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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Tornar-se mulher, devir feminista


https://revistacult.uol.com.br/home/beauvoir-tornar-se-mulher-devir-feminista/




Tornar-se mulher, devir feminista

Edição do mês
Tornar-se mulher, devir feminista
Simone de Beauvoir com Sylvie Le Bon, em manifestação do Movimento de Libertação das Mulheres (MLF), Paris, 1971 (Foto: Reprodução)

“Não se nasce mulher, tornar-se mulher”, tradução brasileira para o original “On ne naît pas femme, on devient femme”, é a frase célebre com a qual Simone de Beauvoir começa o segundo volume de O segundo sexo (1949) – o primeiro volume havia passado praticamente despercebido –, cujo eco se ouve ainda hoje na política e na teoria feminista. O recurso ao original tem aqui o objetivo de chamar a atenção para a importância do verbo reflexivo “tornar-se”, que supõe, na sua definição, um movimento de transformação, promove uma mudança e faz com que algo ou alguém deixe um estado e passe a outro. Na obra da filósofa Simone de Beauvoir, a atualidade do verbo “tornar-se” só é compreensível em toda a sua profundidade e extensão a partir do seu original – devenir –  que carrega nele tanto o sentido do movimento quanto o de futuro, resultado da sinonímia entre verbo e substantivo no idioma francês. Esse entrelaçamento pode ajudar a compreender a importância da herança deixada por Beauvoir não apenas para o presente, mas para o devir, uma das palavras da língua portuguesa com a qual se pode traduzir devenir.
O segundo sexo vem reverberando desde sua publicação, e seu cinquentenário foi comemorado como grande feito da filosofia política feminista. A primeira grande contribuição da filósofa foi perceber que a mulher tinha sido reduzida, desde o início da modernidade, ao lugar de outro do homem, excluída do conceito supostamente neutro e universal de humano, sob o qual, de direito, estava abrigado apenas o homem. Por isso, Beauvoir começa observando que a ninguém nunca teria ocorrido escrever um livro sobre a condição do homem, porque esta sempre esteve abarcada pela condição humana. Cumpre, assim, uma tarefa histórica: a de denunciar o fracasso do projeto moderno de universalidade ao perceber que só havia uma definição negativa para a mulher: aquela que não é homem.
Essa concepção inferiorizava a mulher em uma posição secundária, argumentava Beauvoir, ainda que o segundo sexo não estivesse fundamentado em nenhum aspecto da natureza humana, mas na educação, na cultura e nas formas de sociabilidade. O corpo biológico de uma fêmea torna-se mulher a partir da cultura, e não de regras até então tidas como naturais. Com este ponto de partida, ela influenciou pensadoras ocidentais em diversos campos da teoria feminista, que estabeleceu, a partir dos anos 1970, sob influência da antropóloga Gayle Rubin e em debate com o antropólogo Lévi-Strauss, o sistema sexo/gênero, indicação de que a todo corpo biológico é atribuído um gênero, este submetido a regras sociais.
Em Brasília, com Sartre e Juscelino Kubitschek (ArquivoNacional)
Em Brasília, com Sartre e Juscelino Kubitschek, 1960 (Foto: Arquivo Nacional)
É em diálogo com as aberturas proporcionadas por Beauvoir, sob influência de Rubin, Monique Wittig e tantas outras, que no final da década de 1980 Judith Butler escreve uma série de artigos que serão reunidos no livro Problemas de gênero (1990). O primeiro texto é inteiramente dedicado a fazer avançar o sistema sexo/gênero a partir de um componente até então ausente, o desejo. É por perceber essa ausência que Butler dá um passo a mais na teoria feminista, abre espaço para a emergência da teoria queer – que tem entre seus objetivos a crítica da heterossexualidade normativa – e ainda propõe a performatividade de gênero, possível a partir de uma certa radicalização do verbo “tornar-se”. Performatizar é uma forma de fazer gênero, expressão já indicativa de que o gênero não é da ordem do ser, não é estático, não está previamente dado.
