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domingo, 31 de março de 2019

Morrer por ser gay: o mapa-múndi da homofobia


https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html#?id_externo_nwl=newsletter_brasil20190323

Morrer por ser gay: o mapa-múndi da homofobia

Onze países ainda punem com a morte as relações homossexuais. Um em cada três países condena a homossexualidade. Mais de 50% dos LGBT dizem ter sofrido alguma violência desde as eleições no Brasil



Existe um mapa-múndi que se divide basicamente em duas cores. Um engloba 70 países, onde ser gay ou lésbica é ilegal, e que pode ser punido com a morte. Outro inclui as 123 nações onde ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo não sofre punição. A maior associação mundial de defesa do coletivo LGTBI expõe regularmente este quadro mostrando que, ao mesmo tempo em que diminuem os lugares onde pessoas são perseguidas por sua orientação sexual, surgem novas ameaças como a chegada ao poder de líderes homofóbicos.
No relatório Homofobia Patrocinada pelo Estado 2019, elaborado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (ILGA) e divulgado nesta semana, foram excluídos do atlas da infâmia a Índia, Trinidad e Tobago e Angola desde a última revisão, em 2017. Austrália, Malta, Alemanha e Áustria aderiram ao casamento igualitário, totalizando agora 26 países no pódio da igualdade de direitos. A organização também destaca, como símbolo de maior proteção, que nove países incluíram em sua constituição a menção explícita de que a orientação sexual não deve ser motivo de discriminação. Entre eles estão Portugal, Equador, Bolívia e África do Sul, uma ilha de igualdade no panorama africano.
O extenso estudo da ILGA, de mais de 500 páginas, revisa a legislação em todos os países membros da ONU. A 17ª edição foi apresentada durante a reunião anual da federação, na Nova Zelândia. O levantamento foi coordenado pelo advogado argentino Lucas Ramón Mendos.
O perigo de morrer por manter relações homossexuais não diminuiu em relação ao relatório mais recente. Seis países punem a homossexualidade com a pena de morte: Arábia Saudita, Irã, Iêmen, Sudão, Nigéria e Somália. Além disso, um homossexual pode ser condenado à morte na Mauritânia, nos Emirados Árabes Unidos, no Catar, no Paquistão e no Afeganistão. O relatório destaca que, embora o Iraque tenha desaparecido da lista devido à "eliminação do Estado Islâmico, continua a ser um país que criminaliza de facto, porque persegue os homossexuais utilizando leis de atentado ao pudor, prostituição e outras".
Em outros 26 países, a sentença máxima para esses atos varia entre 10 anos de prisão e prisão perpétua. Em 31 deles, a homossexualidade é punível com até oito anos de prisão. Em resumo, em um em cada três países (35%) é perigoso revelar ser membro da comunidade LGTBI. Em 68 países, observa o estudo, "há leis que proíbem explicitamente atos sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo, e outros dois os criminalizam de facto". Além disso, as jurisdições que não pertencem aos estados membros da ONU também punem as relações homossexuais, como Gaza, Ilhas Cook e certas províncias da Indonésia".
Morte e prisão são casos extremos de violência que, da cúpula do poder, são infligidos com leis. Pelo menos 32 países, enfatiza o relatório, promoveram medidas para limitar a liberdade de expressão (incluindo leis de propaganda que proíbem a promoção da homossexualidade ou relações sexuais "não tradicionais"). Em 41 países, as organizações LGTBI enfrentam obstáculos para serem legalizadas ou atuarem, "o que aumenta o perigo ao qual os ativistas estão expostos".
A situação da Chechênia é descrita como "crítica" e reflete as torturas e perseguições das autoridades contra gays e lésbicas. Em janeiro passado, ativistas relataram que duas pessoas haviam morrido e outras 40 estavam detidas. Retrocessos e ameaças também fazem parte do panorama traçado pelo relatório.
Embora mais lento do que o desejado, também há progresso, avalia a ILGA. Talvez o mais evidente, como destacado na edição deste ano, seja que a Índia, um país de grande importância e influência, tenha abolido uma lei vitoriana que proibia as relações homossexuais, puníveis com uma pena máxima de prisão perpétua. Essa medida reduziu drasticamente o número de pessoas submetidas às leis homofóbicas, o equivalente a 27% da população mundial. Desde setembro de 2018, 1,3 bilhão de cidadãos indianos já não fazem parte desse grupo.
Vinte e seis países reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo; 27 regulamentaram as uniões civis; e 72 nações têm leis que protegem gays e lésbicas contra a discriminação no trabalho. Trinta e nove países têm normas que punem o incitamento ao ódio, a discriminação e a violência contra uma pessoa por causa da orientação sexual, e 28 permitem que gays e lésbicas tenham acesso à adoção.

Mais de 50% dos LGBT dizem ter sofrido alguma violência desde as eleições no Brasil

Durante o período eleitoral no Brasil,  episódios de intimidação aumentaram a ansiedade entre grupos que já se sentiam vulneráveis por discursos feitos no passado, e hoje negados, pelo então candidato Jair Bolsonaro. Horas antes da apresentação do estudo da ILGA, Bolsonaro declarou em Washington, após uma reunião com Donald Trump: "Respeitamos a família tradicional, somos tementes a Deus, contra a ideologia de gênero, do politicamente correto e das fake news".
Este tipo de discurso vem deixando marcas na população LGBTI brasileira. A pesquisa “Violência contra LGBT+ no contexto eleitoral e pós-eleitoral”, produzida pela Gênero e Número e financiada pela Fundação Ford, mostra que 51% dos entrevistados sofreram pelo menos uma agressão desde as eleições de 2018. As mulheres lésbicas são as que mais declararam ter sofrido violência (57%), seguidas das pessoas trans e travestis (56%), gays (49%) e bissexuais (44,5%).
A violência verbal foi a mais prevalente, em 94% dos casos, seguida de tratamento discriminatório (56%), assédio moral (54%) e violência física (13%). O levantamento foi feito com 400 pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Por ter identificado tipos de violências que podem ocorrer simultaneamente, a somatória não é 100%.
As ruas ou espaços públicos são os locais onde os episódios de violência são mais comuns (83%). Também são comuns agressões em comércio ou serviço público (46%), ambientes familiares (38,5%), mercado de trabalho (23%), escola/universidade (19%) e espaços religiosos (12%).

