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sábado, 6 de dezembro de 2014

O surpreendente Curdistão libertário

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O surpreendente Curdistão libertário

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Combatentes das YPG, as Brigadas de Proteção do Povo curdas
Combatentes das YPG, as Brigadas de Proteção do Povo, que lutam por Curdistão autônomo e federativo
Arejado, partido marxista flerta com ideias pacifistas, feministas e neoanárquicas, defende-se do fundamentalismo islâmico e abre avenida de esperança no Oriente Médio 
Por Rafael Taylor | Tradução Leonardo Griz Carvalheira
Os curdos não têm amigos, exceto as montanhas
– provérbio curdo
Excluídos das negociações e traídos pelo Tratado de Lausanne de 1923, depois de terem um estado próprio prometido pelos aliados da Primeira Guerra Mundial durante a dissolução do Império Otomano, os curdos são a maior etnia sem estado do mundo. Mas hoje, apesar de um Irã inflexível, sobram cada vez mais obstáculos para uma independência de jure curda no norte do Iraque. Turquia e Israel já sinalizaram apoio enquanto Síria e Iraque têm as mãos atadas pelo rápido avanço do Estado Islâmico (antigo ISIS).
Com a bandeira curda tremulando do alto de todos os prédios oficiais e a Peshmerga mantendo os islâmicos afastados com a extremamente atrasada assistência militar dos EUA, o Curdistão do Sul (Iraque) se junta aos camaradas do Curdistão Ocidental (Síria) como a segunda região autônoma de facto do novo Curdistão. Já começaram a exportar seu próprio petróleo e retomaram a petrolífera Kirkuk, têm um próprio parlamento secularizado e eleito e uma sociedade pluralista, pediram reconhecimento da ONU, e não há nada que o governo do Iraque possa fazer – ou os EUA fizessem sem o apoio de Israel – para detê-los.
A luta curda, no entanto, é qualquer coisa exceto estritamente nacionalista. Nas montanhas acima de Erbil, no antigo coração do Curdistão, passando pelas fronteiras da Turquia, Irã, Iraque e Síria, nasce uma revolução social.
Mapa atual da Síria e Iraque. Regiões amarelas no norte da Síria são controladas por curdos sírios, regiões esverdeadas no nordeste do Iraque são controladas por curdos iraquianos (fonte: Wikimedia Commons)
Mapa atual da Síria e Iraque. Regiões amarelas no norte da Síria são controladas por curdos sírios, regiões esverdeadas no nordeste do Iraque são controladas por curdos iraquianos (fonte: Wikimedia Commons)
A Teoria do Confederalismo Democrático
TEXTO-MEIO
Na virada do século, enquanto o sempre radical estadunidense Murray Bookchin desistia de tentar revitalizar o movimento anarquista contemporâneo sob a sua filosofia da ecologia social, o fundador e líder do PKK Abdullah Öcalan foi preso no Quênia por autoridades turcas e condenado à morte por traição. Nos anos seguintes, o velho anarquista ganhou no militante endurecido um improvável devoto, cuja organização paramilitar – o PKK – é amplamente listada como uma organização terrorista por causa da guerra violenta de libertação travada contra a Turquia.
Nos seus anos de confinamento solitário, dirigindo o PKK por detrás das grades enquanto sua pena era alterada para prisão perpétua, Öcalan adotou uma forma de socialismo libertário tão desconhecida que pouquíssimos anarquistas tinham sequer ouvido falar: omunicipalismo libertário de Bookchin. Depois Öcalan modificou, especificou e rebatizou a visão de Bookchin como“confederalismo democrático”, e como consequência a União das Comunidades do Curdistão (Koma Civakên Kurdistan ou KCK), o experimento territorial do PKK de uma sociedade democrática livre e direta, foi mantida em segredo para a grande maioria dos anarquistas, e ainda mais para o público geral.
Apesar de a conversão de Öcalan ter sido um ponto crucial, um renascimento mais amplo doesquerdismo libertário e da literatura independente estava descendo as montanhas e passando de mão em mão entre os praças após o colapso da União Soviética nos anos 1990. “[Eles] analisaram livros e artigos de filósofos, feministas, (neo)anarquistas, comunistas libertários, comunalistas e ecologistas sociais. Foi assim que escritores como Murray Bookchin [e outros] chegaram aos seus focos”, nos conta o ativista curdo Ercan Ayboga.
Öcalan embarcou, nos seus escritos da prisão, num minucioso re-exame e autocrítica da terrível violência, dogmatismo, culto à personalidade e autoritarismo que ele havia promovido: “Ficou claro que nossa teoria, programa e práxis da década de 1970 produziu nada além de um separatismo fútil e violência e, ainda pior, que o nacionalismo, a que deveríamos nos opor, infestou a todos nós. Mesmo nos opondo em princípio e retórica, aceitamos, no entanto, [o nacionalismo] como inevitável.” Antes líder inquestionável, Öcalan agoraargumenta que “o dogmatismo é nutrido por verdades abstratas que se tornam formas habituais de pensar. Quando você põe essas verdades generalistas em palavras, você se sente como um alto sacerdote a serviço do seu deus. Esse foi o erro que cometi.”
Öcalan, um ateu, estava finalmente escrevendo como um livre pensador. Ele mencionou estar buscando uma “alternativa ao capitalismo” e uma “reposição ao modelo do (…) ‘socialismo realmente existente’”, quando cruzou com Bookchin. Sua teoria do confederalismo democrático se desenvolveu a partir de uma combinação da inspiração de intelectuais comunalistas, “movimentos como os Zapatistas”, e outros fatores históricos da luta no Curdistão do Norte (Turquia). Öcalan proclamou-se como discípulo de Bookchin, e depois de uma falha tentativa de correspondência por e-mail com o velho teórico, que para o seu azar estava muito doente para tal troca em seu leito de morte em 2004, o PKK o celebrou como “um dos maiores cientistas sociais do século XX” na época de sua morte dois anos mais tarde.
A prática do Confederalismo Democrático
O próprio PKK aparentemente seguiu seu líder, não só adotando a visão específica de eco-anarquismo de Bookchin, mas internalizando ativamente a nova filosofia na sua estratégia e tática. O movimento abandonou a guerra sangrenta pela revolução stalinista/maoísta e as táticas de terror que carregava, e começou a usar amplamente uma estratégia não-violenta visando uma maior autonomia regional.
