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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A fúria dos que saíram do armário

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-furia-dos-que-sairam-do-armario/4/35232


23/12/2015 - Copyleft

A fúria dos que saíram do armário

Essa direita troglodita ataca à traição. E sabe que figuras públicas não costumam reagir, para não alimentar a sede mesquinha dos escrevedores de intrigas.


Eric Nepomuceno
Reprodução
O que mais impressiona – e preocupa – na agressão verbal que um grupo de garotões cuja profissão principal é ser filho de pai rico lançou contra Chico Buarque na noite da segunda-feira, 21 de dezembro? Três coisas. Primeiro, a extrema fúria dessa direita desgarrada que acaba de sair do armário embutido. Segundo, a facilidade com que repetem o que dizem os grandes meios de comunicação. E terceiro, a incapacidade para qualquer gesto minimamente civilizado.
 
Chico saía de um jantar com amigos quando, ao buscar um táxi, passou a ser chamado de ‘petista’. Ouviu a repetição de clichês idiotas repetidos à exaustão pelos meios de incomunicação e pelos deformadores de opinião. A um dos garotões ele respondeu com humor. Dizia o valentão que defender o PT quando se mora em Paris é fácil. ‘Você mora em Paris?’, perguntou Chico. E o rapaz respondeu: “Não, quem mora em Paris é você!’. Chico, então, perguntou: ‘Você andou lendo a Veja?’. A ironia continua sendo uma válvula de escape. Mas para ter ironia é preciso inteligência, artigo definitivamente raro na praça.
 

 
Não foi a primeira nem a décima agressão verbal que ele e seus amigos ouvem, todas relacionadas ao PT, a Lula e a Dilma. O mais recomendável é, sempre, fazer ouvidos moucos. Mas também essa regra tem suas exceções. O episódio de segunda-feira foi inevitável: Chico estava no meio da rua, é pessoa pública, reconhecível a milhas marítimas de distância.
 
Mais grave é saber que não foi a primeira nem a decima ocasião, e também não terá sido a última. O país está polarizado como poucas vezes esteve nos últimos 50 ou 60 anos. O grau de agressividade, de furiosa intransigência dessa direita recém-saída de um imenso armário – certamente embutido – é o que mais chama a atenção. E preocupa. Muito. Dizer na cara de alguém ‘Você é um merda’ pode ter consequências sérias. Chico sabia e sabe que qualquer reação à altura não faria outra coisa que atiçar ainda mais a fúria dessa direita desembestada, fartamente alimentada pela grande imprensa. Até nisso a direita recém assumida em sua verdadeira essência é covarde. Até quando?
 
O país se acostumou às tristes cenas de violência entre torcidas organizadas no futebol. Elas pelo menos têm a decência de se uniformizar, ou seja, é fácil identificar o adversário à distância.
 
Essa direita troglodita, não. Ataca à traição. E sabe que figuras públicas como as que foram atacadas à sorrelfa não costumam reagir, para não alimentar a sede mesquinha dos escrevedores de intrigas.
 
Há poucos registros, que eu me lembre, de alguém que tenha saído do armário com tanta sede de ação. Cuidado com eles: tantas ganas reprimidas, quando subitamente liberadas, desconhecem limites.
 
Eric Nepomuceno é jornalista e escritor, estava com Chico no episódio relatado

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Entenda a verdade: 15 Fotos e 10 Fatos sobre o Holocausto

hist il
http://www.historiailustrada.com.br/2014/05/entenda-verdade-holocausto.html#.VT5CcyFViko


Entenda a verdade: 15 Fotos e 10 Fatos sobre o Holocausto




Dormitório coletivo de judeus em campo de concentração polonês, 1943.

Quando Adolf Hitler assumiu o comando da Alemanha em 1933, aquele país iniciou a institucionalização de uma ideologia mortífera. Se por um lado a repulsa aos judeus e outras categorias já existia na Europa há séculos, seria inédita a postura assumida pelo governo para lidar com essa situação. Sustentados por um pensamento pseudo-científico conhecido como darwinismo social, os nazistas perseguiram e executaram milhões de civis em um episódio que ficou conhecido como Holocausto.

