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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

MST repudia ataque da Record contra as Crianças Sem Terrinha

MST repudia ataque da Record contra as Crianças Sem Terrinha

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra vem a público denunciar e repudiar a distorção de informações veiculadas na noite deste domingo (10) no Programa Domingo Espetacular. A reportagem “A Polêmica dos Sem Terrinha” tem como único objetivo manipular a opinião pública e fortalecer o processo de criminalização de organizações populares, que lutam pela defesa de seus direitos.

Em um país, em que o número de analfabetos supera a marca de 11 milhões de pessoas e que 1 a cada 5 crianças está fora da escola, nos surpreende que um Encontro Nacional de Crianças Sem Terrinha, onde foi discutido temas como os direitos das crianças e a produção de alimentação saudável, seja classificado como doutrinário.

Reafirmamos que o Encontro, realizado em parceria com a organização Aldeias Infantis SOS, uma das mais respeitadas entidades que trabalha com a infância no país, teve as autorizações dos órgãos responsáveis e respeitou todos os padrões de segurança exigidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Destacamos ainda, que todas as crianças tiveram autorização dos pais, conforme prevê a legislação, e além disso, todos os alvarás necessários foram emitidos pelos órgãos competentes, incluindo a Vara da Infância e Juventude.

A Rede Record, ao disseminar mentiras, não leva em consideração critérios mínimos de apuração e imparcialidade, faltando, entre outras questões, com a ética jornalística.

O Artigo 6º da Constituição Federal do Brasil prevê, dentre outras coisas, o direito à educação. Nesse sentido, o MST não só luta para que esse direito seja respeitado como também trabalha cotidianamente para que nos tornemos um país mais digno e, sobretudo, menos desigual. Temos uma longa trajetória de lutas pelo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis para as crianças, jovens e adultos.

Em toda a nossa história, foram conquistadas mais de 2 mil escolas públicas, reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC), nos acampamentos e assentamentos em todo o país, que atendem a crianças, adolescentes e adultos. Milhares de camponesas e camponeses, organizados pelo MST, tiveram acesso a alfabetização e se formaram no ensino fundamental, médio, cursos técnicos e em nível superior. Há filhos e filhas de famílias assentadas em mais de cem turmas de cursos formais e mais de 4 mil professores foram formados, a partir das lutas pela educação pública, considerada pelo Movimento enquanto um direito básico.

Enfatizamos, que enquanto movimento de luta pela terra, pela reforma agrária e pela transformação da sociedade, continuaremos defendendo os direitos e a cidadania plena para todas as pessoas, em especial aquelas que vivem no campo.

Por isso, nós não só lutamos como fomentamos a educação no país e, diante de tudo isso, exigimos não só imediato direito de resposta, como desafiamos a mesma emissora a se propor a um jornalismo sério e de qualidade que preze pelos fatos e não interesses políticos.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
11 de fevereiro de 2019, São Paulo - SP

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Nota de Repúdio à Ação do Estado de Mato Grosso Contra os Trabalhadores do Campo

No dia 31/08/15 uma força policial ostensiva foi enviada ao acampamento Padre José Ten Cate, em Jaciara-MT, para cumprir a ordem de despejo dos Trabalhadores Sem Terra da fazenda Nossa Senhora Aparecida (do Grupo Amaggi), emitida pela juíza Adriana Sant'anna Coningham. O discurso oficial do governo do estado é de que seria uma desocupação pacífica e os integrantes do MST, acampados e organizados, estavam caminhando nessa direção. Todavia, o clima, sentido na pele dos que estavam presentes, era de tensão e muita violência. Ao todo, estima-se 800 famílias acampadas. Destas, cerca de 100 foram impedidas pela polícia de entrar no acampamento e tiveram que ficar na beira da estrada sem água, comida ou roupas limpas; uma verdadeira demonstração do descaso e da indiferença do poder policial e do estado para com o trabalhador. A segurança da propriedade do grupo AMAGGI, e apenas dela, era a palavra de ordem a guiar a exagerada força policial movida. Helicóptero, viaturas, tropa de choque, ROTAM, GOE, cavalaria, bombeiros e SAMU, ou seja, um verdadeiro cenário de guerra foi montado para intimidar as pessoas que o estado devia cuidar, na sua maioria, desempregados sem nenhuma perspectiva de futuro, abandonados pelo estado e que o MST reuniu e organizou para iniciar uma luta por terra e melhores condições de vida para si e para o conjunto da sociedade. O discurso de paz, vindo do gabinete da Casa Civil, não chegou aos ouvidos do comandante da operação, Coronel Tadeu. Sua arbitrariedade foi ímpar e o fato de a polícia não abrir fogo contra os acampados não pode ser critério para decidir se a operação foi pacífica ou não. A humilhação dos acampados foi nítida. Mesmo com ordens de liberação das entradas ainda na tarde do dia 31, o Coronel Tadeu negou cabalmente o livre trânsito e disse que só permitiria a entrada dos acampados na manhã do dia seguinte. O horário informado pelo coronel era 07 da manhã. Todavia, contrariando a própria palavra, os acampados só puderam entrar às 10:30 da manhã do dia 01. Sem comida, sem água e roupas limpas para o momento; muitos, oriundos de cidades como Campo Verde não tinham onde pernoitar, mas diante da arrogância e desumanidade da polícia, foram obrigados a se resignarem aos caprichos de um “coronel”, num ato desmedido de completa violência, pois o próprio estava ciente das condições dos acampados e do acordo com a Casa Civil. Até onde manter sua arbitrariedade não passou de um capricho soberbo, inconsequente e irresponsável ou é estratégia da polícia do estado para lidar com o povo? Ou será que o estado não cumpre seus acordos? Perguntas para o governador Pedro Taques responder, se tiver um mínimo de consideração pelo povo que ali estava e por todos aqueles que apoiam a luta desse povo por dignidade humana. Outro fato revoltante foi o impedimento do ônibus escolar entrar no acampamento para devolver as crianças, que saíram cedo para a escola, aos seus pais. As crianças foram encaminhadas para o abrigo municipal de onde só sairiam com o comparecimento dos pais, que por sua vez, estavam impedidos de ir ao abrigo por conta do cerco montado pela polícia ao acampamento. Violência, desrespeito, desumanidade, crueldade e perversidade não dão conta do que foi essa ação, pois que risco seria a entrada das crianças ao acampamento? E não aceitamos nenhuma justificativa que ouse argumentar que se agiu pensando no bem-estar das crianças, pois o bem-estar delas seria garantido facilmente com uma atuação humanizada da polícia, mas não parecia ser essa a intenção do dia. Por estas e outras, questionamos, até que ponto houve uma operação pacífica; ou não passou de uma demonstração do poder do estado disposto a manter o latifúndio e o agronegócio que financia as candidaturas por essas terras de Mato Grosso. Repudiamos tais ações e reivindicamos o direito a um processo justo e participativo de reforma agrária, pois mais uma vez se demonstrou que por aqui o agronegócio manda e desmanda e possui à disposição o estado e seu aparato intimidador como o que testemunhamos na segunda-feira do dia 31 de agosto de 2015.

Movimento Nacional de Direitos Humanos
ADUFMAT Cuiabá
Núcleo Tereza de Benguela - PSOL
Consulta Popular - MT

Assinam a nota:
FDHT - Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso
AAMOBEP - Associação dos/as amigos/as do Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes
ABHP - Associação Brasileira de Homeopatia Popular
ABRASP/BIO SAÚDE - Associação Brasileira de Saúde Popular
ADUFMAT Rondonópolis
AMB - Articulação das Mulheres Brasileiras
ANECS - Articulação Nacional dos Estudantes de Ciências Sociais
APS - Ação Popular Socialista
Associação Mato-grossense Divina Providência
CDHHT - Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade
Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennès
CFEMEA
Coletivo Pajeu  Resistência em Movimento
Comissão Pastoral da Terra, Regional MT
Comitê Popular do Rio Paraguai
Conselho Regional de Psicologia - Região 18
Escritório de Direitos humanos da Prelazia de São Félix do Araguaia
Fórum Popular em Defesa da Democracia - Roo
GPEA/UFMT - Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte
GPMSE/UFMT - Grupo de Pesquisa Movimento Sociais e Educação
Grupo de Estudo Merleau-Ponty e Educação
Grupo Raízes
iCaracol  - Instituto Caracol
INHRAFE - Instituto Humana Raça Fêmina
Levante Popular da Juventude
MNR - Movimento Negro de Rondonópolis
PCdoB Rondonópolis
RECID-MT - Rede de Educação Cidadã
REMTEA - Rede Mato-grossense de Educação Ambiental
SINTUF MT- seção Rondonópolis
Sociedade Fé e Vida
UJS Rondonópolis