sábado, 15 de agosto de 2015

Violência contra a mulher e a população LGBT tem relação com Congresso conservador

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=86142


ENTREVISTAS
14.08.2015
[ENTREVISTA ESPECIAL] Violência contra a mulher e a população LGBT tem relação com Congresso conservador

Ana Clara Jovino
Adital
A inclusão de medidas e objetivos para combater a discriminação e a desigualdade de gênero nas escolas no Plano Nacional de Educação (PNE) e nos Planos Estaduais e Municipais tem estimulado debates em todo o país. Na última terça-feira, 11 de agosto, os vereadores de São Paulo aprovaram o Plano Municipal de Educação, mas o termo "gênero”, incluído no texto por defesa de entidades do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) e combatido por religiosos, ficou de fora.

Legislatura conservadora do Congresso Nacional repercute também nas instâncias estaduais e municipais de debate. Foto: Agência Brasil.

Além disso, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados desengavetou o Estatuto do Nascituro, projeto que visa a garantir a proteção integral dos embriões, eliminando qualquer possibilidade de interrupção da gravidez, incluindo os abortos considerados legais, como nos casos de estupro e de anencéfalos. O projeto está nas mãos de um dos integrantes da bancada religiosa, o deputado federal Marcos Rogério (Partido Democrático Trabalhista – PDT – Roraima).
Para discutir o assunto, a Adital entrevistou Gisele Cristina Pereira, integrante da equipe do coletivo Católicas Pelo Direito de Decidir, movimento político internacional que se articula em organizações não governamentais, hoje, em 12 países pelo mundo. Gisele afirma que existe uma relação evidente entre a violência contra a mulher e a população LGBT e o momento conservador que o Congresso Nacional brasileiro vive.
ADITAL - A homofobia e a violência contra a população LGBT estão relacionadas com a igualdade de gênero, não sendo tratada nas escolas?
Gisele Cristina Pereira - Estão relacionadas com muitos fatores, mas, sem dúvida nenhuma, a educação formal é uma delas. Não tratar questões de interesse social nas escolas é um silenciamento danoso, que produz consequências das mais desastrosas.

ADITAL - Os casos de violência contra a mulher e a população LGBT podem ter relação com o momento conservador que o Congresso Nacional brasileiro vive atualmente, com a bancada religiosa tão em evidência?
GCP - Quando representantes do povo na instancia máxima de deliberação do país se posicionam, publicamente, de forma misógina, homofóbica e fundamentalista estão contribuindo para reforçarem esses pensamentos e atitudes na sociedade em geral e, portanto, legitimando e incentivando a violência contra mulheres, a população LGBT, e ainda acrescentaria a outras religiões, vide o caso da menina apedrejada ao sair de um terreiro [em Brasília, em julho último].
Além disso, há uma simbiose nociva entre a política institucional, a religião e a mídia, à qual devemos dar uma atenção especial. Tanto as mídias tradicionais quando as novas mídias digitais abrigam, hoje, uma forte presença de um discurso conservador e reacionário, que, em muitos casos, flerta com o fascismo. Além do púlpito de suas igrejas, os religiosos fundamentalistas contam para a disseminação de suas ideias com um aparato midiático de altíssimo alcance e ainda com o próprio Estado. Esses políticos/religiosos se tornaram, assim, verdadeiras celebridades, seguidos e admirados por muitos fiéis, que são também seus seguidores e fãs.
Como políticos e figuras de referência, se utilizam de forma irresponsável de sua posição, agindo em favor de suas "crenças” e interesses pessoais. Isto é gravíssimo, pois contraria princípios éticos básicos ao fazer político, como a democracia, a imparcialidade e a laicidade do Estado.
Ainda sobre o conteúdo desse discurso, vale reforçar que seus alvos prediletos são os direitos concernentes à sexualidade e à reprodução, e às religiões de matriz africana. Ora, se, com toda a influência e os meios de difusão que possuem, proferem um discurso que nega a existência, o respeito e a justiça para com outros grupos, não consigo ver uma prática correspondente que seja diferente da violência em suas diversas formas. Para mim, a relação é evidente.

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Em 2014, a campanha das mulheres contra o estupro ganhou as redes sociais. Foto: Reprodução.

