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terça-feira, 2 de setembro de 2014

A esperança em um saquinho de terra

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534844-a-esperanca-em-um-saquinho-de-terra


A esperança em um saquinho de terra

Uma mulher observa os escombros do Copa do Povo.  Fonte: Joel Silva (FOLHAPRESS)
Antes mesmo de que o sol raiasse, o dia dos acampados da Copa do Povo, na zona leste de São Paulo, já tinha cor e sentimento. Cor vermelha, das camisetas e bandeiras, da luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e dos olhos chorosos de quem vai sentir saudade. O sentimento era de tristeza pelas despedidas, mas também de felicidade de quem está mais perto de alcançar a casa própria. Durante quatro meses, essas cerca de 4.000 famílias compartilharam o que tinham – a esperança e o apoio mútuo – e o que não tinham também. Hoje se ajudam com a desmontagem dos barracos e a retirada de entulho, com dois caminhões cedidos pela subprefeitura de Itaquera. O espaço sem barracas dará lugar a prédios de moradia popular.
A reportagem é de Beatriz Borges, publicada pelo jornal El País, 31-08-2014.
Dona Ana Maria de Jesus está muito emocionada. Não consegue acreditar no que aconteceu em sua vida desde que acampou com o MTST no terreno de 155.000 metros quadrados ao lado do Parque do Carmo, para garantir uma casa onde pudesse morar com a filha e a neta. "Nunca imaginei que fosse ter essa força, de estar aqui, dormindo com chuva, sol e frio. Eu fui corajosa e hoje eu digo: O que aparecer, eu estou pronta para lutar", afirma a diarista de 62 anos, que voltará ao seu barraco de madeirite na Vila Sílvia (zona leste), onde mora há dois anos em uma ocupação irregular, enquanto espera a definição das próximas etapas até a construção definitiva dos blocos de apartamentos.
Apesar de faltar apenas um mês para as eleições, muitos acampados disseram que ainda nem pensaram em quem vão votar – alguns chegaram a responder que não sabiam nem onde dormiriam à noite. Os três candidatos com maior intenção de voto, Aécio NevesDilma Rousseff e Marina Silva, foram mencionados em igual medida, mas nenhum dos ocupantes soube dizer qual deles está mais comprometido com a causa da casa própria – e há 6,9 milhões de pessoas no Brasil nesta situação, segundo o IBGE. Ainda assim, no mesmo palanque onde os coordenadores subiram para falar com os participantes, também aproveitaram o microfone representantes do PSOL, que mencionaram a atuação da candidataLuciana Genro na causa dos sem teto, e o vereador Nabil Bonduki, do PT, participante ativo nas negociações do movimento sobre o Plano Diretor e que falou sobre as próximas lutas que o MTST terá que travar no bairro, como transporte, saúde e educação.
A desocupação do Copa do Povo, que tem o nome em protesto pelos gastos excessivos da Copa, é fruto de um acordo com a empresa dona do terreno e os poderes públicos – e todos assinaram os papéis para garantir o compromisso. A proprietária, Viver Incorporadora, definiu com o MTST que teriam preferência na compra do terreno (o movimento é uma entidade do programa federal Minha Casa Minha Vida). Um segundo acordo foi firmado entre os Governos federal, estadual e municipal para garantir a liberação das verbas públicas necessárias para a construção de moradias populares no local.
