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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Violência policial marcou o final do segundo ato pela redução das tarifas em São Paulo

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Violência policial marcou o final do segundo ato pela redução das tarifas em São Paulo




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ESCRITO POR RAPHAEL SANZ, DA REDAÇÃO   
SEGUNDA, 19 DE JANEIRO DE 2015

E naquelas cinco horas da tarde da última sexta-feira, 16 de janeiro, começava a concentração do segundo ato contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, que segundo dados oficiais da polícia militar contou com três pessoas. Apesar da versão oficial ser incontestável no universo da mídia empresarial, é bom lembrar que a multidão ocupou todo o espaço físico da Consolação, desde pouco antes do cemitério até quase a praça Roosevelt. O Movimento Passe Livre diz que foram em torno de 20 mil pessoas. Não somos excelências em matemática, mas pareceu que a contagem do MPL estava mais de acordo com a realidade.

Chegando na Praça do Ciclista, vindo do metrô Consolação, a reportagem deu de cara com uma barreira que tinha policiais do choque e da tropa do braço naquelas armaduras apocalípticas. Com eles, alguns ônibus da PM estacionados na Paulista. Apesar do clima de intimidação, a concentração aconteceu tranquilamente. Uma grande assembleia armou-se na rua, foi feito um jogral e decidiu-se o trajeto do ato: desceria a Avenida Consolação até a prefeitura e em seguida a marcha terminaria em frente à Secretaria Municipal de Transportes.

Durante a descida, entrevistamos um dos organizadores do ato. Durante a abordagem, foi dito que os policiais estavam no fundo do ato “estocando as pessoas com os cassetetes” e, por isso, ele pedia para o ato andar mais rápido. Era na altura do Mackenzie. “A polícia está tumultuando desde o começo. Querem tirar as pessoas da faixa de ônibus dizendo que vão liberar o trânsito, mas daí colocam a tropa deles nessa faixa. Na verdade o que eles querem é fazer um cordão lateral total e o caldeirão de Hamburgo”, disse, referindo-se à tática bastante utilizada no ano passado, de confinar a manifestação entre quatro paredes policiais.

Sobre a declaração do prefeito Fernando Haddad, que comparou o MPL aos assassinos da redação do Charlie Hebdo, foi irônico. “O Haddad está tão tranquilão que perdeu a noção da realidade... peraí!” E saiu correndo para ajudar, após uma breve confusão protagonizada pela polícia. O ato seguiu enquanto a noite caía.

Já no escuro, ao atravessar o Viaduto do Chá, vimos alguns militantes estendendo uma faixa sobre a ponte. Não eram mais do que quatro pessoas naquela cena. Vieram sete policiais do choque com escopetas em punho e um deles, com a arma sobre o ombro, chegou colocando as mãos na faixa. “O que é que está escrito aí?”, perguntou, em tom ameaçador. O clima de intimidação e provocação, que sempre partia da PM, já era evidente muito antes das primeiras bombas serem lançadas.

De frente para a prefeitura, o ato se reuniu. Houve gritos contra o aumento das passagens, projeções com frases e sátiras contra a administração da prefeitura, do governo do estado e pela tarifa zero. Uma imagem que arrancou gargalhadas da multidão foi uma foto do prefeito Fernando Haddad sorrindo com os dizeres “Je Suis Catraca”.

Nesse momento, atravessamos novamente o Viaduto do Chá. Ao conversarmos com alguns manifestantes, próximos da banca de jornal da calçada do Shopping Light, ouvimos os primeiros estrondos de bomba e a correria desesperada de muitas pessoas que não se acostumaram com tamanha truculência. Descemos as escadas do viaduto rumo ao metrô Anhangabaú. Em cima do viaduto, black blocs tentavam, em vão, é claro, retardar o avanço da tropa de choque que atacava ferozmente a multidão, com bombas dos mais variados tipos, além das tradicionais balas de borracha. Chegando ao metrô, funcionários fecharam as portas e tratavam as pessoas que imploravam no portão com uma truculência digna da tropa de choque.

