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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Os 7 principais acontecimentos de 2015

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Os 7 principais acontecimentos de 2015

É muito difícil resumir um ano. Sendo assim, tive de escolher um critério: o de destacar acontecimentos que alteraram a ordem - ou a desordem - geopolítica


Flavio Aguiar, de Berlim.
reprodução
É muito difícil resumir um ano, ainda mais um ano tão complicado quanto este de 2015. Sendo assim, tive de escolher um critério: o de destacar acontecimentos que alteraram a ordem - ou a desordem - geopolítica mundial.
 
1) O acordo sobre o programa nuclear do Irã. Este acordo mudou a mapa-mundi pelo alcance dos seus signatários. Além do governo de Teerã, assinaram-no EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha, ou seja, os países com assento permanente e poder de veto no Conselho de Segurança da ONU mais a principal economia da Europa. A assinatura do acordo reinseriu o Irã na órbita do capitalismo ocidental, além deste país contar com o apoio da Rússia e da China, e estabeleceu um novo equilíbrio no desequilibrado Oriente Médio. A ver se ele sobrevive à eleição norte-americana de 2016, já que os republicanos afirmam que vão jogá-lo no lixo.
 
2) A reaproximação entre Cuba e EUA. Promovida explicitamente pelo Vaticano, mas também com aprovação pelo Brasil (é bom lembrar), esta reaproximação pôs fim à antiga Guerra Fria no continente americano. Agora os dois países estão fazendo movimentos na direção de acertar voos diretos entre eles. Também a ver se ele vai sobreviver à eleição norte-americana de 2016, pelo mesmo motivo do acordo anterior.
 
3) Falando em Vaticano, o Papa Francisco I afirmou-se como a liderança europeia mais à esquerda no cenário mundial, batendo até Alexis Tsipras, da Syriza, que teve de curvar-se aos ditames de Frau Merkel e da hegemonia neo-liberal na Zona do Euro.
 
4) A crise dos refugiados na Europa. Além de seu aspecto humanitário, a crise dos refugiados está mudando o panorama social e político do continente europeu. A União Europeia vem enfrentando um desafio tão grande ou maior para sua sobrevivência que a crise financeira deflagrada em 2007/2008 e continuada pelas políticas recessivas da “austeridade”. Em seu bojo vem também o fortalecimento da extrema-direita em escala continental.
 
5)A consolidação do Estado Islâmico como principal força dos sectários que agem em nome de uma interpretação beligerante e terrorista do Islã, suplantando a Al Qaida e o Boko Haram. O E.I. em 2015 deflagrou uma campanha de alcance mundial, além de dominar vasto território da Síria e também do Iraque. Lançou ataques na Tunísia, Egito, Líbano, Iêmen, Turquia, França, e ameaça a Europa inteira. Como desdobramentos de sua presença ressalta-se a afirmação internacional dos curdos  como principal força de resistência em terra, apesar da má vontade da Turquia, e a volta da Rússia a ações militares de porte fora de seu território, até mesmo em cooperação, embora difícil, com os Estados Unidos e seus aliados.
 
6)A COP21. O acordo da COP21, que também vai passar pela prova das eleições norte-americanas, uma vez que os republicanos também querem coloca-lo na lata de lixo da História, alterou o mapa-mundi. Sobretudo pelo seu aspecto vinculante em relação aos 196 signatários (algumas fontes falam em 195), e também pelo estabelecimento de um teto para o aquecimento, 2 *C acima do nível da temperatura pré-industrial, mas também de um objetivo, 1,5 *C. O protagonismo brasileiro foi fundamental para o sucesso deste encontro, que reverteu a tendência de muito falar e pouco fazer.
 
7) O controle da epidemia do Ebola. A epidemia deste vírus, que deixou atrás de si um rastro de mais de 11 mi mortos e a desorganização da vida comunitária de centenas de milhares de pessoas, atingiu uma nova fronteira, com sua disseminação em centros urbanos de porte médio e grande na África. Graças a isto ela tornou-se um risco em escala mundial, e obrigou a criação de medidas internacionais para conte-la. Em contrapartida, pela primeira vez vislumbra-se a possibilidade da criação industrial de uma vacina, graças também a esta cooperação internacional.                                                                                          
 
Voltaremos no ano que vem. Feliz Natal e até lá. 

sábado, 28 de novembro de 2015

Atentado de Paris: 13 perguntas e 24 reflexões

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Atentado de Paris: 13 perguntas e 24 reflexões

Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente.


Nazanín Armanian*
UNRWA 30/01/2014
“A verdade é a primeira vítima de toda guerra”

1. Quais são as mentiras dos atentados do dia 13 de novembro, em Paris para que o presidente Hollande utilize a palavra “guerra” no combate contra o terrorismo? Pois uma “guerra” – investida militar – se declara entre Estados, e não de um país contra um grupo terrorista com sede e presença em mais de vinte países, inclusive na França.

2. Que garantia há de que as notícias que nos transmitem reflitam a verdade? Robert Menard, fundador da organização Repórteres Sem Fronteiras e prefeito de Bèziers, por exemplo, é um ultradireitista que encabeça a campanha de expulsão dos refugiados sírios.

3. Por que as imagens (falsas ou verdadeiras) dos bombardeios russos na Síria mostram vítimas civis, enquanto nas correspondentes aos ataques da coalizão ocidental só se possam ver pontinhos negros no deserto, quando a cidade de Al Raqa, agredida e cercada militarmente, milhares de pessoas que não puderam fugir da guerra vivem sem eletricidade? Estão aplicando o ilegal castigo colectivo?

4. Bashar al-Assad teria direito de bombardear França, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, entre outros, caso dissesse que há células terroristas que viajam ao seu país para criar distúrbios?

5. Não foi o próprio Estado Islâmico (EI) o alvo de cerca de 200 bombardeios franceses, entre setembro e novembro de 2014? O que mais pretendem fazer?

6. Como é possível que os Estados Unidos e seus sócios, em poucos dias, destruissem o exército líbio, mas não puderam com alguns poucos terroristas carentes de armamento pesado?

