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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Marcelo Rubens Paiva

cult
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/06/as-verdades-de-marcelo-rubens-paiva/

Marcelo Rubens Paiva

Leia perfil publicado na CULT 178
Helder Ferreira
É difícil definir uma década tão conturbada quanto a de 1980 foi para o Brasil. Talvez porque o período tenha sido uma época de redefinição. Se no campo político foi a década da abertura “lenta, gradual e segura” para a democracia, das “Diretas Já!”, do fim da ditadura militar, no comportamental, foi a era do “desbunde” – a resposta mais visceral ao fim da rigidez militarizada, da repressão, da censura. Foi nesse tempo de mudanças, mais precisamente no final de 1982, que Feliz Ano Velho, o romance autobiográfico do filho do deputado cassado e desaparecido político Rubens Beyrodt Paiva, chegou às livrarias. Nele, Marcelo narra como, no dia 14 de dezembro de 1979, às 17h, com o Sol em conjunção em Netuno e em oposição a Vênus, ele pulara com a pose do Tio Patinhas para mergulhar em um lago com 50 centímetros de profundidade, batera a cabeça no chão, fraturara a quinta vértebra cervical e comprimira a medula, resultando, a curto prazo, na invasão de seus tímpanos por uma estranha melodia – “biiiiiiiiin” – e, permanentemente, em uma tetraplegia. Ele também conta como foi o processo de recuperação, intercalando a narrativa com digressões, flashbacks e flashforwards sobre suas experiências, traçando um retrato da geração dos universitários de classe média da qual fazia parte, e também expurgando alguns fantasmas, como o do sequestro e assassinato de seu pai.
Hoje, trinta anos, diversos livros, peças de teatro e filmes depois, ele se encontra em seu apartamento no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, recebendo a reportagem da CULT. É a típica residência do escritor “meio intelectual, meio de esquerda”: paredes (azuis) forradas por centenas de livros, alguns quadros e um diploma de bacharel em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo, discos do Chico Buarque, móveis em madeira rústica, um sofá branco meio puído, um lustre no estilo luminária chinesa, dois gatos e um computador com o Twitter aberto no navegador. O lançamento de As verdades que ela não diz, coletânea de contos e crônicas sobre o universo feminino, assunto predileto do escritor, e a divulgação, feita pela Comissão Nacional da Verdade, de documentos que, discordantes da versão dada pelos militares à época, atestam a morte do pai de Marcelo nas dependências do DOI-CODI do Rio de Janeiro, em 1971, motivaram o encontro. Mas não é nenhum dos dois assuntos o que pauta a conversa inicialmente, quando ele descobre que o repórter havia lido, recentemente, seu primeiro livro.
– Você achou muito datado? Achou sexista?
– Ah, é datado no sentido de ser um retrato de uma certa geração. Mas há aspectos que continuam atuais. Eu não achei sexista… até achei estranho você se autocriticar diversas vezes pelo seu suposto machismo. Você se acha machista?
– Eu não me acho machista, não. Mas a época em que escrevi era mais sexista. Hoje, acho que muitas vezes a gentileza é confundida com o ato de você subjugar uma mulher. E eu fui educado assim, com essas regras de etiqueta que devem ter sido criadas na Era Vitoriana, como abrir a porta do carro, pagar a conta e caminhar do lado da rua quando acompanhado de uma mulher.
Marcelo é do tipo de pessoa que observa atentamente seu interlocutor; seus olhos não vagueiam pelo recinto enquanto o outro fala, nem demonstram impaciência. O bigode e o cabelo, ainda vastos mas já grisalhos, as rugas e os quilos acumulados ao longo das últimas três décadas já o distanciam do garoto magricela retratado em seu primeiro romance, e, ao mesmo tempo, o aproximam da figura rechonchuda do pai. Aos 53 anos, ele já tem a idade que considera ideal para a criação literária.
É que, apesar de sempre ter sido um ávido leitor, tendo já devorado toda a obra de Dostoiévski, Kafka e Sartre aos 20 anos, ele afirma nunca ter imaginado que seria escritor. “Na minha época, uma pessoa de 20 anos não tinha nem o direito de pensar em ser escritor; as pessoas começavam a escrever com 40, 50 anos – aliás, elas deveriam. Não existia uma literatura feita por jovens”, afirma ele. “Entrei nessa por causa do Caio Graco [editor da Brasiliense naquela altura], que teve a ideia da coleção Cantadas Literárias. Ele buscava a inovação da literatura brasileira, trazendo pessoas de diversos universos para uma mesma coleção focada numa literatura mais coloquial”.
Talvez ele tenha criado precedentes para outros.
A escritora gaúcha Luisa Geisler – que, aos 21 anos, tem dois livros publicados (e premiados) e foi incluída na antologia “Os melhores jovens escritores brasileiros”, da revista Granta – acredita que os livros de Marcelo foram importantes para sua formação cultural. “Li Feliz Ano Velho quando ainda estava na escola, porque minha professora era grande fã dele. Mais tarde, li Malu de bicicleta. Acho que a maneira que ele interpreta a mulher é muito íntima, muito sincera e bem-humorada. Me agrada bastante”.
Para Antonio Prata, 35, tido por Marcelo como o “melhor cronista brasileiro, disparado”, a leitura de Feliz Ano Velho foi inspiradora. “Li num ônibus, indo do Rio para São Paulo. Eu tinha uns onze anos, acho, e foi uma revelação: então pode ter All Star na literatura? E referências pop, baseados, gírias?”.
Já para o autor de Diário da queda, Michel Laub, 40, que leu o romance aos 18 anos, a experiência foi mais catártica. “Li Feliz Ano Velho na cama, me recuperando de um acidente de carro em que quebrei uma vértebra. Por isso, mas não só por isso (gostei bastante do livro), foi uma experiência inesquecível”, escreveu por e-mail.
Marcelo no lançamento de Feliz Ano Velho, em 1982
Cabeceira de escritor
Ele conta que o que o levou a escrever Feliz Ano Velho foi, além da vontade de dividir sua dor com as pessoas, mostrar que a cadeira de rodas não era sua única história, não o definia. “Eu queria discutir isso. Que, apesar de estar numa cadeira de rodas, eu tinha desejos, amigos, fumava maconha, transava, ia a shows de rock, ao Pacaembu”, conta. “Então, quando eu vejo um filme ou leio um livro, eu me pergunto o que a pessoa quer mostrar com aquilo. O E aí, comeu?, por exemplo, tinha um motivo. Queria falar sobre o universo masculino e sobre como os homens se relacionam entre si e com as mulheres. Muita gente acabou achando o filme machista, mas não era sobre o machismo”, comenta sobre o longa que, no ano passado, levou 2,5 milhões de brasileiros às salas de cinema e é baseado na peça homônima que lhe rendeu o Prêmio Shell de teatro em 1999.
– E como surgiu a ideia de reunir as crônicas e contos de As verdades que ela não diz?