De certa forma, Butler desconstruiu – aqui lembrando que desconstruir não é destruir, mas decompor camadas sedimentadas do pensamento – o sistema sexo/gênero como o filósofo franco-argelino Jacques Derrida já havia feito com o par significante/significado da linguística estruturalista de Ferdinand de Saussure. Há nos dois gestos, no entanto, o reconhecimento de que esses pensamentos se fazem a partir das brechas abertas pelos pensadores anteriores.
Quando Butler estabelece com Beauvoir um debate sobre o par sexo/gênero, o faz por perceber que essa distinção ainda está submetida à tradição cartesiana que orientou o pensamento ocidental sobre o sujeito. Por isso, a filósofa norte-americana se propõe a discutir como e se a noção de gênero decorre do sexo, decorrência na qual ela aponta uma forma de afirmação de uma “unidade metafísica” que faria com que um sexo – feminino, por exemplo – se torne necessariamente uma mulher, como se houvesse no corpo biológico alguma substância ou essência a fornecer qualquer tipo de garantia ao “tornar-se”.
De certa forma, desde o “tornar-se mulher”, de Beauvoir, já havia um acento na liberdade do gênero em relação ao corpo biológico. Afirmar que não há a verdade do gênero fez Butler ser reconhecida na França como uma continuadora da obra de Michel Foucault, para quem já não havia a verdade do sexo ou a verdade do sujeito, desde sempre assujeitado a estruturas de poder que produzem e condicionam sua subjetividade. Em Butler, corpos fazem e desfazem gêneros, fazem e desfazem pela repetição, sem nunca serem idênticos a si mesmos. Ela explicita, assim, a arbitrariedade da ligação entre sexo e gênero, assim como Derrida havia percebido a arbitrariedade da ligação entre significante e significado.
Se, com Foucault, sexo já é um ideal regulatório que produz corpos a serem governados, em Butler há a percepção de que a norma depende da repetição. É aqui então que ela – se afastando de qualquer tipo de pensamento liberal que pretenda conferir à performance um ato de liberdade individual do sujeito – se vincula ao “tornar-se” de Beauvoir, acrescentando o caráter de prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia. Com isso, Butler se afasta da ideia de uma essência ou substância do sujeito que “torna-se” para pensá-lo – ao sujeito – como um “eu falante, formado em virtude de ter passado pelo movimento de ‘tornar-se’”. Se em Beauvoir as opções sexuais a que os sujeitos estão limitados são sempre duas, em Butler a tarefa é ampliar as possibilidades de conjugação do verbo “tornar-se”, já não mais restrita ao binarismo dos corpos ou ao imperativo heterossexual que possibilita certas identificações e impede outras.
A partir de O segundo sexo e de todas as possibilidades que o pensamento de Beauvoir proporcionou à teoria feminista, abriu-se um campo de debate sobre como a diferença sexual funciona como uma estrutura hierárquica nas relações sociais. Nas empresas, nas escolas, na família e na cultura, papéis de gênero alocam homens e mulheres em determinadas funções, sentimentos, formas de vida e capacidades. Já a partir da leitura de Butler, outro componente – a heteronormatividade – entra no debate sobre os problemas de gênero. Cada uma a seu modo, Beauvoir e Butler renovaram as perspectivas teóricas sobre o feminismo e abriram caminho para diferentes correntes de pensamento que hoje se valem da proposição inicial de Beauvoir – tornar-se, devir – para pensar a transgressão das normas de gênero.
Se Beauvoir inovou na crítica à universalidade do masculino, apontando uma estrutura que excluía o feminino da possibilidade de tornar-se sujeito, Butler inovou na abertura à singularidade, percebendo como a dicotomia sexo/gênero funciona no engendramento de sujeitos submetidos a normas que determinam entre quem pode ou não tornar-se sujeito e constrangem determinados corpos como abjetos por não serem reconhecíveis dentro da norma. Tornar-se, que em Beauvoir parecia ser um movimento único, passa a ser com Butler um movimento permanente, um devir feminista no que o termo tem de mais contestador das normas (de gênero) vigentes. TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA CULT 207

