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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Morte em Paris

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Morte em Paris

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Por que o “Charlie Hebdo” foi atacado. As manifestações e o risco de mais xenofobia na Europa. Os sinais de um sistema em crise profunda
Pela Redação de Outras Palavras
Uma das hipóteses mais lúgubres do sociólogo Immanuel Wallerstein concretizou-se, em parte, esta manhã em Paris. Dois homens encapuzados e vestidos de negro, aparentando (ou simulando) ser fundamentalistas islâmicos, invadiram a sede de um jornal satírico francês, o Charlie Hebdo, e executaram, a rajadas de metralhadoras, ao menos doze pessoas. Entre os mortos estão o editor da publicação e outros três chargistas de enorme talento e renome internacional. Charlie Hebdo é irreverente, inclinado à esquerda e crítico às instituições religiosas. Esta postura levou-o, algumas vezes, a provocar o islamismo, religião de milhões de imigrantes oprimidos e discriminados na Europa.
Sejam quais forem os responsáveis pelo atentado, as consequências são potencialmente trágicas: aumento da onda xenófoba – especialmente anti-islâmica – na Europa. Crescimento dos partidos de extrema-direita. Reforço à postura ultra-agressiva que os Estados Unidos, com notável apoio da França, já adotam no Oriente Médio. Risco ampliado de guerras de provocação. Wallerstein adverte que a crise do capitalismo é profunda, mas poderá abrir espaço tanto para um sistema mais democrático e igualitário quanto para o oposto. Ao entrar em declínio, a ordem hoje hegemônica liberta a emergência e expansão de valores de um pós-capitalismo; mas engendra, ao mesmo tempo, riscos de um mundo ainda mais hierarquizado, violento e desigual. As circunstâncias do atentado e seu contexto parecem validar a hipótese.
Armados de fuzis, os dois assassinos chegaram à redação de Charlie Hebdo, no centro de Paris, por volta das 11h. Sob ameaça, obrigaram a cartunista Corrine Rey (“Coco”), que entrava com sua filha, a abrir a porta do prédio. Ela relatou que falavam “um francês perfeito” e disseram pertencer à Al-Qaeda. Subiram dois andares e começaram a fuzilaria.
Chegaram num momento preciso. Às quartas pela manhã, a redação reunia-se, para definir a pauta do número seguinte. Estavam presentes o diretor, Charb, mais três cartunistas –Cabu, Tignous e Wolinski (este último mais conhecido do público brasileiro, por publicar, em abril de 2011, em Piauí, a sequência “Meio século de sexo”) – e quatro redatores (entre eles, o economista Bernard Maris, ex-membro do Conselho Científico do movimento ATTAC, em favor do controle social sobre o sistema financeiro).
TEXTO-MEIO
Todos foram mortos na hora, junto com mais dois funcionários do jornal e dois policiais. Os assassinos teriam gritado, segundo testemunhas que os jornais franceses não identificam claramente, “Allahu Akbar” [“Alá é o Maior”] e se vangloriado de que “vingamos o Profeta”. Mas fugiram de carro, ao invés de se auto-martirizarem, como é comum em atentados cometidos pelo terror islâmico. Além disso, até o fechamento deste texto, nenhum grupo havia assumido o ato.
Fundado em 1992, o atual Charlie Hebdo (que resgata o nome de uma publicação anterior)não é um jornal de extrema-esquerda, ao contrário do que se afirmou no Brasil. Parte de sua equipe esteve presente em revistas humorísticas ligadas à revolta de 1968. Mas seu foco central não são os grandes temas políticos franceses ou mundiais – mas a crítica às instituições religiosas e à ultradireita.