7. A Turquia tem o direito de organizar milhares de homens armados para desmontar outro Estado-membro da ONU, sem a autorização da OTAN (Pentágono)? Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes, que abrigassem bases militares estadunidenses, podem fazer o mesmo? É como se a Espanha treinasse 30 mil terroristas nas fronteiras com o Marrocos ou a França para derrubar o seu governo, fornecendo bombas, mísseis e apoio logístico, sem prévia permissão de Bruxelas e Washington?

8. Segundo alguns analistas ocidentais, a expansão do jihadismo é uma das consequências das guerras contra o Iraque e o Afeganistão. Acaso pretenderão alimentar uma maior expansão deste fenômeno, que tem sido um ninho para os militaristas do Ocidente e do Oriente?

9. O que querem nos dizer é que a “inteligência” ocidental, com tantos artefatos ultrassofisticados, é menos inteligente que um grupo de garotos aventureiros?

10. Sobre a piada dos “documentos de identidade” que não se queimam e que teriam sido deixados pelos terroristas antes de explodirem seus próprios corpos, cabe a pergunta: como dois dos suicidas se mataram nas ruas vazias do lado de fora do Estádio de Saint-Denis e não no meio da aglomeração dos torcedores que saiam do campo?

11. Como é possível que as grandes potências tenham alcançado cessar fogo na Síria com os terroristas do Estado Islâmico? Alguém tem contato direto com eles? Por que não o fizeram durante os quatro anos anteriores? Utilizar esse argumento justifica a ação de desmantelar o Estado sírio?

12. Que grupo assassino é considerado “terrorista” para o Ocidente? Os Talibãs, coautores dos atentados do dia 11 de setembro de 2001, o são?

13. Qual o interesse da OTAN ao destruir os Estados não religiosos como Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, respaldando os islamistas, para logo viver com eles numa espécie de “coexistência pacífica”? O terrorismo islâmico é uma cortina de fumaça?

Objetivos e consequências do atentado

1. Empurrar a Europa a uma mega intervenção na Síria, capaz de derrubar Assad, e desatar a “crise de refugiados” na Europa.

2. Desmontar o “Plano Putin-Obama” de manter Assad no poder durante a transição política, ao qual Arábia Saudita, Qatar e Turquia se opõem. O diário republicano New York Post chegou a pedir que Obama renunciasse ou atuasse contra Assad. Mais atentados no Ocidente abrirão o caminho para os novos “Bushs” na Casa Branca.

3. Mudar o balanço militar nesta fase quase final do conflito a benefício da OTAN, justamente quando Rússia e Irã foram transformados em protagonistas absolutos do cenário. O atentado contra o avião russo também se encaixaria nesse contexto. Se trata nada menos que da conquista da Eurásia por parte das potências mundiais.

4. Tomar uma região desocupada pelos Estados Unidos, agora que Obama leva as suas tropas a cercar a China. Um traje grande demais para a França, que carece de recursos para fazer esse papel.

5. Segundo o “Instituto para a Paz e a Prosperidade” e a Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, a aviação da coalizão Anti-EI, liderada pelo Pentágono, bombardeia as posições dos curdos da Síria, e não as dos jihadistas, e afirma que  “o apoio aos rebeldes sírios significa financiar grupos terroristas com o dinheiro dos contribuintes”. Esta é uma das 23 verdades incômodas sobre o Estado Islâmico.

6. Abrir caminho para a conquista militar da Síria, que de outra forma seria impossível. Hillary Clinton confessou ao diário The Atlantic, no dia 1 de agosto de 2014, que a intervenção dos Estados Unidos na Síria foi desenhada para “mudar a equação” em favor dos rebeldes: de alguma forma, os jihadistas vem atuando como tropas terrestres da Coalizão para fazer da Síria um Estado falido.

7. Justificar os bombardeios ilegais do Ocidente contra a Síria, já aprovados pelo próprio Conselho de Segurança, o mesmo que rejeitou a petição de atacar o país em julho de 2012.

8. Reconstruir a coesão político-militar da OTAN no Pentágono, impedindo que os europeus pragmáticos retomassem suas relações de cooperação com a Rússia.

9. Reforçar as bases militares da OTAN na Turquia (e na Espanha). Nas últimas eleições, os atentados atribuídos aos jihadistas deram a maioria absoluta aos islamistas de Tayyab Erdogan – outro dos patrocinadores do terrorismo religioso: a OTAN para atuar na Síria, necessita uma Turquia estável, onde pode dirigir as operações de conquista de Damasco.

10. Mostrar a eficacia da tática de Obama, de transformar a Síria num pântano onde pode desgastar os inimigos e rivais dos Estados Unidos e de Israel.

11. A ameaça terrorista contribuirá para que mais cortes sociais e mais pobreza não sejam contestados: as novas leis “Patriot” e o aumento das mordaças aos críticos se propagarão: todos os cidadãos, exceto os governantes, serão suspeitos de terrorismo.

12. Multiplicar os lucros das empresas armamentistas: as estadunidenses Honeywell e General Dynamics, a francesa Thales e as britânicas Bae Systems e Rolls Royce estão faturando alto.

13. A França deixa de ser uma bárbara potência colonial, e passa a ser uma vítima de bárbaros procedentes da região que um dia ela avassalou. Agora, além disso, pode pedir sua parte da Síria como prêmio, o que está sendo dividido entre os sócios do G20.

14. Atacar a solidariedade dos europeus com os refugiados e vinculá-los com o terrorismo, dentro da miserável tática do “dividir para vencer”. Para a maioria dos muçulmanos do mundo –principais vítimas do jihadismo –, o Islã é uma espiritualidade privada e não uma doutrina política.

15. Legitimar as boas relações das potências mundiais com os regimes autoritários e obscurantistas de Oriente Próximo e Norte de África (OPNA), apresentando a eles como “moderados” em comparação com os impiedosos jihadistas. A notícia é que Ali al Nimr, cidadão da monarquia “moderada” da Arábia Saudita e ativista de 21 anos, depois de três anos vivendo sob torturas, foi condenado à morte por decapitação e crucificação em público. Logo depois, a ONU apontou Riad como referência mundial da defesa dos direitos humanos.