CARLA RODRIGUES é doutora em Filosofia pela PUC-Rio, professora do departamento de Filosofia da UFRJ, autora, entre outros, de Duas palavras para o feminino (NAU Editora/Faperj) e Coreografias do feminino (Mulheres)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O sofrimento dos filhos de mulheres presas por abortos em El Salvador

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=87718

O sofrimento dos filhos de mulheres presas por abortos em El Salvador


Cristina Fontenele
Adital

O novo informe "Famílias separadas, abraços rompidos” revela a situação dos filhos e filhas das mulheres encarceradas pela legislação de El Salvador, que criminaliza a mulher pelo aborto espontâneo ou devido a complicações na gestação. O relatório da Anistia Internacional alerta para os impactos dessas prisões na vida das famílias. Insta as autoridades a derrogarem as normas que penalizam o aborto e a garantirem o acesso ao método, nos casos de gravidez com risco para a saúde física ou mental da mulher; quando o feto não possa sobreviver fora do útero; ou quando a gravidez seja resultado de uma violação.

anistiainternacional
A presunção de culpabilidade é o ponto de partida do processo criminal contra a mulher que sofreu aborto. Teodora del Carmen Vásquez cumpre 30 anos de prisão por aborto devido a complicações na gestação.



El Salvador tem uma das leis mais drásticas do mundo sobre o aborto. Todas as circunstâncias são consideradas ilegais, mesmo em casos de estupro, risco para a vida da mãe ou má formação fetal. As penas variam de oito a 12 anos de prisão. Nos casos mais graves, sob acusação de homicídio doloso, as condenações podem chegar a 30 anos ou mais. De acordo com dados do Ministério da Saúde de El Salvador, entre 2005 e 2008, foram realizados 19.290 abortos no país, mas, certamente, os números são muito maiores.
Segundo Astrid Valencia, pesquisadora da Anistia Internacional sobre a América Central, "a cada vez que as autoridades de El Salvador encarceram injustamente uma mulher, por ter sofrido um aborto espontâneo ou complicações relacionadas com a gravidez, condenam também seus filhos e filhas a uma vida de pobreza e trauma”.
O caso de Teodora del Carmen Vásquez é um exemplo da dura lei salvadorenha e do processo de criminalização contra a mulher. Teodora tem 32 anos, é mãe de um garoto de 12. Em 2007, estava no nono mês de sua segunda gestação, quando começou a sentir fortes cólicas. Enquanto aguardava atendimento, foi ao banheiro, quando sofreu uma queda, desmaios e sangramento profundo, resultando na perda do bebê. Ela foi detida e acusada de provocar o aborto. Em 2008, foi condenada a 30 anos de prisão, dos quais já cumpriu oito.
A Anistia exorta ainda que sejam libertadas todas as mulheres e meninas presas por submeterem-se ao aborto ou por passarem por emergências obstétricas. E que se eliminem seus antecedentes penais. Pede que as autoridades assegurem aos médicos o direito ao segredo profissional durante o cumprimento de suas responsabilidades, caso saibam sobre mulheres que passaram por abortos; e garantam às mulheres o acesso à informação e aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo métodos contraceptivos modernos.
Com informações de Anistia Internacional
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Mulheres continuam sendo condenadas e presas por sofrerem abortos espontâneos

Cristina Fontenele

Repórter.
E-mail
cristina@adital.com.br
crisfonte@hotmail.com

sábado, 15 de agosto de 2015

Violência contra a mulher e a população LGBT tem relação com Congresso conservador

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=86142


ENTREVISTAS
14.08.2015
[ENTREVISTA ESPECIAL] Violência contra a mulher e a população LGBT tem relação com Congresso conservador

Ana Clara Jovino
Adital
A inclusão de medidas e objetivos para combater a discriminação e a desigualdade de gênero nas escolas no Plano Nacional de Educação (PNE) e nos Planos Estaduais e Municipais tem estimulado debates em todo o país. Na última terça-feira, 11 de agosto, os vereadores de São Paulo aprovaram o Plano Municipal de Educação, mas o termo "gênero”, incluído no texto por defesa de entidades do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) e combatido por religiosos, ficou de fora.

Legislatura conservadora do Congresso Nacional repercute também nas instâncias estaduais e municipais de debate. Foto: Agência Brasil.

