sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Brasil tem 2,8 milhões de crianças e adolescentes fora da escola

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Brasil tem 2,8 milhões de crianças e adolescentes fora da escola

Em todo o país, 2,8 milhões de crianças e adolescentes, ou 6,2% dos brasileiros entre 4 e 17 anos, estão fora da escola. Isso é que mostra um levantamento divulgado nesta terça-feira (19) peloTodos pela Educação, que levou em conta dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2014.
A reportagem é de Marcelle Souza e publicado pelo portal Uol, 20-01-2016.
A partir deste ano, as redes de ensino estão obrigadas a incluir alunos de 4 e 5 anos, segundo a meta 1 do PNE (Plano Nacional de Educação) e uma alteração de 2013 na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). As normas regulamentaram a mudança feita na Constituição por meio da Emenda Constitucional nº 59, de 2009. Os números divulgados hoje mostram que a universalização, porém, não deve ser cumprida este ano.
"O Brasil tratou com descaso a educação durante séculos e está tentando recuperar essa dívida histórica nos últimos 25 anos, é um período muito curto", afirma Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos pela Educação.
Para Ângela Maria Costa, professora do curso de pedagogia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o número também reflete problemas de gestão. "Os municípios não se prepararam para o cumprimento da lei. Eles tinham desde 2009 para fazer isso, mas todo mundo ignorou", afirma.
Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, pais e governos podem ser responsabilizados por criança fora da escola.
Um problema apontado pela pesquisa é que a porcentagem dos alunos fora da escola é distribuída de forma desigual. O Norte, por exemplo, tem o menor índice de inclusão de crianças e adolescentes na escola: 91,9%. Na outra ponta está o Sudeste, que atende 94,9% de 4 a 17 anos.
"No Brasil, temos uma desigualdade que é profunda e persistente e as ascensões sociais são muito voláteis. Para criar uma sociedade com distribuição mais justa, é preciso garantir educação de qualidade principalmente para os mais pobres. Os Estados mais pobres têm mais problemas de acesso e qualidade na educação, então 100% das políticas educacionais precisam ter foco na desigualdade educacional", diz a presidente do Todos.
Desafio na pré-escola
Cruz afirma que, somados aos problemas regionais, está a necessidade de diferentes estratégias para cada etapa de ensino. "Na faixa de 4 e 5 anos, é um desafio dos municípios, já que eles que são os responsáveis por essa etapa, de criar essas vagas, oferecer transporte, merenda, e está mais ligado a insumos, financiamento".
MEC (Ministério da Educação) disse que tem ajudado os municípios a colocar mais alunos na educação infantil. "A meta de universalização deve ser cumprida. Há uma parcela ainda de estudantes fora da pré-escola e há projetos para tornar mais acessível a ampliação de escolas e atingir a meta", disse o secretário da Educação Básica do MEC, Manoel Palácios, em entrevista ao UOL no início deste mês.
Para a professora da UFMS, além da quantidade de alunos na escola, é preciso pensar também na qualidade da educação. "A pré-escola não pode ser escolarização precoce. A criança só pode aprender de verdade a ler e a escrever aos seis anos. Mas, sem qualificação dos professores, [os municípios] vão querer botar as crianças para escrever", diz. "A pré-escola está preocupada com outras expressões, a artística, a corporal, a musical. Aprender a ler e escrever é consequência".
Abandono no ensino médio
Apesar da meta garantir a inclusão dos alunos de 4 e 5, já que o ensino já era obrigatório de 6 a 17 anos até o ano passado, o grande problema são os adolescentes. De acordo com os dados, 17,4% dos jovens de 15 a 17 anos estão fora da escola. Nessa faixa etária, os grandes problemas são o abandono e a reprovação.
"No ensino médio o desafio é outro, porque temos um o grande problema de abandono escolar. Para esse jovem do século 21, a forma de fazer ensino médio no Brasil é anacrônica e expulsa de cara 10% dos alunos no primeiro ano", afirma Cruz.
Os números também apontam, que apesar dos desafios, houve melhora no acesso à educação: há mais pobres, negros e pardos e moradores de zonas rurais na sala de aula. "É importante destacar e celebrar que o Brasil avançou justamente em relação às populações mais vulneráveis. A gente melhorou, está no caminho correto, agora precisa acelerar mais ainda", afirma Cruz.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Mochila de empresário preso tem citações de Maggi, Riva e lista de empréstimos

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Mochila de empresário preso tem citações de Maggi, Riva e lista de empréstimos