Em junho, o movimento pressionou a votação do Plano Diretor da cidade e conseguiu aprovar uma lei específica para este acampamento, alterando o zoneamento para permitir a construção de casas no local. A mesma lei está sendo questionada por um grupo de Promotores de Habitação, que a consideram inconstitucional pela mudança do zoneamento não constar no Plano Diretor, mas em uma lei separada. A retirada dos barracos, mesmo assim, facilitará o próximo passo: a avaliação da área pela Caixa Federal que, segundo a proprietária, vale 35 milhões de reais.
Esse montante parece exagerado para um bairro onde o metro quadrado construído custa 3.436 reais, um dos mais baixos da cidade, de acordo com dados de 2013 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Os aluguéis na zona, no entanto, aumentaram 8,18% no último ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas. Mas tanto comprar como alugar um imóvel em um bairro que está a uma hora do centro de São Paulo, é algo distante da realidade financeira dos acampados. A diarista Gláucia Lopes Pinheiro, que estava desarmando a barraca sem saber para onde iria, pensava nos seis filhos, dos quais cuida sozinha. "Eles estão na casa da minha mãe, na Cidade Tiradentes (zona leste), mas já são dez pessoas lá. Eu ainda não sei para onde vou, antes preciso conseguir um carreto para levar as coisas daqui", disse a sem teto, apontando para o colchão e as roupas divididas em sacolas de supermercado. Pinheiro afirma que quer uma casa "para ter sossego e dar lugar" para seus filhos.
Outros que saem do Copa do Povo, como o carpinteiro pernambucano Monteiro de Carvalho, encontrou abrigo em um lugar provisório que, de momento, pode pagar. "Um barraco em São Mateus, por 300 conto", para onde irá depois de ajudar os companheiros a desarmar as lonas estendidas em toda a extensão do morro. "Estou saindo daqui hoje para entrar no meu apartamento amanhã", diz o trabalhador de 40 anos que ganha 1.180 reais por mês e que há cinco anos está na fila para conseguir uma casa no programa Minha Casa Minha Vida. Um teto, para ele, significa poupar os filhos de situações que ele passou. "Muitas noites em dormitórios, nem posso chamar aqueles lugares de casa", lamenta, afirmando que sua história não é nada perto das que conheceu no acampamento.
Como eles mesmos dizem, a luta continua. E pelos discursos de encerramento do Copa do Povo, a pressão popular seguirá. "Estamos saindo sem nenhuma viatura, sem ser enxotado por ninguém", disse um dos líderes do movimento,Guilherme Boulos, "mas temos que estar preparados para os problemas que virão na hora de transformar o que está no papel em realidade". "Se a Caixa criar problema, acampamos lá. Se a Prefeitura dificultar, também sabemos o endereço", disse em tom ameaçador. Recentemente, uma mulher, Dona Dina, foi atropelada nas imediações do Copa do Povo e seu filho Serginho falou emocionado sobre a falta de sinalização nas ruas e criticou a CET. A falta d'água e a responsabilidade da Sabesp também foram outros assuntos do dia, o que dá a entender que serão as próximas pautas do movimento.
No final do ato, todos os presentes receberam uma lembrancinha. Se tratava de um pacotinho vermelho, do tamanho de um bombom, com um laço branco. Dentro havia terra. A terra sobre a qual os 3.500 apartamentos serão construídos. E, mais uma vez, as formiguinhas, como eles mesmos se denominam, cantaram alto a vitória, com os pés batendo e levantando poeira daquele mesmo chão onde têm a esperança de que sua casa seja logo construída: "Pisa ligeiro, pisa ligeiro. Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro".