16. Presentar a Coalizão Árabe da Síria – a nova cria da OTAN – como alternativa ao governo de Assad.

17. Impedir novas marchas contra os cortes de gastos sociais e contra o TTIP (sigla em inglês do Tratado Transatlântico de Investimentos), que partiram de várias cidades (Berlim, Madri, Londres, entre outras) rumo a Bruxelas. Conectar os atentados de Paris com a Bélgica e declarar Estado de emergência na sede da Comissão Europeia, o que motivará a suspensão de novas marchas contra a hegemonia das multinacionais e atentando contra os direitos dos trabalhadores.

18. Enviar mais efetivos militares ao Mali, aproveitando o atentado num hotel naquele estratégico país. França já conta com 3 mil soldados no Sahel, disputando suas grandes reservas de urânio (que abastecem meia centena das suas centrais nucleares), ouro e outros minerais com a China.

E a nível interno:

19. Resgatar François Hollande, que chegou a ser considerado “o pior presidente da história da França”. Agora, pode sonhar com uma possível reeleição em 2017.

20. Forçar o crescimento das forças fascistas. Assim, a esquerda poderia até mesmo votar em Nicolas Sarkozy, o NeoCon europeu, nas próximas eleições  presidenciais. É a mesma jogada desenhada em maio de 2002.

21. Fazer com que os cidadãos franceses renunciem voluntariamente aos seus direitos políticos. Já foram tirados os direitos econômicos e sociais, e agora vão fazer o mesmo com os direitos políticos. Mas que diferença real existe entre o ataque de um estrangeiro (ou o cometido por um compatriota) e as conquistas de um povo?

22. Impulsionar a “unidade nacional” burguesa, baseada no medo, contra os mais pobres, representados pelos refugiados da guerra na Síria, os imigrantes e a classe trabalhadora própria. É como a estranha relação entre um preso e seu carcereiro. Na verdade, se trata de ódio aos pobres, disfarçado de ódio ao islã. Basta ver a magnífica relação entre os líderes do imperialismo com os sheiks do Golfo Pérsico.

23. A França é um dos países que há 30 anos vem enviando homens e mulheres de religião “cristã”, sem visto e armados até os dentes, aos países do OPNA. Soldados “civilizados”, que mataram cerca de um milhão e meio de pessoas, ferindo umas 20 milhões, obrigando a fugir dos seus lares a outras 30 milhões, ocupando suas terras e levando suas fortunas pessoais e nacionais. E ainda assim, eles não são “cristianófobos”.

24. Fechar as fronteiras da Europa. Imaginem a felicidade sentida agora pelo presidente búlgaro Boyko Borisov! Afinal, seu colega Hollande, defensor da “fraternité”, apoiado pelos cidadãos do seu país, respalda as políticas anti imigratórias da ultradireita.

Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo. Ainda que o Estado Islâmico despareça (o que não acontecerá), a guerra na Síria continuará: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente, e têm catastróficos planos para esta região.

* Nazanín Armanian é iraniana, residente em Barcelona desde 1983, quando se exilou no país. Licenciada em Ciências Políticas, dá aulas em cursos online da Universidade de Barcelona. Também é colunista de Público.es.

Tradução: Victor Farinelli

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Fundos abutres: decisões não respeitam os direitos humanos

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Fundos abutres: decisões não respeitam os direitos humanos

Grupo de especialistas concluiu que as decisões da justiça norte-americana favorecem condutas que levam à violação dos direitos humanos.


Martín Granovsky
Asoma / Flickr
As decisões da Justiça norte-americana em benefício dos fundos abutre, nos processos movidos contra a Argentina, representam “um retrocesso para a reestruturação da dívida e afetam também as atuais negociações para estabelecer um mecanismo internacional de reestruturação das dívidas soberanas”. Essa é uma das conclusões do informe elaborado pelos especialistas encabeçados pelo suíço Jean Ziegler, a pedido do Comitê Assessor especial, criado pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.
 
Como não se trata somente de uma questão moral, mas sim prática, os especialistas sugerem que exista uma legislação dirigida claramente a conseguir o respeito dos direitos humanos por parte dos fundos abutre domiciliados num território ou jurisdição.
 
“Os Estados deveriam aplicar as leis regulatórias voltadas ao mundo empresarial com o fim de persuadir os fundos abutre para que respeitem os direitos humanos”, sustenta o documento completo escrito por Ziegler e sua equipe, de 27 páginas, em inglês, que contém um registro da atividade dos abutres e explica como essa atividade pode violar os direitos humanos. É um primeiro texto, surgido da resolução do Conselho de Direitos Humanos, de setembro passado. A Argentina trabalhou para instalar o problema através do seu embaixador nos organismos internacionais com sede em Genebra, o ex-vice chanceler, Alberto D’Alotto.
 
Ziegler, de 81 anos, é um dirigente político socialista já veterano. Entre 2000 e 2008, foi relator especial da ONU para o Direito à Alimentação. Se tornou famoso nos últimos 30 anos por suas investigações sobre casos de lavagem de dinheiro no sistema financeiro de seu próprio país.
 
Segundo o texto, as sentenças criaram um “precedente perigoso, porque penalizaram os credores que participaram nas negociações da dívida” e seu cumprimento afetaria os progressos realizados pela Argentina em políticas sociais, com um aumento da participação no PIB de 9,5% em 2003 a 15,5% em 2015, considerando saúde, educação, segurança social e habitação.
 
A parte positiva dessas decisões (“resultado inesperado”, pelo que define o documento) é que geraram um apoio “amplo e sólido” à postura argentina contra os fundos abutre.
 
O parágrafo C do documento está dedicado ao processo da NML Capital Ltd., de Paul Singer, com sede nas Ilhas Cayman, contra a Argentina. O trabalho constata que depois do “colapso catastrófico do 2001”, entre 2005 e 2010, a Argentina chegou a acordo com 92% dos seus credores, quitando cerca de 70%. Antes do colapso, o fundo abutre NML comprou títulos no mercado secundário. Pagou 48,7 milhões para adquirir bonos que renderiam 220 milhões de dólares. Inclusive dentro do total dos credores os abutres são uma parte ínfima: 1,6%.
 
