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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Globalização e desigualdades

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Globalizacao-e-desigualdades/7/35360

Globalização e desigualdades

Uma sociedade democrática deve efetivamente se preocupar com o destino dos indivíduos mais fragilizados.


Rodrigo Medeiros
Jacarta. Foto: Wikipedia
A mais recente divulgação internacional de números que demonstram uma escandalosa escala de concentração de renda e riqueza nas mãos de poucas pessoas merece maiores considerações entre nós. Desde a grande repercussão global da publicação do trabalho de Thomas Piketty, em 2013, o debate sobre as desigualdades socioeconômicas disfuncionais entrou em outro patamar. Paul Krugman, por sua vez, sugeriu bem antes que “qualquer ideologia cuja principal prescrição consista em reduzir os tributos incidentes para os ricos provavelmente desfrutará de sobrevida prolongada” (em “Globalização e globobagens”. Campus, 1999). Vejamos então alguns poucos aspectos gerais dessa discussão.
 
A fórmula que busca resumir as instigantes reflexões de Piketty é a seguinte: r > g (r é o retorno médio do capital; g é o crescimento da economia). Quando essa diferença é grande por muito tempo, as desigualdades podem ser consideradas como disfuncionais do ponto de vista social. Como os mais ricos têm uma maior propensão a poupar, já se mostrou algo muito comum “a retirada” de recursos financeiros da economia produtiva para o exercício da preferência pela liquidez por uma parcela minoritária da sociedade. Um excesso de poupança (“savings glut”) da parte de poucos indivíduos, quando a concentração da renda é bastante elevada, pode jogar a economia em uma recessão prolongada. Até pesquisadores do Fundo Monetário Internacional, Jonathan D. Ostry e Andrew Berg (em “iMFdirect”, 26/02/2014), por exemplo, apontaram para o fato de que desigualdades excessivas podem minar o crescimento em um país.
 
Uma matéria sobre a grave crise na Eurolândia publicada no “Valor Econômico” (22/12/2015), assinada por James Politi, merece consideração. Conforme consta no texto, “o premiê da Itália, Matteo Renzi, advertiu que as políticas de austeridade da zona do euro impulsionadas pela Alemanha estão alimentando o populismo. Segundo ele, isso levará à paralisia política e a reveses eleitorais em toda a União Europeia (UE) para os governos atualmente no poder”. Renzi afirmou ainda que “a Europa tem de atender a todos os 28 países, e não a apenas um". Para o italiano, é possível derrotar a perspectiva do populismo com crescimento e empregos, ou seja, apostando em uma nova Europa social.
 
Antes de se pensar em traçar o rápido paralelo com as disputas políticas no Brasil, é importante avaliar a lógica da ascensão global da direita conservadora nos últimos 35 anos. Em “Vendendo prosperidade” (Campus, 1997), Krugman propõe algumas reflexões sobre o ciclo conservador. Segundo Krugman, “os supply-siders ficam furiosos com o que consideram como a afirmação simplista de que a Reaganomania significou cortes de impostos para os ricos, aumentos de impostos para a classe média e castigo para os pobres”. Ainda de acordo com Krugman, o “The Wall Street Journal” passou grande parte da década de 1980 em campanha pelo retorno do padrão ouro. O projeto hegemônico do euro criticado atualmente pelo primeiro-ministro italiano reproduz a rigidez do padrão ouro, chamado de “relíquia bárbara” por Keynes (1883-1946). Para ele, em 1923, o padrão ouro sacrificava o pleno emprego e a estabilidade de preços em prol da estabilidade da taxa de câmbio.


 
O Brasil, que possui uma carga tributária regressiva e, portanto, muito injusta do ponto de vista social, veio concedendo desde a sua redemocratização vários benefícios fiscais para o capital que não são transparentes. Pessoas físicas também se beneficiaram de desonerações fiscais entre nós. Em artigo na “Folha de S.Paulo” (31/12/2015), Marcos Villas-Bôas expõe uma jabuticaba brasileira. Segundo o pesquisador, “os melhores trabalhos de política tributária do mundo nem falam em isentar os dividendos. O Reino Unido, a França, os nórdicos, a Austrália e outros países nem discutem isentar os dividendos. Procura-se a melhor forma de tributá-los, ainda que signifique aplicar uma alíquota baixa ou dar um crédito correspondente ao imposto pago na pessoa jurídica”. Para Villas-Bôas, a isenção fiscal de dividendos das pessoas físicas gera graves distorções em uma sociedade – “fraudes” para reduzir os gastos trabalhistas dos empregadores, menor carga de imposto para quem tem mais renda e aumento de outros tributos para compensar a perda de arrecadação. As argumentações dos economistas do lado da oferta (supply-side) não são neutras.
 
O artigo de Villas-Bôas aponta que os estudos que adotaram como base a redução da tributação dos dividendos em 2003 nos EUA revelaram uma baixa influência nos investimentos. Um dos seus efeitos foi a elevação dos preços das ações. Como muitas firmas investem através de lucros retidos, com uma maior distribuição dos dividendos ocorreu uma menor retenção na empresa. Portanto, o excedente não foi utilizado para elevar o investimento produtivo e o bem-estar na sociedade. Para o caso brasileiro, onde estaria mesmo a prova de que isentar dividendos foi algo positivo? Os números do IBGE citados por Villas-Bôas mostram que a taxa de investimento foi de 20,5% do PIB em 1995, passando posteriormente para 18,6% em 1996, 19,1% em 1997, 18,5% em 1998 e 17% em 1999. Segundo estimativas que variam de acordo com a aplicação da alíquota, a tributação sobre dividendos poderia contribuir com aproximadamente R$ 50 bilhões no presente para o ajuste fiscal. Conforme ponderou Piketty, o Brasil “deveria investir em uma reforma tributária, já que seu sistema de taxação não é progressivo o bastante de acordo com padrões internacionais. Enquanto a classe média fica sobrecarregada com impostos, as taxas sobre os ricos são muito baixas. E isso tudo é importante para aumentar a velocidade do crescimento do PIB no futuro” (“O Globo”, 27/11/2014).  
 
O Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), por sua vez, afirma que a sonegação fiscal anual é da ordem de 10% do PIB no Brasil (“Valor Econômico”, 18/11/2015). Segundo avaliou o seu presidente, Achilles, Frias, “é o grande sonegador que mais afeta e economia e que provavelmente também figura na lista dos devedores contumazes. É comum que o sonegador de grande porte esteja de alguma forma ligado à evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção". Afinal, qual seria a real utilidade ou o sentido prático dos paraísos fiscais no mundo?
 