ADITAL - Se entre as metas dos Planos Municipais de Educação o setor ampliasse as políticas de educação, no que diz respeito à diversidade nas unidades educacionais, incluindo o ensino sobre questões de gênero e diversidade sexual, seria um fator que contribuiria para diminuir essa violência? Ou os brasileiros são mesmo conservadores e violentos?
GCP – Quando falamos de conservadorismo ou violência, estamos falando de uma mentalidade e comportamentos socialmente construídos; não existe uma essência que podemos atribuir aos brasileiros ou a qualquer outro povo. O que vemos é uma mentalidade conservadora sendo fortemente cultivada por diferentes setores e, de maneira preponderante, por grupos religiosos de caráter fundamentalista.
Essa mentalidade é extremamente nociva, pois legitima e reforça uma cultura de violência. Neste sentido, a educação tem um papel fundamental na transformação desta cultura, colaborando com a construção e vivência de uma ética calcada no respeito, na valorização à diversidade e na justiça.
ADITAL - Quais as consequências da violência de gênero nas escolas?
GCP – A escola reflete valores, concepções e comportamentos da sociedade, mas também atua reforçando-os, reelaborando ou mesmo elaborando novos. Ela é uma microesfera da sociedade. Estudantes passam grande parte de sua vida, em termos de anos e de horas do seu dia dentro do espaço escolar; este é o ambiente privilegiado para a reflexão e a vivência ética. É, propriamente, no campo da ética, que se encontram as discussões a respeito dos direitos humanos, da equidade social, da justiça de gênero, entre outras.
Existem consequências muito graves para a vida das pessoas que têm sua orientação sexual, identidade de gênero ou mesmo seu gênero tratados com escárnio, desprezo e desrespeito. É uma subjetividade que vai se constituindo pela via do sofrimento e da desvalorização.
Não são poucos os casos de evasão escolar decorrente de tais situações, de doenças emocionais, como a depressão, distúrbios alimentares e ainda casos de suicídio, devido à inconformidade com as normatividades impostas. Todos esses fatores restringem o potencial humano, que é altíssimo e deveria ser incentivado, não cerceado. Impõe limites às possibilidades de existência, criatividade e felicidade.
ADITAL - Quais planos deveriam ser postos em prática para existir, de fato, igualdade de gênero nas escolas?
GCP – Há inúmeras mudanças que precisam ser realizadas na escola. Elas vão desde a organização dos tempos e espaços, da sua estrutura, formação docente, até o currículo e a concepção sobre sua função social. As relações de gênero são uma parcela dentro desse todo.
É premente que pensemos qual escola queremos, pois, em última instância, estamos dizendo qual tipo de sociedade queremos. Mas algumas ações podem ser realizadas de imediato, como a adoção de materiais didáticos e paradidáticos que abordem a temática sob uma perspectiva de valorização da diversidade humana, incluindo uma outra visão a respeito das mulheres, das relações afetivas e sociais.
O uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero é outra medida que deve ser implementada com urgência; está prevista em lei, mas ainda enfrenta resistência por parte de alguns/as profissionais.
E aí temos de voltar à questão do Estado laico, pois o que acontece, na prática, é o profissional agir de acordo com suas concepções religiosas. Então, se a pessoa "acredita” que Deus fez homem e mulher, que existe uma estrutura única e "verdadeira” familiar, que as mulheres são inferiores aos homens, ela se sente autorizada a utilizar de suas crenças em seu fazer pedagógico e incuti-las nas mentes dos/as estudantes.
Isso é abominável! Precisamos encarar com seriedade a questão da laicidade do Estado, para podermos avançar nas questões de gênero, reprodução e pluralidade religiosa.

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Estatuto do Nascituro elimina qualquer possibilidade de interrupção da gravidez, inclusive abortos considerados legais. Em manifesto, cartaz diz "Liberdade pra dentro do meu útero”. Foto: Reprodução.


Legenda 3 -
ADITAL - Qual a sua opinião sobre o Estatuto do Nascituro? Se for aprovado, quais as consequências? Aumentaria ou diminuiria o número de casos de estupro?
GCP – Não há uma relação causal tão determinista, mas, sem a menor sombra de dúvida, é um projeto que favorece a violência sexual, à medida que entende o estupro como um mal menor do que a interrupção voluntária da gravidez, por exemplo.
Quando você cria leis que regulamentam a vida da vítima do estupro, impedindo que ela decida, autonomamente, sobre o que fazer com suas dores e sua vida, a partir daí você está naturalizando essa violência, e naturalizar significa perpetuar. É como se o Estado dissesse: "o estupro existe e nada podemos fazer contra ele, agora, o embrião, o feto, estes precisam ser protegidos e são as mulheres que não possuem consciência”.
Retira-se das mulheres a autonomia sobre seus corpos, sua consciência e faz pesar sobre seus ombros a responsabilidade pela violência que sofreram e suas consequências. As mulheres são violentadas duplamente, primeiro pelo estuprador e depois pelo Estado, que as obriga a levarem adiante uma gravidez fruto de uma situação traumática.
ADITAL – Quais as consequências se o aborto for considerado crime hediondo?
GCP – É lugar-comum a constatação de que a criminalização não evita a realização do aborto, nem a morte dessas mulheres. É apenas uma maneira hipócrita e dissimulada de lidar com a questão. As consequências são desastrosas para as mulheres, sobretudo para as mais pobres, já que as que possuem recursos podem interromper a gravidez de forma sigilosa e segura, em clínicas particulares. Temos uma questão de classe que também precisa ser olhada. São mulheres pobres a quase totalidade das que morrem em decorrência de abortos inseguros.
Segundo dados da Pastoral Carcerária, entre 2005 e 2012 o crescimento da população feminina encarcerada aumentou 146%. Caso o aborto seja considerado crime hediondo só irá favorecer o aumento e a piora deste quadro.
Só para finalizar, não deixa de ser curiosa a lógica que rege os contrários a liberdade de escolha: em nome de uma suposta "defesa da vida”, nega uma educação voltada para a justiça, liberdade, autonomia, equidade e respeito, e, de outra parte, alimenta uma cultura de violência, incompreensão e punição. Sobre esta última considera aceitável que mulheres, por não desejarem ou não terem condições de levarem uma gravidez adiante, sejam punidas com o cerceamento de sua liberdade, submetidas a condições degradantes de existência, apartadas de suas famílias e abandonadas pela sociedade e pelo Estado. Isto é defesa da vida? Esta lógica está mesmo de acordo com a ética cristã? Não consigo ver algo mais incoerente!
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Ana Clara Jovino