Além disso, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados desengavetou o Estatuto do Nascituro, projeto que visa a garantir a proteção integral dos embriões, eliminando qualquer possibilidade de interrupção da gravidez, incluindo os abortos considerados legais, como nos casos de estupro e de anencéfalos. O projeto está nas mãos de um dos integrantes da bancada religiosa, o deputado federal Marcos Rogério (Partido Democrático Trabalhista – PDT – Roraima).
Para discutir o assunto, a Adital entrevistou Gisele Cristina Pereira, integrante da equipe do coletivo Católicas Pelo Direito de Decidir, movimento político internacional que se articula em organizações não governamentais, hoje, em 12 países pelo mundo. Gisele afirma que existe uma relação evidente entre a violência contra a mulher e a população LGBT e o momento conservador que o Congresso Nacional brasileiro vive.
ADITAL - A homofobia e a violência contra a população LGBT estão relacionadas com a igualdade de gênero, não sendo tratada nas escolas?
Gisele Cristina Pereira - Estão relacionadas com muitos fatores, mas, sem dúvida nenhuma, a educação formal é uma delas. Não tratar questões de interesse social nas escolas é um silenciamento danoso, que produz consequências das mais desastrosas.

ADITAL - Os casos de violência contra a mulher e a população LGBT podem ter relação com o momento conservador que o Congresso Nacional brasileiro vive atualmente, com a bancada religiosa tão em evidência?
GCP - Quando representantes do povo na instancia máxima de deliberação do país se posicionam, publicamente, de forma misógina, homofóbica e fundamentalista estão contribuindo para reforçarem esses pensamentos e atitudes na sociedade em geral e, portanto, legitimando e incentivando a violência contra mulheres, a população LGBT, e ainda acrescentaria a outras religiões, vide o caso da menina apedrejada ao sair de um terreiro [em Brasília, em julho último].
Além disso, há uma simbiose nociva entre a política institucional, a religião e a mídia, à qual devemos dar uma atenção especial. Tanto as mídias tradicionais quando as novas mídias digitais abrigam, hoje, uma forte presença de um discurso conservador e reacionário, que, em muitos casos, flerta com o fascismo. Além do púlpito de suas igrejas, os religiosos fundamentalistas contam para a disseminação de suas ideias com um aparato midiático de altíssimo alcance e ainda com o próprio Estado. Esses políticos/religiosos se tornaram, assim, verdadeiras celebridades, seguidos e admirados por muitos fiéis, que são também seus seguidores e fãs.
Como políticos e figuras de referência, se utilizam de forma irresponsável de sua posição, agindo em favor de suas "crenças” e interesses pessoais. Isto é gravíssimo, pois contraria princípios éticos básicos ao fazer político, como a democracia, a imparcialidade e a laicidade do Estado.
Ainda sobre o conteúdo desse discurso, vale reforçar que seus alvos prediletos são os direitos concernentes à sexualidade e à reprodução, e às religiões de matriz africana. Ora, se, com toda a influência e os meios de difusão que possuem, proferem um discurso que nega a existência, o respeito e a justiça para com outros grupos, não consigo ver uma prática correspondente que seja diferente da violência em suas diversas formas. Para mim, a relação é evidente.

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Em 2014, a campanha das mulheres contra o estupro ganhou as redes sociais. Foto: Reprodução.