Em um contexto brasileiro de ajustes contracionistas, o “Boletim Macro” (Ibre/FGV, nov./2015) indica que “o resultado nominal acumulado de janeiro a setembro foi deficitário em 9,7% do PIB, dos quais 9,51% do PIB correspondem à conta de juros nominais e apenas 0,2% ao déficit primário". O choque inflacionário em 2015 não foi de demanda. A economia brasileira demanda ajustes, reformas institucionais progressistas e alguns “choques de gestões”. Com uma carga tributária bem regressiva e elevada sonegação fiscal, os mais pobres estão pagando uma amarga conta (a desvalorização cambial e os repasses inflacionários, o desemprego e os reajustes nos preços administrados). Os ajustes poderiam ser progressivos, redistribuindo, por exemplo, o peso da carga tributária para aliviar os mais pobres e ainda buscando promover novas políticas públicas capazes de articular o desenvolvimento de pequenas e médias empresas de base tecnológica.
 
Em “O destino vem do berço?” (Papirus, 2014), de Camille Peugny, há três lições básicas que podem ser extraídas para as mais diversas sociedades. A primeira lição diz respeito ao fato de que é insuficiente melhorar a escolarização para avançar na igualdade de oportunidades. O segundo ensinamento aponta para a necessidade de investimentos públicos nos primeiros anos de escolarização, aliviando o peso da origem social. Por último, a terceira lição versa sobre o papel das políticas públicas. Indo um pouco além dos aspectos quantitativos da reprodução (e intensificação) das desigualdades, os resultados das políticas acabam dependendo da coesão social em um país. Em um contexto de mérito desigual, que vem do acaso do nascimento, há muitas desvantagens para as classes populares. Peugny sinaliza para a necessidade de se buscar multiplicar, através de políticas públicas progressistas, os momentos de igualdade ao longo da vida dos indivíduos. Uma sociedade democrática deve efetivamente se preocupar com o destino dos indivíduos mais fragilizados, pois o determinismo do nascimento conspira para derrubar a confiança social nas instituições.
 
 
Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Comissão Pastoral da Terra: Dilma foi quem mais apoiou agronegócio e menos assentou famílias

amazoia
http://amazonia.org.br/2015/01/cpt-considera-reforma-agr%C3%A1ria-do-governo-dilma-a-pior-dos-%C3%BAltimos-20-anos/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+8+de+janeiro+de+2015

Comissão Pastoral da Terra: Dilma foi quem mais apoiou agronegócio e menos assentou famílias

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) publicou nesta quarta-feira (7) um balanço relacionando os primeiros anos de mandato da presidenta Dilma Rousseff à situação da reforma agrária no Brasil. Segundo o estudo (confira a íntegra aqui), divulgado pela secretaria nacional da comissão, a petista “foi a presidenta que menos desapropriou terras e assentou famílias para a reforma agrária; menos demarcou os territórios indígenas, quilombolas e de diversas populações tradicionais; menos criou reservas extrativistas”.
“Em contrapartida”, continua o balanço, sob responsabilidade da seccional Regional Nordeste II da CPT, “foi a [presidente] que mais apoiou o agronegócio e os grandes empreendimentos capitalistas”. “Ao que parece, os sinais do tempo indicam que a mudança não vem do Planalto, vem das planícies”, registra a comissão, em referência à sede da Presidência da República. “A presidenta será lembrada também por ser a que menos criou áreas protegidas na história do Brasil. Foram criadas, no final de 2014, apenas nove unidades de conservação.”
Com proximidade histórica em relação ao PT e a trabalhadores rurais, a CPT lembra que, à época da posse de Dilma em 2011, aventou-se a “esperança” de que a reforma agrária e as demarcações de terra de comunidades tradicionais “voltariam para a pauta do governo federal”. Tal compromisso, registra a comissão, foi assumido pela gestão Dilma, mas não só teria sido descumprido como “acentuou o processo posto em marcha pelo presidente Lula”.
“A política econômica da nova presidenta seguiu investindo forte, e quase exclusivamente, no agronegócio, nas mineradoras, em grandes projetos de desenvolvimento e de expansão do capital. Do outro lado, milhares de camponeses, populações tradicionais e a mãe Terra, com uma incansável resistência, continuaram denunciando as contradições e a inviabilidade do modelo de desenvolvimento que os esmagava”, diz o texto introdutório sobre o balanço.
Contestação
O elenco de críticas da CPT à gestão Dilma vai desde a concentração de terras entre produtores rurais, passando pelo uso de transgênicos, até a violência no campo e ocorrências de trabalho escravo. O estudo contesta números oficiais de assentamentos: segundo institutos governamentais, foram assentadas 103.746 mil famílias entre 2011 e 2014. Informação passível de ressalva, reclama a CPT: desse total, 73% se referem a “famílias ligadas a processos anteriores ao mandato da presidenta Dilma”.
“Se levarmos em consideração as ações originárias em seu próprio governo, esse número cai para 28.313 mil famílias. Para piorar ainda mais o quadro, todas essas famílias não estão ligadas necessariamente a criação de novos assentamentos, mas também a casos de regularização junto ao Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]. Como apontam os dados, 43,1% da área total obtida nesses quatro anos referem-se a reconhecimentos de áreas antigas, já ocupadas por essas famílias, em vários estados do país”, contesta o balanço, afirmando ainda que Dilma assentou “apenas 6.289 mil famílias” no último ano de seu primeiro mandato – número “obsceno”, diz a CPT.
Cálculos preliminares da CPT, compilados por meio de sua campanha “De olho aberto para não virar escravo”, revelaram que 1.550 pessoas foram “libertadas de condição análoga à de escravo” em 2014. O valor é quase a metade da média dos quatro anos anteriores, quando 2.632 trabalhadores foram ficaram livres daquela condição, anualmente.
Poder fundiário
A comissão diz que o poder privado, por meio de latifundiários, grandes empresas, mineradoras e hidrelétricas, entre outros agentes, foram os principais responsáveis por conflitos agrários. Segundo dados próprios, a CPT diz que houve aumento de áreas deflagradas e de violência contra trabalhadores rurais e pequenos proprietários: exatamente como foi registrado em 2013, o ano passado teve 34 assassinatos no campo.
“Financiado intensamente por recursos públicos, o agronegócio se consolidou como o modelo para a agricultura, enquanto a Reforma Agrária e a agricultura camponesa deixaram de ser estratégicas para o projeto de sociedade defendido pelo PT no exercício do poder central”, diz outro ponto do texto.
Por: Fábio Góis
Fonte: Congresso em Foco

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Novos compromissos mundiais contra a fome e a desnutrição

vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/254661-9


Novos compromissos mundiais contra a fome e a desnutrição

Mais de 2.200 representantes de 170 países, reunidos na Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição (CIN2), aprovaram recentemente importantes instrumentos encaminhados a erradicar problemas como a fome e a obesidade.