Depois de décadas de traições fratricidas, cessar-fogos fracassados, prisões arbitrárias e recorrentes hostilidades, em 25 de abril deste ano o PKK anunciou uma retirada imediata de suas forças na Turquia e seu reposicionamento no norte do Iraque, acabando efetivamente com o conflito de três décadas com o estado turco. Simultaneamente o governo turco realizou um processo de reforma constitucional e legal para consagrar direitos humanos e culturais à minoria curda dentro de suas fronteiras. Isso veio como o componente final da longa negociação entre Öcalan e o primeiro ministro turco Erdoğan como parte do processo de paz iniciado em 2012. Não houve violência do PKK por um ano e estão sendo feitospedidos para retirá-los das listas de terroristas do mundo.
Resta ao PKK, no entanto, uma história sombria – práticas autoritárias que pegam mal para esta nova retórica libertária. Levantar verbas através do comércio de heroína, extorsão, recrutamento coercitivo e saques generalizados era constantemente reivindicado ou atribuído a suas sucursais. Se for verdade, nenhuma desculpa para este oportunismo pode ser feita, apesar da óbvia ironia do próprio estado genocida turco fundamentar-se em boa parte do lucrativo monopólio da exportação legal de opiáceos “medicinais” estatais para o ocidente e tornou possível pela conscrição e taxação desta atividade um orçamento contra o terrorismo e um exagerado exército (A Turquia tem o segundo maior exército da OTAN depois dos EUA).
Como é a hipocrisia costumeira da guerra contra o terror, quando movimentos de libertação nacional imitam a brutalidade do estado, invariavelmente os não representados são taxados de terroristas. O próprio Öcalan descreve esse vergonhoso período como de “gangues internas da nossa organização e banditismo aberto, [que] arranjaram operações aleatórias e desnecessárias, mandando jovens, em massa, para a morte.”
Abdullah Öcalan, o dirigente comunista que ajuddou a que ajudou a reposicionar a luta curda pela autonomia após viver, na prisão, um notável giro ideológico
Abdullah Öcalan, o dirigente comunista que ajuddou a que ajudou a reposicionar a luta curda pela autonomia após viver, na prisão, um notável giro ideológico
Correntes anarquistas na luta
Como mais um sinal de que está abandonando os caminhos marxistas-leninistas, porém, o PKK recentemente começou a fazer propostas explícitas ao anarquismo internacionalista, inclusive oferecendo uma oficina no Congresso Internacional de Anarquismo (International Anarchism Gathering) em St. Imier, Suiça, em 2012, que levou a confusão, desânimo e debate on-line, mas que passou despercebido para a imprensa anarquista mais ampla.
Janet Biehl, viúva de Bookchin, é uma das poucas a estudar a União das Comunidades do Curdistão (KCK) em campo, e escreveu extensivamente sobre suas experiências no site New Compass, inclusive compartilhando entrevistas com radicais curdos, envolvidos nas operações diárias das assembleias democráticas e das estruturas federais, assim como traduzindo e publicando o primeiro estudo anarquista que virou livro sobre o assunto: Democratic Autonomy in North Kurdistan: The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology (2013) [Autonomia Democrática no Curdistão do Norte: o Movimento dos Conselhos, Libertação de Gênero e Ecologia, tradução livre].
A outra única voz anarquista que fala inglês é o Fórum Anarquista do Curdistão (Kurdistan Anarchist Forum – KAF), um grupo pacifista de curdos iraquianos morando na Europa que diz não “ter nenhuma relação com outros grupos de esquerdistas”. Enquanto apóia um Curdistão federado, o KAF declara que “só vai apoiar o PKK quando eles desistirem completamente da luta armada e se engajarem em organizar movimentos de massa de base popular com o objetivo de suprir demandas sociais do povo, denunciarem e desmantelarem modos centralizados e hierarquizados de luta e substituí-los por grupos locais autônomos federados, encerrarem todas as relações, acordos e negociações com os estados do Oriente Médio e do Ocidente, denunciarem políticas de poder carismático e converterem-se ao anti-estatismo e anti-autoritarismo – só então seremos felizes em cooperar totalmente com eles.”
Seguindo Bookchin ao pé da letra
Este dia (exceto o pacifismo) pode não estar tão longe. O PKK/KCK parecem estar seguindo Bookchin ao pé da letra, quase totalmente, inclusive com a contraditória participação no aparato estatal via eleições, assim como previsto nos seus livros.
Como escrevem Joost Jongerden e Ahmed Akkaya, “o trabalho de Bookchin diferencia duas ideias de política, a helênica e a romana”, que são [respectivamente] a democracia direta e a representativa. Bookchin enxerga sua forma de neo-anarquismo como um renascimento da antiga revolução ateniense. O “modelo de Atenas existe como uma corrente que encontra expressões na Comuna de Paris de 1871, nos conselhos (sovietes) da primavera da Revolução Russa de 1917 e na Revolução Espanhola em 1936.”
O comunalismo de Bookchin contém uma abordagem em cinco passos:
  1. Entender pela lei as municipalidades existentes com o objetivo de tornar local o poder de decisão.
  2. Democratizar essas municipalidades através de assembleias de base.
  3. Unir as municipalidades “em redes regionais e confederações mais amplas (…) trabalhando para substituir gradualmente Estados-nações por confederações municipais”, enquanto assegura que “níveis ‘maiores’ da confederação têm essencialmente funções de coordenação e administração.”
  4. “Unir movimentos sociais progressistas” para fortalecer a sociedade civil e estabelecer “um ponto focal comum para todas as iniciativas cidadãs e movimentos”: as assembleias. Esta cooperação “não é [examinada minuciosamente] porque esperamos ver sempre um consenso harmonioso, mas – ao contrário – por que acreditamos em desacordo e deliberação. A sociedade se desenvolve pelo debate e pelo conflito”. Além disso, as assembleias são seculares, “[lutando] contra influencias religiosas na política e no governo”, e uma “arena para a luta de classes”.