Nos últimos anos, voltou-se especialmente contra o islamismo. Em 2005, reproduziu umasérie de charges publicadas originalmente no jornal dinamarquês Jyllands Posten,consideradas ofensivas ao profeta Maomé. Manteve a mesma postura por anos a fio, o que despertou críticas de analistas importantes do Islã – como Alan Gresh, redator do Le Monde Diplomatique. Num texto publicado em 2012, ele defendeu, obviamente, a liberdade de expressão do Charlie Hebdo, mas criticou sua linha anti-islâmica. Lembrou que, além de discriminados, os muçulmanos sofrem, há anos, restrições às liberdades políticas (em 2014, o governo francês chegaria a proibir manifestação contra o ataque israelense aos palestinos da Faixa de Gaza). Diante deste contexto, Gresh indagava: seria correto, em 1931, em plena ascensão do nazismo, uma publicação alemã de esquerda estampar charges ridicularizando aspectos retrógrados da religião judaica?
A hipótese de que o atentado de hoje seja de autoria de fundamentalistas islâmicos é real. Num sinal da descoesão ocidental, apontada por Wallerstein, o New York Times lembra hoje que, entre os militantes do grupo ultrafundamentalista ISIS, criador de um califado no Iraque, há milhares de europeus (além de norte-americanos, seria justo acrescentar…).
Mas a pergunta clássica – cui profit, a quem beneficia o crime – sugere não ficar apenas nesta hipótese. Quase quinze anos após os atentados de 11 de Setembro, não foram respondidas as teorias segundo as quais a derrubada das Torres Gêmeas não poderia ocorrer sem algum tipo de participação das agências de inteligência dos Estados Unidos, nem as crônicas sobre o estranho comportamento do presidente George W. Bush ao ser informado de sua derrubada.
Mais de 100 mil pessoas saíram às ruas esta noite, em dezenas de cidades francesas, em solidariedade à redação de Charlie Hebdo. O clima foi de óbvia consternação e de defesa das liberdades. Manifestaram-se os que se sentem próximos de um jornal irreverente e sarcástico. Mas e a Europa profunda? Na própria França, as pesquisas colocam em primeiro lugar, na preferência dos eleitores para a próxima eleição à Presidência, Marinne Le Pen, da Frente Nacional, xenófoba e de extrema-direita. Na Alemanha, ressurgem, pela primeira vez depois da II Guerra Mundial, manifestações contra estrangeiros, articuladas por um movimento que se apresenta como contrário à suposta “islamização do Ocidente”. Que efeito terá o atentado de hoje sobre estes sentimentos já em ascensão?
As doze vítimas de hoje merecem tantas homenagens quanto cada um dos mais de 500 mil mortos no Iraque, desde a invasão norte-americana, ou as mais de 2.400 pessoasseletivamente assassinadas pelo governo norte-americano, por meio de drones, só entre 2009 e 2014.
Porém, mais que os mortos, está em questão o futuro do humanidade. Para Wallerstein, é impossível saber, hoje, o que virá após o declínio do capitalismo. É uma disputa que se prolongará por décadas e será definida em “uma infinidade de nano-ações, adotadas por uma infinidade de nano-atores, em uma infinidade de nano-momentos”.
O atentado de hoje chama atenção para os riscos inerentes a este cenário de crise. Mas pode, num sentido oposto, ecoar o apelo à ação feito, na sequência, pelo mesmo sociólogo. Ele diz: “Em algum ponto, a tensão entre as duas soluções alternativas vai pender definitivamente em favor de uma ou outra. É o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer a cada momento, sobre cada assunto imediato, importa”.