Reprodução
  
Durante a conferência, realizada de 19 a 21 de novembro na capital italiana, os delegados assumiram o compromisso de tomar medidas concretas para reverter a incidência de flagelos que, 22 anos após a primeira cimeira sobre o tema, continuam afetando grande parte da população mundial.

“Chegou o momento de atuar com decisão para assumir o desafio da Fome Zero e garantir nutrição adequada para todos”, expressou o diretor geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), José Graziano da Silva.

Segundo afirmou o representante do organismo internacional, a reunião de Roma destacou o início de um renovado esforço e será reconhecida por ter convertido a nutrição em um tema público.

A sua vez, Oleg Chestnov, subdiretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), ressaltou que a CIN2 foi o primeiro evento desse tipo dedicado a abordar a desnutrição em todas as suas formas, da fome até a obesidade, com compromissos políticos qualificados como metas pelo alto funcionário.

Por meio dessas palavras, os representantes das duas entidades encarregadas de organizar a conferência reconheceram os avanços alcançados nos três dias de sessões, em momentos nos quais o acesso aos alimentos e à saúde nutricional permanecem como prioridades globais.

Fome, desnutrição e obesidade

Cerca de 805 milhões de pessoas vivem hoje em condições de fome crônica no mundo, pois os progressos registrados durante os últimos anos são modestos e desiguais, reconheceram os convocados à conferência.

De acordo com vários oradores, existe profunda preocupação pelo fato de que apesar dos significativos êxitos alcançados por muitos países na erradicação da fome, de 2012 a 2014 o número de atingidos por esse mal continuava em níveis elevados.

Ao mesmo tempo, a desnutrição constitui a primeira causa de morte entre crianças menores de cinco anos, pois durante 2013 provocou 45% das mortes registradas nessa faixa etária, e a desnutrição crônica golpeou 161 milhões de crianças e a aguda outros 51 milhões.

Centenas de ministros e integrantes da sociedade civil e da comunidade empresarial, entre outros delegados, indicaram que no ano passado se registraram 42 milhões de menores afetados pelo sobrepeso, enquanto em 2010, mais de 500 milhões de adultos tinham obesidade.

Os participantes à CIN2, que teve convidados como o papa Francisco, a rainha Letizia da Espanha e o rei Letsie III de Lesotho, também reconheceram que, embora os riscos alimentares incidam em todos os grupos socioeconômicos, existem fortes desigualdades, tanto entre países como dentro de uma mesma nação.

“Reconhecemos que as situações bélicas e pós-bélicas, as emergências humanitárias, as crises prolongadas, incluídas as secas, inundações, desertificação e pandemias, comprometem a segurança alimentar e a nutrição, manifestaram.

Destacaram também a necessidade de fazer frente aos efeitos da mudança climática e outros fatores ambientais que incidem na quantidade, qualidade e diversidade dos alimentos produzidos.

“Somos conscientes de que a desnutrição afeta o bem-estar das pessoas ao repercutir negativamente em seu desenvolvimento físico e cognitivo, comprometer o sistema imunológico, aumentar a suscetibilidade a doenças, limitar a realização do potencial humano e reduzir a produtividade”, acrescentaram.

Medidas concretas

Para vencer os riscos que supõem todos esses fatores e levar a cabo estratégias sólidas que revertam os índices negativos, os Estados participantes aprovaram a Declaração de Roma.

Com esse instrumento os governos se comprometeram a prevenir a desnutrição em todas suas formas, incluindo a fome, as carências de micronutrientes e a obesidade, bem como a aumentar os investimentos para melhorar a produção de alimentos e a distribuição equitativa.

O texto esteve acompanhado por um Marco de Ação, no qual se recomendaram 60 iniciativas que as autoridades podem incorporar em seus planos nacionais de saúde, agricultura, educação, desenvolvimento e investimento.

Além disso, foram propostas metas como reduzir em 40% o índice de menores de cinco anos que sofrem atraso no crescimento, em 50% o de mulheres em idade reprodutiva que sofrem anemia e em 30% o dos bebês com baixo peso ao nascer.

Outros objetivos que se fixaram incluem aumentar em 50% os índices de aleitamento materno nos primeiros seis meses de vida, e diminuir em 30% o consumo de sal, açúcares, gorduras animais e as chamadas trans. Tanto a declaração como o marco comprometeram os líderes mundiais a estabelecer políticas destinadas a erradicar a desnutrição e a transformar os sistemas alimentares com vistas a que as dietas adequadas estejam disponíveis para todos.

Como essas metas precisam de um financiamento adequado, a FAO criou um fundo fiduciário para apoiar projetos e programas dirigidos a promover sistemas sustentáveis e um comércio que melhore a nutrição, aumente a informação nutricional e eleve a segurança alimentar.

A fim de assegurar a prestação de contas após a CIN2, o fundo ajudará também aos países a criar mecanismos sólidos para o acompanhamento de seus compromissos na área.

Temos adiante a década da nutrição, apontou o diretor geral da FAO no encerramento do evento, e enfatizou que esse tema ocupará um lugar destacado na agenda de desenvolvimento pós-2015 da ONU.

Fonte: Prensa Latina

sábado, 6 de dezembro de 2014

A mais linda animação sobre dar de comer a quem tem fome

contioutra

http://www.contioutra.com/mais-linda-animacao-sobre-dar-de-comer-quem-tem-fome/


A mais linda animação sobre dar de comer a quem tem fome

2402
“Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra: essa arma chama-se fome.”
Mia Couto - Conferência de Estoril 
Baseada em uma história ancestral sobre a fome e partilha, este vídeo de animação faz parte da campanha da Caritas “One Human Family, Food for All” e teve a direção de arte de EALLIN.
A “alegoria das colheres longas” nos ensina que quando lutamos para alimentar apenas a nós mesmos, todo mundo passa fome. Mas quando nos concentramos na fome do nosso vizinho, descobrimos que há maneiras de alimentar a todos.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Fome: o ingênuo otimismo da ONU

