos presidenciáveis de se comprometerem com o tema dos homossexuais, perante uma hipocrisia e até uma desinformação sobre os novos caminhos que a própria Igreja Católica está abrindo neste momento.
E os evangélicos deveriam recordar – já que eles também têm Jesus como referência, possivelmente até mais que os católicos, pois escrevem seu nome em todas as partes, até na traseira dos caminhões – que esse Jesus era o amigo de todos os diferentes e perseguidos, que abençoava o amor que fosse, sem distinções de gênero, e não negava sua bênção a ninguém.
Sua única lei era o "amai-vos"; sua única constituição, a indulgência; e seu credo, o perdão. Seu maior adversário foi o poder do seu tempo, que o crucificou por não suportar que abençoasse aqueles que a sociedade segregava, abandonando-os nas sarjetas do esquecimento.
Hoje, Jesus estaria ao lado e contra qualquer discriminação de gênero. Que não se esqueçam disso os crentes, nem aqueles que nestes dias brigam para tomar em sua mão o centro do poder. E ainda mais se esses candidatos já passearam por templos e catedrais se ajoelhando para serem abençoados, na esperança de não perder ou de ganhar votos.
Esse Jesus, venerado em igrejas e templos, cunhou uma frase terrível contra os hipócritas de plantão, que continua ressonando atual, 2.000 anos depois. Chamou-os de "lobos em pele de cordeiro".

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O ambientalismo radical do Papa Francisco

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O ambientalismo radical do Papa Francisco