Estudante de Jornalismo pela Faculdade 7 de Setembro (FA7).
E-mail
anaclara@adital.com.br
jovinoanaclara@gmail.com

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Transexuais recebem homenagem da Polícia Militar no Dia da Visibilidade Trans

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83847


Transexuais recebem homenagem da Polícia Militar no Dia da Visibilidade Trans

Adital
Numa iniciativa inédita no Brasil, nesta quinta-feira, 29 de janeiro, às 17h, as militantes do movimento Trans do Estado de Pernambuco receberão da Polícia Militar uma homenagem pela atuação em defesa dos direitos das pessoas trans. O coronel José Francisco Neto também deve ouvir as reivindicações e denúncias desta população. Para Maria Clara, do Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo (GTP+), coordenadora da Marcha da Visibilidade Trans Ilusões e Membro do Mecanismo de Combate a Tortura da Secretária de Direitos Humanos de Pernambuco, esse diálogo é um passo importante no reconhecimento de direitos.
midiaindependente.org 
Vale destacar que travestis e transexuais têm sido historicamente perseguidos pelo aparato policial do Estado brasileiro, transformando-se em um dos principais alvos da homofobia e da violência das polícias nas ruas do país. 
Para marcar o Dia 29, o GTP+ juntamente com a Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans) e outros parceiros também realizarão a II Marcha da Visibilidade Trans na ruas de Recife, capital pernambucana. A transfobia no Brasil é ainda tão alarmante que, em menos de um mês, o site Homofobiamata já contabiliza, apenas nos primeiros 28 dias de 2015, 10 assassinatos de travestis. Em 2014, foram documentados 326 mortes de gays, travestis e lésbicas no Brasil, incluindo nove suicídios. Um assassinato a cada 27 horas. Um aumento de 4,1 % em relação ao ano anterior (313). 
Acredita-se que as travestis são o grupo mais estigmatizado da comunidade LGBT, que sofre maior violência física, moral e psicológica.
reproducao 
O Dia da Visibilidade Trans é celebrado todo dia 29 de janeiro, desde 2004. A data foi instituída pelo Movimento LGBT naquele ano, quando, no Congresso Nacional, através do Ministério da Saúde, foi lançada uma campanha pela cidadania e saúde para o público de travestis e transexuais. A campanha foi intitulada "Travesti e Respeito”. A data tem como objetivo ressaltar a importância da visibilidade e o respeito às travestis e transexuais na sociedade brasileira.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sínodo. Uma mudança impressionante

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536281-uma-mudanca-impressionante-artigo-de-james-martin

Sínodo. Uma mudança impressionante

"O Sínodo disse que os gays têm "dons e talentos para oferecer à comunidade cristã". Isso é algo que até poucos anos atrás seria impensável, até mesmo por parte dos prelados mais mente aberta", escreve o padre jesuíta James Martin, redator da revista America, dos jesuítas dos EUA.
O artigo foi publicado na revista America, 13-10-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
Eis o artigo.
O Sínodo dos bispos emitiu um documento que representa uma mudança surpreendente na maneira que a Igreja Católica fala sobre a comunidade LGBT.
O Sínodo disse que os gays têm "dons e talentos para oferecer à comunidade cristã." Isso é algo que até poucos anos atrás seria impensável, até mesmo por parte dos prelados mais mente aberta - isto é, uma declaração completa de louvor pela contribuição de gays e lésbicas, sem ressalvas e nenhuma menção reflexiva de pecado. E, sobre os parceiros do mesmo sexo, o documento do Sínodo declarou, curiosamente, "Sem negar os problemas morais relacionados às uniões homossexuais cabe-se notar que há casos em que a ajuda mútua, a ponto de sacrifício, constitui um apoio precioso na vida dos parceiros". Um documento da Igreja que elogia os "parceiros" homossexuais de qualquer forma (e até mesmo usar a palavra "parceiros") é surpreendente.
O Sínodo também faz perguntas, desafiando dioceses e paróquias: "Os homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã: somos capazes de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço fraterno em nossas comunidades? Muitas vezes, eles querem encontrar uma Igreja que ofereça-lhes um lar acolhedor. As nossas comunidades sãoo capazes de oferecer isso, aceitando e valorizando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?".
Isso representa uma mudança revolucionária na maneira como a Igreja se dirige à comunidade LGBT. Em nenhum lugar do documento encontram-se termos como "intrinsecamente desordenados", "objetivamente desordenada", ou até mesmo a ideia de "amizades desinteressadas" entre gays e lésbicas, como foi usado recentemente. O veterano vaticanista John Thavisjustamente chamou o documento de um "earthquake", um "terremoto".
O documento do Sínodo também se voltou para várias outras questões importantes relacionadas com as famílias, incluindo o controle de natalidade, aqui lembrando a Igreja da "necessidade de respeitar a dignidade da pessoa, na avaliação moral dos métodos de controle de natalidade", isto é, a necessidade de respeitar a consciência pessoal do indivíduo. E o documento do Sínodo recomendou a ideia da "gradualidade" quando tratou da "coabitação".
O documento é apenas o resumo do ponto médio das reuniões dos bispos durante a última semana, e não é uma declaração final. (Além disso, o Sínodo tem mais uma sessão no próximo ano, para somente depois o Papa Francisco emitir sua exortação apostólica final, que será o seu próprio ensinamento sobre as deliberações do Sínodo). Mesmo assim, ele ainda é revolucionário, como foram alguns dos comentários dos participantes durante a coletiva de imprensa na segunda-feira. Claramente, o apelo do Papa Francisco na abertura do Sínodo tem possibilitado aos bispos ouvir atentamente, falar o que pensam e estar abertos a novas maneiras de pensar. Como foi o caso no Concílio Vaticano II, os participantes podem ter ido para esse Sínodo sem esperar muita abertura ou alteração, mas o Espírito Santo está em ação.