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Foto: Imagem Ilustrativa
Durante mandado de busca e apreensão na casa do empresário Celson Luiz Duarte Bezerra na 8ª fase da Operação Ararath, agentes da Polícia Federal encontraram documentos com citações dos nomes do ex-governador e atual senador Blairo Maggi (PR) e o ex-deputado estadual José Riva (sem partido). Além disto, foi encontrada uma lista de valores financeiros com nomes de várias autoridades.
A revelação consta em um dos trechos da decisão do desembargador federal Mário César Ribeiro do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, ao qual o site teve acesso, que negou pedido de liminar em habeas corpus no dia 18 de dezembro de 2015. De acordo com as investigações da Polícia Federal, o empresário é suspeito de cometer lavagem de dinheiro, associação a organização criminosa e falsificação de documento particular.
Conforme um dos trechos, a prisão preventiva é justificada pela tentativa do empresário Celson Luiz Duarte Bezerra em obstruir as investigações. No dia em que agentes da Polícia Federal cumpriram o mandado de busca e apreensão em sua residência, o empresário agiu para ocultar documentos ao ordenar para o seu vigilante, Valdebrand Taques Guimarães, que a empregada doméstica da casa, Maria Pereira da Silva, abandonasse uma mochila na qual continha documentos em um estabelecimento comercial próximo da residência.
Assim, o empresário estaria agindo para obstruir a investigação criminal com a ocultação e destruição de provas consideradas essenciais. Os agentes da PF flagraram a movimentação, o que fez com que o empresário fosse preso, já que ele incialmente só sofreria uma condução coercitiva.
Isso porque na mochila estava documentos vinculando valores em dinheiro a diversas pessoas incluindo autoridades de Mato Grosso cujos nomes ainda são mantidos em sigilo. “Conforme ressaltado na representação do Ministério Público Federal, na referia mochila abandonada foram encontrados, dentre outros documentos: (1) listas aparentemente vinculando valores em dinheiro a pessoas diversas; (2) uma folha contendo manuscritos no verso e anverso, entre eles a inscrição ‘RV/CG $ 100.000 op. GOV/BLAIRO'; (3) uma Guia de Recolhimento da Previdência Social – GPS da Floresta Viva Exploração de Madeira e Terraplanagem LTDA; (4) cópia de uma nota promissória, datada de 11/04/2014, no valor de R$ 548.000,00, contendo anotações diversas, dentre as quais as inscrições ’11/04 – 548.200′ e ‘-20.000 – Riva'; além de cópia da Escritura Pública de Promessa de Venda e Compra celebrada entre Curitiba, Agropecuária, Indústria e Comércio LTDA e Piran Participações e investigações LTDA”, diz um dos trechos da decisão.
Diante do volume de provas colhido pela Polícia Federal que recebeu parecer favorável do MPF (Ministério Público Federal), o magistrado se convenceu de que não havia razão para conceder a liberdade. “Não identifico, em exame provisório, ilegalidade manifesta ou abuso de poder capaz de ensejar o deferimento do pedido de liminar. Indefiro-o, pois”, diz um dos trechos.

