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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Jornal satírico alvo do maior ataque terrorista em França

esquerda
http://www.esquerda.net/artigo/jornal-satirico-alvo-do-maior-ataque-terrorista-em-franca/35365


Jornal satírico alvo do maior ataque terrorista em França

Homens armados com metralhadoras entraram nas instalações do Charlie Hebdo, em Paris, e abriram fogo sobre a redação, deixando doze mortos e quatro feridos em estado crítico. É o mais grave atentado terrorista em França desde 1835.
Imagem de dois dos atiradores disparando contra um carro da polícia antes de se porem em fuga. Foto Elise Barthet/Twitter
O ataque ocorreu esta quarta-feira de manhã e segundo testemunhos divulgados pela imprensa, dois homens encapuçados e armados de metralhadoras entraram no edifício do jornal e abriram fogo à sua passagem. As autoridades confirmaram 12 mortos e quatro feridos em estado crítico na sequência deste ataque. Entre os mortos estão os desenhadores Charb, que dirigia o jornal, Cabu, Wolinski e Tignous. Os atiradores conseguiram fugir, disparando contra a polícia que protegia o local e matando dois agentes.
O presidente francês reagiu ao atentado elevando o alerta antiterrorista na zona de Paris e colocando outros jornais sob proteção policial. "A França está em estado de choque. Trata-se sem dúvida de um atentado terrorista"
Charlie Hebdo é conhecido pelo seu humor corrosivo que não poupa partidos, instituições ou religiões. Em 2006, na sequência da onda de indignação por causa das caricaturas de Maomé publicadas por um jornal dinamarquês, o Charlie Hebdo decidiu republicá-las em França, o que lhe valeu um processo em tribunal por injúrias, em que acabou absolvido.
Já em 2011, outra caricatura de Maomé voltou a fazer capa  do jornal, a propósito do regresso da charia na Líbia, sobrepondo ao cabeçalho do jornal o nome "Charia Hebdo".  Na mesma madrugada em que o jornal saía para as bancas, um cocktail molotov incendiou a sede do jornal, que se tornou um alvo dos grupos integristas islâmicos.
A capa da edição do Charlie Hebdo no dia do atentado faz referência ao polémico livro "Submissão", de Michel Houellebecq.
Esta semana, a capa do jornal satírico evoca o livro lançado esta quarta-feira e que está a provocar polémica em França. "Submissão", um romance de Michel Houellebecq, conta a história da ascensão de um muçulmano à presidência de França, levando à instauração da poligamia e do uso do véu, com o próprio narrador do romance a a converter-se ao Islão para manter o seu emprego. O livro já lidera a lista de pré-encomendas na Amazon francesa e tem sido defendido e atacado com garra nos meios políticos e culturais, havendo quem o compare a "1984" de Orwell e quem o acuse de servir para abrir caminho à extrema-direita de Marine Le Pen.
(Atualização): Reações de condenação e manifestações de solidariedade
Por todo o mundo surgiram ao longo do dia mensagens de condenação do atentado à redação do Charlie Hebdo. Em Portugal, a condenação foi unânime na primeira sessão plenária da Assembleia da República e o voto proposto pelo Bloco será aprovado na sexta-feira.
Também o Sindicato dos Jornalistas repudiou o atentado e prestou homenagem "presta homenagem à resistência e à coragem dos que, enfrentando riscos tão inesperados como a brutal fuzilaria que esta manhã irrompeu pela redacção do “Charlie”, amam até aos limites a liberdade de expressão".
O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa a comunidade muçulmana em França e é presidido pelo imã da Grande Mesquita de Paris, também repudiou o massacre no Charlie Hebdo, ao afirmar que "este ato bárbaro de extrema gravidade é também um ataque contra a democracia e a liberdade de imprensa".
O imã da mesquita de Lisboa também se pronunciou contra estes "atos bárbaros de crueldade" e afirmou que se os autores forem muçulmanos isso "preocupa-nos ainda mais", uma vez que "utilizam o Islão de forma negativa" e denigrem a "mensagem da tolerância e da paz que ele transmite".
O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa a comunidade muçulmana em França e é presidido pelo imã da Grande Mesquita de Paris, também repudiou o massacre no Charlie Hebdo, ao afirmar que "este ato bárbaro de extrema gravidade é também um ataque contra a democracia e a liberdade de imprensa".
"Num contexto político internacional de tensões alimentado por delírios de grupos terroristas que se aproveitam injustamente do islão, apelamos a todos os que estão associados aos valores da República e da democracia que evitem as provocações que apenas servem para deitar gasolina no fogo", acrescentou o comunicado do CFCM.
Esta quarta-feira ao fim da tarde realizam-se concentrações de solidariedade com as vítimas deste atentado em dezenas de localidades francesas. Os partidos parlamentares da esquerda francesa convocaram para o próximo uma marcha silenciosa em Paris para prestar homenagem aos mortos e feridos do ataque. Entretanto, a empresa detentora do diário Le Monde, a Radio France e a emissora pública de televisão colocaram os seus meios humanos e materiais à disposição do Charlie Hebdopara que possa prosseguir a sua publicação.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A prova irrefutável de que o Brasil tolera o assassinato de pobres e negros. Veja e assuma


estadão

http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/sp-no-diva/a-prova-irrefutavel-de-que-o-brasil-tolera-o-assassinato-de-pobres-e-negros/


A prova irrefutável de que o Brasil tolera o assassinato de pobres e negros. Veja e assuma