Apesar do tema ser exaustivamente trabalhado, as dúvidas a seu respeito são numerosas. Boa parte do que se "sabe" sobre o holocausto é baseado em filmes que às vezes partem para o apelo emocional, fugindo à realidade. No campo científico os estudiosos acabam sendo mais cuidadosos com números e análises.

Este artigo reúne alguns dos principais fatos sobre a perseguição e extermínio massivo de milhões de pessoas. Afinal, quem, quando e quantos foram atingidos? Quem foi o responsável e quais suas motivações? Existe algum nível de exagero ou distorção da verdade? Leia essas respostas e veja fotografias que poderão contextualizar melhor este tema.

(clique nas imagens para ampliar)

1 - O Holocausto era sustentado por uma pseudo-ciência
Uma pseudo-ciência que chegou a ser lecionada em universidades está diretamente ligada às práticas desumanas aplicadas durante o Holocausto: a Eugenia. Seu principal objetivo era desenvolver maneiras de manipular e otimizar a evolução humana de acordo com os princípios darwinistas aplicados à humanidade (darwinismo social). Na prática se tornou terreno para legitimar o racismo e defender práticas extremamente polêmicas, como a esterilização e extermínio de grupos genéticos inteiros. Por questões que envolvem ética e a prova da inexistência de diferentes raças humanas, a eugenia já não é mais considerada uma ciência, entretanto ainda nos dias de hoje é possível observar a aplicação e defesa de seus princípios principalmente em países europeus.

Soldado nazista ridiculariza os cabelos do jovem e aflito judeu polonês. Observe que ele carrega uma tesoura na mão esquerda.

2 - O Holocausto começou antes da Segunda Guerra Mundial
Desde o começo da década de 1930, quando os nazistas chegaram ao poder, começaram a surgir diversas leis de cunho racista que visavam limitar os direitos dos judeus, as novas regras proibiam desde a realização de casamentos entre judeus e arianos até mesmo a frequentar locais públicos (inclusive hospitais). Pode parecer estranho imaginar que a comunidade internacional conviveu com isso por anos, mas esta é a realidade. Enquanto os judeus mais ricos simplesmente fugiram para outros países, os mais pobres ficaram até o cerco se fechar.

Sinagoga completamente destruída durante a Noite dos Cristais (Kristallnacht), Dortmund, Alemanha, 1938. A Noite dos Cristais foi uma onda de violência antissemita ocorrida após o assassinato de um embaixador alemão por um judeu na França. Praticamente sem qualquer interferência da polícia ou corpo de bombeiros, cidadão alemães enfurecidos destruíram templos e saquearam lojas em um episódio que resultou na morte de dezenas de judeus em toda a Alemanha. O nome Noite dos Cristais faz referência ao grande número de vidraças (das lojas judaicas) quebradas pela população naquela madrugada.

3 - O Holocausto não se resumiu aos judeus
Não há dúvidas que o povo mais perseguido pela Alemanha Nazista foi o judeu, mas não foram somente eles que sofreram perseguições, prisões e execuções sumárias. Entre os indesejáveis do Terceiro Reich também figuravam outros grupos étnicos não-arianos, como os ciganos e eslavos. Outras categorias como aleijados, homossexuais e inimigos políticos (comunistas, anarquistas, testemunhas de jeová, etc...) também acabaram em campos de concentração.

Prisioneiro britânico frente a Heinrich Himmler, um dos grandes idealizadores do Holocausto.

4 - Muitos prisioneiros foram usados como cobaias para experimentos médicos
O uso de cobaias humanas hoje em dia é algo extremamente delicado e sua discussão sobre questões éticas acaba impondo limites às realizações de determinados testes. No contexto do holocausto alguns médicos nazistas realizaram experiências mortíferas que envolviam homens, mulheres e até mesmo bebês. O principal responsável por essas experiências foi Josef Mengele, conhecido como O Anjo da Morte, médico chefe do temido campo de extermínio Auschwitz-Birkenau. Fontes indicam o uso de milhares de prisioneiros em experiências quase sempre fatais, e quando a vítima sobrevivia, era executada para uma análise de seu cadáver. Entre as experiências realizadas podemos citar: exposição à radiação, congelamento, consumo exclusivo de água do mar e até mesmo dissecação de vivos para observar a evolução de doenças e infecções.