ÍNTEGRA DA DECISÃO
Cuida-se de impetração que objetiva, em sede de liminar, expedição de alvará de soltura ou aplicação de medidas cautelares mais brandas, em favor de CELSON LUIZ DUARTE BEZERRA, preso preventivamente pela suposta prática dos crimes previstos no artigo 1º, da Lei 9.613/98 e nos artigos 298 e 288, ambos do Código Penal, por conveniência da instrução criminal (Processo 16110- 51.2015.4.01.3600/MT – IPL 0182/2012-SR/DPF/MT – “Operação Ararath”). 
Sustenta o Impetrante, em síntese, ocorrência de constrangimento ilegal por ausência dos requisitos do artigo 312 do Código de Processo Penal, desnecessidade da prisão e violação do princípio da presunção de inocência, bem assim em face da possibilidade de aplicação de medidas cautelares menos gravosas e por apresentar o paciente condições pessoas favoráveis. 
Reservei-me para apreciar o pedido de liminar após as informações que foram apresentadas às fls. 161/163, nestes termos que destaco: 
E por ocasião das informações consignou a Autoridade Impetrada: “(…) cumpre-me informar que a prisão preventiva do ora paciente foi decretada em 26/11/2015, com fulcro no art. 312 do CPP, por decisão proferida nos autos da Medida Cautelar de Busca e Apreensão nº 16110-51.2015.4.01.3600, em decorrência de representação formulada pelo Ministério Público Federal. 
O Mandado de Prisão Preventiva expedido em desfavor do ora paciente foi cumprido na mesma data em que proferida a decisão. 
Na referida decisão, consignei que estava demonstrado com abundância o fumus comissi delicti, isto é, a existência de prova da materialidade e de indícios de autoria dos crimes de lavagem de dinheiro (art. 1º da Lei nº 9.613/98), falsificação de documento particular (art. 298 do CP) e de associação criminosa (art. 288 do CP) na longa e detalhada representação ministerial e na decisão que decretou a busca e apreensão e a conduta coercitiva em face do paciente, cujas cópias seguem anexas, bem como o periculum libertatis (ou seja, a imprescritibilidade da medida extrema), consubstanciado na necessidade de se assegurar a aplicação da lei penal e a adequada preservação da instrução criminal. 
Especificamente em relação à conveniência da instrução criminal ressaltei a necessidade da prisão cautelar do paciente diante do fato de ele ter, quando do cumprimento do mandado de busca e apreensão em sua residência, tentado ocultar os documentos que reputava demonstra a prática de infrações penais, ordenando ao seu vigilante, Valdebrand Taques Guimarães, que ordenasse a empregada doméstica da casa, Maria Pereira da Silva, que abandonasse a mochila contendo documentos em um estabelecimento comercial próximo da residência, evidenciando a sua pretensão de se desfazer das provas do processo e reforçando a certeza de que, em liberdade, não medirá esforços na tentativa de ocultar e alterar provas indispensáveis ao descobrimento da verdade. 
E, conforme ressaltado na representação do Ministério Público Federal, na referia mochila abandonada foram encontrados, dentre outros documentos:
(1) listas aparentemente vinculando valores em dinheiro a pessoas diversas;
(2) uma folha contendo manuscritos no verso e anverso, entre eles a inscrição ‘RV/CG $ 100.000 op. GOV/BLAIRO';
(3) uma Guia de Recolhimento da Previdência Social – GPS da FLORESTA VIVA EXPLORAÇÃO DE MADEIRA E TERRAPLANAGEM LTDA;
(4) cópia de uma nota promissória, datada de 11/04/2014, no valor de R$ 548.000,00, contendo anotações diversas, dentre as quais as inscrições ’11/04 – 548.200′ e ‘-20.000 – RIVA'; além de cópia da Escritura Pública de Promessa de Venda e Compra celebrada entre CURITIBA AGROPECUÁRIA, INDUSTRIA E COMÉRCIO LTDA e PIRAN PARTICIPAÇÕES E INVESTIGAÇÕES LTDA. 
Ademais, de acordo com as informações da autoridade policial, no momento em que VALDEBRAND TAQUES GUIMARÃES estava sendo ouvido, o paciente ligou para ele, denotando a prática de uma possível coação, ou, no mínimo, o monitoramento das pessoas próximas a si, em tese, podem revelar fatos que lhe comprometem, o que coloca em risco a adequada instrução processual. 
Além disso analisando o feito, e à vista dos novos ditames insertos no nosso ordenamento jurídico-processual brasileiro pela Lei nº 12.403/11, no que diz respeito às novas medidas cautelares (artigo 319 do Código de Processo Penal), alternativas à prisão preventiva, entendi que estas não se mostram suficientes para o caso, razão pela qual se impunha a segregação. Anexas ao presente, segue cópia da representação do Delegado de Polícia Federal de fls. 02/16 e seu aditamento (fls. 163/170, da representação ministerial de fls. 193/221, das decisões que deferiram as Buscas e Apreensões e as Conduções Coercitivas, bem como a Prisão Preventiva do ora paciente (fls. 117/149, 185/188 e 383/416), do Auto de Apreensão de fls. 226/232 e dos termos de declarações de Maria Pereira da Silva e Valdebrando Taques Guimarães (fls. 233/236). ……………………………………………………………………………………………….” (cf . fls. 161/163 – grifei) 
Diante dos esclarecimentos prestados pelo MM. Juiz Impetrado e dos fundamentos do decreto de prisão preventiva (fls.29/62), não identifico, em exame provisório, ilegalidade manifesta ou abuso de poder capaz de ensejar o deferimento do pedido de liminar. Indefiro-o, pois. 
Comunique-se. 
Intimem-se.
Após, ao Ministério Público Federal. Brasília-DF, 18 de dezembro de 2015. 
Desembargador Federal Mário César Ribeiro
Relator 

Fonte: Folhamax

Sociedade civil promove Vigília da Dignidade em agosto, no Rio de Janeiro

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http://koinonia.org.br/noticias/sociedade-civil-promove-vigilia-da-dignidade-em-agosto-no-rio-de-janeiro/4708


Sociedade civil promove Vigília da Dignidade em agosto, no Rio de Janeiro

Logo DignidadeEm resposta ao atual cenário de desconstrução do princípio de igualdade entre todas as pessoas e a natureza – baseado em preconceitos, xenofobias, discriminações, patriarcalismos e ações de retiradas de direitos universais, além do uso da força e a orientação do Estado para este fim -, a sociedade civil brasileira e internacional promoverá, no dia 1 de agosto, uma grande Vigília da Dignidade, no Rio de Janeiro, cidade que recepcionará os Jogos Olímpicos 2016.
 
 
Sejamos no RIO a revelação de que o verdadeiro Espírito de Paz entre os Povos, de Dignidade e de Direitos, que um dia foi o ideal olímpico, está de fato em nossas mãos civis e em nossa vontade de responsabilidade pelo futuro.
 