sábado, 4 de outubro de 2014

A hipocrisia dos candidatos à presidência frente ao casamento gay

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/535814-a-hipocrisia-dos-candidatos-a-presidencia-frente-ao-casamento-gay


A hipocrisia dos candidatos à presidência frente ao casamento gay

"Os hierarcas católicos e evangélicos deveriam analisar seus preconceitos contra o matrimônio religioso dos gays e lésbicas à luz dessa nova abertura que começa a se dar no próprio coração do cristianismo", afirma Juan Arias, colunista, em artigo publicado pelo jornal El País, 30-09-2014.
Eis o artigo.
Todos os presidenciáveis estão escorregando numa grande hipocrisia em relação ao casamento de pessoas do mesmo gênero, gays ou lésbicas, por medo de perderem votos entre católicos e evangélicos. Uma hipocrisia que é uma contradição com os novos caminhos que o papa Francisco, por exemplo, está abrindo na Igreja Católica, ao se tornar o primeiro sucessor de Pedro a admitir: "Quem sou eu para julgar os homossexuais?".
Os candidatos se escudam no medo de perder os votos de católicos e evangélicos, e assim parecem temerosos de revelarem o que fariam, se conquistarem a Presidência, com um tema tão delicado e atual como o do novo tipo de família que está nascendo no mundo, no qual uma criança pode ter dois homens como pais ou duas mulheres como mães.
O Brasil é um país fundamentalmente crente e concretamente cristão, já que católicos e evangélicos, somados, constituem 80% da população. E não se pode ignorar – como sabe muito bem, por exemplo, a candidata Marina Silva, que já foi católica e hoje é evangélica pentecostal – que todas essas Igrejas, chamem-se protestantes ou evangélicas, têm suas raízes e origens no cristianismo. O "Livro" de ambas as confissões é a Bíblia, o Antigo e o Novo Testamento. E o personagem que as Escrituras anunciam é Jesus de Nazaré, o profeta revolucionário e dotado de compaixão, mais misericordioso que uma mãe, como já anunciava antes de sua existência o profeta Isaías.
No caso do papa Francisco, ele sacudiu o velho destempero da Igreja Católica contra os homossexuais ao retornar às origens históricas do cristianismo e aos escritos dos Evangelhos, quando declara que não os julga. Foi ele também quem pela primeira vez lembrou à Igreja que hoje, na sociedade moderna, existem "novas formas de família", referindo-se tanto às uniões dos divorciados como às dos homossexuais.
Isso fez os teólogos pensarem que o papa Francisco poderia estar cogitando a hipótese de autorizar a Igreja a "abençoar" também uniões que não sejam as tradicionais entre homem e mulher, mas que desejem se transformar em verdadeiros lares, onde meninos e meninas adotados possam ser acolhidos como filhos.
Toda a grande discussão na Igreja sobre a possibilidade ou não de conceder o sacramento do matrimônio a casais do mesmo sexo apoiou-se até agora no fato de que, para ela, tais casais ou famílias podem gozar de todos os direitos civis dos casais ditos "normais", mas sem poder receber o sacramento ou a bênção da Igreja. Alegam que o sacramento cristão do matrimônio foi legislado em toda a tradição da Igreja só para abençoar e consagrar a união entre um homem e uma mulher.
É verdade isso? Historicamente, não. O conceito de sacramento na Igreja nasce muito tarde: no século XII. Decorre de uma ideia mais jurídica e de controle de poder do que das origens do cristianismo.
São Bernardo, no século XII, reconhece só três sacramentos, e no século XIV, em vez dos sete atuais, existiam até 30, entre eles o simples enterro de um cristão.
Não existe nenhuma certeza de que Jesus instituíra ou reconhecera o sacramento do matrimônio. E, dos sete sacramentos atuais, o matrimônio é o mais fácil de ser revisto pela Igreja Católica, pelo fato de ser o único sacramento que não é administrado pelo sacerdote ou ministro da Igreja. Desde as origens dos sacramentos, no matrimônio "os que se casam" são os cônjuges. Não é o sacerdote quem os casa, pois ele neste caso é uma simples "testemunha". Poderiam portanto, teoricamente, se casar perante um leigo e receber igualmente a graça do sacramento. Algo que não ocorre com os outros sacramentos, com o que não existiriam nem a eucaristia nem a penitência. Durante muitos séculos, os cristãos que desejavam se casar se limitavam a avisar a comunidade, sem necessidade de irem até um sacerdote ou bispos.
Ou seja, na Igreja, o sacerdote possui o poder, por exemplo, de consagrar ou de perdoar pecados, mas ele não casa ninguém. São os noivos que se casam e de alguma forma se administram entre si o sacramento.
Tudo isso para entender como a abertura do papa Francisco, eliminando incrustações do poder temporal herdadas de quando os imperadores romanos transformaram a Igreja, antes perseguida, em braço armado do seu poder, tenta devolvê-la à simplicidade de suas origens. Por isso, poderia muito bem chegar a aceitar o sacramento do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, se seus protagonistas forem considerados cristãos e desejarem iniciar a formação de uma família com a bênção sacramental da Igreja.
Os hierarcas católicos e evangélicos deveriam analisar seus preconceitos contra o matrimônio religioso dos gays e lésbicas à luz dessa nova abertura que começa a se dar no próprio coração do cristianismo.
Francisco, o papa de quem se diz ser o personagem que hoje mais recorda o profeta Jesus de Nazaré em sua ideia de compreensão e amor universal, que abraça todas as diferenças não só de gênero, mas também, inclusive, de credo religioso, está escandalizando uma parte da Igreja tradicional para a qual continua sendo mais importante o Direito Canônico, a lei, do que a misericórdia que goteja dos evangelhos. Uma misericórdia que o fundador do cristianismo, em quem hoje continuam se inspirando católicos e evangélicos, ostentava ao se misturar a toda a ralé do seu tempo, a todos os desprezados por serem diferentes, das prostitutas às adulteras.
"Ninguém te condena?", disse ele à mulher flagrada em pleno adultério e arrastada até ele, porque a lei exigia que fosse apedrejada. "Ninguém, rabino." E Jesus: "Pois eu tampouco te condeno. Vá em paz".
Se Jesus perdoou uma mulher que tinha cometido adultério e chegou a exaltar as prostitutas, escandalizando os doutores da sua Igreja, negaria hoje a bênção ou o sacramento do matrimônio a dois homens ou duas mulheres que de coração e por amor desejem criar uma família?
Estamos, portanto, do ponto de vista do medo dos presidenciáveis de se comprometerem com o tema dos homossexuais, perante uma hipocrisia e até uma desinformação sobre os novos caminhos que a própria Igreja Católica está abrindo neste momento.
E os evangélicos deveriam recordar – já que eles também têm Jesus como referência, possivelmente até mais que os católicos, pois escrevem seu nome em todas as partes, até na traseira dos caminhões – que esse Jesus era o amigo de todos os diferentes e perseguidos, que abençoava o amor que fosse, sem distinções de gênero, e não negava sua bênção a ninguém.
Sua única lei era o "amai-vos"; sua única constituição, a indulgência; e seu credo, o perdão. Seu maior adversário foi o poder do seu tempo, que o crucificou por não suportar que abençoasse aqueles que a sociedade segregava, abandonando-os nas sarjetas do esquecimento.
Hoje, Jesus estaria ao lado e contra qualquer discriminação de gênero. Que não se esqueçam disso os crentes, nem aqueles que nestes dias brigam para tomar em sua mão o centro do poder. E ainda mais se esses candidatos já passearam por templos e catedrais se ajoelhando para serem abençoados, na esperança de não perder ou de ganhar votos.
Esse Jesus, venerado em igrejas e templos, cunhou uma frase terrível contra os hipócritas de plantão, que continua ressonando atual, 2.000 anos depois. Chamou-os de "lobos em pele de cordeiro".

