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sábado, 4 de abril de 2015

Vinte filmes sobre a ditadura no Brasil

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Vinte filmes sobre a ditadura no Brasil

02 (1)
Obras examinam prisões políticas, censura, resistência popular, lutas camponesas e operárias, tortura. No 51º aniversário do golpe, guia para compreender um período sombrio
Por Shellen Galdino, no Plaggiado
Diversos foram mortos, outros tantos torturados, outros tiveram que se exilar. Uma momento que jamais deve se repetir, porém, deve ser lembrada. Embora muitos ainda querem enterrar e não julgar os torturadores, existem diversos que lutam contra a volta deste momento e julgamento dos responsáveis.
Os anos de chumbo passaram por diversos momentos, neste sentido, é válido conferir uma síntese histórica: Cronologia da Ditadura Militar e algumas fotos.
Este período marcou profundamente a história do Brasil, onde parte da comunicação e da mídia apoiaram o golpe exemplo disso é a Folha de São Paulo e a Rede Globo. Assim como as empreiteiras Camargo Côrrea e Odebrecht. Vejam esta reportagem no Brasil de Fato: As quatro irmãs
Em contra partida, quem criticava a ditadura, era censurado, quando não torturado ou morto. Diversos livros proibidos, diversas vozes caladas, diversos filmes proibidos. De todo modo, o cinema brasileiro existem produções consideráveis sobre a temática, principalmente de forma mais recente, com o incentivo do Governo Federal através da Comissão Nacional da Verdade e do Cinema pela Verdade, mas, os filmes ainda são modestos para a necessidade de debater este período.
“É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. As provas das torturas trazemos no corpo”. (Frei Tito)
Aqui, segue 20 filmes interessantes para ajudar a compreender nossa história.
TEXTO-MEIO
1. MANHÃ CINZENTA (1968), Olney São Paulo – Em plena vigência do AI-5, o cineasta-militante Olney São Paulo dirigiu este filme, que se passa numa fictícia ditadura latino-americana, onde um casal que participa de uma passeata é preso, torturado e interrogado por um robô, antecipando o que aconteceria com o próprio diretor. A ditadura tirou o filme de circulação, mas uma cópia sobreviveu para mostrar a coragem de Olney São Paulo, que morreu depois de várias sessões de tortura, em 1978.


2. PRA FRENTE, BRASIL (1982), Roberto Farias – Um homem comum volta para casa, mas é confundido com um “subversivo” e submetido a sessões de tortura para confessar seus supostos crimes. Este é um dos primeiros filmes a tratar abertamente da ditadura militar brasileira, sem recorrer a subterfúgios ou aliterações. Reginaldo Faria escreveu o argumento e o irmão, Roberto, assinou o roteiro e a direção do filme, repleto de astros globais, o que ajudou a projetar o trabalho.


 
3. NUNCA FOMOS TÃO FELIZES (1984), Murilo Salles – Rodado no último ano do regime militar, a estreia de Murilo Salles na direção mostra o reencontro entre pai e filho, depois de oito anos. Um passou anos na prisão; o outro vivia num colégio interno. Os anos de ausência e confinamento vão ser colocados à prova num apartamento vazio, onde o filho vai tentar descobrir qual a verdadeira identidade de seu pai. Um dos melhores papéis da carreira de Claudio Marzo.


4. CABRA MARCADO PARA MORRER (1984), Eduardo Coutinho – A história deste filme equivale, de certa forma, à história da própria ditadura militar brasileira. Eduardo Coutinho rodava um documentário sobre a morte de um líder camponês em 1964, quando teve que interromper as filmagens por causa do golpe. Retomou os trabalhos 20 anos depois, pouco antes de cair o regime, mesclando o que já havia registrado com a vida dos personagens duas décadas depois. Obra-prima do documentário mundial.


5. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1997), Bruno Barreto – Embora ficcionalize passagens e personagens, a adaptação de Bruno Barreto para o livro de Fernando Gabeira, que narra o sequestro do embaixador americano no Brasil por grupos de esquerda, tem seus méritos. É uma das primeiras produções de grande porte sobre a época da ditadura, tem um elenco de renome que chamou atenção para o episódio e ganhou destaque internacional, sendo inclusive indicado ao Oscar.

 
6. AÇÃO ENTRE AMIGOS (1998), Beto Brant – Beto Brant transforma o reencontro de quatro ex-guerrilheiros, 25 anos após o fim do regime militar, numa reflexão sobre a herança que o golpe de 1964 deixou para os brasileiros. Os quatro amigos, torturados durante a ditadura, descobrem que seu carrasco, o homem que matou a namorada de um deles, ainda está vivo –e decidem partir para um acerto de contas. O lendário pagador de promessas Leonardo Villar faz o torturador.


7. CABRA CEGA (2005), Toni Venturi – Em seu melhor longa de ficção, Toni Venturi faz um retrato dos militantes que viviam confinados à espera do dia em que voltariam à luta armada. Leonardo Medeiros vive um guerrilheiro ferido, que se esconde no apartamento de um amigo, e que tem na personagem de Débora Duboc seu único elo com o mundo externo. Isolado, começa a enxergar inimigos por todos os lados. Belas interpretações da dupla de protagonistas.


8. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAIRAM DE FÉRIAS (2006), Cao Hamburger – Cao Hamburger, conhecido por seus trabalhos destinados ao público infantil, usa o olhar de uma criança como fio condutor para este delicado drama sobre os efeitos da ditadura dentro das famílias. Estamos no ano do tricampeonato mundial e o protagonista, um menino de doze anos apaixonado por futebol, é deixado pelos pais, militantes de esquerda, na casa do avô. Enquanto espera a volta deles, o garoto começa a perceber o mundo a sua volta.


9. HOJE (2011), Tata Amaral – Os fantasmas da ditadura protagonizam este filme claustrofóbico de Tata Amaral. Denise Fraga interpreta uma mulher que acaba de comprar um apartamento com o dinheiro de uma indenização judicial. Cíclico, o filme revela aos poucos quem é a protagonista, por que ela recebeu o dinheiro e de onde veio a misteriosa figura que se esconde entre os cômodos daquele apartamento. Denise Fraga surpreende num papel dramático.
10. TATUAGEM (2013), Hilton Lacerda – A estreia do roteirista Hilton Lacerda na direção é um libelo à liberdade e um manifesto anárquico contra a censura. Protagonizado por um grupo teatral do Recife, o filme contrapõe militares e artistas em plena ditadura militar, mas transforma os últimos nos verdadeiros soldados. Os soldados da mudança. Irandhir Santos, grande, interpreta o líder da trupe. Ele cai de amores pelo recruta vivido pelo estreante Jesuíta Barbosa, que fica encantado pelo modo de vida do grupo.


11. BATISMO DE SANGUE (2007) – Apesar do incômodo didatismo do roteiro, o longa é eficiente em contar a história dos frades dominicanos que abriram as portas de seu convento para abrigar o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Gerando desconfiança, os frades logo passaram a ser alvo da polícia, sofrendo torturas físicas e psicológicas que marcaram a política militar. Bastante cru, o trabalho traz boas atuações do elenco principal e faz um retrato impiedoso do sofrimento gerado pela ditadura.


12. HÉRCULES 56
Na semana da independência de 1969 o embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, foi sequestrado. Em sua troca foi exigida a divulgação de um manifesto revolucionário e a libertação de 15 presos políticos, que representam diversas tendências políticas que se opunham à ditadura militar.



13. O DIA QUE DUROU 21 ANOS (2012) – de Camilo tavares, este documentário narra os interiores – desconhecidos pela maior parte da sociedade brasileira – da participação dos Estados Unidos na preparação e execução do golpe militar em 1964, através de documentos sigilosos que ficaram secretos durante anos. Mostra que os Estados Unidos estava decidido a invadir o Brasil para que o golpe tivesse sucesso.