O ponto 35 do texto levanta um alarme pela decisão do juiz estadunidense Thomas Griesa, que privilegiou o direito de alguns credores sobre outros, interpretando de outro modo o tradicional princípio equitativo do pari passu – condições iguais. As consequências estão definidas no documento como “impactantes”, porque foi exigido da Argentina o pagamento total dos abutres antes de abonar o que vem sendo depositado aos demais credores, os que já negociaram. “Não é surpreendente que essa decisão tenha sido amplamente questionada, inclusive pelo próprio governo dos Estados Unidos”, diz o texto. Também há uma descrição do magnata Singer, lembrando ser ele o maior doador para as campanhas dos republicanos George W. Bush e Mitt Romney, o que lhe deu “um enorme poder de influência e uma capacidade especial de obter cooperação legal e política para suas operações”.
 
Um dos problemas que a equipe de Ziegler detectou é que não existe um regime jurídico internacional para os casos de insolvência ou bancarrota de Estados.
 
“Quando um Estado entra em default de suas dívidas soberanas, é obrigado a começar, a partir de sua própria iniciativa, um processo de reestruturação da sua dívida externa, com complexas negociações, com uma variedade enorme de tipos de credores, incluindo os credores privados comerciais”, diz um dos artigos.
 
A participação nesses processos de negociação é voluntária, o que leva a que certos credores possam decidir que não participar da renegociação, porque apostam num pagamento maior. Aqui é onde entram em jogo os fundos abutre, que buscam como resultado final um lucro maior, após evar o Estado à Justiça. Para isso, naturalmente, se aproveitam ao máximo das falhas do sistema.
 
Cephas Lumina, que foi um dos analistas independente na questão dos efeitos da dívida consultado pelos investigadores, insistiu na tese de que os abutres exercem pressão política. Muitas vezes, os fundos compram títulos que se debilitam ou que pertencem a países que estão prestes a entrar em default. Por isso são abutres. Não são agiotas, e sim compradores no mercado secundário. “Se chamam abutres porque são predadores”, define.
 
São predadores porque atacam a dívida soberana de Estados com economias desarticuladas e uma capacidade de defensa mais frágil. Segundo o Banco Mundial, pelo menos 26 fundos abutres agrediram um terço dos Estados que são destinatários naturais de medidas de alívio da dívida ou de ajudas no combate contra a pobreza.
 
Os predadores “se beneficiam da falta de transparência e de controle do mercado secundário”, onde há grandes descontos e não rege a obrigação de informar nada ao Estado devedor. A dívida é soberana, mas aparece tratada de maneira oculta.
 
Os abutres tentam evitar os processos de reestruturação ordenada e procuram pressionar uma nação debilitada a aceitar um acordo em condições desvantajosas. Para isso, precisam convencê-la de que um processo longo será caro e supõe manter um litígio com uma contraparte muito agressiva. Foi o que ocorreu com Grécia em 2012, quando, em meio a uma situação política instável, concordou em pagar, de forma privilegiada, o fundo Dart Management, com sede nas Ilhas Cayman.
 
Os predadores não buscam somente cobrar mais que os negociadores. Querem também o valor total, mais juros e correção monetária. Há registros de dinheiro cobrado em seis anos, com lucros anuais entre 50 e 333%, resultado que pode complicar as reservas de um país. Os abutres costumam escolher “jurisdições amigáveis para os credores” (o texto as define como creditor friendly jurisdictions) como os Estados Unidos e o Reino Unido, embora também iniciem litígios em muitos dos países devedores.
 
Os abutres apelam ao lobby e “organizam campanhas midiáticas para desacreditar os Estados devedores e forçar os governos a pagar”. Também podem interceptar bens em terceiros países. Em 2005, a Suprema Corte britânica permitiu que o fundo abutre Kenington International Limited bloqueou fundos da República do Congo, provenientes das vendas de petróleo, para cobrar 39 milhões de dólares de dívida.
 
Os predadores maximizam seus lucros em níveis altíssimos. Alcançam de três a 20 vezes o seu investimento. O retorno é de 300 a 2000%, como no caso de Elliott Associates L. P. no Peru, em 1996, onde 11 milhões em títulos comprados se transformaram, quatro anos depois, em 58 milhões de dólares. Em alguns exemplos, segundo o Fundo Monetário Internacional, as demandas chegam a um equivalente a 12 ou 13% do PIB de um país. Além disso, como a maioria dos fundos abutre funcionam em paraísos fiscais com segredo bancário, podem cometer sonegação fiscal sem ter a obrigação de informar sobre os benefícios ou dados dos proprietários.
 
Os especialistas chegaram a um diagnóstico depois de estudar os casos das últimas décadas, que são 120 entre 1976 e 2010, contra 26 Estados, considerando somente os processos sediados nos Estados Unidos e no Reino Unido. “Como eles têm 72% de sucesso nos casos, é provável que as demandas iniciadas pelos fundos abutre proliferem no futuro.”
 
A probabilidade de que em litígio em casos de dívida soberana passou de 10% nos Anos 80 a 40% nos últimos anos, o que pode fazer com que países como a República Democrática do Congo, mesmo depois de passar por 40 anos de ditadura, não possam melhorar as condiciones de sua população, num país onde 80% dos cidadãos vive com menos de dois dólares por dia.
 
