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domingo, 14 de junho de 2015

A nova geopolítica do petróleo

http://outraspalavras.net/capa/a-nova-geopolitica-do-petroleo/


A nova geopolítica do petróleo

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Barack Obama, num de seus diversos encontros com o ditador saudita, Rei Abdullah (falecido em janeiro e substituído por seu irmão Sultan). Riad quer manter Washington no Oriente Médio -- e tem meios importantes para tanto
Obama, num de seus encontros com o ditador saudita, Rei Abdullah (falecido em janeiro e substituído por seu irmão Sultan). Riad quer manter Washington no Oriente Médio — e tem meios importantes para tanto
Para ameaçar a China e manter hegemonia global, Washington desejava recuperar autossuficiência em combustíveis e afastar-se do Oriente Médio. Faltou combinar com a Arábia Saudita
Por Ignacio Ramonet Tradução: Inês Castilho

MAIS, sobre o mesmo tema:
Petróleo: a virada nos mercados globais e o Pré-SalPor que Arábia Saudita, aliada dos EUA, age para derrubar preços do combustível. Como isto afeta Petrobras, em meio à Operação Lava Jato 
Por André Ghirardi

Em que contexto geral desenha-se uma nova geopolítica do petróleo? O país hegemônico, os Estados Unidos, considera a China como a única potência contemporânea capaz, a médio prazo (na segunda metade do século XXI), de rivalizar com ele e de ameaçar sua hegemonia solitária em nível mundial. Por isso, Washington estabeleceu secretamente, desde o princípio dos anos 2000, uma “desconfiança estratégica” com relação a Pequim.
O presidente Barack Obama decidiu reorientar a política exterior norte-americana considerando como critério principal esse parâmetro. Os Estados Unidos não querem encontrar-se de novo na humilhante situação da Guerra Fria (1948-1989), quando tiveram de compartilhar sua hegemonia mundial com outra “superpotência”, a União Soviética. Os conselheiros de Obama formularam essa teoria da seguinte maneira: “Um só planeta, uma só superpotência”.
Em consequência, Washington não deixa de ampliar suas forças e bases militares na Ásia Oriental para tentar “conter” a China. Pequim já constata o bloqueio de sua capacidade de expansão marítima por meio de múltiplos “conflitos de ilhotas” com a Coreia do Sul, Taiwan, Japão, Vietnã, Filipinas… E pela poderosa presença da VIIª frota dos Estados Unidos. Paralelamente, a diplomacia norte-americana reforça suas relações com todos os Estados que possuem fronteiras terrestres com a China (exceto a Rússia). O que explica a recente e espetacular aproximação de Washington com o Vietnã e com a Birmânia.
TEXTO-MEIO
Esta política de atenção prioritária ao Extremo Oriente e de contenção da China só será possível se os Estados Unidos conseguirem afastar-se do Oriente Médio. Neste cenário estratégico, Washington intervém tradicionalmente em três esferas. Em primeiro lugar, no âmbitomilitar. Os EUA encontram-se imersos em vários conflitos, especialmente no Afeganistão contra os talibãs e no Iraque-Síria contra a Organização do Estado Islâmico. Em segundo lugar, no âmbito dadiplomacia, em particular com a República Islâmica do Irã, com o objetivo de limitar sua expansão ideológica e impedir o acesso de Teerã à força nuclear. E, em terceiro lugar, no âmbito dasolidariedade, especialmente no que diz respeito a Israel, para quem os Estados Unidos continuam sendo uma espécie de “protetores em última instância”.
Esta “sobreimplicação” direta de Washington no Oriente Médio (particularmente depois da Guerra do Golfo em 1991) mostrou os “limites da potência norte-americana”, que não pode ganhar realmente nenhum dos conflitos nos quais se envolveu fortemente (Iraque, Afeganistão). Conflitos que tiveram, para os cofres de Washington, um custo astronômico e consequências desastrosas, inclusive para o sistema financeiro internacional.
Atualmente, a Casa Branca tem claro que os Estados Unidos não podem realizar simultaneamente duas grandes guerras de alcance mundial. Portanto, a alternativa é a seguinte: ou os Estados Unidos continuam envolvendo-se no “pantanal” do Oriente Médio, em conflitos típicos do século XIX; ou se concentram na urgente contenção da China, cujo impulso fulgurante poderia anunciar, a médio prazo, a decadência dos Estados Unidos.
A decisão de Barack Obama é óbvia: deve fazer frente ao segundo desafio, pois este será decisivo para o futuro dos Estados Unidos no século XXI. Em consequência, Washington deve retirar-se progressivamente – porém imperativamente – do Oriente Médio.
Aqui se coloca uma pergunta: por que os Estados Unidos envolveram-se tanto no Oriente Médio, a ponto de descuidar do resto do mundo, desde o fim da Guerra Fria? Para esta pergunta, a resposta pode limitar-se a uma palavra: petróleo.
Desde que os Estados Unidos deixaram de ser auto-suficientes, no final dos anos 1940, o controle das principais zonas de produção de hidrocarbonetos converteu-se em “obsessão estratégica” norte-americana. O que explica parcialmente a “diplomacia dos golpes de Estado” de Washington, especialmente no Oriente Médio e na América Latina.
No Oriente Médio, nos anos 1950, à medida em que o velho Império Britânico retirava-se e se reduzia a seu arquipélago inicial, o império norte-americano substituía-o. Para isso, colocou à frente dos países desta região seus “homens”, sobretudo na Arábia Saudita e Irã, principais produtores de petróleo do mundo – junto com a Venezuela, na época já sob controle norte-americano.
Até há pouco, a dependência de Washington em relação ao petróleo e ao gás do Oriente Médio impediu-lhe considerar a possibilidade de se retirar da região. Que mudou então, para que os Estados Unidos pensem agora em fazê-lo? O petróleo e o gás de xisto, cuja produção, por meio do método conhecido por “fracking”, aumentou significativamente no início dos anos 2000. Isso modificou todos os parâmetros. A exploração deste tipo de hidrocarbonetos (cujo custo é mais elevado que o do petróleo “tradicional”) foi favorecida pelo importante aumento do preço do combustível que, em média, superou os 100 dólares por barril entre 2010 e 2013.
Atualmente, os Estados Unidos recuperaram a autossuficiência energética e estão, inclusive, convertendo-se de novo em importante exportador de petróleo. Portanto, já podem considerar, por fim, a possibilidade de se retirar do Oriente Médio, com a condição de garantir rapidamente a cicatrização de algumas feridas que, em alguns casos, datam de mais de um século.
Por esta razão, Obama retirou a quase totalidade das tropas norte-americanas do Iraque e Afeganistão. Os EUA participaram muito discretamente nos bombardeios da Líbia e negaram-se a intervir contra as autoridades de Damasco, na Síria. Por outro lado, Washington busca, em marcha forçada, um acordo como Teerã sobre a questão nuclear, e pressiona Israel para que seu governo caminhe urgentemente a um acordo com os palestinos. Em todos estes movimentos, percebe-se o desejo de Washington de fechar as frentes de guerra no oriente Médio, para esquecer os pesadelos lá vividos e passar a outro cenário, muito mais importante.
Tudo isso se desenvolvia perfeitamente enquanto os preços do petróleo permaneciam altos, cerca de 100 dólares o barril. O preço de exploração do barril de petróleo de xisto, por “fracking” é de aproximadamente US$ 60, o que deixa aos produtores uma margem considerável (entre US$ 30 e 40 o barril).
É aqui que a Arábia Saudita decidiu intervir. Riad opõe-se a que os Estados Unidos retirem-se do Oriente Médio. Sobretudo se Washington estabelecer antes, com Teerã, um acordo sobre a questão nucelar, que os sauditas consideram muito favorável ao Irã. Além disso, segundo a monarquia wahabita, isso exporia os sauditas, e os sunitas em geral, a se converter em vítimas do que chamam de “expansionismo xiita”. É preciso ter em conta que as principais jazidas de petróleo sauditas encontram-se em zonas de população xiita.
Considerando que dispõe das segundas reservas mundiais de petróleo, a Arábia Saudita [e, de longe, as mais facilmente exploráveis (nota da tradução)], decidiu usar o combustível para sabotar a estratégia norte-americana. Opondo-se às consignas da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Riad decidiu, contra toda lógica comercial aparente, aumentar de modo considerável sua produção e provocar, deste modo, a baixa dos preços do petróleo, inundando o mercado de combustível barato. A estratégia deu rapidamente resultados. Em pouco tempo, os preços do petróleo baixaram cerca de 50%. O preço do barril caiu a US$ 40 (antes de subir ligeiramente, aos cerca de US$ 55-60 atuais).
Esta política assestou um duro golpe contra o “fracking”. A maioria dos grandes produtores norte-americanos de gás de xisto está atualmente em crise, endividada e corre risco de quebrar (o que implica uma ameça para o sistema bancário norte-americano que havia oferecido créditos abundantes aos neopetroleiros). A US$ 40 o barril, o xisto já não é rentável. Nem boa parte das escavações profundas “offshore”. Diversas empresas petroleiras importantes já anunciaram que cessarão suas exportações em alto mar porque não são rentáveis – o que provoca a perda de dezenas de milhares de empregos1.
Nos últimos meses, uma vez mais, o petróleo tornou-se menos abundante. Os preços subiram levemente. Mas as reservas da Arábia Saudita são suficientemente grandes para que Riad regule o fluxo e ajuste sua produção de maneira que permita um ligeiro aumento do preço (até 60 dólares aproximadamente), mas sem superar os limites que permitiriam retomar a produção por meio de “fracking” ou na maior parte das jazidas marítimas de grande profundidade. Deste modo, Riad converteu-se no árbitro absoluto em matéria de preço do petróleo (um parâmetro decisivo para as economias de países, entre os quais Argélia, Venezuela, Nigéria, México, Indonésia etc).
Estas novas circunstâncias obrigam Barack Obama a reconsiderar seus planos. A crise do “fracking” poderia representar o fim da autossuficiência de energia fóssil nos Estados Unidos. E, portanto, a volta à dependência em relação ao Oriente Médio (e também à Venezuela, por exemplo). Por enquanto, Riad parece ter ganhado a aposta. Até quando?
1Esta consideração não abrange as reservas de petróleo do pré-sal brasileiro. Lá, as jazidas estão localizadas a enorme profundidade (as sondas precisam ultrapassar entre 120 e 2.200 metros de lâmina d’água, para depois perfurar entre 1.900 e 5.300 metros abaixo do fundo do mar); porém, o volume e concentração do petróleo permitem extração a cerca de 50 dólares por barril, incluídos os custos de operação e a transferência de recursos ao Estado brasileiro. Por isso, a intensa disputa pelo futuro das reservas. Ler, a este respeito, emOutras Palavras, Petróleo: a virada nos preços globais e o pré-sal”, de André Ghirardi. (Nota do editor)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Em Davos: multinacional Chevron ganha prêmio de pior empresa do planeta