Crianças ciganas em estágio avançado de desnutrição. Elas foram usadas como cobaias em experimentos médicos em Auschwitz, Polônia, 1943.

5 - A política de perseguição evoluiu gradualmente para um sistema de extermínio em proporções industriais
Como já foi dito anteriormente, a perseguição começou de fato com a imposição de leis limitadoras cada vez mais incômodas. Os judeus foram afastados de todos os cargos públicos, suas crianças foram expulsas das escolas e se criaram instituições para expulsá-los do território alemão. Com o início da Segunda Guerra os cuidados para maquiar o anti-semitismo para a comunidade internacional cessaram, judeus agora eram obrigados a andar com uma estrela de identificação, gradualmente foram forçados a habitar regiões segregadas (os chamados guetos) onde faltava tudo, desde moradias suficientes até alimentação e ofertas de trabalho. Quando o conflito mostrou maiores dificuldades para a vitória nazista, entrava em cena a chamada Solução Final: prisioneiros eram levados para campos de extermínio, verdadeiras "fábricas de morte" movidas a envenenamento com um gás pesticida chamado Zyklon B. 

Essa é uma das imagens mais conhecidas quando o assunto é Holocausto. Se trata de um grupo de judeus rendidos após uma revolta no Gueto de Varsóvia, 1943.

Trem lotado de judeus a caminho de Auschwitz, 1942.

As paredes arranhadas transmitem o desespero de dentro de uma câmara de gás de Auschwitz.

Pilha de óculos de prisioneiros confiscados pelos nazistas em Auschwitz, foto de 1945.

6 - A propaganda sobre o Holocausto foi muito explorada na Segunda Guerra Mundial
Ao longo do conflito os rumores sobre o que os nazistas faziam com seus inimigos foram explorados ao máximo. Por anos essas informações eram vistas com muita desconfiança. Do lado nazista a mensagem que se passava era que os prisioneiros estavam em lugares agradáveis e o ódio antissemita só aumentava uma vez que a evolução da guerra deixou claro que a derrota seria inevitável. Do lado dos aliados se explorou o Holocausto como forma de convocar países em um esforço contra as atrocidades do eixo. O excesso de simbolismo usado pelo Terceiro Reich facilitava a propaganda: imensas bandeiras, suásticas, runas e a liderança caricata de Adolf Hitler despertavam emoções intensas que variavam entre amor e ódio.

Judeu desnutrido se esforça para se manter de pé no campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, 1944.

7 - Apesar das denúncias e forte propaganda, a libertação dos prisioneiros não era prioridade dos Aliados
Uma contradição amarga a ser lembrada é que os Aliados não direcionaram o esforço de guerra para a liberação dos judeus. Ao invés disso, se observou uma corrida pela aniquilação do Estado Nazista. Isso remete às divergências nos interesses políticos das duas partes que formaram as Potências Aliadas, o único elemento que ligava a União Soviética ao ocidente era o inimigo em comum (Hitler), no mais, eles eram adversários. Sendo o rápido avanço soviético no front oriental uma forte ameaça da dominação comunista no continente europeu.

Judeu encarregado de distribuir braçadeiras com a Estrela de Davi. A lei nazista exigia que o judeu se identificasse com esse símbolo.

8 - Nem todos os aliados de Hitler colaboraram com o Holocausto
Entre civis, diplomatas e até mesmo governantes, vale lembrar que nem todos aqueles que estavam alinhados com os interesses do Eixo ofereceram cumplicidade no Holocausto. Diferentemente de países como a Itália Fascista e a França Colaboracionista, que aplicaram leis antissemitas e deportaram seus cidadãos para campos de extermínio, houve casos de gente que ofereceu resistência e até se arriscou para salvar alguns judeus. A título de exemplo, diplomatas de diversos países como Portugal e Espanha abrigaram judeus e outras minorias em suas embaixadas. No caso da Espanha foi notável a maior resistência em entregar judeus, mas descobertas recentes evidenciaram que o ditador fascista Francisco Franco (ao contrário do que ele disse à comunidade internacional) entregou cerca de 6 mil judeus para Hitler.