14. DOSSIÊ JANGO (2013), de Paulo Henrique Fontenelle, este documentário traz à tona o conturbado período em que o ex-presidente João Goulart viveu no exílio e as nebulosas circunstâncias de sua morte. Partindo deste fato, o documentário alimenta o debate em torno da necessidade de investigação e de esclarecimento público deste período terrível de nossa História: a era das ditaduras militares latino-americanas.



15. ZUZU ANGEL (2006), de Sérgio Rezende, narra o Brasil dos anos 1960. A ditadura militar faz o país mergulhar em um dos momentos mais negros de sua história. Alheia a tudo isto, Zuzu Angel (Patrícia Pillar), uma estilista de modas, fica cada vez mais famosa no Brasil e no exterior. O desfile da sua coleção em Nova York consolidou sua carreira, que estava em ascensão. Paralelamente seu filho, Stuart (Daniel de Oliveira), ingressa na luta armada, que combatia as arbitrariedades dos militares. Resumindo: as diferenças ideológicas entre mãe e filho eram profundas. Ela uma empresária, ele lutando pela revolução socialista e Sônia (Leandra Leal), sua mulher, partilha das mesmas idéias. Numa noite Zuzu recebe uma ligação, dizendo que “Paulo caiu”, ou seja, Stuart tinha sido preso pelos militares. As forças armadas negam e Zuzu visita uma prisão militar e nada acha, mas viu que as celas estavam tão bem arrumadas que aquilo só podia ser um teatro de mau gosto, orquestrado pela ditadura. Pouco tempo depois ela recebe uma carta dizendo que Stuart foi torturado até a morte na aeronáutica. Então ela inicia uma batalha aparentemente simples: localizar o corpo do filho e enterrá-lo, mas os militares continuam fazendo seu patético teatro e até “inocentam” Stuart por falta de provas, apesar de já o terem executado. Zuzu vai se tornando uma figura cada vez mais incômoda para a ditadura e ela escreve que não descarta de forma nenhuma a chance de ser morta em um “acidente” ou “assalto”.



16. EM BUSCA DE IARA (2013), de Flávio Frederico, este documentário relata a trajetória excepcional de Iara Iavelberg. Apesar de ter uma situação financeira confortável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar. Iara teve uma relação amorosa com o capitão Carlos Lamarca, e morreu em 1971, aos 27 anos de idade.



17. CONDOR (2007), de Roberto Mader, trata sobre a operação de mesmo nome. Condor foi o nome dado à cooperação entre governos militares sul-americanos que resultou no sequestro e assassinato de milhares de pessoas e no exílio de tantas outras. Uma análise contemporânea destes eventos, trazendo uma história de terrorismo de estado mas também de pessoas e da procura pela verdade e justiça.


18. DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO (2014), de Pedro Asbeg, narra o principalmente o ano de 1982. A ditadura militar completava dezoito anos de opressão e censura, a MPB sobrevivia de metáforas e o Corinthians era dominado pelo mesmo presidente em um período igualmente longo. Foi neste contexto de política, futebol, rock que foram vividos alguns dos mais importantes momentos recentes de nosso país. É sobre esse período de sonhos, conquistas, utopias e desilusões que trata “Democracia em Preto e Branco”.



19. CIDADÃO BOILESEN (2009), de Chaim Litewski, conta como o empresariado financiou a Operação Bandeirante (OBAN), principal órgão de repressão da ditadura militar brasileira. Através da surpreendente vida do ex-presidente da Ultragaz, Henning Boilesen, assassinado pela guerrilha em 1971, o documentário revela a ligação política e econômica entre civis e militares no combate à luta armada. Com dezenas de entrevistados, vasto material iconográfico e inéditos documentos até então secretos. Cidadão Boilesen discute o período mais brutal da recente história brasileira.