Tradução: Victor Farinelli

domingo, 14 de junho de 2015

A nova geopolítica do petróleo

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A nova geopolítica do petróleo

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Barack Obama, num de seus diversos encontros com o ditador saudita, Rei Abdullah (falecido em janeiro e substituído por seu irmão Sultan). Riad quer manter Washington no Oriente Médio -- e tem meios importantes para tanto
Obama, num de seus encontros com o ditador saudita, Rei Abdullah (falecido em janeiro e substituído por seu irmão Sultan). Riad quer manter Washington no Oriente Médio — e tem meios importantes para tanto
Para ameaçar a China e manter hegemonia global, Washington desejava recuperar autossuficiência em combustíveis e afastar-se do Oriente Médio. Faltou combinar com a Arábia Saudita
Por Ignacio Ramonet Tradução: Inês Castilho

MAIS, sobre o mesmo tema:
Petróleo: a virada nos mercados globais e o Pré-SalPor que Arábia Saudita, aliada dos EUA, age para derrubar preços do combustível. Como isto afeta Petrobras, em meio à Operação Lava Jato 
Por André Ghirardi

Em que contexto geral desenha-se uma nova geopolítica do petróleo? O país hegemônico, os Estados Unidos, considera a China como a única potência contemporânea capaz, a médio prazo (na segunda metade do século XXI), de rivalizar com ele e de ameaçar sua hegemonia solitária em nível mundial. Por isso, Washington estabeleceu secretamente, desde o princípio dos anos 2000, uma “desconfiança estratégica” com relação a Pequim.
O presidente Barack Obama decidiu reorientar a política exterior norte-americana considerando como critério principal esse parâmetro. Os Estados Unidos não querem encontrar-se de novo na humilhante situação da Guerra Fria (1948-1989), quando tiveram de compartilhar sua hegemonia mundial com outra “superpotência”, a União Soviética. Os conselheiros de Obama formularam essa teoria da seguinte maneira: “Um só planeta, uma só superpotência”.
Em consequência, Washington não deixa de ampliar suas forças e bases militares na Ásia Oriental para tentar “conter” a China. Pequim já constata o bloqueio de sua capacidade de expansão marítima por meio de múltiplos “conflitos de ilhotas” com a Coreia do Sul, Taiwan, Japão, Vietnã, Filipinas… E pela poderosa presença da VIIª frota dos Estados Unidos. Paralelamente, a diplomacia norte-americana reforça suas relações com todos os Estados que possuem fronteiras terrestres com a China (exceto a Rússia). O que explica a recente e espetacular aproximação de Washington com o Vietnã e com a Birmânia.
TEXTO-MEIO
Esta política de atenção prioritária ao Extremo Oriente e de contenção da China só será possível se os Estados Unidos conseguirem afastar-se do Oriente Médio. Neste cenário estratégico, Washington intervém tradicionalmente em três esferas. Em primeiro lugar, no âmbitomilitar. Os EUA encontram-se imersos em vários conflitos, especialmente no Afeganistão contra os talibãs e no Iraque-Síria contra a Organização do Estado Islâmico. Em segundo lugar, no âmbito dadiplomacia, em particular com a República Islâmica do Irã, com o objetivo de limitar sua expansão ideológica e impedir o acesso de Teerã à força nuclear. E, em terceiro lugar, no âmbito dasolidariedade, especialmente no que diz respeito a Israel, para quem os Estados Unidos continuam sendo uma espécie de “protetores em última instância”.
Esta “sobreimplicação” direta de Washington no Oriente Médio (particularmente depois da Guerra do Golfo em 1991) mostrou os “limites da potência norte-americana”, que não pode ganhar realmente nenhum dos conflitos nos quais se envolveu fortemente (Iraque, Afeganistão). Conflitos que tiveram, para os cofres de Washington, um custo astronômico e consequências desastrosas, inclusive para o sistema financeiro internacional.
Atualmente, a Casa Branca tem claro que os Estados Unidos não podem realizar simultaneamente duas grandes guerras de alcance mundial. Portanto, a alternativa é a seguinte: ou os Estados Unidos continuam envolvendo-se no “pantanal” do Oriente Médio, em conflitos típicos do século XIX; ou se concentram na urgente contenção da China, cujo impulso fulgurante poderia anunciar, a médio prazo, a decadência dos Estados Unidos.
A decisão de Barack Obama é óbvia: deve fazer frente ao segundo desafio, pois este será decisivo para o futuro dos Estados Unidos no século XXI. Em consequência, Washington deve retirar-se progressivamente – porém imperativamente – do Oriente Médio.
Aqui se coloca uma pergunta: por que os Estados Unidos envolveram-se tanto no Oriente Médio, a ponto de descuidar do resto do mundo, desde o fim da Guerra Fria? Para esta pergunta, a resposta pode limitar-se a uma palavra: petróleo.
Desde que os Estados Unidos deixaram de ser auto-suficientes, no final dos anos 1940, o controle das principais zonas de produção de hidrocarbonetos converteu-se em “obsessão estratégica” norte-americana. O que explica parcialmente a “diplomacia dos golpes de Estado” de Washington, especialmente no Oriente Médio e na América Latina.
No Oriente Médio, nos anos 1950, à medida em que o velho Império Britânico retirava-se e se reduzia a seu arquipélago inicial, o império norte-americano substituía-o. Para isso, colocou à frente dos países desta região seus “homens”, sobretudo na Arábia Saudita e Irã, principais produtores de petróleo do mundo – junto com a Venezuela, na época já sob controle norte-americano.
Até há pouco, a dependência de Washington em relação ao petróleo e ao gás do Oriente Médio impediu-lhe considerar a possibilidade de se retirar da região. Que mudou então, para que os Estados Unidos pensem agora em fazê-lo? O petróleo e o gás de xisto, cuja produção, por meio do método conhecido por “fracking”, aumentou significativamente no início dos anos 2000. Isso modificou todos os parâmetros. A exploração deste tipo de hidrocarbonetos (cujo custo é mais elevado que o do petróleo “tradicional”) foi favorecida pelo importante aumento do preço do combustível que, em média, superou os 100 dólares por barril entre 2010 e 2013.
Atualmente, os Estados Unidos recuperaram a autossuficiência energética e estão, inclusive, convertendo-se de novo em importante exportador de petróleo. Portanto, já podem considerar, por fim, a possibilidade de se retirar do Oriente Médio, com a condição de garantir rapidamente a cicatrização de algumas feridas que, em alguns casos, datam de mais de um século.
Por esta razão, Obama retirou a quase totalidade das tropas norte-americanas do Iraque e Afeganistão. Os EUA participaram muito discretamente nos bombardeios da Líbia e negaram-se a intervir contra as autoridades de Damasco, na Síria. Por outro lado, Washington busca, em marcha forçada, um acordo como Teerã sobre a questão nuclear, e pressiona Israel para que seu governo caminhe urgentemente a um acordo com os palestinos. Em todos estes movimentos, percebe-se o desejo de Washington de fechar as frentes de guerra no oriente Médio, para esquecer os pesadelos lá vividos e passar a outro cenário, muito mais importante.
Tudo isso se desenvolvia perfeitamente enquanto os preços do petróleo permaneciam altos, cerca de 100 dólares o barril. O preço de exploração do barril de petróleo de xisto, por “fracking” é de aproximadamente US$ 60, o que deixa aos produtores uma margem considerável (entre US$ 30 e 40 o barril).
É aqui que a Arábia Saudita decidiu intervir. Riad opõe-se a que os Estados Unidos retirem-se do Oriente Médio. Sobretudo se Washington estabelecer antes, com Teerã, um acordo sobre a questão nucelar, que os sauditas consideram muito favorável ao Irã. Além disso, segundo a monarquia wahabita, isso exporia os sauditas, e os sunitas em geral, a se converter em vítimas do que chamam de “expansionismo xiita”. É preciso ter em conta que as principais jazidas de petróleo sauditas encontram-se em zonas de população xiita.
Considerando que dispõe das segundas reservas mundiais de petróleo, a Arábia Saudita [e, de longe, as mais facilmente exploráveis (nota da tradução)], decidiu usar o combustível para sabotar a estratégia norte-americana. Opondo-se às consignas da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Riad decidiu, contra toda lógica comercial aparente, aumentar de modo considerável sua produção e provocar, deste modo, a baixa dos preços do petróleo, inundando o mercado de combustível barato. A estratégia deu rapidamente resultados. Em pouco tempo, os preços do petróleo baixaram cerca de 50%. O preço do barril caiu a US$ 40 (antes de subir ligeiramente, aos cerca de US$ 55-60 atuais).
Esta política assestou um duro golpe contra o “fracking”. A maioria dos grandes produtores norte-americanos de gás de xisto está atualmente em crise, endividada e corre risco de quebrar (o que implica uma ameça para o sistema bancário norte-americano que havia oferecido créditos abundantes aos neopetroleiros). A US$ 40 o barril, o xisto já não é rentável. Nem boa parte das escavações profundas “offshore”. Diversas empresas petroleiras importantes já anunciaram que cessarão suas exportações em alto mar porque não são rentáveis – o que provoca a perda de dezenas de milhares de empregos1.
Nos últimos meses, uma vez mais, o petróleo tornou-se menos abundante. Os preços subiram levemente. Mas as reservas da Arábia Saudita são suficientemente grandes para que Riad regule o fluxo e ajuste sua produção de maneira que permita um ligeiro aumento do preço (até 60 dólares aproximadamente), mas sem superar os limites que permitiriam retomar a produção por meio de “fracking” ou na maior parte das jazidas marítimas de grande profundidade. Deste modo, Riad converteu-se no árbitro absoluto em matéria de preço do petróleo (um parâmetro decisivo para as economias de países, entre os quais Argélia, Venezuela, Nigéria, México, Indonésia etc).
Estas novas circunstâncias obrigam Barack Obama a reconsiderar seus planos. A crise do “fracking” poderia representar o fim da autossuficiência de energia fóssil nos Estados Unidos. E, portanto, a volta à dependência em relação ao Oriente Médio (e também à Venezuela, por exemplo). Por enquanto, Riad parece ter ganhado a aposta. Até quando?
1Esta consideração não abrange as reservas de petróleo do pré-sal brasileiro. Lá, as jazidas estão localizadas a enorme profundidade (as sondas precisam ultrapassar entre 120 e 2.200 metros de lâmina d’água, para depois perfurar entre 1.900 e 5.300 metros abaixo do fundo do mar); porém, o volume e concentração do petróleo permitem extração a cerca de 50 dólares por barril, incluídos os custos de operação e a transferência de recursos ao Estado brasileiro. Por isso, a intensa disputa pelo futuro das reservas. Ler, a este respeito, emOutras Palavras, Petróleo: a virada nos preços globais e o pré-sal”, de André Ghirardi. (Nota do editor)