BRUNO PAES MANSO
10 Novembro 2014 | 09:02

Ainda não consegui me esquecer do depoimento de Vera Lucia dos Santos no documentário À Queima Roupa, de Thereza Jessouron, que estreia na quinta-feira, dia 13, nos cinemas de São Paulo. Para falar a verdade, não vou me esquecer nunca mais. Vera está toda vestida de preto e sua figura tem a sobriedade das matriarcas evangélicas dos bairros pobres brasileiros. Ela tem uma mistura de negro com índio. Morava em Vigário Geral quando, em agosto de 1993, 21 moradores do bairro foram assassinados por policiais. Oito vítimas eram de sua família.
Seu pai, sua mãe, cinco irmãos e a cunhada haviam acabado de chegar em casa depois do culto. Foram executados a sangue frio pelos policiais. Apenas três crianças de menos de cinco anos foram poupadas. Com seus pijaminhas de ursinhos e palhacinhos, eles vão pedir socorro na casa vizinha à da tia. No filme, Vera conta como encontrou os corpos de seus parentes depois da chacina. A mãe estava com a bíblia na mão. O irmão morreu de joelhos, segurando os documentos que tentou mostrar para a polícia. Uma das irmãs iria se casar em alguns dias. Outra, lançaria um CD evangélico. Teve os dedos quebrados pelos policiais a irmã que tentou defender os pais.
Peço ao leitor, com todo o respeito, um esforço de abstração. Imagine uma vingança com tal crueldade praticada pela polícia contra moradores de Pinheiros, em São Paulo, do Leblon, no Rio, ou Stella Maris, em Salvador. Pais formados em universidades públicas, com seus filhos em colégios privados, todos brancos, sete corpos estendidos na sala de jantar para saciar a vingança e o ódio dos policiais marginais. Não sejamos hipócritas. Isso seria inconcebível. É inimaginável. O Estado não toleraria as consequências.
Só toleramos as cenas do documentário À Queima Roupa, que se repetem com absurda frequência no Brasil, porque as vítimas são negras e pobres das periferias brasileiras. Assista ao documentário e assuma a realidade para si mesmo. É a prova irrefutável. Apenas um cínico ou mentiroso seria capaz de negar.
Ainda na cena de Vigário Geral, conforme Vera descreve detalhadamente a posição dos corpos de seus familiares, o documentário mostra as fotografias feitas na época pela perícia policial. A sobreposição de imagens e narrativa é um soco no estômago: por onde escorria o sangue da irmã, qual a parte do corpo do irmão estava ferida, etc. As cenas ficaram intactas na memória de Vera. Bem como, a maneira como estava o céu, o período da lua, as últimas palavras ditas ao pai. Vera foi condenada pelo sistema a carregar nos ombros por toda a vida uma cruz maciça que pesa toneladas. Só conseguiu aliviar o peso graças à grandeza de seu espírito, que perdoou os assassinos.
As 21 pessoas foram assassinadas em Vigário Geral em vingança pela morte de quatro soldados que tinham sido executados por traficantes na noite anterior. Homens, mulheres e crianças foram mortos em Vigário Geral apenas por viverem no mesmo bairro onde o policial foi atacado. Na época, houve indignação. O Rio era governado por Leonel Brizola e Nilo Batista era o Secretário de Segurança. Ambos reagiram com firmeza, pressionando para que os identificados fossem encontrados e punidos.
Só que os anos se passaram. E as vinganças e assassinatos aleatórios de pobres voltaram a ocorrer. Em janeiro de 2005, 30 pessoas foram assassinadas por policiais na Baixada Fluminense. No ano anterior, cinco adolescentes tinham sido mortos no Caju. Em 2007, subi o morro no Complexo do Alemão e testemunhei o dia seguinte da execução de 19 moradores locais. Casas de mulheres e idosos invadidas pela polícia para servir de trincheira. Rádios de carros roubados, comerciantes extorquidos, crimes rasteiros praticados contra os pobres do Alemão por policiais com carta branca da sociedade para matar.
Em São Paulo, houve o Carandiru, em 1992, com 111 mortos. Mais recentemente, depois dos ataques do PCC em 2006, 493 pessoas morreram por disparos de arma de fogo no começo de maio. Trabalhadores, pegos no meio das ruas de bairros pobres. Policiais jogando roleta russa com o destino para assassinar aqueles que por infelicidade estavam nas ruas das periferias. As Mães de Maio são o resultado da mobilização contra essa covardia, que continua se repetindo.
Assistir ao filme foi especialmente cruel porque no dia anterior nove pessoas haviam sido assassinadas em bairros pobres do Belém do Pará.
À Queima Roupa deveria ser debatido em todas as faculdades de direito e academias de polícia do Brasil. Nossos promotores, policiais e juízes estão sendo formados em uma bolha de plástico. Precisamos conversar com eles sobre a realidade das chagas brasileiras.
Veja abaixo o trailer do filme.

domingo, 24 de agosto de 2014

Guariba – 30 anos da greve que mudou a vida dos ‘bóias-fria’ no Brasil

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534535-guariba-30-anos-da-greve-que-mudou-a-vida-dos-boias-fria-no-brasil