– A Isa Pessoa, minha editora, sempre me disse que tenho um jeito peculiar de escrever sobre as mulheres. E que as mulheres gostam de me ler e gostam de ler quando os homens falam delas. Aí surgiu o projeto do livro, que reúne um material que eu fui escrevendo e acumulando ao longo de 8 anos. Depois, rolou uma edição, reescrevi muita coisa.
Há doze anos, Isa Pessoa trabalha como editora de Marcelo. Nos primeiros 11, pela Objetiva, que ela deixou no ano passado com a criação da Editora Foz, pela qual publicou o último livro do escritor. “O Marcelo é um escritor que se aprimora a cada livro, aquela figura que faz, que estuda. Com ele dá pra dialogar, sugerir ideias, propor soluções… ele é bem aberto”, conta. “A ideia do livro surgiu porque, além das crônicas que já tinham repercutido bastante no blog dele no Estadão, o Marcelo, tendo crescido ao lado de quatro irmãs, mãe e avó, sendo casado e conselheiro sentimental de outras tantas mulheres, é bem conhecedor da alma feminina, que está sempre retratada nos livros dele”.
Nos últimos tempos, os escritores norte-americanos Jeffrey Eugenides, David Foster Wallace e Jonathan Franzen têm revezado espaço na cabeceira do autor. O último, em particular, chama sua atenção. “O Franzen fala que é preciso se comunicar com o público, facilitar a leitura, ser lido. Eu sempre quis ser lido, o único livro que eu fiz experimental foi o Ua:Brari, que, por consequência, foi um dos meus romances que menos repercutiu”, declara ele, que afirma não possuir preconceitos contra a cultura de massa. “Eu adoro Resident Evil, filme de zumbi; eu gosto mais de filme de zumbi do que muito filme de arte. Já vi muita gente falando bobagem, que o pior filme brasileiro é melhor que o melhor norte-americano. Não acho. Discordo totalmente. A crítica, agora, parece que ergueu um altar para O som ao redor, aquele filme do… esqueci o nome dele”.
– Kleber Mendonça Filho?
– Isso! Não aguento mais ouvir falar do Kleber Mendonça Filho. Tô até com aquela resenha que saiu na Carta Capital, no dossiê sobre “O vazio da cultura”.
– E o que você achou da revista?
– Discordo totalmente que há um vazio da cultura. Acho que o Mino Carta não vai ao cinema, ao teatro, não compra disco, não baixa música. É um absurdo afirmar isso! O Kleber Mendonça Filho é um grande cineasta, mas a boa cultura brasileira não se resume apenas a um cineasta e a um filme. Acho que as pessoas estão por fora, elas não estão vendo o que está sendo feito. Não estão lendo o que está sendo escrito, não estão indo ao teatro. É muito fácil meter o pau, muito difícil criticar, mais difícil ainda elogiar.
Ora muito elogiado, ora muito criticado, Marcelo diz sustentar uma relação bastante dúbia com a crítica. “As poucas críticas equilibradas que eu recebi e com as quais eu aprendi foram de escritores. Por exemplo, a resenha do Ivan Ângelo sobre Não és tu, Brasil, e a do Paulo Leminski sobre Blecaute”. Ao seu ver, o grande problema é o elitismo de uma classe cultural que se acha distante das grandes massas. “A desigualdade social brasileira também se reflete numa desigualdade cultural, onde se renega tudo o que é popular”, critica. “O Plínio Marcos, por exemplo, que morreu praticamente na miséria, sempre foi tratado como um autor secundário. Ele mesmo falava: ‘sempre me trataram como um semianalfabeto e eu acho que sou um semianalfabeto’”.
Professora da Universidade de Brasília (UnB) e autora do ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, Regina Dalcastagnè acha curioso nunca ter recebido um único artigo sobre a obra do escritor. “Sempre me pergunto o que faz a crítica reverenciar alguns nomes e esquecer de outros, no caso de Marcelo Rubens Paiva talvez exista essa marca equivocada de ‘escritor para jovens’, que sempre gera preconceito no meio acadêmico”, filosofa. “Também nunca trabalhei com ele, embora o Feliz Ano Velho tenha sido um livro importantíssimo na minha adolescência. Acho que não gostei de Blecaute, e daí o abandonei. Boa hora para voltar a lê-lo”.
– Bom… Era só isso? Eu tenho fisioterapia agora, às 17 horas.
Então, foi preciso marcar mais um encontro. Faltava falar sobre a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ficou para dali a dois dias.
A família Paiva em 1964
Dois dias depois
Desapareceram com o pai do Marcelo há 42 anos. Em Feliz Ano Velho, ele narra a invasão de sua casa e a consequente prisão do pai. Diversos artigos de seu blog foram dedicados ao caso ou a assuntos relacionados. Segundo o dramaturgo Mário Bortolotto, amigo de Marcelo, o escritor lida com o assunto de maneira tranquila. “Ele quer descobrir quem foi realmente, mas não tem um lance de revolta. Nunca vi ele nervoso com isso. Não é uma coisa que fica amargurando ele, não. Ele amava muito o pai, isso fica nítido pelas conversas que já tive com ele”, conta.
Os documentos que atestavam a estada de Rubens Paiva no DOI-CODI não representaram grande novidade para o escritor. Ao seu ver, foi mais do mesmo. “Tudo o que foi divulgado, eu já sabia. Inclusive, o documento que foi divulgado já tinha sido publicado no livro Segredo de Estado, do Jason Tércio. Dois ou três documentos que saíram sobre a estadia do meu pai no DOI-CODI também foram entregues, não descobertos pela CNV. Então, na verdade, a CNV não descobriu nada! Eles divulgaram o que já sabíamos em um momento oportuno, em que estava havendo uma troca de coordenador geral. E o que saiu queria mostrar serviço e divulgou esses documentos”, afirma.
O que a família Paiva deseja é que a CNV assuma uma postura mais ativa e passe a chamar pessoas para depor. “No livro Segredo de Estado estão os nomes de todos que trabalharam no DOI-CODI em 1971. Existiam várias equipes: equipe de busca e apreensão, que era o pessoal que prendia; existia a equipe de inteligência, entre aspas; e existia na equipe do depoimento, da tortura”, relata, com aparente irritação. “A gente não sabe quem que deu soco, quem deu choque elétrico, quem cortou a garganta, quem cortou os braços… não se sabe isso. Talvez a CNV descubra se chamar essas pessoas para depor”.
Enquanto aguarda desdobramentos, Marcelo continua cobrando posições mais demarcadas da CNV. Ele também conta que acaba de entregar o roteiro do longa Vale Tudo, sobre o lutador de UFC José Aldo, que ele escreveu em parceria com Afonso Poyard, e que começa a ser filmado em dezembro; e se prepara para as filmagens de No retrovisor, longa baseado na peça de teatro homônima, que roterizou com Mauro Mendonça Filho, que será produzido pela Cazé Filmes, responsável por E aí, comeu?. Mas, por hora, ele só precisa enviar sua coluna semanal para o jornal O Estado de S Paulo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade recomendará punição aos agentes da ditadura

vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/254885-1


Comissão da Verdade recomendará punição aos agentes da ditadura

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) entregará, na próxima quarta-feira (10) à presidenta Dilma Rousseff o relatório final das investigações. O documento, com cerca de 2 mil páginas, recomendará punição civil, administrativa e criminal para suspeitos de serem responsáveis pela violação de direitos humanos na ditadura. 


Reprodução
  
Segundo a assessoria do órgão, o relatório apontará 434 mortos e desaparecidos políticos, o que amplia em 72 nomes o total de 362 registrados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

A Comissão da Verdade foi criada pela Lei 12.528/2011 e instituída em maio de 2012 por Dilma. O colegiado foi constituído a fim de apurar as denúncias de violações de direitos humanos entre 1946 e 1988, período que abrange o regime militar.

Durante os últimos anos, foram colhidos 1.120 depoimentos – 132 de agentes militares –, produzidos 21 laudos periciais e realizadas 80 audiências públicas em 15 estados. No período de funcionamento da comissão, foram feitas sete diligências em Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Entre as pessoas ouvidas pela CNV nesses dois anos e meio, estiveram o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do II Exército; o general reformado José Antonio Nogueira Belham, que comandou o DOI-Codi do Rio de Janeiro; e o coronel Paulo Malhães, morto neste ano, e que admitiu ter participado de torturas e mortes durante o regime militar.

O coordenador da Comissão da Verdade, Pedro Dallari, afirmou que o relatório pedirá a punição aos agentes da ditadura em razão de o colegiado ter provas “robustas” da participação dessas pessoas em casos de tortura, execuções e ocultação de cadáveres. Na avaliação de Dallari, os trabalhos da comissão foram positivos e ele diz que o documento está além de questões político-ideológicas.

"Nós não somos uma comissão jurídica. Embora a maioria dos integrantes seja de pessoas da área do direito, nós não fomos mandatados para exarar posições júridicas. Nós não somos um órgão jurídico. Qual foi a nossa atribuição? Apurar o fato em si e propor recomendações. O fato que se revelou é um quadro muito grave de graves violações dos direitos humanos, torturas, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres", disse Dallari.

"Tivemos investigações que dizem respeito a eventos ocorridos há muito tempo, há mais de 40 anos. Então, isso, obviamente, criou um quadro de dificuldade. Mesmo nesse contexto, acho que a comissão conseguiu – do ponto de vista do levantamento de informações pela busca da verdade – fazer um bom trabalho e isso vai se refletir nas 2 mil páginas do relatório, que é consistente, abrangente e muito detalhado, que não tem opiniões. É um relatório fático", afirmou.

Segundo ele, as cerca de 2 mil páginas do documento que serão entregues à presidente Dilma Rousseff "deixarão claro" que os trabalhos da comissão não tiveram viés ideológico.
O relatório não vai analisar o regime militar. O documento analisa as graves violações feitas pelo regime. Foi o que nós fizemos. [...] O relatório tem toda a consistência necessária e tira esse viés político."
Pedro Dallari, coordenador da Comissão Nacional da Verdade
Para o coordenador da CNV, o documento precisa ser "amplamente" divulgado, para que a sociedade brasileira e as famílias de vítimas do regime tenham conhecimento do que ocorreu no período da ditadura. "E é até capaz que o leitor ache nossas conclusões tímidas, pelas provas que vamos apresentar", avalia.

Dallari afirmou ainda que o fato de ter sido criado na CNV um departamento de perícia técnica permitirá, segundo avalia, que a comissão não seja acusada de ter produzido um documento "contra militares", mas, sim, segundo ele, que mostre o que ocorreu no país durante o regime e ainda não havia sido divulgado.

"O relatório não vai analisar o regime militar. O documento analisa as graves violações feitas pelo regime. Foi o que nós fizemos. Essa análise é importante porque nós nos concentramos em uma base pericial, na apuração de todos os fatos com exame de documentos. O relatório tem toda a consistência necessária e tira esse viés político", afirmou.

Tortura em instalações militares

Em meio aos 50 anos do golpe militar que deu início à ditadura, as Forças Armadas se comprometeram a apurar denúncias de que torturas teriam sido praticadas em instalações militares durante o regime.

Em 18 de fevereiro, a CNV enviou ao ministro Celso Amorim o pedido de instauração das sindicâncias internas.

Em relatório enviado à CNV, porém, Exército, Marinha e Aeronáutica informaram não ter encontrado provas de que houve desvio de finalidade do uso das instalações, o que significa que não foram encontradas provas de casos de tortura nas dependências militares, segundo a comissão.
De acordo com Dallari, constará do relatório final da comissão recomendação para que as Forças Armadas reconheçam que no período do regime militar instalações do Exército, Marinha e Aeronáutica foram usadas em casos de violação de direitos humanos.

Ex-presidentes

Nesses dois anos e meio de trabalho, a Comissão da Verdade trabalhou também com análises relacionadas às mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, o Jango.
Com autorização da família, os restos mortais de Jango foram periciados e, segundo divulgaram a Secretaria de Direitos Humanos e a Polícia Federal, o laudo pericial não encontrou sinais de envenenamento, conforme suspeita de familiares.

Os exames dos restos mortais começaram em 2013, a pedido da Comissão Nacional da Verdade. Jango, exilado da ditadura militar, morreu na Argentina, em 1976. A causa oficial da morte foi infarto. Para a família, ele teria sido assassinado em uma ação da Operação Condor, aliança entre as ditaduras militares da América do Sul nos anos 1970 para perseguir opositores dos regimes.

Apesar de suspeitas de que JK tivesse sido vítima de um atentado, a CNV concluiu que o governo militar (1964-1985) não teve participação na morte do ex-presidente. Ele morreu após o veículo Chevrolet Opala, placa NW-9326 RJ, que conduzia Juscelino e seu motorista Geraldo Ribeiro pela Via Dutra, rodovia que liga São Paulo a Rio de Janeiro, colidiu frontalmente com uma carreta Scania Vabis, placa ZR-0398-SC, após ter sido atingido por um ônibus.

Cooperação internacional
Durante a realização da Copa do Mundo, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, esteve em Brasília e se encontrou com a presidente Dilma Rousseff. Após a reunião, ele convidou a imprensa para uma entrevista coletiva na Embaixada dos Estados Unidos e anunciou que o país disponibilizaria documentos obtidos por Washington referentes à ditadura brasileira. Ainda em julho, o colegiado divulgou no site os documentos entregues pelos EUA.

Fonte: G1

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O matador arrependido

oi
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/videos/view/um_matador_arrependido


CLAÚDIO GUERRA

O matador arrependido

Alberto Dines | Programa nº 743 | 23/09/2014 | 0 comentários
 

O Observatório da Imprensa traz uma entrevista especial com o ex-delegado do Dops Claudio Guerra, matador implacável de quase uma centena de pessoas. Na Comissão Nacional da Verdade, o ex-policial, poderoso dos anos 70 e 80, contribuiu para o esclarecimento do atentado do Riocentro e a morte da estilista Zuzu Angel em acidente de carro. Os dois com o envolvimento dos agentes de repressão do DOI-CODI do Rio de Janeiro. Em entrevista ao apresentador Alberto Dines, o hoje pastor Claudio Guerra, conta como migrou do Esquadrão da Morte para eliminação de esquerdistas em 1973, no auge da repressão política. Ele foi o homem de confiança do coronel Freddie Perdigão, chefe do SNI, responsável por dezenas de vítimas durante os 21 anos do Regime Militar. Ele detalhou como descobriu uma maneira de ocultar os cadáveres da esquerda: incinerando os corpos em uma usina de açúcar em campos, no Rio de Janeiro. No programa, Claudio Guerra faz um apelo à Comissão Nacional da Verdade para aprofundar os depoimentos dos envolvidos na repressão. E diz que “não tem como restituir as vidas que foram tiradas, mas pode cooperar com o esclarecimento da verdade e reconhecer que foi um erro. Que não se repita”.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Documentário mostra impunidade como prova da permanência da ditadura no Brasil

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82289


Documentário mostra impunidade como prova da permanência da ditadura no Brasil

Adital
O Documentário "Verdade 12.528”, batizado com esse nome em referência ao número da lei que criou a Comissão da Verdade (12.528/2011), mostra a importância da criação da Comissão para apurar os crimes de tortura e violações ocorridas à época da Ditadura militar brasileira. Apresenta ainda reveladores depoimentos de pessoas que participaram dos conflitos de guerrilha entre militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e as Forças Armadas do Brasil e faz um paralelo da ditadura militar, instalada em 1964, com a ditadura ‘velada’, os preconceitos e a impunidade de crimes cometidos contra a juventude brasileira de hoje em dia.
A liberdade, mesmo que ainda não seja completa, que os jovens têm hoje não foi conquistada tranquilamente, custou vidas de milhares de tantos outros jovens em um passado de apenas 50 anos atrás. O filme surge para relembrar um período lamentável da história do Brasil e mostrar o quão é importante a liberdade de expressão e democracia para que se haja justiça e respeito em uma sociedade.
O documentário mostra que a impunidade ainda faz parte do cotidiano brasileiro e revela que, apesar da abertura democrática, conquistada em 1985, desaparecimentos, torturas, repressão e censura ainda acontecem contra a juventude brasileira, porém, de forma velada. É como revela Paula Sacchetta, codiretora do documentário em declaração: "Não nos importamos com os mortos e desaparecidos políticos? Hoje, somem Amarildos. Não nos importamos com a tortura de presos políticos? Hoje, jovens negros, pobres e da periferia são torturados, todos os dias, da mesma forma. O que buscamos mostrar no filme é exatamente isso: que a impunidade do passado dá carta branca à impunidade do presente''.
Refletir sobre o passado para não repetir as mesmas atrocidades no presente, esta é a proposta do filme. O documentário vem ainda contribuir na tentativa de mostrar a importância da Comissão da Verdade, para que não haja mais crimes de violações de direitos humanos e proporcionar uma reflexão direcionada a um o diálogo aberto e uma abertura democrática de fato.
Para assistir ao trailer do documentário acesse:

Ficha técnica:
Título: Verdade 12.528
Gênero: documentário
Duração: 55 minutos
País: Brasil
Direção e produção: Paula Sacchetta e Peu Robles
Realização: João e Maria.doc

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Napalm no Vale do Ribeira

apublica
http://apublica.org/2014/08/napalm-no-vale-do-ribeira/


Napalm no Vale do Ribeira

por , ,  | 25 agosto, 2014
Documentos, destroços e relatos dos moradores contam uma história obscura da ditadura: em 1970 a FAB bombardeou região rural próxima a São Paulo com bombas incendiárias

Pedro Passos, o seu Pedrico, tem os causos de vida e a memória coalhados de bombas. São os resquícios dos bombardeios realizados em 1970 pela ditadura militar nas matas onde nasceu e se criou, no município de Cajati, Vale do Ribeira, a 200 quilômetros de São Paulo. Ao longo dos anos, encontrou muitos pedaços dessa história que não está nos livros didáticos; da última vez, há cerca de 20 anos, achou uma carcaça da bomba incendiária enquanto roçava um sítio que margeia o Rio do Aleixo: uma chapa de aço, colorida pela ferrugem e pelo musgo, de cerca de 60 x 40 centímetros, em cujo centro um cilindro maciço de metal, de cerca de 5 centímetros de diâmetro, traz o número 528. Em julho deste ano ele guiou a reportagem da Agência Pública até o lugar, onde havia ainda outros achados: pedaços de aço enferrujados, vermelhos, cintas de alumínio contorcidas, mais um cilindro de metal, esse com o número 543. É a primeira vez destroços das bombas de Napalm atiradas pela Força Aérea Brasileira são recolhidos no local. “Eu nunca tinha visto nada parecido”, diz seu Pedrico, com a data da megaoperação militar ainda na cabeça: final de abril até início de maio, 1970.
Identificação de uma das bombas encontradas
Identificação de uma das bombas encontradas
A “Operação Registro” foi a maior mobilização da história do II Exército. Foram empregados 2954 homens, entre membros do Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e pára-quedistas das forças especiais, policias da Policia Militar e Rodoviária de São Paulo e do Dops, além da Marinha para vasculhar a área e capturar 9 integrantes da organização VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) comandados pelo Capitão Carlos Lamarca, que instalou dois centros de treinamento de guerrilha na área.
Como os pedaços de metal esquecidos nas matas do Vale do Ribeira, os pedaços dessa história foram propositalmente relegados ao esquecimento. A Agência Pública encontrou seu Pedrico – e a bomba – enquanto percorria o vale buscando encontrar vestígios do uso de armas químicas após localizar documentos franceses relatando bombardeios de Napalm na região. Encontrou 12 testemunhas dos bombardeios e foi levada por moradores a locais onde ainda se vê crateras feitas pelas bombas atiradas na área.
Procurada pela reportagem, a Força Aérea Brasileira limitou-se a dizer, através de sua assessoria de imprensa: “não temos registros sobre os fatos em tela” (clique aqui para ler).

Segundo o relatório escrito pelo comandante do II Exército, general José Canavarro Pereira – e mantido em segredo até o ano passado (veja aqui) – a FAB participou ativamente da “Operação Registro” através da 1ª Força Aerotática comandada pelo Brigadeiro Hipólito. No dia 20 de abril foram enviados 4 helicópteros, dois deles com poder de fogo, e 4 aviões T-6 “armados”. O relatório menciona ainda aviões B-26, sem especificar o número. Foram eles que se realizaram os bombardeios na região, sem dar nenhuma proteção aos camponeses. A única medida de segurança adotada foi proibi-los de entrar na floresta onde estavam os roçados, a caça e o palmito. “O Exército, eles vieram de carro primeiro”, lembra o sitiante Nelson Vieira, hoje com 68 anos, que ajudou a guiar os soldados pelas trilhas na mata. “Então pra nós aqui eles falaram: ‘Ninguém vai pro sítio. Não vão pra lá que o negócio nós vamos queimar esse mundo aí, porque nos vamos pegar esse povo. Se vocês tiverem lá também vocês vão morrer’”.

 “Foi uma guerra mesmo”

Adilson Vieira Alves tinha 8 anos quando aconteceu a “Operação Registro”. Lembra com exatidão impressionante da primeira vez que viu os monomotores da FAB: “A gente tava carpindo uma roça de alho bem em cima do  morro, meus pais trabalhando e eu brincando. Ai comecei a observar no horizonte uma formação, parecia que era urubu mas não era. Comecei a escutar o barulho do helicóptero, tu tu tu tu, aí comecei a falar pra eles, ‘olha aquelas coisas lá, não é passarinho não’; e o barulho diferente que a gente não era acostumado. Aí veio essa formação do helicóptero, sobrevoou, passou por cima da gente, meu pai falou ‘acho que é coisa grave, é da polícia, acho melhor nós ir embora’. Passaram bem baixinho e logo
Oscar Vieira Alves
Oscar Vieira Alves
em seguida vieram os aviões. Aí os aviões fizeram já esse rasante, e já começaram a jogar bomba, nesse mesmo dia. A gente via que eles faziam assim e começavam a descer. Parecia ovo que eles soltavam… Aí a gente escutava o barulho do estrondo… E não foi um dia só, foi mais de um dia, depois teve outras vezes que eles vieram de novo.”
Seu irmão mais velho, Oscar – que tinha na época 20 anos – completa: “Era um botijão grande que caía, explodia. Era perigoso aquilo, fazia um estrago, cortava árvore dessa grossura, arrancava… Você tá vendo negócio vindo lá de cima, que não tem um lugar certo de cair, aí nos passemos muito medo daquilo, que se um avião deles joga um tanto de coisa lá de cima quem vai saber onde vai cair né? Aí foi a pior parte que nós passemos”, diz. “Era uma guerra mesmo”.

A história que está escrita

É difícil precisar exatamente durante quantos dias as áreas vizinhas ao rancho dos Vieira Alves foram bombardeadas, ou a quantidade exata de bombas que foram lançadas ali.
O mesmo relatório secreto do II Exército relata que a missão maior da FAB era a “inquietação do inimigo através de bombardeios e tiros deRelatorio da Operação Registrometralhadoras”. Mas é econômico ao detalhar os ataques aéreos: no dia 30 de abril de 1970 relata apenas que “a partir de 1030 horas iniciou-se o bombardeio da área com os T6 e B26”; no dia 4 de maio registra que “a partir das 1200 a I FAT bombardeou o centro da área”.
Já no dia 28 de abril, porém, uma terça-feira, o Jornal do Brasil estampava a manchete: “Exército fecha cerco a reduto da guerrilha”. Na reportagem da página 19 relatava: “Desde sexta-feira, aviões da FAB estão lançando bombas incendiárias sobre pontos da floresta na região do Vale do Ribeira onde estariam cerca de 20 guerrilheiros pertencentes à Vanguarda Popular Revolucionária (…). Nos bombardeios, realizados principalmente na área onde se localizam jazidas de minérios, em Cajati, distrito de Jacupiranga, aviões da FAB estariam despejando grande quantidade de Napalm, gasolina gelatinosa incendiária. Os bombardeios começaram na tarde de sexta-feira [dia 24], depois que as LA TIMESforças governamentais conseguiram determinar a área provável da localização dos guerrilheiros, levantada por grupos de reconhecimento dos quais estariam participando civis conhecedores da floresta. A utilização de bombas incendiárias seria a única fórmula encontrada pelos militares para fazer com que os guerrilheiros deixem os seus refúgios, que são de acesso difícil”.
A reportagem repercutiu internacionalmente e no dia seguinte o jornal americano Los Angeles Times publicou a matéria: “Napalm usado em local de esconderijo de rebeldes brasileiros”, dizia o título. O que rendeu queixas dos militares no “Relatório Sucinto da Operação”: “O sigilo das operações foi mantido, impedindo-se a imprensa de penetrar na área, o que não impediu que alguns jornais publicassem informações sobre as operações, mas o DST [destacamento] não tinha atribuição para censurar artigos de jornais em São Paulo, Paraná e Guanabara [Rio de Janeiro]”.
Do outro lado da caçada, o sargento José Araújo Nóbrega, um dos 8 comandados de Lamarca que procuravam escapar do cerco militar, observava de longe as bombas destinadas a eles. “Eu não sei qual era o critério deles. Acho que eles que a imaginavam que gente tava homiziado numa região e eles bombardearam aquela região por suposição, mas a gente havia mesmo passado por ela. Houve um local lá próximo à região ali da capelinha, depois de Cajati, tem um vilarejo lá em cima no alto do morro, que próximo dele eles bombardearam. Eles imaginaram que a gente tivesse lá”.
A região da Capelinha seguiu sendo vasculhada até o dia 9 de maio, quando terminou a primeira fase da Operação Registro. Durante esse período, os militares bloquearam estradas e controlaram vilarejos inteiros, impondo um rígido toque recolher. Também prenderam dezenas de pessoas, entre elas apenas 2 guerrilheiros, o sargento Darcy Rodrigues e José Lavecchia, torturados diante dos agricultores da região (clique aqui para ler mais). Depois, as forças militares seguiram o rastro dos remanescentes até o município de Sete Barras, ao sul do rio Quilombo, região habitada por diversas comunidades quilombolas no limite da atual Reserva Florestal Carlos Botelho. O relatório do II Exército aponta que “as patrulhas foram retiradas da área e a I FAT metralhou e bombardeou a área no dia 29 de maio”.

Desavisados

“Na verdade o povo tava desavisado”, resume Jonas Braz de Oliveira, então presidente da Câmara de Deputados de Sete Barras. “O caso da bomba foi entre a Formosa e a reserva florestal [Carlos Botelho]. Lá sim foi despejado bomba mesmo. Me parece que era para intimidar só, porque numa área de terras de 300 alqueires você ficar jogando bomba, não vai pegar ninguém. Todos nós vimos. Tremia o solo lá”, lembra.
Outros dois guerrilheiros que foram presos na operação, Edmauro Gopfert e o sargento Nóbrega, perderam-se do grupo e foram apanhados nos dias 10Jonas Braz e 11 de maio, bem antes do último bombardeio registrado. No dia 31 daquele mês os 5 membros da VPR que sobraram chegaram à estrada que liga Sete Barras a São Miguel Arcanjo, onde renderam um caminhão do Exército e conseguiram escapar do cerco fugindo em direção a São Paulo – antes, eles mataram um policial, o tenente Alberto Mendes Júnior, num episódio que ficou tristemente notório. Lamarca só seria encontrado – e executado – no ano seguinte, no interior da Bahia.
Mas, apesar do fiasco da “Operação Registro”, o general José Canavarro Pereira escreveu no relatório final: “Conseguimos, de modo magnífico, realizar uma positiva integração do Exército, Aeronáutica e Marinha, reforçando a confiança mútua já existente entre nós. Parece-nos que a Operação Registro deixou um saldo francamente favorável”.

O adido militar francês sabia de tudo

Os adidos militares franceses participavam das reuniões do Estado Maior do Exército e tinham acesso privilegiado às operações militares, segundo arquivos secretos abertos depois de 30 anos na França. Eram amigos e conselheiros dos militares brasileiros, principalmente durante os anos mais duros da repressão – o caso mais notório é do general e instrutor de tortura Paul Aussaresses, conhecido como “o carrasco de Argel” (leia mais aqui).
Assim, enquanto o II Exército tentava distanciar os jornalistas brasileiros do palco dos acontecimentos, o adido Yves Boulnois tinha acesso livre e acompanhou a Operação Registro com muito interesse durante um mês. Em seu informe ao Ministério de Defesa francês, escrito em maio de 1970, descreve tudo o que pôde observar no terreno, incluindo técnicas militares e o material utilizado, já que um dos objetivos dos adidos era vender material bélico da indústria francesa.
No documento secreto de 1970 (veja aqui e aqui), ele descreve: “Unidades do Exército fecharam a zona entre as cidades de Cananeia, Eldorado Paulista, Registro e Iguape (cerca de 2500 km2) para realizar buscas enquanto as unidades aeronavais bombardeavam com explosivos e napalm as zonas menos accessíveis e ajudavam as tropas terrestres com helicópteros equipados com armamentos. A costa estava monitorada pela Marinha enquanto a Polícia Militar controlava todos os veículos e verificava a identidade das pessoas”.
Antes das operações reais, presenciadas por Boulnois, pelo menos 25 adidos militares estrangeiros assistiram, a bordo do Porta-Aviões “Minas Gerais”, uma demonstração do 1º Grupo de Aviação Embarcada com bombardeios de napalm feitos por sete aviões P-16, bimotores destinados à ação anti-submarina, no trajeto entre Rio de Janeiro e Cabo Frio, de acordo com o Jornal do Brasil.
Adidos Militares demonstração Napalm (1)

FAB exibia nossas bombas de Napalm

Mas não foi essa a primeira demonstração de uso napalm pelos militares brasileiros; na verdade, as bombas incendiárias eram usadas em diversas Demonstração Aérea - 2 FAT - com bombas de Napalm (1)exibições aéreas levadas a cabo pela Aeronáutica. Assim, no dia 24 de março de 1970, em cerimônia presidida pelo Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Márcio de Souza e Melo, na abertura das atividades da 2ª Força Aerotática, na base de Santa Cruz (RJ), aviões de caça tipo F-8, TF-7 e TF-33 fizeram bombardeios com tiros terrestres e bombas de napalm, segundo outra reportagem do Jornal do Brasil. Em 19 de outubro do mesmo ano, a FAB fez um “show aéreo” que incluiu um bombardeio simulado na Base Aérea de Fortaleza em comemoração à “Semana da Asa”, atingindo as praias de Mucuripe, Náutico e Diários.
Em 1971, discutia-se abertamente o uso de napalm pela Polícia Federal para erradicar plantações de maconha, segundo informações passadas por fontes militares ao Jornal do Brasil. O caso virou polêmica. Em junho, o diretor-geral da Polícia Federal, o general Nilo Canepa, afirmou em entrevista coletiva que “a destruição maciça das plantações seria um grande passo para a erradicação do mal”. Porém, disse, haveria a dificuldade de serem localizadas com exatidão as plantações. O debate inspirou até mesmo um quadrinho de Henfil. Henfi - Napalm contra plantação de maconha
Meses depois, em outubro de 1971, o JB noticiava que aviões da base aérea de Santa Cruz, no Rio, apoiaram uma operação da policia militar fluminense à caça de uma quadrilha de assaltantes. A “movimentada caçada contou com a utilização de aviões da FAB da Base Aérea de Santa Cruz, que lançaram bombas napalm onde eles estavam escondidos”, dizia a reportagem de 16 de outubro.
O uso de Napalm, naquela época, estavam em voga, segundo levantamento do pesquisador americano Robert Neer no livro “Napalm, an American Biography” (Napalm, uma Biografia americana) publicado pela Universidade de Harvard. Bombardeios de Napalm foram feitos em setembro de 1975 contra guerrilhas no Peru, e em março de 1967 contra a guerrilha de Che Guevara na selva boliviana (pelo menos 150 bombas de 100 e 50 quilos foram fornecidas pelo governo argentino,segundo um informe secreto do Centro de Informações do Exterior, o CIEX ).
Foi apenas em 9 de junho de 1972 que a legendária foto de crianças queimadas por Napalm no Vietnam correu o mundo, gerando uma reação mundial.
No mesmo ano, segundo documentos revelados pela Comissão Nacional da Verdade, a Força Aérea Brasileira bombardeara três áreas com Napalm em repressão à guerrilha do Araguaia. A denúncia já havia sido feita pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho.
Questionada sobre como eram obtidas as bombas usadas pela FAB e quem as fabricava, a assessoria de imprensa respondeu que “por questão de segurança nacional, as informações sobre arsenal são classificadas e, portanto, não podem ser disponibilizadas”.
“O napalm não é muito difícil de produzir, pode ser feito de gasolina ou outra substância baseada em petróleo transformada em gel por diversos químicos diferentes”, explica Robert Neer. O incêndio é provocado pela mistura do napalm com fósforo branco, detonada por um explosivo no interior da bomba. “Nos anos 70 os Estados Unidos haviam tornado pública a fórmula, e portanto muitos exércitos a usavam. Mesmo assim, a fabricação de napalm estava sujeita à patente, que pertence ao governo americano”. A pressão internacional levou – apenas em 1980 – à proibição do uso dessas bombas em áreas civis pela Convenção da ONU sobre Armas Convencionais. O Brasil só assinou a convenção em 1995. Em áreas de combate, elas ainda são permitidas pela legislação internacional.
Como se trata de um petroquímico, explica Robert Neer, o napalm queima prolongadamente e a altas temperaturas – fazendo um grande estrago imediato, mas deixando poucos vestígios com o passar do tempo. “A maior parte do material é queimado, então não há uma contaminação ambiental. Mas para as pessoas que são afetadas diretamente, os efeitos são terríveis, porque o napalm queima até os ossos”.
“Esses fragmentos das bombas confirmam o que sempre foi dito, houve bombardeio em uma região tão perto de São Paulo, fizeram um bombardeio indiscriminado, contra a população local, inclusive”, diz Ivan Seixas, coordenador da Comissão da Verdade Estadual da Assembleia Legislativa de São Paulo.  “Para nós que estamos reparando a verdade é muito importante contar essa história, por mais crua que seja”.

De volta ao Vale

No vale do Ribeira, sem um reconhecimento oficial do Estado brasileiro, os moradores continuam no escuro sobre o perigo a que foram expostos – e sobre o teatro de guerra do qual involuntariamente fizeram parte. Até alguns anos atrás, bombas encontradas no meio da floresta ainda eram usadas pela população desavisada. Uma delas acabou virando enfeite ao lado da cama de Silvio Moreira, o Silvinho: “Ela tava bem enferrujada, não dava pra saber a cor, só a cor do ferro; e tinha um pó branco, parecido com calcário… Peguei aquele material que tava dentro, coloquei fogo para ver se não explodia. Daí de lá eu tinha um carrinho velho, ai trouxe ate em casa, ai eu guardei acho que uns 2 meses, pessoal fala que guardei debaixo da cama, mas deixei num canto, no quarto mesmo”, lembra.
Quem conta sobre outra bomba, que durante meses virou banco à beira do caminho, é Zé Vieira, o melhor contador da Capelinha. “Foi achado duas ali na virada do seu Mané, que ia pro Aleixo. Eles puxaram bem pra a beira da estrada assim, arrastaram, e aí passava nego que ia trabalhar pra lá, sentavam-se nela, na beira da estrada. E nego bêbo, sabe? Chegava lá sentava em cima e acendia um cigarro pra ver se pegava fogo aquilo ali, se pegava fogo aquela desgraça e não pegava, ia embora, êeh!”. A mesma bomba teria sido detonada “pelas autoridades”, mas ninguém sabe precisar direito quando ou por quem. E assim, a História vai virando causo, mais um dos muitos causos da região.

Lembranças do cerco


“Maltrataram” muita gente. “Judiaram” do seu Maneco. Com essas palavras os moradores da Capelinha lembram da atuação do Exército durante o cerco militar que mobilizou quase 3 mil homens para capturar militantes da VPR. “A gente ficou com medo, um pouco. E o pior que ficou com medo que a polícia prendeu a gente, não deixou a gente sair”, conta Oscar Vieira, de 65 anos, cuja história não está registrada em nenhum documento oficial. Ele foi uma das dezenas de pessoas detidas pelos militares durante a primeira fase da operação. Ali, os militares implantaram um verdadeiro estado de exceção. Impediram os moradores de circular livremente pela floresta a menos que tivessem autorização por escrito, e decretaram um “toque de recolher” durante a noite. Os que se atreviam a sair sem permissão eram presos. “Eu fui pego na estrada aqui, na rua. Não tava com arma, com nada. Me pegaram como bandido, daí eu fiquei assustado com aquilo. Ficaram instigando, fazendo pergunta. Fizeram desfeita com a gente, né? Humilharam. Chamaram de vagabundo, ladrão, bandido”, lembra seu Oscar, que por dois dias foi cativo do Exército no acampamento militar montado na Vila Tatu. “Quando eles pegavam a pessoa, eles punham um guarda e não deixavam ela sair. Eram três guardas, dois de um lado e um de outro, tudo armado”. Antes de chegar até o acampamento, na beira da estrada ele sofreu mais “humilhação”: “Apontavam a arma e mandavam calar a boca, atiraram por cima de mim, pra ver se intimidavam. Deram mais ou menos uns 60 tiros de pistola por cima da minha cabeça pra ver se me intimidavam. A casca da bala caia em mim”.

A ação dos militares sobre a população é ainda hoje um dos maiores fantasmas que rondam a história do cerco militar. Para não deixar escapar os guerrilheiros, as detenções eram indiscriminadas, como bem relatou o Jornal do Brasil no dia 5 de maio: “no 17º dia de operações, destinadas a prender os terroristas que pretendiam treinar guerrilhas no vale da Ribeira, já foram detidas mais de 120 pessoas, das quais apenas 23 continuam presas”. Um dos presos era o ex-prefeito de Jacupiranga, Manoel de Lima, proprietário do terreno adquirido pela VPR para implantar campos de treinamento. Figura muito querida na região, seu “Maneco” foi submetido a sessões de tortura durante vários dias. Mas, além dele, não existem mais informações sobre as prisões realizadas, nem sobre quem foi mantido preso. Àquela altura, apenas dois dos guerrilheiros, o sargento Darcy Rodrigues e José Lavecchia, haviam sido efetivamente capturados.

Nelson Vieira, que chegou a ser mateiro do Exército na busca, ainda se lembra do dia em que os dois prisioneiros chegaram ao acampamento militar. “Eles chegavam aqui no pátio, tudo rasgado, aí ponhavam eles no chão assim algemado, com a cara no cascaio ali, ‘ó peguemos mais um aqui’. E iam lá as polícia, pegavam sanduíche e vinham do lado do cara e falavam pra ele, ‘quer um lanche?’, ele virava a cara, chacoalhava a cabeça assim, e falavam ‘táqui o lanche docê’, e péeim com aquela botinona na cara dele. Ai eles comiam o lanche. Dava dó. Era demais a judiação. Batiam demais. Não sei se deram um fim nesse povo”.

As torturas sofridas diante dos moradores foram relatas pelo sargento Darcy Rodrigues no livro “Sargento Darcy, Lugar Tenente da Lamarca”. Antes de chegar à Capelinha, conta, os dois presos foram desfilados nas ruas de Jacupiranga. “Nos fizeram desfilar uns 200 metros pela cidadezinha, sendo que íamos praticamente nus, de ceroulas e os corpos repletos de marcas, visíveis a olho nu, das torturas que havíamos sofrido, em uma cena grotesca e indigna”.  No acampamento militar a tortura prosseguiu. “Éramos mantidos amarrados, deitados ao relento, com os braços e as pernas abertos, estaqueados pelos tornozelos e pelos pulsos. (…) Claro que não podíamos nos mover e nem ao menos virar o corpo. Nessa condição humilhante, degradante para o ser humano, passamos dias imobilizados, sob sol e chuva – na região chove muito, quase que diariamente – expostos aos insetos e a todas as variações de temperaturas”.
Depois de 20 dias, o Exército levantou o acampamento e foi embora de repente, sem dar nenhuma explicação. Seu Nelson resume bem a sensação que ficou pra quem é de lá. “O prefeito [Manoel de Lima] sofreu… Ih, deram choque elétrico para ele contar, mas ele não sabia de nada. Ninguém sabia, porque como vai saber o que eles [a guerrilha] queriam fazer aqui né? Agora o Exército soube direitinho que era outro país que tava tentando entrar aqui e ia atropelar nós daqui”. Ali na Capelinha, a história do Brasil ainda é aquela dos idos de 1970.