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Lições do movimento LGBT para o debate do clima

ibase
http://www.canalibase.org.br/o-que-os-gays-tem-a-ensinar-aos-ativistas-do-clima/

Lições do movimento LGBT para o debate do clima

Renzo Taddei*
Para o Canal Ibase
Há alguns anos participo de um centro de pesquisas multidisciplinar, sediado na Universidade de Columbia, em Nova York, dedicado a estudar como as pessoas e grupos entendem informações científicas sobre o clima, e como isso afeta (ou não) suas vidas. Na última reunião anual no centro, em maio passado, notei a presença de pessoas desconhecidas, uma das quais em farda militar. Tratava-se de um almirante da marinha norte-americana, recentemente feito membro do conselho científico do referido centro. Munido dos meus mui latino-americanos preconceitos sobre tudo o que seja militar, e sabendo dos esforços de conservadores republicanos para impor sua atitude de negação do problema climático ao Pentágono, enchi-me de preocupação: o que seria aquilo? Um movimento estratégico do centro de pesquisa, rumo à direita, de modo a tentar salvar-se em um contexto de políticas de financiamento hostil às ciências sociais e humanas?
Minha preocupação durou apenas até o almirante pedir a palavra, durante uma discussão sobre as dificuldades envolvidas na criação de estratégias para a transformação da opinião pública norte-americana sobre o fato das mudanças climáticas e sobre a necessidade da transformação nos padrões de produção e consumo de energia. “Precisamos tomar o movimento gay como exemplo”, ele disse, contrariando todas as minhas expectativas. “Há alguns anos, gays eram massivamente estigmatizados e hostilizados neste pais; hoje em dia, há uma aceitação muito maior da diversidade sexual. O movimento gay obteve um sucesso estrondoso em seu esforço de transformar a opinião pública, e precisamos entender como o fizeram”.
Tenho certeza de que muitos ativistas do movimento LGBT colocariam esse sucesso estrondoso em questão, mostrando que a homofobia e a transfobia ainda fazem vitimas. Mas é inegável que há elementos do universo LGBT que se fazem presentes no imaginário coletivo sem os constrangimentos do passado, em especial no que diz respeito à mídia e às artes. No Brasil, as telenovelas são talvez o exemplo paradigmático disso: em cerca de uma década, os personagens gays se multiplicaram e se diversificaram, ganharam complexidade psicológica e protagonismo mais significativo nos enredos. O cenário é complexo, o estereótipo empobrecido de alguns autores convivendo com abordagens mais ricas de outros; no entanto, há avanços sensíveis. O primeiro beijo gay do horário nobre da TV americana ocorreu em 2001; no Brasil, isso se deu apenas em 2011.
Ocorre que a fala do almirante se deu pouco mais de um ano após a defesa de uma excelente tese de mestrado, de autoria de Luiz Henrique Coletto e por mim orientada, sobre as estratégias usadas por uma das mais importantes organizações de ativismo cultural LGBT na mídia nos Estados Unidos, a Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD). As palavras do almirante fizeram com que ambas as coisas – a questão climática e o ativismo LGBT – se conectassem em minha mente. Ninguém naquela reunião era capaz de responder ao almirante; talvez, relendo a tese do Luiz Henrique Coletto, eu possa ensaiar uma resposta, apontando alguns fatores relevantes.
Antes, no entanto, é preciso que se diga que, apesar de seu papel fundamental na transformação da opinião pública nos Estados Unidos, não se pode reduzir às ações da GLAAD todos os avanços do movimento LGBT daquele país. Nenhum universo sociopolítico se resume à sua existência midiática (nem mesmo as eleições no Brasil, apesar do que se possa pensar); se fosse necessário reduzir a complexidade dos embates políticos contemporâneos intranacionais a apenas duas dimensões  fundamentais, uma seria provavelmente o par mídia-opinião pública, e a outro seria os embates legislativos. Para resumir: relações públicas e advogados. As ações da GLAAD se dão apenas no campo das relações públicas. E a dimensão jurídica é obviamente fundamental, tanto para o tema das mudanças climáticas quanto para as causas LGBT.
O que a pesquisa do Luiz Henrique revelou é que a GLAAD adota uma abordagem pragmática, onde os sucessos e fracassos são medidos de forma objetiva e em função dos resultados de suas ações e iniciativas. A estrutura da entidade é profissionalizada, e seus integrantes fazem um corpo a corpo diário e incessante com as corporações de mídia, autores, atores, e mesmo patrocinadores dos programas de TV. Conteúdos de TV avaliados como positivos em relação às causas LGBT resultam em elogios públicos da entidade aos autores e produtores; programas homofóbicos são criticados nos meios de comunicação, denunciados às autoridades e, em casos extremos, campanhas de boicote são movidas contra os patrocinadores de tais programas. Os sucessos são medidos por análise quantitativa e qualitativa do conteúdo televisivo, de forma profissional. Não há organização equivalente no Brasil; os avanços por aqui tendem a refletir o ativismo individual de atores isolados, dentre os quais alguns autores de TV de destaque.