Subi a rampa que passa por cima do Terminal Bandeira. A polícia estava bloqueando todas as entradas do terminal. Por sorte, a saída da rampa sentido Largo São Francisco estava livre. Descemos novamente para o Vale do Anhangabau, já mais adiante, e em direção ao metrô São Bento uma mulher estava ferida na perna. Os socorristas do GAPP – Grupo de Apoio aos Protestos Populares – estavam lá ajudando a moça. “Ela foi atingida por um estilhaço na perna, pediu socorro no hotel que tem aqui na frente e não deixaram ela entrar”, contou.

A vítima recebeu os primeiros socorros de um grupo de moradores de rua até a chegada do GAPP. “Os bombeiros civis do hotel apareceram e tentaram chamar a ambulância, mas aqui nessa região a ambulância não vem sem a autorização da PM. Então, ela ficaria aqui pelo menos umas três horas esperando, no mínimo. Estamos terminando o curativo dela”, finalizou a socorrista que não se identificou.

Rumo ao metrô São Bento, passamos em frente a uma academia de ginástica. Os clientes estavam correndo, malhando, com fones nos ouvidos. Completamente indiferentes ao mundo externo.

Na madrugada que se seguiu, milhares de pessoas, ao menos nas redes sociais, ja confirmavam presença para o “Terceiro Grande Ato contra o aumento da tarifa”, marcado para esta terça-feira, na estação de metro do Tatuapé, às 17h. Enquanto isso, os grandes meios de comunicação lamentavam que três agências bancárias tiveram seus vidros quebrados.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O PSDB e sua obra-prima de gestão: o racionamento em SP

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editorial/O-PSDB-e-sua-obra-prima-de-gestao-o-racionamento-em-SP/32640



O PSDB e sua obra-prima de gestão: o racionamento em SP

'Estamos fechando a torneira porque em março, no mais tardar em junho, SP fica sem água', admitiu presidente da Sabesp. Esse é o legado do choque de gestão?

por: Saul Leblon 

Arquivo

Após um ano de dissimulações, o PSDB oficializou o racionamento de água em SP nesta 4ª feira.

O novo presidente da Sabesp , Jerson Kelman, em entrevista ao SPTV, da Globo, anunciou um corte  drástico no fornecimento, que caiu de 16 mil litros/s na 3ª feira, para 13 mil l/s a partir de agora.

O racionamento anunciado  oficializa uma realidade que já atinge mais de seis milhões de habitantes, cujo abastecimento declina há um ano acumulando um corte de 60% no fornecimento padrão da Sabesp às suas torneiras (de 33 mil l/s para 13 mil l/s).

E isso é só o começo.

 'Estamos fechando a torneira porque em março, no mais tardar em junho, SP fica sem água', admitiu presidente da Sabesp na entrevista.

Nada como um copo após o outro.

Na reta final da campanha presidencial de 2014, quando o então diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, advertiu na Assembleia Legislativa de São Paulo, que o abastecimento da cidade estava, literalmente, por um fio de água, foi chamado de ‘bandido’ pelo grão tucano, vereador Andrea Matarazzo.

Ele disse aquilo que o PSDB se recusava a admitir: restavam apenas 200 bilhões de litros do volume morto do sistema Cantareira, que provê boa parte da água consumida na cidade.

O pior de tudo: a derradeira reserva de água da cidade encontra-se disponível na forma de lodo.

E será com isso que a sede paulistana terá que ser mitigada caso não chova o suficiente até o final de março.

Como de fato não tem chovido nos mananciais, nem há expectativa séria de que isso ocorra suficientemente até o final da estação das águas, avizinha-se  o que o novo presidente da Sabesp finalmente admitiu: ‘em março, no mais tardar em junho, SP fica sem água'.

Corta e volta para a campanha eleitoral de Aécio Neves em 2014.

O estandarte da eficiência tucana era martelado diuturnamente como um tridente contra aquilo que se acusa de obras e planos nunca realizados por culpa da (Aécio enchia a boca para escandir as sílabas) ‘má go-ver-nan-ça’.

Corta de novo e volta para o presente com o foco na contagem regressiva anunciada por Jerson Kelman, o novo titular do espólio da Cantareira e da Sabesp.

Vamos falar um pouco de governança?

Atribuir tudo à  ingratidão a São Pedro é um pedaço da verdade.

Num sugestivo contorcionismo eleitoral, Aécio negou a esse pedaço da verdade a explicação para a alta nos preços dos alimentos afetados pela seca.

Ou isso ou aquilo.