20. ELES NÃO USAM BLACK-TIE (1984), de Leon Hirszman. Em São Paulo, em 1980, o jovem operário Tião e sua namorada Maria decidem casar-se ao saber que a moça está grávida. Ao mesmo tempo, eclode um movimento grevista que divide a categoria metalúrgica. Preocupado com o casamento e temendo perder o emprego, Tião fura a greve, entrando em conflito com o pai, Otávio, um velho militante sindical que passou três anos na cadeia durante o regime militar.

sábado, 7 de março de 2015

Maré: “O padrão de violência que a polícia imprimia se repete na atuação do exército”

correio
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Maré: “O padrão de violência que a polícia imprimia se repete na atuação do exército”




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ESCRITO POR GABRIEL BRITO E PAULO SILVA JR, DA REDAÇÃO   
SEXTA, 06 DE MARÇO DE 2015


Enquanto se discutem calorosamente os graves problemas políticos e econômicos pelos quais passa o Brasil, a maioria das pessoas não atenta para outro processo tão ou mais nocivo à democracia: a crescente militarização da vida cotidiana. Obviamente, os mais pobres são os primeiros a sentir na pele, de forma muito mais dramática que nas corretamente denunciadas repressões em manifestações. Se alguns pedem “intervenção militar” como solução para alguma coisa, precisam ser informados de que ela já corre solta em algumas partes do país.

“De abril de 2014 pra cá, aconteceram 20 mortes dentro da Maré. Claro que não foram todas causadas pela ação do exército e, sim, por um conflito já instalado. Porém, tais conflitos não foram devidamente estudados, elaborados e refletidos. O padrão de violência que a polícia imprimia se repete na atuação do exército. Logo no segundo ou terceiro mês de presença do exército, já se configurava que o ordenamento pensado não estava preocupado em criar condições de garantia dos direitos dos moradores”, denunciou Elaina Sousa e Silva, em entrevista ao Correio.

Como se vê, estamos diante de um grande retrato, dado o tamanho do Complexo da Maré, do fracasso das políticas de segurança pública do Estado brasileiro e seu viés exclusivamente militarista. No entanto, estamos também diante de sua acentuação. Na conversa, Eliana, coordenadora da Redes de Desenvolvimento da Maré, explica como a entrada do exército na região, por conta da Copa do Mundo, não diminuiu os índices de violência, além de fazer uma avaliação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), há mais de seis anos em voga no Rio de Janeiro.

“A UPP é um projeto que está muito questionado, sob o ponto de vista da eficácia e da estrutura. Estão dizendo que vão implantar cinco UPPs na Maré, no momento em que também falam em avaliar o que foi feito até agora por essa presença policial nas favelas, para tentar avanços. O novo governo tem um discurso de que os erros já mostrados pelo projeto seriam corrigidos e se avançaria na perspectiva de um projeto mais profundo, que realmente trabalhe outras dimensões, para além do enfrentamento bélico. Tudo ainda é vago, falta muita concretude para que tais ideias se tornem política pública”, analisou Eliana.

A entrevista completa, realizada nos estúdios da Central 3, pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Em primeiro lugar, como foi a manifestação “em favor da vida” promovida pelos moradores do Complexo da Maré, no dia 23 de fevereiro?

Eliana Sousa Silva: Foi um movimento espontâneo das famílias atingidas no último mês por violações de direitos cometidas pelo exército. Tivemos um crescente número de violações nesse período, todo dia. Isso criou animosidades e uma situação de indignação, o que culminou na manifestação. A movimentação e revolta dos moradores ocorreram de forma espontânea.

Correio da Cidadania: Quais as razões gerais para a insatisfação da população contra a intervenção militar na Maré, inclusive com a participação do exército?