  5. Para alcançar sua visão de uma “sociedade sem classes, baseadas no controle político coletivo sobre os meios de produção socialmente importantes”, se fazem necessárias a “municipalização da economia” e a “alocação confederada de recursos para garantir um equilíbrio entre as regiões”. Em termos leigos, isso equivale a uma combinação de autogestão dos trabalhadores e planejamento participativo para atender às necessidades sociais: a economia anarquista clássica.
Como coloca Eirik Eiglad, antigo editor de Bookchin e analista da KCK:
“É particularmente importante a necessidade de combinar os conhecimentos dos movimentos progressistas feministas e ecológicos com os novos movimentos urbanos e as iniciativas cidadãs, assim como sindicatos e cooperativas e coletivos locais (…) Acreditamos que as ideias comunalistas de uma democracia baseada em assembleias irão contribuir para tornar esta mudança progressiva de ideias possível em bases mais permanentes e com mais consequências políticas diretas. Ainda que o comunalismo não é só um meio tático para unir estes movimentos radicais. Nosso chamado por uma democracia municipal é uma tentativa de dar razão e ética para a frente da discussão pública.”
Para Öcalan, confederalismo democrático significa uma “sociedade democrática, ecológica e com liberdade de gêneros”, ou simplesmente “democracia sem estado”. Ele contrasta explicitamente “modernidade capitalista” com “modernidade democrática”, em que os antigos “três elementos básicos: capitalismo, Estado-nação e industrialismo” são substituídos por uma “nação democrática, economia comunal e indústria ecológica”. Isto implica “três projetos: um pela república democrática, um para o confederalismo democrático e um para a autonomia democrática.”
O conceito da “república democrática” refere-se essencialmente a reconhecer a cidadania e os direitos civis há muito tempo negados aos curdos, incluindo a possibilidade de falar e ensinar livremente sua própria língua. Autonomia e confederalismo democráticos referem-se às “capacidades autônomas das pessoas, uma forma de estrutura política mais direta, menos representativa.”
Enquanto isso, Jongerden e Akkaya notam que o “modelo do municipalismo livre visa realizar um corpo administrativo participativo, de baixo para cima, de nível local para o provincial.” O “conceito de cidadãos livres (ozgur yarttas) [é] o ponto de partida”, que “inclui liberdades civis básicas, assim como liberdade de expressão e organização.” A unidade central do modelo é a assembleia de bairro ou os “conselhos”, como eles são referenciados indistintamente.
Existe participação popular nos conselhos, inclusive de pessoas não-curdas, e enquanto as assembleias de bairro são fortes em várias províncias, “em Diyarbakir, a maior cidade do Curdistão turco, há assembleias em quase todo lugar.” Nos outros lugares, “nas províncias de Hakkari e Sirnak (…) há duas autoridades paralelas [a KCK e o estado], dos quais a estrutura democrática confederada é mais poderosa na prática.” A KCK na Turquia “é organizada nos níveis de vila (köy), bairro urbano (mahalle), distrito (ilçe), cidade (kent) e a região (bölge) que é chamada de ‘Curdistão do Norte’.”
O nível “mais alto” da federação no Curdistão do Norte, o DTK (Congresso da Sociedade Democrática) é uma mistura de cargos delegados dos seus pares com mandatos revogáveis, que preenchem 60%, e representantes de “mais de quinhentas organizações da sociedade civil, sindicatos e partidos políticos”, que completam os 40%, dos quais aproximadamente 6% é “reservado para representantes de minorias religiosas, acadêmicos, ou outros casos particulares”.
A proporção de 40% dos que são delegados por grupos diretamente democráticos, não-estatistas da sociedade civil comparado àqueles que são burocratas partidários eleitos ou não-eleitos não está clara. A situação fica ainda mais complicada com a sobreposição de indivíduos de movimentos curdos independentes e de partidos políticos curdos e com a internalização por parte dos partidos de muitos aspectos do processo diretamente democrático. De qualquer forma, o consenso informal entre as testemunhas é de que a maior parte das decisões são tomadas por democracia direta em ambas as ocasiões; que a maioria das decisões são tomadas na base; e que as decisões são executadas de baixo para cima de acordo com a estrutura federal.
Por causa das assembleias e do DTK serem coordenados pelo ilegal KCK, do qual o PKK é membro, eles são designados como “terroristas” pela Turquia e pela chamada comunidade internacional (leia-se União Europeia, EUA e outros), por associação. O DTK também seleciona os candidatos do partido pró-curdos BDP (Partido Democracia e Paz) para o Parlamento turco, que por sua vez propõe “autonomia democrática” à Turquia, num tipo de combinação de democracia representativa e direta. Alinhado com o modelo federalista, propõe o estabelecimento de aproximadamente 20 regiões autônomas que autogovernariam diretamente (no modelo anarquista e não no Suíço) “educação, saúde, cultura, agricultura, indústria, serviços sociais e segurança, questões das mulheres, dos jovens e os esportes”, com o estado continuando a conduzir “relações internacionais, finanças e defesa”.
A Revolução Social decola
No chão, enquanto isso, a revolução já começou.
No Curdistão turco existe um movimento educacional independente de “acadêmicos” que puxam fóruns e seminários de discussão nos bairros. Há a Rua da Cultura, onde Abdullah Demirbas, o prefeito do município de Sur em Amed, celebra “a diversidade dos sistemas de religiões e crenças”, declarando que “começamos a restaurar uma mesquita, uma igreja católica caldeia-aramaica, uma igreja ortodoxa armena e uma sinagoga judaica”. Por outro lado, relatam Jongerden e Akkaya, “as municipalidades do DTK deram início a um ‘serviços municipais multilíngues’, produzindo um debate acalorado. Sinalizações foram erguidas em curdo e em turco, e comerciantes locais seguiram o exemplo”.
A libertação das mulheres é puxada pelas próprias mulheres através de iniciativas do Conselho de Mulheres do DTK, impondo novas regras como a “cota mínima de gênero de 40%” nas assembleias. Se um servente civil bate em sua mulher, seu salário é diretamentetransferido à sobrevivente para fornecê-la segurança financeira e usá-lo como bem entender. “Em Gewer, se um homem tem uma segunda esposa, metade de seus bens vão para a primeira.”