Globalmente e no Brasil estão envolvidos diversos atores de diferentes países e territórios, que se juntarão à Vigília da Dignidade, ponto de acolhida de todas as expressões: das populações deslocadas (refugiadas, pelas guerras, pelo modelo de desenvolvimento para poucos), das mulheres, das crianças, das diversas orientações sexuais e identidades de gênero, dos negros e negras, dos povos indígenas, dos amantes das cidades e do campo, dos que têm fé e dos que não têm e daquelas pessoas mobilizadas em movimentos sociais – todas e todos a enviar seu “fogo simbólico” à Tocha na Vigília da Dignidade.

Aderem à iniciativa: Conselho Mundial de Igrejas (CMI), The Peoples Movement for Human Rights Learning (PDHRE), Unicef, Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG), Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Articulação para o Monitoramento dos DH no Brasil, Brahma Kumaris, Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), Centro Lúdico da Rocinha, Comissão Pastoral da Terra, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) – Rio, Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, FASE, Fórum Ecumênico ACT Brasil, Fé Baha´’í, Fórum Social Mundial 2016, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Instituto de Estudos da Religião (ISER), KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, Levante Popular da Juventude, Movimento Inter-Religioso (MIR), Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Observatório de Favelas, Programa de Formação e Educação Comunitária (Profec), Religião de Deus, Via Campesina.
• Confira, na íntegra, a chamada global SOMOS DIGNIDADE.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A fúria dos que saíram do armário

carta maior
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23/12/2015 - Copyleft

A fúria dos que saíram do armário

Essa direita troglodita ataca à traição. E sabe que figuras públicas não costumam reagir, para não alimentar a sede mesquinha dos escrevedores de intrigas.


Eric Nepomuceno
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O que mais impressiona – e preocupa – na agressão verbal que um grupo de garotões cuja profissão principal é ser filho de pai rico lançou contra Chico Buarque na noite da segunda-feira, 21 de dezembro? Três coisas. Primeiro, a extrema fúria dessa direita desgarrada que acaba de sair do armário embutido. Segundo, a facilidade com que repetem o que dizem os grandes meios de comunicação. E terceiro, a incapacidade para qualquer gesto minimamente civilizado.
 
Chico saía de um jantar com amigos quando, ao buscar um táxi, passou a ser chamado de ‘petista’. Ouviu a repetição de clichês idiotas repetidos à exaustão pelos meios de incomunicação e pelos deformadores de opinião. A um dos garotões ele respondeu com humor. Dizia o valentão que defender o PT quando se mora em Paris é fácil. ‘Você mora em Paris?’, perguntou Chico. E o rapaz respondeu: “Não, quem mora em Paris é você!’. Chico, então, perguntou: ‘Você andou lendo a Veja?’. A ironia continua sendo uma válvula de escape. Mas para ter ironia é preciso inteligência, artigo definitivamente raro na praça.
 

 
Não foi a primeira nem a décima agressão verbal que ele e seus amigos ouvem, todas relacionadas ao PT, a Lula e a Dilma. O mais recomendável é, sempre, fazer ouvidos moucos. Mas também essa regra tem suas exceções. O episódio de segunda-feira foi inevitável: Chico estava no meio da rua, é pessoa pública, reconhecível a milhas marítimas de distância.
 
Mais grave é saber que não foi a primeira nem a decima ocasião, e também não terá sido a última. O país está polarizado como poucas vezes esteve nos últimos 50 ou 60 anos. O grau de agressividade, de furiosa intransigência dessa direita recém-saída de um imenso armário – certamente embutido – é o que mais chama a atenção. E preocupa. Muito. Dizer na cara de alguém ‘Você é um merda’ pode ter consequências sérias. Chico sabia e sabe que qualquer reação à altura não faria outra coisa que atiçar ainda mais a fúria dessa direita desembestada, fartamente alimentada pela grande imprensa. Até nisso a direita recém assumida em sua verdadeira essência é covarde. Até quando?
 
O país se acostumou às tristes cenas de violência entre torcidas organizadas no futebol. Elas pelo menos têm a decência de se uniformizar, ou seja, é fácil identificar o adversário à distância.
 
Essa direita troglodita, não. Ataca à traição. E sabe que figuras públicas como as que foram atacadas à sorrelfa não costumam reagir, para não alimentar a sede mesquinha dos escrevedores de intrigas.
 
Há poucos registros, que eu me lembre, de alguém que tenha saído do armário com tanta sede de ação. Cuidado com eles: tantas ganas reprimidas, quando subitamente liberadas, desconhecem limites.
 