Judeus em Berlim caminham com a Estrela de Davi costurada em suas roupas, 1941.

Vista da entrada de Auschwitz - Birkenau, o principal campo de extermínio nazista, lugar onde morreram mais de um milhão de vítimas do Holocausto.

9 - A população alemã em geral não sabia exatamente o que se passava nos campos de concentração
A demonização da ideologia nazista é um tema extremamente delicado quando lembramos que Hitler chegou ao poder de forma democrática e boa parte da população da Alemanha aprovava calorosamente o regime. De fato o racismo era algo presente naquela nação, mas isso não significa muita coisa: se você observar com cautela os principais jornais circulantes na Inglaterra e Estados Unidos naquele período, vai perceber que o racismo e a segregação também existia nesses países. Apesar de haver casos de violência explícita contra judeus por parte de civis alemães, as atrocidades cometidas nos campos de concentração eram mantidas em sigilo pelo alto comando nazista.

Jovem alemã se assusta ao ver os corpos exumados das vítimas do Holocausto. Os Aliados chegaram a desenterrar centenas de cadáveres para obrigar a população a encará-los em troca de comida, Namering, Alemanha, Maio de 1945.

10 - Os dois lados da guerra tentaram distorcer o Holocausto
Quando se fala em Holocausto é comum remeter às grandes produções cinematográficas a respeito. Isso é grave, precisamos contextualizar o evento e o momento de sua revelação ao mundo: com o fim da Segunda Guerra Mundial a descoberta dos campos de concentração aqueceu o desejo de estabelecer uma pátria para os judeus, assim, se procurou potencializar o episódio com diversos artifícios. Muitas fotografias tiveram um cenário forjado, soldados recolheram e empilharam corpos, prisioneiros doentes foram selecionados a dedo para compor imagens chocantes.

Entendida a posição Aliada, deve-se observar com ainda mais atenção a postura dos chamados revisionistas. Entre estudiosos e completos leigos, eles utilizam fontes duvidosas para questionar uma das atrocidades mais bem documentadas da história. Eles são impulsionados por pensamentos simpáticos ao nazismo ou ódio religioso relacionado aos conflitos com a formação do Estado de Israel e a população palestina. O xiita Mahmoud Ahmadinejad, atual presidente do Irã, em uma declaração pública chamou o Holocausto de "mito", posicionamento comum entre os islâmicos mais radicais. A revisão da história, quando feita com seriedade, é um papel muito importante para desconstruir certas ilusões. A necessidade de reanalisar o Holocausto não seria de tamanha polêmica se dezenas de países não considerassem crime a sua prática, atitude gravíssima, uma vez que não existe tema histórico de veracidade incontestável.

Prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald, Março de 1945.

Algumas fontes:

Bruno Henrique Brito Lopes 
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A prova irrefutável de que o Brasil tolera o assassinato de pobres e negros. Veja e assuma


estadão

http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/sp-no-diva/a-prova-irrefutavel-de-que-o-brasil-tolera-o-assassinato-de-pobres-e-negros/


A prova irrefutável de que o Brasil tolera o assassinato de pobres e negros. Veja e assuma