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um Leão sem dentes

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http://outraspalavras.net/brasil/um-leao-sem-dentes/

Um Leão sem dentes

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Na madrugada de 21/06, mais de 800 pessoas ocuparam terreno no Morumbi.
Sem-teto erguem barracas diante de torres luxuosas no Morumbi. “Milhares de pessoas vivenciaram o fracasso deste sistema em prover a elas seu direito a uma casa”, diz Boulos. Foto: Mídia Ninja
Coordenador nacional do MTST responde a articulista da Folha: “mau jornalismo, opiniões conservadoras e boa dose de caráter duvidoso”
Por Guilherme Boulos
A grande arma de um leão são os dentes. A de um jornalista são os argumentos. O jornalista Leão Serva demonstrou em seu artigo hoje na Folha de São Paulo não ter dentes nem argumentos. O fato de seu fraco artigo ter visibilidade num jornal de circulação nacional só pode explicar-se pelo fato de ter sido ele Secretário de Redação deste jornal.
Do início ao fim, seu texto “A Copa dos Sem Teto com Teto” está recheado de análises preconceituosas recolhidas diretamente do senso comum e de fatos inverídicos. É um ataque raivoso ao MTST e a mim particularmente.
No campo da análise, diz que o MTST não deseja teto ou moradia para seus participantes, mas sim marketing político. Supõe com isso que os participantes do Movimento seriam manipulados por líderes interesseiros. É preciso compartilhar do sentimento elitista de superioridade para imaginar que a adesão cada vez maior de milhares de trabalhadores sem-teto ao MTST seria por ignorância dos pobres incautos.
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Estas milhares de pessoas que participam de ocupações nos centros urbanos brasileiros já vivenciaram — ao contrário do Sr. Leão — o fracasso deste sistema em prover a elas seu direito mais fundamental a uma casa. E fazem ocupações por perceberem, pela experiência do desenvolvimento urbano no Brasil, que esta é a única forma de os mais pobres conseguirem acessar este direito.
O MTST não criou esse fato. Diante dele, busca organizar e dar um direcionamento político ao conflito. Político no sentido de encontrar soluções pelo enfrentamento político contra aqueles que impedem e historicamente impediram que os mais pobres tivessem qualquer direito nesse país. Marketing, diz o Leão. É compreensível que aqueles que só conseguem pensar a política como propaganda e marketing — digno de quem foi assessor de comunicação da gestão de Kassab na cidade de São Paulo — confundam estratégia política com busca de “flashes”.
Seu texto resolveu também filosofar sobre centro e periferia. Além de incompreensão das dinâmicas urbanas deu ainda um espetáculo de desinformação.
Desde a década de 1980 as grandes metrópoles tornaram-se policêntricas. Este fenômeno foi estudado com grande propriedade pelo geógrafo Mark Gottdiener e pela corrente da “produção social do espaço urbano”. Inicialmente verificado nos Estados Unidos e na Europa, o fenômeno das metrópoles policêntricas se espraiou para a Ásia e América Latina. São Paulo é um caso exemplar.
Acreditar que uma cidade de 11 milhões de habitantes tenha uma única região que concentre serviços, comércio e infraestrutura urbana é de uma ingenuidade própria de quem nunca saiu dos Jardins e idealiza as periferias urbanas.
Várias das ocupações organizadas pelo MTST — inclusive a Copa do Povo, mencionada no artigo — estão em regiões de expansão de serviços e da especulação imobiliária. É o caso das ocupações do Campo Limpo, da Faixa de Gaza e Portal do Povo no Morumbi e de Itaquera.
Aliás, só quem nunca esteve em Itaquera para dizer que dali para o centro velho da cidade demora-se duas horas. Talvez ele estivesse considerando as panes frequentes do metrô gerido pelo governo tucano ao qual serviu como assessor na Prefeitura de São Paulo.
Entrando então no campo das informações o Leão se supera incrivelmente. Diz que a Ocupação Copa do Povo está localizada numa área verde. Na realidade, o zoneamento atual da área é industrial e ela está integralmente fora da APA do Carmo, que é a reserva verde daquela região.
Diz ainda que os movimentos sem-teto arrecadam muito dinheiro, por cobrarem mensalidades. Desafiamos o Leão sem dentes a comprovar uma só palavra desta sua afirmação. O MTST não cobra nem nunca cobrou mensalidade de seus membros. Qualquer um que visite uma ocupação pode verificar isso facilmente com seus olhos. E perante o assédio da imprensa a nossas ocupações nos últimos meses, é estranho que tal “furo” não tenha antes vindo à tona. Falta de interesse dos jornalistas de Veja,Estadão ou Folha não seria. É que talvez nenhum deles tenha tido a sem-vergonhice de mentir desta forma.
Enfim, mau jornalismo combinado com opiniões conservadoras e uma boa dose de caráter duvidoso dão nisso. Não costumamos no Movimento responder textos desta envergadura. Dizem que dá azar. Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino vivem acusando o MTST por aí. Não achamos que valha a pena o tempo de resposta. Mas o Leão, rei da selva conservadora, ultrapassou desta vez os limites da hipocrisia.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Movimentos reivindicam melhorias para o programa “Minha casa, minha vida“