Eric Nepomuceno é jornalista e escritor, estava com Chico no episódio relatado

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Os 7 principais acontecimentos de 2015

carta maior
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Os 7 principais acontecimentos de 2015

É muito difícil resumir um ano. Sendo assim, tive de escolher um critério: o de destacar acontecimentos que alteraram a ordem - ou a desordem - geopolítica


Flavio Aguiar, de Berlim.
reprodução
É muito difícil resumir um ano, ainda mais um ano tão complicado quanto este de 2015. Sendo assim, tive de escolher um critério: o de destacar acontecimentos que alteraram a ordem - ou a desordem - geopolítica mundial.
 
1) O acordo sobre o programa nuclear do Irã. Este acordo mudou a mapa-mundi pelo alcance dos seus signatários. Além do governo de Teerã, assinaram-no EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha, ou seja, os países com assento permanente e poder de veto no Conselho de Segurança da ONU mais a principal economia da Europa. A assinatura do acordo reinseriu o Irã na órbita do capitalismo ocidental, além deste país contar com o apoio da Rússia e da China, e estabeleceu um novo equilíbrio no desequilibrado Oriente Médio. A ver se ele sobrevive à eleição norte-americana de 2016, já que os republicanos afirmam que vão jogá-lo no lixo.
 
2) A reaproximação entre Cuba e EUA. Promovida explicitamente pelo Vaticano, mas também com aprovação pelo Brasil (é bom lembrar), esta reaproximação pôs fim à antiga Guerra Fria no continente americano. Agora os dois países estão fazendo movimentos na direção de acertar voos diretos entre eles. Também a ver se ele vai sobreviver à eleição norte-americana de 2016, pelo mesmo motivo do acordo anterior.
 
3) Falando em Vaticano, o Papa Francisco I afirmou-se como a liderança europeia mais à esquerda no cenário mundial, batendo até Alexis Tsipras, da Syriza, que teve de curvar-se aos ditames de Frau Merkel e da hegemonia neo-liberal na Zona do Euro.
 
4) A crise dos refugiados na Europa. Além de seu aspecto humanitário, a crise dos refugiados está mudando o panorama social e político do continente europeu. A União Europeia vem enfrentando um desafio tão grande ou maior para sua sobrevivência que a crise financeira deflagrada em 2007/2008 e continuada pelas políticas recessivas da “austeridade”. Em seu bojo vem também o fortalecimento da extrema-direita em escala continental.
 
5)A consolidação do Estado Islâmico como principal força dos sectários que agem em nome de uma interpretação beligerante e terrorista do Islã, suplantando a Al Qaida e o Boko Haram. O E.I. em 2015 deflagrou uma campanha de alcance mundial, além de dominar vasto território da Síria e também do Iraque. Lançou ataques na Tunísia, Egito, Líbano, Iêmen, Turquia, França, e ameaça a Europa inteira. Como desdobramentos de sua presença ressalta-se a afirmação internacional dos curdos  como principal força de resistência em terra, apesar da má vontade da Turquia, e a volta da Rússia a ações militares de porte fora de seu território, até mesmo em cooperação, embora difícil, com os Estados Unidos e seus aliados.
 
6)A COP21. O acordo da COP21, que também vai passar pela prova das eleições norte-americanas, uma vez que os republicanos também querem coloca-lo na lata de lixo da História, alterou o mapa-mundi. Sobretudo pelo seu aspecto vinculante em relação aos 196 signatários (algumas fontes falam em 195), e também pelo estabelecimento de um teto para o aquecimento, 2 *C acima do nível da temperatura pré-industrial, mas também de um objetivo, 1,5 *C. O protagonismo brasileiro foi fundamental para o sucesso deste encontro, que reverteu a tendência de muito falar e pouco fazer.
 
7) O controle da epidemia do Ebola. A epidemia deste vírus, que deixou atrás de si um rastro de mais de 11 mi mortos e a desorganização da vida comunitária de centenas de milhares de pessoas, atingiu uma nova fronteira, com sua disseminação em centros urbanos de porte médio e grande na África. Graças a isto ela tornou-se um risco em escala mundial, e obrigou a criação de medidas internacionais para conte-la. Em contrapartida, pela primeira vez vislumbra-se a possibilidade da criação industrial de uma vacina, graças também a esta cooperação internacional.                                                                                          
 
Voltaremos no ano que vem. Feliz Natal e até lá. 