Há as “Vilas de Paz”, comunidades novas ou transformadas de cooperativas, implementando seu próprio programa totalmente fora dos constrangimentos logísticos da guerra curdo-turca. A primeira comunidade assim foi construída na província de Hakkari, na fronteira com o Irã e o Iraque, onde “certas vilas” aderiram ao experimento. Na província de Van, uma “vila ecológica de mulheres” está sendo construída para acolher vítimas de violência doméstica, suprindo-se “com toda ou quase toda energia necessária”.
A KCK realiza reuniões bienais nas montanhas com centenas de delegados dos quatro países, atentos à constante ameaça do Estado Islâmico à autonomia do Curdistão do Sul e Ocidental. Os partidos ligados ao KCK no Irã e na Síria, PJAK (Partido por uma Vida Livre no Curdistão) e PYD (Partido da União Democrática), também promovem o confederalismo democrático. O partido da KCK no Iraque, PCDK (Partido pela Solução Democrática para o Curdistão) é relativamente insignificante, dirigido pelo centrista Partido Democrático do Curdistão e seu líder Massoud Barzani, presidente do Curdistão iraquiano, que só recentemente o descriminalizou e passou a tolerá-la.
Nas áreas montanhosas do extremo norte do Curdistão iraquiano, onde vivem a maioria das guerrilhas do PKK e do PJAK, contudo, a literatura radical e as assembleias prosperam, com a integração entre as montanhas, muitos curdos puderam continuar após décadas de expulsões e despejos. Nas últimas semanas, esses militantes desceram as montanhas do extremo norte para lutar ao lado da Peshmerga iraquiana contra o ISIS, resgatando 20 mil Yazidi e cristãos das montanhas do Sinjar e recebendo a visita de Barzani numa demonstração pública de gratidão e solidariedade, para o constrangimento da Turquia e dos EUA.
O PYD sírio seguiu, desde o início da guerra civil, os passos do Curdistão turco na transformação revolucionária da região autônoma sob seu controle. Após “ondas de prisões” sob a repressão dos baathistas, com “10 mil pessoas [levadas] em custódia, entre prefeitos, líderes de partidos locais, deputados, dirigentes e ativistas (…) o PYD curdo expulsou o regime de Baath do norte da Síria, ou do Curdistão Ocidental, [e] conselhos locais apareceram por toda parte”. Comitês de autodefesa foram improvisados para providenciar “segurança à beira do colapso do regime de Baath”, e “a primeira escola a ensinar língua curda” foi estabelecida, enquanto os conselhos interviam na distribuição equitativa de pão e gasolina.
No Curdistão turco, sírio e uma parte menos do iraquiano, as mulheres agora são livres para desvendar e para se encorajarem fortemente em participar da vida social. Antigos laços feudais estão sendo quebrados, as pessoas estão livres para seguirem qualquer ou nenhuma religião, e minorias étnicas e religiosas podem viver juntas pacificamente. Se são capazes de deter o novo califado, a autonomia do PYD no Curdistão sírio e a influência da KCK no Curdistão iraquiano pode fermentar uma explosão ainda mais profunda de cultura e valores revolucionários.
Em 30 de junho de 2012, o Comitê de Coordenação Nacional para a Mudança Democrática (NCB), a mais ampla coalizão revolucionária de esquerda na Síria, do qual o PYD é o principal grupo, também abraçou agora “o projeto de autonomia democrática e confederalismo democrático como um modelo possível para a Síria”.
Defendendo a Revolução Curda do Estado Islâmico
A Turquia ameaçou invadir territórios curdos se “bases terroristas estiverem estabelecidas na Síria”, enquanto centenas de guerrilheiros da KCK (incluindo do PKK) de todo o Curdistão cruzam a fronteira para defender Rojava (o Ocidente) dos avanços do Estado Islâmico. O PYD alega que o governo islâmico moderado da Turquia já está agindo contra eles ao facilitar a viagem de jihadistas internacionais a cruzarem as fronteiras para lutarem ao lado dos islâmicos.
No Curdistão iraquiano, Barzani, cujas guerrilhas lutaram a favor da Turquia contra o PKK na década de 1990 em troca de acesso aos mercados ocidentais, clamou por uma “frente curda unida” na Síria através da aliança com o PYD. Barzani intermediou o “Acordo de Erbil” em 2012, que deu origem ao Conselho Nacional Curdo, com o líder do PYD, Salih Muslim,confirmando que “todos os partidos são sérios e determinados a continuar trabalhando juntos”.
Mesmo sabendo que os estudos e as práticas das ideias do socialismo libertário entre as lideranças e a base são indubitavelmente um desenvolvimento positivo, resta-nos observar o quão dispostos estão em renunciar o sangrento passado autoritário. A luta curda pela autodeterminação e soberania cultural forma uma borda de prata nas escuras nuvens que pairam sobre o Estado Islâmico e as sangrentas guerras inter-fascistas entre islâmicos e baathistas e o sectarismo religioso que lhes deu origem.
Uma revolução pan-curda socialmente progressiva e secular com elementos socialistas libertários, unindo curdos iraquianos e sírios e fortalecendo as lutas turcas e iranianas, ainda pode ser um prospecto. Ao mesmo tempo, aqueles de nós que valorizam a ideia de civilização devem nossa gratidão aos curdos, que estão lutando noite e dia contra os jihadistas do fascismo islâmico nas linhas-de-frente da Síria e do Iraque, defendendo com suas vidas valores democráticos radicais.
NOTAS
[1] http://rudaw.net/english/kurdistan/…
[2] http://www.ibtimes.co.uk/iraq-kurds…
[3] http://rudaw.net/english/kurdistan/…
[4] https://www.academia.edu/3983109/De…
[5] http://new-compass.net/articles/boo…
[6] http://www.huffingtonpost.com/david…
[7] http://mepc.org/journal/middle-east…
[8] http://libcom.org/forums/middle-eas…
[9] http://new-compass.net/article/kurd…
[10] http://new-compass.net/publications…
[11] http://www.indymedia.org.nz/article…
[12] https://libcom.org/news/interview-a…
[13] http://www.anarkismo.net/article/22396
[14] https://www.academia.edu/3983109/De…
[15] http://new-compass.net/articles/com…
[16] http://www.amazon.com/Democratic-Au…
[17] http://rudaw.net/english/opinion/06…
[18] https://www.youtube.com/watch?v=CJS…
[19] http://www.ft.com/intl/cms/s/dd2c9d…
[20] http://www.reuters.com/article/2014…
[21] http://www.ekurd.net/mismas/article…
[22] http://nationalinterest.org/comment…
[23] http://www.ostomaan.org/articles/ne…
[24] http://nationalinterest.org/comment…