Eliana Sousa Silva: Para nós, é uma aberração ter o exército atuando em áreas como a Maré e em favelas. Não é a primeira vez, dado que o Complexo do Alemão também teve a experiência do exército, antes de ter a UPP. No caso da Maré, o exército entrou em abril 2014, no momento prévio à Copa do Mundo, sob uma grande expectativa, em função da localização, que é estratégica. Toda pessoa que entra no Rio de janeiro, de carro ou avião, tem de passar pelo Complexo da Maré, já que se localiza entre as principais vias de acesso à cidade – Avenida Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha.

Assim, o governo estava preocupado em como a situação da Maré poderia criar problemas para o evento esportivo. O exército entrou ali pra criar um cordão de isolamento – palavra utilizada por eles mesmos, e que uso aqui de forma crítica – e conter os conflitos. A Maré é o maior conjunto de favelas do Rio, onde moram 130 mil pessoas. É uma cidade, 80% dos municípios brasileiros não têm esse tamanho.

Portanto, há a complexidade de se ter uma região muito adensada e, historicamente, com os três grandes grupos criminosos armados atuando. Além deles, tem a milícia. São 16 favelas agrupadas e 4 comandos atuando e gerando conflitos, ao lado de um histórico muito ruim da polícia, sem nenhum respeito aos direitos dos moradores e com muitas violações contra eles. O exército entrou com a perspectiva de controlar a Maré, mas também foi anunciada a oportunidade de se fazer a transição para a UPP, de modo a criar as condições para a polícia e outros aparatos da segurança pública se instalarem lá, um território, de fato, complexo.

As facções perceberam o padrão de ordenamento imposto pelo exército, que num primeiro momento foi de aproximação às pessoas e instituições locais, para criar uma ideia de tranquilidade em relação aos grupos criminosos. Algumas pessoas foram presas e se tirou a presença ostensiva das armas por ali. Havia, de fato, pessoas fortemente armadas, numa área estratégica da cidade. Foram feitas reuniões com o secretário de segurança, generais e coronéis que atuavam na região e havia a ideia de proximidade com a população e mudança da realidade. Porém, em algumas partes existem conflitos mais permanentes, e até resistência dos grupos criminosos, e isso não mudou muito, mesmo após o início da ocupação.

Correio da Cidadania: E qual a realidade atual da atuação do exército?

Eliana Sousa Silva: Pra se ter uma ideia, logo no segundo ou terceiro mês de presença do exército, já se configurava que o ordenamento pensado não estava preocupado em criar condições de garantia dos direitos dos moradores. Começou com uma troca permanente de corporação. A cada dois meses, vem uma tropa de alguma parte diferente do Brasil. Vieram tropas de São Paulo, Rio Grande do Sul e, agora, do Nordeste. Ou seja, a cada dois meses tem de ser feito todo um novo trabalho de aproximação. O exército faz um treinamento, mas mesmo assim fica muito distante das necessidades reais da comunidade. A cada mudança de corporação, vinha o general se apresentar, falar em corrigir problemas etc. Mas fomos vendo que é só discurso e retórica.

O que temos de concreto é que de abril de 2014 pra cá aconteceram 20 mortes dentro da Maré. Claro que não foram todas causadas pela ação do exército e, sim, por um conflito já instalado. Porém, tais conflitos não foram devidamente estudados, elaborados e refletidos. O padrão de violência que a polícia imprimia se repete na atuação do exército.

Correio da Cidadania: Indo a fundo em detalhes pouco conhecidos de quem está longe dessa realidade, o que você pode contar da relação cotidiana entre os militares e moradores?

Eliana Sousa Silva: Aqui na Maré, nosso histórico é de sempre tentar puxar a agenda de segurança pública da cidade. É difícil. O tema da segurança pública, de modo geral, é complicado de debater nas favelas. Isso porque temos de lidar com o medo de tratar do assunto de maneira republicana. A ideia de direito à segurança pública, para o morador de favela, ainda é muito distante. Principalmente segurança proporcionada pelo Estado, o ente que deve garantir tal direito.