Estocar comida, que não grãos, caso do vilão tomate, por exemplo, que pressionou os índices de alimentos no período eleitoral,  está longe de ser uma opção exequível em larga escala no enfrentamento de uma seca.

Mas estocar água e planejar dutos interligados a mananciais alternativos, calculados para enfrentar situações limite, mesmo que de ocorrência secular, é uma obrigação primária de quem tem a responsabilidade pelo suprimento de grandes concentrações urbanas.

A Sabesp sob o comando do PSDB detém essa responsabilidade há 20 anos em São Paulo.

Omitiu-se, com as consequências previsíveis que agora assombram o horizonte de milhões de moradores da Grande São Paulo.

Carta Maior lembrou no período eleitoral --enquanto Geraldo Alckmin fazia expressão corporal de seriedade, que Nova Iorque e o seu entorno, com uma população bem inferior a de São Paulo (nove milhões de habitantes), nunca parou de redimensionar a rede de abastecimento da metrópole  movida por uma regra básica de gestão na área: expansão acima e à frente do crescimento populacional.

Tubulações estendidas desde as montanhas de Catskill, mencionou-se então, situadas a cerca de 200 kms e 1200 m de altitude oferecem ao novaiorquino água pura, dispensada de tratamento e potável direto da torneira.

Terras e mananciais distantes são periodicamente adquiridos pelos poderes públicos de NY  para garantir a qualidade e novas fontes de reforço da oferta.

O sistema de abastecimento da cidade reúne três grandes reservatórios que captam bacias hidrográficas preservadas em uma área de quase 2.000 km2.

A adutora original foi inaugurada em 1890; em 1916 começou a funcionar outro ramal a leste da cidade; em 1945 foi concluída a obra de captação a oeste, que garante 50% do consumo atual.

Mesmo com folga na oferta e a excelente qualidade oferecida, um novo braço de 97 kms de extensão está sendo construído há 20 anos.

Para reforçar o abastecimento e prevenir colapsos em áreas de expansão prevista da metrópole.

Em 1993 foi concluída a primeira fase desse novo plano.

Em 1998 mais um trecho ficou pronto.

Em 2020, entra em operação um terceiro ramal em obras desde o final dos anos 90. Seu objetivo é dar maior pressão ao conjunto do sistema e servir como opção aos ramais de Delaware e Catskill, que estão longe de secar.

Uma quarta galeria percorrerá mais 14 kms para se superpor ao abastecimento atual do Bronx e Queens.

Tudo isso destoa de forma superlativa da esférica omissão registrada em duas décadas ininterruptas de gestão do PSDB no Estado de São Paulo, objeto de crítica até de um relatório da ONU, contestado exclamativamente pelo governador reeleito, Geraldo Alckmin.

Se em vez do mantra do choque de gestão, os sucessivos governos de Covas, Ackmin, Serra e Alckmin tivessem reconhecido o papel do planejamento público, São Paulo hoje não estaria na iminência de beber lodo.

Ou nem isso ter  para matar a sede.

Pergunta aos sábios tucanos: caiu a ficha?

É verdade que o Brasil todo desidrata sob o maçarico de um evento climático extremo.

Sinal robusto dos tempos.

 Mas desde os alertas ambientais dos anos 90 (a Rio 92, como indica o nome, aconteceu no Brasil há 22 anos) essa é uma probabilidade que deveria estar no monitor estratégico de governantes esclarecidos.

Definitivamente não se inclui nessa categoria o tucanato brasileiro: em 2001 ele já havia propiciado ao país um apagão de energia elétrica pela falta de obras e a renúncia deliberada ao planejamento público.

Os mercados cuidariam disso com mais eficiência e menor preço –ou não era isso que se falava e se volta a ouvir agora sobre todos os impasses do desenvolvimento brasileiro?

Ademais de imprevidente, o PSDB desta vez mostrou-se mefistofelicamente oportunista na mitigação dos seus próprios erros.

Ou seja, preferiu comprometer o abastecimento futuro de milhões de pessoas, a adotar um racionamento preventivo que alongaria a vida útil das torneiras, mas poria em risco o seu quinto mandato em São Paulo.