ADITAL - Se entre as metas dos Planos Municipais de Educação o setor ampliasse as políticas de educação, no que diz respeito à diversidade nas unidades educacionais, incluindo o ensino sobre questões de gênero e diversidade sexual, seria um fator que contribuiria para diminuir essa violência? Ou os brasileiros são mesmo conservadores e violentos?
GCP – Quando falamos de conservadorismo ou violência, estamos falando de uma mentalidade e comportamentos socialmente construídos; não existe uma essência que podemos atribuir aos brasileiros ou a qualquer outro povo. O que vemos é uma mentalidade conservadora sendo fortemente cultivada por diferentes setores e, de maneira preponderante, por grupos religiosos de caráter fundamentalista.
Essa mentalidade é extremamente nociva, pois legitima e reforça uma cultura de violência. Neste sentido, a educação tem um papel fundamental na transformação desta cultura, colaborando com a construção e vivência de uma ética calcada no respeito, na valorização à diversidade e na justiça.
ADITAL - Quais as consequências da violência de gênero nas escolas?
GCP – A escola reflete valores, concepções e comportamentos da sociedade, mas também atua reforçando-os, reelaborando ou mesmo elaborando novos. Ela é uma microesfera da sociedade. Estudantes passam grande parte de sua vida, em termos de anos e de horas do seu dia dentro do espaço escolar; este é o ambiente privilegiado para a reflexão e a vivência ética. É, propriamente, no campo da ética, que se encontram as discussões a respeito dos direitos humanos, da equidade social, da justiça de gênero, entre outras.
Existem consequências muito graves para a vida das pessoas que têm sua orientação sexual, identidade de gênero ou mesmo seu gênero tratados com escárnio, desprezo e desrespeito. É uma subjetividade que vai se constituindo pela via do sofrimento e da desvalorização.
Não são poucos os casos de evasão escolar decorrente de tais situações, de doenças emocionais, como a depressão, distúrbios alimentares e ainda casos de suicídio, devido à inconformidade com as normatividades impostas. Todos esses fatores restringem o potencial humano, que é altíssimo e deveria ser incentivado, não cerceado. Impõe limites às possibilidades de existência, criatividade e felicidade.
ADITAL - Quais planos deveriam ser postos em prática para existir, de fato, igualdade de gênero nas escolas?
GCP – Há inúmeras mudanças que precisam ser realizadas na escola. Elas vão desde a organização dos tempos e espaços, da sua estrutura, formação docente, até o currículo e a concepção sobre sua função social. As relações de gênero são uma parcela dentro desse todo.
É premente que pensemos qual escola queremos, pois, em última instância, estamos dizendo qual tipo de sociedade queremos. Mas algumas ações podem ser realizadas de imediato, como a adoção de materiais didáticos e paradidáticos que abordem a temática sob uma perspectiva de valorização da diversidade humana, incluindo uma outra visão a respeito das mulheres, das relações afetivas e sociais.
O uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero é outra medida que deve ser implementada com urgência; está prevista em lei, mas ainda enfrenta resistência por parte de alguns/as profissionais.
E aí temos de voltar à questão do Estado laico, pois o que acontece, na prática, é o profissional agir de acordo com suas concepções religiosas. Então, se a pessoa "acredita” que Deus fez homem e mulher, que existe uma estrutura única e "verdadeira” familiar, que as mulheres são inferiores aos homens, ela se sente autorizada a utilizar de suas crenças em seu fazer pedagógico e incuti-las nas mentes dos/as estudantes.
Isso é abominável! Precisamos encarar com seriedade a questão da laicidade do Estado, para podermos avançar nas questões de gênero, reprodução e pluralidade religiosa.

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Estatuto do Nascituro elimina qualquer possibilidade de interrupção da gravidez, inclusive abortos considerados legais. Em manifesto, cartaz diz "Liberdade pra dentro do meu útero”. Foto: Reprodução.


Legenda 3 -
ADITAL - Qual a sua opinião sobre o Estatuto do Nascituro? Se for aprovado, quais as consequências? Aumentaria ou diminuiria o número de casos de estupro?
GCP – Não há uma relação causal tão determinista, mas, sem a menor sombra de dúvida, é um projeto que favorece a violência sexual, à medida que entende o estupro como um mal menor do que a interrupção voluntária da gravidez, por exemplo.
Quando você cria leis que regulamentam a vida da vítima do estupro, impedindo que ela decida, autonomamente, sobre o que fazer com suas dores e sua vida, a partir daí você está naturalizando essa violência, e naturalizar significa perpetuar. É como se o Estado dissesse: "o estupro existe e nada podemos fazer contra ele, agora, o embrião, o feto, estes precisam ser protegidos e são as mulheres que não possuem consciência”.
Retira-se das mulheres a autonomia sobre seus corpos, sua consciência e faz pesar sobre seus ombros a responsabilidade pela violência que sofreram e suas consequências. As mulheres são violentadas duplamente, primeiro pelo estuprador e depois pelo Estado, que as obriga a levarem adiante uma gravidez fruto de uma situação traumática.
ADITAL – Quais as consequências se o aborto for considerado crime hediondo?
GCP – É lugar-comum a constatação de que a criminalização não evita a realização do aborto, nem a morte dessas mulheres. É apenas uma maneira hipócrita e dissimulada de lidar com a questão. As consequências são desastrosas para as mulheres, sobretudo para as mais pobres, já que as que possuem recursos podem interromper a gravidez de forma sigilosa e segura, em clínicas particulares. Temos uma questão de classe que também precisa ser olhada. São mulheres pobres a quase totalidade das que morrem em decorrência de abortos inseguros.
Segundo dados da Pastoral Carcerária, entre 2005 e 2012 o crescimento da população feminina encarcerada aumentou 146%. Caso o aborto seja considerado crime hediondo só irá favorecer o aumento e a piora deste quadro.
Só para finalizar, não deixa de ser curiosa a lógica que rege os contrários a liberdade de escolha: em nome de uma suposta "defesa da vida”, nega uma educação voltada para a justiça, liberdade, autonomia, equidade e respeito, e, de outra parte, alimenta uma cultura de violência, incompreensão e punição. Sobre esta última considera aceitável que mulheres, por não desejarem ou não terem condições de levarem uma gravidez adiante, sejam punidas com o cerceamento de sua liberdade, submetidas a condições degradantes de existência, apartadas de suas famílias e abandonadas pela sociedade e pelo Estado. Isto é defesa da vida? Esta lógica está mesmo de acordo com a ética cristã? Não consigo ver algo mais incoerente!
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Ana Clara Jovino