BRUNO PAES MANSO
10 Novembro 2014 | 09:02

Ainda não consegui me esquecer do depoimento de Vera Lucia dos Santos no documentário À Queima Roupa, de Thereza Jessouron, que estreia na quinta-feira, dia 13, nos cinemas de São Paulo. Para falar a verdade, não vou me esquecer nunca mais. Vera está toda vestida de preto e sua figura tem a sobriedade das matriarcas evangélicas dos bairros pobres brasileiros. Ela tem uma mistura de negro com índio. Morava em Vigário Geral quando, em agosto de 1993, 21 moradores do bairro foram assassinados por policiais. Oito vítimas eram de sua família.
Seu pai, sua mãe, cinco irmãos e a cunhada haviam acabado de chegar em casa depois do culto. Foram executados a sangue frio pelos policiais. Apenas três crianças de menos de cinco anos foram poupadas. Com seus pijaminhas de ursinhos e palhacinhos, eles vão pedir socorro na casa vizinha à da tia. No filme, Vera conta como encontrou os corpos de seus parentes depois da chacina. A mãe estava com a bíblia na mão. O irmão morreu de joelhos, segurando os documentos que tentou mostrar para a polícia. Uma das irmãs iria se casar em alguns dias. Outra, lançaria um CD evangélico. Teve os dedos quebrados pelos policiais a irmã que tentou defender os pais.
Peço ao leitor, com todo o respeito, um esforço de abstração. Imagine uma vingança com tal crueldade praticada pela polícia contra moradores de Pinheiros, em São Paulo, do Leblon, no Rio, ou Stella Maris, em Salvador. Pais formados em universidades públicas, com seus filhos em colégios privados, todos brancos, sete corpos estendidos na sala de jantar para saciar a vingança e o ódio dos policiais marginais. Não sejamos hipócritas. Isso seria inconcebível. É inimaginável. O Estado não toleraria as consequências.
Só toleramos as cenas do documentário À Queima Roupa, que se repetem com absurda frequência no Brasil, porque as vítimas são negras e pobres das periferias brasileiras. Assista ao documentário e assuma a realidade para si mesmo. É a prova irrefutável. Apenas um cínico ou mentiroso seria capaz de negar.
Ainda na cena de Vigário Geral, conforme Vera descreve detalhadamente a posição dos corpos de seus familiares, o documentário mostra as fotografias feitas na época pela perícia policial. A sobreposição de imagens e narrativa é um soco no estômago: por onde escorria o sangue da irmã, qual a parte do corpo do irmão estava ferida, etc. As cenas ficaram intactas na memória de Vera. Bem como, a maneira como estava o céu, o período da lua, as últimas palavras ditas ao pai. Vera foi condenada pelo sistema a carregar nos ombros por toda a vida uma cruz maciça que pesa toneladas. Só conseguiu aliviar o peso graças à grandeza de seu espírito, que perdoou os assassinos.
As 21 pessoas foram assassinadas em Vigário Geral em vingança pela morte de quatro soldados que tinham sido executados por traficantes na noite anterior. Homens, mulheres e crianças foram mortos em Vigário Geral apenas por viverem no mesmo bairro onde o policial foi atacado. Na época, houve indignação. O Rio era governado por Leonel Brizola e Nilo Batista era o Secretário de Segurança. Ambos reagiram com firmeza, pressionando para que os identificados fossem encontrados e punidos.
Só que os anos se passaram. E as vinganças e assassinatos aleatórios de pobres voltaram a ocorrer. Em janeiro de 2005, 30 pessoas foram assassinadas por policiais na Baixada Fluminense. No ano anterior, cinco adolescentes tinham sido mortos no Caju. Em 2007, subi o morro no Complexo do Alemão e testemunhei o dia seguinte da execução de 19 moradores locais. Casas de mulheres e idosos invadidas pela polícia para servir de trincheira. Rádios de carros roubados, comerciantes extorquidos, crimes rasteiros praticados contra os pobres do Alemão por policiais com carta branca da sociedade para matar.
Em São Paulo, houve o Carandiru, em 1992, com 111 mortos. Mais recentemente, depois dos ataques do PCC em 2006, 493 pessoas morreram por disparos de arma de fogo no começo de maio. Trabalhadores, pegos no meio das ruas de bairros pobres. Policiais jogando roleta russa com o destino para assassinar aqueles que por infelicidade estavam nas ruas das periferias. As Mães de Maio são o resultado da mobilização contra essa covardia, que continua se repetindo.
Assistir ao filme foi especialmente cruel porque no dia anterior nove pessoas haviam sido assassinadas em bairros pobres do Belém do Pará.
À Queima Roupa deveria ser debatido em todas as faculdades de direito e academias de polícia do Brasil. Nossos promotores, policiais e juízes estão sendo formados em uma bolha de plástico. Precisamos conversar com eles sobre a realidade das chagas brasileiras.
Veja abaixo o trailer do filme.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ebola se espalha pelas redes sociais, e racismo volta à tona

