quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Hidrelétricas do Madeira: a guerra dos Megawatts

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Usina hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. (Foto: Marcelo Min)

Uma briga entre peixes grandes revolta o curso do rio Madeira. As usinas hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, segundo maior potencial hidrelétrico do Programa de Aceleração do Crescimento, disputam cada megawatt a ser extraído das águas de Rondônia.

Desde que ganharam o leilão para explorar o rio, entre 2007 e 2008, os empreendimentos tentam antecipar as obras e fazem alterações ao projeto para aumentar a geração de energia. Mas, construídas com 110 quilômetros de distância entre elas, ambas as usinas alegam que as mudanças pleiteadas pela vizinha prejudicariam o seu projeto. E batem na porta do governo federal, responsável por autorizar cada alteração, com argumentos técnicos e ameaças jurídicas.

Literalmente à margem das decisões, os habitantes de cidades e vilas banhadas pelo Madeira ainda tentam se adaptar às reviravoltas pelas quais o rio já passou. Impactos que podem ser agravados com a expansão das usinas. Como as ondas gigantes que engoliram casas e provocaram desmoronamentos em Porto Velho e duas outras comunidades rio abaixo. Ou as 11 toneladas de peixes mortos encontrados nas proximidades da barragem – o cheiro era tão forte que podia ser sentido do centro da capital (leia mais sobre os impactos das usinas no rio)

“Como se pode sequer pensar em autorizar a expansão de um empreendimento que ainda não mostrou como vai mitigar os impactos já detectados?”, questiona o promotor Aluildo de Oliveira Leite, do Ministério Público Estadual de Rondônia. Acompanhando o processo há alguns anos, ele não confia que o governo vai cobrar a dívida ambiental e social das usinas antes de injetar mais dinheiro nos empreendimentos. Por isso, move uma açãoexigindo que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) se abstenha de licenciar qualquer expansão enquanto as empresas não derem uma resposta satisfatória a todos os grupos afetados.

Margem com pedras para contenção do desbarrancamento, consequência da abertura das comportas da usina de Santo Antônio. (Foto: Marcelo Min)

Ele não está sozinho. MP estadual, federal e organizações ligadas ao meio ambiente já moveram mais de uma dezena de ações questionando os impactos provocados pelas usinas e o modo como o governo deveria controla-los.

O receio dos promotores e ambientalistas é que o interesse público e os direitos dos milhares de moradores afetados pelas obras fiquem pequenos quando confrontados com as forças envolvidas nessa disputa.

Queda de braço

De um lado está a multinacional de origem francesa GDF Suez, que comprou as ações da construtora Camargo Correa e virou sócia majoritária da sociedade Energia Sustentável do Brasil, responsável por Jirau. A empresa também tem entre seus sócios a Eletrosul e a Chesf, ambas vinculadas ao Ministério de Minas e Energia.

Do outro lado, o consórcio Santo Antônio Energia é liderado pela Odebrecht e fatiado entre Andrade Gutierrez, Eletrobrás-Furnas (vinculadas ao Ministério de Minas e Energia) e Cemig (subordinada ao governo de Minas Gerais).

Juntos, os dois empreendimentos devem receber mais de R$ 30 bilhões para construir e explorar uma estrutura capaz de gerar 6,9 mil megawatts – o equivalente a 6% de toda a energia produzida no país, suficiente para abastecer mais de 20 milhões de residências.

O motivo da corrida e da disputa entre as usinas é que apenas uma parcela da energia a ser produzida por essas usinas, cerca de 60%, tem garantias de que será vendida para o mercado cativo (ambiente de compra e venda controlado pelo governo). A outra parte pode ser vendida no mercado livre, ao preço que a usina conseguir, assim como toda a energia que for produzida antes da data prevista no contrato com o governo.

Obra da usina de Santo Antônio em vila que foi removida. Ao fundo, árvores mortas devido ao alagamento. (Foto: Marcelo Min)

Por isso, desde que o leilão foi encerrado, as duas concessionárias tentam antecipar o início de sua operação e pleiteiam autorizações para aumentar a potência de geração. Mas, o cálculo para aumentar o rendimento financeiro não leva em conta os custos sociais e ambientais – que também crescem com as mudanças.

“As greves que estouraram em Jirau em 2011 foram consequência dessa aceleração. A empresa contratou mais funcionários do que era previsto, e mais do que ela era capaz de administrar. Tudo para vender energia antes”, diz a economista Alessandra Cardoso, assessora do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), ONG que monitora os investimentos nas usinas hidrelétricas na Amazônia.

Além da greve, o inchaço no número de trabalhadores – o dobro do planejado – representou uma explosão demográfica na região. Não havia leitos nos hospitais para os operários acidentados, nem matrícula nas escolas para os filhos dos trabalhadores. Os moradores de Jaci Paraná, povoado mais próximo de Jirau, vivem sufocados pela violência depois que a vila de pescadores triplicou de tamanho em três anos (Leia mais na reportagem “Vidas em trânsito”).

Todos os impactos são previstos de acordo com o tamanho e cronograma da obra. A partir desse plano, são calculados os valores e as ações para criar a estrutura pública necessária. Por isso, é importante que o plano seja cumprido. “As empresas não têm o direito de passar por cima de tudo isso para aumentar rentabilidade”, diz Alessandra.

As mudanças para baixar o custo de Jirau já nasceram antes mesmo de a obra começar. O consórcio Energia Sustentável apresentou uma proposta que alterava o local da barragem em 9,4 quilômetros. Em vez da cachoeira de Jirau, a usina foi construída na corredeira chamada Caldeirão do Inferno.

A alteração trouxe economias de R$ 1 bilhão no custo da obra, mas gerou o alagamento adicional de 400 hectares da Floresta Estadual Rio Vermelho, segundo o Ministério Público de Rondônia. O órgão moveu uma ação de improbidade administrativa contra a presidência do Ibama por ter autorizado a mudança sem refazer os estudos de impacto ambiental.

Desmatamento em área a ser alagada pela usina de Jirau. (Foto: Marcelo Min)

Não demorou muito para o rio ficar pequeno para as duas usinas. A briga começou em 2010, quando a Energia Sustentável pediu para adicionar mais seis turbinas ao projeto original, que tinha 44. A solicitação foi aprovada pela Agência Nacional de energia Elétrica (Aneel), e o empreendimento ganhou empréstimo adicional de R$ 5 bilhões – 50% dos R$ 10 bilhões iniciais.