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=82748

Fome: o ingênuo otimismo da ONU

Adital
Por Juliana Dias*
A indiferença glacial a respeito da fome no mundo contrasta com os dados do sociólogo Jean Ziegler, que considera a destruição anual de dezenas de milhões de homens, mulheres e crianças pela falta de comida como o escândalo do nosso século. No seu estado atual, a agricultura mundial poderia alimentar, sem problemas, 12 bilhões de pessoas, quase duas vezes a população mundial. No entanto, a cada cinco segundos, morre uma criança de menos de dez anos, num planeta que transborda riquezas. Os neurônios do cérebro humano formam-se entre zero e cinco anos. Se nesse período não receber uma alimentação adequada, suficiente e regular, a criança ficará lesionada pelo resto da vida.
Aos 80 anos, Ziegler é o pensador suíço contemporâneo mais conhecido no mundo. Com mais de 20 livros publicados, combina sua produção intelectual com uma resistente intervenção social e política. Atuou como o primeiro relator Especial sobre o Direito Humano à Alimentação e membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas (ONU), entre 2000 e 2012. Seu último livro, Destruição em massa – geopolítica da fome (Ed. Cortez) é dedicado ao médico brasileiro Josué de Castro, um dos fundadores da agência da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), reconhecido internacionalmente por seu pioneirismo em denunciar o flagelo da fome.
A reflexão de Ziegler sobre as causas da escassez de alimentos é pertinente para avaliar o recém-lançado Relatório de Insegurança Alimentar no Mundo (SOFI, sigla em inglês), divulgado pela FAO. De acordo com o documento, na última década a redução de famintos chegou a 100 milhões. O número de pessoas "cronicamente desnutridas” chega a 805 milhões no período de 2012 a 2014. Nos países em desenvolvimento, a desnutrição caiu de 23,4% para 13,5%. O Brasil foi o destaque do relatório, apontado como o país que, oficialmente, superou o problema da fome.
Dados do referido relatório indicam que existem 3,7 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, o que corresponde a 1,7% da população brasileira. O programa Bolsa Família, que atende 14 milhões de famílias e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), destinado diariamente a 43 milhões de estudantes da Educação Básica, são apontados como fatores relevantes para essa superação, cumprindo o primeiro ponto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), previsto para 2016: eliminar a fome.
O otimismo do relatório, tanto em nível global, como na América Latina e Caribe, esbarra com as declarações de Ziegler, embasadas na experiência de mais de uma década na linha de frente da defesa do Direito Humano à Alimentação. Ao destrinchar as causas da fome, ele aponta os "senhores dos trustes agroalimentares”, os dirigentes da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI), dos diplomatas ocidentais, dos especuladores de alimentos básicos; e dos que chama de "abutres do ouro verde” (produtores de agrocarburantes, ou combustíveis de base vegetal) como os que se empenham em naturalizar a fome.
Ziegler começa sua exposição explicando como os dados da FAO são coletados. O modelo matemático data de 1971 e é de extrema complexidade, a qual o autor se propõe a simplificar. O primeiro passo é fazer um recenseamento da produção de bens alimentares, exportação e importação, especificando o conteúdo calórico. A Índia, por exemplo, abriga a metade de todas as pessoas grave e permanentemente subalimentadas do mundo, mas exporta cerca de 17 milhões de toneladas de trigo[1].
Assim, a FAO obtém a quantidade de calorias disponível em cada país, de acordo com as variáveis: faixa etária, sexo, tipo de trabalho executado e situação socioprofissional. Na segunda etapa os estatísticos estabelecem a estrutura demográfica e sociológica da população. Ao correlacionar os dois agregados de indicadores, obtêm-se os déficits calóricos globais dos países e é fixada a quantidade teórica de pessoas permanentemente e gravemente subalimentadas. A crítica de Ziegler é que os dados não dizem nada a respeito da distribuição de calorias no interior de uma população determinada.
O modelo da FAO é afinado constantemente com pesquisas dirigidas à base de amostragem, com o objetivo de identificar grupos particularmente vulneráveis. Esse modelo é criticado pelos pesquisadores Bernard Maire e Francis Delpeuch por calcular calorias em termos de macronutrientes (proteínas, glicídios e lipídeos), sem levar em conta as deficiências da população em termos de micronutrientes – a carência de vitaminas, minerais e oligoelementos.
A confiabilidade dos dados também é posta a prova, pois se baseia inteiramente na qualidade das estatísticas fornecidas pelos Estados. Apesar das críticas, Ziegler reconhece a pertinência, e que o modelo dá conta, a longo prazo, das variações dos números dos subalimentados e das mortes pela fome no planeta, caso do relatório publicado no último dia 16 de setembro. Para o sociólogo e militante, os números subestimam o fenômeno, mas permitem conhecer o cenário árido dos famélicos em todo o mundo.
Os três grupos de pessoas mais vulneráveis são os pobres rurais, os pobres urbanos e as vítimas de catástrofes. A maioria dos que não têm o que comer pertence às comunidades rurais pobres dos países em desenvolvimento. Quem produz alimento está exposto à fome. É uma contradição a ser enfrentada. A escassez está nos campos onde se deveria tirar o sustento.
Ziegler ataca a prática de que a segurança e a soberania alimentar sejam lideradas pelo jogo do livre mercado. A ideia que paira é que somente o mercado pode vencer o flagelo da fome. Basta potencializar ao máximo a produtividade agrícola mundial, liberar e privatizar para se ter acesso a uma alimentação adequada, suficiente e regular para todos. "O mercado, enfim, liberado derramará, como uma chuva de ouro, seus favores sobre a humanidade” (p. 158). Para uma questão complexa como a alimentação, propaga-se uma solução unilateral e reduzida a uns poucos atores sociais.
A questão agrária é posta pelo ex-relator como um desafio para combater a fome. As terras são disputadas para o plantio de comodities da produção agrícola ou os agrocarburantes, também divulgados como biocombustíveis, dos quais, esclarece Ziegler, existem dois tipos: o bioetanol e o biodiesel.