sábado, 24 de janeiro de 2015

Noam Chomsky: estamos à beira da total auto-destruição?

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Noam-Chomsky-estamos-a-beira-da-total-auto-destruicao-/6/32713


Noam Chomsky: estamos à beira da total auto-destruição?

Existem mais processos de longo prazo apontando na direção, talvez não da destruição total, mas ao menos da destruição da capacidade de uma vida decente.


Noam Chomsky, Alternet
Arquivo

O que o futuro trará? Uma postura razoável seria tentar olhar para a espécie humana de fora. Então imagine que você é um extraterrestre observador que está tentando desvendar o que acontece aqui ou, imagine que és um historiador daqui a 100 anos - assumindo que existam historiadores em 100 anos, o que não é óbvio - e você está olhando para o que acontece. Você veria algo impressionante.

Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo-prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente.

E existem outros perigos como pandemias, as quais estão relacionadas à globalização e interação. Então, existem processos em curso e instituições em vigor, como sistemas de armas nucleares, os quais podem levar à explosão ou talvez, extermínio, da existência organizada.

Como destruir o planeta sem tentar muito 

A pergunta é: O que as pessoas estão fazendo a respeito? Nada disso é segredo. Está tudo perfeitamente aberto. De fato, você tem que fazer um esforço para não enxergar. 

Houveram uma gama de reações. Têm aqueles que estão tentando ao máximo fazer algo em relação à essas ameaças, e outros que estão agindo para aumentá-las. Se olhar para quem são, esse historiador futurista ou extraterrestre observador veriam algo estranho. As sociedades menos desenvolvidas, incluindo povos indígenas, ou seus remanescentes, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá, que estão tentando mitigar ou superar essas ameaças. Não estão falando sobre guerra nuclear, mas sim desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer algo a respeito.

De fato, ao redor do mundo - Austrália, Índia, América do Sul - existem batalhas acontecendo, às vezes guerras. Na Índia, é uma guerra enorme sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais tentando resistir às operações de extração de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também em suas consequências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm influência, muitos tomam uma posição forte. O mais forte dos países em relação ao aquecimento global é a Bolívia, cuja maioria é indígena e requisitos constitucionais protegem os “direitos da natureza”.

O Equador, o qual também tem uma população indígena ampla, é o único exportador de petróleo que conheço onde o governo está procurando auxílio para ajudar a manter o petróleo no solo, ao invés de produzi-lo e exportá-lo - e no solo é onde deveria estar.

O presidente Venezuelano Hugo Chávez, que morreu recentemente e foi objeto de gozação, insulto e ódio ao redor do mundo ocidental, atendeu a uma sessão da Assembléia Geral da ONU a poucos anos atrás onde ele suscitou todo tipo de ridículo ao chamar George W. Bush de demônio. Ele também concedeu um discurso que foi interessante. Claro, Venezuela é uma grande produtora de petróleo. O petróleo é praticamente todo seu PIB. Naquele discurso, ele alertou dos perigos do sobreuso dos combustíveis fóssil e sugeriu aos países produtores e consumidores que se juntassem para tentar manejar formas de diminuir o uso desses combustíveis. Isso foi bem impressionante da parte de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte índio, com passado indígena. Esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi reportado, diferentemente das coisas engraçadas que fez.

Então, em um extremo têm-se os indígenas, sociedades tribais tentando amenizar a corrida ao desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas, poderosas na história da humanidade, como os EUA e o Canadá, que estão correndo em velocidade máxima para destruir o meio ambiente o mais rápido possível. Diferentemente do Equador e das sociedades indígenas ao redor do mundo, eles querem extrair cada gota de hidrocarbonetos do solo com toda velocidade possível.

Ambos partidos políticos, o presidente Obama, a mídia, e a imprensa internacional parecem estar olhando adiante com grande entusiasmo para o que eles chamam de “um século de independência energética” para os EUA. Independência energética é quase um conceito sem significado, mas botamos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século no qual maximizaremos o uso de combustíveis fóssil e contribuiremos para a destruição do planeta.

E esse é basicamente o caso em todo lugar. Admitidamente, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o mais rico e poderoso país de toda a história do mundo, é a única nação dentre talvez 100 relevantes que não possui uma política nacional para a restrição do uso de combustíveis fóssil, e que nem ao menos mira na energia renovável. Não é por que a população não quer. Os americanos estão bem próximos da norma internacional com sua preocupação com o aquecimento global. Suas estruturas institucionais que bloqueiam a mudança. Os interesses comerciais não aceitam e são poderosos em determinar políticas, então temos um grande vão entre opinião e política em muitas questões, incluindo esta. Então, é isso que o historiador do futuro veria. Ele também pode ler os jornais científicos de hoje. Cada um que você abre tem uma predição mais horrível que a outra.

“O momento mais perigoso na história”

A outra questão é a guerra nuclear. É sabido por um bom tempo, que se tivesse que haver uma primeira tacada por uma super potência, mesmo sem retaliação, provavelmente destruiria a civilização somente por causa das consequências de um inverno-nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. É bem compreendido. Então o perigo sempre foi muito pior do que achávamos que fosse.

Acabamos de passar pelo 50o aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos, a qual foi chamada de “o momento mais perigoso na história” pelo historiador Arthur Schlesinger, o conselheiro do presidente John F. Kennedy. E foi. Foi uma chamada bem próxima do fim, e não foi a única vez tampouco. De algumas formas, no entanto, o pior aspecto desses eventos é que a lições não foram aprendidas.

O que aconteceu na crise dos mísseis em outubro de 1962 foi petrificado para parecer que atos de coragem e reflexão eram abundantes. A verdade é que todo o episódio foi quase insano. Houve um ponto, enquanto a crise chegava em seu pico, que o Premier Soviético Nikita Khrushchev escreveu para Kennedy oferecendo resolver a questão com um anuncio publico de retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos da Turquia. Na realidade, Kennedy nem sabia que os EUA possuíam mísseis na Turquia na época. Estavam sendo retirados de todo modo, porque estavam sendo substituídos por submarinos nucleares mais letais, e que eram invulneráveis.

Então essa era a proposta. Kennedy e seus conselheiros consideraram-na - e a rejeitaram. Na época, o próprio Kennedy estimava a possibilidade de uma guerra nuclear em um terço da metade. Então Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito alto de destruição em massa afim de estabelecer o princípio de que nós - e somente nós - temos o direito de deter mísseis ofensivos além de nossas fronteiras, na realidade em qualquer lugar que quisermos, sem importar o risco aos outros - e a nós mesmos, se tudo sair do controle. Temos esse direito, mas ninguém mais o detém.

No entanto, Kennedy aceitou um acordo secreto para a retirada dos mísseis que os EUA já estavam retirando, somente se nunca fosse à publico. Khrushchev, em outras palavras, teve que retirar abertamente os mísseis russos enquanto os EUA secretamente retiraram seus obsoletos; isto é, Khrushchev teve que ser humilhado e Kennedy manteve sua pose de macho. Ele é altamente elogiado por isso: coragem e popularidade sob ameaça, e por aí vai. O horror de suas decisões não é nem mencionado - tente achar nos arquivos.

E para somar um pouco mais, poucos meses antes da crise estourar os EUA haviam mandado mísseis com ogivas nucleares para Okinawa. Eram mirados na China durante um período de grande tensão regional.

Bom, quem liga? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição daquela época, mas haviam outras por vir.

Dez anos depois disso, em 1973, o secretário de estado Henry Kissinger chamou um alerta vermelho nuclear. Era seu modo de avisar à Rússia para não interferir na constante guerra Israel-Árabes e, em particular, não interferir depois de terem informado aos israelenses que poderiam violar o cessar fogo que os EUA  e a Rússia haviam concordado. Felizmente, nada aconteceu.