A exploração da terra "é o nosso pecado", diz o pontífice.
O artigo é de Tara Isabella Burton, publicada na revista The Atlantic, 11-07-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
No dia 5 de julho, o Papa Francisco fez algo discretamente revolucionário. Em uma palestra na universidade italiana deMoliseFrancisco caracterizou as preocupações com o meio ambiente como "um dos maiores desafios da nossa época", um desafio que é teológico, bem como político, por natureza. "Vejo a América (...) tantas florestas, todas cortadas, que se tornaram terra de cultivo (...) que não podem mais dar vida", refletiu ele, citando as florestas da América do Sul, em particular. "Este é o nosso pecado, explorar a Terra. (...) Esse é um dos maiores desafios da nossa época: converter-nos a um desenvolvimento que saiba respeitar a criação". E o pontífice não termina aí; ele está planejando lançar uma encíclica ou carta papal, sobre a relação do homem com o meio ambiente.francis-environ
É fácil ser simplista sobre as observações de Francisco - poucas pessoas enxergam o corte das florestas tropicais da Amazônia como um desenvolvimento encorajador. E um papa que defende a proteção ambiental não é algo inteiramente novo; afinal, o The Guardian apelidouBento XVI de o "primeiro pontífice verde" por seu trabalho nessa área. Mas, ao caracterizar a destruição do meio ambiente não apenas como um pecado, mas sim como o nosso pecado, o maior pecado dos tempos modernos, o papa está fazendo mais do que condenar a inação pública sobre as questões ambientais.
Por delimitar uma posição ferozmente pró-ambientalista, embora limitando o seu discurso sobre questões polêmicas como a homossexualidade, Francisco está usando seu púlpito para moldar ativamente o discurso público sobre a natureza da criação (de fato, as questões ambientais fizeram parte de sua primeira missa papal). Ao fazê-lo, ele está implicitamente endossando uma visão surpreendentemente positiva da relação do indivíduo com o mundo criado e, com ele, uma visão profundamente otimista do que significa ser humano - e encarnado - de maneira geral, abrindo a porta para uma mudança radical de ênfase, embora não de doutrina, quando se trata da visão da Igreja Católica da humanidade.
A visão cristã da relação do indivíduo com a natureza - a "criação", assim chamada no contexto teológico - tem tradicionalmente girado em torno de interpretações da exortação em Gênesis 1, 28: "E Deus os abençoou e lhes disse: 'Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra'".
Muitos citam a ideia de domínio para justificar uma visão antropocêntrica do mundo, em que a natureza existe apenas para fornecer ao homem a sua generosidade - uma posição que, muitas vezes, é mais prevalecente nos círculos evangélicos, especialmente nos Estados Unidos.
Alguns tipos de legislação, como a Louisiana Science Education Act [Lei sobre o Ensino de Ciências] do estado deLouisiana, nos Estados Unidos, que visa a adoção de um currículo "equilibrado" (leia-se: negação das mudanças climáticas) sobre a mudança ambiental nas escolas, tem recebido o apoio de organizações como o grupo criacionistaDiscovery Institute e o grupo cristão de defesa da liberdade religiosa, Alliance Defending Freedom. A Cornwall Alliance, cuja declaração foi assinada por luminares da direita religiosa, lançou uma série de 12 vídeos em 2010, intitulada "Resisting the Green Dragon" [Resistindo ao Dragão Verde], sobre os perigos do ambientalismo.
Essa perspectiva, no entanto, não está limitada aos protestantes. Considere-se o político católico Rick Santorum, que, em uma cúpula sobre energia, em 2012, no Colorado, rejeitou a ameaça das mudanças climáticas. "Nós fomos colocados na Terra como criaturas de Deus para ter domínio sobre a Terra, para usá-la com sabedoria e custodiá-la com sabedoria, mas para o nosso benefício, não para o benefício da Terra", disse ele.
Tais posturas hostis sobre o ambientalismo estão enraizadas em uma questão muito mais profunda: em que medida deve o "eu" ser entendido como existente contra ou a favor da natureza? Em muitas tradições cristãs e, particularmente, entre a direita cristã, o indivíduo e o mundo criado estão em contradição - um produto da expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden e da declaração de Deus em Gênesis 3,17, "maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, você dela se alimentará com fadiga".
O ato do pecado original, em outras palavras, estabelece uma relação inerentemente combativa entre o homem e a natureza; qualquer conflito é parte do "plano de Deus". Como afirmou Elijah Dann, professor de religião e filosofia naUniversidade Simon Fraser, no Canadá, em um artigo no Huffington Post sobre a mentalidade evangélica, "de alguma forma, pensar que podemos corrigir as instabilidades climáticas é [visto como] uma negação do juízo de Deus contra a desobediência humana".