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83826


Em Davos: multinacional Chevron ganha prêmio de pior empresa do planeta

Sergio Ferrari
Adital
Sergio Ferrari*
Da Suíça 
A Declaração de Berna e o Greenpeace outorgaram à Chevron o "Prêmio Vergonha Superlativa”. Os 64 mil votantes vía Internet elegeram a gigante petroleira estadunidense como a pior empresa do planeta, responsável, entre outras coisas, pelo desastre ecológico na selva virgem do norte do Equador. 
Esse premio, acordado na tarde da sexta-feira, 23 de janeiro, na cidade alpina helvética, é o de despedida do "Olho Público”, após 15 anos de existência. O olhar cidadão, crítica contra o poder econômico e político mundial, considera que esse Foro não representa já o lugar mais adequado, nem o prêmio o método mais efetivo de denúncia. 
A partir de maio próximo, as organizações que promoveram até agora o "Olho Público”, se lançarão com outras 50 associações de desenvolvimento, ecológicas, ambientais, de direitos humanos e sindicais, em uma campanha política em favor da Iniciativa Popular "Por multinacionais responsáveis”. 
A mesma tentará com o apoio popular de dezenas de milhares de assinaturas, a aprovação de uma lei que obrigue as multinacionais helvéticas a respeitarem no estrangeiro – especialmente no Sul e no Leste – os direitos humanos e os estandartes meio ambientais, que devem cumplrir na Suíça mesmo. 
Gigante "desumano” 
A organização Amazon Watch batizou a empresa Chevron, com sede em San Antonio, Estados Unidos da América do Norte, pelas contínuas e sistemáticas violações aos direitos humanos e ambientais na Amazônia norte do Equador. 
Segundo a ONG, desde o início de suas ações de exploração na zona (1964) até agora, a Chevron tem o recorde de mais de 50 anos de uma prática imoral e anti-ética, que tem afetado, de maneira direta, as populações assentadas nas províncias de Orellana e Sucumbíos, na selva equatoriana. 
A Amazon Watch recorda que a Chevron Corp. já foi sentenciada pela justiça do Equador a pagar 9,5 bilhões de dólares devido aos danos ambientais provocados por sua má operação, com impactos nefastos na saúde e no bem estar dos povos que habitam as zonas afetadas, ademais das implicações diretas para o aquecimento global e a destruição da Amazônia. 
"Apesar disso, ela tem usado todo o poder econômico e político para fugir da justiça mundial e colocar em andamento todo o sistema de impunidade frente ao abuso das transnacionais, o que tem levado os lutadores indígenas e camponeses equatorianos a recorrerem às Cortes da Argentina, Canadá, Brasil e, inclusive, à Corte Penal Internacional em Haia”, lembra a organização acusadora.