Os moradores têm convivido ao longo do tempo com muitas situações difíceis, com um aparato bélico muito forte em sua volta. Mas no primeiro momento até ouvimos relatos de moradores dizendo que essa presença tinha abrandado alguns modos de operar dos grupos criminosos. Existe, portanto, um anseio por outro tipo de segurança, de ver o Estado atuando corretamente, apesar de se conviver com a deformação de ter um exército armado em seu ambiente.

O que vamos percebendo é que o exército perdeu a ideia de que está ali para uma missão que vá além de garantir minimamente, através do aparato bélico, o funcionamento da vida na região. Eles perderam a noção do que devem ou não fazer. Acham que podem fazer qualquer coisa. Desde que começou o processo de violação de direitos, tentamos fazer eventos, como uma coletiva de imprensa com os moradores, para expor o que tem acontecido. Havia uma violência muito forte contra os jovens. Coisas que as pessoas se acostumaram a ver com a PM, o choque, o BOPE, e que de alguma maneira teve um hiato. Depois, o exército começou a agir do mesmo modo e veio a reação das pessoas.

É muito absurdo, pois a ideia transmitida é a de que a sociedade acha justificáveis as violações, pelo fato de existirem grupos armados na região – que também oprimem os moradores. Mas não é possível não se trabalhar com outra abordagem em relação à questão da violência. Não conseguimos entender a ideia de combater violência com violência, a ideia de que é preciso matar inocentes sem nada a ver com isso.

Estamos novamente inseguros, com medo da reação do exército, que piorou muito depois da morte de um soldado. Depois dessa morte, percebemos o afastamento da ideia de se aproximar da comunidade e uma maior hostilidade. Agora, o medo é muito presente, inclusive nos rostos deles mesmos. Andam armados, com feições tensas... É muito delicada a situação.

Correio da Cidadania: Como tem sido a repercussão política e social do que acontece na Maré, em relação ao restante da cidade?

Eliana Sousa Silva: A repercussão é grande no Rio porque é inacreditável ter um exército há tanto tempo numa área, com gastos astronômicos, e a situação não melhorar. E nos perguntamos por que não se gasta esse dinheiro na forma como realmente se deve promover segurança pública. É uma situação nebulosa. Fazemos um trabalho ao lado da comunidade desde 2009, e temos reflexões com os moradores sobre o tema, sobre como a sociedade civil pode interferir no processo. Segurança pública não pode ser tratada somente pela polícia, precisa do envolvimento da sociedade.

Na verdade, trata-se da ideia de construção de um direito historicamente negado. E temos de aprender a lidar com ele. Em 2012, fizemos uma campanha e um material sobre como a polícia pode abordar um morador, o que é legal e ilegal, como o morador pode buscar seus direitos... Tudo no sentido de as próprias pessoas fazerem valer seus direitos nesse campo. Existe uma ideia de que as pessoas estão lá acuadas, coitadinhas, mas existe uma reação. E a Maré vem mostrando que as pessoas podem interferir no processo da política de segurança pública.

Parece que nada existia antes da UPP entrar em uma favela. Não é verdade. A Maré tem escolas, e há mais 20 sendo construídas, tem um centrinho, guia de ruas, um mapeamento de toda a atividade econômica local... E percebemos que tudo é fruto da luta dos moradores. O único direito ainda não garantido é o da segurança pública. Não existe aparato de justiça e nem sequer uma delegacia. Um lugar com 130 mil habitantes não tem uma delegacia próxima, para as pessoas denunciarem alguma coisa. A ideia de buscar os direitos é a que temos enfatizado para a população, porque é a única forma de mudar isso.

Correio da Cidadania: Como vocês avaliam as políticas de segurança do governo carioca, tanto na Maré como no âmbito geral da cidade? Após seis anos, qual o balanço que vocês fazem da implementação das UPPs no Rio de Janeiro?
Eliana Sousa Silva: Um terço da população do Rio vive em favelas. É uma questão importante em relação à segurança pública e às diferentes violências que temos em tais territórios. A ideia de construção de um projeto nesse campo é fundamental na cidade. Era preciso algum projeto voltado ao enfrentamento de grupos criminosos que atuam em distintos territórios.