Guariba – 30 anos da greve que mudou a vida dos ‘bóias-fria’ no Brasil

"Alguns chamam de “Levante de Guariba”, outros preferem mesmo “Greve de Guariba”, mas há mesmo aqueles – como o Deputado Federal Newton Lima – que a tratam como o “Massacre em Guariba”. Todas denominações tem sua pertinência", escreve Paulo Mancini, professor de biologia e ex-Coordenador do Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de São Carlos (2001 – 2012), em artigo publicado pelo portal EcoDebate, 21-08-2014.
Eis o artigo.
Só mesmo com a escravidão seriam comparáveis as condições de trabalho na colheita da safra de cana no Brasil e especialmente no Estado de São Paulo, que há muitas décadas lidera a produção de cana de açúcar no país. A grande maioria dos trabalhadores eram migrantes vindos do nordeste e de regiões mais pobres de Minas Gerais como o Vale do Jequitinhonha. Eram arregimentados por intermediários de fazendeiros e usineiros da região, chamados de ‘Gatos’, que contratavam e transportavam, muitas vezes ainda em caminhões, os migrantes que eram instalados em alojamentos improvisados. Alguns alojamentos eram mesmo antigos estábulos toscamente arrumados para abrigar os trabalhadores (e as trabalhadoras) pelos meses da colheita da safra da cana.
‘Contratados’ não é talvez a palavra correta. Não tinham carteira de trabalho assinada. O trabalho era temporário e naquele tempo (até 1988 com a promulgação da nova Constituição) eram poucos ainda os direitos conquistados pelo trabalhador rural brasileiro. Os produtos para alimentação, higiene, roupas eram fornecidos por armazéns ou supermercados que normalmente faziam parcerias com os ‘Gatos’. Muitas vezes quando algum trabalhador queria abandonar o serviço no ‘eito’, quando ia acertar as contas com o ‘patrão’, estava devendo, pois as ‘ordinhas’ (ordens, ou autorizações para retirada de mercadorias fornecidas pelo contratante) superavam o valor que o trabalhador ou trabalhadora tinha a receber por seu serviço. Isto é, ainda estava devendo para o ‘Gato’ e tinha que trabalhar mais para pagar sua ‘dívida’. Segundo pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Araraquara e Jaboticabal e da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), os preços cobrados pelos produtos fornecidos aos trabalhadores rurais, eram, frequentemente, majorados em até 30%.
Os trabalhadores rurais não recebiam equipamentos de segurança de trabalho, nem roupas apropriadas, nem alimentação. O termo ‘bóia-fria’ foi cunhado porque levavam em pequenas marmitas a comida preparada no dia anterior ou na madrugada e a comiam no próprio ‘eito’, em pequeno intervalo da colheita.
Convertida em toneladas de cana, a metragem da área mínima (cinco fileiras ou 10 ruas) que eram obrigados a coletar (cortar e lançar para amontoar) diariamente (o chamado ‘eito’), produzia de 06 a 12 toneladas de cana.
As cinzas da palha da cana, queimada para aumentar a produtividade da colheita – a colheita da cana crua (com a palhada) rendia no máximo 04 toneladas diárias – exigiam que parte do rosto ficasse coberto como forma de minimizar os problemas respiratórios por ela provocados. Os trabalhadores do campo e os moradores das cidades próximas eram obrigados a conviver com uma enorme poluição atmosférica causada pelas queimadas, que como atestaram vários estudos feitos por pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, agravavam enormemente as doenças respiratórias em moradores da região.
Num período de duas décadas, vinte e cinco trabalhadores rurais que atuavam no corte de cana tiveram mortes atribuídas por exaustão no trabalho. Contudo, por motivos variados (sempre relacionados à negligência com que a sociedade tratava a população rural, especialmente o migrante nordestino), apenas uma delas teve as consequências trabalhistas merecidas, com os herdeiros da vítima recebendo os direitos trabalhistas devidos.
Não havia fiscalização ambiental, embora o Código Florestal vigente (o de 1965, que foi deflorado pelo Congresso Nacional em 2012), previsse a conservação de 30 metros de cada margem de riso e córregos como área de preservação permanente, a cana muitas vezes chegava até a margens dos rios.
Naquela época a vinhaça, ou vinhoto, efluentes decorrente da produção do açúcar ou do álcool ainda eram lançados diretamente – para desgraça de nossos peixes – nos rios. Agora são despejados no solo para recuperação de sua fertilidade, mas o mau-cheiro resultante dessa atividade torna muitas vezes insuportável viajar pelas estradas do interior paulista.
A exploração do trabalho dos migrantes nordestinos (mas também mineiros e muitos paranaenses) e a exploração (e conseqüente degradação) dos recursos naturais, trouxe e traz muita riqueza para a região central do Estado de São Paulo, mas riqueza que contribuiu para enriquecer os que já eram ricos, e manteve pobres a natureza e o trabalhador. Concentração de renda e de terras é o que revelam as declarações de renda e a situação fundiária na região.
A Greve de Guariba
No segunda metade da década de 70 do século passado, membros da Igreja Católica da CPT  Comissão Pastoral da Terra – do Estado de São Paulo, sensíveis à situação dos trabalhadores do corte da cana, começaram a procurar estes migrantes em seus alojamentos e na sua caminhada para o trabalho, para com eles celebrar o evangelho e neles reconhecer a dignidade humana que era negada no seu trabalho. Alguns desses clérigos como o Padre Bragheto, que passou por várias cidades da região além de Guariba, sofreram muitas ameaças de morte na região e por isso, foram transferidos para outras paragens.
Padres da Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeu e das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu, também conhecidos como scalabrinianos (o fundador da ordem foi o então bispo – agora beato italiano – Dom João Batista Scalabrini, de Piacenza), que têm como missão o atendimento pastoral aos migrantes (o lema da congregação é: “Eu era estrangeiro e me acolheste” – MT.34,25,b), vieram então para a região no inicio da década de 80 do século XX e no ano de 1984, pouco antes de ser deflagrada a famosa greve dos canavieiros de Guariba, foi fundada na mesma cidade, a Pastoral do Migrante, para propiciar atendimento apostólico e social à população de migrantes da região.
Alguns chamam de “Levante de Guariba”, outros preferem mesmo “Greve de Guariba”, mas há mesmo aqueles – como o Deputado Federal Newton Lima – que a tratam como o “Massacre em Guariba”. Todas denominações tem sua pertinência.
Foi uma greve cujo estopim foi a determinação dos usineiros de que os cortadores de cana deviam derrubar não mais cinco (05) ruas de cana, como era historicamente, mas sete (07) ruas, sem significativo aumento de ganho para o canavieiros, para otimizar a operação de carregamento e transporte da cana. Já sufocados pelas péssimas condições de trabalho acima referidas, as primeiras a se rebelarem e resolverem paralisar o corte da cana e saírem em protesto foram as mulheres, que além do trabalho estafante no campo, tinham que cuidar da casa e dos filhos.
Quando a greve estourou não havia sindicatos, políticos ou outras lideranças na sua organização. Por isso, na época, foi por muitos chamada de espontânea. Mas Louis Pasteur no século XIX já ensinou que não existe ‘geração espontânea’. As condições degradantes do trabalho e a tomada de consciência de seus direitos, foram as causas que levaram aquelas trabalhadoras e aqueles trabalhadores, então conhecidos como bóias-frias, vindos do interior da BahiaPiauíParaíba,PernambucoMaranhão e Minas Gerais, a paralisarem seu duro trabalho, para mostrarem – ainda durante a Ditadura Militar, em seu último ano – que eram gente e como tal queriam ser tratados: queriam a volta ao regime de apenas cinco ruas de cana cortada; registro em carteira de trabalho; roupas adequadas e equipamentos de segurança de trabalho; alimentação e moradia decente enquanto estivessem em trabalho temporário.