Davos: entre o poder e a denúncia cidadã 
Muitos países destinam menos recursos públicos para educar as crianças dos segmentos mais pobres da população do que aos menores pertencentes às classes mais altas, revela um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância. 
Em alguns casos, a destinação de fundos educativos aos 20% mais ricos chega a ser até 18 vezes maior do que os destinados aos 20% mais pobres, detalha o estudo recentemente elaborado e que foi apresentado no marco do Fórum Econômico Mundial de Davos, realizado na Suíça entre 21 e 24 de janeiro. Este Fórum reúne a cada ano os grandes patrões da economia mundial, assim como representantes de governos e instituições financeiras internacionais. 
O informe do Unicef defende um gasto mais equitativo na educação, chamando os governos a darem prioridade às necessidades das crianças mais marginalizadas. 
A diretora executiva adjunta do Unicef, Yoka Brandt, assinalou que, atualmente, há no mundo bilhões de crianças em idad de assistir ao primária ou secundário e que muitos deles não recebem uma educação de qualidade devido à pobreza, aos conflitos e à discriminação por questões de gênero, discapacidade ou etnicidade. 
"Para mudar essa situação necessitamos revisar a fundo nossas práticas, outorgando mais recursos e distribuindo-os igualitariamente”, apontou. O Unicef indica que faltariam 26 bilhões de dólares para a provisão de educação universal básica em 46 países de renda baixa e alertou que, desde 2009, a assistência oficial à educação diminuiu 10%. Nesse sentido, urgiu governos, doadores e o setor privado a incrementar o gasto em educação e a garantir que os fundos sejam utilizados de maneira inteligente e equitativa.  
A concentração brutal da riqueza 
O documento crítico do Unicef se soma a outras vozes de denúncia sobre a má distribuição dos recursos naturais e da riqueza no mundo. 
Apenas horas antes de ser iniciada a 45ª edição do Fórum Econômico Mundial, a Oxfam Internacional apresentou às personalidades presentes em Davos um estudo que indica que, em 2016, 1% da população mundial acumulará mais riqueza do que os outros 99%. 
O Informe "Insaciável riqueza: sempre mais para os que já têm tudo” mostra que o patrimônio mundial que possui o 1% mais rico do planeta passou de 44%, em 2009, para 48 % em 2014, e superará 50% em 2016. Em 2014, cada membro adulto dessa elite internacional possuía em média 2,7 milhões de dólares. 
Esse pequeno grupo disporá de mais da metade do dinheiro do planeta a partir de 2016, em um marco internacional preocupante, no qual uma de cada nove pessoas carece hoje de alimentos suficientes e mais de 1 bilhão de pessoas vivem com menos de 1,25 dólar por dia.
No ano passado, um informe da Oxfam criou estupor em Davos. Revelava que as 85 pessoas mais ricas contavam com uma riqueza similar à metade mais pobre da população mundial. Em 2015, são 80 os multimilionários que têm o mesmo patrimônio que 3,5 bilhões de pessoas. É significativo recordar que, em 2010, tratavam-se de 388 multimilionários. Em termos absolutos, a riqueza das 80 pessoas mais enriquecidas do mundo duplicou entre 2009 e 2014, ressalta a Oxfam. 
A ONG internacional chama os Estados a adotarem um plano de sete pontos para lutarem contra as desigualdades crescentes. Entre as propostas: terminar com a evasão fiscal das grandes empresas e fortunas; investir em favor da gratuidade e da universalidade dos serviços públicos como a saúde e educação; repartir com justicia a carga fiscal; instaurar um salário mínimo e trabalhar em favor de um salário decente; instaurar uma legislação em favor da igualdade salarial; promover uma política de proteção social que favoreça os mais empobrecidos e internacionalizar e generalizar a luta contra a desigualdade. 
*Sergio Ferrari, en colaboración con E-CHANGER/COMUNDO, organización helvética de cooperación solidaria integrante de la Asociación *Derecho sin Fronteras*

Sergio Ferrari

Colaborador de Adital na Suiça. Colaboração E-CHANGER

domingo, 25 de janeiro de 2015

Trabalhadores fazem vigília contra corrupção na Petrobras

bdf
http://www.brasildefato.com.br/node/31074


Trabalhadores fazem vigília contra corrupção na Petrobras

Samuel Tosta/ Agência Petroleira de Notícias

Grupo reivindica pagamento imediato da participação nos lucros dos trabalhadores, além de frisar que os trabalhadores não podem ser lesionados durante as investigações na estatal

20/01/2015
Da Redação
Para mostrar a preocupação com a corrupção a atual situação da Petrobras, trabalhadores da companhia estão fazendo diversas vigílias em frente a unidades da empresa. Na última sexta-feira (16) dezenas deles protestaram na frente do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), que fica no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles reivindicaram pagamento de direitos trabalhistas, como o pagamento PLR aos funcionários, além de pedir pelo fim dos leilões dos campos do pré-sal.
As vigílias foram convocadas pelo Sindipetro-RJ e pela Federação Nacional dos Petroleiros (FNP). Os manifestantes frisam que os trabalhadores não podem ser penalizados por conta das investigações de esquema de corrupção na estatal. “Os trabalhadores da empresa são honestos. A direção da companhia é que precisa responder pela corrupção. Eles têm que arrumar um jeito de pagar em janeiro, como sempre fizeram e em cumprimento a lei 10.101, a PLR dos trabalhadores que sempre corresponderam a expectativa da sociedade, da direção da empresa e do governo”, afirmou Emanuel Cancella, diretor do Sindipetro-RJ e da FNP. 
Além disso, técnicos do Cenpes levantaram a questão de que a estatal deveria investir mais em pesquisa que contribuam para o desenvolvimento com independência da empresa e do país para depender menos de tecnologia estrangeira.
Os trabalhadores farão uma nova vigília nesta quarta-feira (21), a partir das 12h, em frente ao edifício Torre Almirante, que fica no centro da capital carioca. 
Com informações da Agência petroleira de Notícias

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Golpe Modelo e Dívida

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10304:submanchete051214&catid=72:imagens-rolantes


Golpe Modelo e Dívida
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ESCRITO POR ADRIANO BENAYON   
SEXTA, 05 DE DEZEMBRO DE 2014


1. O Brasil vive momento grave, com a grande mídia pedindo golpe de Estado para derrubar a presidenta recém-reeleita.

2. Os golpes em nosso país são recorrentes, e já houve muitos além dos mais conhecidos, que são os de caráter predominantemente militar: 1937, 1945, 1954, 1961 e 1964.

3. O jornalista Luiz Adolfo Pinheiro intitulou seu bom livro, “A República dos Golpes”, publicado em 1993, que abrange somente os anos de Jânio Quadros a Sarney.