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81126


Movimentos reivindicam melhorias para o programa “Minha casa, minha vida“

Natália Fonteles
Adital
Os movimentos populares ligados à habitação querem que governo federal faça melhorias no programa "Minha casa, minha vida”. Em reunião recente, eles apresentaram propostas que destacam a importância da qualidade da estrutura física das moradias para as famílias e defendem que os imóveis não devem ser alocados em guetos nas periferias das cidades, pois isso dificulta a mobilidade e a qualidade de vida dos trabalhadores.
Lídia Brunes, representante da Unidade Nacional dos Movimentos Populares (UNMP), em entrevista à Adital, relata que as propostas levadas à reunião com representes do governo foram elaboradas em conjunto pelas famílias e representantes dos movimentos populares durante encontros estudais e nacionais. Ela informa que o governo teria compreendido as necessidades apresentadas e haverá mais uma reunião, com dia e horário a serem definidos, para a realização de uma avaliação técnica das propostas. Então, só depois elas devem ser encaminhadas para o crivo normativo.
Evaniza Rodrigues, também da UNMP, ressalta que, durante a primeira reunião, foi abordada a necessidade de haver mais qualidade nas moradias do programa e acredita destacou que o movimento saiu fortalecidas do encontro, em Brasília. O governo, representado pelo secretário geral da Presidência, Gilberto Carvalho; a ministra do Planejamento, Miriam Belchior; e membros do Ministério das Cidades; teriam se comprometido a realizar mais uma rodada de dialogo com os representantes dos movimentos, inclusive com a presença da presidenta Dilma Rousseff.
O "Minha casa, minha vida” é o maior programa habitacional do país e permite que famílias consigam condições facilitadas de crédito para a aquisição da casa própria. O programa foi criado em 2009 e possui duas categorias: a categoria de modalidade individual, feita através de inscrição nas prefeituras; e a modalidade entidade, através da inscrição nos sindicatos, associações de classe e movimentos sociais.

Natália Fonteles

Especial para ADITAL

sábado, 7 de junho de 2014

Outras Palavras entrevista Guilherme Boulos, líder do MTST

outras palavras
http://outraspalavras.net/blog/2014/06/05/outras-palavras-entrevista-guilherme-boulos-lider-do-mtst/


Outras Palavras entrevista Guilherme Boulos, líder do MTST

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Diálogo, às 14h de hoje (5/6), via webTV, abordará papel da multidão, na luta pelo Direito à Cidade. Iniciativa inaugura série de programas sobre temas contemporâneos, em parceria com Estúdio Fluxo
Por Antonio Martins | Imagens: Midia Ninja
Algo mudou radicalmente, nas últimas semanas, nas manifestações que questionam a Copa do Mundo. Um novo sujeito político entrou em cena: os trabalhadores sem-teto. Agora, os protestos já não reúnem centenas de pessoas — mas dezenas de milhares. Todos mostram o rosto. Não há cenas de violência egoica. Quem revela sua potência é a multidão. Ontem, 25 mil pessoas circularam a Arena Corinthians, onde começará, em uma semana, o grande torneio de futebol. “O recado está dado”, avisaram: “exigimos que os governos aceitem nossas reivindicações; do contrário, as ruas nos esperam de braços abertos nos próximos dias e semanas”… A PM não ousou provocá-los.
Articuladas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), as novas mobilizações distinguem-se das anteriores também por irem além do protesto. Acampados em diversas áreas de São Paulo, antes reservadas à especulação imobiliária (numa delas, a Nova Palestina, há 30 mil moradores), os manifestantes fazem três reivindicações claras. Querem o controle público dos preços de alugueis, para frear as altas incontroláveis dos últimos anos. Exigem o fim dos despejos forçados — com instalação, na secretaria especial de Direitos Humanos do governo federa, de uma Comissão de Acompanhamento, com participação direta dos movimentos sociais. Pressionam por mudanças-chave no programa Minha Casa Minha Vida: construções dignas, próximas do centro das cidades, realizadas sempre que possível por cooperativas, e não mega-empreiteiras. Pontuais e pragmáticas na aparência, as propostas, se alcançadas, mudarão os ares de um ambiente urbano hoje marcado por elitismo, segregação social, onipresença do dinheiro e das relações mercantis.
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Professor de Filosofia formado pela USP, com especialização em  Psicanálise,Guilherme Boulos é coordenador nacional do MTST. Outras Palavras vai entrevistá-lo esta tarde (a partir das 14h) em São Paulo, com transmissão ao vivo por webTV (acessivel neste mesmo post). O diálogo abre novo esforço editorial. Voltados ao texto escrito, queremos explorar também as possibilidades do vídeo. Vamos começar a fazê-lo numa série de entrevistas, por meio das quais abordaremos temas centrais da conjuntura brasileira.
O diálogo com Boulos marca, também, uma nova parceria: será produzido em conjunto com o Estúdio Fluxo. Recém-lançado pelo jornalista Bruno Torturra (e instalado no Vale do Anhangabaú, coração de S.Paulo), o Fluxo tem produção própria de relevância e qualidade notáveis. Abre-se, além disso, a projetos compartilhados — algo em sintonia com a vocação de Outras Palavras. Resgatar o jornalismo, numa era de decadência dos velhos jornais, exigirá esforço, compartilhamento e colaboração. Queremos dar mais um passo a partir de hoje.