Além disso, qualquer tentativa de "consertar" o mundo natural é um esforço indesejável de mudar a ênfase da alma para o corpo. Como Dann escreve, "quando os cientistas nos anos 1970 estavam começando a se preocupar com o meio ambiente, eles eram vistos como se estivessem se engajando em uma forma secular de salvação - para salvar o planeta - e, como tal, eram uma afronta a Deus. A ênfase deve sim estar na salvação das almas". O secular e o sagrado estão, nessa visão de mundo, totalmente separados: concentrar em salvar o mundo físico é prejudicar a alma imortal.
Ainda assim, esse ponto de vista, embora muitas vezes expressado vocalmente no discurso político e teológico norte-americano, está longe de ser o único. Outra vertente do pensamento cristão interpreta a mesma referência ao "domínio" em Gênesis como uma exortação à "proteção". O mandamento representa tanto uma responsabilidade quanto um privilégio. Essa perspectiva tem produzido movimentos silenciosos de "cristianismo verde" nas últimas décadas, a partir da proliferação da ideia de "cuidado com a criação" entre os evangélicos, desde o Environment Justice Program iniciado pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos em 1993, aos comentários do Papa Francisco em sua missa inaugural de "sermos 'protetores' da criação, protetores do plano de Deus inscrito na natureza, protetores uns dos outros e do meio ambiente".
"Cada árvore, cada lagoa, cada membro de cada espécie é único e especial para Deus". A mentalidade de proteção promovida por Francisco surge de uma teologia mais ampla, que vê o mundo criado como inerentemente sagrado por ter sido feito por Deus.
A "queda" do mundo pode ter danificado a relação homem-natureza, mas o ideal pelo qual devemos trabalhar é o ideal da reconciliação. Tais interpretações também abraçam a ideia cristã da encarnação salvífica - que Cristo representa não apenas a Deus, em forma humana, mas, na verdade, Deus tornando-se homem. Se Deus pode entrar no mundo físico, segue a lógica, então o mundo físico é ainda mais sagrado (ou mesmo redimido do pecado original) por tal presença. A tradição católica franciscana - da qual o Papa Francisco busca não só inspiração, mas também de onde escolheu o seu nome - está enraizada nessa perspectiva.
Como escreveu Patrick Carolan, presidente da Rede de Ação Franciscana, no U.S. Catholic, "como parte da tradição franciscana, enfatizamos a 'hecceidade', a especialidade única de cada vida particular e de cada coisa inanimada, que é amada individual e particularmente por Deus. Cada árvore, cada lagoa, cada membro de cada espécie é única e especial para Deus".
Papa Francisco defende o seu apelo por uma ação ambiental, argumentando que "a criação não é uma propriedade que podemos governar à vontade; ou, menos ainda, é propriedade de apenas alguns: a criação é um dom, é um dom maravilhoso que Deus nos deu, para que nós cuidemos dela e a utilizemos para o benefício de todos, sempre com grande respeito e gratidão".
movimento cristão ecofeminista, que se desenvolveu a partir de perspectivas feministas e "mulheristas" no campo da teologia, também floresceu tanto no pensamento protestante como no pensamento católico. Algumas ecofeministas como a quaker Grace Jantzen acreditam que a demanda por uma custódia positiva emana da própria estrutura do mundo.
Em seu livro, "God's World, God's Body" [Mundo de Deus, Corpo de Deus], Jantzen argumenta que a relação de Deus com o mundo é análoga à relação entre o corpo e a alma. Com base na doutrina cristã generalizada da imago dei - que o homem é criado à "imagem e semelhança" de Deus (como em Gênesis 1,16) - Jantzen sustenta que o nosso estado encarnado estabelece a criação como o "corpo" de Deus. Ao contrário das escolas de pensamento do "domínio", as escolas de custódia assumem que o mundo criado é inerentemente bom - que há uma concórdia inerente, ao invés de conflito, entre o físico e o espiritual.
Em suas observações recentes, o Papa Francisco não foi tão longe quanto Jantzen. Mas o seu foco sobre a necessidade de uma gestão do ambiente coloca-o dentro dessa tradição pró-ambientalista e dentro de uma teologia mais ampla que está disposta a celebrar, em vez de rejeitar, a matéria como uma dádiva de Deus.
O que é radical é a vontade de Francisco de apresentar o ambientalismo não apenas como um desafio, mas como um dos "maiores" desafios do nosso tempo. Ao sublinhar a importância do ambientalismo em sua teologia geral, Francisco está fazendo mais do que simplesmente defender um conjunto de princípios. Ele também está, publicamente, enfatizando - com o alcance vertiginoso concedido a um homem da sua posição - um entendimento da natureza, em contraste com a dicotomia combativa tão prevalecente no costumeiro discurso político-religioso, intrinsecamente positivo em seu tratamento do mundo físico. É uma visão que é, radical e profundamente, pró-vida.