Uma greve de trabalhadores no interior do Estado de São Paulo, uma das regiões mais conservadoras do País, tomou de surpresa toda a sociedade especialmente a classe patronal e a classe política dirigente.
Os usineiros da região reivindicaram reforço policial ao então Governador do Estado de São Paulo, Franco Montoro. Se ainda hoje nossa Polícia Militar não sabe exatamente como lidar com manifestações sociais, imagine à época. O inicio da repressão policial revoltou ainda mais os trabalhadores que reagiram com algum excesso: o supermercado que fornecia mercadoria aos bóias-frias, por ordem dos ‘Gatos’ foi saqueado. E aí o pau comeu!!! Trabalhadores rurais foram perseguidos apanhados e surrados dentro de suas próprias casas, no interior de estabelecimentos comerciais. Vários foram atingidos por tiros.
Mas houve – confirmada – apenas uma morte. Por uma bala perdida, um senhor – Amaral Vaz de Melone – aposentado, que foi atingido fatalmente e amparado por Vanderlice, de 23 anos, à época cortadora de cana. Esta fatalidade, segundo ela mesma, motivou-a a estudar enfermagem e dedicar-se à missão de enfermeira hospitalar na cidade de Guariba. Algumas pessoas da cidade de Guariba acreditam que houveram mais mortes que não foram denunciadas.
Mas, e a apuração das responsabilidades por este assassinato e das inúmeras pessoas baleadas?
A resposta dada pelos que acompanharam o desenrolar dos acontecimentos é estarrecedora!!! Nem um inquérito policial foi aberto!!! Morreu de bala perdida. Ninguém sabe de onde veio o tiro. Os canavieiros também foram acusados. Mas todas cartuchos achados eram da Polícia Militar. Nunca ninguém presenciou os bóias-frias, com armas, que não fossem suas próprias ferramentas de trabalho.
Polícia Militar também teve uma baixa: um cão, pastor-alemão, que quando atiçado para cima de um trabalhador teve seu pescoço cortado por uma foice.
Mas a paralisação, a revolta e o massacre, não foram em vão. Apenas dois dias após a repressão policial, foi firmado noSindicato Rural de Jaboticabal o famoso Acordo de Guariba, no qual parte significativa dos usineiros da região atendiam as seguintes reivindicações dos trabalhadores: transporte seguro e gratuito; fornecimento de ferramentas (foice e lima) e equipamentos de proteção individual (caneleiras, luvas); carteira assinada; décimo-terceiro salário; pagamento por dias parados por imprevistos (chuvas, falta de transporte, etc…) e fiscalização do pagamento. Todas elas conquistas já garantidas aos trabalhadores urbanos há cerca de 50 anos pela CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas).
Em breve em todos os rincões brasileiros nossos trabalhadores rurais citavam o Acordo de Guariba reivindicavam para si aqueles direitos. Na região, posteriormente, novas greves ocorreram no campo, como a de Leme em 1986, onde pelo menos dois trabalhadores morreram vítimas da repressão policial.
Os Desafios Atuais para o Trabalhador Rural e para a Pastoral do Migrante
Na época, décadas de 70, 80 e 90, só em Guariba, cerca de 10.000 migrantes chegavam todo ano para a colheita da safra da cana. No Estado de São Paulo chegava a mais de 150.000. Hoje em Guariba e região, a estimativa do Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (criado após a greve) , o número de trabalhadores migrantes não chegam a mil. As condições de trabalho mudaram radicalmente, especialmente devido à mecanização da colheita da cana. Os trabalhadores são transportados de ônibus, há banheiros químicos no local de trabalho, é fornecida alimentação; toda ferramenta e equipamentos de segurança individual e todas as garantias trabalhistas.
Mas, segundo pesquisadores das universidades citadas, o trabalho continua sendo pesado e, muitas vezes, insalubre. Os operadores de máquina sofrem com o extremo controle da máquina sobre seu trabalho: comem na hora que mais convém à eficiência produtiva; o excesso de atividade física que conduzia à exaustão; agora converteu-se em sedentarismo (cerca de pelo menos oito horas sentado à frente de uma direção com inúmeros controles. Para que as máquinas trabalhem de forma eficaz é necessário que eventuais pedras e outros objetos muito duros, sejam retirados de seu caminho. Esse trabalho são normalmente realizados por mulheres (catadoras de pedras). Um trabalho também exaustivo e muitas vezes pesado pois são encontradas pedras com cinco ou mais quilos.
A crise global do capitalismo de 2008, provocada a partir da quebradeira de bancos pela hipervalorização de imóveis (usados como hipoteca de empréstimos bancários) nos EUA sem lastro real, provocou um desaquecimento do crescimento econômico mundial, com conseqüente queda da demanda e dos preços de commodities como o açúcar e o álcool, gerando uma crise no setor sucroalcooleiro brasileiro e com isso facilitando sua desnacionalização. Entender melhor esse processo de desnacionalização do setor e suas conseqüências para os trabalhadores e para região central do Estado é um outro desafio apontado pelo Seminário realizado nos dis 01 e 02 de agosto de 2014 em Guariba.
Buscar superar a atual tendência de desarticulação dos setores com maior preocupação social (e ambiental) e com os trabalhadores tais como alguns núcleos das universidades da região, organizações religiosas com atuação social como aPastoral do Migrante, sindicato de trabalhadores e outras entidades da sociedade civil é outro desafio identificado no Seminário. É importante e necessário reforçar os laços entre os pesquisadores e os atores sociais e destes com os setores políticos governamentais (Executivo através dos Ministérios do Trabalho e Emprego, o da Justiça e o doDesenvolvimento AgrárioLegislativo e do Ministério Público), para que sejam promovidas mais conquistas para a sociedade nesta região central do Estado de São Paulo.
O Resgate Socioambiental de Guariba e da Região Central de São Paulo
Alouatta guariba (Rylands& Brandon Jones) é o nome cientifico de uma espécie de macaco (do tipo bugio ou guariba) cuja presença deu nome à estação ferroviária instalada em 1895, para transporte de café produzido nas fazendas da região, em torno da qual desenvolveu-se a vila e depois município de Guariba.
Dos guaribas restou apenas o nome da cidade. Mas não é pouco. Nome é símbolo. Lembrança dos povos indígenas, primeiros habitantes locais que foram obrigados a migrar (quando não dizimados por doenças ou à balas não-perdidas). Lembrança dos guaribas, bugios, primatas de grande porte, de vida grupal, herbívoros (alimentam-se predominantemente de folhas) e barulhentos, que também foram obrigados a migrar ou foram eliminados à balas não-perdidas.
Nosso desafio maior é fazer com que as riquezas geradas nesta região (e o açúcar e o álcool produzidos pelo trabalho humano são uma das principais riquezas) resgatem nossa dignidade. E esta só poderá ser efetivamente resgatada quando os frutos de nosso trabalho sejam mais justamente distribuídos àqueles que trabalham, e promovam a recuperação da qualidade ambiental da região, registrando retorno dos guaribas à região e de nossa boa relação com eles como, por milhares de anos, nossos antepassados tupi-guarani conseguiram manter. E um desafio e tanto. Pode parecer utópico, mas creio que é neste ‘topos’ que podemos – se efetivamente quisermos – chegar lá, realizando o Reino de Deus aqui na Terra, com o imprescindível auxílio da ciência, da tecnologia, da boa vontade e do bom senso.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Presidente de associação rural e esposa são mortos após denuncia contra PMs e políticos do MT