Jornal satírico alvo do maior ataque terrorista em França

esquerda
http://www.esquerda.net/artigo/jornal-satirico-alvo-do-maior-ataque-terrorista-em-franca/35365


Jornal satírico alvo do maior ataque terrorista em França

Homens armados com metralhadoras entraram nas instalações do Charlie Hebdo, em Paris, e abriram fogo sobre a redação, deixando doze mortos e quatro feridos em estado crítico. É o mais grave atentado terrorista em França desde 1835.
Imagem de dois dos atiradores disparando contra um carro da polícia antes de se porem em fuga. Foto Elise Barthet/Twitter
O ataque ocorreu esta quarta-feira de manhã e segundo testemunhos divulgados pela imprensa, dois homens encapuçados e armados de metralhadoras entraram no edifício do jornal e abriram fogo à sua passagem. As autoridades confirmaram 12 mortos e quatro feridos em estado crítico na sequência deste ataque. Entre os mortos estão os desenhadores Charb, que dirigia o jornal, Cabu, Wolinski e Tignous. Os atiradores conseguiram fugir, disparando contra a polícia que protegia o local e matando dois agentes.
O presidente francês reagiu ao atentado elevando o alerta antiterrorista na zona de Paris e colocando outros jornais sob proteção policial. "A França está em estado de choque. Trata-se sem dúvida de um atentado terrorista"
O Charlie Hebdo é conhecido pelo seu humor corrosivo que não poupa partidos, instituições ou religiões. Em 2006, na sequência da onda de indignação por causa das caricaturas de Maomé publicadas por um jornal dinamarquês, o Charlie Hebdo decidiu republicá-las em França, o que lhe valeu um processo em tribunal por injúrias, em que acabou absolvido.
Já em 2011, outra caricatura de Maomé voltou a fazer capa  do jornal, a propósito do regresso da charia na Líbia, sobrepondo ao cabeçalho do jornal o nome "Charia Hebdo".  Na mesma madrugada em que o jornal saía para as bancas, um cocktail molotov incendiou a sede do jornal, que se tornou um alvo dos grupos integristas islâmicos.
A capa da edição do Charlie Hebdo no dia do atentado faz referência ao polémico livro "Submissão", de Michel Houellebecq.
Esta semana, a capa do jornal satírico evoca o livro lançado esta quarta-feira e que está a provocar polémica em França. "Submissão", um romance de Michel Houellebecq, conta a história da ascensão de um muçulmano à presidência de França, levando à instauração da poligamia e do uso do véu, com o próprio narrador do romance a a converter-se ao Islão para manter o seu emprego. O livro já lidera a lista de pré-encomendas na Amazon francesa e tem sido defendido e atacado com garra nos meios políticos e culturais, havendo quem o compare a "1984" de Orwell e quem o acuse de servir para abrir caminho à extrema-direita de Marine Le Pen.
(Atualização): Reações de condenação e manifestações de solidariedade
Por todo o mundo surgiram ao longo do dia mensagens de condenação do atentado à redação do Charlie Hebdo. Em Portugal, a condenação foi unânime na primeira sessão plenária da Assembleia da República e o voto proposto pelo Bloco será aprovado na sexta-feira.
Também o Sindicato dos Jornalistas repudiou o atentado e prestou homenagem "presta homenagem à resistência e à coragem dos que, enfrentando riscos tão inesperados como a brutal fuzilaria que esta manhã irrompeu pela redacção do “Charlie”, amam até aos limites a liberdade de expressão".
O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa a comunidade muçulmana em França e é presidido pelo imã da Grande Mesquita de Paris, também repudiou o massacre no Charlie Hebdo, ao afirmar que "este ato bárbaro de extrema gravidade é também um ataque contra a democracia e a liberdade de imprensa".
O imã da mesquita de Lisboa também se pronunciou contra estes "atos bárbaros de crueldade" e afirmou que se os autores forem muçulmanos isso "preocupa-nos ainda mais", uma vez que "utilizam o Islão de forma negativa" e denigrem a "mensagem da tolerância e da paz que ele transmite".
O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa a comunidade muçulmana em França e é presidido pelo imã da Grande Mesquita de Paris, também repudiou o massacre no Charlie Hebdo, ao afirmar que "este ato bárbaro de extrema gravidade é também um ataque contra a democracia e a liberdade de imprensa".
"Num contexto político internacional de tensões alimentado por delírios de grupos terroristas que se aproveitam injustamente do islão, apelamos a todos os que estão associados aos valores da República e da democracia que evitem as provocações que apenas servem para deitar gasolina no fogo", acrescentou o comunicado do CFCM.
Esta quarta-feira ao fim da tarde realizam-se concentrações de solidariedade com as vítimas deste atentado em dezenas de localidades francesas. Os partidos parlamentares da esquerda francesa convocaram para o próximo uma marcha silenciosa em Paris para prestar homenagem aos mortos e feridos do ataque. Entretanto, a empresa detentora do diário Le Monde, a Radio France e a emissora pública de televisão colocaram os seus meios humanos e materiais à disposição do Charlie Hebdopara que possa prosseguir a sua publicação.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Chile: o outro terrorismo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Chile-o-outro-terrorismo/6/31815

Chile: o outro terrorismo

O raciocínio que coloca no mesmo saco o novo governo, a criminalidade, estudantes, mapuches e a desaceleração da economia é terrorismo antigo no Chile.