Inicialmente, a ideia da UPP era desarmar tais grupos e a partir de então construir outras referências de ordenamento e ocupação dos territórios, por uma lógica republicana, como costuma ser no restante da cidade. No Rio, uma parte da cidade, principalmente a zona sul, é suprida de forma muito significativa neste aspecto, ao passo que outras áreas historicamente ficaram abandonadas. A UPP era a alternativa a esse déficit.

O que percebemos é que o projeto vem tendo problemas de se manter tal como planejado, pois não é possível ter a quantidade necessária de policiais bem formados, de acordo com uma ideia de proximidade com a população, em tantos territórios que precisam de tal ordenamento. Portanto, temos problema na formação de policiais. E também temos problemas no sentido de que os grupos criminosos até recuam, mas simbolicamente continuam muito fortes e interferem em questões muito básicas.

A UPP é um projeto que está muito questionado, sob o ponto de vista da eficácia e da estrutura. Estão dizendo que vão implantar cinco UPPs na Maré, no momento em que também falam em avaliar o que foi feito até agora por essa presença policial nas favelas, para tentar avanços. O novo governo tem um discurso de que os erros já mostrados seriam corrigidos e se avançaria na perspectiva de um projeto mais profundo, que realmente trabalhe outras dimensões, para além do enfrentamento bélico. Tudo ainda é vago, falta muita concretude para que tais ideias se tornem política pública.

No entanto, é a alternativa que temos aqui. Estamos tentando trabalhar com ela de modo a fazer os índices de violência realmente caírem e a cidade perceber, já que a letalidade, como um todo, é muito grande por aqui.

Leia também:
‘Queremos do Estado a garantia de direitos civis básicos que na favela não são respeitados’ - entrevista com Edson Diniz, da Redes de Desenvolvimento da Maré, após chacina que causou 12 mortes em julho de 2013.
Encontros que deixam marcas. Um relato sobre o ato da Maré – Sobre a manifestação dos moradores, no dia 23 de fevereiro de 2015.


Gabriel Brito e Paulo Silva Jr são jornalistas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Violência policial marcou o final do segundo ato pela redução das tarifas em São Paulo

correio
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Violência policial marcou o final do segundo ato pela redução das tarifas em São Paulo




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ESCRITO POR RAPHAEL SANZ, DA REDAÇÃO   
SEGUNDA, 19 DE JANEIRO DE 2015

E naquelas cinco horas da tarde da última sexta-feira, 16 de janeiro, começava a concentração do segundo ato contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, que segundo dados oficiais da polícia militar contou com três pessoas. Apesar da versão oficial ser incontestável no universo da mídia empresarial, é bom lembrar que a multidão ocupou todo o espaço físico da Consolação, desde pouco antes do cemitério até quase a praça Roosevelt. O Movimento Passe Livre diz que foram em torno de 20 mil pessoas. Não somos excelências em matemática, mas pareceu que a contagem do MPL estava mais de acordo com a realidade.

Chegando na Praça do Ciclista, vindo do metrô Consolação, a reportagem deu de cara com uma barreira que tinha policiais do choque e da tropa do braço naquelas armaduras apocalípticas. Com eles, alguns ônibus da PM estacionados na Paulista. Apesar do clima de intimidação, a concentração aconteceu tranquilamente. Uma grande assembleia armou-se na rua, foi feito um jogral e decidiu-se o trajeto do ato: desceria a Avenida Consolação até a prefeitura e em seguida a marcha terminaria em frente à Secretaria Municipal de Transportes.