O prefixo bio (vida, vivo), indica que o carburante (etanol ou diesel) é produzido a partir de matéria orgânica (biomassa). Não há relação direta com uma agricultura biológica, como sugere o termo biocombustível. A confusão favorece a imagem desse carburante que se imagina limpo e ecológico. Também chamado de Ouro Verde, essa matriz de produção energética é considerada pelo sociólogo como a nova recolonização do território, devastando os recursos naturais e aprofundando mazelas sociais, culturais e econômicas.
No Brasil, o protagonista é a cana-de-açúcar. Matéria-prima de base do período colonial com a monocultura para a produção de açúcar, esse plantio retorna ocupando os campos de alimentos para a produção de agrocarburantes. Zielger critica duramente o programa brasileiro Proálcool: "além dos barões brasileiros do açúcar, o Proálcool beneficia as grandes sociedades transcontinentais estrangeiras (Louis Dreyfus, Bunge, Noble Group e Archer Daniels Midland)”.
Ao estabelecer a relação entre combustível e comida, ele relembra o dado com que inicia o seu livro: "queimar milhões de toneladas de alimentos em um planeta em que, a cada cinco minutos, morre de fome uma criança de menos de dez anos é evidentemente revoltante”. Para produzir 50 litros de bioetanol, é preciso destruir 358 quilos de milho. No México e na Zâmbia, o grão é a base da alimentação. Com essa quantidade daria para alimentar durante um ano uma criança nesses países. "Agrocarburantes: tanque cheio e barriga vazia”, sentencia Ziegler.
Na visão do geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves [2], a classificação adequada desde o início da colonização até os dias de hoje é "sistema-mundo moderno colonial”. O modelo agrário/agrícola, que se apresenta como o que há de mais moderno, sobretudo por sua capacidade produtiva, atualiza o que há de mais antigo e colonial em termos de padrão de poder ao estabelecer uma forte aliança oligárquica entre as grandes corporações financeiras internacionais; as grandes indústrias-laboratórios de adubo, fertilizantes, herbicidas e sementes; as grandes cadeias de comercialização ligadas aos supermercados; os grandes latifundiários exportadores de grãos [3].
Para se ter uma ideia de como a fome não pode ser subestimada, muito menos naturalizada, Ziegler cita dados sobre o controle do mercado sobre a produção de alimentos no mundo: "apenas dez corporações – entre as quais Aventis, Monsanto, Pioneer e Syngenta – controlam um terço do mercado global de sementes, estimado em 23 bilhões de dólares por ano; e 80% do mercado de pesticidas, em torno de 28 bilhões de dólares.
Dez outras corporações, entre as quais a Cargill, controlam 57% das vendas dos 30 maiores varejistas do mundo e representam 37% das receitas das 100 maiores sociedades fabricantes de produtos alimentícios e de bebidas (p. 152). Sobre a atuação dessas multinacionais, João Pedro Stédile, um dos principais dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), afirma que "o objetivo não é produzir alimentos, mas mercadorias para ganhar dinheiro” (p. 153).
A forma como se produzem, distribuem e consomem alimentos – considerando a comida como uma mercadoria, regulada por um mercado voraz, e Estados enfraquecidos – é uma maneira de violar o direito à alimentação e de limitar a soberania alimentar das nações, destruindo os territórios, lugares de produção de alimentos, cultura, memória e saberes.
Essa indiferença glacial, à qual se refere Zielger, é intolerável. Para vencer esse monstro, o autor se mostra esperançoso com o "formidável despertar das forças revolucionárias camponesas nas zonas rurais do hemisfério Sul. Sindicatos camponeses transnacionais [como a Via Campesina], associações de lavradores e criadores lutam contra os abutres do ‘ouro verde’ e contra os especuladores que tentam roubar suas terras. Essa é a força principal da luta contra a fome” (p. 28).
Ziegler cita um provérbio chinês que Che Guevara gostava de pronunciar para justificar sua esperança e incentivar a resistência: "Os muros mais sólidos desmoronam por suas fissuras”. Assim, ele convoca a provocar, o tanto quanto possível, fissuras na ordem atual deste mundo que "esmaga brutalmente os povos”.
O inimigo, como o autor chama, está exposto nos relatórios da FAO. Há que questionar com essas estatísticas por que 805 milhões de pessoas morrem de fome no século XXI. A experiência do sociólogo e militante nos mostra que o gigante pode ser maior e os que deveriam eliminá-lo estão buscando estratégias para naturalizá-lo.
Ao comparar o relatório com o relato de Ziegler é relevante refletir as contradições e ambiguidades que o sistema alimentar produz. O que está evidente, talvez nas entrelinhas ou com a ajuda de autores como este em questão, é que se torna injustificável uma destruição pela falta de acesso à comida, de qualidade e em quantidade, respeitando a cultura, como estabelece o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil. Como é possível o homem travar uma guerra ambiciosa e inescrupulosa em favor do consumo e do lucro, contra sua própria espécie? Como explicar esse desejo autodestrutivo? Por que o outro é tratado com inferioridade se, na verdade, é a imagem refletida de seu semelhante? É necessário derreter essa indiferença glacial e compreender que comida não é produto de prateleira, é um direito básico à vida humana. Pensemos nos dados da FAO como uma tarefa que demanda esforços coletivos para provocar fissuras no muro sólido da mercantilização da comida, antes bem comum e de interesse público.
Notas
[1] Período entre junho de 2002 e novembro de 2003.
[2] 2006
[3] 2006, p. 243
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Referências Bibliográficas
Porto-Gonçalves, C.W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. 2ª edição. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2006.
Ziegler, J. Destruição em massa. Geopolítica da fome. Trad.: José Paulo Netto – 1ª edi. São Paulo: Editora Cortez, 2013.
The State of Food Insecurity in the World. Roma: Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 2014.
*Editora do site Malagueta