Estudante de Jornalismo pela Faculdade 7 de Setembro (FA7).
E-mail
anaclara@adital.com.br
jovinoanaclara@gmail.com

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O caso Frota, a cultura do estupro e os limites à liberdade de expressão

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/545701-o-caso-frota-a-cultura-do-estupro-e-os-limites-a-liberdade-de-expressao


O caso Frota, a cultura do estupro e os limites à liberdade de expressão

Ator será ouvido nesta quinta pelo MP depois das declarações dadas ao programa "Agora é Tarde", da TV Bandeirantes. Ele nega o crime e abriu processos contra quem pediu sua responsabilização
O texto é de Sâmia Bomfim, servidora da USP, integrante do coletivo Juntas! e da Secretaria de Mulheres do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP), publicado por CartaCapital, 13-08-2015.
Quando recebi a notificação para depor no 2º DP de Cotia, custei a acreditar que fosse verdade. Mas era isso mesmo:Alexandre Frota havia entrado com uma denúncia contra mim por calúnia e difamação. Em maio, criei um evento noFacebook para reunir as pessoas que estavam indignadas com a declaração que ele havia dado no programa Agora é Tarde, da Band, quando afirmou que fez sexo sem consentimento com uma mãe de santo. Segundo Frota, eu inventei que ele estuprou uma mulher e isso gerou uma série de problemas pessoais e profissionais para ele. Na época, ele me procurou no Facebook para me intimidar, mas jamais pensei que ele iria tentar me incriminar diante desta situação.
O vídeo pode ser visto aqui. Qualquer um pode ter acesso a seu conteúdo e tirar suas próprias conclusões. Não fui a única, tampouco a primeira, a se indignar e pedir algum tipo de punição para Frota na época. Uma série de páginas, ativistas, coletivos, personalidades, parlamentares e veículos de comunicação se manifestaram também.
Essa situação é muito absurda. Ele quer sair do papel de culpado para o papel de vítima. Quer criminalizar quem se indignou com seu relato em rede nacional. Estupro é crimedenunciar é um direito.
Na época, várias entidades entraram com um pedido de investigação no Ministério Público. Tivemos uma primeira conquista. Nesta quinta-feira 13 acontece sua audiência no Ministério Público de São Paulo. Frota terá de responder por incitação ao crime e violência de gênero. Feministas organizam um ato para pedir sua punição e em repúdio ao processo que ele está movendo contra mim.
No Brasil, uma mulher é vítima de violência sexual a cada 12 segundos. A mídia em geral cumpre com um papel muito negativo de naturalização da violência contra a mulher. É hábito no País a exibição de cenas em novelas e programas de TV com mulheres sendo assediadas e agredidas. Não são raros apresentadores e “comediantes” que fazem supostas piadas com conteúdo opressor. O próprio apresentador do programa Agora é TardeRafinha Bastos, é um exemplo desta prática.
O caso de Alexandre Frota é emblemático do absurdo da cultura do estupro no Brasil e do debate que precisa ser feito no País sobre limites à liberdade de expressão. Frota recebe palco, aplausos e exibição em horário nobre nos meios de comunicação de massa para relatar um estupro e ainda de sente no direito de abrir processo criminal contra pessoas que se indignam com seu relato. É uma completa inversão de papeis.
O processo é individual, contra mim, mas considero uma tentativa de ataque coletivo às feministas. No último período, o feminismo se ampliou e se fortaleceu. Muitas mulheres em todo o mundo têm usado as redes para promover campanhas e debater política, e têm saído às ruas para denunciar o machismo e lutar por mais direitos. Os machistas, dentre eles artistas e políticos, que estão sendo denunciados e percebendo que há um forte movimento que não aceita mais tanta violência, querem que as mulheres sintam medo e parem de reivindicar seus direitos, mas não vão conseguir.
Espero que o caso recebe a devida punição do Estado, que eu não tenha que responder por um crime que eu não cometi e que toda essa história sirva de exemplo para as emissoras e artistas que tratam estupro como piada.