domingo, 12 de outubro de 2014

A barbárie nas mídias sociais

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http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed819_a_barbarie_nas_midias_sociais


A barbárie nas mídias sociais

Por Walter Pincus em 07/09/2014 na edição 819
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 4/10/2014,, tradução de Augusto Calil; título original “A barbárie do Estado Islâmico nas mídias sociais”
 
O Estado Islâmico pratica a barbárie medieval na Síria e no Iraque, mas suas operações globais de mídia são dignas do século 21. O grupo é ativo nas mídias sociais, tem panfletos, revistas semanais ilustradas, outdoors, camisetas, bonés e até escritórios de propaganda na Síria e no Iraque. O Estado Islâmico também expandiu a máquina de mensagens, particularmente depois que os Estados Unidos começaram seus ataques aéreos contra as forças do grupo terrorista no Iraque em 8 de agosto.
A recente produção de vídeos por parte do Estado Islâmico tem sido prodigiosa. As quatro decapitações filmadas com profissionalismo mostrando a morte de dois jornalistas americanos e de um agente humanitário britânico chocaram o mundo. Independentemente do propósito original – supostamente impedir os bombardeios americanos –, elas tiveram como resultado a demanda do público americano por uma resposta imediata contra o Estado Islâmico e o aumento do apoio internacional à decisão do presidente Barack Obama de estender os bombardeios à Síria.
Os vídeos mostrando reféns do EI, com o jornalista britânico John Cantlie, adotam uma abordagem diferente. Neles, o prisioneiro questiona as operações militares do Ocidente contra os muçulmanos. Em dois vídeos de seis minutos, Cantlie descreve a si mesmo como um cidadão britânico abandonado por seu governo e há muito prisioneiro do EI. No primeiro vídeo, Cantlie comenta que o Estado Islâmico negociou a libertação de outros prisioneiros europeus – sem mencionar o pagamento de resgates – enquanto britânicos e americanos se recusaram a fazer acordos. Cantlie critica a intenção dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha de atacar o EI, citando o Vietnã e as recentes críticas à invasão do Iraque promovida pelo primeiro governo de George W. Bush.
O vídeo mais recente é encerrado com Cantlie citando o ex-analista da CIA, Michael Scheuer, que foi diretor da primeira unidade da agência para o combate à Al-Qaeda: os radicais islâmicos “estão mobilizados para o combate desde 1979 e seu movimento nunca foi maior, mais popular e mais bem armado do que hoje”.
Campanha
A produção de vídeos do Estado Islâmico desde junho tem sido muito maior do que essas imagens de prisioneiros que ganham atenção. Há vídeos de recrutamento como “Não há vida sem a jihad”, estrelados por combatentes que falam inglês e pedem às pessoas que se juntem ao movimento, e “Rompendo a fronteira”, mostrando equipamentos e prisioneiros capturados na fronteira entre Iraque e Síria, controlada pelo grupo.
Um documentário de 55 minutos intitulado “Chamas da guerra”, alterna entre a sanguinolência horripilante – soldados do Exército sírio obrigados a cavar as próprias sepulturas e fuzilados em seguida – e imagens de um combatente com sotaque americano explicando por que se juntou ao Estado Islâmico. Há também uma cena na qual um jihadista é morto por uma explosão, recebendo elogios do narrador em inglês, dizendo que os que morrem no campo de batalha “e não afastam o rosto até estarem mortos” são os melhores mártires. Um trailer promove um novo jogo de videogame jihadista no qual o objetivo é atirar nas forças americanas e iraquianas.
O Estado Islâmico parece ter aquilo que um analista de espionagem descreveu recentemente como campanha “fantasticamente” bem pensada para conquistar corações e mentes – e recrutas. A equipe de relações públicas do Estado Islâmico leva grande vantagem na guerra de propaganda, de acordo com analistas de espionagem.
A região é bastante receptiva às mensagens contra o Ocidente e, especialmente, anti-EUA. Em meio ao conflito sectário, à desordem política e anos de desigualdades sociais, eles têm se apresentado habilidosamente como portadores de soluções.
Em um discurso do dia 21 feito pelo principal porta-voz do EI, Abu Muhammad al-Adnani, transmitido em árabe e traduzido em muitos idiomas, Obama é chamado de “mula dos judeus”, e o secretário de Estado John Kerry é chamado de “velhote não circuncisado”. Dirigindo-se aos americanos, Adnani diz: “O EI não declarou guerra contra vocês, ao contrário do que seus governos e sua mídia querem fazê-los acreditar”. Ele acrescenta que os EUA vão “pagar o preço” quando sua economia entrar em colapso e “vocês pagarão o preço quando seus filhos forem enviados para guerrear contra nós e voltarem para vocês como inválidos, dentro de caixões ou traumatizados para sempre”.
“Os americanos “vão pagar o preço ao andarem por nossas ruas, olhando para a esquerda e a direita, temendo os muçulmanos. Não poderão se sentir seguros nem mesmo em seus quartos. Vão pagar o preço quando sua cruzada ruir e nós os atacarmos em sua pátria para que nunca mais possam fazer mal a ninguém.” Ele tem mensagens para o Egito, para os sunitas na Líbia, Tunísia e Iêmen, para australianos e canadenses.
As tentativas dos EUA de responder às mensagens desse tipo enfrentam a mesma dificuldade que Washington encontrou na tentativa de criar parceiros democráticos nos governos da região. O novo governo de Bagdá precisa encontrar uma forma de superar as medidas contra os sunitas e curdos do governo anterior para reconquistar o apoio do povo iraquiano. Na Síria, o desafio é ainda maior.
O presidente Obama disse repetidas vezes que cabe aos iraquianos e sírios vencer a batalha militar em seus territórios. O mesmo vale para a guerra de propaganda.
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Walter Pincus é jornalista do Washington Post

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Crises e guerras civis fazem crescer o número de refugiados

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81157

Crises e guerras civis fazem crescer o número de refugiados

Adital
Guerras, conflitos internos e situações de miséria obrigam milhares de pessoas a abandonarem seus países de origem e buscar uma vida mais digna em outras nações. Para chamar atenção a esta realidade, foi instituído em 20 de junho o Dia Mundial do Refugiado. A data não convida a comemorações, mas sim a reflexões sobre a realidade enfrentada por famílias inteiras que saem em busca de segurança e paz. Informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) dão conta de que o número de refugiados é o mais alto desde a II Guerra Mundial.
No relatório ‘Tendências Globais’, apresentado nesta sexta-feira, 20, durante entrevista coletiva em Genebra, na Suíça, o ACNUR aponta que, no fim de 2013, o número de deslocados fora ou dentro dos seus países atingiu 51,2 milhões de pessoas, entre eles 16,7 milhões de refugiados. Esse total representa um aumento de 6 milhões de pessoas deslocadas com relação aos 45,2 milhões de 2012, que incluíam 15,4 milhões de refugiados. No ano passado, foram registrados 10,7 milhões de novos deslocados e 2,5 milhões de novos refugiados, aumento considerado gigantesco.
Esse aumento se deve à manutenção e multiplicação das situações de crise em vários países, como a Síria, que, desde 2011, enfrenta uma guerra civil, tendo como centro de discordância a permanência do ditador Bashar Al-Assad no poder. Apenas esse conflito gerou 6,5 milhões de deslocados internos. Deslocamentos intensos também foram registrados na República Centro Africana e no Sudão do Sul.
O relatório aponta que 2,56 milhões dos refugiados são do Afeganistão; 2,47 milhões da Síria; e 1,12 milhão da Somália. Os países que mais acolheram refugiados foram Paquistão (1,6 milhão); Irã (857.400); Líbano (856.500); Jordânia (641.900) e Turquia (609.900). Ásia e Pacífico contabilizam o maior número de refugiados no mundo, com 3,5 milhões de pessoas, seguida pela África Subsaariana, com 2,9 milhões; e a África do Norte e o Meio Oriente com 2,6 milhões.
Uma informação que merece destaque é o perfil dos refugiados. Em 2013, mais de 50% eram menores de idade, maior cifra em 10- anos. Os menores de 18 anos não acompanhados pelos pais também foram responsáveis por 25.300 pedidos de asilo. No total, 1,1 milhão de pessoas pediram asilo, sendo que a maior parte era de cidadãos da Síria (64.300), do Congo (60.400) e da Birmânia (57.400). 86% dos refugiados são acolhidos em países em desenvolvimento. A Alemanha é o país que mais recebe pedidos de asilo.
No entanto, conseguir acolhimento não é a única dificuldade dos refugiados. Estudo feito pela Oxfam mostra que a falta de conhecimento e informação é o principal impedimento na hora de conseguir ajuda e acessar serviços médicos, educativos e alimentares de qualidade. A organização internacional decidiu investigar o problema a fim de melhorar seus serviços de comunicação com os refugiados. A análise foi feita na Jordânia devido ao grande contingente de sírios que o país vem recebendo.
Ações
Além do relatório, iniciativas foram organizadas para lembrar o Dia Mundial do Refugiado. Em Madrid (Espanha), o ACNUR lançou a campanha de sensibilização "A rotina é fantástica” com o intuito de conscientizar sobre a realidade dos refugiados e alertar sobre a importância do asilo. A agência também colheu centenas de histórias de adultos e crianças que encontraram abrigo e uma vida melhor em outras nações. A intenção foi deixar um pouco de lado a situação de crise nos países e olhar mais para o que se passa com as pessoas.
Uma das memórias foi colhida por Tânia Miranda Dias, em junho deste ano, de uma criança paquistanesa.
"São várias as histórias que nos marcam… Mas escolho partilhar a mais recente, vindo de um ser de metro e meio, se tanto, com um sorriso rasgado e apressado, de mochila nas costas e um copo de plástico cheio de moedas de um e dois cêntimos em suas mãos. "Para que é tudo isso?”, perguntei-lhe! Respondeu-me determinada: "estou juntando dinheiro para ajudar o meu pai a nos levar de volta para ao Paquistão… mas espera, esta é para ti” disse, estendendo-me não só uma moeda, mas a mais decente que encontrou, rebuscando no seu pequeno tesouro. Os refugiados não têm escolha, são obrigados a deixar tudo para trás, trazendo consigo a esperança, também, de um da poderem regressar ao seu lar”.
Conheça algumas histórias de refugiados em: http://stories.unhcr.org/pt/
Com informações da Agência Lusa