Há dois elementos de contraste marcado, quando esse cenário é colocado lado a lado com o panorama do ativismo climático. Os dois elementos, no entanto, são lados da mesma moeda: o perfil dos ativistas climáticos da atualidade, nos Estados Unidos e no Brasil, e a forma como esse perfil induz a certas formas de ação política. A maioria dos ativistas do clima são cientistas, ou são indivíduos que se pautam pelas formas de pensamento e ação dos cientistas. Não há nada de estranho aqui: os cientistas que fazem pesquisas ambientais são capazes de monitorar as transformações em curso na atmosfera de forma como os demais indivíduos não o são, e em geral as narrativas que elaboram sobre as alterações atmosféricas ajudam a dar sentido a transformações em curso em outras dimensões dos ecossistemas (extinção de espécies animais, acidificação dos oceanos, alteração do regime de glaciação dos polos, etc.).
Neste contexto, o primeiro elemento mencionado refere-se à pouca atenção dada à comunicação como campo complexo de ação social. Não vou me deter nessa questão; o ponto aqui é que, conforme já pontuei em outro lugar, não há curso de meteorologia no Brasil ou nos Estados Unidos que treine o futuro profissional das ciências da atmosfera para gerir as tarefas de comunicação social das agências em que irão trabalhar. No processo de treinamento do meteorologista, num primeiro momento ele ou ela é levado a crer que a linguagem é transparente (e não pode interferir na comunicação dos resultados das pesquisas científicas – como se isso fosse possível -, que são necessariamente comunicados textualmente, em artigos científicos); num segundo momento, em que começa a trabalhar em uma agência meteorológica, o meteorologista tem seus primeiros encontros e embates com o jornalismo, dos quais nem sempre sai ileso. Com sorte, e depois de muita improvisação, tentativa e erro, o meteorologista aprende o que fazer e o que evitar em sua atividade de comunicação. A desconfiança mútua entre meteorologistas e jornalistas, no entanto, é endêmica. Presenciei isso não apenas no Brasil e nos Estados Unidos, mas também no México, na Inglaterra, na Argentina e no Uruguai.
O segundo elemento, sobre o qual acredito que seja preciso discorrer um pouco mais detalhadamente, diz respeito à atitude dos cientistas frente às demais visões – “não-científicas” – sobre o meio ambiente. Em geral, se há respeito, por parte dos cientistas, a essas outras visões, ele é muito pequeno. Obviamente estou incorrendo aqui no risco de cometer injustiças ao generalizar da forma como o faço. Mas ocorre que me refiro a algo que não é característica exclusiva de meteorologistas: em geral, médicos se irritam frente a rituais “tradicionais” de cura, astrônomos abominam serem confundidos com astrólogos, agrônomos tem a tendência de tratar camponeses como ignorantes. Quanto mais próximo da pesquisa dita “pura” (e mais longe de alguma forma de atendimento ao público), mais marcada é essa característica. Infelizmente, o fato é que nossas universidades produzem intolerância a visões não-científicas do mundo (com variações que vão do sentimento mal disfarçado de superioridade à arrogância declarada) em larga escala – independente, obviamente, das inquestionáveis boas intenções de todos os envolvidos. Há, obviamente, exceções, tão honrosas quanto isoladas.
Um exemplo do que menciono aqui pode ser encontrado em uma das apresentações do humorista John Oliver, em seu programa semanal, Last Week Tonight, transmitido pelo canal HBO em maio passado. Outro exemplo é um artigo de Chris Mooney, da revista Mother Jones, onde este refere-se aos simpatizantes do partido republicano dos Estados Unidos que negam a crise climática como vítimas do “efeito de idiota esperto”; a eles, soma-se a categorias do indivíduo sujeito ao “efeito de idiota rico”, após a divulgação de pesquisa que mostra que, quanto mais rico o republicano, maior sua tendência de negar a crise climática. Mais um exemplo: em um post de fevereiro de 2013, o site Moron Watch afirma que
“debater as mudanças climáticas com negacionistas é, em geral, tão útil quanto discutir com [religiosos] criacionistas. Eles não têm as evidências a seu favor, mas isso não lhes parece causar a menor consternação. Dado que tais pessoas conseguiram passar pela escola sem absorver o mínimo de teorias científicas, não faz sentido tentar ensiná-las agora”.