Um mês depois, Santo Antônio também enviou plano para aumentar sua geração. A Aneel condicionou essa aprovação ao Ibama, já que, além do aumento de turbinas, a Santo Antônio também precisará alagar 1.300 hectares de terra para aumentar sua potência. Nessa área há vilas, uma estrada federal e duas unidades de conservação.

Mas o impacto ambiental e social não gerou comoção equivalente à reação da usina vizinha. Seguindo a correnteza do rio, Jirau fica antes de Santo Antônio. Por isso, o aumento do volume represado na segunda aumenta a altura do rio e diminui a queda d’água da primeira – o que reduz sua possibilidade de aumentar a potência.

À Aneel, a Energia Sustentável pediu a suspensão da análise de expansão de Santo Antônio. O argumento é que a alteração decorreria em riscos na estrutura de Jirau, que poderiam provocar um “acidente sem precedentes”. A mudança está agora nas mãos do Ibama. Segundo Thomaz Miazaki de Toledo, coordenador de Infraestrutura de Energia Elétrica, o instituto aguarda o levantamento do número de famílias a serem removidas e a área a ser desmatada – informações levantadas pelo consórcio que pede a expansão.

A Aneel já sinalizou que a decisão será pela solução que agregue maior energia ao complexo, considerando a soma das duas usinas.
 
O plano de Dilma
A corrida por energia tem, como pano de fundo, os estímulos do governo federal para o setor. Os recursos que financiam as obras saem dos cofres públicos. Jirau, que tem previsão de investimentos de R$ 15,5 bilhões, já recebeu R$ 9,5 bi do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio de empréstimos diretos e indiretos. O mesmo banco também é o maior financiador da Santo Antônio, orçada em R$ 15,1 bilhões. A usina ainda recebeu empréstimos de dois fundos públicos: o Fundo Constitucional do Norte e o Fundo de Desenvolvimento da Amazônia.

Para quitar esse empréstimo, as empresas têm a garantia de que mais da metade da energia produzida será vendida. Além disso, a taxa cobrada pelo BNDES é camarada, a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Além dessas facilidades, as usinas ainda podem ficar isentas de pagar Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS). Em agosto de 2011, a Assembleia Legislativa de Rondônia aprovou uma lei que estende a isenção, dada a algumas empresas locais, às usinas do rio Madeira. Um mês depois, o Ministério Público Estadual entrou com um pedido de Ação Direta de Inconstitucionalidade e obteve liminar que suspendeu provisoriamente a validade da lei.

As usinas recebem tantos incentivos porque estão no centro do plano da presidenta Dilma Rousseff para o crescimento econômico do país. Santo Antônio e Jirau são o carro-chefe de um ambicioso plano registrado na Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O governo já contratou a construção de 19 usinas hidrelétricas, e há 29 projetos em estudo pela Aneel.

Torres de transmissão. (Foto: Marcelo Min)

A meta é saltar dos 116 mil megawatts que circulam pelo Sistema Interligado Nacional, para 182 mil em 2021. Essa projeção se baseia  nas previsões para uma expansão do Produto Interno Bruto: 5% anuais. O governo vincula diretamente o crescimento da economia e a oferta de energia. A promessa, ainda, é não só que não haverá novos apagões, como também que essa energia será vendida a custos mais baixos, o que aumentaria a competitividade dos produtos brasileiros, por exemplo.

Zonas de sacrifício


O problema é que, no caminho do plano do governo, e no meio da queda de braço entre as construtoras, está a população do estado de Rondônia e o ecossistema do rio Madeira – recentemente apontado como berço fluvial de maior riqueza biológica do mundo. Quando contrastadas com o plano macro, muitas vezes essas áreas são consideradas “zonas de sacrifício”, na análise do cientista político Luiz Novoa, professor da Universidade Federal de Rondônia e coordenador de grupo de pesquisa sobre as comunidades afetadas pelas usinas.

“Na guerra pelo desenvolvimento, é como se essas regiões fossem efeitos colaterais de um objetivo maior a ser conquistado em nome do bem comum”, afirma. Ele lembra que, quando surgiram os primeiros projetos de Jirau e Santo Antônio, criou-se a expectativa de que o complexo seria um novo referencial. Em especial com o anúncio do uso de um novo tipo de tecnologia, as turbinas bulbo, que funcionam com o fluxo normal do rio – diminuindo a quantidade de água que precisa ser represada.

“Criou-se a expectativa que se superasse o histórico de Tucuruí e Balbina, hidrelétricas construídas na Amazônia durante o regime militar e depois reconhecidas como desastres ambientais”, diz Novoa. “Afinal, hoje temos novas tecnologias e espaços democráticos para debater. Mas não foi isso que aconteceu.”

Embora o país tenha novas ferramentas, o controle dos impactos tem um preço que o governo não está disposto a pagar: tempo.

O prazo do governo já estourou antes mesmo do leilão ter início. Em 2005, o Ibama recebeu o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de impacto Ambiental (EIA-Rima), chave para o controle dos impactos. Esse estudo deve analisar todas as possíveis alterações ao meio provocadas pelo empreendimento. E elenca as medidas necessárias para prevenir, reduzir ou indenizar os prejuízos à população, meio ambiente e patrimônio público.

A avaliação do Ibama é importante porque quem elabora o EIA-Rima são as mesmas empresas interessadas em construir a obra. Nesse caso, o estudo foi feito sob encomenda de Furnas e Odebrecht, empresas que depois ganharam o leilão de Santo Antônio.

O problema é que o EIA-Rima das usinas do rio Madeira foi considerado incompleto pelos técnicos do Ibama. Havia lacunas. Por dois anos, o órgão pediu diversos complementos às empresas.

Ao longo desse tempo, o Ibama e a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, passaram a receber críticas públicas. O ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau chegou a declarar a jornalistas que construiria usinas térmicas e nucleares caso as hidrelétricas do Madeira não fossem aprovadas logo. A pressão também vinha da presidente Dilma, então chefe da Casa Civil, e do ex-presidente Lula. Durante reunião do conselho político, ele teria dito frase que ficou célebre: “jogaram um bagre no colo do presidente”.

Lula fazia piada com um dos muitos pontos não esclarecidos pelo EIA-Rima: a quebra no ciclo de reprodução dos grandes bagres migradores, fonte de renda de cerca de 15 mil pescadores da região. Outra lacuna importante era a falta de avaliação dos impactos da obra rio abaixo das barragens. Mesma região onde, depois, ocorreram os desbarrancamentos nas margens, provocando a destruição de casas (leia mais sobre o fenômeno: Rio Madeira em Fúria).