Oscar Cornejo Rideau
Infolatam
O atentado que aconteceu no metrô é um fato gravíssimo e totalmente condenável. Isso não está em discussão. Entretanto, deste lamentável acontecimento, proliferaram-se outros fatos que são ainda mais inquietantes, diante dos quais é preciso estar em alerta máximo, sobretudo porque eles têm a capacidade de alterar severamente o Estado de Direito e a vida das pessoas. 

Após a explosão, a mídia fez uma cobertura típica de tabloide sensacionalista e apresentou todo tipo de hipótese, conectando gratuitamente casos que não têm qualquer tipo de relação lógica. Por exemplo, os roubos de caixas eletrônicos com avisos de bomba, ou o assalto do carro-forte Brinks no aeroporto, com os pacotes suspeitos encontrados no metrô. 

Em meio deste frenesi conspirativo, que é bastante esperável nesta situação, a tribuna foi oferecida a certas vozes que, com títulos de especialistas, deram declarações francamente inaceitáveis.
 
Para mencionar apenas uma delas, no canal 13, em uma entrevista ao vivo que durou cerca de duas horas, o senhor Jorge Valdés, especialista em segurança, declarou reiteradamente que era urgente que a lei antiterrorista retornasse mais severa. Sugeriu incorporar mecanismos como infiltração de agentes do Estado nas “juntas de vizinhos, sindicatos e nas universidades”, porque, segundo ele, uma grande organização terrorista com “formação no Chile e no exterior” estava por trás de “todas as explosões” e buscava “impor o terror” no país.  A seu ver, era “evidente que estes grupos estavam instruídos pelo grupo Lautaro e por diversas organizações anarquistas”, que agora se sentiam em plena liberdade para atuar. Estas funções, de tão necessárias, deveriam ser implementadas imediatamente, mesmo se a lei não as contemplasse. 

Em tom similar, o ex-chefe nacional da inteligência argumentava que o ministro Hinzpeter fora injustamente criticado por querer impor “mão dura” em meio ao clima de caos que imperava no país, e que foi um profundo erro não aplicar a lei antiterrorista toda vez que fosse necessário, por exemplo, nos atentados da Araucanía.

Tais declarações se somam a outra que afirmavam todo tipo de coisa, como a necessária incorporação de tropas especiais no conflito mapuche, a eliminação de “garantias excessivas” para os encapuzados, até barbaridades ditas por transeuntes entrevistados “ao acaso” que iam desde “levar os militares para as ruas” até o retorno da prisão por suspeita. Todas elas seguidas das repetições de reportagens infelizes sobre grupos anárquicos, algumas com erros tão grosseiros como aquele que afirmava, sem pudores, que dentro das facções mais perigosas dos “terroristas”, estavam os denominados “veganos”.

Em tudo isto, o governo também não ficou para trás, invocando a lei antiterrorista sucessivas vezes, a mesma que havia se comprometido a não usar, e que recebeu severas críticas por parte de organismos internacionais por violar os direitos humanos, a proporcionalidade da pena, a não discriminação racial, entre outros princípios mínimos de justiça. 

Para além dos exemplos, que são muitos, urge que a cidadania esteja extremamente atenta ao possível uso mal-intencionado dos acontecimentos feito por certas pessoas cujos fins políticos e ideológicos não são exatamente os de proteger, mas de propiciar um falso clima de pânico em que se justifique a fragilização das garantias constitucionais e criminalize os movimentos sociais, tirando de cena as demandas de fundo que foram sustentadas pela população. 

A inescrupulosa ligação dos acontecimentos que pretende colocar no mesmo saco o novo governo, a criminalidade, os estudantes, os mapuches e a desaceleração da economia não é uma estratégia nova na política nacional, mas faz parte do comum repertório dos grupos minoritários que veem seus interesses ameaçados pelo empoderamento dos cidadãos. São eles que, apesar de não andarem encapuzados e de usarem armas mais refinadas do que latas de conserva com pólvora, formam as verdadeiras associações terroristas que prejudicam o país. 