amazônia
http://amazonia.org.br/2014/08/presidente-de-associa%C3%A7%C3%A3o-rural-e-esposa-s%C3%A3o-mortos-ap%C3%B3s-denuncia-contra-pms-e-pol%C3%ADticos-do-mt/

Presidente de associação rural e esposa são mortos após denuncia contra PMs e políticos do MT

O Presidente da Associação ASPRONU (Associação de Produtores Rurais Nova União), Josias Paulino de Castro, 54 anos, e sua esposa, Ireni da Silva Castro, 35 anos, foram assassinados neste sábado (16), no Distrito de Guariba, no Município de Colniza. Os corpos foram encontrados crivados de tiros de arma de fogo calibre 9mm, que é de uso restrito. “Será que eu vou ter que ser assassinado para que vocês acreditem e tomem providências”, havia dito a vítima na semana passada.
A execução revoltou moradores da região, já que todos sabiam que o casal, ainda neste mês de agosto, havia ido até Cuiabá realizar várias denúncias ao ouvidor Agrário Nacional, desembargador Gercino José da Silva. Segundo informações do site O Pantanal Online, ele teria denunciado alguns políticos da região, por extração ilegal de madeira. Também denunciou a Polícia Militar por irregularidades e órgãos do governo por emissão irregular de títulos definitivos das terras na região.
Por várias vezes, na reunião, Josias afirmou a existência de ‘pistoleiros’ na região e que nunca foram tomadas providências. “Estamos morrendo, somos ameaçados, o Governo de Mato Grosso é conivente, a PM de Guariba protege eles, o Governo Federal é omisso, será que eu vou ter que ser assassinado para que vocês acreditem e tomem providências”, disse Josias no dia 5 de Agosto.
Segundo informações da Polícia Civil de Colniza, os corpos foram encontrados crivados de tiros de arma de fogo 9mm, que é de uso restrito. “Os dois foram baleados na cabeça e Ireni ainda levou um tiro na mão”, disse um policial.
O delegado de Polícia Judiciária Civil, Marco Bortolotto Remuzzi, abriu inquérito e investiga o duplo homicídio. A polícia ainda não tem informações a respeito de quem tenha assassinado o casal.
Veja vídeo feito pelo site O Pantanal Online onde registra a reunião com autoridades em Cuiabá e toda a denúncia feita pelo presidente da associação.
Fonte: CPT

One Response to Presidente de associação rural e esposa são mortos após denuncia contra PMs e políticos do MT

  1. Só o nome FILINTO MULLER já desperta dúvida e ódio, não tenho certeza se é o mesmo (que entregou Olga Benário ao Nazismo ou o carrasco da ditadura militar).Portanto um nome a ser renegado, na audiência o representante (afonso) do estado MT, lava as mãos(pilatos), ataca o JOSIAS e pede respeito, se retira da audiência, porém fica na sala, mostrando prepotência e aí sim, desrespeitando o representante do GF, ficando em pé e passeando pelo ambiente e interrompendo o diálogo, exige respeito, porém não corresponde. Um lacaio a serviço da corte, e o resultado se repete na foto acima, PADRE JOSIMO,… CHICO,… DOROTY,…. E JOSIAS ATÉ QUANDO O PODER DA BALA FALARÁ MAIS ALTO??????