As dúvidas eram tantas que o MPE moveu uma ação obrigando as empresas a realizarem outro estudo. Esse material apontou inúmeras falhas do EIA-Rima, entre elas a necessidade de se avaliar os efeitos na Bolívia, a montante das usinas. Um dos especialistas a apontar esse problema foi o biólogo Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007, com estudo coletivo que alertava sobre os riscos do aquecimento global.

Rio Madeira visto de Porto Velho. (Foto: Marcelo Min)

Já que a área alagada por Jirau chega até a divisa com a Bolívia, país onde o rio nasce, para Fearnside, os impactos no território boliviano são bastante óbvios. “Quando o rio entra na reserva de Jirau, a velocidade diminui brutalmente, fazendo com que os sedimentos caiam no fundo, formando uma montanha de sedimentos”, afirma. “Com o tempo, formará uma montanha de sedimentos, que funciona como uma segunda barragem. Ao barrar o fluxo d’água, o nível do rio sobe, inundando parte da Bolívia”.

Um grupo de pesquisadores fez ainda um requerimento ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), solicitando estudos sobre os impactos na Bolívia. “Entregamos na mão do embaixador boliviano documentos sobre o impacto na reprodução dos peixes na Bolívia”, diz Telma Monteiro, pesquisadora independente que fez parte do grupo.

A tensão estourou em março de 2007, quando uma equipe de especialistas contratados pelo Ibama para dar parecer final sobre os estudos de impacto concluiu que Jirau e Santo Antônio não deveriam obter o licenciamento.  O parecer, de 221 páginas, foi concluído assim: “Dado o elevado grau de incerteza envolvido no processo; a identificação de áreas afetadas não contempladas no Estudo; o não dimensionamento de vários impactos com ausência de medidas mitigadoras e de controle ambiental (…) Recomenda-se a não emissão da Licença Prévia”. (Leia aqui)

Esse parágrafo foi lido pelo então presidente do Ibama, Marcus Barros, em reunião com Dilma e Lula. Na sequencia, o ex-presidente teria encerrado o encontro abruptamente para que todos pudessem “esfriar a cabeça”. Uma semana depois, o diretor de Licenciamento Ambiental do Ibama, Luiz Felippe Kunz fez despacho controverso. Nele, afirmava que o Ibama não acolheria o parecer dos técnicos no sentido de refazer o Eia-Rima. Mas concordava que a licença só poderia ser emitida depois da elaboração de estudos complementares – indicando que faria consultas sobre impactos em “outros países”. (Leia aqui)

Vinte dias depois desse despacho, em abril de 2007, o Ibama sofreu uma baixa até então inédita no órgão na gestão Lula: a troca de seis cargos de comando, entre eles o presidente do instituto e o secretário executivo. Marcus Barros foi presidente ao longo de todo o primeiro mandato de Lula. Desde que saiu, o instituto teve seis presidentes diferentes em sete anos. Kunz, o diretor de Licenciamento, também foi exonerado.

Em julho do mesmo ano, sob protesto de organizações ligadas ao meio ambiente, as duas usinas receberam o Licenciamento Prévio. O parecer foi assinado pelo novo diretor de Licenciamento, Roberto Messias Franco, promovido a presidente do Ibama um ano depois , com a saída de Marina do governo. Ao assumir o Meio Ambiente, o novo ministro Carlos Minc deu prazo de um mês para que o Ibama apresentasse uma simplificação da burocracia para acelerar a concessão de licenciamentos ambientais.

Rápidos para licenciar, lentos para cobrar

A mesma celeridade, porém, não é observada na hora de cobrar as ações de compensação ambiental. Pela lei, os consórcios são obrigados a investir 0,5 % do valor total dos empreendimentos em unidades de conservação. Isso deveria ser feito durante a construção das usinas. No entanto, Santo Antônio já está gerando energia, Jirau tem previsão para começar em janeiro, e o Ibama ainda não decidiu onde esse dinheiro deve ser aplicado. No caso de Jirau, sequer se definiu o valor total a ser investido.

Thomaz Miazaki de Toledo, coordenador de Infraestrutura de Energia Elétrica do Ibama, explica que isso aconteceu porque a empresa responsável por Jirau enviou um valor inferior ao que era esperado. A lei estabelece que o valor de compensação ambiental deve ser 0,5% do custo total da obra. O problema é que a empresa usa um valor como referência (R$ 6,7 bilhões) que é bem inferior ao valor total da obra. Só até agora, Jirau já recebeu R$ 9,5 bilhões do BNDES.

Ao receber valor inferior ao que era esperado, em vez de exigir a readequação das contas, o Ibama caiu em um imbróglio. “O empreendedor é que fornece essa informação, o Ibama não é expert em valor de projeto, quem aprova isso é a Aneel”, afirma. “Mas essa discrepância nos causou estranheza, vamos investigar.”

Um dos fatores que, segundo Miazaki, dificultou as decisões foi a divisão entre Ibama e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão criado em 2007,  logo depois das mudanças no comando do Ibama. O ICMBio é o responsável pela aplicação da compensação ambiental, mas é um comitê criado dentro do Ibama que decide sobre a aplicação dessa verba.

O destino da verba de compensação ambiental está tão confuso que o único montante que o ICMBio conseguiu acessar virou caso de justiça. O instituto antecipou R$ 6,9 milhões da compensação ambiental de Santo Antônio (definida em R$ 54 milhões). O dinheiro foi usado para a compra de carros tipo pick-ups, retroprojetores, cadeiras e mesas – material distribuído pelos escritórios do instituto em diversos estados.

Incêndio na beira da BR que liga Porto Velho à usina de Jirau. Com explosão populacional, o desmatamento aumentou. (Foto: Marcelo Min)

O Ministério Público de Rondônia interpretou a aplicação como desvio de finalidade e moveu uma ação contra o instituto. Os promotores entenderam que a verba de compensação ambiental deveria ser investida nas unidades de conservação da região afetada. Não seria por falta de demanda. Com a chegada das usinas, explodiu a densidade populacional na região, e um dos impactos indiretos foi o aumento dos conflitos de terra e o desmatamento na região, todos fatores de risco para as unidades de conservação na área.

O presidente do ICMBio, Roberto Vizentin, defende a aplicação, mas admite que é difícil saber os limites sem os parâmetros bem definidos. “Quando esses recursos foram aplicados, ainda não havia sido definido com exatidão quais as regras para aplicação”. A proposta de destinação da compensação ambiental das usinas do rio Madeira só foi aprovada no dia 10 de outubro deste ano.