A principal recomendação nesta situação é permanecer em constante suspeita, condenando severamente o ataque de inocentes, mas não se deixar enganar pelas armadilhas do discursos de setores ainda mais extremistas que os autores do atentado, pois apenas uma cidadania crítica pode estar realmente a salvo do terrorismo, em qualquer uma das múltiplas formas como ele se apresenta.
___________________

Oscar Cornejo Rideau é estudante de humanidades e ensaísta.
 
A tradução é de Daniella Cambaúva.


Créditos da foto: Infolatam



domingo, 24 de agosto de 2014

wikileaks: EUA armaram terror do “Estado Islâmico”

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http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=18553

wikileaks: EUA armaram terror do “Estado Islâmico”


Um terrorista do ISIS prepara-se para decapitar o jornalista norte-americano Jim Foley, em vídeo divulgado hoje. Casa Branca incentivou, por anos, grupo que agora ataca cidadãos norte-americanos
Um terrorista do ISIS prepara-se para decapitar o jornalista norte-americano Jim Foley, em vídeo divulgado hoje. Casa Branca incentivou, por anos, grupo que agora ataca cidadãos norte-americanos
Documentos vazados revelam: Washington rejeitou proposta síria para combater grupo ultra-fundamentalista. Pretendia usá-lo em favor de seus interesses no Oriente Médio…
Por Charles Nisz, no Opera Mundi
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Os Estados Unidos se recusaram a ajudar o governo da Síria a combater grupos radicais islâmicos como a Al-Qaeda e o ISIS (Exército Islâmico do Iraque e da Síria, que recentemente mudou de nome para Estado Islâmico). Além disso, segundo revelações feitas pelo site Wikileaks, o governo norte-americano armou grupos como o ISIS. Os quase 3 mil documentos sobre essa questão foram vazados pelo site dirigido por Julian Assange em 8 de agosto.

Em 18 de fevereiro de 2010, o chefe da inteligência síria, general Ali Mamlouk, apareceu de surpresa em uma reunião entre diplomatas norte-americanos e Faisal a-Miqad, vice-ministro das relações exteriores da Síria. A visita de Mamlouk foi uma decisão pessoal de Bashar al-Assad, presidente sírio, em mostrar empenho no combate ao terrorismo e aos grupos radicais islâmicos no Oriente Médio, assinala o documento.

Neste encontro com Daniel Benjamin, coordenador das ações de contra-terrorismo dos EUA, “o general Mamlouk enfatizou a ligação entre a melhoria das relações EUA-Síria e a cooperação nas áreas de inteligência e segurança”, afirmam os diplomatas norte-americanos em telegrama destinado à CIA, ao Departamento de Estado e às embaixadas dos EUA em Líbano, Jordânia, Arábia Saudita e Inglaterra.

