quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Porrete com prego na ponta

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VIOLÊNCIA NOS ESTÁDIOS

Porrete com prego na ponta

Por Muniz Sodré em 24/12/2013 na edição 778
 
Chocantes, sem dúvida, as imagens fotográficas e televisivas da violência entre os torcedores no estádio de Joinville (domingo, 8/12). Nada disso é novo, porém. A novidade estaria talvez na duração do conflito sob as lentes da mídia, à distância do controle policial, ausente.
Mas foi midiaticamente singular a imagem do indivíduo que agredia o outro desmaiado com um porrete de prego na ponta. Provavelmente ainda mais singular do que a do outro que agredia um inerme com barra de ferro.
A imagem pode ser tomada como uma metonímia do episódio: a parte pelo todo. Um punctum, como nomeia Roland Barthes em seu livro sobre a fotografia (Câmara Clara). O que atrai o olhar é um ponto singular, que ferroa a percepção como uma picada de abelha – ou como um prego. Além disso, há o studium, isto é, as circunstâncias socioculturais da imagem.
Nas imagens do estádio de Joinville, o porrete com prego é o punctum. É difícil ajustá-lo ao dito de Terêncio “nada de humano me é estranho”. Mesmo diante da possível evocação de cenas abomináveis como as execuções nas guerras dos traficantes de drogas, é penoso adequar à consciência normalizada a ideia de que alguém saia de casa para um evento esportivo com uma arma dessas na mão e a expectativa de agredir qualquer um – não sequer alguém que conheça e não goste, mas um qualquer, o aleatório objeto da fúria destrutiva.
Nada a ver
Uma narrativa capaz de ser subscrita por muitos no universo masculino pode lançar alguma luz sobre a questão. É comum a história, sempre reiterada no espaço urbano, das “turmas”, senão das gangues de bairro, formadas por jovens candidatos à prova da virilidade violenta. A gangue é uma reformulação urbana dos antigos bandos rurais, sem plena identificação criminal, mas com a característica dominante de “sujeito coletivo”.
Não se trata exatamente de comportamento de “massa”, e sim das ações pontuais de grupo menor (bando, semelhante à matilha), caracterizado pela formação efêmera e por uma finalidade eventualmente mortífera. Thomas Hobbes já tinha deixado claro que o homem é o único animal capaz de assassinar. Assim é que, para Elias Canetti (Massa e Poder), “a grande maioria dos homens não poderia resistir a um assassinato sem perigo”, ou seja, matariam se estivessem certos da impunidade. Na dimensão coletiva, absolve-se o crime: “Ninguém é delegado como executor, é toda a comunidade que mata”.
Nesse tipo de grupo violento, ninguém se percebe como monstro ou mau caráter, uma vez que o todo formado em “unidade de ação” constitui-se como um indivíduo fortalecido pelo grande número e investido da ambiguidade mental presente nos agrupamentos. Sem motivo aparente, marcam-se duelos coletivos como se fossem confrontos individuais.
Isto sempre existiu com maior ou menor intensidade nas grandes cidades, a depender do potencial dissuasório dos aparatos de controle social. O fenômeno não escolhe lugar único para acontecer – festas, ruas etc. O futebol, em si mesmo, não tem nada a ver com isto. Basta ver a reação de alguns dos jogadores, como o zagueiro do Atlético-PR, que chorou em campo e depôs ao jornal sobre o seu horror: “Vendo esse lance, um ser humano ali, que não tinha como reagir, estava desacordado e eram mais de 20 em cima. E vinham de tudo quanto é lado dando chute no cara. Chutavam a cabeça” (O Globo, 15/12/2013).
Mote antigo
O futebol é de fato apenas o pretexto – reforçado por hinos, camisas, símbolos, bandeiras etc. – para que grupos internos das chamadas “torcidas organizadas” desencadeiem a sua fúria agressiva. Nem é a organização da torcida a responsável pela reserva acumulada de animosidade, mas toda uma série de circunstâncias socioculturais (o studium de que fala Barthes na análise da foto) que dá margem à constituição do coletivo violento.
É inútil buscar determinantes em fatores secundários como dificuldade de transporte público, iluminação precária nos estádios etc. Basta pensar nos hooligans (londrinos) que, apesar das ditas facilidades públicas, descarregam do mesmo modo as suas pulsões destrutivas.
O que há mesmo, em primeiro lugar, é a cumplicidade de um poder instituído e externo ao comportamento de matilha do grupo violento. Sem os cúmplices da cartolagem nos clubes, não existiria a proliferação do número de participantes que traz em si mesma uma autoabsolvição: quanto maior o grupo, maior é o sentimento de impunidade.
Em segundo, há o aspecto da teatralização não-consciente inerente às matilhas humana, cada vez mais espelhada na internet. Narcisicamente, o grupo violento encena por meio das redes sociais a destrudo que não tem coragem de vivenciar em termos individuais. “Teatraliza-se” ali uma comunidade ao inverso, onde o ódio bestial substitui o laço social, onde sádicos e masoquistas se confundem.
Bestialidade é coisa antiga. O deplorável agora é que a sua guarida no futebol brasileiro faça corar de vergonha o rosto público ou, mesmo, seja capaz de fazer chorar um zagueiro em campo.
***
Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular (aposentado) da Universidade Federal do Rio de Janeir

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Papa Francisco pede atenção para problema dos sem-teto

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79219


Igrejas - Religiões
23.12.2013
Mundo ]
Papa Francisco pede atenção para problema dos sem-teto