Igreja da Inglaterra vota a favor de bispas; passo visto como como empecilho ecumênico

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/533255-igreja-da-inglaterra-vota-a-favor-de-bispas-passo-visto-como-como-empecilho-ecumenico


Igreja da Inglaterra vota a favor de bispas; passo visto como como empecilho ecumênico

O Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra votou nessa segunda-feira a favor da ordenação de bispas e aprovou propostas comprometendo-se a respeitar e a trabalhar com as pessoas que acreditam que, teologicamente, a aprovação foi um erro.
A reportagem é de Cindy Wooden, publicada pelo Catholic News Service, 14-07-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
Antes da votação, o arcebispo de CanterburyJustin Welby, líder espiritual da Comunhão Anglicana, disse ao sínodo que "passar esta legislação é comprometer-se com uma aventura de fé e esperança. Como todas as aventuras, ela carrega perigos (...) e incertezas, e o sucesso vai exigir integridade e coragem".
Uma dessas incertezas é o impacto da medida na busca pela unidade cristã. A Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa ensinam que Jesus escolheu apenas homens como seus apóstolos, por isso só homens podem ser ordenados sacerdotes e bispos.
O padre Anthony Currer, responsável pelas relações com os anglicanos no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, disse ao Catholic News Service que o voto "não está criando uma nova realidade para o nosso diálogo", porque outras províncias da Comunhão Anglicana, incluindo os Estados Unidos e o Canadá, já têm bispas.
No entanto, ele disse, "é importante" que a mudança tenha sido feita pela Igreja da Inglaterra - a Igreja-mãe da Comunhão Anglicana - pois ela é um ponto de referência para os anglicanos em todo o mundo.
Com os anglicanos, Currer disse, "temos comunhão, que descrevemos como prejudicada ou imparcial. Uma área que temos a explorar com os nossos parceiros de diálogo é o que é suficiente para a plena comunhão que estamos buscando".
Quando o Sínodo Geral deu os primeiros passos em direção à ordenação de mulheres-bispos em 2008, o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos disse: "Essa decisão significa uma ruptura com a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas do primeiro milênio e é, portanto, mais um obstáculo para a reconciliação entre a Igreja Católica e a Igreja da Inglaterra".
Welby descreveu que o debate envolve "argumentos teológicos genuínos que diferem", e não simplesmente diferenças baseadas nas influências culturais sobre o papel das mulheres.
O arcebispo pediu à câmara dos bispos para que cumpra suas promessas criando um procedimento que assegure um lugar na Igreja para aqueles que discordam da medida.
"Você não exclui sua família ou dificulta a sua permanência em casa, você a ama e busca o seu bem-estar, mesmo quando você discorda", disse ele.
A votação aconteceu depois de várias horas de debate, em grande parte para verificar se a medida oferecia garantias suficientes para a permanência e o cuidado pastoral das pessoas que se opõem à ordenação de mulheres por motivos teológicos, e sobre os compromissos para manter a Igreja da Inglaterra unida apesar das diferentes posições.
Após a votação, o grupo anglo-católico Forward in Faith emitiu um comunicado dizendo que estava satisfeito que a Igreja da Inglaterra "está empenhada em fornecer bispos e padres para as nossas paróquias, permitindo-nos prosperar na vida e nas estruturas de nossa Igreja". No entanto, o grupo também disse que estava "profundamente preocupado com as consequências para a unidade mais ampla de toda a Igreja".
O Sínodo Geral é formado por leigos e membros do clero de cada diocese e se reúne pelo menos duas vezes por ano para analisar a legislação da Igreja. O Sínodo tem 484 membros divididos em câmaras de bispos, clérigos e leigos. As resoluções devem receber o consentimento da rainha antes de se tornarem lei.
A votação para a ordenação de bispas faz parte da reunião do sínodo que acontece entre os dias 11 e 15 de julho em York,Inglaterra.
A Igreja da Inglaterra começou a ordenar mulheres para o sacerdócio em 1994. Consultas de opinião nas 43 dioceses da Igreja na Inglaterra mostraram apoio esmagador à ordenação de bispas. Os membros sinodais foram informados de que a maioria das pessoas em todas as dioceses votou a favor e apenas nove dioceses relataram um voto favorável inferior a 90%.
Em 2012, a moção sobre a ordenação de bispas fracassou no sínodo por uma pequena margem; observadores, na época, disseram que ela não passou porque não garantia acomodações para que os adversários continuassem na Igreja.
Para abordar essas preocupações, a câmara dos bispos apresentou "cinco princípios" para o sínodo, incluindo um que reconhece que "aqueles dentro da Igreja da Inglaterra, que, em razão de sua convicção teológica, são incapazes de aceitar o ministério de mulheres como bispas ou sacerdotisas continuam dentro do espectro do ensino e da tradição da Comunhão Anglicana".
Os bispos prometeram aos tais anglicanos uma "provisão pastoral e sacramental" de forma a "manter o mais alto grau de comunhão possível e contribuir para um florescimento mútuo em toda a Igreja da Inglaterra".
Quando o cardeal Walter Kasper, o então presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, foi convidado a participar da Conferência de Lambeth da Comunhão Anglicana, em 2008, ele disse aos delegados de todo o mundo que a ordenação de mulheres, especialmente como bispas, criava um obstáculo ao reconhecimento das ordenações anglicanas por parte da Igreja Católica Romana, um passo fundamental para a plena unidade.
O Concílio Vaticano II reconheceu que os anglicanos ocupam um lugar especial entre as comunidades cristãs formadas na época da Reforma, porque eles mantiveram o ministério tríplice de diáconos, padres e bispos, e reconheciam o papel do bispo como um guardião da fé e o ponto de unidade entre a Igreja universal e a Igreja local.
Papa Bento XVI, em resposta a uma pergunta de um jornalista em um vôo para a Austrália em 2008, disse que esperava que a Comunhão Anglicana pudesse "evitar cismas e divisões", no que diz respeito ao debate sobre a ordenação de mulheres "e que eles possam encontrar soluções que respondam às questões de nossa época, mas que também sejam fiéis ao Evangelho".