Referência para o futuro

Para quem acompanhou o licenciamento dessas usinas desde o início, a preocupação é que tipo de referência esse caso vai virar. O maior receio é que vire um marco legal a ser seguido pelos futuros empreendimentos na construção das dezenas de usinas previstas no país.

Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra, tenta reverter esse processo e transformar Jirau e Santo Antônio em um marco do “como não fazer”. “Depois que o técnico do Ibama se manifestou contra um parecer, acabou. Não pode ter licença assinada por cargo de confiança”, afirma.

Numa tentativa de evitar que a prática vire praxe, ele aposta na Ação Civil Pública movida pela ONG em 2007, quando se pedia a anulação da licença prévia: “A construção é irreversível, agora queremos a reparação de danos”. A estratégia é punir as partes responsáveis pelos prejuízos. Quem sabe assim, num futuro próximo, os governos tenham receio de autorizar uma obra sem conhecer os seus impactos.

Ao longo de um mês, a reportagem esteve em contato com a Santo Antônio Energia e a Energia Sustentável do Brasil, construtora de Jirau, com solicitações para visitar as usinas e entrevistar os responsáveis sobre os aspectos ambientais e sociais das obras. Os empreendimentos não autorizaram nossa entrada e alegaram falta de agenda para conceder entrevista.

Veja o mapa do InfoAmazonia
 

* Esse artigo é publicado em parceria com a Pública, onde foi originalmente veiculado.
 

A tragedia do desmatamento ainda continua

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O Brasil alcançou a menor taxa de desmatamento de sua história: foram desmatados 4.656 quilômetros quadrados de floresta entre agosto de 2011 a julho de 2012. Porém, a continuação do desmatamento ainda é uma tragédia, mata milhões de árvores e animais e emite poluição duas vezes mais que todos os carros leves circulando no Brasil.

O número de árvores derrubadas no período de menor desmatamento da história é 20% maior do que o tamanho da população brasileira: 232, 8 milhões foram cortadas nesse período.



*Paulo Barreto é pesquisador sênior do Imazon, com graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e Mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale, dos Estados Unidos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Honduras e a maldição do ouro

correio da cidadania
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Honduras e a maldição do ouro


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ESCRITO POR RONNIE HUETE   
QUARTA, 28 DE NOVEMBRO DE 2012

Santa Elena é um município situado a três horas da cidade de Marcala, no departamento hondurenho de La Paz, onde há aproximadamente quatro anos elabora-se silenciosamente uma concessão mineral e um preâmbulo para a construção de uma usina hidrelétrica; em uma recente visita jornalística, seus habitantes contam a história.
Segundo relatos dos mais velhos, há aproximadamente duzentos anos os moradores de Santa Elena, no departamento hondurenho de La Paz, narravam que crescia uma “árvore de ouro” na região.

Seus habitantes ainda descrevem que essa lenda se transmitiu por várias gerações, mas que, lamentavelmente, na atualidade toma cores reais nada alentadoras para a sua população.

Em uma recente entrevista realizada na comunidade, Julián Gonzales, membro do Fórum Social para o Desenvolvimento Humano e Integral do Município de Santa Elena, conta que a preocupação dos moradores reside na concessão que se outorgou a uma companhia internacional dedicada à extração mineral.

As pesquisas efetuadas pelo Fórum mencionam que tal empresa está registrada com o nome de Investimentos Aurora, pertencente à secretária do Congresso Nacional, Gladis Aurora López.

Exploração

A empresa tem ligações com o capital estadunidense, mexicano e canadense. Julián Gonzales diz que, de acordo com os informes mostrados pela Secretaria de Recursos Naturais (Serna), está documentado que ao Rio Chinacla também levaram maquinário pesado para a construção de uma represa para usina hidrelétrica.

A documentação confirma que já existe a outorga dessa concessão à companhia para a exploração dos minerais existentes em duas comunidades de Santa Elena, no mencionado departamento de La Paz e em Cerro de la Campana y San Marcos de Intibucá, pertencentes ao departamento de Intibucá.

O mapeamento de tal concessão consiste em construir nas citadas regiões uma represa hidrelétrica e levar a cabo a exploração mineral a céu aberto. Uma parte dos territórios em que se pretende efetuar a exploração mineral são terras ancestrais, tendo uma parte utilizada para pecuária e agricultura.

As experiências vividas em outras comunidades de Honduras demonstraram que a exploração mineral a céu aberto despojou de suas terras antigos habitantes, deixando de passagem uma forte contaminação do ambiente, devido aos explosivos detonados para abrir espaço a tal exploração.

Convenção 169 da OIT

O Fórum Social para o Desenvolvimento Humano e Integral do Município de Santa Elena denuncia que a concessão se fez sem escutar a opinião de seus moradores, que têm vínculos com o povo originário lenca.

“Estamos de acordo que se explore o território sempre e quando as garantias econômicas e os lucros sejam distribuídos de forma equitativa com seus habitantes e que se realize uma consulta popular“, afirmou Gonzales.

Mesmo assim, Julián Gonzales assinala que a concessão outorgada a investimentos da Aurora desrespeita a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para os povos indígenas e afro-descendentes, que ampara a população local no sentido de se efetuar a citada consulta popular.

A consulta deve se realizar com o objetivo de perguntar aos habitantes se estão de acordo e aprovam a construção da usina hidrelétrica na região e a exploração mineral.

Consulta popular

A Convenção 169 da OIT dá poder de realização de consulta popular quando se pretende estabelecer um projeto privado ou público, posto que seu contexto tenta respeitar a opinião dos moradores de determinado lugar, em qualquer parte do mundo, de modo a se respeitarem os processos democráticos participativos.

Por outro lado, ainda se desconhece o tipo de mineral que se explorará na região, dado que essa informação é guardada em segredo; a respeito disso, as autoridades locais e das demais regiões outorgadas guardam silêncio ante o fato de se desrespeitar a Convenção 169 da OIT.

Diante de tais acontecimentos, o Fórum de Santa Elena exige das autoridades competentes a convocação de uma consulta popular entre seus habitantes para cumprir a norma internacional à qual Honduras aceitou se vincular.

Abandono de projetos

Os projetos sociais relativos à água, educação, energia, saúde, saneamento e demais serviços essenciais para uma vida digna foram esquecidos em Santa Elena.

O município é um dos bolsões recuperados da nação vizinha, El Salvador, na decisão do Tribunal de Haia de em 1992, referente aos territórios fronteiriços deste país com Honduras.