Médicos populares de SP aderem ao ato contra o impeachment

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Médicos populares de SP aderem ao ato contra o impeachment

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15/12/2015
Núcleo paulista da Rede de Médicos Populares avalia que instabilidade provocada pelo golpe político pode comprometer o SUS e causar danos à saúde da população.
Da Redação
O núcleo paulista da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares participa nesta quarta-feira (16), às 17h, do ato em defesa da democracia e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que terá concentração no vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Em nota, os médicos populares questionam a legalidade do processo conduzido pela Câmara dos Deputados. “O processo de afastamento de um presidente da República deve ser iniciado somente mediante a comprovação de crimes contra a Constituição, o que não acontece no presente momento”, diz o texto.
Os integrantes da Rede destacam ainda que são contra as medidas de ajuste fiscal do governo, mas que é preciso mobilização para evitar que “a instabilidade gerada pelo golpe político em curso comprometa o SUS e cause danos à saúde da população”.1903195_989262481117157_913698155_n











Confira a nota na íntegra:
EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DO SUS: NÃO VAI TER GOLPE!
O núcleo paulista da Rede de Médicas e Médicos Populares se posiciona contra o processo de impeachment apresentado pela Câmara dos Deputados à presidenta Dilma Rousseff.
Durante décadas gerações de brasileiros enfrentaram a ditadura militar e lutaram pelo direito de eleger democraticamente os líderes desta nação.
O processo de afastamento de um presidente da república deve ser iniciado somente mediante a comprovação de crimes contra a Constituição, o que não acontece no presente momento.
Somos contra o ajuste fiscal e as medidas impopulares do governo, mas não podemos permitir que a instabilidade gerada pelo golpe político em curso comprometa o SUS e cause danos à saúde da população.
Como profissionais e cidadãos brasileiros questionamos a legalidade deste processo movido por interesses políticos escusos e vingança pessoal do presidente da Câmara.
Apelamos ao senso de justiça da população e das autoridades que nos representam para anular esse ato intempestivo e leviano.
Convidamos você a lutar conosco em defesa da democracia, do SUS e da luta antimanicomial no ato marcado para o dia 16/12, a partir das 17h, no vão-livre do MASP.
#NãoVaiTerGolpe

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

COP21: Sucesso histórico ou fracasso velado?

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COP21: Sucesso histórico ou fracasso velado?