NOTA DE REPÚDIO E DENÚNCIA

NOTA DE REPÚDIO E DENÚNCIA
 
A Comissão Pastoral da Terra, regional Mato Grosso, o Movimento Sem Terra - MST e demais entidades, abaixo assinadas, repudiam e denunciam os 03 assassinatos de lideranças do campo no Estado de Mato Grosso acontecidos todos na mesma semana.
O primeiro assassinato, de dona Maria Lucia, sindicalista, aconteceu no dia 13 de agosto, quarta-feira, no município de União do Sul, Gleba Macaco, Assentamento Nova Conquista II, área reconhecida legalmente como Terras da União. Neste caso, as ameaças foram denunciadas na Ouvidoria Agrária Nacional e foram testemunhadas, inclusive, por oficiais de justiça. O crime foi cometido dentro do assentamento.
Os outros assassinatos aconteceram no dia 16, sábado, no Distrito de Guariba, no Município de Colniza e as vítimas foram Josias Paulino de Castro, presidente da Associação ASPRONU (Associação de Produtores Rurais Nova União), de 54 anos, e sua esposa, Ireni da Silva Castro, 35 anos.
Ainda no início do mês de agosto, aconteceu em Cuiabá uma Audiência com a Ouvidoria Agrária Nacional para tratar, dentre outros assuntos, do conflito de terra em Guariba, na qual participaram o desembargador Gercino José da Silva Filho, o representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o Presidente do Intermat, o Comandante da Companhia da PM de Colniza, representantes do Incra, MPF, da Secretaria de Justiça de Estado, entre outras representações.
A reunião está online (http://www.reportermt.com.br/policia//presidente-de-associacao-rural-e-esposa-sao-assassinados-apos-denunciar-pm-e-politicos-de-mt/38244) e demonstra a tensão que o momento representava. Nesta, Josias denunciou aberta e corajosamente a grave situação de conflito agrário que perpetua na região. Dentre as suas denúncias acusa a inoperância e o descaso do Intermat, a grilagem de grandes áreas de terras públicas promovida por fazendeiros inescrupulosos, a expedição de títulos irregulares pelo Estado, extração ilegal de madeira, envolvimento de alguns políticos do Estado e o suposto favorecimento a ilegalidade na região pela Polícia Militar. Neste ponto, é preciso ressaltar que, conforme noticiado pela imprensa, a arma utilizada no crime do casal era de uso restrito, portanto, somente poderia estar sendo utilizada, com a devida autorização, pelos órgãos de segurança do Estado.
Afirmamos que, inequivocadamente, os 03 assassinatos foram execução de lideranças que lutavam pelo direito à terra e, por isso, denunciavam a corrupção e a violência que o povo sofre, com a omissão e conivência do Estado de Mato Grosso e a União, através dos seus órgãos competentes.
Lamentavelmente reafirmamos que estes assassinatos não são fatos casuais num Estado que vem promovendo insistentemente a concentração de terra e a violência programada, para perpetuar o privilégio de uns poucos que detêm o poder político e econômico, em detrimento de uma maioria de trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Cabe destacar também que muitas mortes estão sendo anunciadas pelo número de ameaças que vem crescendo exponencialmente nas zonas rurais do Estado. Somente no ano de 2013 foram 27 pessoas ameaçadas no campo, 21 em 2012 e 10 em 2011.
Portanto, com essa estrutura e a impunidade recorrente podemos afirmar que nos encontramos numa situação de barbárie social.
A Maria Lucia, o Josias e a Ireni foram assassinados dias depois de apresentarem a grave situação em que vivenciavam as diversas famílias no campo. As denúncias junto á Ouvidoria Agrária e a respectiva Audiência, além de não resolverem a situação, acirrou ainda mais o conflito, demonstrando a incompetência e o descaso com a vida das pessoas. A luta e a coragem para diminuir as injustiças significou morte. Será que a impunidade também prevalecerá nestes casos?
Exigimos apuração imediata e julgamento dos crimes, assim como a solução dos conflitos nos quais estavam envolvidos os/as assassinados.
Indignados/as nos solidarizamos com as famílias das vítimas e todas as demais que continuam sofridas e esperançosas em tempos novos.
Maria Lucia, Josias e Ireni jamais serão esquecidas/o, porque se tornaram sementes de Vida e de Coragem, regadas pelo sangue inocente derramado injustamente.
 