Dez anos depois, o presidente em vigor era Ronald Reagan. Assim que entrou na Casa Branca, ele e seus conselheiros fizeram com que a Força Aérea começasse a entrar no espaço aéreo Russo para tentar levantar informações sobre os sistemas de alerta russos, Operação Able Archer. Essencialmente, eram ataques falsos. Os Russos estavam incertos, alguns oficiais de alta patente acreditavam que seria o primeiro passo para um ataque real. Felizmente, eles não reagiram, mesmo sendo uma chamada estreita. E continua assim. 

O que pensar das crises nucleares Iraniana e Norte-Coreana

No momento, a questão nuclear está regularmente nas capas nos casos do Irã e da Coréia do Norte. Existem jeitos de lidar com esse crise contínua. Talvez não funcionasse, mas ao menos tentaria. No entanto, não estão nem sendo consideradas, nem reportadas.

Tome o caso do Irã, que é considerado no ocidente - não no mundo árabe, não na Ásia - a maior ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante investigar as razões disso, mas deixarei isso de lado. Há um jeito de lidar com a suposta maior ameaça à paz mundial? Na realidade existem várias. Uma forma, bastante sensível, foi proposta alguns meses atrás em uma reunião dos países não alinhados em Teerã. De fato, estavam apenas reiterando uma proposta que esteve circulando por décadas, pressionada particularmente pelo Egito, e que foi aprovada pela Assembléia Geral da ONU.

A proposta é mover em direção ao estabelecimento de uma zona sem armas nucleares na região. Essa não seria a resposta para tudo, mas seria um grande passo à frente. E haviam modos de proceder. Sob o patrocínio da ONU, houve uma conferência internacional na Finlândia dezembro passado para tentar implementar planos nesta trajetória. O que aconteceu? Você não lerá sobre isso nos jornais pois não foi divulgado - somente em jornais especialistas.

No início de novembro, o Irã concordou em comparecer à reunião. Alguns dias depois Obama cancelou a reunião, dizendo que a hora não estava correta. O Parlamento Europeu divulgou uma declaração pedindo que continuasse, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então moveremos em direção a sanções mais rígidas contra a população Iraniana - não prejudica o regime - e talvez guerra. Quem sabe o que irá acontecer?


No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coréia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom competidor para o título. Mas faz sentido tentar adivinhar o que se passa pela cabeça alheia quando estão agindo feito loucos. Por que se comportariam assim? Nos imagine na situação deles. Imagine o que significou na Guerra da Coréia anos dos 1950’s o seu país ser totalmente nivelado, tudo destruído por uma enorme super potência, a qual estava regozijando sobre o que estava fazendo. Imagine a marca que deixaria para trás.

Tenha em mente que a liderança Norte Coreana possivelmente leu os jornais públicos militares desta super potência na época explicando que, uma vez que todo o resto da Coréia do Norte foi destruído, a força aérea foi enviada para a Coréia do Norte para destruir suas represas, enormes represas que controlavam o fornecimento de água - um crime de guerra, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses jornais oficiais falavam excitadamente sobre como foi maravilhoso ver a água se esvaindo, e os asiáticos correndo e tentando sobreviver. Os jornais exaltavam com algo que para os asiáticos fora horrores para além da imaginação. Significou a destruição de sua colheita de arroz, o que resultou em fome e morte. Quão maravilhoso! Não está na nossa memória, mas está na deles.

Voltemos ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coréia do Norte se moviam em direção a um acordo no qual a Coréia do Norte pararia de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel reconheceria seu país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois disso, em retaliação, a Coréia do Norte promoveu um teste de mísseis pequeno. Os EUA e a Coréia do Norte chegaram então a um acordo em 1994 que interrompeu seu trabalho nuclear e foi mais ou menos honrado pelos dois lados. Quando George W. Bush tomou posse, a Coréia do Norte tinha talvez uma arma nuclear e verificadamente não produzia mais.

Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coréia do Norte - “machado do mal” e tudo isso - então a Coréia do Norte voltou a trabalhar com seu programa nuclear. Na época que Bush deixou a Casa Branca, tinham de 8 a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neoconservadora. No meio, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coréia do Norte realmente chegaram a um acordo no qual a Coréia do Norte teria que terminar com todo seu desenvolvimento nuclear e de mísseis. Em troca, o ocidente, mas principalmente os EUA, forneceria um reator de água natural para suas necessidades medicinais e pararia com declarações agressivas. Eles então formariam um pacto de não agressão e caminhariam em direção ao conforto.

Era muito promissor, mas quase imediatamente Bush menosprezou. Retirou a oferta do reator de água natural e iniciou programas para compelir bancos a pararem de manejar qualquer transação Norte Coreana, até mesmo as legais. Os Norte Coreanos reagiram revivendo seu programa de armas nuclear. E esse é o modo que se segue.

É bem sabido. Pode-se ler na cultura americana principal. O que dizem é: é um regime bem louco, mas também segue uma política do olho por olho, dente por dente. Você faz um gesto hostil e responderemos com um gesto louco nosso. Você faz um gesto confortável e responderemos da mesma forma.

Ultimamente, por exemplo, existem exercícios militares Sul Coreanos-Americanos na península Coreana a qual, do ponto de vista do Norte, tem que parecer ameaçador. Pensaríamos que estão nos ameaçando se estivessem indo ao Canadá e mirando em nós. No curso disso, os mais avançados bombardeiros na história, Stealth B-2 e B-52, estão travando ataques de bombardeio nuclear simulados nas fronteiras da Coréia do Norte.

Isso, com certeza, reacende a chama do passado. Eles lembram daquele passado, então estão reagindo de uma forma agressiva e extrema. Bom, o que chega no ocidente derivado disso tudo é o quão loucos e horríveis os líderes Norte Coreanos são. Sim, eles são. Mas essa não é toda a história, e esse é o jeito que o mundo está indo.

Não é que não haja alternativas. As alternativas somente não estão sendo levadas em conta. Isso é perigoso. Então, se me perguntar como o mundo estará no futuro, saiba que não é uma boa imagem. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Sempre podemos.


TraduçãoIsabela Palhares