domingo, 8 de junho de 2014

Palestina: desafios do governo de unidade

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http://outraspalavras.net/destaques/palestina-os-desafios-do-governo-de-unidade-nacional/


Palestina: desafios do governo de unidade

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Manifestação pelo fim das divisões entre os grupos políticos palestinos, em 2011. Unidade nacional contra ocupação é desejo histórico dos movimentos sociais
Manifestação pelo fim das divisões entre os grupos políticos palestinos, em 2011. Unidade nacional contra ocupação é desejo histórico dos movimentos sociais
Acordo entre Fatah e Hamas pode marcar retomada da luta contra dominação israelense. Mas há obstáculos à frente, e Telaviv já lança ameaças
Por Khaled Alashqar, na Agência IPS | Tradução: Antonio Martins
A formação de um novo governo palestino, com apoio do Fatah e do Hamas, anunciada na segunda-feira (2/6) é uma estação importante, na rota da reconciliação. “Mas ainda há muitas estações onde parar, antes de chegar à unidade real baseada numa parceria entre todos os grupos palestinos”.
Com estas palavras, Amjad Al-Shawa, porta-voz da rede de ONGs palestinas na Faixa de Gaza, saudou o governo de consenso nacional, mas afirmou à IPS que todas as decisões adotadas durante o período de divisão entre os grupos deveriam agora ser anuladas.
“A formação de um governo de consenso impõe responsabilidades maiores para nós, como organizações civis, para lutar pela efetivação do acordo de reconciliação, e contribuir de modo eficaz na definição de planos nacionais”.
“Reivindicamos a garantia dos direitos dos palestinos, inclusive a reabertura das organizações fechadas no período da divisão e a garantia do estado de direito”, acrescentou Al-Shawa.
O novo governo palestino, anunciado para acabar com a divisão política entre os palestinos da Cisjordânia e os da Faixa de Gaza, é o terceiro gabinete liderado por Ramy Al Hamdallah. Ele sucedeu o antigo primeiro-ministro, Salam Fayyad, e lidera o 17º equipe ministerial desde que foi estabelecida a Autoridade Nacional Palestina, em 1994.
O governo de unidade tomou posse nos escritórios da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), em Ramallah, com a presença do presidente Mahmoud Abbas. Quatro ministros que vivem na Faixa de Gaza não puderam comparecer ao ato, porque Israel negou seu acesso à Cisjordânia.
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O papel do governo de consenso nacional é preparar eleições presidenciais e parlamentares nos territórios palestinos, além de reconstruir a Faixa de Gaza. Esta segunda prioridade indica a intenção de priorizar a região e tentar romper o bloqueio imposto por Israel desde que o governo do Hamas assumiu o poder, em junho de 2007.
O presidente palestino Mahmoud Abbas afirmou, num pronunciamento pela TV, que o novo governo significará o fim da divisão interna que afetou a causa da independência nacional. Acrescentou que se trata de um governo de transição, cuja missão é preparar as eleições.
Abbas frisou que o novo governo, assim como os anteriores, segue comprometido com os acordos internacionais firmados pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), e com o programa adotado pelas instituições da OLP. O mandato para negociações políticas, ele prosseguiu, permanece com a OLP, como única representante legítima do povo palestino. O presidente advertiu Israel que qualquer ação punitiva considerada prejudicial aos interesses do povo palestino terá resposta apropriada.
O novo governo Fatah-Hamas. Ao centro, o presidente Mahmoud Abbas
O novo governo Fatah-Hamas. Ao centro, o presidente Mahmoud Abbas
Esta parte do pronunciamento expressa as claras preocupações palestinas sobre a possibilidade de ações punitivas lançadas por Israel. Em Telaviv, membros do governo Netanyahu ameaçaram adotar tal atitude, se o processo de reconciliação entre Fatah e Hamas prosseguisse. As ameaças dirigem-se em particular ao Hamas, a facção islâmica que Israel e muitos países ocidentais insistem em qualificar como “terrorista”.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu não demorou a agir, após o anúncio da formação do novo governo palestino. Seu gabinete de Segurança Política anunciou um encontro urgente, para discutir formas de responder à Autoridade Nacional Palestina, após o acordo desta com o Hamas. A reunião decidiu autorizar Netanyahu a impor sanções à ANP e ao governo de reconciliação nacional, mas não deu detalhes.
Observadores viram o fato como sinal de que o governo de Telaviv escolheu um caminho centrista, para satisfazer dois extremos. De um lado, está o determinado ministro da Economia, Naftali Bennet, o líder do partido de direita “Lar Judeu”, que rejeita qualquer acordo com os palestinos, reivindicando punição e anexação de suas terras. De outro, Yair Lapid, ministro das Finanças e líder do partido Yesh Atid (“Há um Futuro”), que propôs esperar. A este, juntou-se o ministro do Exterior, Avigdor Lieberman [tradicionalmente à direita], para o qual o governo israelense não deveria apressar-se em responder aos palestinos.
O governo formado pelo Hamas na Faixa de Gaza – que se manteve sete anos no poder sob cerrado cerco israelense, isolamento quase total da região e crises sucessivas – deixou o posto. Ismail Haniya, ex-primeiro-ministro deste governo, afirmou em entrevista coletiva que saudava o novo governo palestino de consenso, e frisou a necessidade de acabar com a divisão
Um dos desafios com os quais o novo governo palestino defronta-se é restabelecer as relações entre Gaza e o Egito. Espera-se que este reabra a passagem de Rafah, que liga a Faixa de Gaza com o resto do mundo. O Cairo havia afirmado que a formação de um governo de unidade nacional era condição para abertura da passagem.
O governo egípcio saudou a formação deste novo governo. Num comunicado emitido segunda-feira, Badr Abdel-Atti, porta-voz do ministério do Exterior, afirmou: “A formação de um governo de consenso é um passo importante para estabelecer a unidade da Palestina e a restauração dos direitos legítimos de seu povo – em especial o direito a autodeterminação e ao estabelecimento de um Estado independente e soberano, baseado nas fronteiras de 4 de junho de 1967”.
As próximas semanas serão muito importantes para saber como o novo governo palestino exercerá suas funções, especialmente na Faixa de Gaza, que sofreu duramente, nos anos de abusos e violações dos direitos de suas instituições e cidadãos. O novo governo precisará de tempo e de passos concretos para restaurar a confiança do povo palestino.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Deir Yassin: 66 anos da limpeza étnica e genocídio dos palestinos e a fundação de Israel