Para Miqad e Mamlouk, essa estratégia passava por três pontos: com o apoio dos EUA, a Síria deveria ter maior papel na região, a política seria um aspecto fundamental para ações de cooperação contra o terrorismo e a população síria deveria ser convencida dessa estratégia com a suspensão dos embargos econômicos contra o país. Para Imad Mustapha, embaixador sírio em Washington, “os EUA deveriam retirar a Síria da lista negra”. Desde o tempo de George W. Bush, o país fazia, para os EUA, parte do “eixo do mal”, junto com Coreia do Norte e Afeganistão.
Apesar da discordância entre EUA e Síria quanto ao apoio de Assad a grupos como Hezbollah e Hamas, os dois países concordavam quanto à necessidade de interromper o fluxo de guerrilheiros estrangeiros para o Iraque e impedir a proliferação de grupos radicais, como a Al-Qaeda, o ISIS e o Junjalat, uma facção palestina com a mesma orientação política. Para Benjamin, as armas chegavam ao Iraque e ao Líbano contrabandeadas pelo território sírio.
Mamlouk reforçou a “experiência síria em combater grupos terorristas”. “Nós não ficamos na teoria, tomamos atitudes práticas”, foram as palavras do chefe de inteligência de Assad. Segundo o general, o governo sírio não mata ou ataca imediatamente esses grupos. “Primeiro, nós nos infiltramos nessas organizações e entendemos o funcionamento delas”. De acordo com Damasco, “essa complexa estratégia impediu centenas de terroristas de entrarem no Iraque”.
Guerra do Iraque e surgimento do Estado Islâmico
No entanto, apesar de afirmarem cooperar com a Síria para combater o terrorismo, os EUA também trabalharam para armar os opositores sírios e isso causaria um problema maior na região: a criação do atual Estado Islâmico. Segundo documentos obtidos pelo jornal britânico Guardian, grande parte do armamento utilizado pelo ISIS (antigo nome do Estado Islâmico) veio de grupos armados pelos EUA e cooptados por Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Califado Islâmico, que hoje controla territórios na Síria e no Iraque.
Saddam al-Jammal, líder do Exército de Libertação da Síria, outro grupo anti-Assad, também jurou lealdade ao Estado Islâmico desde novembro de 2013. Para garantir tal apoio, o ISIS mudou a sua estratégia de controle: dava autonomia a essas autoridades locais em vez de controlar diretamente a governança das cidades. Como resultado, o ISIS se expandiu e conseguiu lutar em cinco frentes: contra o governo e os opositores sírios, contra o governo iraquiano, contra o Exército libanês e milícias curdas.
O armamento começou a ser enviado para os opositores sírios em setembro de 2013. Na época, analistas davam o ISIS como terminado e a alegação para fortalecer esses grupos era a de que o governo Assad havia usado armas químicas. Para enviar as armas, o governo Obama usou bases clandestinas na Jordânia e na Turquia. Aliados dos EUA na região, como Arábia Saudita e Catar, também forneceram ajuda financeira e militar.
Ironicamente, os EUA sabem inclusive a real identidade do líder do Califado. Durante um ataque à cidade iraquiana de Falluja em 2004, os norte-americanos prenderam alguns dos militantes pelos quais procuravam. Entre eles, estava um homem de trinta e poucos anos e pouco importante na organização: Ibrahim Awad Ibrahim al-Badry. 10 anos depois, ele se tornaria líder da mais radical insurgência islâmica contra o Ocidente, segundo informações de um oficial do Pentágono.

terça-feira, 18 de março de 2014

Carro da PM arrasta mulher por 250 metros no Rio de Janeiro

pragmatismo
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/03/carro-da-pm-arrasta-mulher-por-250-metros-rio-de-janeiro.html



Carro da PM arrasta mulher por 250 metros no Rio de Janeiro

Barbárie. Viatura da PM arrasta mulher pelas ruas do Rio de Janeiro. Testemunhas ficam estarrecidas com o episódio. “Acham que quem mora na comunidade é bandido. Tratam a gente como se fôssemos uma carne descartável. Esses policiais precisam responder pelo que fizeram”

Eram cerca de 9h desse domingo, quando uma viatura do 9º BPM (Rocha Miranda) descia a Estrada Intendente Magalhães, no sentido Marechal Hermes, na Zona Norte do Rio, com o porta-malas aberto. Depois de rolar lá de dentro e ficar pendurado no para-choque do veículo apenas por um pedaço de roupa, o corpo de uma mulher foi arrastado por cerca de 250 metros, batendo contra o asfalto conforme o veículo fazia ultrapassagens (assista ao vídeo no fim desta postagem / imagens fortes).
Apesar de alertados por pedestres e motoristas, os PMs não pararam. Um cinegrafista amador que passava pelo local registrou a cena num vídeo.
A mulher arrastada era Claudia Silva Ferreira, de 38 anos, baleada durante uma troca de tiros entre policiais do 9º BPM e traficantes do Morro da Congonha, em Madureira. Em depoimento à Polícia Civil, os PMs disseram que a mulher foi socorrida por eles ainda com vida, e levada para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, mas não resistiu. Já a secretaria Estadual de Saúde informou que a paciente já chegou à unidade morta. Ela levou um iro no pescoço e outro nas costas.
- Foi revoltante ver aquele corpo pendurado. Eles iam ultrapassando outros carros, e o corpo ia batendo. As pessoas na rua gritavam, tentando avisar os policiais, mas eles não ouviam. Só pararam por causa do sinal e, aí, conseguiram ouvir o que as pessoas diziam. Dois policiais, então, desceram da viatura e puseram o corpo de volta no carro – disse o cinegrafista.
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Viatura da PM arrastou Cláudia por 250 metros (Reprodução / Vídeo)