Em Santa Elena, a lenda da “árvore de ouro” ainda é narrada entre os nativos, mas desta vez a preocupação deles é de que realmente exista em seu solo e subsolo o dito mineral, e que a história futura de suas comunidades se resuma a saqueios e contaminação.


Leia também:

Ronnie Huete Salgado é foto-jornalista hondurenho exilado no Brasil após o golpe de Estado de 2009 e colaborador de veículos de mídia alternativa.

Nota do autor do texto: Qualquer atentado ou ameaça ao autor do artigo é responsabilidade de quem representa e governa o Estado de Honduras ou de seus invasores.

Tradução: Gabriel Brito, Correio da Cidadania.
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO EM SEXTA, 30 DE NOVEMBRO DE 2012

“Marighella” retrata história do impetuoso “tio Carlos”

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21349&boletim_id=1451&componente_id=24564


“Marighella” retrata história do impetuoso “tio Carlos”

A diretora de cinema Isa Grinspum Ferraz conseguiu o que almejava há anos: lançar um documentário sobre a vida de Carlos Marighella. “E por feliz coincidência a Comissão da Verdade saiu agora, pois o filme está dentro deste quadro importantíssimo. Finalmente se começa a mexer na ferida do Brasil”, disse Grispum, no encerramento da 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.

São Paulo - No ano em que uma das figuras mais importantes da esquerda brasileira, Carlos Marighella, recebeu sua anistia 'post mortem', a diretora de cinema Isa Grinspum Ferraz conseguiu o que almeja há anos: lançar um documentário sobre a vida do militante. “E por feliz coincidência a Comissão da Verdade saiu agora, pois o filme está dentro deste quadro importantíssimo. Finalmente se começa a mexer na ferida do Brasil”, completou Grispum, no encerramento da 7a Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.

Com 100 minutos, Marighella aborda as “mil faces de um homem leal”, como gravou o músico Mano Bronw especialmente para o documentário. “O filme é uma investigação e eu fui descobrindo durante o processo de feitura do filme muitas facetas do Marighella. A história dele é uma saga verdadeira. Ele lutou durante quarenta anos initerruptamente”, contou Grinspum à Carta Maior. 

Segundo a diretora, o primeiro corte do filme ficou com quatro horas e meia de duração, o que mostrava de maneira mais completa sua vida, mas era impossível deixa-lo com tal duração para projeção no cinema. Ela sugere que outros filmes ficcionais ou documentários sobre Marighella sejam feitos.

O filme é ambientado com gravações musicais da época, imagens das cidades em que Marighella viveu e cenas de documentários. Como não há filmagens do militante, a história em si é contada através dos depoimentos de ex-companheiros de Partido Comunista Brasileiro (PCB) e Ação Libertadora Nacional (ALN), e principalmente por sua companheira Clara Charf.

Seja pela filiação de um pai imigrante italiano anarquista com uma mãe negra filha de escravos trazidos do Sudão, ou pelas formulações políticas que tentavam responder os desafios de uma revolução comunista no Brasil, o filme reforça Marighella como um homem trabalhador, de origem pobre, que dedicou a própria vida para a melhoria da vida de seu povo.

O baiano chamava a atenção não só pelo seu porte físico mas também pela imensa criatividade utilizada em versos poéticos, por exemplo. Em 1932, Marighella é preso pela primeira vez no Rio de Janeiro. Quatro anos depois é preso novamente e submetido a torturas. Fato que se repete em 1939, quando ficou preso por mais seis anos.

Entre sua eleição como deputado em 1946 – ilustrada através de cartazes de campanha – e sua morte em 1972 por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o filme segue Marighella nas indas e vindas na clandestinidade, nas discordâncias com o PCB e nas viagens que fez à Cuba e à China para conhecer outros processos de mobilização.

Grispum queria deixar “claro por que o Mariguella agia da maneira que agia, inclusive o porquê optou pela guerrilha num dado momento, pela lutar armada, já num período em que não só a ditadura aqui estava muito brava como no mundo inteiro havia um contexto de luta armada”.

“Não chegava a ser Guevara, mas no Brasil a gente tinha Marighella”, diz um dos depoentes no filme, reproduzindo a imagem que pessoas da esquerda tinham já na época.

A humanização daquele que tinha um lado mítico para uma geração é ajudada pelos relatos da própria diretora em seu ambiente familiar. Ela é sobrinha de Marighella e se dedicou a retratar a história de um homem corajoso que carregava o ímpeto de despertar um povo por transformação social através do estímulo em descobrir a trajetória do carinhoso “tio Carlos” que se dedicava a carrega-la no colo antes de dormir.

Ataque que matou cacique Nizio Gomes no MS teve planejamento minucioso


IHU
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/516059-ataque-que-matou-cacique-nizio-gomes-no-ms-teve-planejamento-minucioso


Ataque que matou cacique Nizio Gomes no MS teve planejamento minucioso

Denúncia do Ministério Público Federal contra 19 pessoas revela os detalhes da ação criminosa, encomendada por fazendeiros e executada por empresa de segurança.

A reportagem é de Verena Glass e publicada pela Agência Repórter Brasil, 01-12-2012.

O assassinato do cacique guarani kaiowá Nizio Gomes em 18 de novembro de 2011, no acampamento da retomada doTekoha Guaiviry, localizado nos municípios de Aral Moreira (MS) e Ponta Porã (MS), no Cone Sul do Estado, foi um crime que chocou o país e teve grande repercussão nacional e internacional. Agora, dez dias antes do aniversário de um ano do assassinato de Nizio, o processo contra os 19 acusados de planejar e executar o crime deixou de correr em segredo de justiça. 

Públicas desde o dia 8 de novembro, as investigações e a conseqüente denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contam uma história digna de romance policial, com relatos de suborno, acenos ligados à disputa do poder político (promessa de apoio à eleição de um amigo da vítima ao cargo de vereador), planejamento minucioso do crime na calada da noite, delação da amante do dono da empresa envolvida no assassinato, entre outros.

Documentos públicos fundamentados em depoimentos e investigações revelam que a trama que levou à morte de Niziocomeçou pouco após a retomada de um pequeno trecho da Fazenda Nova Aurora pelos kaiowá de Guaiviry, em 1° de novembro de 2011. Vizinhos da área, os réus Idelfino Maganha (dono das Fazendas Querência, Cachoeirinha e Figueira),Claudio Adelino Gali (dono das Fazendas Sonho Mágico e Arueira) e Samuel Peloi (dono da Fazenda Dois Irmãos), além do presidente do sindicato rural e Secretário Municipal de Obras de Aral Moreira (MS), Osvin Mittanck, e dos advogados Levi Palma Dieter Michael Seyboth (este último, genro do fazendeiro Maganha) começaram a discutir formas para retirar os indígenas da área. Foram aventadas três possibilidades: convencer o grupo a sair mediante o oferecimento de dinheiro; pedir reintegração de posse na Justiça; ou contratar uma empresa de segurança privada armada para promover a expulsão violenta.