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ESCRITO POR RAMEZ PHILIPPE MAALOUF   
TERÇA, 15 DE ABRIL DE 2014



Massacre da aldeia de Deir Yassin

Há 66 anos atrás, 9 de abril de 1948, os judeus sionistas instalados na Palestina deram início ao processo de limpeza étnica e de genocídio do povo árabe palestino, por meio do massacre da aldeia de Deir Yassin, quando cerca de 254 pessoas (homens, mulheres e crianças) foram assassinadas por dois grupos terroristas sionistas: Irgun (do qual faziam parte os futuros primeiros-ministros israelenses Menachem Begin e Yitzhak Shamir) e a Gang Stern, sob ordens do Hagannah (defesa em hebraico), a maior milícia terrorista sionista em combate. O Massacre de Deir Yassin, como ficou tristemente conhecido, não foi resultado do “calor dos combates” e nem da “sede de vingança” da guerra civil entre sionistas e palestinos travada para a fundação de um Estado na Palestina, como a historiografia oficial israelense (muito bem aceita no Ocidente e até mesmo no Brasil) insiste em afirmar.

A aldeia de Deir Yassin estava localizada próxima a Jerusalém (al-Qods, em árabe), não tinha qualquer valor estratégico e sua população árabe palestina, na época da eclosão da guerra civil, em novembro de 1947, havia assinado um pacto de não agressão com a vizinha “colônia” judia de Giv’at Shaul, reconhecido pelo Hagannah. Como visto, o grupo terrorista não respeitou o pacto e ordenou a matança generalizada dos habitantes e a expulsão dos sobreviventes. Quais seriam as motivações deste massacre?

Balcanização, prática europeia,  em andamento

Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovara a resolução 181 favorável à “Partilha” da Palestina entre judeus e “árabes” (os palestinos). Legitimava-se internacionalmente, desta forma, uma prática europeia, racista, portanto, liberal, contra os povos árabes submetidos ao poder do imperialismo: a balcanização. Legitimação internacional da agressão europeia à Grande Síria, já dividida territorialmente entre Líbano, Síria, Jordânia, Palestina, Iraque e Kuwait, que criou as condições geográficas para a implosão do nacionalismo árabe.

Um século antes, entre 1839 e 1843, Inglaterra, Áustria, Prússia, Rússia e a Igreja Católica (indiretamente) se uniram para barrar o expansionismo do paxá do Egito (apoiado pela França), o reformista e modernizador Mohammed Ali, que ameaçava o poder do Império Otomano, cuja fragmentação alimentaria os apetites expansionistas dos impérios europeus, algo muito desagradável para os ingleses. O líder dos egípcios era apoiado pelo também reformista e modernizador emir das Montanhas do Líbano Bachir Chehab II. Tropas e frotas anglo-austro-otomanas chegaram a bombardear intensamente Beirute, entre 11 e 14 de setembro de 1840, por terra e mar, matando milhares de pessoas.

Em 1843, em consequência da derrota egípcia, visando submeter o interior da Síria, Inglaterra, Áustria e a Igreja Católica propuseram pela primeira vez na História um programa de balcanização, ou seja, a divisão territorial em bases étnicas e/ou confessionais do Monte Líbano. Desprezando mais de oito séculos de convivência e coexistência mesclada no emirado entre árabes-sírios cristãos maronitas e druzos (uma comunidade heterodoxa do islã), foi proposta a divisão do Monte Líbano entre dois distritos sob bases religiosas, sendo o norte, dominado pelos cristãos maronitas, e o sul, pelos druzos.

A separação de duas comunidades religiosas que conviviam entrelaçadas entre si há quase um milênio só poderia ocorrer por meio da força, da violência, da limpeza étnica e o genocídio destas comunidades. Isto foi a centelha para as guerras, massacres e limpeza confessional (de cristãos, druzos e muçulmanos), que sangraram a Síria histórica por duas décadas, até que a invasão francesa de 1861 fez criar um território sob hegemonia cristã maronita, mas administrada por um conselho confessional, em substituição aos dois distritos confessionais no Monte Líbano. Como resultado da criação deste município, os cristãos maronitas começaram a emigrar primeiramente para o litoral sírio (Beirute, Sidon, Tiro, Trípoli) e o Egito e, posteriormente, para as Américas. Neste ínterim, os ingleses vislumbram a implantação de uma comunidade religiosa que lhes pudesse oferecer o apoio às suas ambições imperiais naquela região tão estratégica: os judeus.

Exclusivismo comunitário x pluralismo étnico e confessional

A fundação de uma entidade territorial fundamentada no exclusivismo comunitário só poderia se chocar violentamente com a resistência do pluralismo étnico e confessional no Oriente Médio. Os conflitos no Monte Líbano, entre 1840 e 1861, provaram isto. Portanto, não surpreende a feroz resistência dos árabes palestinos à “partilha” da Palestina para dar origem a um Estado exclusivamente judeu, sendo este apoiado com armas e dinheiro pelos EUA, Inglaterra, França e as antigas União Soviética (URSS) e Tchecoslováquia.

Com a aprovação da resolução 181 pela ONU, em 1947, os árabes palestinos (cristãos e muçulmanos) combateram (mal armados e decapitados de suas principais lideranças e de seus melhores guerrilheiros pela brutal repressão inglesa à revolta palestina de 1936-39) as milícias sionistas, que eram mais bem treinadas, armadas e financiadas. Com uma comunidade com cerca de 600 mil pessoas implantadas na Palestina por força da Inglaterra e pelas aquisições das terras de proprietários árabes, os judeus sionistas contavam com um exército que chegou a alcançar a inacreditável cifra de 35 mil milicianos no início da guerra civil, em novembro de 1947. Quando os exércitos regulares árabes intervieram na Palestina, somavam, ao lado dos combatentes palestinos e voluntários árabes, apenas 28 mil homens armados, em maio de 1948, enquanto o contingente do exército israelense alcançava a cifra de 41 mil soldados. E e no final da guerra, no inverno de 1949, chegaram aos 115 mil militares. Ainda assim, no início dos confrontos em 1947, os palestinos, com seus parcos 9 mil combatentes, mantiveram equilíbrio nos confrontos com os milicianos sionistas. Até meados de março de 1948, a vitória sionista não era de modo algum perceptível. Foram as intervenções da então URSS e dos EUA no conflito que mudaram os rumos da guerra civil na Palestina.