Durante a descida, entrevistamos um dos organizadores do ato. Durante a abordagem, foi dito que os policiais estavam no fundo do ato “estocando as pessoas com os cassetetes” e, por isso, ele pedia para o ato andar mais rápido. Era na altura do Mackenzie. “A polícia está tumultuando desde o começo. Querem tirar as pessoas da faixa de ônibus dizendo que vão liberar o trânsito, mas daí colocam a tropa deles nessa faixa. Na verdade o que eles querem é fazer um cordão lateral total e o caldeirão de Hamburgo”, disse, referindo-se à tática bastante utilizada no ano passado, de confinar a manifestação entre quatro paredes policiais.

Sobre a declaração do prefeito Fernando Haddad, que comparou o MPL aos assassinos da redação do Charlie Hebdo, foi irônico. “O Haddad está tão tranquilão que perdeu a noção da realidade... peraí!” E saiu correndo para ajudar, após uma breve confusão protagonizada pela polícia. O ato seguiu enquanto a noite caía.

Já no escuro, ao atravessar o Viaduto do Chá, vimos alguns militantes estendendo uma faixa sobre a ponte. Não eram mais do que quatro pessoas naquela cena. Vieram sete policiais do choque com escopetas em punho e um deles, com a arma sobre o ombro, chegou colocando as mãos na faixa. “O que é que está escrito aí?”, perguntou, em tom ameaçador. O clima de intimidação e provocação, que sempre partia da PM, já era evidente muito antes das primeiras bombas serem lançadas.

De frente para a prefeitura, o ato se reuniu. Houve gritos contra o aumento das passagens, projeções com frases e sátiras contra a administração da prefeitura, do governo do estado e pela tarifa zero. Uma imagem que arrancou gargalhadas da multidão foi uma foto do prefeito Fernando Haddad sorrindo com os dizeres “Je Suis Catraca”.

Nesse momento, atravessamos novamente o Viaduto do Chá. Ao conversarmos com alguns manifestantes, próximos da banca de jornal da calçada do Shopping Light, ouvimos os primeiros estrondos de bomba e a correria desesperada de muitas pessoas que não se acostumaram com tamanha truculência. Descemos as escadas do viaduto rumo ao metrô Anhangabaú. Em cima do viaduto, black blocs tentavam, em vão, é claro, retardar o avanço da tropa de choque que atacava ferozmente a multidão, com bombas dos mais variados tipos, além das tradicionais balas de borracha. Chegando ao metrô, funcionários fecharam as portas e tratavam as pessoas que imploravam no portão com uma truculência digna da tropa de choque.

Subi a rampa que passa por cima do Terminal Bandeira. A polícia estava bloqueando todas as entradas do terminal. Por sorte, a saída da rampa sentido Largo São Francisco estava livre. Descemos novamente para o Vale do Anhangabau, já mais adiante, e em direção ao metrô São Bento uma mulher estava ferida na perna. Os socorristas do GAPP – Grupo de Apoio aos Protestos Populares – estavam lá ajudando a moça. “Ela foi atingida por um estilhaço na perna, pediu socorro no hotel que tem aqui na frente e não deixaram ela entrar”, contou.

A vítima recebeu os primeiros socorros de um grupo de moradores de rua até a chegada do GAPP. “Os bombeiros civis do hotel apareceram e tentaram chamar a ambulância, mas aqui nessa região a ambulância não vem sem a autorização da PM. Então, ela ficaria aqui pelo menos umas três horas esperando, no mínimo. Estamos terminando o curativo dela”, finalizou a socorrista que não se identificou.

Rumo ao metrô São Bento, passamos em frente a uma academia de ginástica. Os clientes estavam correndo, malhando, com fones nos ouvidos. Completamente indiferentes ao mundo externo.

Na madrugada que se seguiu, milhares de pessoas, ao menos nas redes sociais, ja confirmavam presença para o “Terceiro Grande Ato contra o aumento da tarifa”, marcado para esta terça-feira, na estação de metro do Tatuapé, às 17h. Enquanto isso, os grandes meios de comunicação lamentavam que três agências bancárias tiveram seus vidros quebrados.

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