4. Não só no Brasil historicamente, mas cada vez mais no mundo atual, os instrumentos principais dos golpes inspirados pelas potências imperiais têm sido instituições civis, como o legislativo e o judiciário.

5. Foi no âmbito da polícia civil que se articulou a conspiração concluída na área militar, que depôs o presidente Vargas em 1954.

6. A famigerada, desde o Estado Novo, Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), chefiada pelo simpatizante nazista, Cecil Borer, foi que armou o atentado da rua Tonelero, envolvendo a guarda pessoal do presidente e a ela atribuindo o crime.

7. O alvo era o próprio major Vaz, para acender a revolta Aeronáutica e na opinião pública, e não Carlos Lacerda, o encarniçado adversário de Vargas, com o simulado e inexistente tiro em seu pé.

8. Por que a DOPS? No auge da Guerra Fria, os nazistas e simpatizantes foram recrutados em massa pelos serviços secretos das potências anglo-americanas, para reprimir os “comunistas”, rótulo ao qual buscavam associar todos os que, como os nacionalistas, desagradassem àquelas potências.

9. Voltemos a 2014: no período eleitoral, delegados da polícia federal, a que se atribui serem simpáticos ao PSDB, vazaram informações do inquérito (operação Lavajato), em que investigam irregularidades em contratos entre a Petrobrás e grandes empreiteiras de obras de infraestrutura.

10. Há poucos dias, acabam de prender executivos dessas empreiteiras, as quais, além de atingidas pelo escândalo, com repercussões sobre futuras contratações, serão provavelmente condenadas ao pagamento de pesadas multas.

11. Desavisados moralistas exultam com essa suposta demonstração de que as instituições do país estejam combatendo eficientemente a corrupção. O PT louva a presidenta por ter sancionado nova lei, que permite agir também contra os corruptores.

12. O povo ilude-se e acredita que seja isso mesmo que está em causa. Desconhece a natureza do jogo prevalecente nas altas esferas do poder, notadamente as do poder mundial. Para isso concorre o tsunami de ignorância gerado pelos investimentos que nela faz a oligarquia concentradora transnacional, há um século.

13. A megacorrupção exercida por essa oligarquia coopta colaboradores em todas as estruturas econômicas e institucionais e, ironicamente, usa, a seu serviço, a corrupção derivada, a de menor porte, aumentada inclusive em decorrência do investimento na anticultura e na destruição dos valores éticos.

14. É essa, a derivada, que aparece, quando sua exposição serve aos objetivos da estratégia imperial, produzindo grande comoção em amplos segmentos da população e desviando o foco dos reais problemas e de suas fontes geradoras.

15. Sem acesso às informações sobre como a oligarquia financeira envolve os poderes constituídos do Estado, infiltrados por seus interesses, o povo concentra seu ódio sobre os corruptos expostos pela corruptíssima grande mídia. Deveria desconfiar de que, se são expostos, é porque são os que estão causando menor dano ao país.

16. Por que as grandes empreiteiras estão sob o fogo da repressão? Elas constituem o principal núcleo de poder econômico no país que ainda não foi controlado pelo capital estrangeiro. São exportadoras de serviços, ocupam pessoal qualificado e se tornaram conglomerados, que investem até mesmo em tecnologia de uso militar.

17. Ademais, o escândalo que domina as atenções envolve também a principal estatal do país, ou seja, uma das poucas empresas gigantes sob controle nacional, apesar de infiltrada por quadros ligados às transnacionais do setor e a bancos da oligarquia financeira anglo-americana.

18. Para fechar, convém ter presente a penetração de ideias e a cooptação por parte de entidades estrangeiras na Polícia Federal, notória desde que a Delegacia Antitóxicos recebe ajuda de sua congênere norte-americana.

19. Não se deveria tampouco ignorar a política das numerosas agências de inteligência dos EUA de atrair as simpatias de quadros das instituições-chave do país, como a Polícia Federal.

20. O foco na corrupção, ignorando a fonte da megacorrupção, é instrumento do poder oligárquico mundial. Em geral, estão alinhados com este, os que mais gritam contra a corrupção.

21. Um dos fatos fundamentais obliterados é que, no âmbito dos carteis financeiros e econômicos, a ética pode ser tema de discurso, mas não faz parte do objetivo central, o poder, nem do objetivo imediato, o lucro, independentemente de como seja obtido.

22. Expor as reais razões do escândalo das relações entre grandes empreiteiras e a Petrobrás não é dizer que nelas houve corrupção. Isso, porém, está sendo usado para favorecer grupos transnacionais, tradicionais comitentes de ‘n’ tipos de corrupção.

23. Entre eles, os permitidos pelas leis e políticas impostas aos países, tais como tolerar as práticas monopolistas e demais formas de abuso do poder econômico.

24. Não menos danoso para o Brasil é ferir de morte as empresas privadas e públicas em que se mantém os últimos bastiões de autonomia tecnológica no país, alvo que é do “apartheid tecnológico”, decorrente de os carteis transnacionais dominarem o mercado, reforçado por acordos internacionais, como o TRIPS no âmbito da OMC.

25. Os promotores da desestabilização da presidenta da República e do golpe em curso são de dois tipos:

a) os colaboradores do sistema imperial, que nos impõe, desde 1954, o modelo de dependência financeira e tecnológica, e utilizam hipocritamente o pretexto da moralidade para desnacionalizar e desindustrializar ainda mais a economia;

b) os enganados pelo alienado discurso moralista e são arregimentados para solidarizar-se com a repressão destinada a eliminar as empreiteiras e acabar de desnacionalizar a Petrobrás.

26. Isso não significa que não se deva expurgar da estatal seus quadros corruptos. Se isso for feito, como se deve, vai-se notar que a maior parte deles é ligada a grupos e a interesses das transnacionais estrangeiras, lá colocados.

27. Isso ocorreu principalmente no governo anti-pátria de FHC, e a maior parte dos corruptos permaneceu na Petrobrás e na ANP, nos governos petistas, conciliadores em relação àqueles grupos. Esse é o caso, inclusive, do pivô do escândalo, o delator premiado.

28. Enquanto a operação Lavajato ocupa o centro das atenções, e avança em direção favorável ao objetivo de enfraquecer o já fragilizado poder econômico nacional, são esquecidas as causas fundamentais dessa fraqueza.

29. Estas se situam no binômio modelo pró-imperial-endividamento público. A propósito, o Brasil está com déficit recorde no balanço de transações correntes com o exterior: US$ 85 bilhões por ano.

30. Essa sempre foi a causa do crescimento da dívida externa, desde que JK (1956-1960) aplicou a política entreguista do golpe udenista-militar de 1954, que cumulou de favores os carteis transnacionais para monopolizarem os mercados industriais do país.