EUA, Rússia, Israel e a balcanização da Palestina

Os soviéticos enviaram armas para os sionistas, reiterando o voto favorável à balcanização da Palestina, por acreditarem que os governos árabes eram por demais “reacionários”, “feudais” e “pró-imperialistas” (na época, significava ser aliados da Inglaterra e da França), propaganda útil aos sionistas até a Guerra dos Seis Dias (1967). Para a URSS, Israel seria a “cunha anti-imperialista” no Oriente Médio. A intervenção soviética na guerra alarmou os EUA, que prontamente demandaram a suspensão da “partilha” da Palestina no Conselho de Segurança da ONU, em 19 de março de 1948. Este, por sua vez, convocou uma Assembleia para debater a proposta ianque, em 1º de abril de 1948.

De imediato, David Ben-Gurion, a principal liderança sionista, percebeu que os EUA poderiam não apenas encerrar a guerra, mas também impedir a balcanização da Palestina e a fundação do Estado judeu. Ele deu início ao Plano D (Dalet em hebraico, uma vez que os planos A, B e C já haviam sucedido). Este plano consistia numa conquista militar total da Palestina, no que implicaria na anexação de todos os territórios destinados aos palestinos, assim como a expulsão destes do que seria o futuro Estado judeu erguido sobre todo o país. Era a limpeza étnica e Ben-Gurion já tinha em mente o confronto com os exércitos regulares árabes.

A indecisão dos EUA para com a divisão do país levantino só fez as forças sionistas se tornarem mais sistemáticas e objetivas em seus propósitos. Por isto, o Plano D, isto é, a limpeza étnica dos palestinos, era urgente para os sionistas. Afinal, o futuro Estado judeu deveria ser “100% judeu”, apartado e, sobretudo, “limpo” da multimilenar presença árabe na região. Assim sendo, a aldeia de Deir Yassin foi escolhida para ser a primeira das mais de 200 cidades, vilarejos e aldeias a terem a existência árabe-palestina erradicada pelos sionistas, segundo o historiador israelense Ilan Pappé, exilado em Londres, após sofrer ameaças de morte em Israel após publicar o livro A Limpeza Étnica da Palestina, em 2007.

Limpeza étnica na Palestina e a racionalização do genocídio

Quando os ingleses se retiraram definitivamente da Palestina, em 14 de maio de 1948, abolindo mandato sobre o país, a limpeza étnica perpetrada pelos grupos terroristas sionistas IrgunGang Stern e o Hagannah havia provocado, de março do mesmo ano até então, a expulsão de 250 mil a 300 mil palestinos, segundo o historiador israelense ultra-direitista-liberal Benny Morris. Cifra que alcançaria a marca de 370 mil palestinos expulsos em 1º de junho de 1948. Estes refugiados palestinos entraram maciçamente nos territórios dos países árabes vizinhos, causando incômodo aos governos autocráticos árabes, clientes do Ocidente, à exceção do governo democrático da Síria.

Foi para impedir a expulsão dos palestinos pelas milícias sionistas que os exércitos árabes invadiram a Palestina (não atingindo os territórios destinados aos judeus pela ONU) em 15 de maio de 1948. O alvo da intervenção das tropas do Egito, Transjordânia e Líbano não era Israel, exceto para os sírios, os únicos a não serem derrotados no campo de batalha pelas forças sionistas. Talvez, este tenha sido um motivo a mais para o golpe militar patrocinado pelos EUA para derrubar o governo democrático de Chuckri al-Kuwatli, em Damasco, em março de 1949, que instalou uma ditadura militar. Ao tomar o poder em Damasco, o ditador sírio coronel Hosni Zaim, apoiado pelos EUA, expulsou para o Líbano o líder nacionalista árabe-sírio Antoun Saadeh, arqui-inimigo de Israel e do colonialismo europeu, e ainda propôs secretamente a paz ao líder sionista Ben-Gurion, ainda durante a guerra na Palestina, aceitando receber mais de 300 mil refugiados palestinos em troca do acesso às águas do Lago Tiberíades.

Outro ditador árabe a propor negociações secretas com os sionistas foi o emir da Transjordânia, Abdullah al-Hachemi, antes do início da guerra civil entre palestinos e judeus, em novembro de 1947. Neste acordo secreto e verbal, o monarca hachemita, cliente dos ingleses, aceitou a proposta sionista de aceitar a anexação da Cisjordânia em troca do reconhecimento do futuro Estado judeu. Ainda no curso da guerra, os sionistas propuseram ao Egito “ceder” a Faixa de Gaza e o Negev, territórios destinados aos palestinos pela ONU, em troca do reconhecimento de Israel. O rei Faruk, autocrata cliente da Inglaterra, aceitou a oferta sionista, mas Ben-Gurion acabou não “cedendo” o Negev. É preciso ressaltar que as negociações secretas árabe-sionistas não encerravam os combates, pois os limites entre os Estados árabes e o futuro Estado judeu não estavam definidos, uma vez que o Estado árabe-palestino deveria desaparecer.

Tais acordos secretos entre lideranças árabes antidemocráticas e pró-Ocidente (contrárias à opinião pública árabe majoritariamente favorável aos palestinos) e sionistas acabariam selando o destino dos palestinos antes, durante e após a guerra da Palestina (1947-49), que levaria não apenas à fundação de Israel, mas ao não retorno dos refugiados à sua terra natal. Isto contrariava e desafiava a resolução 194 da ONU, de 1948, que demandava o imediato regresso das populações expulsas. Desta forma, Israel consolidou-se como um Estado de maioria judaica, com uma população de 1,1 milhão de judeus e 160 mil árabes-palestinos, sobre a expulsão de mais de 900 mil palestinos de sua pátria.

A campanha de limpeza étnica, iniciada com o Massacre de Deir Yassin, havia dado resultados favoráveis aos israelenses. Estabeleceu-se um padrão de conduta para a liderança sionista, racista, o uso de extrema violência contra populações árabes para provocar “choque e pavor” e a expulsão das mesmas. Tal padrão bem-sucedido seria repetido em inúmeros massacres promovidos por Israel, como em Khan Yunis (1956), Qibyia (1956), Kafr Qasim (1956), Bahr el-Baqar (1970), os incessantes ataques ao sul do Líbano a partir de 1968 até os dias de hoje, atingindo o ponto alto com os Massacres de Sabra e Chatila (1982) e de Gaza (2008-2009), demonstrando uma espécie de “racionalização do genocídio” sem enfrentar qualquer forma de censura internacional mais veemente. Impunidade garantida a Israel com a cumplicidade de governos antidemocráticos no mundo árabe, submissos ao poder dos EUA.


Ramez Philippe Maalouf é especialista em Relações Internacionais – UERJ, mestre e doutorando em Geografia Humana – USP.