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536194-ebola-se-espalha-pelas-redes-sociais-e-racismo-volta-a-tona

Ebola se espalha pelas redes sociais, e racismo volta à tona


O vírus ebola se espalhou pelas redes sociais no Brasil desde a primeira suspeita de infecção no país, reportada emCascavel, no interior do Paraná.
Da noite de quinta-feira até a manhã desta sexta, o termo "ebola" foi compartilhado 120 mil vezes pelo Twitter em português. A palavra Guiné, país de onde veio o paciente, foi a terceira mais citada na rede social por volta da meia-noite.
A reportagem é de Ricardo Senra, publicada por BBC Brasil, 10-10-2014.
Guiné é um dos três países que concentram a epidemia do vírus na África, juntamente com Serra Leoa e Libéria.
Pelo Facebook, segundo a ferramenta de análise Sysomos, mais de 400 postagens públicas em português sobre o Ebola surgiram nas últimas 24 horas.
Os termos "ebola", "Guiné" e "Fiocruz" seguem entre os dez tópicos mais comentados por brasileiros na rede.
Racismo
O homem de 47 anos, que chegou ao Brasil no dia 19 de setembro após escala no Marrocos, foi transferido durante a madrugada para Rio de Janeiro.
Em meio a dúvidas sobre sintomas, riscos de infecção e especulações sobre a confirmação ou não do caso, alguns internautas mais uma vez publicaram comentários racistas nas redes sociais.
As ofensas associam o vírus ebola à população de origem africana.
"Ebola é coisa de preto", "Alguém me diz por que que esses pretos da África têm que vir para o Brasil com essa desgraça de bactéria (sic) de ebola" e "Graças ao ebola, agora eu taco fogo em qualquer preto que passa aqui na frente" foram algumas das frases postadas no Twitter na manhã desta sexta.
A situação não é diferente entre os usuários do Facebook. A nuvem de palavras que mostra os termos mais associados à doença na rede destaca a palavra "preto".
Ou seja, a maioria das pessoas que escreveu publicamente sobre o vírus associou "ebola" ao termo "preto".
'Sob controle'
Na manhã desta sexta-feira, o ministro da Saúde Arthr Chioro afirmou, em entrevista coletiva, que o paciente não teve "nem hemorragia, nem diarreia, nem febre, nem vômito."
"Na quarta-feira, teve febre, tosse e dor de garganta. O médico trabalha com as informações e sintomas que ele consegue detectar na consulta clínica", disse o ministro.
Foram identificadas 64 pessoas que tiveram contato com o paciente - 60 delas na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) deCascavel.
Os resultados dos exames, segundo Chioro, saem em 24 horas.
"Se tivermos o resultado do exame antes, imediatamente tornaremos público. Pelo protocolo, é necessário confirmá-lo em dois laboratórios. Mesmo se esse resultado der negativo, será colhida em 48 horas uma segunda amostra para análise e posterior informação do resultado."

sábado, 23 de agosto de 2014

Manifestações de ódio estão dominando a internet?

oi
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed812_manifestacoes_de_odio_estao_dominando_a_internet


Manifestações de ódio estão dominando a internet?