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A luta agora é pela alimentação adequada

ibase
http://www.canalibase.org.br/a-luta-agora-e-pela-alimentacao-adequada/

A luta agora é pela alimentação adequada

Camila Nobrega
Do Canal Ibase
chico.enspFrancisco Menezes é um pesquisador daqueles cuja vida se entrelaça com um tema de estudo e militância. Dificilmente abandona o tom doce na fala e, quando acontece, o mais provável é que o assunto seja a alimentação dos brasileiros e a luta ampla pelo combate à pobreza. Nesse campo, Chico Menezes, como é conhecido, é autoridade reconhecida em diferentes fóruns. Tem sempre olhar crítico e nunca comemora vitória antes do tempo, mesmo que ele mesmo seja parte da história. Assim foi ao receber a notícia amplamente divulgada essa semana, de que o Brasil superou a fome, batendo a Meta dos Objetivos do Milênio para este tema. O dado é da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), no relatório “O Estado da segurança alimentar no mundo”, com um capítulo focado no Brasil. O documento é bastante direto, ao apontar o Brasil como referência no combate à fome e à extrema pobreza no mundo, ressaltando programas como o Fome Zero e o Bolsa-Família, além da política de compra direta de alimentos de pequenos produtores, cuja maior referência é o Plano de Aquisição de Alimentos (PAA). O país reduziu à metade o número de pessoas que não comem o mínimo indicado por dia. Atualmente, 1,7% da população está nessa condição. Certamente, a notícia deve ser comemorada. Mas, em vez de aplacar a luta, os dados devem servir para a continuidade para arregaçar as mangas. “O compromisso agora é para além do mínimo, é por uma alimentação saudável e adequada para todos os brasileiros”, enfatizou. Chico Menezes -ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), pesquisador no Ibase e Action Aid Brasil – deixou claro que o debate da segurança alimentar deve ser aprofundado, em um momento no qual a obesidade, por exemplo, cresce entre todas as camadas sociais brasileiras. E faz uma análise que separa o joio do trigo nas políticas públicas. O diagnóstico é que, se por um lado o governo federal tem políticas que permitiram essa redução drástica na fome e na condição de pobreza, por outro, algumas políticas vão no sentido contrário. O que significa, então, a afirmação de que a fome acabou? É esse o fio condutor desta entrevista com Menezes, homem que iniciou a militância pelo direito à alimentação nos anos 1980 e atuou ao lado de Betinho no Ibase.
Canal Ibase: A FAO fez uma afirmação bastante relevante esta semana: o Brasil superou o problema da fome. Esse dado posiciona de uma vez por todas o país como referência no tema. Mas de fato o que ele significa, como você o lê?
Francisco Menezes: É real, é uma vitória. Em primeiro lugar, havia um compromisso dos países dentro dos chamados Objetivos do Milênio. A meta número 1 era acabar com a fome e a miséria. O Brasil bateu estes números e isso já sabíamos. Mesmo assim, claro, é de se comemorar esse relatório, pois é um resultado muito significativo, fruto de uma combinação de políticas. Mas é preciso tomar alguns cuidados. Primeiro, prefiro hoje em dia falar da vulnerabilidade à condição de segurança alimentar. A imagem do famélico, bem midiatizada antigamente, não faz mais sentido. No Brasil, casos de pessoas que passam fome diariamente são bem mais residuais, abandonamos o fenômeno generalizado da fome que houve no passado. Mas há vários desafios na compreensão desse cenário da alimentação no Brasil. Sobre os dados, existe o esforço da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, que sai junto com as Pesquisas de Amostragem por Domicílios (PNAD), do IBGE. Não é, porém, suficiente, precisávamos fazer essa contagem com menos intervalo. E esse dado deve servir para impulsionar. O quadro de fome absoluta pode ter desaparecido, mas a luta continua e agora é outra. Hoje lutamos por uma alimentação saudável e adequada, o que significa não apenas medir se as pessoas comem ou não, mas o que elas comem, o acesso que têm a alimentos saudáveis, à possibilidade de plantar, ou de comprar, à informação sobre o assunto. Enfim, a segurança alimentar não é tema em si mesmo apenas, é transversal, depende de políticas em diversas áreas.
Canal Ibase: Segundo a FAO, no período 1990-1992, 14,8% dos brasileiros passavam fome, o equivalente a 22,5 milhões de pessoas na época. A população cresceu e mesmo assim o número caiu muito. Sobre o relatório, Jorge Chediek, representante do Programa das Naçoes Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) afirmou que “o combate à fome é uma questão política, de vontade e interesses de governantes”. A quais políticas você atribui esta redução drástica da fome no país?
Menezes: Há programas que enfrentam diretamente a questão do acesso à alimentação e buscam reduzir essa insuficiência. Eu destacaria sobretudo os programas que possibilitam aumentar renda das famílias ou indivíduos, como o Bolsa-Família. Mas não só ele. Como houve aumento do salário mínimo e a maior oferta de empregos, isso afetou positivamente a vida da população mais pobre do país. O salário mínimo não tem efeito apenas na compra do alimento. Mas, por exemplo, se alguém ganha um pouco mais e resolve fazer uma reforma na casa, chama um conhecido para fazer um bico. Esse trabalho não é medido no dado formal, mas existe, claro. E esta outra pessoa também poderá ter acesso a alimentos. Cada mudança no salário mínimo causa muito impacto nas populações das camadas mais pobres. Além disso, há políticas específicas de segurança alimentar que tiveram resultados significativos, que fazem a interligação da produção de alimentos com o consumo.
Canal Ibase: Você se refere, por exemplo, ao Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA? Ele foi alvo de denúncias nunca confirmadas, mas, a despeito de interesses políticos, ele é quase unanimidade entre especialistas do tema e também nos movimentos sociais que lutam pelo acesso à alimentação adequada. Por quê?
Menezes: O PAA consiste na compra direta de alimentos de agricultores familiares. Parece pouco, mas não é. A maior parte dos alimentos no Brasil é comprada indiretamente e quem perde é o pequeno produtor. Sem falar na desigualdade para competir com grandes cadeias produtoras de alimentos. O PAA propõe a compra de alimentos para merenda escolar, outras instituições dos governos e para restaurantes populares, por exemplo. Estive em Salvador recentemente e fiz questão de saber como estava a comida no restaurante popular. Tinha arroz, feijão, aipim, verduras e estava gostoso. Custava R$ 1 e os alimentos tinham vindo direto dos produtores. Esses restaurantes existem em mais de 300 cidades brasileiras. Em Salvador, são mais de duas mil refeições só na hora do almoço. Nesse caso, a população de rua é o público-alvo, mas na ponta o agricultor também está sendo beneficiado.
Canal Ibase: Mas você disse que é preciso ter cuidado com essa euforia em torno da notícia divulgada pela ONU. Na prática, não é possível afirmar que as pessoas estão necessariamente comendo bem, certo? Estamos falando de dados, estatísticas, mas na verdade o assunto é sobre o direito mais básico de todos, que garante a sobrevivência. É sobre a vida e as possibilidades de acesso e escolhas das pessoas…
Menezes: Sem dúvida. Se resolvemos suficientemente bem a questão do acesso, não se pode falar o mesmo da qualidade dos alimentos. Existe um grande desbalanceamento nutricional. Boa parte da população ainda se alimenta mal, não só por desconhecimento sobre a educação alimentar adequada, mas também porque alimento mais saudável é mais caro. As comidas prontas, salgadinhos e os alimentos de fast food, têm baixíssimo teor nutricional, mas são baratos muitas vezes. São alimentos densamente calóricos, com alto teor de gordura e sódio. Isso nos põe frente a um novo drama: sobrepeso. A obesidade está crescendo, especialmente devido à má alimentação. Nem sempre as pessoas estão comendo em excesso. Este é um aspecto com o qual precisamos tomar um grande cuidado, porque há muitas corporações que dominam esta área. Esse problema existe em várias camadas da sociedade.
Canal Ibase: Nesse caso, o problema é amplo… Por exemplo, se de um lado o governo impulsiona a agricultura familiar e a transição para a agroecologia, por outro dá grandes incentivos ao agronegócio, dificultando a manutenção do trabalho e território dos camponeses. Além disso, o acesso à terra também é outro tema transversal. Se as pessoas não têm terra, não podem plantar e, com menos oferta, os alimentos mais saudáveis são os mais caros. Ou seja, embora tenha acertado em muitos pontos relativos à alimentação, as políticas públicas atuais trazem graves problemas para o desafio da segurança alimentar, você concorda?
Menezes: O agronegócio tem uma finalidade, que é o lucro. Por isso, lança mão, por exemplo, de agrotóxicos, que não fazem bem aos agricultores nem aos consumidores. É só para produzir mais e mais rápido. Se falamos de direito à alimentação, não podemos ter expectativas de que o agronegócio desempenhe este papel. Não é para isso que ele existe, é preciso compreender esse ponto. Há também a questão agrária que está envolvida. Há várias implicações na falta de uma reforma agrária e na pressão de corporações sobre territórios ocupados por agricultores. Há o empobrecimento da pequena agricultura, com terras cada vez menores para aqueles que continuam no campo poderem plantar. O que está em curso uma disputa de modelo de desenvolvimento na agricultura. E há uma força grande da bancada ruralista no Congresso Nacional. É importante uma transição de forma a fortalecera agricultura familiar, inclusive em bases agroecológicas. Isso tem a ver diretamente com a questão da alimentação adequada e combate à pobreza.
Canal Ibase: Se fizermos alguns recortes específicos, de raça, por exemplo, e de territórios e etnias, é possível perceber que essa condição de vulnerabilidade à fome é mais uma expressão de desigualdade no nosso país…
Menezes: Sim, há populações que vivem sérios riscos, cujo acesso aos alimentos tem sido dificultado, em um processo inverso. É o caso dos povos indígenas, por exemplo. E há, sim, um recorte de raça e gênero. Negros e mulheres constituem populações mais vulneráveis.
Canal Ibase: Bem antes de ocupar o cargo de presidente do Consea, no início dos anos 2000, você construiu uma história de militância pelo direito à alimentação, ainda na década de 1990, no Ibase, junto com Betinho. Como é para você ver essa mudança?
Menezes: Bem especial. Na década de 1990, o Ibase teve um papel muito relevante de chamar a sociedade para criar alternativas à situação de fome a qual milhões de brasileiros estavam expostos. Naquele momento, prevalecia um modelo de estado mínimo. Era um modelo de governo neoliberal, que não intervinha em questões essenciais, entre elas a questão alimentar. Junto com o Ação da Cidadania, o Ibase plantou as raízes do que seria a concepção do direito à alimentação. Me lembro do Betinho dizendo: “Se o Estado não vai fazer sua parte, faremos com nossas próprias mãos”. E assim fizemos, colocamos a questão na pauta política e também no dia a dia das pessoas. O que se alterou desde 2002 foi o diálogo com os movimentos sociais e a retomada de políticas públicas como um instrumento de transformação.
Canal Ibase: Sua conclusão sobre esses dados é…
Menezes: Eu caracterizaria como uma conquista. Mas, à medida que você conquista alguma coisa, você quer voar mais alto. Agora a luta é pela alimentação saudável e adequada e pela soberania dos povos, garantindo autonomia sem interferência de grandes corporações que querem dominar a alimentação das pessoas.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Fome afeta 805 milhões de pessoas no mundo e Brasil é exemplo no combate ao problema