É importante lembrar em nome da tão evocada liberdade de imprensa: a dissimulação tucana não conseguiria concluir a travessia eleitoral sem a cumplicidade da mídia conservadora que, mais uma vez, dispensou a um descalabro do PSDB uma cobertura sóbria o suficiente para fingir isenção, sem colocar em risco o continuísmo no estado.

É o roteiro pronto de um filme de Costa Gavras: as interações entre o poder, a mídia, o alarme ambiental e o colapso de um serviço essencial, que deixa  uma das maiores metrópoles do mundo no rumo de uma seca épica.

O PSDB que hoje simula chiliques com o que acusa de ‘uso político da água’, preferiu ao longo das últimas duas décadas privatizar a Sabesp, vender suas ações nas bolsas dos EUA e priorizar o pagamento de dividendos a investir em novos mananciais.

Há nesse episódio referencial um outro subtexto para o filme de Costa Gavras: a captura dos serviços essenciais pela lógica do capital financeiro.


Enquanto coloca em risco o abastecimento de 20 milhões de pessoas, revelando-se uma ameaça à população, a Sabesp foi eleita uma das empresas de maior prestígio entre os acionistas estrangeiros.

Mérito justo.

Como em um sistema hidráulico, o dinheiro que deveria financiar a expansão do abastecimento, vazou no ralo da captura financeira. Encheu bolsos endinheirados às custas de esvaziar as caixas d’água dos consumidores.

Não é uma metáfora destes tempos. É a síntese brutal da sua dominância.
 
Mesmo que a pluviometria do verão fique em 70% da média para a estação, o sistema Cantareira - segundo os cálculos da ANA - ingressará agora no segundo trimestre de 2015 com praticamente 5% de estoque (hoje está com algo em torno de 6%).
 
Ou seja, São Paulo chegará no início da estação seca de 2015 com a metade da reserva que dispunha em período equivalente de 2014 e muito perto da marca desesperadora do início deste  verão,quando ainda apostava no alívio da estação das chuvas --inexistente no inverno.

A seca que espreita as goelas paulistanas não pode ser vista como uma fatalidade.

Dois anos é o tempo médio calculado pelos especialistas para a realização de obras que poderiam tirar São Paulo da lógica do lodo.

 Portanto, se ao longo dos 20 anos de reinado tucano em São Paulo, o PSDB de FH e Aécio Neves, tivesse dedicado 10% do tempo a planejar a provisão de água, nada disso estaria acontecendo.

Deu-se o oposto.

 De 1980 para cá, a população de São Paulo mais que dobrou. A oferta se manteve a mesma com avanços pontuais.

O choque de gestão tucano preferiu se concentrar em mananciais de maior liquidez, digamos assim.

Entre eles, compartilhar os frutos das licitações do metrô de SP com fornecedores de trens e equipamentos. A lambança comprovada e documentada sugestivamente pela polícia suíça, até agora não gerou nenhum abate de monta no poleiro dos bicos longos.

‘Todos soltos’, como diz a presidenta Dilma.

A rede metroviária de São Paulo, embora imune a desequilíbrios climáticos, de certa forma padece da mesma incúria que hoje ameaça as caixas d’agua dos paulistanos.

Avulta daí um método – o jeito tucano de governar não pode ser debitado na conta de São Pedro.

O salvacionismo tucano em São Paulo não conseguiu fazer mais que 1,9 km de metrô em média por ano, reunindo assim uma rede inferior a 80 kms, a menor entre as grandes capitais do mundo.

A da cidade do México, por exemplo, que começou a ser construída junto com a de São Paulo, tem 210 kms.

Não deixa de ser potencialmente devastador para quem acusa agora o PT de jogar o país num abismo de má gestão só ter a oferecer à população de SP a seguinte progressão: racionamento drástico imediato, seguido de seca de consequências imponderáveis navida de uma das maiores manchas urbanas do mundo.

É essa a perspectiva para um serviço essencial na capital do estado onde o festejado choque de gestão está no poder há 20 anos.

Ininterruptos.

Uma questão para refletir:

O legado recomenda uma recidiva da receita para todo o Brasil, como exigem os centuriões do mercado e alguns cristãos novos petistas?

A ver.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Crise hídrica? A Sabesp vai muito bem, obrigado!

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Crise hídrica? A Sabesp vai muito bem, obrigado!