Milhares de mulheres chegam a Brasília para a Marcha das Margaridas

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=86097


ADITAL JOVEM
11.08.2015
Milhares de mulheres chegam a Brasília para a Marcha das Margaridas

Adital
O sol mal havia surgido quando algumas caravanas e delegações começaram a chegar ao estádio Mané Garrincha, para a 5ª Marcha das Margaridas, que começa nesta terça-feira, 11 de agosto, em Brasília, capital brasileira. Nem mesmo a gelada manhã da capital federal foi capaz de esfriar os ânimos e o pique das "margaridas”, que chegam das cinco regiões do país - Norte, Sul, Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. De acordo com a Confederação Nacional dos/as Trabalhadores/as da Agricultura (Contag), até a manha deste primeiro dia já passa de 10 mil Margaridas presentes – entre homens e mulheres. A expectativa é de que cerca de 70 mil pessoas, a maioria mulheres, participem da Marcha, que se encerra nesta quarta-feira, 12.
divulgacao"É com muito sorriso no rosto e alegria que celebramos esta grande conquista, que é a Marcha das Margaridas – evento liderado por mulheres e homens e coordenado, exclusivamente, por elas, as nossas margaridas”, comemora o presidente da Contag, Alberto Broch. De acordo com ele, muitos foram os preparativos até a chegada do evento. "Foram mais de dois anos de trabalho e atividades realizadas, com muito esforço delas. Rifas, parcerias com lideranças municipais e estaduais, vendas de artesanatos, entre outros. Tudo para que este sonho se concretizasse com a vinda das 70 mil Margaridas para este grande evento”, salienta.
Acreditar, confiar e sonhar. Esses têm sido os verbos mais conjugados entre as trabalhadoras rurais que chegam à Marcha. Para Maria Elxa, da região Norte, as expectativas para a 5ª Marcha são as melhores. "Viemos buscar nossos direitos e estamos confiantes de que levaremos o sucesso conosco, naquilo que viemos buscar”, diz, referindo-se à pauta de reivindicações, que engloba: a reforma agrária, soberania alimentar e a desconstrução de padrões patriarcais e sexistas.
Já a jovem da região Nordeste Renata Jaciara Cordeiro Melo chegou em busca de mais independência para a juventude que, segundo ela, ainda está muito vinculada aos pais, em virtude das dificuldades e burocracias em torno do acesso ao crédito fundiário. Elionir Dias de Souza, da região Centro-Oeste, busca benefícios para toda a sua comunidade que, segundo ela, é muito sofrida e trabalhadora. "Queremos mais saúde, recursos para os assentamentos locais, regularização fundiária, além da titulação da terra”, afirma a agricultora familiar, que cultiva mandioca e fruticultura, além de gado branco, em sua propriedade familiar.

divulgacao
Margarida das Graças da Silva


Esta é a 2ª vez que Margarida das Graças da Silva, da Região Sudeste, participa da Marcha das Margaridas. "Fazer parte desse grupo reivindicatório pelos direitos das mulheres é uma honra para mim”, afirma dizendo ainda que, infelizmente, a discriminação persiste no meio rural. "Sofremos uma discriminação dupla: primeiro por sermos rurais; segundo por sermos mulheres”, desabafa a agricultora familiar que mora, junto ao esposo e à neta, na propriedade de cinco alqueires onde cultiva de tudo um pouco: mandioca, abobora, melancia, quiabo e tomate – entre outros.
A essência dessa 5ª edição da Marcha das Margaridas é despertar as mulheres e a sociedade contra as desigualdades sociais e todas as formas de violência. Além de formativo, a Marcha tem um caráter de denúncia, pressão e proposição ao pautar o governo, congresso e senado com as reivindicações das mulheres do campo.
Com informações da Contag.
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