31. A dívida externa ascendeu a U$ 541,42 bilhões, em agosto último (R$ 1,4 trilhão, ao câmbio atual). A dívida pública interna, a R$ 3,067 trilhão.

32. O serviço da dívida (juros e amortizações) consome 42% das despesas da União, e realimenta-se com as taxas de juros absurdamente altas e que, por isso, não podem ser pagas só com recursos dos tributos.

33. A parte do serviço da dívida que o Tesouro paga com as receitas corresponde ao “superávit primário”. Elaborei uma tabela, no programa Excel, lançando o montante da dívida pública interna em 1994, e taxa de juros de 3% ao ano.

34. Por que 3% ao ano? Essa taxa supera a de muitos países, e não há base para a ideia, sempre impingida ao público, de que se tem de combater a inflação com juros elevados.

35. No Brasil, os preços são altíssimos, porque os carteis impõem os que desejam, mais ainda que em outros países. Fosse outra a política, a inflação seria moderada, e não ficaria ao sabor de farsas, como a do Plano Real.

36. Além dos juros 3% ao ano, inseri na tabela os montantes do superávit primário, para resgatar dívida, implicando que não haveria novas emissões de títulos para isso.

37. Resultado: mesmo sem superávit primário de 1995 a 1997, pois ele só ocorreu em 1994 e de 1998 a 2001, a União já teria eliminado a dívida interna, e sobrariam R$ 22 bilhões, em 2001.

38. Ora, com as absurdas taxas de juros comandadas pelo cartel dos bancos e cumpridas pelo BACEN, e, apesar de superávits primários totalizando, de 2002 a 2013, em valores correntes, R$ 1,082 trilhão, a dívida interna cresceu para quase R$ 3 trilhões.


Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Comunidades ameríndias do Equador sofrem com derrame de petróleo

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81571

Comunidades ameríndias do Equador sofrem com derrame de petróleo

Adital
Após desastre ambiental, cometido pela empresa Petroamazonas EP no Rio Aguarico, um curso de água que se estende ao longo de 390 quilômetros pelos territórios de Peru e Equador, uma comissão do coletivo YASunidos, movimento apartidário, autônomo e autogestor formados por diversos setores sociais, fez um percurso ao longo do local para averiguar a extensão dos impactos e verificar as condições da população atingida.
O rio sofreu um derramamento de petróleo no último dia 02 de julho, deixando pelo menos 10 comunidades sem acesso a água para atividades de pesca, cultivo, consumo e higiene, no estado equatoriano de Sucumbíos. Segundo o coletivo, durante o trajeto, desde a comunidade Dureno até a Zócalo, situada na Reserva de Produção Faunística Cuyabeno, vários moradores pertencentes às etnias ameríndias cofán, kichwa e siona apontaram a presença de grandes manchas de petróleo bruto em pelo menos três pontos distintos.
Mesmo com esforços de limpeza e recolhimento da substância por equipes de operários e de proteção, que tentam retirar o petróleo com recursos manuais, quase duas semanas depois do desastre já se observam efeitos na vegetação e praias de água doce, próximas às comunidades indígenas. Depoimentos de moradores dão conta de que este talvez seja o maior derrame de petróleo ocorrido nos últimos 20 anos, assinalando que a quantidade de material entornado nas águas poderia superar 10 mil barris de petróleo.
O Estado de Sucumbíos é um dos principais do Equador na produção de petróleo para exportação e o Rio Aguarico é uma de suas mais importantes paisagens amazônicas. Segundo o YASunidos, um funcionário da Petroamazonas EP, empresa pública equatoriana de exploração e exportação de hidrocarbonetos no local, responsável pelo ocorrido, ao ser consultado de maneira extraoficial sobre a proporção do derrame, teria admitido que a quantidade se aproximaria a 15.700 barris de petróleo bruto.
Ribeirinhos, em depoimento ao YASunidos, avaliam que a resposta da empresa frente ao desastre tem sido insuficiente, além da presença do Ministério do Ambiente do Equador ter sido "praticamente nula”. "Com relação à Petroamazonas EP, a empresa não tem facilitado informação sobre os impactos que supõe o evento para a saúde das populações e as precauções que devem tomar as comunidades frente a isso. A presença da Petroamazonas EP tem se limitado à entrega de ‘kits alimentícios’ em conjunto com um comitê de crise formado pelos governos locais”, resume o YASunidos.

Moradores da zona atingida indicam que as equipes de relações comunitárias da petrolífera oferecem um trabalho temporário de limpeza como única forma de compensação social às comunidades impactadas, além de não assumir publicamente a responsabilidade pela lesão socioambiental. Já com relação ao Ministério, testemunhos de autoridades locais paroquiais apontam que o órgão não deslocou pessoal para a área a fim de constatar a magnitude do desastre e avaliar as medidas necessárias para a contenção dos efeitos.
Danos ambientais, sociais e culturais
A Petroamazonas EP aconselha que os povos ribeirinhos não utilizem da água por até dois anos. Somando à importância para as comunidades locais em atividades de pesca, abastecimento e cultivos, sendo a água fonte segura e não contaminada, o Rio Aguarico possui grande valor cultural para povos, como o cofán, sendo referência na história de sua origem e expansão.
De acordo com o YASunidos, anteriormente a esse novo fato, a exploração da petroleira estadunidense Texaco já teria afetado gravemente uma relação sagrada da população com o rio, executando um sistemático processo de expropriação de seu valor simbólico e prático como fonte de vida para o povo cofán. "Não é admissível que a operação da Petroamazonas EP contribua para aprofundar, novamente, esse processo de separação, exclusão e despojo das comunidades, em um momento em que os cofán tentam reconstruir suas relações com o território e os elementos que nele dão vida”, protesta o coletivo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Uma alimentação dependente do petróleo