Trajeto de 250 metros

A cena começou a ser registrada próximo ao número 796 da Estrada Intendente de Magalhães, na altura da Rua Boiacá, e foi filmada aproximadamente até o 878, onde fica uma agência da Caixa Econômica Federal. A irmã de Claudia, Jussara Silva Ferreira, de 39 anos, ficou chocada quando viu a imagem do corpo da irmã sendo arrastado. Revoltada, ela quer que os policiais sejam punidos:
- Acham que quem mora na comunidade é bandido. Tratam a gente como se fôssemos uma carne descartável. Isso não vai ficar impune. Esses PMs precisam responder pelo que fizeram.
Antes mesmo de saberem o que havia acontecido com Claudia, familiares tinham desconfiado de que algo pudesse ter ocorrido, já que viram o corpo dela em carne viva ao chegarem no hospital.
- Achamos estranho quando vimos o corpo daquele jeito. Desconfiamos de que tinha acontecido no trajeto até o hospital – relatou Diego Gomes, de 30 anos, primo de Claudia.
Thaís Silva, de 18, filha da vítima e a primeira a encontrá-la morta, já tinha reclamado até mesmo da forma com que os policiais do 9º BPM a socorreram:
- Eles arrastaram minha mãe como se fosse um saco e a jogaram para dentro do camburão como um animal – revoltou-se a jovem.

Vítima faria 20 anos de casada

Mãe de quatro filhos, Claudia, conhecida no Morro da Congonha como Cacau, era auxiliar de serviços gerais do Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins. Nascida e criada em Madureira, ela ainda cuidava de quatro sobrinhos. A vítima faria 20 anos de casada com o vigia Alexandre Fernandes da Silva, de 41 anos, em setembro deste ano.
Assista ao vídeo gravado por um cinegrafista amador e reproduzido por jornais do Rio de Janeiro:
Jornal Extra