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http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82504

Fome afeta 805 milhões de pessoas no mundo e Brasil é exemplo no combate ao problema

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O Relatório Anual sobre o Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2014 (SOFI, por sua sigla em inglês), divulgado pela FAO [Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação], revela a quantidade atualizada de pessoas que sofrem com a fome no mundo. América Latina e Caribe são apontados como tendo os maiores progressos no combate à fome.
A FAO informa que em 2013 um total de 805 milhões de pessoas, cerca de uma em cada oito pessoas no mundo, sofria de fome crônica, ou seja, pessoas que não comem o suficiente para terem uma vida ativa. É verificada uma queda de mais de 200 milhões de seres humanos nessa situação desde 1990 e de 100 milhões na última década.
EOSOFI deste ano inclui sete estudos de caso - Bolívia, Brasil, Haiti, Indonésia, Madagascar, Malawi e Iêmen - que colocam em relevo algumas das formas em que os países abordam a fome e como os eventos externos podem influir em sua capacidade para cumprir com o alcance dos objetivos de segurança alimentar e nutrição. Esses países foram escolhidos devido à sua diversidade política, econômica – em particular, o setor agrícola - e à suas diferenças culturais.

Programa Bolsa Família é dos projetos que têm contribuído para a erradicação da pobreza no Brasil.


O Programa Fome Zero, do Brasil, que situou a conquista da segurança alimentar no centro da agenda governamental, é, segundo a FAO, a base do progresso que levou o país a alcançar tanto os ODM como os objetivos da CMA (Cúpula Mundial sobre Alimentação). Os atuais programas de erradicação da pobreza extrema no Brasil se baseiam no enfoque de vincular políticas para a agricultura familiar com a proteção social de forma muito inclusiva.
A Bolívia, por exemplo, criou instituições para envolver uma ampla gama de partes interessadas, em particular os povos indígenas antes marginalizados. O Haiti, onde mais da metade da população sofre de subalimentação crônica, continua lutando para recuperar-se dos efeitos do devastador terremoto de 2010. O informe da FAO assinala como o país adotou um programa nacional para fortalecer os meios de vida e melhorar a produtividade agrícola, favorecendo o acesso dos pequenos agricultores familiares aos insumos e serviços.
Nas regiões em desenvolvimento, como a América Latina e Caribe, são constatados pela FAO avanços significativos rumo à concretização da meta do primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM 1) relativa à fome. Se a taxa de diminuição anual média registrada durante os últimos 21 anos se mantiver até 2015, a prevalência da subalimentação chegará a um nível próximo da meta. Entretanto, para alcançá-la, a FAO afirma que seria necessário realizar grandes esforços adicionais de maneira imediata.
"O crescimento pode permitir aumentar as rendas e reduzir a fome, mas um maior crescimento econômico pode não chegar a todos. Ademais, pode ser que não desemboque tampouco em mais e melhores postos de trabalho para todos, a menos que as políticas se dirijam especificamente aos pobres, sobretudo os das zonas rurais. Nos países pobres, a redução da fome e da pobreza será alcançada, unicamente, se o crescimento é não apenas sustentável, mas também amplamente compartilhado”, assinala a organização.
Apesar dos progressos globais, persistem marcadas diferenças entre as regiões, de acordo com o estudo. A África Subsaariana continua sendo a região com maior prevalência da subalimentação, com avanços modestos nos últimos anos. A Ásia Ocidental não mostra progressos, enquanto que a Ásia Meridional e a África do Norte mostram progressos lentos. Na maioria dos países da Ásia Oriental e Sul-Oriental, bem como na América Latina, têm ocorrido reduções significativas tanto da prevalência da subalimentação como do número estimado de pessoas subalimentadas.