Primeiro de tudo, porém, havia a necessidade de sondar o acampamento. Para isso, Osvin apresentou ao grupo o indígenaDilo, conhecido do cacique Nizio Gomes. A missão atribuída a Dilo foi a de levantar o número de acampados em Guaiviry e verificar se o Nizio sairia em troca de pagamento. Dilo foi três vezes ao acampamento, mas o cacique permanecia firme: a terra pertenceu aos seus ancestrais, e lá o grupo ficaria.

Entrementes, os fazendeiros contataram a empresa de segurança Gaspem (conhecida no Estado por suas ações violentas contra acampamentos indígenas), comandada pelo policial militar aposentado Aurelino Arce. Com o fracasso das tentativas de suborno, o grupo decidiu, segundo consta na denúncia do MPF acatada pelo Judiciário, pela contratação dos pistoleiros.

Um dia antes, o advogado Levi Palma e o dono da Gaspem teriam acertado os detalhes da ação. Aurelino Arceacionara, então, seus homens - os réus Josivam Vieira de Oliveira (vigilante), Jerri Adriano Pereira Benites(aposentado), Wesley Alves Jardim (ajudante de pedreiro), Juarez Rocanski (vendedor ambulante), Edimar Alves dos Reis (vigilante), Nilson da Silva Braga (vigilante), Ricardo Alessandro Severino do Nascimento (vigilante e gerente da Gaspem), André Pereira dos Santos (vigilante), Robson Neres do Araújo, Marcelo Benitez e Eugenio Benito Penzo-, enquanto Levi cuidou da logística e reuniu, junto aos fazendeiros locais, as armas para o ataque.

Por volta das 22h do dia 17, o grupo de Aurelino chegou à Fazenda Maranata, onde foi recebido pelo fazendeiro Samuel Peloi, que lhes ofereceu um jantar. Após a refeição, já na madrugada do dia 18, Cláudio Adelino Gali, Aparecido Sanches (seu braço direito e capataz em sua fazenda), Samuel Peloi, Levi Palma e os 12 integrantes da Gaspem fecharam os detalhes do ataque. Conforme testemunhas, os fazendeiros repassaram as armas de fogo (ao menos seis, do tipo calibre 12). Decidiu-se o horário da ação e a logística de carros.

O ataque

O ataque ao acampamento foi perpetrado pelos jagunços Josivan, Jerri Adriano, Wesley, Juarez, Edimar, Nilson, Ricardo Alessandro, Robson e Marcelo Benitez, de acordo com as investigações que sustentam a denúncia.

Ao chegarem na trilha que dá acesso ao interior do acampamento de Guaviry, os homens da Gaspem abordaram aos gritos o cacique Nízio Gomes que, assustado, reagiu e acertou o pé direito de Josivan com uma machadinha. Neste momento, começa o tiroteio. Com um tiro sub-axilar, Jerri Adriano mata Nizio. Seu neto, Jhonaton Gomes, de 15 anos, apesar de também ferido, tenta carregar o corpo do avô, mas quando vê os pistoleiros se aproximarem, foge para o mato. Segundo testemunhas, Jerri vai até a vítima, chuta sua cabeça e diz: "esses índios mesmo mortos ainda nos dão trabalho".

A seguir, Robson, Juarez, Edimar, Jerri e Wesley carregam o corpo para fora da mata e colocam-no em uma das duas caminhonetes S-10 que foram utilizadas para acompanhar e dar suporte à ação. O veículo que transportou o corpo do indígena foi conduzido por Aparecido Sanches (funcionário do fazendeiro Cláudio Gali), que estava com outras duas pessoas (ainda não identificadas). 

Após desaparecer com o corpo de Nizio, o consórcio de fazendeiros montou uma estratégia para dificultar as investigações. Dois dias depois do crime, Osvin Mittanck, Samuel Peloi Idelfino Maganha se reuniram com o índioDilo na sede do Sindicato Rural de Aral Moreira. Em troca de dinheiro, pagamento de advogado e apoio à sua candidatura a vereador nas eleições de 2012, Dilo deveria dizer à Polícia Federal (PF) que Nizio estava vivo, escondido em uma aldeia no Paraguai. Pelas mentiras à PF, Dilo recebeu cerca de R$ 2,3 mil dos fazendeiros, apurou a investigação; e concluiu: "o grupo de fazendeiros não poupou esforços para corromper a citada testemunha".

Confirmação da morte


A farsa montada pelos mandantes do assassinato de Nizio não durou muito. Uma das testemunhas-chave no processo foiTatiane Michele da Silva, de 20 anos. Amante do dono da Gaspem, Aurelino ArceTatiane disse à PF que presenciou o momento em que Josivan, Juarez, Jerri Wesley informaram a Aurelino que teriam matado um indígena durante a ação, e que o corpo já estava longe.

Depois das infrutíferas buscas por Nizio no Paraguai, Dilo acabou confessando o esquema de mentiras, tornando-se outra testemunha-chave do processo. Por outro lado, de acordo com a perícia, análises de sangue coletado no local do crime não deixaram dúvidas de que Nizio foi baleado e morto. "A despeito da não localização do corpo ou dos restos mortais, a prova técnica e testemunhal produzidas nestes autos retratam uma miríade de provas e indícios que permitem concluir pela materialidade do delito de homicídio qualificado ora denunciado", sustentou a investigação.