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530994-uma-alimentacao-dependente-do-petroleo
Nós comemos petróleo, mesmo que não percebamos. O atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos é dependente do “ouro negro”. Sem petróleo não poderíamos comer tal qual o fazemos atualmente. Todavia, frente a um cenário no qual será cada vez mais difícil extrair petróleo que também será cada vez mais caro, como iremos nos alimentar? Essas são algumas reflexões que Esther Vivas, espanhola, ativista e escritora de diversos livros sobre movimentos sociais e consumo responsável, apresenta nesse artigo, publicado por El Publico, 05-05-2014. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
A agricultura industrial nos tornou dependentes do petróleo. Desde o cultivo, a colheita, a comercialização até o consumo, ele tornou-se uma necessidade. A revolução verde, as políticas que diziam que iriam modernizar a agricultura e acabariam com a fome, e que foram implementadas entre os anos 40 e 70, nos transformaram em “junkies” (dependentes) deste combustível fóssil, em parte graças a seu preço relativamente barato. A mecanização dos sistemas agrícolas e o uso intensivo de fertilizantes e pesticidas químicos são o melhor exemplo de tal cenário. Estas políticas significaram a privatização da agricultura, deixando-nos, agricultores e consumidores, nas mãos de poucas empresas do agronegócio.
Apesar de a revolução verde insistir que aumentaria a produção de comida e, como consequência, iríamos ter o fim da fome, na realidade não observou-se esse resultado. Por um lado, sabemos que a produção por hectare cresceu. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), entre os anos 70 e 90, o total de alimentos per capita a nível mundial subiu cerca de 11%. Contudo, isto não repercutiu, como assinala Jorge Riechmann em sua obra “Cuidar la (T)tierra’”, em uma diminuição real da fome, já que o número de pessoas famintas no planeta, nesse mesmo período e sem contar a China, cuja política agrícola, regia-se em outros parâmetros, ascendeu, também em 11%, isto é dos 536 milhões para os 597.
Em troca, a revolução verde teve consequências muito negativas para pequenos e médios agricultores e para a segurança alimentar em longo prazo. Concretamente, o poder das empresas agroindustriais aumentou em toda a cadeia produtiva, provocando a perda de 90% da agro e biodiversidade, reduzindo-se massivamente o nível freático, aumentando-se a salinização e a erosão do solo, e deslocando milhares de agricultores do campo para cidades miseráveis, desmantelando os sistemas agrícolas tradicionais e nos tornando dependentes do petróleo.
Uma agricultura “junkie”
A introdução da maquinaria agrícola em grande escala foi um dos primeiros passos. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 1850, como indica o informe Food, Energy and Society, a tração animal era a principal fonte de energia no campo e representava cerca de 53% do total, seguida da força humana, com cerca de 13%. Cem anos mais tarde, em 1950, ambas somavam apenas 1% frente à introdução das máquinas de combustível fóssil. A dependência da maquinaria agrícola (tratores, colheitadeiras, caminhões,...), cuja necessidade atual em grandes plantações e monocultura é enorme. Desde a etapa de produção, a agricultura está “viciada” no petróleo.
O sistema agrícola atual, com o cultivo de alimentos em grandes estufas, independente da temporalidade e o clima mostra que, mesmo assim, a necessidade de derivados de petróleo e o consumo energético ainda são elevados. Desde mangueiras passando por contêineres, acolchoados, malhas até o teto e cobertas, tudo é de plástico. O Estado espanhol, de acordo com os dados do Ministério da Agricultura e Meio Ambiente, está no centro do cultivo com o plástico na Europa mediterrânea com 66 mil hectares cultivados, a maior parte em Andaluzia e, em particular em Almería, seguida, mais distantemente, de Múrcia e das Ilhas Canárias. E, o que fazer com tanto plástico uma vez que sua vida útil chega ao fim?
O uso intensivo de fertilizantes e pesticidas químicos são uma mostra a mais da dependência do modelo alimentar do petróleo. A comercialização de fertilizantes e pesticidas aumentaram em 18% e 160% entre os anos de 1980 e 1998, respectivamente, de acordo com o relatório Eating oil: food suply in a changing climate. O sistema agrícola dominante necessita de altas doses de fertilizantes elaborados com petróleo e gás natural, como amoníaco, ureia etc., que substituem os nutrientes do solo. Multinacionais petroleiras, como RepsolExxon MobileShellPetrobrás contam em suas carteiras com os investimentos em produção e comercialização de fertilizantes agrícolas.
Os pesticidas químicos de síntese são outra fonte importante de dependência deste combustível fóssil. A revolução verde, como analisávamos, generalizou o uso de pesticidas e, em consequência, a necessidade de petróleo para elabora-los. E tudo isto, sem mencionar o impacto sobre o meio-ambiente que tais agrotóxicos, a contaminação e o esgotamento de terras e de águas, além das consequências para a saúde de campesinos e consumidores.
Alimento viajante
Observamos a necessidade de petróleo, assim como, das longas viagens que os alimentos realizam: desde o local de seu cultivo até o lugar em que serão consumidos. Calcula-se que a comida viaja em média cinco mil quilômetros do campo até o prato, segundo o informe dos Amigos da Terra, com o hidrocarboneto necessário e impacto ambiental consequente. Estes “alimentos viajantes”, de acordo com tal informe, geram quase cinco milhões de toneladas de CO2 ao ano, contribuindo para o agravamento da mudança climática.
A globalização alimentar, em sua corrida para obter o máximo benefício, desloca a produção de alimentos, como o fez com tantos outros âmbitos da economia produtiva. Ela produz-se em grande escala nos países do Sul, aproveitando-se de condições de trabalho precárias e da legislação ambiental inexistente e, posteriormente, vende sua mercadoria na Europa a um preço competitivo. Ou produz ao Norte, graças a subvenções agrárias que estão nas mãos de grandes empresas, para depois comercializar as tais mercadorias subsidiadas na outra ponta do planeta, vendendo abaixo do preço do custo e fazendo uma concorrência desleal à produção interna. Aqui reside o porquê dos alimentos “quilométricos”: o máximo benefício para alguns poucos e a máxima precariedade, pobreza e contaminação ambiental para a maioria.
No ano de 2007, o Estado espanhol importou mais de 29 milhões de toneladas de alimentos, cerca de 50% a mais que em 1995. Três quartos foram cereais, preparados de cereais e alimentos para o gado industrial, a maior parte vinda da Europa, América Central e do Sul, como indica o relatório Alimentos Quilométricos. Inclusive os alimentos típicos, como o grão de bico ou o vinho, acabaram sendo consumindo a milhares de quilômetros de distância. Cerca de 87% do grão de bico que comemos na Espanha vem do México, no estado Espanhol seu cultivo caiu progressivamente. Qual é o sentido de tal atividade internacional tão intensa, a partir de um ponto de vista social e meio-ambiental? Nenhum.
Uma comida típica dominical na Grã Bretanha, ou as batatas da Itália, cenouras da África do Sul, feijões da Tailândia, vitela da Austrália, brócolis da Guatemala e o morango da Califórnia e uvas da Nova Zelândia como sobremesa geram, de acordo com o relatório Eating oil: food suply in a changing climate, 650 vezes mais gases de efeito estufa, devido ao transporte, do que se tal comida tivesse sido cultivada e comprada localmente. O total de quilômetros que o conjunto destes “alimentos viajantes” somam do campo até a mesa é de 81 mil, o equivalente a duas voltas inteiras no planeta terra. Algo irracional se tivermos em conta que muitos destes produtos também são cultivados no próprio território.  A Grã Bretanha importa grandes quantidades de leite, de porco, cordeiro e outros alimentos básicos, apesar de exportar quantidades similares dos mesmos. Na Espanha, ocorre o mesmo.
Comendo plástico
E uma vez que os alimentos chegam ao supermercado, o que ocorre? Plástico e mais plástico, com derivados do petróleo. Assim, encontramos uma embalagem primária que contém o alimento, uma embalagem secundária que permite uma exibição atrativa no estabelecimento e, finalmente, sacolas para levá-lo do “super” a casa. Na Catalunha, por exemplo, dos quatro milhões de toneladas anuais de resíduos, cerca de 25% correspondem a sacos de embalagens de plástico. Os supermercados embalam tudo, a venda a granel é algo do passado. Um estudo encomendado pela Agência Catalã do Consumo, concluiu que comprar no comércio local gera cerca de 69% a menos de resíduos do que um supermercado ou  uma grande área.
Uma anedota pessoal ilustra bem esta tendência. No início, as casas compravam a água engarrafada, em grandes garrafas de vidro de oito litros, hoje quase toda a água que é comercializada está engarrafada em embalagens plásticas. E está na moda, inclusive, compra-las em “packs” de seis unidades de um litro e meio. Não é de estranhar, pois, que dos 260 milhões de toneladas de resíduos plásticos no mundo, a maior parte seja de recipientes de água ou leite, como indica a Fundação Terra. O Estado espanhol, de acordo com a fonte, é o principal produtor na Europa de sacolas plásticas de apenas um uso e o terceiro consumidor. Calcula-se que a vida útil de uma sacola plástica é de 12 minutos em média, contudo sua decomposição pode demorar cerca de 400 anos. Então, tirem suas próprias conclusões.
Vivemos em um planeta de plástico, como retratou brilhantemente o austríaco Werner Boote em seu filme “Plastic Planet” (2009), no qual afirmava: “A quantidade de plástico que temos produzido desde o início da era do plástico é suficiente para circular até seis vezes o planeta com sacolas”. E não é só isso, que impacto há na saúde essa onipresença em nossa vida cotidiana? Um depoimento em tal filme dizia: “Comemos e bebemos plástico”. E isto, como denuncia o documentário, tarde ou cedo, nos trará a fatura.
A grande distribuição não apenas generalizou o consumo de grandes quantidades de plástico como, também, do uso do carro para ir às compras. A proliferação de hipermercados, grandes armazéns e centros comerciais na periferia das cidades forçou o uso de carros particulares para deslocar-se até estes estabelecimentos.  Ao tomarmos a Grã Bretanha como exemplo, e como indica o relatório Eating oil: food suply in a changing climate, entre os anos de 1985/86 e 1996/98 o número de viagens na semana, por pessoa, para fazer compras com o carro passou de 1,7 para 2,4. O total da distância percorrida também aumentou, dos 14 km por pessoa na semana, para 22 km, um aumento de 57%. Mais quilômetros, mais petróleo e mais CO2, em detrimento, além de tudo, do comércio local. Se no ano de 1998 existiam no Estado espanhol 95 mil estabelecimentos, em 2004 este número foi reduzido em 25 mil.
O que fazer?
De acordo com a Agência Internacional da Energia, a produção de petróleo convencional alcançou seu pico em 2006. Em um mundo onde o petróleo é escasso o que e como vamos comer? Em primeiro lugar, é necessário ter em conta que enquanto maior for da agricultura industrial, intensiva, quilométrica, globalizada, maior será a dependência do petróleo. Em contramão, quanto mais estivermos em um sistema de pequena agricultura, agroecológica, local, de temporada, menor será a “dependência” dos combustíveis fósseis. A conclusão, creio, é óbvia.
É urgente apostar em um modelo de agricultura e alimentação antagônico ao dominante, que coloque no centro as necessidades da maioria e do ecossistema. Não se trata de uma volta romântica ao passado, mas da necessidade urgente de cuidar da terra e garantir a comida para todos. Ou apostamos na mudança ou, quando não houver mais remédio, outros farão, como tantas vezes, negócio com nossa miséria. Não deixemos que a história se repita.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O jogo pesado: tirar a Petrobras de campo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/O-jogo-pesado-tirar-a-Petrobras-de-campo/30546