"Não é à toa que até as organizações mais críticas reconheceram o documento como um sucesso: ele também mostra uma mudança de expectativa em relação ao papel dos líderes mundiais, que apenas representam em escala global o que o mundo dos representados localmente constrói", escreve Ana Carolina Amaral, jornalista, mestre em Ciências Holísticas pelo Schumacher College (UK) e moderadora da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, em artigo publicado por Envolverde, 15-12-2015.
Eis o artigo
Sem definir compromissos claros ou assegurar uma meta que garanta um futuro seguro para o clima, o Acordo de Paris, adotado na noite do último sábado pelos 195 países membros da ONU, é um sucesso histórico pelo consenso conseguido entre todas as nações sobre a importância e a urgência de se agir contra as mudanças climáticas provocadas pelo homem. É a primeira vez que umaConferência das Partes da ONU sobre o Clima não deixa espaço para os negacionistas das mudanças climáticas; contorna os dificultadores e acomoda interesses conflitantes em um único texto. Até nas suas fragilidades, como as metas voluntárias em vez de legalmente obrigatórias, o acordo faz História e pode iluminar novos rumos: para o clima e para a diplomacia.
Em entrevista exclusiva após a plenária final que adotou o acordo, o presidente da Conferência e ministro de relações exteriores da França, Laurent Fabius, revelou ter estudado o processo da COP-15, em Copenhague – considerada um fracasso, em 2009, por não ter conseguido consenso em torno de um documento, que começaria a valer agora em substituição ao protocolo de Quioto. “Nós procuramos identificar as razões pelas quais houve uma série de falhas em Copenhague. Foi daí que eu e o presidente da França decidimos fazer desse modo agora.”
Como eles conseguiram
Entre os pontos da condução francesa que viabilizaram o acordo, Fabius destaca a inversão de estratégia no convite aos líderes nacionais. “Nós decidimos trazer os Chefes de Estado e de governo primeiro para dar um impulso político. E foi muito importante, porque todos eles disseram: ‘você tem que entregar’. E isso deu um mandato para as pessoas [os negociadores]. Enquanto emCopenhague, os presidentes vieram no final e, infelizmente, não podiam fazer nada se as coisas não estavam prontas.”
Assim como a presença dos Chefes de Estado na estreia, em que todos afirmaram sua vontade de chegar a um acordo pelo clima, outra novidade que criou ambiente para as negociações foi o convite para que os países apresentassem, ao longo do ano, suas metas voluntárias para redução de emissões. Vista como um sinal de respeito às soberanias nacionais, a criação do INDC (Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas) encorajou a proatividade dos países e fez com que a Conferência começasse, em 30 de novembro, com meio caminho andado: 186 países já tinham apresentado suas contribuições, com resultados que representam, se implementados, 50% do esforço necessário para evitar uma elevação da temperatura em níveis destrutivos. O Brasil foi elogiado pelas metas de combate ao desmatamento ilegal e redução de 37% das emissões na próxima década. Estados Unidos e China, os dois maiores emissores do mundo, surpreenderam ao anunciar juntos seus cortes de emissões.
Ao final da primeira semana de negociação, o texto tinha reduzido suas indefinições pela metade. Para resolver o restante, Fabius formou quatro grupos de trabalho, cada um facilitado por uma dupla de ministros, para avançar nos principais nós do documento: implementação e financiamento, nível de ambição, diferenciação de responsabilidades e aceleração das ações entre 2015 e 2020. Se os grupos não tiraram da cartola respostas mágicas para acomodar interesses conflitantes entre os países envolvidos, ao menos encontraram saídas para viabilizar uma mensagem conjunta.
O documento
A meta do Acordo de Paris é o que torna o documento ambicioso e fraco ao mesmo tempo. Ambicioso, porque se compromete com um limite entre 2°C e 1,5°C no aumento da temperatura global. Fraco, porque não traz compromissos que reflitam a meta. Segundo Suzana Kahn, cientista brasileira que integra o o IPCC (painel científico da ONU para mudanças climáticas), “é extremamente improvável que fiquemos no cenário mais seguro, de 1,5°C, sendo que a humanidade já aqueceu 1°C desde o começo da era industrial. Até mesmo 2°C é ambicioso e vai exigir esforços tremendos.”
Um dia antes do acordo ser assinado, cientistas do IPCC reclamaram que o texto era incoerente, pois não mostrava um plano para alcançar essa meta ambiciosa de temperatura. Para contar com a assinatura de todos os países, o documento se manteve genérico: não cita prazos, nem metas comuns para que as emissões de gases-estufa comecem a cair. Isso deve acontecer apenas via contribuições nacionalmente determinadas e, segundo o texto, “o mais breve possível”.
Durante as negociações, organizações como o Observatório do Clima e a Avaaz cobraram um compromisso com a descarbonização da economia até 2050. Ou seja, para viabilizar o teto de aumento entre 2°C e 1,5°C, os investimentos deveriam migrar nas próximas décadas das fontes fósseis para as renováveis. Em vez de descarbonização, no entanto, o documento final estipula para 2050 a “neutralização das emissões”, o que valida a continuidade de emissões desde que elas sejam compensadas, com a estocagem de carbono.
Embora algumas ONGs, a exemplo da Biofuelwatch, tenham se preocupado com a abertura que essa linguagem pode representar para empresas do ramo dos combustíveis fósseis oferecerem tecnologias de captura e estocagem do carbono no subsolo (CCS) – caras, inseguras e questionadas pelos cientistas do clima; o documento aposta é na estocagem natural de carbono, através da restauração florestal.
Para isso, dois mecanismos defendidos pelo Brasil são descritos no texto: o REDD+, programa que remunera os países por reduzirem suas emissões evitando o desmatamento e a degradação florestal, e um novo mecanismo de mercado para comércio de carbono – a exemplo do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo criado para o Protocolo de Quioto – que não estava proposto no primeiro rascunho de Paris e foi trazido à mesa pelo Brasil, em conjunto com a União Europeia, nessa última semana. Juntos, os dois mecanismos ajudam a implementar a meta de neutralização das emissões até a primeira metade do século, apoiando financeiramente países em desenvolvimento e detentores de grandes áreas florestais.