Cuiabá-MT, 19 de agosto de 2014.
Assinam:
Centro Burnier Fé e Justiça -  CBFJ
Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennès
Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade – CDHHT
Comissão Pastoral da Terra – CPT MT
Conselho Indigenista Missionário - CIMI
Fórum de Direitos Humanos e da Terra Mato Grosso - FDHT
Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento - FORMAD
Federação de órgãos pra Assistência Social e Educacional - Programa Mato Grosso – FASE
Grupo de Trabalho de Mobilização Social (GTMS-MT)
Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte - GEPEA
Instituto Caracol – IC
Instituto Gaia - IG
Movimento RUA - Juventude Anticapitalista
Movimento dos Trabalhadores Acampados e Assentados - MTA
Movimento 13 de Outubro
Movimento dos Sem Terras - MST
Movimento dos Trabalhadores sem Terra - MTS
Movimento UNITÀRIO do Estado de Mato Grosso – Por Terra, Território e Dignidade!
Rede Mato-grossense de Educação Ambiental – Remtea

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Líder Quilombola é assassinado em acampamento no interior de Helvécia (BA)

cpt
http://www.cptnacional.org.br/index.php/publicacoes-2/noticias-2/12-conflitos/2149-lider-quilombola-e-assassinado-em-assentamento-no-interior-de-helvecia-ba


 
Paulo Sérgio Santos, 42 anos, foi assassinado no final da tarde deste domingo, 6 de julho, no acampamento quilombola Nelson Mandela, nas proximidades de uma comunidade Quilombola localizada em Helvécia, interior de Nova Viçosa, na Bahia.

(Sul Bahia / Radar 64 / Jornal Alerta)
De acordo com moradores do local, a vítima é líder da comunidade e foi surpreendido por homens armados que chegaram em um carro modelo Gol, cor prata, e desceram atirando  em sua direção.
Paulo foi baleado e morreu na hora. O corpo dele foi removido para o Instituto Médico Legal de Teixeira de Freitas para exames de necropsia.
Segundo informações de pessoas ligadas a comunidade, Paulo participaria nesta segunda-feira, 7, de uma reunião com uma empresa de celulose, a Fíbria. A Polícia Civil investiga o caso.
Fibria informa que não tinha reunião agendada com líder quilombola morto
Em nota enviada a jornais locais nesta segunda-feira (07), a Fibria informa que lamenta a morte de um líder do acampamento quilombola Nelson Mandela, próximo ao território quilombola de Rio do Sul, em Nova Viçosa, extremo Sul da Bahia, no último fim de semana. A empresa de celulose diz ainda que espera que o caso seja esclarecido pelas autoridades competentes. Ainda na nota, a companhia informa que não tinha reunião oficial agendada com a vítima, com quem não mantinha qualquer tipo de relacionamento.
Entenda o conflito
Segundo um dos membros do movimento quilombola da região, União de Negros pela Igualdade – Unegro, muitas destas comunidades sofrem a opressão da violência armada comandadas por empresas de segurança contratada pelas empresas de celulose que ocupam mais de 70% das terras quilombolas da região de Nova Viçosa, além, também, da violência empreendida por empresários do agronegócio.
As comunidades denunciam, ainda, que ao longo dos anos assistiram o descumprimento dos mandados constitucionais, o que tem gerado mais conflitos e ameaças à existência física e cultural dessas comunidades. Até março desse ano, foram certificadas pela Fundação Cultural Palmares 1.845 comunidades quilombolas. Estão abertos 1.264 processos de titulação a territórios quilombolas (alguns na fase inicial), e foram titulados apenas 124 territórios, desses apenas 39 expedidos exclusivamente pelo governo federal, através do Incra e Fundação Cultural Palmares (FCP), somando 995.009,0875 hectares.

O líder quilombola Artêmio Gusmão, conhecido pelo apelido de Alaor, foi assassinado na última sexta-feira (04), por volta de 19h. O crime foi praticado quando Alaor voltava para a comunidade, após assistir à partida entre Brasil x Colômbia, na Vila Camarial, no Pará. Alaor era coordenador da comunidade Mancaraduba. Dois irmãos do líder quilombola já haviam sido assassinados no ano retrasado devido, também, a conflitos fundiários.