O jogo pesado: tirar a Petrobras de campo

O caso Pasadena pode ser tudo menos aquilo que alardeia a sofreguidão conservadora. O alvo é: espetar na Petrobras a prova da presença do Estado na economia.

por: Saul Leblon 

Arquivo

O caso Pasadena pode ser tudo menos aquilo que alardeia a sofreguidão conservadora.

Pode ser o resultado de um ardil inserido em um parecer técnico capcioso. Pode ser fruto de um revés de mercado impossível de ser previsto, decorrente da transição desfavorável da economia mundial; pode ser ainda  –tudo indica que seja--  a evidência ostensiva da necessidade de se repensar um critério mais democrático para o preenchimento de cargos nas diferentes instancias do aparelho de Estado.

Pode ser um mosaico de  todas essas coisas juntas.

Mas não corrobora justamente aquela que é a mensagem implícita na fuzilaria conservadora nos dias que correm.

Qual seja,  a natureza prejudicial da presença do Estado na luta pelo desenvolvimento do país.

Transformar a história de sucesso da  Petrobrás em um desastre de proporções ferroviárias é o passaporte para legitimar a agenda conservadora nas eleições de 2014.

Ou não será exatamente o martelete contra  o ‘anacronismo intervencionista do PT’  que interliga as entrevistas e análises de formuladores e bajuladores das candidaturas Aécio & Campos? (Leia neste blog ‘Quem vai mover as turbinas do Brasil?’)

Pelas características de escala e eficiência, ademais da  esmagadora taxa de êxito que lhe é creditada – uma das cinco maiores petroleiras do planeta, responsável pela descoberta das maiores reservas  de petróleo do século XXI--  a Petrobrás figura como uma costela de pirarucu engasgada na goela do mercadismo local e internacional.

Ao propiciar ao país não apenas a autossuficiência, mas a escala de descobertas que encerram o potencial de um salto tecnológico, capaz de contribuir para  o impulso industrializante de que carece o parque fabril do país, a Petrobrás reafirma a relevância insubstituível da presença estatal na ordenação da economia brasileira. 

Estamos falando de uma ferramenta da luta pelo desenvolvimento. Não de um conto de fadas.

Há problemas.

A empresa tem arcado com  sacrifícios equivalentes ao seu peso no país.

Há dois anos a Petrobrás vende gasolina e diesel por um  preço 20% inferior ao que paga no mercado mundial.

Tudo indica que a cota de contribuição para mitigar as pressões inflacionárias decorrentes  de choques  externos e  intempéries climáticas tenha chegado ao limite.

Mas  não impediu que a estatal fechasse 2013 como a petroleira que mais investe no mundo: mais de US$ 40 bilhões/ano: o dobro da média mundial do setor.
Ademais, ela é campeã mundial no decisivo quesito da  prospecção de novas reservas.

Os números retrucam o jogral do ‘Brasil que não deu certo’.

O pré-sal já produz  405  mil barris/dia.