19/08/2014 na edição 812
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Farhad Manjoo [“Web Trolls Winning as Incivility Increases”, The New York Times, 15/8/2014], Enrique Krauze [“Anti-Semitism Stirs in Latin America”,The New York Times, 16/8/2014], Luigi Serenelli (com colaboração de Angela Waters e Jennifer Collins) [“As online anti-Semitism grows, so do efforts to counter it”, The Washington Post, 15/8/2014], Merissa Nathan Gerson [“
 
Troll é um termo utilizado na internet para caracterizar um baderneiro que surge – na maioria das vezes, anonimamente – para provocar discórdia nas redes sociais e em seções de comentários de blogs e sites, quase sempre com postagens agressivas.
Embora trolls, mensagens de ódio na rede ou o cyberbullying não sejam novidade, cada vez mais a internet parece estar perdendo uma guerra invisível contra tais assediadores, e o grande desafio no momento é encontrar uma forma inovadora de derrotar os encrenqueiros do mundo digital.
Bullying virtual
Dias após a morte de seu pai, o ator Robin Williams – que cometeu suicídio em 11/8 –, a também atriz Zelda Williams, tornou-se vítima do assédio online. Zelda decidiu sair de sua conta no Twitter após receber fotomontagens de seu pai com marcas no pescoço e fotos de cadáveres mortos por enforcamento.