(Diário Online e Blog da Franssinete Florenzano)
Parentes da vítima viram a moto em que Alaor estava caída em uma estrada e com muitas manchas de sangue. Após horas de busca pela mata, o corpo do quilombola foi encontrado na manhã deste sábado (05), degolado e esquartejado. No ano passado, dois irmãos de seu Alaor também foram assassinados em virtude de conflitos fundiários. Outras pessoas da mesma família também estão sob ameaça de morte.
A ouvidora do Sistema de Segurança Pública, Eliana Fonseca, foi acionada ainda durante as buscas pelo corpo, no meio da madrugada. A ouvidora comunicou o delegado geral José Firmino esta manhã. Ainda não há pista das pessoas que cometeram o crime.
Artêmio Gusmão era coordenador da comunidade Mancaraduba, localizada em uma área de terras de competência do governo federal com pretensão quilombola. O processo de reconhecimento está na Justiça Estadual e é contestada pela empresa Biopalma. Em novembro do ano passado, esta comunidade denunciou uma operação policial abusiva e o caso está sendo acompanhado pela Ouvidoria da Segup, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e pelo movimento quilombola Malungu. As terras estão no município do Acará, mas fazem fronteira com Tailândia e Tomé Acu.
A Associação de Moradores dos Quilombos do Alto Acará (Amarqualta) possui um dossiê que informa que Artêmio estava sendo ameaçado por um madeireiro e informou isso na última semana a algumas autoridades federais. A associação também já denunciou vários crimes ambientais e de grilagem de terras, sem que a situação tenha sido solucionada.
A SDDH considera que a situação está fora de controle, pois o Estado é omisso e a pistolagem, grilagem de terras, uso de documentos de terras falsificados e crimes ambientais têm ocorrido indiscriminadamente na área. Apesar de denunciados, os órgãos de fiscalização e controle ainda não se fizeram presentes na defesa da vida e do território quilombola em questão.
Entenda o caso
A Associação Quilombola Amarqualta, que representa as comunidades do Alto Acará, denunciou operação policial abusiva em novembro de 2013, cuja apuração tem acompanhamento da Ouvidoria da Segup, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e movimento quilombola Malungo. As terras são localizadas no município do Acará, nos limites com Tailândia e Tomé Açu, onde já foram denunciados vários crimes ambientais e de grilagem de terras, sem providências efetivas dos órgãos que têm o dever de fiscalizar as leis e defender as vidas em risco. A Amarqualta levou, inclusive, na semana passada, ao conhecimento de autoridades federais, um dossiê informando que Alaor estava sendo ameaçado por um madeireiro. 
No dia 09 de novembro de 2012, a Promotoria de Justiça Agrária da Região de Castanhal recebeu das Associações quilombolas Malungo e Amarqualta pedido de providências com relação ao atentado sofrido por um grupo de moradores da comunidade Km 19 de Maçaranduba, vinculada aos quilombolas da região do Alto Rio Guamá, alvejados por um desconhecido, fato que resultou na morte de dois quilombolas (os irmãos Abiair Amaral Gusmão e Josivani Amaral Gusmão), e na tentativa de homicídio de outros quatro integrantes da comunidade (Jaciane Gusmão dos Santos, Sueli e Júnior), na zona limítrofe entre os municípios de Tomé-Açu e Acará, no dia 07 de novembro de 2012. As associações denunciaram, ainda, que “ao invés da prisão do autor do crime, os familiares das vítimas, que também são da comunidade, foram presos”. A promotora de Justiça Eliane Cristina Pinto Moreira foi a Tomé-Açu e, na oitiva, os quilombolas relataram que as vítimas do atentado ocupam a área disputada com a empresa BioVale (uma empresa da Vale S.A.) desde 29 de agosto de 2012, que é território quilombola em processo de reconhecimento perante o Instituto de Terras do Pará (Iterpa), e que desde a ocupação os quilombolas têm sido ameaçados. Segundo os quilombolas as ameaças não partem da BioVale, mas sim de indivíduos que querem vender suas terras para a empresa, que desenvolve no local atividades de plantação e extração de dendê por intermédio da Biopalma, e que a área é objeto de litígio na Vara Agrária de Castanhal, no processo conhecido como Fazenda São Jorge. Conforme os quilombolas, as mortes têm relação com a disputa pelas terras, pois em razão dos valores pagos pela BioVale quando da compra das terras as disputas se acirraram. Pediram ao MPE-PA providências quanto à prisão dos familiares das vítimas e a urgente titulação e demarcação das terras da Amarqualta. 
Na época, os quilombolas declararam à promotora de justiça Eliane Moreira que desde a ocupação os quilombolas têm sido ameaçados pela PM de Tomé-Açu, representada por Silvio Shibata Japonês e Antonio Bracinho, informando ainda que as pessoas interessadas nas áreas quilombolas para venda a Vale são Telmo, Elias, Lurdes e Mitinori, mas que as ameaças endereçadas aos quilombolas partiram de Shibata e Bracinho, que a PM estaria a serviço dessas pessoas e que esses policiais militares sabem indicar Elielson e Macedo que teriam agido de modo a constranger a comunidade quilombola e que os dois policiais abordaram Artêmio, o Alair, obrigaram-no a levá-los em sua casa, algemaram-no e pegaram dinheiro de sua casa no valor de R$300.
Outro relato também foi de que no dia 08.11.2012, no Novo Horizonte, na casa de Oziel Gusmão, durante o almoço, tinham acabado de chegar da zona rural onde todos estavam dentro de casa, quando a PM chegou dizendo que as pessoas ali presentes estavam tentando matar uma pessoa, sem dizer quem seria, logo em seguida a PM colocou dez pessoas no camburão em três viaturas e também quatro motos de propriedade das pessoas detidas e os levaram para a Delegacia.  Todos esses gravíssimos fatos foram publicados no site do MPE-PA. E ninguém tomou providências. 
No dia 13 de março de 2013, a juíza Cláudia Favacho, da Vara Agrária de Castanhal, fez uma visita técnica à área quilombola. Também estavam presentes técnicos do Judiciário, representantes do Ministério Público estadual, advogados dos quilombolas e da BioVale e os próprios quilombolas, moradores da comunidade. A área quilombola tem mais de 22 mil hectares, e a terra que a BioVale está requerendo se situa dentro da área de pretensão da comunidade, junto ao Incra. De acordo com os advogados da Amarqualta, o Iterpa já delimitou a área quilombola; no que concerne às terras da União, o Incra ainda estaria finalizando a documentação. O processo de demarcação do Território Quilombola do Alto Acará está em curso há mais de quatro anos.
No mapa constam as delimitações do Iterpa como Terra Pública Estadual(demarcado em preto) e do Incra como Terra Pública da União(em amarelo). A área destacada em vermelho é a Fazenda Cachoeira, terreno comprado pela BioVale para plantação de dendê. A BioVale alega que comprou a Fazenda Cachoeira, por R$4 milhões, de Jorge Takahashi, que por sua vez é acusado de ter invadido a área da comunidade quilombola. Nos documentos apresentados pelos advogados da BioVale, a fazenda em questão estaria localizada a 60 Km do território quilombola Alto Acará. Por conta desses desencontros de informações cartográficas, a justiça percebeu a necessidade de ir ao local e identificar os limites.  
Como resultado da visita técnica, os técnicos da justiça ficaram de produzir um mapa, afim de ser comparado com os do Iterpa e do Incra. Caso seja confirmado que a fazenda comprada pela BioVale está no território quilombola, a empresa vai ser obrigada a se retirar da área, mas será considerado pela justiça algum tipo de ressarcimento das benfeitorias. Contudo, o desfecho do processo ainda não aconteceu e a selvageria continua.