Segundo o MPF, dos 19 acusados - Claudio Adelino Gali (fazendeiro), Levi Palma (advogado), Aparecido Sanches(tratorista, homem de confiança de Cláudio Gali e capataz de sua propriedade rural Sonho Mágico), Samuel Peloi(fazendeiro), Idelfino Maganha (fazendeiro), Dieter Michael Seyboth (advogado e genro de Idelfino Maganha), Osvin Mittanck (presidente do Sindicato Rural e Secretário de Obras de Aral Moreira/MS), Aurelino Arce (PM aposentado, proprietário da Gaspem Segurança Ltda), Josivam Vieira de Oliveira (vigilante, agente executor), Jerri Adriano Pereira Benites (aposentado, agente executor), Wesley Alves Jardim (ajudante de pedreiro, agente executor), Juarez Rocanski(vendedor ambulante, agente executor), Edimar Alves dos Reis (vigilante, agente executor), Nilson da Silva Braga(vigilante, agente executor), Ricardo Alessandro Severino do Nascimento (vigilante, gerente da Gaspem Segurança),André Pereira dos Santos (vigilante, executor), Robson Neres do Araújo, agente executor, Marcelo Benitez, agente executor, e Eugenio Benito Penzo, motorista -, três responderiam pelo homicídio qualificado, lesão corporal, ocultação de cadáver, porte ilegal de arma de fogo e corrupção de testemunha; quatro, por homicídio qualificado, lesão corporal, ocultação de cadáver e porte ilegal de arma de fogo; e 12, por homicídio qualificado, lesão corporal, formação de quadrilha ou bando armado, e porte ilegal de arma de fogo.

O caso corre agora na Justiça Federal de Ponta Porã (processo 0001927-86.2012.4.03.6005). Já durante o inquérito, a PF havia pedido a prisão preventiva de 18 investigados, dos quais sete continuam detidos. Os acusados foram citados para que apresentem suas respectivas defesas.

Demarcação é reivindicação antiga


A área indígena Guaiviry vem sendo reivindicada pelos Guarani-kaiowá desde 2004. De acordo com as lideranças, a área teria sido demarcada como indígena ainda no século XIX, mas na década de 1910, com a criação da Terra Indígena Amambaí pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), a população de Guaiviry foi transferida para lá e a área anteriormente ocupada, considerada terra devoluta. Segundo o MPF, “a demarcação da terra indígena Guaiviry é conhecido pleito dos Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul. 

Foi objeto, inclusive, de Termo de Ajustamento de Conduta – TAC celebrado entre o Ministério Público Federal e a Funai em 12/11/2007, a fim de que a autarquia indigenista enfim promovesse os tão aguardados estudos de  identificação e delimitação pertinentes, nos termos da legislação em vigor. Importante ressaltar que o indígena Nízio Gomes figurou como testemunha daquele instrumento jurídico, evidenciando sua importância na luta pelo reconhecimento das terras tradicionais da comunidade Guaiviry”. Até o momento, o estudo da área pela Fundação Nacional do Índio (Funai), ligada ao Ministério da Justiça (MJ), não foi finalizado.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Contagem regressiva para desocupação da Maraiwatsédé



Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé e Justiça
Fonte: http://centroburnier.com.br/wordpress/?p=3574
Ativistas do Fórum de Direitos Humanos e da Terra Mato Grosso (FDHT-MT) acompanham com preocupação a contagem regressiva para remoção dos não-índios da reserva indígena Maraiwatsédé, no Norte de Mato Grosso.
Há risco de conflito.
Se o cenário jurídico e político não mudar, daqui a uma semana, no dia 7 de dezembro, próxima sexta-feira, começam a ser retirados da área fazendeiros de grande, médio e pequeno porte, que, conforme entendeu a justiça até agora, ocupam a área irregularmente.
As primeiras notificações foram feitas no dia 7 de novembro, dando prazo de 30 dias para saída, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ou seja, o caso chegou à última instância.
As notificações estão finalizadas, o que quer dizer que até o final de dezembro, a área deve ser garantida aos xavantes, etnia que habita a região.
O conflito – se ocorrer – será em “mata fechada”. Esse é o significado do nome dado pelos xavantes aos 165 mil hectares em disputa, que cortam três municípios mato-grossenses: Alto Boa Vista, São Félix do Araguaia e Bom Jesus do Araguaia.
A Maraiwatsédé é uma reserva indígena extensa, que não pode ser comparada ao Parque Indígena do Xingu, com seus 2 milhões de hectares. Mas é cinco vezes maior do que o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, por exemplo, que tem 30 mil hectares.
É essa área extensa, de mata fechada, de solo produtivo, que está em disputa.
A imprensa de modo geral tem divulgado que há 7 mil não-índios a serem removidos de lá. Mas de acordo com o Censo Demográfico realizado no Brasil em 2010, é muito menos que isso. A população residente na área é de 2.427 pessoas. Destas, 1.945 declararam-se ou se consideraram indígenas. Aqueles que não se declararam nem se consideraram indígenas, ou sem declaração, são um total de 482 pessoas.

Donos da terra
Livres das burocracias, independentes das leis dos chamados homens brancos, alheios ao capitalismo, os índios xavantes já viviam na área em disputa desde sempre, gerações e mais gerações, até que em 1966, diante da política ocupacionista da Ditadura Militar, foram retirados da área e levados para a reserva São Marcos, também da etnia xavante, no município de Barra do Garças.
A ideia dos militares era abrir espaço à colonização de Mato Grosso e ao progresso.
Em nome disso, os xavantes transferidos chegaram na São Marcos onde estava tendo um surto de sarampo e em duas semanas dois terços deles morreram.
A diáspora xavante favoreceu às empresas colonizadoras, primeiro em nome da família Oriosto da Riva, que fundou o município de Alta Floresta; depois em favor da família Ometo; e por fim, a terra foi comprada por uma empresa petrolífera italiana, chama AGIP, que adquiriu o latifúndio, já considerado o maior do mundo, como título de capitalização.
No final dos anos 80, na Itália, mobilização social criou uma campanha para descobrir os impactos ambientais provocados por empresas de italianas no mundo. Chamou-se Campanha Norte-Sul. Sendo assim, a AGIP foi apontada como uma empresa que impacta negativamente a vida dos povos indígenas e o ecossistema amazônico e, portanto, seria uma vergonha ela continuar na área.
Pressionada e escapando do escândalo, a empresa, através do presidente, devolveu, publicamente, a Maraiwatsédé aos xavantes, na RIO 92.
A RIO 92 foi um primeiro encontro internacional que articulou nações em prol do desenvolvimento sustentável do planeta.
Mediante a devolução da terra, cabia à Fundação Nacional do Índio (Funai), através de um Grupo de Trabalho, apresentar um plano de desintrusão dos irregulares, o que foi feito. Depois disso, foram emitidas diversas portarias, delimitando e demarcando a área, até a homologação em 1998.
Mesmo diante da homologação, não havia clima para os xavantes voltarem à área. O ódio racial contra os indígenas era e é empecilho na região.
Em 2003, um grupo de 50 a 70 indígenas evadidos da Maraiwatsédé foram acampar na BR-158, onde ficaram por 10 meses, pressionando o Governo Federal e as instituições brasileiras, no sentido de garantir o retorno para casa. Nesse período, três crianças morreram, devido às péssimas condições na beira da estrada.
O grupo acabou entrando em uma fazenda chamada Karu, colocaram fogo na sede, e, como não tinha ninguém morando lá, não houve maiores problemas.
A entrada dos xavantes na Maraiwatsédé foi se dando aos poucos e ainda hoje a situação de penúria na aldeia é séria. Conforme dados da Operação Amazônia Nativa (OPAN), 80% das crianças estão desnutridas.
Nesse meio tempo, entre 1998 e 2004, junto com os xavantes, entraram também na reserva quem não tem direito a ela. Foram realizados leilões irregulares no sentido de ocupá-la. Há notícias em jornais comprovando isso. Desde então, o Governo Federal e Estadual foram avisados sobre essa situação de grilagem, que agora chega à última instância judicial.