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ESCRITO POR HEITOR SCALAMBRINI COSTA   
QUI, 08 DE JANEIRO DE 2015


O que acontece com o Estado de São Paulo na questão da água é um exemplo do que pode acontecer em outros estados e cidades brasileiras, segundo dados recentes publicados pela ANA (Agência Nacional de Águas). Portanto, aprender e tirar lições deste episódio poderá ajudar gestores públicos e a sociedade a não repetir os erros que foram cometidos, e conviver melhor com uma situação que veio para ficar.

A crise hídrica, como ficou conhecida, não ocorreu por uma única causa, ou por um único erro cometido, nem tampouco pela falta de chuvas – mesmo considerando que esta seca é uma das piores dos últimos 84 anos. Na verdade, foi um conjunto de fatores que levou a maior cidade brasileira, sua região metropolitana e várias cidades importantes do interior do Estado a sofrerem o desabastecimento de água.

A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), empresa que administra a coleta, o tratamento, a distribuição de água, e também o tratamento dos esgotos, é uma das maiores empresas de saneamento do mundo, e uma das mais preparadas do Brasil – com um corpo técnico altamente qualificado, e dispondo de uma boa infraestrutura. Assim, pode-se afirmar sem dúvida que a causa principal de tamanha incompetência foi a sua administração voltada ao mercado, voltada ao lucro, que trata a água, um bem essencial à vida, como uma mera mercadoria.

Em 1994, a Sabesp se tornou uma empresa de capital misto, com a justificativa de que, vendendo parte de suas ações, conseguiria mais recursos financeiros para investir nos sistemas de abastecimento de água e de saneamento. Depois de 20 anos, o controle acionário se encontra nas mãos do Estado, que detém 50,3% das ações (metade negociada na BMF/ Bovespa, e a outra metade na Bolsa de NY), ficando os 49,7% restantes com investidores brasileiros (25,5%) e estrangeiros (24,2%).

A Sabesp é a empresa outorgada para utilizar e gerir o Sistema Alto Tietê, Guarapiranga e Cantareira, destinando em tempos normais 33 m³/s para Região Metropolitana de SP. Com a persistência da falta de chuvas e clima adverso, foi obrigada a reduzir pela metade a captação (pouco mais de 16 m³/s), apesar de fazê-lo tardiamente. Assim, o que era considerado um risco remoto tornou-se uma grande incerteza. A situação chegou a um ponto tal de dramaticidade que foi perdido o controle do sistema hídrico e, agora, além da captação do volume morto dos reservatórios, em curto prazo, a população fica na dependência das chuvas.

Em 2012, em documento elaborado pela própria Sabesp para a Comissão de Valores dos EUA, era admitido que pudesse ocorrer diminuição das receitas da empresa, devido a condições climáticas adversas. Assim sendo, seria obrigada a captar água de outras fontes para suprir a demanda de seus usuários. Portanto, conhecia-se e se antevia uma situação que acabou acontecendo. Porém, nada foi feito pela Sabesp para diminuir este risco previsível.

Por outro lado, a gestão da crise não visou resolver os problemas da população, mas sim apenas amenizar a responsabilidade da própria Sabesp, blindando o governo do Estado, cujo mandatário estava em plena campanha eleitoral para sua reeleição. Em nenhum momento a gestão da Sabesp ou o governo do Estado admitiram a gravidade da situação. Muito menos a necessidade do racionamento, da diminuição da vazão, sendo ainda negadas pelas autoridades paulistas as interrupções que se tornaram cada vez mais constantes no fornecimento da água. Por isso, o que mais abalou a credibilidade do governo foi a divulgação pela imprensa de uma gravação onde a presidente da Sabesp admitia que uma “orientação superior” impediu, durante a campanha eleitoral, que a empresa tornasse pública a real situação hídrica do Estado.

Todavia, mesmo com a tragédia anunciada, penalizando a população, a empresa e seus acionistas vão muito bem. Basta acompanhar os lucros extraordinários nos relatórios de administração dos últimos anos, que geraram dividendos generosos para os acionistas da Sabesp, ao passo que o investimento necessário não acompanhou a mesma intensidade dos lucros obtidos pela empresa.