Os dois pontos em que os compromissos mais avançaram foram a revisão das metas nacionais a cada cinco anos e a transparência na prestação de contas da redução de emissões, através de um sistema único que garanta métricas equivalentes entre os diversos países. No entanto, a questão do financiamento, considerado o principal nó do acordo porque implica uma definição sobre as diferentes responsabilidades, ficou fragilizada.
Houve aceitação geral de que o investimento financeiro deve se dividir equilibradamente para apoiar ambos os processos de mitigação e de adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento. Porém, sem o entendimento sobre o financiamento de longo prazo, decidiu-se postegar para até 2025 o aporte de 100 bilhões de dólares anuais com que os países desenvolvidos já tinham se comprometido na COP-15, em 2009, previsto na época para durar de 2015 a 2020. O problema é que o documento não sugere que esse valor seja aumentado no fim do período, nem esclarece o que acontecerá depois. E os diversos estudos sobre os impactos do aquecimento global apontam em uníssono que esse montante é insuficiente: o mundo precisaria se preparar para custos climáticos na ordem dos trilhões.
Para começar a resolver a disputa clássica das COPs do Clima sobre as diferenciação de responsabilidades, mais uma proposta brasileira foi contemplada: a progressão do nível de responsabilidades, respeitando as diferenças históricas e capacidades atuais dos países em desenvolvimento, mas caminhando para uma convergência nos níveis de comprometimento. Com isso, tende a aumentar a participação das economias emergentes, como o Brasil, no pagamento da conta do clima.
Por fim, os mais prejudicados são mesmo os países mais vulneráveis, especialmente as ilhas. Ameaçadas de ficarem submersas em um mundo que esquente mais de 1,5°C, elas pareciam ter conseguido que o documento “não deixe ninguém para trás”, com a citação de um esforço para chegar ao aumento máximo de 1,5°C – o que rendeu à COP-21 o título de sucesso em ambição, ainda que os cientistas tenham deixado claro a improbabilidade da meta. No entanto, a menção ao limite de 1,5°C saiu cara aos pequenos países. No parágrafo que cita os cuidados para evitar e reparar as perdas e danos causadas pelas mudanças climáticas, há a citação clara, no artigo 52, de que isso “não envolve nem fornece uma base para qualquer responsabilidade ou compensação”. Isso quer dizer que os países desenvolvidos, responsáveis historicamente pelas emissões que aquecem o planeta, eximem-se de financiar a recuperação dos países mais vulneráveis, que já estão sendo prejudicados por eventos climáticos extremos.
Reações na plenária final
Nicarágua foi o único país que reclamou, entre as declarações que seguiram a adoção do acordo. Seu negociador-chefe, Paul Oquist, exigiu a eliminação do artigo 52, que exime as responsabilidades sobre perdas e danos. Ele lembrou que as metas nacionais apresentadas neste ano levam a um cenário de 3°C e, portanto, não são suficientes para cumprir o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5°C. “Não podemos mandar nossos netos a um cenário de mais 3°C e eliminar, já em 2015, seu direito a pedir compensação pelas suas perdas”, arrematou.
Países como Arábia SauditaRússia e Venezuela, cujos discursos ainda causam apreensão pelas vezes em que já dificultaram o acordo, dessa vez seguiram a linha dos demais: comemoraram o resultado e elogiaram a condução do processo. Ainda na plenária final, mais três países anunciaram suas INDCsIlha de São CristóvãoVenezuela e Palestina, que é hoje um país observador no sistema da ONU. “Repetimos muitas vezes nessa negociação que ninguém pode ser deixado para trás. E a Palestina não pode ser deixada para trás”, declarou, emocionado, o embaixador Riyad Mansour, quando a plenária final já passava da meia-noite.
“Esta foi a última vez que a Palestina fala por último apenas como um estado observador”, ele prometeu, comprometendo-se com os esforços pela paz e pelo clima. O negociador brasileiroRaphael Azeredo, satisfeito com um acordo que reflete as posições defendidas pelo Brasil, declarou que o país “continua pensando que o multilateralismo é a melhor forma de resolver nossos problemas comuns.
Momentum
Anfitriões de revoluções históricas, os franceses sabem como criar um “momentum” – ou melhor, um clima. Isso foi visto ao longo do ano e nos 15 dias de COP-21. Aliás, “momentum for change” foi o nome de uma das agendas paralelas às negociações que buscou mostrar as iniciativas locais e intersetoriais que já sinalizam uma transição inevitável para uma economia de baixo carbono. Com tudo isso, criou-se um ambiente de proatividade, sob a mensagem de que a mudança já está em curso.
As metas são diversas, voluntárias e é factível que simplesmente não sejam implementadas. Mas aí não faltam lembretes de que o Protocolo de Quioto, mesmo sob força de lei, também não foi cumprido. Um acordo que não obriga ninguém a nada é uma prova de que os líderes globais são mesmo apenas aquilo que lhes delegamos: representantes.
Se não houvesse acordo, é provável que sairíamos de Paris falando que os anúncios voluntários de desinvestimento em fósseis já representam o fim da era do carbono. Não é o acordo, portanto, que significa essa mudança de era: é o momento em si. E ele se constrói pelos atores locais: prefeituras, governos, empresas, organizações da sociedade civil e, em especial, coalizões que combinam esses setores somando esforços locais a internacionais.
Não é à toa que até as organizações mais críticas reconheceram o documento como um sucesso: ele também mostra uma mudança de expectativa em relação ao papel dos líderes mundiais, que apenas representam em escala global o que o mundo dos representados localmente constrói. A sociedade global está se reinventando e não cabia mais na História um fracasso que ignorasse essa virada de rumo.
Acordo de Paris, longe de ser o salvador do mundo, é o salvador da diplomacia. Ele inverteu processos, prioridades e o que era sua maior fraqueza para encontrar uma lei comum aos 195 países – dada a diversidade de condições e cenários -, gerou uma novidade: a aposta na proatividade das metas voluntárias, com respeito à soberania dos países e suas diferentes capacidades. É digno da qualificação de “sucesso histórico” em tempos de um multilateralismo ameaçado pela sua própria reputação.
Já para as mudanças climáticas, o acordo só poderá ser julgado pelo seu sucesso em 2050, se alcançar a neutralização das emissões. É histórico, simplesmente, por conta do consenso inédito. De resto, não traz compromissos suficientes, nem garantias. Mas traz, sim, o necessário reconhecimento global de que a Ciência estava certa e de que cabe a todos nós, representantes e representados, fazer valer essa transição. Sem detalhar a rota, o Acordo de Paris ilumina um rumo.