E o post segue sugerindo 10 questões que supostamente mostrariam a tais indivíduos a irracionalidade ou incoerência de suas posições. A décima questão é: “Olhe no espelho. O que você vê se assemelha a uma pessoa capaz de entender conceitos científicos? A) Sim, b) Não, c) c) Não sei ler – não faço ideia de como consegui chegar até esse ponto do post. E os exemplos se multiplicam, como uma rápida busca na Internet pode demonstrar. O ponto é que tratar o oponente como ignorante e intelectualmente inferior não dá vantagem a ninguém na arena de embates climáticos.
O post do Moron Watch está certo em afirmar que mais argumentação baseada em fatos científicos não tem eficácia; no entanto, a ridicularização do oponente também não (trata-se de um site de humor politicamente incorreto, de modo que não há por que esperar algo diferente de tal fonte). O que ocorre é que o que dá autoridade a cada ideia varia de acordo com o meio social em questão. Entre cientistas e indivíduos “cientifizados”, ou seja, fruto de uma escolarização que privilegia a visão científica, a autoridade vem do emprego correto e consistente dos protocolos de pesquisa científica. Não há nada de autoevidente nisso; para aceitar a visão da ciência, o indivíduo precisa, no mínimo, de longos anos de escolarização.
Ou seja, a abordagem científica é entendida como superior entre aqueles que aprenderam a vê-la como superior. Em outros meios sociais, a autoridade para falar e ter suas ideias aceitas vem de outras fontes (credenciais políticas, sobrenome, possessão da arma de fogo, etc.). A questão aqui não é quais dessas formas são superiores ou inferiores, mas como convencer alguém que vive em um mundo onde as ideias são instituídas ou destituídas de autoridade em função de critérios com os quais você não está acostumado. Em contextos fortemente religiosos, por exemplo, quando uma informação científica chega “emoldurada” por algo que remeta à disputa religião x ciência (a forma como os fatos estão descritos, ou as memórias das pessoas sobre debates anteriores sobre o tema), a ciência vai, invariavelmente, perder a disputa. Na minha percepção, é esse o elemento que o movimento gay nunca teve (ou, se teve, jamais fez disso sua estratégia principal de ação política). A GLAAD, por exemplo, parece se pautar pelos valores do oponente: colocar pressão junto aos patrocinadores de um programa, ameaçando boicotes entre consumidores, é muito mais eficaz do que acusar um determinado programa televisivo de ser homofóbico. Procuram explorar a própria linguagem televisiva, estimulando o uso de histórias de interesse humano sobre pessoas LGBT (um jovem gay agredido; uma mãe aflita porque a filha lésbica foi ofendida na escola), ao invés de utilizar um discurso argumentativo típico de ativistas indignados.
Outro ponto do debate é que o ativismo gay nunca demandou dos seus oponentes que passassem a ver o mundo como este o vê. O objetivo sempre foi mais pragmático: liberdade sexual também é liberdade de pensamento. O que se exige é espaço de existência da multiplicidade, e não a sincronia dos cérebros. Essa lição é fundamental ao ativismo climático: este se preocupa demais com o que pensam os que não pensam como eles, e ao invés disso deveriam se preocupar com o que fazem os que têm agendas que se contrapõe às suas. As duas coisas não são iguais. Cito, por exemplo, e mais uma vez, a afirmação do grande xamã ianomâmi Davi Kopenawa: em uma apresentação no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2011, ele afirmou que muitos dos xamãs amazônicos vêm trabalhando na mitigação das mudanças climáticas há muitos anos, e o que os cientistas são capazes de detectar, em seus equipamentos, é apenas o que os xamãs indígenas não foram capazes de corrigir. Esse é o tipo de afirmação que irrita muitos cientistas, ainda que isso seja uma atitude equivocada: Davi Kopenawa está tão preocupado, senão mais, do que os ativistas do clima, e seus objetivos são os mesmos. As grandes corporações petroleiras, por outro lado, entendem o mundo exatamente como os ativistas do clima; seus objetivos, no entanto, são diametralmente opostos. Quem é amigo e quem é inimigo nesse panorama?
Para não dizer que não se está fazendo nada a esse respeito, é preciso mencionar que centros de investigação sobre como comunicar de forma efetiva as questões climáticas surgiram em diversas instituições de pesquisa, como o Yale Forum on Climate Change & The Media, na Universidade de Yale, o Media, Ethics and Climate Change Project do Center for Science and Technology Policy Research da Universidade do Colorado em Boulder, o Center for Climate Change Communication na Universidade George Mason, o Center for Research on Environmental Decisions na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos; no Brasil, há o Labjor, da UNICAMP, além de um número crescente de pesquisadores trabalhando de forma independente. O que ocorre, no entanto, é que o trabalho destas instituições e pesquisadores ainda não foi capaz de mudar o tom do debate.
*Renzo Taddei é antropólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo