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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Um muro para dividir a América

http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=262971

Um muro para dividir a América

160124-Muro
Dois pré-candidatos do Partido Republicano à Casa Branca querem separar seu país do México e de toda América Latina. Por que a ideia, mais que xenófoba, é uma encenação?
Por Camila Balthazar, no Calle2
Uma pequena multidão enfileirou-se em frente ao Flynn Center, em Burlington, a maior cidade do estado americano de Vermont, mesmo com pouco mais de 40 mil habitantes. Nesse dia gelado do inverno no hemisfério norte, 7 de janeiro de 2016, apoiadores e manifestantes disputavam um lugar entre os 1,4 mil assentos na plateia que assistiria ao discurso do pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, de 69 anos.
Às 19h30, quando o empresário de ambições políticas subiu ao palco, com seu terno bem cortado, gravata vermelha – que vez ou outra se reveza com uma versão azul –, e sua vasta cabeleira loura esbranquiçada, os aplausos vieram apenas de apoiadores. Votantes indecisos ou manifestantes foram devidamente impedidos de entrar, segurando cartazes do lado de fora com dizeres como “Deporte Trump!” e “Não se entregue ao medo racista. Refugiados são bem-vindos aqui”.
Do lado de dentro, Donald Trump, conhecido por ser o apresentador da versão estadunidense do reality show “O Aprendiz”, tranquilizava os ouvintes ao repetir sua declaração controversa e um tanto xenófoba. “Não se preocupem. Nós vamos construir o muro”, disse o pré-candidato, seguido por mais aplausos e gritos eufóricos. Ao perceber a animação da plateia, ele prosseguiu: “Esperem um minuto…. E quem vai pagar pelo muro?”, questionou, ouvindo um uníssono “México!” como resposta. Claro que o presidente mexicano Enrique Peña Nieto já se manifestou, dizendo que a afirmação reflete a ignorância, a irresponsabilidade e o desconhecimento de Trump sobre a realidade.
Uma das principais frentes da campanha do bilionário do setor imobiliário, cujo slogan é “Make America Great Again” (algo como “Faça a América grande de novo”), é construir um muro que divide a fronteira sul do país com o México. O assunto não tem nada de inédito. Memórias afiadas devem se lembrar dos anos de 2006 e 2007 e do governo de George W. Bush, quando o então presidente assinou um decreto que autorizava a construção de 1,1 mil quilômetros de proteção ao longo da fronteira de 3,1 mil quilômetros.
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Donald Trump, favorito para disputar a Casa Branca pelo Partido Republicano: uma barreira de 11 mil quilômetros com “um grande portal” no meio
Cercas de concreto foram erguidas, câmaras de vigilância e sensores que detectam calor foram instalados. Emigrantes criaram novas rotas, cavaram novos túneis. O relatório para o ano fiscal de 2016 do U.S. Department of Homeland Security, que protege o território de ataques terroristas e age em caso desastres naturais, prevê um gasto de US$ 3,7 bilhões para manter 21 mil agentes na fronteira e US$ 3,2 bilhões para os 23 mil inspetores nos portos. A região é uma das mais vigiadas do mundo, se considerarmos que se trata de dois países que vivem oficialmente em paz, sem guerras.
Agora Trump pretende fechar qualquer fresta de entrada, preenchendo a fronteira de leste a oeste. No meio dessa obra faraônica, uma imponente porta seria construída para receber “os mexicanos do bem”. “Será um muro com uma porta linda e grandiosa porque queremos que os imigrantes legalizados voltem para o nosso país”, afirmou o pré-candidato. Seu projeto também inclui a deportação dos 11 milhões de ilegais que atualmente moram e trabalham nos Estados Unidos.
Concorrendo à vaga do Partido Republicano com outros 11 candidatos, o nova-iorquino lidera as pesquisas mais recentes e parece ter uma chance real de disputar a corrida pela Casa Branca. De acordo com a CNN, Trump aparecia com 39% das intenções de votos no final de dezembro de 2015, seguido de Ted Cruz (18%), Ben Carso (10%) e Marco Rubio (10%). Seu principal oponente, o senador do Texas, Ted Cruz, também prega a construção do muro e a deportação dos ilegais. Na campanha do segundo colocado, nem os “bonzinhos” terão a chance de voltar. A revelação do candidato oficial do partido só será feita na convenção de Cleveland, marcada para a terceira semana de julho de 2016.
Criança mexicana se encontra com norte-americana na divisa de Tijuana com San Diego
O professor mexicano Javier Urbano Reyes, formado em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma do México, não tem dúvidas de que a história do muro não passa de um grande teatro entre os dois países. Durante uma entrevista em seu escritório na Cidade do México, o especialista em temas de cooperação internacional e migração destacou que o problema migratório é mais complexo do que se imagina.
“Pense: são 11 milhões de ‘indocumentados’, recebendo a metade ou menos de um salário regular pago nos Estados Unidos. Se você calcula por hora, há uma economia de muito dinheiro por dia, por trabalhador. Multiplique esse número por 11 milhões. A isso se chama subsídio econômico. Os Estados Unidos são subsidiados por essa mão-de-obra barata. Já no caso do México, recebemos mais de 24 bilhões de dólares por ano em remessas – dinheiro que só perde para o petróleo e o turismo. Se há uma regularização, os trabalhadores deixarão de enviar dinheiro ao México”, observa.
Com três livros publicados sobre o assunto e experiência com pesquisas de campo na fronteira norte do México, Javier aponta que o imigrante sem documentos e desprotegido da lei é conveniente para os dois países. “México e Estados Unidos brincam com um discurso. Eu finjo que me indigno e fico brabo porque violam os direitos dos emigrantes mexicanos e eles, EUA, fingem que colocam barreiras. O discurso do muro é uma mensagem para eleitores republicanos. Se houvesse interesse em modificar o fenômeno, já teriam feito há muito tempo. A grande potência mundial não pode parar a imigração? Claro que pode”.
A história humana guarda outros muros passados e presentes. Chineses, alemães, israelenses e tantos outros povos do Oriente Médio e do Norte da África, que se protegem com barreiras físicas de inimigos, imigrantes e terroristas. Para o professor Javier, nenhum deles se compara ao que acontece na fronteira sul dos Estados Unidos.

domingo, 5 de abril de 2015

O McDonald's é um das maiores anunciantes na mídia brasileira, logo você não verá nada sobre os abusos trabalhistas nem sobre a greve mundial. 0 A A+

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http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/A-midia-e-a-greve-mundial-no-McDonald-u219s/12/33192

A mídia e a greve mundial no McDonald's

O McDonald's é um das maiores anunciantes na mídia brasileira, logo você não verá nada sobre os abusos trabalhistas nem sobre a greve mundial.


Altamiro Borges
Mike Mozart
Está agendada para 15 de abril uma “greve mundial” contra a rede estadunidense de fast-food McDonald’s. A previsão é de que o movimento tenha a adesão de 200 cidades de 35 países. O motivo é a brutal exploração exercida pela multinacional, que paga míseros salários e adota inúmeras práticas lesivas aos direitos trabalhistas. Os trabalhadores brasileiros participarão da jornada. 

Em meados de março, o sindicato da categoria (Sinthoresp) protocolou uma ação no Tribunal de Justiça do Trabalho de São Paulo exigindo o fim do acúmulo de funções e o pagamento do adicional por insalubridade. Houve protesto dos funcionários na Avenida Paulista e a população foi informada sobre a adesão à “greve mundial”. A mídia privada, porém, não deu maior destaque ao movimento. A multinacional é uma das maiores anunciantes do país, o que explica a cumplicidade da imprensa privada e venal!

A mobilização contra os abusos do McDonald’s tem crescido no mundo inteiro. Ela teve início nos EUA em 2012, quando os funcionários desta e de outras redes de fast-food se reuniram em Nova York para exigir aumento salarial e melhores condições de trabalho. Desde então, outras cidades de várias partes do mundo aderiram aos protestos. O movimento conquistou o apoio de vários sindicatos, de estudantes e até de pastores de igrejas de Nova York, Chicago e Detroit.


Arrogante e truculenta, a direção da multinacional tenta minimizar o impacto das mobilizações. “Esses eventos não são 'greves', mas manifestações organizadas para atrair a atenção da mídia”, afirma Heidi Barker, porta-voz do McDonald's nos EUA. A realidade, porém, é bem diferente, conforme aponta Kwanza Brooks, funcionária da empresa na Carolina do Norte. “Quando nós começamos, poucas pessoas queriam participar. Elas estavam assustadas, com medo de perder o emprego. Mas o movimento está realmente crescendo, e pessoas que não sabiam que nós existíamos, agora sabem”.

Os efeitos da mobilização já se fazem sentir em vários terrenos. Em fevereiro, a multinacional confessou uma queda de 4% nas vendas em suas lojas nos EUA e de 1,7% em sua operação global, segundo reportagem do jornal “The New York Times”. Nas últimas semanas, o comando da “campanha global pelos direitos dos funcionários do McDonald’s” também comemorou outras vitórias parciais. Pela primeira vez na história ocorreu uma audiência do Comitê Nacional de Relações de Trabalho dos EUA em que a empresa foi acusada formalmente por práticas lesivas aos direitos dos trabalhadores e pela repressão à ação sindical. Antes, o órgão responsabiliza apenas os franqueadores da rede.

Já na terça-feira (31), a Comissão Europeia Antitruste solicitou, em Luxemburgo, informações sobre o acordo fiscal feito com o McDonald's em decorrência das denúncias de sindicatos de trabalhadores de evasão da ordem de 1 bilhão de euros entre 2009 e 2013. E no Japão, os investidores de fundos de pensão detentores de ações do McDonald's pediram a troca dos integrantes do conselho da empresa motivados pelas quedas nos resultados da companhia desde uma crise envolvendo o uso de matéria-prima estragada. Todos estes fatos, porém, não geram reportagens e denúncias na mídia “imparcial”. A grana da publicidade justifica a postura mafiosa!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Os sete governos derrubados pelos EUA

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Especial/Golpes/Os-sete-governos-derrubados-pelos-EUA/194/28262


22/08/2013 - Copyleft

Os sete governos derrubados pelos EUA


J. Dana Stuster, do site Foreign Policy
J. Dana Stuster, do site Foreign Policy
A era de golpes apoiados pela CIA despontou de maneira dramática: um general norte-americano viaja até o Irã e encontra “velhos amigos”; dias depois, o Xá ordena que o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh deixe seu cargo. Quando os militares iranianos hesitam, milhões de dólares são injetados em Teerã para corromper os apoiadores de Mossadegh e financiar protestos de rua. Os militares, reconhecendo que a balança do poder começou a pesar mais do outro lado, derrubam o primeiro-ministro, que vive o resto de sua vida sob prisão domiciliar. Este foi, como um documento da CIA atesta, “uma operação norte-americana do começo ao fim”, e um dos muitos golpes apoiados pelos EUA que aconteceram pelo mundo durante a segunda metade do século XX.

Alguns líderes, tanto ditadores quanto eleitos democraticamente, foram pegos em meio ao conflito entre EUA e URSS da Guerra Fria - uma posição que custaria seus postos (e, para alguns, suas vidas) conforme a CIA tentava instalar “seus homens” no comando dos estados. O governo dos EUA reconheceu publicamente algumas dessas ações secretas; na verdade, o papel da CIA no golpe de 1953 tornou-se público esta semana. Em outros casos, o envolvimento da CIA ainda está somente sob suspeita.

O legado do envolvimento secreto dos EUA em sete golpes militares bem sucedidos (para não mencionarmos o número de intervenções militares norte-americanas contra regimes hostis, insurgências apoiadas pelos EUA, e tentativas fracassadas de assassinatos, incluindo o caso do plano para matar Fidel Castro com um charuto explosivo), transformaram a mão secreta dos EUA em um bicho-papão nas tensões políticas de hoje. Mesmo hoje, não obstante a minguante influência dos EUA no Cairo, teorias da conspiração sugerem que tanto a Irmandade Muçulmana quanto o governo militar possuem uma sociedade com os Estados Unidos.

Abaixo, uma breve história dos casos confirmados de golpes apoiados pela CIA espalhados pelo mundo.

Irã, 1953 - Muito se especula sobre o papel da CIA no golpe que instalou, em 1949, um governo militar na Síria. Apesar disso, a derrubada do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh é o primeiro golpe durante a Guerra Fria que o governo dos EUA reconheceu. Em 1953, depois de quase dois anos de governo Mossadegh - durante o qual ele desafiou a autoridade do Xá e nacionalizou a indústria do petróleo iraniana antes operada por companhias britânicas - Mossagedh foi tirado de seu gabinete e preso, passando o resto da vida sob prisão domiciliar. De acordo com documentos da CIA, “foi a possibilidade de deixar o Irã aberto para uma agressão dos soviéticos - quando a Guerra Fria estava em seu auge e os EUA estavam envolvidos em uma guerra não declarada na Coreia contra forças da União Soviética e da China – que nos fez planejar e executar o TPAJAX [nome da operação do golpe]”.

Guatemala, 1954 - Apesar dos EUA no início apoiarem o presidente guatemalteco Jacobo Árbenz - o Departamento de Estado sentia que sua ascensão apoiada num exército armado e treinado pelos EUA seria um trunfo - o relacionamento amargou assim que Árbenz tentou realizar uma série de reformas-agrárias que ameaçavam as posses da empresa norte-americana United Fruit Company. Um golpe em 1954 tirou Árbenz do poder, colocando uma sucessão de juntas militares em seu lugar. Detalhes secretos do envolvimento da CIA na derrubada do líder guatemalteco, que incluíam a equipagem de rebeldes e tropas paramilitares enquanto a marinha dos EUA bloqueavam a costa guatemalteca, vieram à luz em 1999.

Congo, 1960 - Patrice Lumumba, o primeiro primeiro-ministro do Congo (mais tarde, República Democrática do Congo), foi tirado de seu gabinete pelo presidente congolês Joseph Kasavubu em meio a uma intervenção militar do exército belga (apoiado pelos EUA) no país. Era um esforço violentíssimo para manter os negócios belgas depois da descolonização do país. Mas Lumumba manteve uma oposição armada contra os militares belgas e, após se aproximar da União Soviética para conseguir suprimentos, foi alvo da CIA assim que a agência determinou que ele era uma ameaça ao novo governo instalado de Joseph Mobutu. O Church Committee, uma comissão do Senado formada em 1975 para fiscalizar as ações clandestinas da inteligência norte-americana, descobriu que a CIA ''ainda mantinha um contato bastante próximo com os congoleses que expressaram o desejo de matar Lumumba,'' e que ''oficiais da CIA encorajaram e ofereceram ajuda aos congoleses em seus esforços contra Lumumba.'' Depois de uma tentativa interrompida de assassinato de Lumumba, envolvendo um lenço envenenado, a CIA alertou as tropas congolesas da localização do primeiro-ministro deposto, além de indicar as estradas que deveriam ser bloqueadas e as possíveis rotas de fuga. Lumumba foi capturado no final de 1960 e morto em janeiro do ano seguinte. 

República Dominicana, 1961 - A ditadura brutal de Rafael Trujillo - que incluiu a limpeza étnica de milhares de haitianos na República Dominicana e a tentativa de assassinato do presidente da Venezuela - terminou quando ele foi emboscado e morto por dissidentes políticos. Apesar do atirador que matou Trujillo sustentar http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-13560512 que ''ninguém me mandou matar Trujillo'', ele teve apoio da CIA. O Church Committee descobriu que ''apoio material, sendo três pistolas e três carabinas, foi distribuído para vários dissidentes… os oficiais norte-americanos sabiam que os dissidentes pretendiam derrubar Trujillo, provavelmente através de seu assassinato...''

Vietnã do Sul, 1963 - Os EUA já estavam muito envolvidos no Vietnã do Sul em 1963, e seu relacionamento com o líder do país, Ngo Dinh Diem, crescia cada vez mais, com tensões que envolviam a repressão de Diem sobre dissidentes budistas. De acordo com os Pentagon Papershttp://media.nara.gov/research/pentagon-papers/Pentagon-Papers-Part-IV-B-5.pdf, em 23 de agosto de 1963, os generais do Vietnã do Sul que planejavam um golpe contataram oficiais norte-americanos falando sobre seus planos. Depois de algumas dificuldades e um período de indecisão dos EUA, os generais capturaram e mataram Diem com apoio norte-americano em 1º de novembro de 1963. Avalia-se que parte do apoio consistiu em 40.000 dólares de recursos da CIA.

''Para o golpe militar contra Ngo Dihn Diem, os EUA devem aceitar sua parcela de responsabilidade,'' atestam os Pentagon Papers. ''No início de agosto de 1963 nós autorizamos, sancionamos e encorajamos os esforços para o golpe dos generais vietnamitas e oferecemos apoio total para um governo sucessor… nós mantivemos contatos clandestinos com eles durante o planejamento e execução do golpe e solicitamos a revisão de seus planos operacionais, além de sugerir um novo governo.''

Brasil, 1964 - Temendo que o governo do presidente João Goulart transformaria, nas palavras do embaixador norte-americano Lincoln Gordon, ''o Brasil na China de 1960'', os EUA apoiaram o golpe liderado por Humberto Castello Branco, à época chefe do Estado-Maior. Nos dias anteriores ao golpe, a CIA encorajou manifestações contra o governo, assim como proveram combustível e ''armas de origem não-norte-americanas'' àqueles que apoiavam os militares. ''Eu acho que devemos tomar todas as medidas necessárias, e estarmos preparados para qualquer coisa que precisemos fazer,'' disse o presidente Lyndon Johnson a seus conselheiros que planejavam o golpe, de acordo com documentos obtidos pelo National Security Archive. Os militares brasileiros se mantiveram no poder até 1985. 

Chile, 1973 - Os Estados Unidos nunca desejaram que Salvador Allende, o candidato socialista eleito presidente em 1970, assumisse seu posto. O presidente Richard Nixon mandou que a CIA fizesse que a economia do Chile ''gritasse'', e a agência trabalhou com três grupos chilenos, cada um planejando um golpe contra Allende em 1970. A agência foi tão longe a ponto de fornecer armamento, mas os planos foram por terra depois que a CIA perdeu a confiança em seus contatos. As tentativas norte-americanas de destruir a economia chilena continuaram até que o general Augusto Pinochet liderou um golpe militar contra Allende em 1973. O relatório oficial da CIA sobre a tomada do poder em setembro de 1973 aponta que a agência ''estava consciente dos planos de golpe dos militares, possuía relacionamentos para coleta de dados de inteligência com os conspiradores, e - pelo fato da CIA não desencorajar a tomada e até procurar instigar um golpe em 1970 - parecia tolerá-lo.'' A CIA também conduziu a campanha de propaganda de apoio ao novo regime de Pinochet depois que ele tomou posse em 1973, apesar do conhecimento de severos abusos contra os direitos humanos, incluindo o assassinato de dissidentes políticos.

Tradução de Roberto Brilhante

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Em Davos: multinacional Chevron ganha prêmio de pior empresa do planeta

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83826


Em Davos: multinacional Chevron ganha prêmio de pior empresa do planeta

Sergio Ferrari
Adital
Sergio Ferrari*
Da Suíça 
A Declaração de Berna e o Greenpeace outorgaram à Chevron o "Prêmio Vergonha Superlativa”. Os 64 mil votantes vía Internet elegeram a gigante petroleira estadunidense como a pior empresa do planeta, responsável, entre outras coisas, pelo desastre ecológico na selva virgem do norte do Equador. 
Esse premio, acordado na tarde da sexta-feira, 23 de janeiro, na cidade alpina helvética, é o de despedida do "Olho Público”, após 15 anos de existência. O olhar cidadão, crítica contra o poder econômico e político mundial, considera que esse Foro não representa já o lugar mais adequado, nem o prêmio o método mais efetivo de denúncia. 
A partir de maio próximo, as organizações que promoveram até agora o "Olho Público”, se lançarão com outras 50 associações de desenvolvimento, ecológicas, ambientais, de direitos humanos e sindicais, em uma campanha política em favor da Iniciativa Popular "Por multinacionais responsáveis”. 
A mesma tentará com o apoio popular de dezenas de milhares de assinaturas, a aprovação de uma lei que obrigue as multinacionais helvéticas a respeitarem no estrangeiro – especialmente no Sul e no Leste – os direitos humanos e os estandartes meio ambientais, que devem cumplrir na Suíça mesmo. 
Gigante "desumano” 
A organização Amazon Watch batizou a empresa Chevron, com sede em San Antonio, Estados Unidos da América do Norte, pelas contínuas e sistemáticas violações aos direitos humanos e ambientais na Amazônia norte do Equador. 
Segundo a ONG, desde o início de suas ações de exploração na zona (1964) até agora, a Chevron tem o recorde de mais de 50 anos de uma prática imoral e anti-ética, que tem afetado, de maneira direta, as populações assentadas nas províncias de Orellana e Sucumbíos, na selva equatoriana. 
A Amazon Watch recorda que a Chevron Corp. já foi sentenciada pela justiça do Equador a pagar 9,5 bilhões de dólares devido aos danos ambientais provocados por sua má operação, com impactos nefastos na saúde e no bem estar dos povos que habitam as zonas afetadas, ademais das implicações diretas para o aquecimento global e a destruição da Amazônia. 
"Apesar disso, ela tem usado todo o poder econômico e político para fugir da justiça mundial e colocar em andamento todo o sistema de impunidade frente ao abuso das transnacionais, o que tem levado os lutadores indígenas e camponeses equatorianos a recorrerem às Cortes da Argentina, Canadá, Brasil e, inclusive, à Corte Penal Internacional em Haia”, lembra a organização acusadora.

Davos: entre o poder e a denúncia cidadã 
Muitos países destinam menos recursos públicos para educar as crianças dos segmentos mais pobres da população do que aos menores pertencentes às classes mais altas, revela um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância. 
Em alguns casos, a destinação de fundos educativos aos 20% mais ricos chega a ser até 18 vezes maior do que os destinados aos 20% mais pobres, detalha o estudo recentemente elaborado e que foi apresentado no marco do Fórum Econômico Mundial de Davos, realizado na Suíça entre 21 e 24 de janeiro. Este Fórum reúne a cada ano os grandes patrões da economia mundial, assim como representantes de governos e instituições financeiras internacionais. 
O informe do Unicef defende um gasto mais equitativo na educação, chamando os governos a darem prioridade às necessidades das crianças mais marginalizadas. 
A diretora executiva adjunta do Unicef, Yoka Brandt, assinalou que, atualmente, há no mundo bilhões de crianças em idad de assistir ao primária ou secundário e que muitos deles não recebem uma educação de qualidade devido à pobreza, aos conflitos e à discriminação por questões de gênero, discapacidade ou etnicidade. 
"Para mudar essa situação necessitamos revisar a fundo nossas práticas, outorgando mais recursos e distribuindo-os igualitariamente”, apontou. O Unicef indica que faltariam 26 bilhões de dólares para a provisão de educação universal básica em 46 países de renda baixa e alertou que, desde 2009, a assistência oficial à educação diminuiu 10%. Nesse sentido, urgiu governos, doadores e o setor privado a incrementar o gasto em educação e a garantir que os fundos sejam utilizados de maneira inteligente e equitativa.  
A concentração brutal da riqueza 
O documento crítico do Unicef se soma a outras vozes de denúncia sobre a má distribuição dos recursos naturais e da riqueza no mundo. 
Apenas horas antes de ser iniciada a 45ª edição do Fórum Econômico Mundial, a Oxfam Internacional apresentou às personalidades presentes em Davos um estudo que indica que, em 2016, 1% da população mundial acumulará mais riqueza do que os outros 99%. 
O Informe "Insaciável riqueza: sempre mais para os que já têm tudo” mostra que o patrimônio mundial que possui o 1% mais rico do planeta passou de 44%, em 2009, para 48 % em 2014, e superará 50% em 2016. Em 2014, cada membro adulto dessa elite internacional possuía em média 2,7 milhões de dólares. 
Esse pequeno grupo disporá de mais da metade do dinheiro do planeta a partir de 2016, em um marco internacional preocupante, no qual uma de cada nove pessoas carece hoje de alimentos suficientes e mais de 1 bilhão de pessoas vivem com menos de 1,25 dólar por dia.
No ano passado, um informe da Oxfam criou estupor em Davos. Revelava que as 85 pessoas mais ricas contavam com uma riqueza similar à metade mais pobre da população mundial. Em 2015, são 80 os multimilionários que têm o mesmo patrimônio que 3,5 bilhões de pessoas. É significativo recordar que, em 2010, tratavam-se de 388 multimilionários. Em termos absolutos, a riqueza das 80 pessoas mais enriquecidas do mundo duplicou entre 2009 e 2014, ressalta a Oxfam. 
A ONG internacional chama os Estados a adotarem um plano de sete pontos para lutarem contra as desigualdades crescentes. Entre as propostas: terminar com a evasão fiscal das grandes empresas e fortunas; investir em favor da gratuidade e da universalidade dos serviços públicos como a saúde e educação; repartir com justicia a carga fiscal; instaurar um salário mínimo e trabalhar em favor de um salário decente; instaurar uma legislação em favor da igualdade salarial; promover uma política de proteção social que favoreça os mais empobrecidos e internacionalizar e generalizar a luta contra a desigualdade. 
*Sergio Ferrari, en colaboración con E-CHANGER/COMUNDO, organización helvética de cooperación solidaria integrante de la Asociación *Derecho sin Fronteras*

Sergio Ferrari

Colaborador de Adital na Suiça. Colaboração E-CHANGER

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

'EUA, uma nação em declínio': maioria dos estudantes de escolas públicas vive na pobreza

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Especial/Charlie-um-incendio-chamado-seculo-21/-EUA-uma-nacao-em-declinio-maioria-dos-estudantes-de-escolas-publicas-vive-na-pobreza-/187/32685



'EUA, uma nação em declínio': maioria dos estudantes de escolas públicas vive na pobreza

Relatório devastador revela trajetória descendente para a geração atual de alunos. Pesquisadores falam do impacto da pobreza no aprendizado dos alunos.


Jon Queally, Common Dreams
Thomas Hawk
Um novo estudo divulgado na sexta-feira mostra que mais da metade dos estudantes matriculados nas escolas públicas americanas vive na pobreza, um cálculo que o autor do relatório diz colocar os EUA no caminho para o declínio social geral.
 
Publicado pela Fundação Educacional do Sul, a nova análise usou o censo nacional mais recente disponível para confirmar que 51% dos estudantes ao redor das escolas públicas da nação eram de baixa renda em 2013.
 
De acordo com o relatório:
 
Em 40 dos 50 estados, estudantes de baixa renda constituem não menos que 40% de todas as crianças de escola pública. Em 21 estados, crianças que ganhavam almoços gratuitos ou com preço reduzido eram a maioria dos estudantes em 2013.
 
A maior parte dos estados com uma maioria de estudantes de baixa renda é encontrada no Sul e no Oeste. 13 dos 21 estados com uma maioria de estudantes de baixa renda em 2013 localizavam-se Sul, e 6 dos outros 21 estados no Oeste.
 
O Mississippi liderou a nação com a taxa mais alta: 71%, quase 3 em cada 4 crianças de escola pública no Mississippi eram baixa renda. A segunda taxa mais alta da nação foi encontrada no Novo México, onde 68% de todos os estudantes de escola pública eram de baixa renda em 2013.
 
Em adição à documentação do número de estudantes que recebem alguma forma de assistência do governo durante seu dia escolar, incluindo programas chave que oferecem almoços gratuitos ou com preço reduzido, o relatório deixa claro que a pobreza dentre os mais jovens da nação está impactando diretamente e negativamente o aprendizado dos alunos e a habilidade do sistema publico educacional de alcançar sua meta em fornecer educação adequada para todos.
 
“Não podemos mais considerar os problemas e as necessidades dos estudantes de baixa renda simplesmente como uma questão de justiça,” diz o relatório. “Seus sucessos ou falhas nas escolas públicas vão determinar o corpo inteiro do capital humano e do potencial educacional que a nação possuirá no futuro. Sem aprimorar o apoio educacional que a nação fornece aos seus estudantes de baixa renda - estudantes com as maiores necessidades e usualmente o menor apoio - as tendências da última década serão prolongadas para uma nação não em risco, mas uma nação em declínio.”
 
Falando com o Washington Post, Michael A. Rebell da Campanha por Igualdade Educacional na Faculdade de Professores na Universidade de Columbia notou como a taxa de pobreza tem aumentado mesmo com alguns indicadores econômicos tendo melhorado. “Nós sempre sabemos que esta é a tendência, que chegaríamos a uma maioria, mas está aqui mais cedo do que o esperado,” disse Rebell. “Muitas pessoas no topo estão se saindo muito bem, mas as pessoas na base não estão se saindo bem mesmo. Essas são as pessoas que têm mais filhos e que os mandam para as escolas públicas.”
 
As descobertas mais recentes aparecem enquanto o Departamento de Educação e os legisladores no Congresso começam um novo debate acerca da reautorização do Ato da Educação Secundária e Elementar (ASEA), mais conhecido pelas versões atualizadas ou programas apoiados por aquela lei - Nenhuma Criança Deixada Para Trás (NCLB) sob o presidente George W. Bush e o Corrida Para o Topo (RTTT) sob o presidente Obama.
 
Aqueles contrários ao programa, tanto democratas quanto republicanos, por causa de seus testes padronizados buscando um alto rendimento, estão esperando que a reautorização da ASEA seja sua próxima oportunidade para apontar as falhas das solicitas codificadas em ambos NCLB e RTTT.
 
Como Randi Weingarten, chefe da Federação Americana de Professores, disse no inicio da semana passada em resposta a um discurso do Secretário de Educação Arne Duncan: “Qualquer lei que não se refira aos nossos maiores desafios - financiar desigualdade, segregação, os efeitos da pobreza - irá falhar ao tentar transformar as nossas crianças e escolas, que tanto necessitam.”
 
Ela continuou, “a política educacional federal atual - Nenhuma Criança Deixada Para Trás, Corrida Para o Topo e desistências - consagrou um foco no teste, não no aprendizado, especialmente testes com alta participação e as consequências e sanções que surgem disso. Isso é errado, e é por isso que existe uma chamada pela mudança. A estratégia de abandono e a Corrida para o Topo exacerbaram a fixação por testes que foi colocada pela NCLB, permitindo que as sanções e as consequências ofuscassem todo o resto. [Baseado no discurso de Duncan], parece que o secretário queira justificar e consagrar o status quo e isso é preocupante.”
 
Em um artigo para a revista The Nation ano passado, os experts em educação e pobreza Greg Kauffmann e Elaine Weiss descreveram um corpo enorme de pesquisa que mostrou os vários fatores associados com como a pobreza afeta o aprendizado, incluindo: a realização educacional dos “familiares”; como os pais lêem, brincam e respondem às suas crianças; a qualidade do cuidado e da educação antecipados; acesso consistente à serviços de saúde mental e física e alimentos sadios.”
 
O que está faltando do debate amplo, de acordo com Kauffmann e Weis, é a compreensão do “impacto da pobreza concentrada - e da segregação econômica e racial - nas conquistas estudantis” e um contexto muito mais amplo. “É hora de pararmos de ignorar [os impactos da pobreza e da desigualdade educacionais],” eles escreveram. “As ultimas décadas viram a polarização do crescimento de renda, com o 1% do topo colhendo a grande maioria dos ganhos sociais, a classe média diminuindo, e os da base perdendo o chão. Como resultado, a pobreza concentrada é mais potente e relevante do que nunca.”
 
E de acordo com uma análise da SEF pela Education Week, as taxas em crescimento de pobreza dentre os estudantes serão, e deveriam ser, uma parte mais ampla do debate atual sobre políticas de educação:
 
As escolas têm sido confrontadas com os desafios da pobreza por anos, mas cruzar o limiar da maioria certamente cria um ponto de conversação poderoso em debates nos níveis local, estatal e federal sobre assuntos que falam desde igualdade e responsabilidade a apoios estudantis.
 
“Essa pobreza aprofundada irá complicar as discussões políticas sobre como educar os estudantes americanos, como pesquisas anteriores mostraram, os estudante estão em risco acadêmico mais significativo em escolas com 40% ou mais de concentração de pobreza,” escreveu a Education Week quando cobriu as tendências de crescimento da pobreza em 2013.
 
E, como a Rules for Engagement já reportou, famílias pobres estão cada vez mais se mudando para os subúrbios e vivendo em áreas com altas concentrações de pobreza, criando dimensões para o debate.
 
A nova maioria de estudantes de baixa renda é outra realidade para os educadores americanos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Polícia de Miami usa fotos de negros em treinamento

BDF
http://brasildefato.com.br/node/31031


Polícia de Miami usa fotos de negros em treinamento

Site NBC6/Reprodução
Denúncia foi feita por uma sargento que viu uma foto do próprio irmão sendo usada como alvo em treinamento de tiro
16/01/2015
Da Redação
O clima de tensão que ronda os Estados Unidos na questão racial se intensificou, nesta última semana, após a tenente da Guarda Nacional da Flórida, Valerie Deant, denunciar uso de fotos de negros em treinamentos de tiro.
Segundo a tenente, durante seu treinamento em um campo de tiro, ela foi surpreendida ao ver a foto do próprio irmão sendo utilizada como alvo. Deant ainda afirmou que todas as fotos no treinamento "eram de homens negros”.
Segundo o irmão da tenente, Woody Deant, a foto foi tirada no ano 2000, quando esteve preso. "Agora sou um pai, marido, tenho uma carreira, um trabalho", afirmou.
Nesta quinta-feira (15), a polícia de North Miami Beach se pronunciou sobre o caso admitindo o uso das fotos, além de garantir que elas não seriam mais usadas.
No entanto, em entrevista à rede "NBC6" o chefe local J. Scott Dennis, afirmou que nenhuma lei foi violada e que os policiais utilizaram fotos de criminosos tanto negros quanto brancos e hispânicos. "Não houve transgressão de nossas políticas (...). Não haverá medidas disciplinares para os policiais envolvidos nisto", afirmou.
Protestos
Ano passado, uma série de assassinatos de negros por policiais terminou sem punições nos Estados Unidos. As mortes de Michael Brown, Eric Garner, Tamir Rice e Trayvon Martin, por exemplo, foram denunciadas na mídia e nas redes sociais impulsionando diversas manifestações de ponta a ponta do país.
*Com informações da AFP.

domingo, 12 de outubro de 2014

A barbárie nas mídias sociais

oi
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed819_a_barbarie_nas_midias_sociais


A barbárie nas mídias sociais

Por Walter Pincus em 07/09/2014 na edição 819
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 4/10/2014,, tradução de Augusto Calil; título original “A barbárie do Estado Islâmico nas mídias sociais”
 
O Estado Islâmico pratica a barbárie medieval na Síria e no Iraque, mas suas operações globais de mídia são dignas do século 21. O grupo é ativo nas mídias sociais, tem panfletos, revistas semanais ilustradas, outdoors, camisetas, bonés e até escritórios de propaganda na Síria e no Iraque. O Estado Islâmico também expandiu a máquina de mensagens, particularmente depois que os Estados Unidos começaram seus ataques aéreos contra as forças do grupo terrorista no Iraque em 8 de agosto.
A recente produção de vídeos por parte do Estado Islâmico tem sido prodigiosa. As quatro decapitações filmadas com profissionalismo mostrando a morte de dois jornalistas americanos e de um agente humanitário britânico chocaram o mundo. Independentemente do propósito original – supostamente impedir os bombardeios americanos –, elas tiveram como resultado a demanda do público americano por uma resposta imediata contra o Estado Islâmico e o aumento do apoio internacional à decisão do presidente Barack Obama de estender os bombardeios à Síria.
Os vídeos mostrando reféns do EI, com o jornalista britânico John Cantlie, adotam uma abordagem diferente. Neles, o prisioneiro questiona as operações militares do Ocidente contra os muçulmanos. Em dois vídeos de seis minutos, Cantlie descreve a si mesmo como um cidadão britânico abandonado por seu governo e há muito prisioneiro do EI. No primeiro vídeo, Cantlie comenta que o Estado Islâmico negociou a libertação de outros prisioneiros europeus – sem mencionar o pagamento de resgates – enquanto britânicos e americanos se recusaram a fazer acordos. Cantlie critica a intenção dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha de atacar o EI, citando o Vietnã e as recentes críticas à invasão do Iraque promovida pelo primeiro governo de George W. Bush.
O vídeo mais recente é encerrado com Cantlie citando o ex-analista da CIA, Michael Scheuer, que foi diretor da primeira unidade da agência para o combate à Al-Qaeda: os radicais islâmicos “estão mobilizados para o combate desde 1979 e seu movimento nunca foi maior, mais popular e mais bem armado do que hoje”.
Campanha
A produção de vídeos do Estado Islâmico desde junho tem sido muito maior do que essas imagens de prisioneiros que ganham atenção. Há vídeos de recrutamento como “Não há vida sem a jihad”, estrelados por combatentes que falam inglês e pedem às pessoas que se juntem ao movimento, e “Rompendo a fronteira”, mostrando equipamentos e prisioneiros capturados na fronteira entre Iraque e Síria, controlada pelo grupo.
Um documentário de 55 minutos intitulado “Chamas da guerra”, alterna entre a sanguinolência horripilante – soldados do Exército sírio obrigados a cavar as próprias sepulturas e fuzilados em seguida – e imagens de um combatente com sotaque americano explicando por que se juntou ao Estado Islâmico. Há também uma cena na qual um jihadista é morto por uma explosão, recebendo elogios do narrador em inglês, dizendo que os que morrem no campo de batalha “e não afastam o rosto até estarem mortos” são os melhores mártires. Um trailer promove um novo jogo de videogame jihadista no qual o objetivo é atirar nas forças americanas e iraquianas.
O Estado Islâmico parece ter aquilo que um analista de espionagem descreveu recentemente como campanha “fantasticamente” bem pensada para conquistar corações e mentes – e recrutas. A equipe de relações públicas do Estado Islâmico leva grande vantagem na guerra de propaganda, de acordo com analistas de espionagem.
A região é bastante receptiva às mensagens contra o Ocidente e, especialmente, anti-EUA. Em meio ao conflito sectário, à desordem política e anos de desigualdades sociais, eles têm se apresentado habilidosamente como portadores de soluções.
Em um discurso do dia 21 feito pelo principal porta-voz do EI, Abu Muhammad al-Adnani, transmitido em árabe e traduzido em muitos idiomas, Obama é chamado de “mula dos judeus”, e o secretário de Estado John Kerry é chamado de “velhote não circuncisado”. Dirigindo-se aos americanos, Adnani diz: “O EI não declarou guerra contra vocês, ao contrário do que seus governos e sua mídia querem fazê-los acreditar”. Ele acrescenta que os EUA vão “pagar o preço” quando sua economia entrar em colapso e “vocês pagarão o preço quando seus filhos forem enviados para guerrear contra nós e voltarem para vocês como inválidos, dentro de caixões ou traumatizados para sempre”.
“Os americanos “vão pagar o preço ao andarem por nossas ruas, olhando para a esquerda e a direita, temendo os muçulmanos. Não poderão se sentir seguros nem mesmo em seus quartos. Vão pagar o preço quando sua cruzada ruir e nós os atacarmos em sua pátria para que nunca mais possam fazer mal a ninguém.” Ele tem mensagens para o Egito, para os sunitas na Líbia, Tunísia e Iêmen, para australianos e canadenses.
As tentativas dos EUA de responder às mensagens desse tipo enfrentam a mesma dificuldade que Washington encontrou na tentativa de criar parceiros democráticos nos governos da região. O novo governo de Bagdá precisa encontrar uma forma de superar as medidas contra os sunitas e curdos do governo anterior para reconquistar o apoio do povo iraquiano. Na Síria, o desafio é ainda maior.
O presidente Obama disse repetidas vezes que cabe aos iraquianos e sírios vencer a batalha militar em seus territórios. O mesmo vale para a guerra de propaganda.
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Walter Pincus é jornalista do Washington Post

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Casa Branca se mantém na defensiva sobre escândalo de espionagem

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Casa-Branca-se-mantem-na-defensiva-sobre-escandalo-de-espionagem/6/31344


Casa Branca se mantém na defensiva sobre escândalo de espionagem

A Alemanha já tem tomado medidas de contra-espionagem enquanto a CIA mantém silêncio sobre a suspeita de recrutamento de um funcionário alemão.


The Guardian
Downing Street / Flickr
A Casa Branca foi forçada a defender seu relacionamento cada vez mais pesado com Berlim nesta segunda-feira, enquanto a CIA mantinha o silêncio sobre as novas denúncias ligando ela aos escândalos de espionagem envolvendo um oficial de inteligência alemão.
 
A Reuters citou dois oficiais americanos, que falaram na condição de anonimato, e contaram à agência de notícias que a CIA estava envolvida no recrutamento do oficial, um funcionário de 31 anos da Agência de Inteligência Alemã (BND).
 
O oficial foi preso quarta-feira passada sob suspeita de ter vendido documentos secretos a um contato na CIA.
 
A controvérsia tem ameaçado gerar um longo desconforto diplomático entre os dois aliados, pouco tempo depois que a chanceler Angela Merkel revelou que a NSA havia monitorado seu celular, o que causou revolta na Alemanha e também no Capitólio, que solicitou ao presidente Barack Obama que ordenasse o fim da espionagem sobre líderes de nações aliadas.
 
Mas uma longa relutância para discutir assuntos de inteligência em público deixou a administração hesitante quanto a alguma resposta.
 
O porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, declarou que não poderia comentar sobre a prisão de um suspeito de espionagem porque ele não gostaria de interferir em uma “investigação alemã ainda pendente” e porque “isto é um assunto de inteligência que se relaciona diretamente com os EUA.”
 
Mas Earnest parecia admitir que a suspeita por si só já pode ter causado dano na relação dos EUA com Berlim e tentou tranquilizar seu aliado sobre o longo relacionamento entre os dois países.
 
“O relacionamento que os EUA têm com a Alemanha é incrivelmente importante,” declarou Earnest, insistindo que esta era uma parceria “construída baseada no respeito” e “décadas de cooperação e valores compartilhados”.
 
“Todas estas coisas são altas prioridades não somente desta administração mas deste país, então vamos trabalhar com os alemães para resolver esta situação apropriadamente,” declarou durante o briefing diário com os jornalistas na Casa Branca.
 
Foi relatado que a Alemanha estaria considerando aumentar seus esforços de contra-espionagem por causa deste caso com os EUA. As medidas consideradas em resposta ao escândalo incluem monitorar as atividades de inteligência dos aliados da OTAN tais como os EUA, a Inglaterra e a França, assim como expulsar agentes americanos da Alemanha.
 
De acordo com uma reportagem do Bild, o ministro do interior, Thomas de Maizière, enfatizou a necessidade urgente de uma visão de “360 graus” das atividades das agências secretas estrangeiras. O jornal declarou ter obtido um documento interno que descreve “medidas concretas”, se afastando da política de não espionar aliados da OTAN.
 
Questionado sobre a nova política, um porta-voz do ministério do interior alemão não negou as reportagens e disse que “um plano de inteligência eficiente e efetivo contra todos os lados é importante, necessário, e tem de ser melhor organizado do que foi até agora.”
 
Um funcionário da BND que trabalha com suporte técnico em uma unidade que lida principalmente com a proteção de soldados alemães no estrangeiro, é suspeito de ter estabelecido contato com o serviço secreto americano ao contatar a embaixada dos EUA. Ao invés de relatar o contato a seus aliados alemães, suspeita-se que a CIA pagou 25.000 euros por 218 documentos classificados como confidenciais ou ultra-secretos.
 
Em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira, funcionários do governo se recusaram comentar sobre o assunto, mas um número maior de políticos e funcionários de alto escalão expressaram seu desagrado, como um dos membros do partido de Merkel, que sugeriu que os agentes norte-americanos deveriam ser expulsos da Alemanha.
 
“Se for comprovado que o empregado da BND foi de fato instruído por agentes americanos em solo alemão, então seria incompreensível que deixassem que os funcionários dos EUA continuassem a causar danos por aqui” Foi o que Karl-Georg Wellmann do CDU declarou ao Spiegel Online.
 
O presidente alemão, Joachim Gauck, declarou que, se as suspeitas se tornarem verdades, isso equivaleria a “jogar com amizades e alianças próximas”.
 
“Então será necessário dizer basta,” completou.
 
Merkel foi mais cautelosa em sua reação, declarando a uma conferência de imprensa durante sua última viagem à China que “se os relatórios estiverem corretos, então será um caso grave.”
 
Em Washington, o desconforto do governo era evidente. Earnest teve até de esclarecer que seus comentários sobre o assunto não deveriam ser entendidos como uma denúncia do envolvimento dos EUA no caso. Inicialmente questionado se Merkel estava certa de se precaver pois, se as suspeitas forem provadas, isso seria uma “clara quebra de confiança entre aliados”, Earnest respondeu: “isto é obviamente um grande ‘Se’.”
 
Mas quando perguntado se isto era efetivamente uma negação do ocorrido, o portavoz foi forçado a recuar e deixar claro que a Casa Branca não estava dizendo nada para se defender das acusações ainda.
 
“Não foi nada disso,” esclareceu Earnest. “Foi apenas uma observação sobre uma questão que foi baseada inteiramente em uma hipótese."
 
A CIA se recusou a fazer qualquer comentário sobre seu suposto envolvimento nos últimos acontecimentos. Um portavoz, Ryan Trapani, nem mesmo discutiria que agência o diretor John Brennan tinha, como relatou a Reuters, requisitado que desse informações ao Congresso sobre o assunto.
 
Notavelmente, Trapani não negou uma participação da CIA.
 
As fontes do Capitólio desconheciam na segunda-feira qualquer informação que Brennan tivesse oferecido aos legisladores — informações testas que são um método frequentemente usado para neutralizar tensão ou descontentamento entre os congressistas quando se deparam com escândalos em expansão, particularmente sobre agências de espionagem.
 
Qualquer briefing como este viria em um tempo delicado para Brennan. O diretor não tem mais do que ligações rompidas com o comitê de inteligência do Senado e pouco mais de um ano de mandato, graças a sua aspereza em relação a um inquérito do congresso sobre o aparato de tortura da CIA pós-11 de setembro. A administração Obama já espera a desclassificação das informações do inquérito que durou um ano, seguindo um processo de censura imposto pela própria CIA.
 
Outra dificuldade para Brennan com o Congresso é a oposição que a chefe do inquérito, a senadora democrata Dianne Feinstein, manifestou sobre a espionagem da Alemanha. Ano passado, Feinstein vociferou contra o monitoramento de Merkel pela NSA, mesmo tendo apoiado quase todas as outras operações da NSA, incluindo as operações domésticas.
 
Tradução de Roberto Brilhante
Créditos da foto: Downing Street / Flickr