União de Mulheres de São Paulo

Fotos do despejo no acampamento Padre José Ten Cate

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A situação da Reforma Agrária, os políticos e a urgência de soluções

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=82517


A situação da Reforma Agrária, os políticos e a urgência de soluções

MST
Adital
Caros amigos e amigas do MST,
Viemos a sua presença para lhes informar alguns fatos recentes muito importantes que aconteceram na luta pela Reforma Agrária brasileira, e a situação no campo em geral.
Nos últimos anos, o capital vem implementando o modelo de produção agrícola do agronegócio, que temos denunciado como perverso para os interesses do povo brasileiro. Um modelo baseado na monocultura, no uso intensivo de venenos, que contamina os alimentos, desemprega e expulsa a população do campo. Um modelo que destrói a biodiversidade e traz graves consequências para o equilíbrio climático.
Apesar de sua perversidade, que dá lucro apenas para uma minoria de fazendeiros e às 50 empresas transnacionais que dominam a agricultura brasileira, eles conseguiram uma hegemonia através dos meios de comunicação, que influi no governo e na sociedade como sendo este o único modelo possível de se produzir.
Atrás dessa hegemonia ideológica protegida pelos meios de comunicação, também se esconde o latifúndio, improdutivo, que continua acumulando terras com os métodos mais arcaicos.
Com isso, está em curso no campo um processo permanente de concentração tanto da propriedade da terra quanto da produção em torno de alguns produtos. Atualmente, 85% de todas as áreas utilizadas se destinam apenas à produção de soja, milho, cana-de-açúcar, eucalipto e pasto para o gado bovino. Tudo destinado à exportação.
Mesmo assim nosso povo está resistindo e retomando as mobilizações na luta pelo direito em permanecer e trabalhar na terra, por uma Reforma Agrária Popular que de fato democratize a estrutura fundiária do país e por um novo modelo de produção, que garanta alimentos saudáveis a todo povo.
Nas últimas semanas tivemos dois acontecimentos muito importantes, para os quais estamos pedindo vosso apoio, pois se inserem na luta contra o latifúndio atrasado e concentrador, e contra esse modelo predador e excludente do agronegócio.
Araupel- no Parana
Um desses fatos foi a ocupação de uma área utilizada pela Araupel para o monocultivo de pinus e eucalipto no Paraná. No dia 17 de julho, cerca de 2.500 famílias de trabalhadores rurais ocuparam a Fazenda Rio das Cobras, uma área grilada pela empresa entre os municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu.
O Incra do Paraná alega que a área de cerca de 35 mil hectares é pública, e que foi grilada ainda na década de 1960, e que portanto, deveria ser destinada à Reforma Agrária.
Os setores conservadores da política do Paraná, em especial o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), tem sido o principal porta-voz dos interesses da empresa. A população da região conhece a truculência da empresa, e como ela nunca gerou riqueza para desenvolver os municípios e as cidades, em diversas ocasiões a população local tem manifestado apoio para que essas terras sejam destinadas à Reforma Agrária, gerando emprego, renda e produção de alimentos.
Eunício Oliveira- e suas fazendas em Goiás
O outro caso se refere à Fazenda Santa Mônica, de 20 mil hectares, no município de Cocalzinho, em Goiás. No último dia 31 de agosto, cerca de 3.000 famílias ocuparam a fazenda de propriedade do senador e candidato a governador do estado do Ceará, Eunício Oliveira (PMDB).
Segundo dados levantados pelos vizinhos, a propriedade é resultante da expulsão de mais de 70 famílias da região, e ninguém sabe ao certo o total do imóvel dominado pelo senador.
Diversos processos na justiça de ex-moradores reivindicam a posse de suas terras griladas pelo senador. Um dos objetos, inclusive da Comissão Pastoral da Terra (CPT), é denunciar o caso na Comissão de Direitos Humanos no Senado.
Por outro lado, o senador declarou no imposto de renda e para Tribunal Eleitoral que esses 20 mil hectares valem apenas R$ 361 mil. O pobre senador e jovem empresário possui também outras 91 propriedades rurais em diversos estados do Brasil.
São diversos os relatos na região que testemunham a truculência com a qual o parlamentar conseguiu ampliar seu patrimônio, que certamente não foi com suor do seu rosto.
O juiz local já concedeu uma liminar de despejo. Porém, o MST- GO denuncia os laços de promiscuidade do juiz com o senador, que costumavam frequentar as mesmas festas, além dos passeios do juiz pela fazenda do parlamentar.
Já o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), por meio do comandante da Policia Militar enviado ao local da ocupação, assumiu o compromisso público de que a PM não se prestaria a fazer ações contra o povo goiano. Esperamos que não seja apenas uma declaração eleitoreira e que os direitos do povo de trabalhar na terra sejam garantidos.
O Incra já se manifestou interessado em adquirir o imóvel para fins de Reforma Agrária. Desafiamos que o Senado, tão ansioso em fazer denúncias e CPIs, investigue a origem dos imóveis que resultaram na Fazenda Santa Mônica.
Apodi- Rio grande do norte
O projeto de irrigação da região de Apodi, no Rio Grande do Norte, é outro caso emblemático. No Nordeste, há muitos projetos de irrigação administrados pelo DNOCS e Codevasf, sempre atendendo aos interesses de políticos ou empresários da exportação de frutas.
Constatou-se que em alguns destes projetos há mais de 80 mil lotes vagos que poderiam ser distribuídos a trabalhadores para que se beneficiassem da Reforma Agrária e da Água, e produzissem alimentos ao mercado interno. Em várias ocasiões a Presidenta Dilma Rousseff se comprometeu a distribuir esses lotes. Mas misteriosamente a força de seus aliados políticos conservadores impediu até agora a distribuição dessas áreas.
E o caso mais patético é o projeto do Apodi, em que o DNOCS desapropriou com valores simbólicos mais de 300 famílias de pequenos agricultores, e após a instalação dos canais de irrigação, entregará a área a empresários do sul por meio de editais, condicionando a produção de banana e abacaxi para exportação. Esse projeto sempre foi apadrinhado estranhamente pelo deputado Henrique Alves (PMDB-RN).
O movimento sindical e social da região exige que ao menos as famílias despejadas e as demais famílias sem-terra da região tenham o assentamento garantido quando o projeto estiver pronto.
Agrotóxicos e Trabalho Escravo em todo Brasil, com as empresas transnacionais e seus ruralistas.
Algumas outras graves situações afetam todo povo brasileiro. Um deles é o aumento do uso de venenos na agricultura que acaba na sua mesa. O agronegócio transformou o Brasil no maior consumidor mundial de venenos na agricultura. Nós consumimos 20% de toda produção mundial de venenos, apesar de produzirmos apenas 3% de toda produção mundial de alimentos.
Nove empresas transnacionais e uma brasileira são as responsáveis por isso, e acumulam bilhões de lucros todo ano. Enquanto isso, o Brasil fica com o passivo ambiental, já que os venenos matam a biodiversidade, contaminam o solo, as águas, o meio ambiente e acabam na sua mesa. Até o Instituto Nacional do Câncer (INCA) já advertiu que a cada ano cerca de 540 mil brasileiros são acometidos de câncer, sendo que cerca de 40% deles vão a óbito, e que uma das maiores causas são os alimentos contaminados, ou tabaco e alcoolismo, que também está contaminado.
No que se refere aos direitos humanos, a Polícia Federal já localizou trabalho escravo e libertou trabalhadores em mais de 300 fazendas em todo país. Porém apesar da determinação da Constituição Federal, os ruralistas impediram a regulamentação durante os últimos 12 anos da PEC do Trabalho escravo, e mesmo aprovado o projeto de regulamentação, nenhuma fazenda foi desapropriada desde 1988 por ter trabalho escravo.
Amigos/as,
Essa é uma fotografia dos casos mais graves e recentes que afetam a vida dos trabalhadores no campo e na cidade.
Se você é solidário aos trabalhadores que ocuparam as Fazendas da Araupel e Santa Mônica, mande sua mensagem diretamente aos governadores locais, ou então, pode enviar para secgeral@mst.org.br que a reenviaremos.
Saudações fraternas,
São Paulo, 11 de setembro de 2014
Secretaria Nacional do MST

MST

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Brasil

sábado, 2 de agosto de 2014

MST exige do Incra que área da Araupel, plantadora de eucaliptos e pínus, seja desapropriada para Reforma Agrária

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/533815-mst-exige-do-incra-que-area-da-araupel-plantadora-de-eucaliptos-e-pinus-seja-desapropriada-para-reforma-agraria


MST exige do Incra que área da Araupel, plantadora de eucaliptos e pínus, seja desapropriada para Reforma Agrária

Cerca de 3 mil famílias Sem Terra do Acampamento Herdeiros da Terra de 1° de Maio ocuparam no último dia 17 de julho a Fazenda Rio das Cobras, exploradas pela Araupel, entre os municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu (PR).
As famílias acampadas permanecem na área e reivindicam a desapropriação da fazenda de cerca de 35 mil hectares para fins de Reforma Agrária.
Esse foi o assunto principal da reunião, que aconteceu em Brasília nesta terça-feira (29/07) com a presidência do Incra, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e lideranças do MST deRio Bonito do Iguaçu e da coordenação nacional.
A reportagem é publicada pelo MST, 31-07-2014.
Ênio Pasqualin, dirigente estadual do MST, afirma que “está em questão a necessidade do governo federal e o Incra se posicionarem sobre um processo judicial que há mais de 10 anos tramita na Justiça, na comarca de Cascavel. Na reunião acordamos que a presidência do Incra e a Ouvidoria Agrária Nacional virão para o Paraná nos próximos dias agilizar esse processo.
Enquanto, isso as famílias permanecem na área e aguardam uma decisão da Justiça”.O conflito social que está em questão, afirma Miranda, da coordenação nacional do MST, “aponta para o problema da nulidade do título de origem da terra, pois houve uma ilegalidade do estado quando repassou esta área a terceiros, desrespeitando a lei de faixa de fronteira. Portanto, o problema será resolvido com uma política de Reforma Agrária”.
Araupel, desde o ano de 1972, explora uma área com cerca de 64 mil hectares e devasta a mata nativa para atuar na exportação de madeira de pínus e eucalipto.
Foto: Joka Madruga.
Veja também:

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O POVO PALESTINO TEM O DIREITO DE RESISTIR E LUTAR CONTRA A OCUPAÇÃO ISRAELENSE

NOTA DO MST

O POVO PALESTINO TEM O DIREITO DE RESISTIR E LUTAR CONTRA A OCUPAÇÃO ISRAELENSE

Uma nova ofensiva militar israelense já resulta em centenas de prisões e mortes na Palestina ocupada. Seja na Cisjordânia, em Gaza, em Jerusalém ou nos territórios palestinos ocupados em 1948, o que vemos é mais violência e violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário por parte do governo de Israel. Milhares de civis são assassinados, feridos e presos durante as operações militares israelenses. Agora Israel ameaça invadir novamente Gaza. Toda invasão de Gaza resultou em bombardeios de casas, escolas, hospitais, sedes de organizações políticas e sociais palestinas e de apoio humanitário, uso de bombas de fósforo branco, armas com munição feita de urânio empobrecido e bombas incendiárias que se assemelham ao napalm usado pelos EUA na Guerra do Vietnã.

Diante de mais essa agressão sionista-colonialista o que resta ao povo palestino é continuar a luta e a resistência popular 
por Paz, Justiça e Libertação Nacional. A origem do conflito é a ocupação das terras palestinas pelo colonialismo israelense.O fim da ocupação israelense é a única solução para assegurar uma paz justa e duradoura na região. Enquanto esse dia não chega o povo palestino conta com a coragem e a rebeldia de quem vive sob a ocupação israelense, e com a solidariedade internacional de pessoas, organizações e governos que, juntos, formam um poderoso movimento de denúncia contra as injustiças praticadas por Israel.


Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST está e estará sempre ao lado dos que lutam por justiça e dignidade. E neste conflito estamos juntos com o povo palestino e com suas legítimas organizações, que através da resistência diante do opressor, mostram o caminho que irá resultar na liberdade do povo e da terra. O MST estará com várias organizações do povo brasileiro na luta por uma Palestina Livre, Soberana e Independente. Também conclamamos nossas organizações-irmãs que fazem parte da Via Campesina a participarem ativamente da luta em solidariedade a este povo heroico que é para nós um exemplo de dignidade, ousadia e coragem.


O povo brasileiro está na luta junto com o povo palestino.


PALESTINA LIVRE JÁ!!!
PELO FIM DA OCUPAÇÃO ISRAELENSE!!!

PÁTRIA PALESTINA LIVRE, VENCEREMOS!!!


DIREÇÃO NACIONAL DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – MST BRASIL

quarta-feira, 28 de maio de 2014

“Não há possibilidade de produzir agroecologia plena onde se predomina o grande capital”

mst
http://www.mst.org.br/node/16140


“Não há possibilidade de produzir agroecologia plena onde se predomina o grande capital”

22 de maio de 2014
Por Alan Tygel
Da Página do MST
Foto: Fábio Caffé
 
Durante o III Encontro Nacional de Agroecologia, realizado entre os dias 16 e 19 de maio de 2014, diversos camponeses e camponesas do MST estiveram em Juazeiro (BA) para trocar e compartilhar saberes. A agroecologia foi a força que uniu mais de 2000 pessoas durante os 4 dias de evento, nos quais houve feira, debates, filmes, atividades culturais e, sobretudo, muita luta.

Chicão, coordenador do Setor de Produção do MST, avalia que o momento político é de união na luta pela agroecologia: “Eu sinceramente não acredito que haja grandes mudanças, seja com os atuais candidatos hoje à presidência da república, ou com outros que virão. As mudanças foram feitas pelo povo, nunca vieram da burocracia, dos aparelhos do Estado. O fator mais importante hoje é o povo se unir, se unificar em tornos de propostas claras e ir pra rua defender essas ideias.”

Para ele, agroecologia é mais do que agricultura sem venenos: “É outra filosofia de
vida, não é a filosofia do grande capital aplicada na agricultura, na indústria e no sistema financeiro. ”

Nesta entrevista, Chicão afirma que a agroecologia não será construída somente pelo povo do campo: “Ela tem que ser um sistema que se constrói com a sociedade inteira. Os agrotóxicos não são um problema exclusivo dos camponeses, é um problema de toda a sociedade, porque todo mundo se alimenta. Por isso é que nós precisamos unir as forças para ir construindo um novo sistema de produção, um novo sistema de vida que não seja baseado puramente na criação e acumulação de capital.

O que é que o MST veio trazer ao III Encontro Nacional de Agroecologia?

Aqui se configura como um local aonde a gente aprende muito. Nós trouxemos o nosso aprendizado que nós temos nos assentamentos, as experiências que nós temos de agroecologia sendo desenvolvidas, nossos cursos de formação em agroecologia e assim todo o universo que nós temos trabalhado dentro dos nossos assentamentos na perspectiva de ter um sistema diferente de produção através da agroecologia e produção orgânica.

E daqui a gente também leva muito conhecimento das organizações que estão aqui, em diferentes regiões do país, que desenvolvem em outros biomas, então aqui há obviamente uma grande diversidade, e é um espaço muito grande e interessantíssimo de ponto de vista de aprendizado. De aprender, de conhecer de ver que o mundo não é o assentamento, que não é o estado, não é o bioma. Então aqui é uma possibilidade de ampliar os horizontes, de conhecer e aprender, acho que aqui é um espaço excelente nessa perspectiva.

O agronegócio diz que somos loucos e que queremos matar o mundo de fome. É possível alimentar a humanidade com produção de alimentos agroecológicos?

Eu não tenho dúvida. Nós já desenvolvemos algumas atividades agroecológicas que já indicam isso. Os nossos adversários sempre falam isso, porque eles se acham os únicos. São as contradições que movem o mundo, então os próprio latifúndio criou essa contradição, e ela moveu um novo tipo de agricultura, que se faz nos assentamentos, nas áreas indígenas, quilombolas, ribeirinhos, assim por diante. Nós temos por exemplo assentamentos que são coletivos que têm grande produção de arroz. Produzimos esse ano no Rio Grande do Sul mais de 300.000 toneladas de arroz agroecológico. Mas a gente não pode somente estar fixado na produção do grão.

Esse processo está fazendo com que se garanta a água de qualidade na região da Grande Porto Alegre. Antes, os fazendeiros do agronegócio aplicavam venenos em grandes quantidades na produção de arroz e nós entramos com a produção agroecológica, na qual tiramos um produto, que é o arroz agroecológico, e entregamos uma água de boa qualidade para a população. Acho que esse é o grande legado que os assentamentos do MST estão entregando para as gerações futuras. É importante produzir o produto agroecológico, mas o mais importante de tudo é deixar para as gerações futuras esse conhecimento, e a terra totalmente descontaminada de agrotóxicos que o agronegócio deixa.

Além do não uso de agrotóxicos, quais as outras dimensões da agroecologia?

Nós temos um conceito de agroecologia que é muito amplo. A agroecologia é uma ciência, um conhecimento dos povos tradicionais, e também um conhecimento científico. Nós entendemos que não há um avanço da agroecologia sem pensar na ciência como um todo.

Entendemos também que a agroecologia deve respeitar todo o conhecimento histórico da humanidade. Deve também ser um instrumento de luta política, porque entendemos que o problema não é puramente tecnológico. A agroecologia define um conceito de vida. Que é você viver dignamente, óbvio, e também respeitando o meio ambiente. E fazendo disso uma luta para construir uma sociedade diferente, porque não há possibilidade de produzir agroecologia plena num país onde predomina o grande capital.

Tudo que estamos fazendo é o novo que está surgindo dentro do velho. Esse sistema do agronegócio é um modelo velho que está caindo de podre. E surge o novo, que é a agroecologia. Esse é o elemento importante pra sociedade brasileira, para o mundo todo, que está surgindo o novo. Por isso, o III ENA está acontecendo num momento riquíssimo, do surgimento desse novo, de anunciar esse novo, de que as pessoas tenham conhecimento de como esse novo vai se construindo, e as experiências nos dão um ponto de partida, mas elas não podem parar naquilo que nós estamos fazendo.

Temos que avançar no ponto vista político, agroecológico, filosófico, assim por diante, é outra filosofia de vida, não é a filosofia do grande capital aplicada na agricultura, na indústria e no sistema financeiro.

Falando em construção do novo, como é o processo de transição?

A transição é um momento muito importante, porque ela tem muito a ver com o método que a gente vai trabalhando. Eu sempre digo que a transição é um processo que não dá pra você definir um período de um ano, dois anos, três anos, ela é um processo, onde você construindo, educando, e vai aprendendo.

A principal questão do método é quando começam a aparecer os resultados do ponto de vista da filosofia, da economia, do aprendizado, no qual você vai adquirindo conhecimento. Porque não se pode fazer o que faz o agronegócio, que transfere um pacote tecnológico. Então o período de transição é um período muito importante em função de você fazer a descoberta de muitos conhecimentos.

E acho que aqui está colocada uma questão, nesse período de transição. Não podemos colocar um período definido, porque a agricultura não é como uma indústria, que você coloca matéria prima e sai o produto na frente agroindustrializado.

Vejamos o seguinte: no Nordeste, são três anos de seca, então nesses três anos você teve pouca experiência. Você não teve como ficar conhecendo, buscando resultados. Por isso não pode ser uma metodologia que você aplica em qualquer bioma, em qualquer região.

Nosso país é um continente, de extensão muito grande, e a agroecologia tem que ter essa riqueza, de observar as regiões, os sistemas que se desenvolve ali, os conhecimentos que tem aí, pra você fazer esse processo de transição. Então o processo de transição pode ser totalmente diferente do sul, sudeste, pro centro-oeste, mesmo dentro da própria região nós temos muito microclimas, muitos tipos de solo diferentes, aonde você desenvolve técnicas diferentes, então a agroecologia é essa riqueza de conhecimento. Não é um pacote tecnológico que a gente pensa e elabora e você aplica no país inteiro.

As atividades relacionadas à saúde estão chamando atenção aqui no ENA. Já há uma percepção geral dos problemas na saúde causados pelos agrotóxicos?

O conceito de agroecologia que está sendo elaborado, e ele não está pronto, cada organização pode ir criando seu conceito, vai dando essa diversidade. E entendemos que o problema não é puramente técnico. Ele é também técnico, obviamente, mas ele é essencialmente político, essencialmente filosófico. Então há alguns assuntos que chamam a atenção, e a saúde é uma das questões que chama muita atenção, porque ela é um assunto comum a todos. E a aplicação do agrotóxico na agricultura sempre remete a um problema de saúde, um problema ambiental, então é um problema que é de todos.

E isso é um fator interessante no processo do método que a gente vai fazendo a transição. Porque muitos se sensibilizam pelo econômico, outros se sensibilizam pelo lado ambiental, outros se sensibilizam pelo alimento, e outros pela saúde. Por isso que não pode ter um método único para tudo. Cada um tem suas motivações para entrar a agroecologia, para defender esse tema, tem uns que entram puramente pela filosofia.

Então acho que é interessante o ENA porque ele tem essa diversidade que busca a organização das mulheres, do indígenas, dos negros, dos pequenos agricultores, que é esse universo que existe nas regiões, nos estados, nos biomas. A agroecologia tem então essa riqueza de conhecimento e na transição acho que as pessoas estão junto.

Porque há muitas vezes o conceito de que o homem não faz parte da natureza, a humanidade não faz parte da natureza, se analisa o ser humano fora da natureza. E não é verdade. Então, se nós transformamos a natureza, nós nos transformamos junto com ela. E se nos a envenenamos, nós nos envenenamos junto com ela. O agronegócio, que é o que hegemoniza esse modelo hoje, está envenenando não só a natureza, mas envenenando a humanidade como um todo.

Como você avalia o momento político em que acontece o III ENA?

O modelo de agricultura que está colocado é o que se desenvolve no Brasil há mais de 500 anos, baseado na mão de obra primeiro escrava, e depois no subemprego, e também no grande latifúndio. Hoje no governo e na sociedade essas forças estão presentes, e elas contrapõem a população que quer fazer mudanças e a que quer continuar o velho. Dentro do governo, essas forças políticas estão presentes, nessa aliança que está colocada hoje entre os partidos que dirigem o Estado brasileiro.

Acredito que assim como em todas as revoluções, não se faz revolução sem o povo. Simplificando, não se faz feijoada sem feijão. Então há também uma expectativa da nossa parte de que o governo faça pra gente. É óbvio que seria mais fácil, que o governo tivesse um posicionamento mais alinhado. Mas eu acho que haveria menos participação social. Não quero justificar a posição do governo em favor do agronegócio, mas quero dizer que é importante a participação social. O governo poderia ter feito mais? Obviamente poderia ter feito um universo de outras coisas mais importantes do que o que foi feito. Isso é uma verdade, e ninguém pode negar.

Agora ninguém pode negar que houve mudanças também. Podemos contar a história da sociedade brasileira em antes de 2003 e depois de 2003. Então eu creio que esse momento é muito importante no sentido de que a sociedade tem que pressionar pra esse governo dar um passo a frente. E esse passo a frente não pode ser pela direita. Esse passo à frente que ser dado à esquerda. E isso significa assumir posições que são difíceis de assumir. O povo precisa ir pra rua pra defender essas ideias da agroecologia, não pode ficar restrita às coisas internas, aos posicionamentos. Tem que ir pra rua pra defender isso. Todas as vitórias que houve do povo sempre foi dessa forma.

Eu sinceramente não acredito que haja grandes mudanças, seja com os atuais candidatos hoje à presidência da república, ou com outros que virão. As mudanças foram feitas pelo povo, nunca vieram da burocracia, dos aparelhos do Estado. As mudanças sempre virão pela força do povo. O fator mais importante hoje é o povo se unir, se unificar em tornos de propostas claras e ir pra rua defender essas ideias.

Tivemos neste ano o VI Congresso do MST, agora o III ENA, e mais adiante a Jornada de Agroecologia. A mobilização em favor da agroecologia está crescendo?

Como se diz na filosofia, tudo muda. Isso é o fundamental que a gente precisa entender. Nós estávamos vivendo um período de descenso da mobilização social. Embora no ano passado tenha havido diversas mobilizações, umas mais espontâneas, outras mais organizadas. Não há dúvidas de que, na medida em que esse processo de industrialização, de domínio do grande capital aumenta, ele mesmo cria as condições para um novo ascenso da luta de massas.

Então o ENA, o nosso congresso do MST, e outras mobilizações que estão acontecendo demonstram que o povo está querendo fazer luta, tá querendo mudança, tá querendo dar um passo à frente, ou dar dois passos à frente. O importante não é a quantidade de pessoas que se mobiliza. O mais importante é a proposta e a firmeza daqueles que se mobilizam para conquistá-la. Toda sociedade nunca vai se mobilizar, sempre vai ser uma parte dela. E é essa parte que se mobiliza hoje é a parte que está mais organizada na sociedade, do ponto de vista da luta de classes.

Qual é a síntese que a gente tira do ENA?

Esse sistema que estamos lutando para construir não se constrói só com os camponeses. Ele tem que ser um sistema que se constrói com a sociedade inteira. Os agrotóxicos não são um problema exclusivo dos camponeses, é um problema de toda a sociedade, porque todo mundo se alimenta. Por isso é que nós precisamos unir as forças para ir construindo um novo sistema de produção, um novo sistema de vida que não seja baseado puramente na criação e acumulação de capital. Creio que a sociedade está disposta a fazer isso. A grande questão é como ela se articula e se organiza em torno desse processo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"Está em curso, no Brasil, uma concentração da propriedade da terra".

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/531351-as-eleicoes-presidenciais-nao-tem-como-proposito-recolocar-a-questao-da-reforma-agraria-entrevista-especial-com-joao-pedro-stedile-
Entrevista especial com João Pedro Stédile

“Ganhe quem ganhe, continuará tudo igual. Só espero que não ganhe o Aécio, porque aí seria uma guerra”, diz o líder do MST.

A luta pela reforma agrária, que durante os séculos XIX eXX visava o combate ao latifúndio para democratizar o acesso à terra, hoje, tem outros adversários: “o capital financeiro, que domina a produção agrícola, as grandes empresas transnacionais e, óbvio, os fazendeiros que se modernizaram e aderiram a essa aliança”, esclarece João Pedro Stédile àIHU On-Line. Esses atores, que formariam a nova classe dominante do campo, se somam aos meios de comunicação para justificar “ideologicamente à população que o agronegócio é a única alternativa possível, que ele sustenta oBrasil, que produz alimentos baratos, etc.”, pontua.
Na entrevista a seguir, concedida pessoalmente, quando esteve na UnisinosStédile explica quais são as análises internas do MST em relação à reforma agrária, avalia os 12 anos dos governos Lula e Dilma e rebate as críticas, recebidas por setores intelectuais, de que os movimentos sociais foram cooptados pelo Estado a partir da ascensão do PT à presidência.
“Não é aí que devemos fazer a crítica”, assinala. E enfatiza: “O problema está quando um movimento social se subordina aos governos, e aí cada um que faça a sua avaliação. (...) O MST passou o tempo inteiro dos governos LulaDilma se mobilizando. Ninguém neste país tem moral para dizer que o MST parou de lutar. (...) Recomendaria que reflitam melhor a quem dirigem suas pedras, porque, na nossa concepção, mesmo que tenhamos críticas a outros parceiros da classe trabalhadora, temos de ter cuidado”.
Para Stédile, o ex-presidente Lula nunca “propôs reformas estruturais”. Ao contrário, acentua, o programa que Luladefendeu na campanha presidencial de 2002, e que lançou as bases do chamado neodesenvolvimentismo, tinha três objetivos claros: crescimento econômico, maior participação regulatória do Estado e distribuição de renda. “Nesse programa, não precisa fazer reforma agrária, não precisa tarifa zero [nos transportes], não precisa universidade para todos. Eu acho que Lula foi honesto; não enganou ninguém. Ele cumpriu o seu programa”, avalia.
O líder do MST também comenta as manifestações de junho de 2013 e assegura que elas “são parte da luta de classes”, ainda que alguns grupos não se identifiquem com essa análise. “Claro que eles são fruto da luta de classes, porque essa hegemonia da burguesia financeira e multinacional não resolve os problemas da classe trabalhadora — porque, se falta moradia, falta para a classe trabalhadora; se não há acesso à universidade, são os filhos da classe trabalhadora que não têm acesso; o transporte público afeta diretamente a classe trabalhadora”, acentua.
Em relação às eleições presidenciais deste ano, Stédile é pontual: “A candidatura Dilma e a candidatura Eduardo eMarina o candidaturas alternativas de um mesmo projeto: o neodesenvolvimentismo, cujos parâmetros estão bloqueados e não resolveram os problemas estruturais. A candidatura do Aécio seria o fim do mundo, a volta domodelo neoliberal”.
João Pedro Stédile é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México. É membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, do qual é um dos fundadores. Participa das atividades da luta pela reforma agrária no Brasil, pelo MST e pela Via Campesina.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O MST realizou recentemente mais uma mobilização do Abril Vermelho. Este ano, entretanto, praticamente não houve repercussão na mídia, ao contrário da mobilização realizada em anos anteriores. Na sua avaliação, por que ocorreu esta falta de repercussão?
João Pedro Stédile – Do ponto de vista do calendário de mobilizações, neste ano, o dia 17 de abril caiu na Semana Santa, e decidimos fazer uma jornada de outro tipo, mais prolongada e duradoura, de acordo com a conjuntura de cada estado. Em alguns estados foram realizadas ocupações, como em Pernambuco; em outros estados, recém iniciaram-se as marchas, como em São Paulo; em outros, ainda, realizamos atividades nas cidades, como as feiras agroecológicas em Alagoas, e o lançamento do documentário O veneno está na mesa II, de Sílvio Tendler, no Rio de Janeiro. Então, o processo de mobilização ainda está em curso e não ficou concentrado numa só semana.
Entretanto, de fato, um dos grandes problemas que a luta social enfrenta no Brasil é a natureza da mídia, porque, além de ser uma mídia concentrada entre seis ou sete grupos econômicos, que usam os meios de comunicação para acumular riquezas — e não é por nada que a família Marinho é a segunda ou terceira família mais rica doBrasil —, essa mídia, nos últimos 10, 15 anos, adquiriu um papel ainda mais ideológico na sociedade e, em especial, na relação com as lutas sociais no campo.
O olhar condescendente da burguesia
Na época do capitalismo industrial, a luta pela reforma agrária dos camponeses era contra o latifúndio. A própria burguesia industrial nos olhava com certa condescendência, porque, afinal, depois que nós conquistássemos a terra e se multiplicasse o campesinato, geraríamos mais compras na indústria, maior integração no mercado. A burguesia em si não se sentia afetada e foi por isso que ela nos tolerou. Porém, de dez anos para cá, a nova classe dominante do campo não é mais nem o latifúndio, nem a burguesia industrial; formou-se uma nova classe dominante. E essa classe é formada pelo capital financeiro, que domina a produção agrícola, pelas grandes empresas transnacionais e, óbvio, pelos fazendeiros que se modernizaram e aderiram a essa aliança. E ainda há um quarto elemento da composição de classes: os meios de comunicação. A burguesia usa os meios de comunicação para justificar ideologicamente à população que o agronegócio é a única alternativa possível, que ele sustenta o Brasil, que produz alimentos baratos, etc. Quem faz esse discurso todos os dias? A mídia. Então, ela deixou de ser um canal informativo e passou a ser um palanque ideológico da burguesia. Ela participa permanentemente da luta de classes.
Basta ver as manifestações de junho de 2013 para saber como a mídia se comportou. No campo acontece a mesma coisa. A mídia procura invisibilizar as lutas sociais. Há companheiros nas universidades dizendo que o governo está criminalizando as lutas sociais. Não. Nosso problema não é só repressão policial. Nosso problema é a repressão ideológica que os meios de comunicação fazem contra qualquer luta social.
IHU On-Line - O que a mobilização organizada, a partir da realização dos grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, indica sobre o estágio atual das articulações do MST? O Movimento dos Sem Terra perdeu seu papel de liderança na política nacional?
João Pedro Stédile – MST nunca se propôs a ser protagonista nem vanguarda de nada. Nós queremos apenas contribuir na luta pela reforma agrária e para as mudanças na sociedade. A luta de classes no Brasil e em qualquer parte do mundo, de acordo com a teoria da escola britânica de marxistas — Eric Hobsbawm, Giovanni Arrighi, etc. —, se dá em ondas de enfrentamentos entre as classes antagônicas num mesmo período histórico. No Brasil, desde 1989 houve um refluxo das massas após a classe trabalhadora ter sido derrotada no seu projeto democrático popular. A última grande greve no país foi em 1988, a última grande conquista que tivemos foi a Constituição de 88. Com a derrota [eleitoral] de 1989, quando de fato aflorou o neoliberalismo, e a burguesia virou hegemônica na sociedade brasileira, a classe trabalhadora refluiu e foi defender a sobrevivência.
O campesinato e as forças populares do campo, como não estavam ligados à luta direta pelo emprego, continuaram a mobilização até 2005. Então, a classe trabalhadora como um todo refluiu, porém os camponeses não. Nós, do MST, de 1997 a 2005, assumimos um protagonismo na luta contra o neoliberalismo que não esperávamos, porque continuamos mobilizados, e os outros não. De 2005 para cá, fruto de todo esse processo da luta, os camponeses também refluíram e, nós do MST juntos, como parte dessa onda histórica de refluxo.

"Nosso problema é a repressão ideológica que os meios de comunicação fazem contra qualquer luta social"

Significados das manifestações de junho
No ano passado, o ressurgimento das manifestações com a juventude teve dois significados: primeiro, que aquele programa de composição de classes do neodesenvolvimentismo, aplicado pelo Governo Lula-Dilma, não foi suficiente para resolver os problemas do povo e, em especial, da juventude (de universalização da educação, de moradia, de transporte público razoável), e por isso a juventude foi para a rua; o outro significado é que a juventude sempre é o termômetro que indica quando vai começar o reascenso, porque, como ela está fora do sistema de produção, enxerga e se mobiliza antes.
Então o grande anúncio das mobilizações do ano passado é de que há sinais de que será possível, a curto prazo, ocorrer um novo reascenso do movimento de massas, porém isso precisa ter um caráter classista. A classe trabalhadora organizada também está dando sinais de que está insatisfeita e quer mudanças. Onde encontramos o sinal que é invisibilizado pela mídia? A média anual das greves da classe trabalhadora industrial durante os 15 anos do neoliberalismo, inclusive no governo Lula, foi de 200 ações. Já no ano passado foram feitas 900 greves da classe trabalhadora, no setor industrial e dos bancários, que há anos não faziam uma greve nacional. Essas 900 greves são um sinal de que a classe trabalhadora pode não estar na rua, em marcha, mas começou a estar disposta a se mobilizar. O que falta é, no próximo período, construirmos pontes de unidade entre a juventude e a classe trabalhadora, para que seja construído um programa unitário de mudanças e reformas estruturais e se aglutinem energias para mobilizações sociais.
IHU On-Line – Houve luta de classes nas manifestações de junho de 2013?
João Pedro Stédile – Claro. As manifestações são parte da luta de classes.
 IHU On-Line – Embora os manifestantes não a identifiquem?
João Pedro Stédile – Embora não a identifiquem ou embora alguns grupos se considerem anarquistas. Claro que eles são fruto da luta de classes, porque essa hegemonia da burguesia financeira e multinacional (que inclusive maneteia o próprio governo, como diz Olívio Dutra), não resolve os problemas da classe trabalhadora — porque, se falta moradia, falta para a classe trabalhadora; se não há acesso à universidade, são os filhos da classe trabalhadora que não têm acesso; o transporte público afeta diretamente a classe trabalhadora. Foi um segmento da juventude que levantou primeiro a bandeira da tarifa zero, mas é uma bandeira da classe trabalhadora. Os principais estopins para mobilizar o pessoal das cidades é a recuperação da qualidade do transporte público e a luta pela tarifa zero, porque é possível, do ponto de vista da economia brasileira, garantir transporte gratuito para todos os trabalhadores.
IHU On-Line – Estas manifestações do chamado Outono Brasileiro suscitaram críticas aos movimentos sociais tradicionais, no sentido de que eles deixaram de fazer mobilizações e de que estariam saturados. Como o senhor vê essas críticas?
João Pedro Stédile – Isso é natural. Os movimentos sociais têm as suas características e as suas especificidades, que vêm de 20 ou 30 anos. Ou seja, temos um modus operandi, temos uma metodologia para organizar a luta, mas isso não quer dizer que ela se contrapõe à liturgia que a juventude, que está desorganizada enquanto classe, utiliza para ir para a rua. Eles utilizam outras formas de propaganda, de motivação, de comunicação — o principal veículo deles era o Facebook. A classe trabalhadora que está dentro da fábrica não precisa de Facebook; ela utiliza outros métodos. Então, qual dos métodos é bom ou ruim? Os dois são bons.
Precisamos não cair nesse simplismo, que às vezes alguns porta-vozes da juventude utilizaram, de criticar os outros movimentos porque eles fazem diferente. O diferente é bom; não precisamos ser todos iguais. Mas o importante é que estejamos dispostos a criar condições para todos lutarmos juntos, porque as conquistas de tarifa zero, de melhoria nos transportes, de moradia e universidade para todos só serão possíveis se todas as formas demobilização popular se organizarem para enfrentar o poder do outro lado.

“A classe trabalhadora que está dentro da fábrica não precisa de Facebook; ela utiliza outros métodos”

IHU On-Line – O movimento social recebeu muitas críticas após a eleição do governo Lula, entre elas, a de ter sido cooptado pelo Estado. Como o senhor recebe as críticas feitas aos movimentos sociais, inclusive ao MST, de terem sido cooptados pelo Estado?
João Pedro Stédile – É evidente que, dentro do movimento sindical, dos movimentos sociais, houve deslocamento de lideranças que tinham feito a luta de classes antes para assumir cargos públicos, mas isso não é problema nenhum. Ao contrário. As lideranças que se propuseram a trabalhar no governo não só têm o direito legítimo de fazer isso como contribuem para melhorar o governo. Porém, não é aí que devemos fazer a crítica. O problema está quando um movimento social se subordina aos governos, e aí cada um que faça a sua avaliação. Nós do MSTassumimos, como princípio organizativo, que todo movimento social deve ser autônomo quanto ao governo, ao Estado, às igrejas, aos partidos. Isso não quer dizer que não vamos nos relacionar. Ao contrário, nós temos de nos relacionar, mas temos uma linha política própria, metas próprias, formas de organização próprias.
MST passou o tempo inteiro dos governos Lula e Dilma se mobilizando. Ninguém neste país tem moral para dizer que o MST parou de lutar. Ao contrário, esses mesmos que nos criticam pela esquerda não estavam nas nossas marchas, nas ocupações de terras que ocupamos, não estavam nos enterros das vidas que pagamos na luta de classes. As críticas de que o MST parou de lutar e está cooptado pelo governo não nos atinge. Recomendaria àqueles que as fazem que reflitam melhor a quem dirigem suas pedras, porque, na nossa concepção, mesmo que tenhamos críticas a outros parceiros da classe trabalhadora, temos de ter cuidado. As críticas têm de ser fraternais e em ambientes de reunião para que sejam construtivas. A crítica ácida, dura e permanente tem de ser contra os nossos inimigos de classe: a burguesia, os latifundiários, as multinacionais, as empresas de comunicação.
IHU On-Line – Essas críticas argumentam que o MST deveria ter um questionamento mais intenso em relação à postura do governo federal nos incentivos ao agronegócio, por exemplo.
João Pedro Stédile – Vocês são testemunhas, na página do IHU, do discurso do MST, que é sempre de “pau e pau”no agronegócio, no governo, quando erra; é só pesquisar no Google, se tiver paciência. No ano passado nós ocupamos dois ministérios. Qual foi o movimento social que ocupou algum ministério? Nós não somos contra as críticas; elas em geral nos ajudam, mas temo que muitas dessas críticas que vêm de setores esquerdistas são para fazer uma disputa ideológica besta. Era sobre isso que Lenin afirmava: “o esquerdismo é uma doença infantil”. Para dizer que você é melhor que os outros, você chama o outro de pelego. Mas se estamos corretos ou não, se somos melhores ou não para o povo brasileiro, só a história poderá dizer. No futuro, o povo vai julgar se o MST errou e onde errou. Nosso compromisso é com as mudanças sociais.
IHU On-Line - Como a questão agrária se insere na atual conjuntura política nacional? Será um tema presente nas eleições previstas para este ano?
João Pedro Stédile – A reforma agrária está paralisada, porque, mesmo quando se desapropria uma fazenda para resolver algum problema de acampamento, isso não é reforma agrária; é uma solução de um problema político e social. Em geral, essas desapropriações pontuais só resolvem o problema de um acampamento específico e não afetam a estrutura da propriedade da terra.
Reforma agrária no sentido stricto sensu é um programa de governo para eliminar o latifúndio e democratizar a propriedade da terra. O que está em curso no Brasil é uma concentração da propriedade da terra. Agora, por que isso acontece? Não é só por causa da ação de tal ou qual ministro. Isso acontece porque o capital financeiro e multinacional tomou a iniciativa de disputar a terra, a água, as sementes, e isso gerou uma hegemonia do agronegócio. O modelo de dominação capitalista está presente na produção, nas mercadorias agrícolas, na mídia, no Estado, no governo, como a força majoritária, e isso bloqueou a discussão e as conquistas da reforma agrária.
Como esse tema será discutido nas eleições? Não temos muita expectativa, porque a candidatura Dilma e a candidatura Eduardo e Marina são candidaturas alternativas de um mesmo projeto: o neodesenvolvimentismo, cujos parâmetros estão bloqueados e não resolveram os problemas estruturais. A candidatura do Aécio seria o fim do mundo, a volta do modelo neoliberal, a candidatura mais claramente vinculada ao capital financeiro e das multinacionais, tanto que ele já anunciou que vai privatizar a Petrobras e dar independência ao Banco Central. E ainda que é o único legítimo representante do agronegócio! Então, mesmo as duas candidaturas mais fortes que vão disputar as eleições, não têm como propósito recolocar a questão da reforma agrária. A questão agrária no Brasil só virá num futuro próximo quando houver a retomada das manifestações de massa, que vão pautar um projeto de país. As eleições também não representam mudanças estruturais na política institucional. Ganhe quem ganhe, continuará tudo igual. Só espero que não ganhe o Aécio, porque aí seria uma guerra.
IHU On-Line – O MST se posiciona apoiando alguma candidatura nas próximas eleições? Pretendem apoiar a candidatura da Dilma?
João Pedro Stédile – Como parte dos nossos princípios ao longo desses 30 anos, o MST nunca definiu em reunião nenhuma que vamos apoiar Beltrano ou Fulano como movimento; temos de ter autonomia. E, portanto, o movimento não participa eleitoralmente enquanto movimento. Porém, a nossa militância e a nossa base evidentemente participam da vida política, têm opinião política e consciência. E, naturalmente, a nossa base, por toda a sua trajetória de luta, se posiciona votando em candidatos progressistas, de esquerda. A nossa base analisa a conjuntura e toma as suas decisões. Devemos votar em candidatos progressistas, ainda que — e lamento dizer isso — aqui e acolá há assentados que votam em candidatos da direita. Nós também temos as nossas contradições, mas em geral a nossa base sempre se posiciona ao lado dos partidos progressistas.
On-Line – O senhor comentou, durante a palestra, que Lula nunca prometeu reformas estruturais. Dito isso, era de se esperar o atual quadro em relação a uma reforma agrária brasileira?
João Pedro Stédile – Não, não era de se esperar, embora programaticamente o PT tenha recuado. O que eu quis dizer com isso é que o programa que o Lula defendeu na campanha presidencial de 2002 não foi o programa democrático e popular. O programa que ele defendeu foi o de brecar o neoliberalismo. Assim, construiu um programa que, agora, a posteriori, estamos chamando de neodesenvolvimentismo e que está baseado em três pilares: 1) o crescimento econômico, ou seja, gerar mais produção e emprego; 2) o Estado retomar o seu papel na sociedade como indutor da economia e de criador de políticas públicas para os pobres — porque os neoliberais deixavam tudo para o mercado; e 3) distribuição de renda, que Lula fez com o aumento do salário mínimo e com os benefícios da previdência. Esse foi o programa que ganhou. E, nesse programa, não precisa fazer reforma agrária, não precisa tarifa zero, não precisa universidade para todos. Eu acho que Lula foi honesto; não enganou ninguém. Ele cumpriu o seu programa: a economia cresceu, o Estado retomou sua atividade e houve início da distribuição de renda.
Problemas estruturais
Porém, ao longo desses 12 anos, os problemas sociais estruturais se avolumaram: a reforma agrária parou, os estudantes querem mais universidades (só 15% da juventude consegue entrar no ensino superior), nas cidades falta moradia e aumentou a especulação imobiliária, a saúde está um caos e precisaríamos criar uma nova política de transporte público. Todas essas mudanças que estou citando agora precisam de reformas estruturais.
O que isso significa? Que não adianta mais um programa de agradar a todos, no qual todos vão ganhar. Não. Para pôr metrô e transporte com qualidade e quantidade necessárias nas cidades, o Estado tem de pegar dinheiro do capital financeiro; ou seja, os bancos têm de perder, porque mesmo no neodesenvolvimentismo se manteve intacta apolítica de superávit primário que destina de 30% a 40% de toda a arrecadação dos impostos para pagar juros.
E sem mexer na taxa de juros e sem mexer no superávit primário, não é possível fazer reforma estrutural. Como destrinchar esse bloqueio? Pela via institucional ele continuará bloqueado, porque nem o Congresso quer, nem os governos têm força — a própria Dilma queria, mas não teve força. Para destrinchar isso, somente com mobilização de massa, para arrancar a reforma política. Por isso, além de eleger os mais progressistas, temos que impedir o Aécio, porque seu governo seria a volta do neoliberalismo. Temos que, ao mesmo tempo, seguir as mobilizações de massa para que elas alterem a correlação de forças na sociedade e produzam reformas estruturais, começando pela reforma política.

“No ano passado nós ocupamos dois ministérios. Qual foi o movimento social que ocupou algum ministério?”

IHU On-Line - Qual é a relevância da reforma agrária para a redução da pobreza e da desigualdade social nos dias atuais, já que a concentração de terra aumentou ao longo dos últimos anos?
João Pedro Stédile – A concentração da propriedade de terra aumentou porque a ação do capital independe do governo. Então, quando se compra uma fazenda, ninguém pede se o governo deixa ou não, se o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incra quer ou não. O capital tem uma lógica de acumulação e vai concentrando. Nós somos vítimas desse processo. Com a crise de 2008, vieram para o Brasil 200 bilhões de dólares de capital fictício que foram aplicados só em recursos naturais. Esses 200 bilhões compraram terras, usinas de etanol, usinas hidrelétricas, etc. A Nestlé e a Coca-Cola compraram reservas de água no lençol freático. Isso produziu uma enorme concentração da terra, da produção e da propriedade dos recursos naturais no Brasil, fruto desse movimento do capital internacional. Inclusive a burguesia brasileira perdeu dinheiro com isso. O setor sucroalcooleiro (da cana), por exemplo, que afeta mais o estado de São Paulo, era um setor típico da burguesia brasileira, inclusive até familiar. Famílias eram donas da cana e das usinas. De 2008 para cá, a avalanche de capital para controlar a cana-de-açúcar e o etanol foi tão grande que hoje 58% de toda a produção brasileira de cana-de-açúcar e etanol é controlada por três empresas multinacionais: a Bunge, a ADM e a Cagil; se colocar mais a Shell Química, que tem um pouquinho de participação, vai para 60% o controle sobre o etanol e a cana produzidos noBrasil. As melhores terras de São Paulo estão hoje dedicadas à cana e sob o controle dessas empresas.
Mas, voltando à questão da reforma agrária... No capitalismo industrial, no século XX, a reforma agrária cumpria um papel essencial de resolver um problema do campesinato, que era ter acesso à terra e deixar de trabalhar para os outros. Com a reforma agrária, se eliminava o arrendamento da terra, a renda da terra do grande proprietário. Portanto, o camponês iria ter renda para ele, e com essa renda ele comprava coisas da indústria, na cidade, e ativava a economia. Ou seja, a reforma agrária clássica tinha um papel também de desenvolvimento do capitalismo industrial e do mercado nacional. Ao mesmo tempo que, para o camponês, resolvia o seu problema de sobrevivência, de subsistência da sua família, e o integrava à sociedade. Porque ele, como sem terra, é um pária. Ele só é espoliado, não tem direito a nada. Mas essa reforma agrária clássica não se viabilizou no Brasil. Por quê? Porque a burguesia industrial não teve interesse. A burguesia industrial brasileira é tão espoliadora que, em vez de projetar um mercado nacional de massa para os seus produtos, preferiu bloquear a reforma agrária e usar o campesinato como mão de obra barata, como o seu exército reserva de mão de obra, e com isso garantir baixos salários aos operários, aumentando seu lucro por aí!

"Nosso problema é a repressão ideológica que os meios de comunicação fazem contra qualquer luta social"

O que a burguesia industrial fez no Brasil no século XX foi estimular o êxodo rural, para que essa massa viesse para a grande cidade e pressionasse os salários para baixo. Por isso, não fez a reforma agrária. O período mais próximo que tivemos de uma reforma agrária clássica foi na crise do capitalismo industrial da década de 1960, quando tínhamos um governo popular, o de João Goulart, formado por ministros fantásticos como Celso Furtado e Darcy RibeiroCelso Furtado propôs: "Presidente, para sairmos da crise do capitalismo industrial, só uma reforma agrária, assim como os países do hemisfério Norte fizeram". O presidente topou e o governo apresentou um projeto de reforma agrária que foi fantástico, o melhor projeto de reforma agrária elaborado até hoje — previa, inclusive, a desapropriação de todas as fazendas acima de 500 hectares. Projeto proposto por Celso Furtado e João Goulart. Imagina se eu, João Pedro, em nome do MST, propusesse isso hoje: desapropriação de todas as fazendas acima de 500 hectares. A imprensa iria me chamar de louco, comunista, comedor de criancinhas...
IHU On-Line - Naquela época o projeto era viável?
João Pedro Stédile - Naquela época era viável e necessário. Tanto é que a burguesia se assustou, e qual foi a sua resposta? O golpe militar. Aliaram-se aos Estados Unidos. Tiveram que barrar a manu militari, à custa de vidas e toda esta repressão de 20 anos. O que mudou hoje? O próprio capitalismo industrial não está mais no centro do desenvolvimento capitalista. Portanto, nem sequer temos mais burguesia industrial como burguesia específica. Agora nós temos uma burguesia que é dominada pelo capital financeiro e que é dona de uma indústria, que é dona de um comércio, que é dona de terras, etc. Não há mais uma burguesia industrial típica, como foi gestada nos séculos XIX eXX.
Esta etapa do capitalismo criou para o campo o modelo do agronegócio. No agronegócio não precisa mais de camponês, nem sequer para o exército de mão de obra reserva, porque na cidade eles não precisam mais ampliar o número de operários industriais. O aumento da produtividade do trabalho, que o IHU acompanha, como tenho visto nos debates, foi reduzindo inclusive a classe trabalhadora industrial. Tanto é que quem migra hoje para as cidades vai cair onde? No trabalho informal, no comércio, na venda ambulante, nos serviços em geral. O trabalhador não vai mais à porta da fábrica pedir emprego, como a minha geração. Então, nestas circunstâncias, mudou também o caráter daquela reforma agrária do século XX. Agora a reforma agrária precisa ter outras balizas, outros paradigmas. Claro, começando pela democratização da propriedade da terra. Porque, sem ter posse real da terra, você não consegue produzir. A terra é um fator de natureza imprescindível para você produzir na agricultura, para você produzir riqueza.
Democratização da propriedade
Qualquer reforma agrária, de qualquer tipo, tem que partir da democratização da propriedade da terra. Porém, não pode ficar nisso. E o que há a mais? Agora a reforma agrária tem que ser planejada para produzir alimentos. E aí é que entra o interesse de toda a população: alimentos sadios e baratos. E isso só o campesinato pode produzir, porque o agronegócio só produz com veneno. E o veneno no seu estômago algum dia vai virar câncer.

“O período da Copa não é um período bom para você discutir um projeto para o país”

Instituto Nacional do Câncer advertiu agora mesmo, em fevereiro, que para este ano a previsão é de 546 mil novos casos de câncer no Brasil. E eles, como cientistas da área, dizem: "se a população descobrir que está com câncer cedo, nós vamos salvar 60% destas pessoas". Mas 40% delas irão a óbito. E quais são os tipos de câncer que estão mais proliferando: o câncer de mama e o câncer de próstata, porque são as células mais frágeis, onde aqueles princípios ativos químicos dos venenos agem. Então é aí que aparece a degradação do nosso organismo. É por isso que hoje, ao ler os jornais, ou nas nossas famílias, notamos que o câncer de mama aparece até nas meninas que nem menstruaram ainda.
Porque ele já não é resultado, digamos, da degradação das células pela idade, que em geral afetava as pessoas mais idosas. Agora não. A origem é outra, os alimentos contaminados.
Fazer uma reforma agrária apenas para produzir alimentos sadios e salvar a população desta tragédia já seria um sucesso. Mas, além disso, temos que adotar uma nova matriz tecnológica, a qual chamamos de agroecologia, que é a produção na agricultura em equilíbrio com a natureza. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGEdivulgou e o jornal O Estado de São Paulo publicou que, dos 5,5 mil municípios brasileiros, 2.276 tiveram ocorrências de tragédias naturais provocadas pelo homem, com graves consequências para toda sua população. Isso vem de onde? Vem da monocultura, da destruição da biodiversidade, realizada pelo agronegócio, que altera o clima. Nós temos que voltar a produzir alimentos com agroecologia para que haja um equilíbrio na natureza. Isso salva a cidade das tragédias anunciadas.
Outro parâmetro que nós temos adotado se refere à própria agroindústria. Ela é necessária para conservarmos os alimentos, mas nós temos que acabar com esse controle oligopólico de grandes grupos que controlam todas as agroindústrias. A indústria do leite, por exemplo, é controlada por três empresas: NestléParmalat e Danone. As cooperativas de agricultores têm os preços definidos pelos grandes grupos. A maior empresa nacional de leite, que é a Itaimbé, de Minas Gerais, foi comprada agora pelo grupo Friboi, o que concentra ainda mais a agroindústria. Nós poderíamos ter empresas de laticínios em todos os municípios do Brasil na forma de cooperativas, controladas pelos trabalhadores. Isso iria gerar renda, distribuir renda, iria equilibrar a nossa sociedade.
Reforma agrária popular
reforma agrária de agora é de outro tipo. É uma reforma agrária que nós chamamos popular, porque ela interessa a todo o povo. Não é mais uma reforma agrária camponesa. Não é mais uma reforma agrária de sem terras. Os sem terras queriam reforma agrária para quê? Para ter terra. Mas ter terra não resolve o problema. Agora precisamos de uma reforma agrária mais ampla, que interesse a todo o povo. E por que é difícil ela sair? Porque a nossa forma de luta, de ocupar terras, de fazer marchas, era apropriada para enfrentar e derrotar o latifúndio. Era suficiente como tática de luta para conquistar a terra. Agora não.
Agora tu enfrentas uma Bunge, uma Monsanto, a Aracruz. Quando nós fizemos aquela ação das mulheres, há cinco anos, contra a Aracruz, veja o "massacre" que nós sofremos na mídia. Porque a população na cidade ainda não tinha consciência de que o eucalipto é um prejuízo também para a cidade. Nós pagamos sozinhos aquela conta. E nós seguramos no peito. A nossa sorte é que Deus existe e que o próprio capitalismo levou a Aracruz à falência. Aquele viveiro no qual destruímos as mudas, hoje está fechado. Foi fechado pela própria contradição do capital.
reforma agrária popular vai ser mais demorada, mais difícil, porque nós vamos ter que conscientizar a população da cidade para que ela também se mobilize. É claro que a população da cidade não precisa ir a uma ocupação de terra, mas ela pode ir para a frente de um supermercado e dizer: "eu quero comida sadia, eu quero que coloquem no rótulo do arroz se ele tem ou não veneno", para que a dona de casa que vai comprar arroz saiba — "este arroz tem glifosato, herbicida" — e possa decidir se quer comer o arroz com veneno, ou o arroz das cooperativas da reforma agrária, que não tem veneno. A população da cidade vai ter que se mobilizar em seu próprio interesse. E os caminhos podem ser esses, pelas contradições do agronegócio, dos alimentos, das mudanças climáticas, do meio ambiente, do emprego.
IHU On-Line - Como o senhor vê as mobilizações contrárias à Copa?
João Pedro Stédile - É natural que os jovens e alguns setores e categorias de trabalhadores aproveitem o evento daCopa para alcançar a visibilidade que o oligopólio encabeçado pela Globo esconde. Há fofocas por aí afirmando que até a Polícia Federal está ameaçando fazer greve. E se eles fizerem, vai ser um caos. Bom, quando fazem greve fora da Copa ninguém dá bola, então eles têm direito também, não é?! Há este aspecto do evento e da visibilidade, que é justo, e as categorias e os setores que quiserem lutar, acho que é apropriado.
Agora, a nossa reflexão como Movimento Sem Terra e na plenária nacional de movimentos é que o período da Copanão vai ainda nos ajudar a construir aquele programa unitário para debater o Brasil, porque parte do povo brasileiro quer ver a Copa. Então a palavra de ordem "não vai ter Copa" não consegue envolver todo o povo brasileiro.