Esta situação por que passa a população paulista e paulistana poderá se estender a outras regiões do país nos próximos anos, caso persistam a má gestão, o desperdício e a devastação de nossas florestas. É um alerta à questão da privatização dos nossos bens naturais, em particular da gestão da água, do seu controle e distribuição. Daí a premente e essencial participação da sociedade nas políticas públicas para que a gestão das águas alcance resultados positivos, e não simplesmente siga a lógica da maximização dos lucros.



Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Trensalão: Ministério Público já tem detalhes que podem apontar tucanos envolvidos

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http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Trensalao-Ministerio-Publico-ja-tem-detalhes-que-podem-apontar-tucanos-envolvidos/4/32368


Trensalão: Ministério Público já tem detalhes que podem apontar tucanos envolvidos

Em viagem à Suiça, promotores obtiveram informações que detalham o caminho percorrido pelo dinheiro desviado no governo estadual tucano.


Cida de Oliveira, da Rede Brasil Atual
Alexandre Carvalho / A2 Fotografia
São Paulo – O Ministério Público de São Paulo vai anunciar no começo da próxima semana detalhes do esquema de corrupção envolvendo empresários e políticos tucanos em contratos do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
 
O promotor Marcelo Milani, da Promotoria do Patrimônio Público, que viajou recentemente à Suiça com outros promotores e procuradores da República, obteve documentos e informações de empresas e consultorias que detalham o caminho percorrido pelo dinheiro desviado no governo paulista, o que vai levar à indicação de outros envolvidos, entre eles de políticos e agentes públicos do governo estadual tucano.
 
O deputado Luiz Claudio Marcolino (PT) esteve na tarde de ontem (4) reunido com Milani. De acordo com o petista, o promotor adiantou que serão abertos outros inquéritos a partir das novas informações obtidas na Suíça. "Além dos inquéritos antigos, vão começar a investigar os contratos mais recentes", disse Marcolino, que juntamente com o parlamentar petista Antonio Mentor tem encaminhado representações ao MP sobre o caso.
 
"A partir das novas informações obtidas pelo MP, esperamos mais agilidade e empenho nas investigações para que possamos chegar rapidamente ao nome dos agentes públicos e políticos envolvidos", disse Marcolino.
 
A Polícia Federal concluiu um inquérito sobre o esquema de corrupção no Metrô e na CPTM em contratos no período de 1998 e 2008. O processo foi encaminhado esta semana à Justiça Federal, que indiciou 33 pessoas investigadas por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de cartel e crime licitatório.
 
Entre os 33 estão servidores públicos, doleiros, empresários e executivos de multinacionais do setor. De acordo com o portal G1, foram indiciados  Adilson Primo (ex-presidente da Siemens), Ramon Fondevilla (na época do cartel, diretor-geral de transporte da Alstom), Agenor Marinho Contente (então presidente da CAF), Masao Suzuki (então vice-presidente da Mitsui), Massimo Gianvina Bianchi (presidente da TTrans), Serge Van Temsche (ex-presidente da Bombardier).
 
E os dirigentes e ex-dirigentes da CPTM João Roberto Zaniboni – que mantinha na Suíça uma conta com US$ 826 mil, dinheiro que promotores brasileiros e suíços suspeitam que tenha sido de propina –, Ademir Venâncio de Araújo – que tinha US$ 1,2 milhão num banco suíço e que teve sua conta bloqueada pelo governo local por origem suspeita. Ambos foram diretores da CPTM durante os governos de Mario Covas e Geraldo Alckmin.
 
A lista inclui José Luiz Lavorente, há 15 anos na empresa, tendo trabalhado durante os governos Covas, Serra e Alckmin; o atual presidente da CPTM, Mário Manuel Bandeira, e Arthur Gomes Teixeira, da empresa Procint, que, segundo a PF, intermediava o pagamento da propina.
 
O ex-governador e senador eleito José Serra (PSDB) não foi indiciado porque a PF não identificou ligação do tucano com as empresas lideradas pela Siemens.
 
O caso envolvendo as empresas estatais e seus fornecedores de trens veio à tona com a divulgação, em 2013, as denúncias feitas por um ex-executivo da Siemens em troca da redução de pena por envolvimento no esquema que vigora nos governos do PSDB desde Mário Covas, passando por José Serra e agora Geraldo Alckmin.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Em São Paulo, concurso exige exame de virgindade

br de fato
http://www.brasildefato.com.br/node/29427

Em São Paulo, concurso exige exame de virgindade

Reprodução
Em nota, o movimento Católicas pelo Direito de Decidir considerou a medida aviltante e que no Estado mais rico e desenvolvido da Federação “vivemos em plena Idade Média”
06/08/2014
Da Redação
Para preencher um dos requisitos do concurso público da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE-SP), as candidatas selecionadas neste ano tiveram que comprovar, por meio de um atestado médico, que não tiveram seu hímen rompido, ou seja, eram virgens.
A denúncia parte de uma das candidatas selecionadas pelo concurso, aberto em 2012, para o cargo de Agente de Organização Escolar. “Na hora em que fui a um consultório para me submeter à análise ginecológica, entrei em pânico. Foi constrangedor explicar para a médica que precisava de um atestado de virgindade para poder assumir uma vaga em um concurso", disse a candidata - que por privacidade não teve o nome revelado -, em entrevista concedida ao portal Último Segundo.
Em nota, o movimento Católicas pelo Direito de Decidir considerou a medida aviltante, afirmando que vivemos em plena Idade Média “no estado mais rico e ‘desenvolvido’ da Federação – entre muitas aspas, especialmente para a população feminina”.
“A submissão de legislador@s e executiv@s a normas e doutrinas religiosas por cálculo eleitoral é por demais conhecida nossa. O problema é que, além de violar direitos constitucionais de cidadãos e cidadãs que não tem qualquer referência religiosa e não desejam ter suas vidas reguladas por tais normas, essa submissão afeta de forma direta a vida das mulheres e da população LGBT, na medida em que políticas públicas destinadas a tod@s @s cidadãs e cidadãos do país são implementadas ou não, conforme se tenha a aprovação desses setores”, critica a nota.
O concurso
Depois de passar pelas provas regulares, a candidata foi chamada para a realização dos exames médicos de admissão, quando foi surpreendida com um comunicado emitido pela Coordenadoria de Gestão de Recursos Humanos da SEE e pelo Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME), que dava detalhes sobre testes ginecológicos requeridos às candidatas mulheres.
O comunicado informa que mulheres que "não possuem vida sexual ativa, deverão apresentar declaração de seu médico ginecologista assistente". Dessa forma, com a comprovação de virgindade, estariam isentas da realização dos exames ginecológicos intrusivos, de acordo com confirmação do próprio DPME.  
A justificativa para a realização dos exames é que servem para atestar a saúde dos futuros funcionários públicos. No entanto, segundo Maria Izabel Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), trata-se de uma violação.
"Atestado de virgindade? Por favor! Estamos em pleno século XXI. Querem evitar candidatas doentes? A verdade é que elas entram com saúde e é a falta de condições da rede que as deixam doentes", disse.
*Com informações do portal Último Segundo.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Passe Livre realiza ato pela tarifa zero em São Paulo

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532530-passe-livre-realiza-ato-pela-tarifa-zero-em-sao-paulo


Passe Livre realiza ato pela tarifa zero em São Paulo

Ato marca um ano da conquista da derrubada do aumento de R$ 0,20 no preço da tarifa de ônibus na cidade.
A reportagem é da Rede Brasil Atual – RBA, 19-06-2014.
Manifestação do Movimento Passe Livre em São Paulo iniciada na tarde desta quinta-feira (20) em prol da tarifa zero para o transporte público marcou um ano da conquista da derrubada do aumento de R$ 0,20 no preço do ônibus na cidade. O grupo se concentrou na Avenida Paulista, próximo à Praça do Ciclista, e saiu por volta das 16h30 para caminhar rumo à Marginal Pinheiros, onde barricadas foram montadas interrompendo o fluxo de uma das principais vias de São Paulo. Os gastos com a Copa do Mundo foram um dos motes do ato.
Na Marginal Pinheiros, houve depredações e invasão de agências bancárias e concessionárias de veículos por integrantes do grupo Black Blocs. A Polícia Militar estimou haver 1.300 pessoas no ato, mas o MPL aguardava 5 mil.
"Vamos construir juntos uma festa que represente o nosso modelo de cidade: construída pelo povo e para o povo. Retomaremos a cidade dos ricos, assim como a população de São Paulo fez no Churrascão da Gente Diferenciada e nos Rolezinhos. Com arte, futebol popular e catracas em chamas para serem puladas à vontade, ocuparemos um símbolo de uma cidade cidade que não é feita para nós", propunha o MPL em seu site.
Advogados Ativistas, Observadores Legais e pelo menos quatro defensores públicos acompanhavam o ato com objetivo de proteger os direitos dos manifestantes. No início da tarde, a reportagem do Cidadão Kane SP afirmou que havia pelo menos 300 integrantes do grupo Black Blocs.
Os metroviários de São Paulo também foram representados no ato, que protestava ainda contra as 42 demissões anunciadas após a greve realizada pela categoria no início deste mês.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

São Paulo, abertura da Copa: 'Foi uma das manifestações mais violentamente reprimidas que já vi'

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http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9702:submanchete130614&catid=72:imagens-rolantes



 São Paulo, abertura da Copa: 'Foi uma das manifestações mais violentamente reprimidas que já vi'

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ESCRITO POR PABLO ORTELLADO   
SEXTA, 13 DE JUNHO DE 2014

Dois protestos haviam sido marcados para a manhã da abertura da Copa: uma manifestação contra os impactos da Copa do Mundo e uma manifestação organizada pela Conlutas em apoio aos metroviários demitidos. As duas aconteceriam na zona leste, a quinhentos metros uma da outra e mais de dez quilômetros da Arena Corinthians.

A Polícia tinha orientação para não deixar a manifestação acontecer. Mais de trinta policiais recebiam os manifestantes ainda na catraca do metrô e os revistava ou já detinha. Do lado de fora, pelo menos duzentos policiais da choque esperavam os que conseguiam passar. Na concentração, sem que nada tenha acontecido e quando apenas algumas centenas de manifestantes tinham conseguido chegar, a tropa atacou com bombas de concusão e gás lacrimogêneo. Quando o ataque acabava e as pessoas respiravam, ela, sem motivo algum, atacava de novo. Havia mais de uma centena de jornalistas estrangeiros e isso não parecia inibir a arbitrariedade da polícia. Umas dez pessoas devem ter se ferido neste momento, quatro deles jornalistas.

Não havia nenhuma possibilidade de sequer reunir os manifestantes e as pessoas que tinham conseguido chegar no protesto se deslocaram para o sindicato dos metroviários, onde cerca de duas mil pessoas apoiavam os demitidos na greve. O ato dos metroviários só foi permitido pela polícia com a condição de que não se movesse. A tropa de choque, que já estava bloqueando a saída para a Radial Leste, logo cercou as demais saídas.

A polícia começou a atacar os manifestantes que tinham se unido aos metroviários e os dois grupos se misturaram na correria, o que gerou muitos conflitos entre os metroviários e partidos que queriam respeitar o acordo com a polícia e os manifestantes anti-Copa que queriam exercer o seu direito de livre manifestação.

Por cerca de uma hora, a manifestação, que, somada, deve ter reunido 3 mil pessoas, foi atacada com bombas de concusão e gás lacrimogêneo. A maior parte dos manifestantes se protegeu no prédio do sindicato, mas muitos ficaram de fora. Acredito que tenhamos tido outros vinte feridos neste momento.

Depois de muitas idas e vindas, a polícia "autorizou" que a manifestação se dispersasse e os manifestantes se dirigissem de volta ao metrô. Enquanto as pessoas se dirigiam à estação, muitas bombas eram jogadas para acelerar a dispersão. Tivemos vários feridos novamente.

Com a chegada de muitos manifestantes no metrô Tatuapé, os protestos retomaram por lá, assim como a ação repressiva da polícia. Não consigo estimar os feridos, mas deve ter havido algumas dezenas, talvez tenham passado de cem. A polícia atacou gratuitamente e com muita violência - não há duvida que as garantias dadas pelo Governador Geraldo Alckmin e a presidenta Dilma Rousseff de que o direito de manifestação seria respeitado não foram cumpridos.

Foi uma das manifestações mais violentamente reprimidas que já vi. E como a ação repressiva foi articulada pelo governo estadual e federal, podemos esperar aquele silêncio político que uniu petistas e tucanos na repressão ao MPL durante a luta contra o aumento das passagens em 2013.

Boa Copa a todos e todas.

Pablo Ortellado é professor da Universidade de São Paulo (USP).