 Em quatro anos, a Petrobras estará extraindo 1 milhão de barris/dia da Bacia de Campos.

Até 2017, ela vai investir US$ 237 bilhões; 62% em exploração e produção. Em 2020, serão 2,1 milhões de barris/dia.

Praticamente dobrando  para 4 milhões de barris/dia a produção brasileira atual.

O conjunto explica o interesse dos investidores pela petroleira verde-amarela que está sentada sobre uma poupança  bruta formada de 50 bilhões de barris do pré-sal.

Mas pode ser o dobro disso;  os investidores sabem do que se trata e com quem estão falando.

Há duas semanas, ao captar US$ 8,5 bi no mercado internacional, a Petrobrás  obteve oferta de recursos em volume  quase três vezes superior a sua demanda.

O marco regulador do pré-sal --aprovado com a oposição de quem agora agita a bandeira da defesa da estatal–- instituiu o regime de partilha e internalizou o comando de todo o processo tecnológico, logístico, industrial, comercial e financeiro da exploração dessa riqueza.

Todos os contratados assinados nesse âmbito passam a incluir cláusula obrigatória de conteúdo nacional nas compras, da ordem de 50%/60% , pelo menos.

Esse é o ponto de mutação da riqueza do fundo do mar em prosperidade na terra.

Toda uma cadeia de equipamentos, máquinas, logística, tecnologia e serviços diretamente ligados, e também externos, ao ciclo do petróleo será  alavancada nos próximos anos.

O conjunto pode fazer do Brasil um grande exportador industrial inserido em cadeias globais de suprimento e inovação  –justamente o que falta ao fôlego do seu desenvolvimento no século XXI.

É o oposto do projeto subjacente ao torniquete de manipulação e  engessamento que se forma em torno da empresa nesse momento.

Para agenda neoliberal não faz diferença  que o Brasil deixe de contar com uma alavanca industrializante com as características reunidas pela Petrobrás.

Pode ser até bom.

O peso de um gigante estatal na economia atrapalha a ‘ordem natural das coisas’ inerente à dinâmica dos livres mercados, desabafa a lógica conservadora.

A verdade é que se fosse depender da ‘ordem natural das coisas’ o Brasil seria até hoje um enorme cafezal, sem problemas de congestionamento ou superlotação nos aeroportos, para felicidade de nove entre dez colunistas isentos.

Toda a industrialização pesada brasileira, por exemplo  –que distingue o país como uma das poucas economias em desenvolvimento dotada de capacidade de se auto-abastecer de máquinas e equipamentos— não teria sido feita.

Ela representou uma típica descontinuidade na ‘ordem natural das coisas’.

A escala e a centralização de capital necessárias a esse salto estrutural da economia não se condensam espontaneamente em um país pobre.

Num  mercado mundial já dominado por grandes corporações monopolistas nessa área e em outras, esse passo, ou melhor, essa ruptura, seria inconcebível sem forte intervenção estatal no processo.

Do mesmo modo, sem um banco de desenvolvimento como o BNDES, demonizado pelo conservadorismo, a indústria e a economia como um todo ficariam comprometidos pela ausência de um sistema financeiro de longo prazo, compatível com projetos de maior fôlego.

Do ponto de vista conservador, o financiamento indutor do Estado, a exemplo do protecionismo tarifário à indústria nascente  –implícito nas exigências de conteúdo nacional no pré-sal--  apenas semeiam distorções de preços e ineficiência no conjunto da economia.

É melhor baixar as tarifas drasticamente; deixar aos mercados a decisão sobre  quem subsistirá e quem perecerá para ceder  lugar às importações.

O corolário dessa visão foi o ciclo de governos do PSDB,  quando se privatizou, desregulou e se reduziu barreiras à entrada e saída de capitais.

A Petrobrás resistiu.

Em 1997, até um novo batismo fora providenciado para lubrificar a operação de fatiamento e venda dos seus ativos aos pedaços.

Não seu.

Dez anos depois, em 2007, essa resistência ganharia um fortificante ainda mais indigesto aos estômagos conservadores, com a descoberta e regulação soberana das reservas do pré –sal.

Num certo sentido, a arquitetura de exploração do pré-sal avança um novo degrau na história da industrialização brasileira.

Mais que isso,  esboça um modelo.

Se a empresa privada nacional  não tem escala, nem capacidade tecnológica para suprir as demandas do desenvolvimento, uma estatal pode –como o faz a Petrobras -  instituir prazos e definir garantias de compra que de certa forma  tutelem  a iniciativa privada deficiente.

Dando-lhe encomendas para  se credenciar ao novo ciclo de expansão do país –e até mesmo operar em escala global, inserindo-se nas grandes cadeias da indústria  petroleira.

A outra  alternativa seria bombear  a receita petroleira  diretamente para fora do país, vendendo o óleo bruto.

E renunciar assim aos múltiplos de bilhões de dólares de royalties que vão irrigar o fundo do pré-sal e com ele a educação pública das futuras gerações de crianças e jovens do Brasil. 

Ou  então vazar  impulsos industrializantes para encomendas no exterior , sem expandir polos tecnológicos, sem engatar cadeias de equipamentos, nem elevar  índices de nacionalização em benefício de empregos e receitas locais.

A paralisia  atual da industrialização brasileira  é um problema real que afeta todo o tecido econômico.

Asfixiada durante três décadas pelo câmbio valorizado e pela concorrência chinesa, a indústria brasileira de transformação perdeu elos importante, em diferentes cadeias de fornecimento de insumos e implementos.

A atrofia é progressiva.

O PIB cresceu em média 2,8% entre 1980 e 2010; a indústria da transformação cresceu apenas 1,6%, em média. Sua fatia nas exportações recuou de 53%, entre 2001-2005, para 47%, entre 2006-2010 .

O mais preocupante é o recheio disso.

Linhas e fábricas inteiras foram fechadas. Clientes passaram a se abastecer no exterior. Fornecedores se transformaram em importadores.

Empregos industriais foram eliminados; o padrão salarial do país foi afetado, para pior.

É possível interromper essa sangria, com juros subsidiados, incentivos, desonerações, protecionismo e ajuste do câmbio, como está sendo feito pelo governo.

Mas é muito difícil reverter buracos consolidados.

O dinamismo que se perdeu teria que ser substituído por um gigantesco esforço de inovação e redesenho fabril, a um custo que um país em desenvolvimento dificilmente poderia arcar.

Exceto se tivesse em seu horizonte a exploração centralizada e soberana, e o refino correspondente, das maiores jazidas de petróleo descobertas no século 21.

Esse trunfo avaliza a possibilidade de se colocar a  reindustrialização  como uma resposta política  do Estado brasileiro à crise mundial.

Nada disso  pode ser feito sem a  Petrobrás.

Tirá-la do campo em que se decide o futuro do Brasil: esse é o jogo pesado que está em curso no país.