Posição do Governo
O Governo do Estado, através do governador Silval Barbosa (PMDB), defende a retirada dos índios e a permanência dos não-índios. Barbosa já expôs na imprensa sua posição. O procurador geral do Estado, Jenz Prochnow Júnior, confirma que entrou com uma petição junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), questionando a competência do Supremo para analisar a matéria e pedindo que ela desça ao Tribunal Regional Federal (TRF), de onde ainda não deveria ter saído.
A decisão pela desintrusão em 30 dias foi dada pelo então presidente do Supremo, ministro Carlos Ayres. E é o que está valendo.
“Essa área está antropotizada (habitada por não-índios) e não atende mais aos interesses da comunidade silvícola”, argumenta o procurador Prochnow Júnior, utilizado o termo silvícola abominado pelo movimento indígena porque ainda denota ideia de que os indígenas são – digamos assim – de natureza diferente da humana. “Manter essa terra com os índios é afastar o desenvolvimento econômico de Mato Grosso, as plantações, enfraquecer o agronegócio”, continua o procurador.
Esse discurso desenvolvimentista, conforme do coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Gilberto Vieira, é fraco, não tem cabimento jurídico, porque é inconstitucional e acirra o ódio racial contra os índios, porque fica parecendo que eles são um incômodo à construção do Estado como sendo um eldorado do progresso. “A terra para os indígenas não tem essa conotação capitalista, de lucro, expansionista. Eles usam a terra para viver em harmonia com ela. A terra para os indígenas é mítica, mística, espiritual. Em torno dela acontece toda uma filosofia de vida, uma produção cultural, um respeito ambiental”, explica Vieira.
O fato é que os índios, ao contrário do entendimento do Estado, querem ficar – sim! – na terra.
Perguntado então se o Estado vai manter essa postura contrária aos interesses indígenas, o procurador Prochnow Júnior afirma que não é isso, que a intenção é achar uma saída de consenso.

Lei para quem?
Quem propõe essa saída de consenso é o deputado José Geraldo Riva (PSD) e o então deputado Adalto de Freitas (PMDB) autores da Lei 9.564 aprovada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso que autoriza a transferência dos xavantes da Maraiwatsédé para o Parque Estadual do Araguaia. Essa lei foi sancionada pelo governador Silval Barbosa.
Conforme Gilberto Vieira, do CIMI, essa lei é inconstitucional porque fere o artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que em seu artigo 5º diz. “É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, “ad referendum” do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco”.
Leia o artigo 231 na íntegra aqui.
Prochnow Júnior aponta que em 1988 nem havia índios naquela área.
Vieira retruca que não havia indígenas lá porque eles foram expulsos.
O procurador diz ainda que a área é muito grande e a terra indígena deve ser garantida – sim! – mas dentro dos limites do razoável.
Vieira explica que esses limites do razoável não devem ser calculados apenas pensando em lucro e sim no modo de vida das etnias que ainda caçam e pescam, entre outras práticas, que devem ser mantidas, caso o Brasil queira defender a riqueza das diversas culturas indígenas.

Papel da imprensa
Essa história da Maraiwatsédé já está sendo contada mundo a fora pela imprensa, que, de modo geral, pelo menos no Brasil, tem tido uma postura em favor dos não-índios, na visão do movimento indigenista, que lamenta isso com tristeza.
Tanto é que a Polícia Federal soltou relatório sobre a operação na área do qual consta trecho crítico à conduta da imprensa. Diz o relatório: “Durante todos os dias em que realizamos atividades de Patrulha no Posto da Mata nunca tivemos a presença da Imprensa. Exatamente no dia em que realizamos o investimento sobre o distrito a Imprensa aparece para cobrir o evento. A imprensa funcionou como um catalisador da violência propagada pelos elementos isolados que tentavam agitar os demais populares. Em nenhum momento a emissora presente (filiada da Rede Globo de Cuiabá), procurou a coordenação da Operação, limitando-se a acompanhar os populares mais agitados”.

Ódio racial
É importante ressaltar que não há um parlamentar se quer, seja deputado estadual, federal ou senador, por Mato Grosso, que tenha se colocado claramente em favor dos índios.
É nesse cenário sócio-político-ambiental que o conflito surge como possibilidade.
Conforme o movimento indigenista, os índios, embora sejam proprietários legais da área, estão vivendo dias sob forte tensão, vitimados pelo ódio racial, como se eles é que fossem os irregulares, isolados na aldeia, só a espera do que pode acontecer.
“O conflito está sendo fomentado por um grupo menor, que representa 10% das pessoas que serão retiradas. Então acreditamos que não vai ter problema. A notificação das pessoas se deu de forma pacífica também. As pessoas lamentam que isso esteja acontecendo, algumas choram, estão tristes de ter que sair, porém não reagem de forma violenta. Mas, com relação ao ódio aos índios, isso é muito perceptível e aparece nas falas das pessoas toda hora, mas são pessoas identificadas. Elas dizem: nós vamos sair, mas esses índios também não vão ficar nessa terra, coisas assim e às vezes tenho que dizer que, caso a fala perdure, isso configuraria crime mesmo. Também fiquei sabendo de pessoas que estão sendo constrangidas a não sair pacificamente, senão ateariam fogo na casa delas. Nos preocupamos com a vida de Dom Pedro Casaldáliga, também que foi ameaçado…” –  conta o coordenador-geral de Movimentos do Campo e Territórios da Secretaria-Geral da Presidência da República, Nilton Tubino, que estava na área até essa semana. Tubino voltou à Brasília, mas retorna à Maraiwatséde semana que vem para acompanhar a desintrusão.