Embora o cancelamento de uma celebridade no Twitter não soe como um dos problemas mais alarmantes que o mundo enfrenta, deve-se notar que o fenômeno não é fato isolado e afeta mais gente do que parece, podendo deixar um rastro de danos emocionais coletivos.
Em artigo publicado na revista Pacific Standard, a escritora Amanda Hess aponta que a internet tem se tornando uma “central para a experiência humana”, um lugar do qual não se é mais possível escapar caso você deseje trabalhar, namorar, socializar ou abrir uma conta corrente. Por causa disso, o impacto da rede em nossas vidas é maior do que se imagina. “Ameaças online podem dominar nosso emocional”, avalia. Amanda também pondera que os problemas online refletem um custo real, pois além de tomar tempo, às vezes exigem providências concretas para serem combatidos, como a abertura de processos ou o investimento em segurança online.
A escritora e ativista americana Jennifer Pozner – que se dedica principalmente a grupos de defesa de causas feministas – teve sua vida profundamente afetada por um perseguidor. Ela chegou a receber mensagens diárias de um indivíduo que criava contas novas no Twitter única e exclusivamente para perturbá-la.
Guerra online
A Guerra de Gaza tem sido mais um pretexto para manifestações odiosas nas redes sociais, principalmente no que diz respeito ao antissemitismo. Em análise para o New York Times, o jornalista Enrique Krauze, articulista do El País, chamou atenção para a quantidade de mensagens antissemitas redigidas em língua espanhola no Twitter. “Alguns governos latino-americanos manifestaram seu descontentamento com as ações de Israel. Chile e Brasil chamaram seus embaixadores, Fidel Castro acusou os israelenses de genocídio, e os governos favoravelmente dispostos à revolução populista da Venezuela condenaram publicamente a postura de Israel na guerra”, escreveu ele. “Embora tal rejeição política não seja necessariamente antissemita, há algo novo surgindo nas mídias sociais em língua espanhola, principalmente entre os jovens, onde a condenação a Israel é muitas vezes acompanhada por diatribes antissemitas. A América Latina não é particularmente antissemita, mas há um perigo de se transformar em tal”, concluiu.
Suzette Bronkhorst, cofundadora da Agência Holandesa de Queixas para Discriminação na Internet, diz que não se lembra de já ter visto níveis tão altos de discursos antissemitas em plataformas sociais. Em julho de 2014, o número de páginas antissemitas em língua holandesa no Facebook alcançou as centenas. No mesmo período, a hashtag “Hitler estava certo” apareceu mais de 10 mil vezes no Twitter, tornando-se um trending topic.
A Universidade Técnica de Berlim deu início a um projeto para analisar cerca de 100 mil textos da internet e avaliar como o antissemitismo se espalha nas redes sociais e nas seções de comentários de sites, chats e fóruns. A equipe descobriu que as manifestações não vêm só do círculo islâmico e dos círculos de direita, mas também da classe média escolarizada.
Yonathan Arfi, vice-presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França, diz que a onda antissemita é um novo fenômeno que tem se intensificado graças à internet. “É um espaço sem leis”, diz ele.
Combate
Mesmo com tantas evidências óbvias de que discursos de ódio devam ser combatidos, a questão ainda é bastante complicada. Tanto o Twitter quanto o Facebook têm meios para denunciar abusos, mas os recursos são frequentemente descritos como inadequados.
Del Harvey, vice-presidente da Equipe de Confiança e Segurança do Twitter, afirma que o site vive em constante processo de avaliação para melhorar ainda mais suas políticas e lidar melhor com casos como o da filha do ator Robin Williams.
A empresa de mídia online Gawker Media diz ter solucionado seus problemas implementando um sistema onde apenas comentadores aprovados têm permissão para postar na seção de comentários. Comentários reprovados costumam ser relegados a uma seção de “pendentes” com um aviso de alerta aos leitores sobre seu conteúdo.
Em 2013, o Facebook enfrentou pressão de ativistas e anunciantes, o que levou a rede social a rever suas páginas de comunidades, evitando assim a publicação de anúncios em páginas com conteúdo gráfico.
Adeptos da tecnologia e ativistas online, por outro lado, alegam já ter oferecido ao Twitter algumas ideias simples para tornar o microblog mais seguro. O programador Jacob Hoffman-Andrews, por exemplo, criou o “Block Together”, um programa que permite aos usuários bloquear novas contas no Twitter ou contas que tenham número baixo de seguidores.
Liberdade de expressão
O que torna boa parte das empresas de tecnologia hesitantes sobre a filtragem de qualquer conteúdo em seus sites é o temor de bloquear a liberdade de expressão. Monitorar conteúdo agressivo individualmente é algo complicado devido ao alto volume de informação na rede, e realizar bloqueio automático de conteúdo (através de palavras-chave) pode atrapalhar eventos políticos. É inegável, por exemplo, a importância das redes sociais durante a Primavera Árabe de 2010 e 2011.
Quando o Facebook esteve sob a pressão de ativistas em 2013, ele também apontou a dificuldade em não afetar a liberdade de expressão ao realizar a filtragem de seu conteúdo. “Avaliar materiais controversos nos obriga a tomar decisões difíceis e desperta preocupações em relação ao equilíbrio da liberdade de expressão e do respeito à comunidade”, declarou a equipe do Facebook em seu blog à época.
“Não alimente os trolls”
O jornalista britânico-americano Nick Bilton diz que já cometeu o “grande erro” de se envolver em discussões em redes sociais e que os episódios lhe renderam mensagens de ódio imediatas e ofensas impublicáveis.
Ele crê que não interessa o tópico abordado. Pode ser Gaza, a Agência Nacional de Segurança dos EUA, Beyoncé, Justin Bieber ou assuntos esotéricos: sempre haverá discursos de ódio na rede. Em artigo para o New York Times, o jornalista se pergunta: o que o usuário deve fazer então? Recusar-se a se manifestar ou a compartilhar links para não incitar a horda?
Bilton consultou uma série de jornalistas “cujo trabalho é ser atacado online” em busca de uma resposta. Boa parte deles disse ignorar as mensagens. Um editor da revista New Yorkerafirmou: “A regra do seu envolvimento é nunca se envolver”. Um ex-funcionário da Gawker disse que um dos mantras da empresa é “Nunca reclame, nunca se explique”. Já um colega doNew York Times recorreu a uma velha regra da internet: “Não alimente os trolls”.
Bernie Mayer, autor de vários livros sobre resolução de conflitos e professor da Escola de Direito da Universidade de Creighton, em Omaha, observa que, além da velocidade, há outro problema nas discussões digitais: nelas, as pessoas não conseguem captar o tom de uma conversa, a expressão facial e, acima de tudo, o sarcasmo. Mayer diz que é possível ter pistas através de emoticons e nuances gramaticais, mas que, por fim, num embate de 140 caracteres, isso se torna quase impossível.
Para Whitney Phillips, professora da Universidade Estadual de Humboldt, enquanto a internet estiver operando de acordo com uma economia baseada em cliques, os trolls vão existir. “Não é uma questão de saber se estamos ou não estamos vencendo a guerra contra os trolls, mas sim se estamos vencendo a guerra contra a misoginia, o racismo e afins”, diz ela. “A atitude dos trolls é apenas um sintoma destes problemas maiores”.