Incentivo à agricultura familiar é uma das medidas apontadas pela FAO para combater a pobreza e a fome


O relatório aponta que, para reduzir a fome, é fundamental um compromisso no longo prazo que permita uma integração da segurança alimentar e da nutrição nas políticas públicas. Afirma também que a agricultura e a segurança alimentar devem ter lugar de destaque como medidas protetivas e de combate à pobreza e desnutrição. A FAO alerta ainda que políticas que aumentam a capacidade de produção agrícola de pequenas famílias de agricultores fazem toda a diferença no combate á pobreza.
Para saber mais sobre o relatório acesse:http://www.fao.org/publications/sofi/en/

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Desigualdade social: posses dos 10 mais ricos podem alimentar 1 bilhão que passam fome

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http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79387


Desigualdade social: posses dos 10 mais ricos podem alimentar 1 bilhão que passam fome

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A Oxfam aproveitou a oportunidade do Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça) para tornar público o documento "Governar para as Elites – Sequestro democrático e desigualdade econômica”, em que revela os números e os efeitos da desigualdade social extrema. O fórum de Davos não foi escolhido ao acaso para a divulgação deste documento. Nesse encontro, estavam reunidos alguns dos maiores detentores de riquezas do mundo. A Oxfam quis chamar atenção e convidar à reflexão.
A organização destaca que a desigualdade econômica extrema é prejudicial e preocupante, pois além de ser moralmente questionável, impede a redução da pobreza, o crescimento econômico e multiplica os problemas sociais. A Oxfam teme que se esse problema não for controlado poderá ter consequências irreversíveis e gerar um "monopólio de oportunidades" por parte dos mais ricos, cujos filhos terão a melhor educação, a melhor atenção sanitária e as melhores oportunidades, gerando assim um círculo vicioso de privilégios.
A desigualdade social extrema pode ser compreendida através de alguns números: quase a metade da riqueza mundial está nas mãos de apenas 1% da população; a riqueza deste 1% é superior a 110 bilhões de dólares, cifra 65 vezes maior que o total da riqueza detida pela metade mais pobre da população mundial; a metade mais pobre da população mundial possui a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas do mundo; 1 bilhão de pessoas não sabem ler ou escrever o nome. A Oxfam revela ainda que se apenas 10 das pessoas mais ricas do mundo renunciassem às suas posses o 1 bilhão de pessoas que passam fome poderiam ser alimentados com esse dinheiro durante os próximos 250 anos.
Durante os últimos 30 anos, as desigualdades cresceram em pelo menos cinco países de renda média: Indonésia, China, Índia, Paquistão e Nigéria. Além disso, os 10% mais ricos da população acumularam uma participação na renda nacional maior que os 40% mais pobres, e ao que parece essa tendência vai continuar.
A boa notícia é que essa realidade pode ser transformada. Prova disso é que os Estados Unidos e a Europa reduziram a desigualdade durante as três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Na última década, os números da desigualdade também caíram na América Latina, graças ao emprego digno, oferta de serviços públicos, proteção social e uma política mais cidadã.
Ao apresentar o documento em Davos, a Oxfam fez um chamado pela certeza de que muitas das mudanças estão nas mãos dos participantes do Fórum. A organização pediu que não se utilizem paraísos fiscais para evadir impostos, não se usem riquezas econômicas para conseguir favores políticos, que se exijam dos governos que usem a arrecadação de impostos para proporcionar à população educação, proteção social e assistência sanitária, e se reclamem às empresas que ofereçam um salário digno a seus trabalhadores.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Campanha utiliza simulador para mostrar efeitos da fome no rosto das pessoas

ADITAL
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79323


Campanha utiliza simulador para mostrar efeitos da fome no rosto das pessoas

Adital
Com o tema "A vida passa para todos, mas não para todos por igual", a ONG católica espanhola 'Manos Unidas' (Mãos Unidas) está divulgando a campanha "Efeitos da pobreza” para mostrar o envelhecimento precoce e a deterioração sentidos na pele por mais de 842 milhões de pessoas do mundo todo, que enfrentam, diariamente, fome, exploração, enfermidades e injustiças sociais. 
A iniciativa, lançada em dezembro de 2013, consiste em um simulador virtual que transforma o rosto das pessoas para mostrar os efeitos da fome. Quem desejar fazer a experiência e buscar se aproximar da realidade dos que sofrem pode subir sua fotografia e aplicar quatro filtros especiais para ver refletida em sua própria face o envelhecimento. A experiência pode ser feita no site da organização (http://www.manosunidas.org/efectosdelapobreza/), por meio de um aplicativo para celular ou no Facebook da ‘Manos Unidas’.
A campanha conta com um vídeo que mostra a atriz espanhola Inma Cuesta sofrendo uma transformação em seu semblante em virtude da pobreza extrema, até chegar a se parecer uma idosa.
A ideia é também demonstrar esses efeitos lembrando uma história real, a da afegã Sharbat Gula. Seu rosto estampou a capa da algumas revistas quando ela tinha 12 anos e estava no campo de refugiados Nasir Bagh, no Paquistão. Posteriormente, ela foi fotografa aos 30 anos e sua imagem, mais uma vez, rodou o mundo, sendo usada para mostrar a situação dos refugiados.
"Levando em conta a dificuldade atual de chamar a atenção sobre a pobreza fora de nossas fronteiras, achamos oportuno e necessário criar essa campanha para tornar possível que cada pessoa possa experimentar essa deterioração física vivida em um país empobrecido", explica Ignacio Ussia, do setor de comunicação da organização.
Aos que podem colaborar com seus projetos a ONG também pede ajuda financeira para dar continuidade ao trabalho realizado há mais de 50 anos em países empobrecidos.