sexta-feira, 14 de março de 2014

Terrorismo oficial

boitempo
http://blogdaboitempo.com.br/2014/02/24/terrorismo-oficial/

Terrorismo oficial

“Repressão policial / Instrumento do capital / Repressão Policial / Terrorismo Oficial” (Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos)
Protesto do dia 22 de fevereiro de 2014 em São Paulo: mil manifestantes, mil policiais! (segundo versão da própria polícia). Eis os personagens e o cenário.
PRIMEIRA CENA
A manifestação seguia pacífica pelas ruas da “cidade nova”, ou seja, as ruas de traçado regular das imediações da Praça da República. Num átimo, os policiais cercaram a vanguarda da passeata. Isolaram, espancaram e prenderam 230 pessoas. Depois da correria provocada pela polícia outros manifestantes indignados quebraram vidraças de bancos da região.
Significa que a PM prendeu quase um quarto dos manifestantes! Literalmente, ao arrepio da lei, a PM simplesmente proibiu a manifestação, um direito constitucional. Mas há direitos na nossa democracia racionada? Só para alguns.
SEGUNDA CENA
Um jovem grita a um PM: “Tira a farda e vem na mão”! Afinal, o que espanta na PM não é sua truculência já que ela foi criada pela Ditadura Militar; nem as ilegalidades cometidas, já que ela foi criada pela Ditadura Militar; e nem o prazer em torturar, humilhar, chutar uma menina de 18 anos no chão etc etc, já que ela foi criada pela Ditadura Militar. O que espanta é a covardia! Bem, ela foi criada pela Ditadura Militar… 
CENA DERRADEIRA
Delegacia de polícia no bairro da Liberdade, ou seja, na “cidade velha”, cheia de ruas tortuosas e rotas de fuga. Na porta, alguns PMs conversam, animadamente. Um conta como deu uma “gravata” num estudante. Já dentro da delegacia jovens sentados no chão. Dois deles são menores. Mas também estão ali. Eles estão imobilizados debaixo de uma escada. Uma delegada grita descontrolada. Só se “acalma” depois da chegada dos poucos e solidários advogados ativistas e, especialmente quando o único deputado com coragem de defender manifestantes aparece por ali: Adriano Diogo (PT-SP). Ele é da comissão da verdade, criada por causa da Ditadura militar…
PRÓXIMO ROTEIRO, SINOPSE
A PM acredita que convocando os “líderes” de uma manifestação anterior exatamente na hora do protesto e aumentando o número de presos, as manifestações vão parar. Ledo engano. Esta foi a tática empregada na Ditadura Militar, quando as manifestações foram proibidas e a luta armada posterior massacrada.
Mas ao contrário do que diz o terrorismo parlamentar e midiático não há luta armada no Brasil. Os manifestantes, mesmo os chamados black blocs não usam violência. São resultado dela. Qualquer pessoa “suburbana” sabe a diferença entre estilingues, chutes em vidraças e um tiro de verdade. Todo mundo sabe que os “mascarados” presos no Rio de Janeiro só o foram porque não estavam… mascarados.
A diferença agora é que a composição de classes do país mudou, a exigência de violação de direitos necessária para extrair energia e matérias primas do Brasil aumentou e a resistência inesperadamente também. Dessa vez, não bastará atacar coletivos de jovens organizados.
Na periferia “desorganizada” as pessoas também se levantam. O desespero da PM está apenas mal direcionado. O que ela não suporta não é a perda de prestígio. Isso ela nunca teve. O que a corporação militar não suporta é que doravante nenhum policial matará impunemente sem que haja um levante ateando fogo em tudo.
Mais de uma geração de pessoas pobres no Brasil cresceu com medo e ódio da polícia. Agora estão perdendo o medo. Sobra o ódio. 
O CORO DO TERROR
No teatro da política vozes mal ensaiadas são ouvidas. Unem-se num mesmo coro parlamentar os deputados de governo e oposição. Todos unânimes contra o “terror”. É que para eles um cassetete nas costas de um ser humano dói infinitamente menos do que o ruído de uma vidraça estilhaçada.
Se os nossos doutos parlamentares advogados da lei contra o terrorismo temem uma escalada de violência verdadeira, façam o que sempre fizeram. Imitem os países “desenvolvidos”. Eliminem a PM, pois ela não existe em nenhum lugar para onde eles costumam viajar em férias.
Diante do impasse de nossa democracia racionada o governo deveria dar um passo adiante, aumentar os direitos e não restringi-los. A Revolução Brasileira, entendida apenas como o conjunto de reformas profundas que os jovens exigem na atualidade, pode ser canalizada para um Estado de Bem Estar real. A isso Florestan Fernandes chamava “revolução dentro da Ordem”, embora nosso velho mestre preferisse a Revolução Contra a Ordem. Aquela que vai até o fim e até o fundo em suas tarefas históricas e engendra o socialismo.
UM AFORISMO
Na manifestação conta-se que um policial machucou o braço. Se o cérebro não age, o braço quebra (de tanto bater).
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Leia também O direito à violência e A Lei é o crime na coluna de Lincoln Seccono Blog da Boitempo!
Chega às livrarias este mês a coletâneaIntérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada porLincoln Secco e Luiz Bernardo Pericás! 27 ensaios sobre Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Milton Santos, Astrojildo Pereira, Câmara Cascudo, Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini, Maurício Tragtenberg, entre outros pensadores críticos do Brasil.
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Cidades rebeldes capa Final.indd
Disponível em ebook por R$5,00 nas livrarias
Amazon, Travessa, Saraiva e Google Play, entre outras!
Livro impresso por R$10,00 nas livrarias
Saraiva, Travessa e Cultura, entre outras!
Lincoln Secco é um dos autores do livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com o qual colabora com o texto “As Jornadas de Junho”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nesses megaprotestos, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa. O livro também conta com um ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e ilustrações sobre as manifestações de Laerte, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Fido Nesti, Bruno D’Angelo, João Montanaro e Pirikart, entre outros.
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Cidades Rebeldes_JornadasLeia também A guerra civil na frança e Anatomia do Movimento Passe Livre de Lincoln Secco. Confira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Dênis de Moraes e Edson Teles, entre outros! 
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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditosIntérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, que será lançada no segundo semestre de 2013. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.