sábado, 15 de junho de 2013

Copa pode provocar despejo de 250 mil pessoas, afirmam ONGs

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/521057-copa-pode-provocar-despejo-de-250-mil-pessoas-afirmam-ongs

Copa pode provocar despejo de 250 mil pessoas, afirmam ONGs

Um mapeamento divulgado na Suíça pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) em parceria com a ONG Conectas no final de maio calcula que 250 mil pessoas correm o risco de serem despejadas de suas casas por causa de obras para os preparativos da Copa em todo o Brasil.
A reportagem é publicada pela BBC Brasil, 15-06-2013.
A articulação reúne comitês nas 12 cidades-sede da Copa, que por sua vez agregam movimentos sociais, universidades e entidades de sociedade civil que lutam contra as violação de direitos humanos decorrentes da realização da Copa e da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Não existe uma estimativa oficial sobre o número de despejados por causa do mundial. Uma estimativa anterior contabilizava 170 mil pessoas que corriam o risco de ter de deixar suas casas.
Segundo a representante da Ancop Larissa Araújo, foram somadas as famílias atingidas por obras, outras ameaçadas de remoção e as que residem em áreas em disputa. Os números foram compilados a partir de dados recolhidos por ativistas nas 12 cidades-sede.
Despejos e desinformação
O censo foi lançado em um vídeo apresentando em uma reunião paralela da 23ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra.
Nas imagens são retratados casos flagrantes de despejos forçados, remoções com aviso prévio de 48 horas, casas demolidas sob protesto, abusos policiais e famílias desesperadas por não saberem onde serão reassentadas ou se receberão indenização por suas perdas.
Outra queixa recorrentes são os reassentamentos de populações em locais distantes dos habitados originalmente e as indenizações insuficientes -entre R$ 4 mil e R$ 10 mil, em média, podendo chegar a R$ 30 mil.
"O valor dessas compensações transforma as pessoas em sem-teto no Brasil hoje. A moradia é a porta de acesso a outros direitos, como educação, saúde, cultura", afirmou Juana Kweitel, diretora da Conectas.
Em dossiê datado de junho de 2012, a Ancop relata em detalhes os casos de 500 famílias ameaçadas de despejo na Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, e da expansão do terminal de ônibus Cosme e Damião, em Recife, em que 200 casas foram marcadas para serem demolidas sem consulta prévia com os moradores.
Em Manaus, 900 famílias no oeste da cidade estão sob risco, por causa da construção de uma rodovia, em Belo Horizonte, são 2.600 casas ameaçadas pela ampliação do anel viário no entorno da cidade. Na região metropolitana deCuritiba, são 2 mil famílias em risco devido às obras de expansão do aeroporto e à reforma do estádio Joaquim Américo Guimarães.
'De olho' no Brasil
Em dezembro de 2010, a relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada, Raquel Rolnik, enviou correspondência ao governo brasileiro solicitando informações e expressando preocupação com as remoções nas cidades-sede e, em novembro de 2012, enviou outra, ainda sem resposta.
"É necessário que o governo brasileiro cumpra com as normas internacionais referentes ao direito à moradia no caso de remoções. Estas incluem a participação das comunidades na definição das alternativas, a transparência e direito à informação e também as compensações ou reassentamentos adequados", declarou Rolnik à BBC Brasil.
Rolnik destacou que em algumas cidades, avanços foram registrados graças às mobilizações populares. "Como a diminuição do número de famílias a serem removidas e o aumento no valor de indenizações", disse.
"Mas muito ainda há que ser feito e, sobretudo, é urgente a criação de uma regulação nacional que discipline o tema das remoções e oriente a ação dos governos locais e de terceiros incumbidos do desenvolvimento destes projetos."
Wilfried Lemke, assessor especial da ONU sobre Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, também expressou preocupação com a situação no Brasil.
"Consigo entender a necessidade de novas linhas de transporte e projetos urbanos, mas também entendo a situação dessas famílias em risco", disse Lemke."Temos que tomar muito cuidado com mega-eventos esportivos. Em todo o mundo é a mesma coisa, alguns querem investir, mas outros estão sendo desalojados."
Durante os preparativos de mega-eventos esportivos como a Copa e as Olimpíadas, estima-se que 15% dos moradores de Seul foram expulsos de suas casas e, na África do Sul, 20 mil pessoas foram despejadas.
Governo
Procurada pela reportagem para responder a denúncia feita pela Ancop, a assessoria da Presidência da República, em Brasília, declarou que o tema era do escopo da Secretaria de Direitos Humanos e do Ministério do Esporte.
Já a SDH informou que não se pronunciaria por não ter recebido os dados completos formalizados pela Ancop como denúncia. O Ministério do Esporte, por sua vez, insistiu que são a SDH e a Presidência que devem se pronunciar sobre o assunto.
Em março, o Ministério das Relações Exteriores havia dito que o governo federal tem mantido um diálogo constante comRolnik sobre o assunto.
Por sua vez, em maio, durante uma sabatina em maio sobre as remoções para a Copa e a Olimpíada, realizada na ONU em Genebra, a Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, disse que o Brasil terá "respeito aos direitos humanos nos grandes eventos".
No mesmo mês, a Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro afirmou em uma nota que "a prefeitura vem conduzindo os processos de reassentamento da maneira mais democrática, respeitando os direitos de cada família".

quarta-feira, 27 de março de 2013

Brazilian riot police evict indigenous people near Rio's Maracanã stadium

guardian
http://www.guardian.co.uk/world/2013/mar/22/brazilian-police-evict-indigenous-people


Brazilian riot police evict indigenous people near Rio's Maracanã stadium

Hosts of the 2014 World Cup react to threat of Maracanã stadium not being ready for June friendly with England
A supporter of the indigenous community is arrested
A supporter of the indigenous community is arrested outside the Brazilian Indian museum in Rio de Janeiro. Photograph: Sergio Moraes/Reuters
Brazilian riot police armed with batons, teargas and pepper spray have forcibly evicted an indigenous community from a dilapidated museum complex next to the Maracanã football stadium.
The forced relocation, which led to scuffles, arrests and accusations of brutality, comes amid growing pressure on the hosts of the next World Cup to accelerate preparations that have fallen far behind schedule. Renovation of the stadium, which will host next year's final, was supposed to have been completed at the end of last year, but there are doubts that it will be ready for a friendly between England and Brazil in June.
The museum has been the focus of a protracted legal battle between squatters, who claim the site should be used to promote indigenous culture, and the municipal authorities, who want to knock down a graffiti-covered eyesore and modernise the area before the world's attention moves to Rio de Janeiro.
"We were negotiating, and then the government resorted to force," said Urutau Guajajara, a bare-chested man wearing a feathered headdress who described himself as a professor of the Guajajara ethnic group. "The police were very violent."
"It was shocking," said Ingrid Paul, an Argentinian who has lived in the community for the past three weeks. "The police were obviously preparing for a fight. They came in with masks at 2:30am. We were all affected by the gas, even a three-year-old child."
After their eviction, some of the indigenous people were taken to temporary housing provided by the government. Others sang songs, smoked pipes and handed out leaflets declaring: "513 years of struggle: resist the expulsion of the multi-ethnic indigenous group of the Maracanã."
In the aftermath, police and TV helicopters buzzed overhead. Officers armed with automatic rifles cordoned off the area and several dozen police vehicles – including armoured personnel carriers – lined the streets.
The government says it is necessary to raze the building as part of the renovation of a rundown area that is supposed to be transformed into a sports and entertainment hub.
The authorities have promised to build a new Indian cultural centre that incorporates housing, though that won't be complete until the end of 2014.
Senior officials appear reluctant, however, to take responsibility for the evictions and demolition. Last October, Sergio Cabral, the governor of Rio de Janeiro, shifted the blame on the world football body, Fifa. "It's being demanded by Fifa and the World Cup organising committee. Long live democracy, but the building has no historical value. We're going to tear it down," he told reporters at the time. Fifa subsequently denied that it had ordered such a step.
Brazil is running out of time to prepare for the World Cup. Several stadiums are far behind schedule. The £300m renovation of the Maracanã was supposed to have been presented to Fifa last month, but – after storms and floods – the pitch was only laid last week, and the installation of seating and roofing has been postponed to 24 May, just nine days before the friendly with England.