Agência Brasil
Adital

O papa Francisco apelou ontem (22), nas vésperas do Natal, às autoridades políticas e aos serviços sociais do mundo inteiro para que façam "todo o possível para que todas as famílias possam ter uma casa".
Da janela do apartamento, para milhares de fiéis reunidos para a Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, o papa argentino disse: "Vejo lá em baixo, escrito em letra grande [numa faixa] 'Os pobres não podem esperar'. É lindo isso!", disse Francisco, que foi em seguida muito aplaudido.
"Há tantas famílias sem casa, seja porque nunca tiveram ou porque perderam por tantas razões diferentes. Famílias e casas andam de mãos dadas. É muito difícil de conduzir uma família para frente sem ter uma casa", disse o pontífice.
Francisco convidou "todas as pessoas, serviços sociais e autoridades a fazerem tudo ao seu alcance para garantir que todas as famílias tenham uma casa".
O papa dirigiu-se, por fim, às dezenas de manifestantes que se reuniram contra a austeridade na Praça de São Pedro, apelando para que recusem o confronto. As forças policiais italianas tinham reforçado a segurança em torno do Vaticano, como medida de precaução.
No fim da sua curta aparição, o papa desejou a todos "um Natal de esperança, de justiça e de fraternidade”.

Novo grupo guerrilheiro surge no México

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79222


Conflito Armado
23.12.2013
Novo grupo guerrilheiro surge no México

Mateus Ramos
Adital

Foto: Divulgação
Um novo grupo guerrilheiro, denominando "Forças Armadas Revolucionárias – Libertação do Povo (FAR-LP), está sendo criado no México. De acordo com vários comunicados enviados à imprensa mexicana pela internet o grupo pretende lutar contra os abusos do atual governo de Enrique Peña Nieto.
Os guerrilheiros afirmam que o governo está "entregando os recursos naturais do México ao estrangeiro”. Dessa forma, eles declararam guerra a todas as empresas estrangeiras que se instalem no país. "As empresas que pretendem instalar-se em nosso país serão consideradas alvos militares, porque nós sabemos defender nossa soberania e daremos uma mostra disso”.
Porém, não só contra a instalação de empresas estrangeiras no México lutam os novos guerrilheiros. Eles afirmam que o governo de Peña vem reprimindo de forma violenta todo e qualquer movimento social, além de aprovar reformas que acabam com os direitos dos trabalhadores. "O que mais vamos esperar desse governo que nos aniquila?” Indagaram em um comunicado reproduzido no site ‘blogdeizquierda.com’.
Ainda segundo o site ‘blogdeizquierda.com’, o número de extorsões no México é o maior desde os anos 90. Foram registrados, de dezembro de 2012 até novembro desse ano, mais de 8 mil casos desse tipo de crime, contudo esse número mostra apenas os casos concretizados, em que as pessoas pagam, há registros de mais 74 mil tentativas de extorsão, ou seja, o número pode ser ainda maior, já que nem todos denunciam, com medo de represálias. Os estados onde mais se registra esse tipo de crime são Morelos, Baja California Sur e Quintana Roo, todos sãos em zonas turísticas e com moradores de alta renda.
As FARP – LP afirmam que Peña representa a continuidade do ex-presidente Carlos Salinas, qualificado como "nefasto e principal saqueador do país, já que beneficiou empresários como Carlos Slim e Ricardo Salinas Pliego, ao entregá-los concessões de telecomunicações”. Posteriormente esses empresários se tornaram magnatas devido a esquemas de privatização de serviços públicos. Afirmaram.
O comunicado ainda fala que o "roubo sistemático” do atual presidente contrasta com a situação em que vivem os milhares de vítimas das chuvas provocadas pela tormenta Manuel. Eles acusam o governador Ángel Aguirre Rivero de lucrar, junto com seus funcionários, com a necessidade das vítimas.
Os comunicados assinados pelos comandantes: Emilio, Camio e Esperzanza, se encerra com um recado. "Lutar sem descanso contra o governo opressor! Liberdade aos presos políticos! Formar o exército do Povo! Forças Armadas Revolucionárias – Libertação do Povo!”.
Autoridades investigam grupo guerrilheiro
Segundo informações do site PINN – Portuguese Independent News Network, as autoridades mexicanas abriram uma investigação sobre a suposta criação de um grupo autodenominado "Fuerzas Armadas Revolucionarias –Liberación del Pueblo” (FAR-LP).
As investigações foram iniciadas após a invasão de uma rede de TV no estado de Guerrero, sul do México, cometida por homens encapuzados e armados com espingardas e pistolas. Eles fizeram um apelo para que a população se "armasse contra o Poder Executivo”.
O estado de Guerrero é uma das regiões mais pobres do país, nela operam várias organizações à margem da lei, como o Exército Popular Revolucionário, polícias comunitários e cartéis de droga.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Hanseníase em MG: Atrás da cortina de bambu

AP
http://www.apublica.org/Reportagem-Publica/portfolio/atras-da-cortina-de-bambu/


Hanseníase em MG: Atrás da cortina de bambu

Hanseníase em MG: Atrás da cortina de bambu

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A Colônia Padre Damião, fundada em 1945 e hoje denominada Casa de Saúde Padre Damião, recebeu, por mais de trinta anos, através de internação compulsória, portadores de hanseníase. Localizada no município de Ubá, reúne antigos internos e seus descendentes, em área ainda pertencente ao governo estadual. A colônia, como até hoje é conhecida, é mantida pelo Complexo de Reabilitação e Atenção ao Idoso, da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais.
Sobre o autor:
Renata Meffe
Leia mais
Como será feito:
A investigação será realizada na zona rural de Ubá e em Juiz de Fora, cidade onde vivo. Em Ubá fica a antiga Colônia Padre Damião. Em Juiz de Fora, encontra-se o Educandário Carlos Chagas, orfanato que recebia os filhos recém nascidos separados dos pais internos na colônia. Algumas dessas crianças, hoje adultos, ainda vivem na cidade.
Não necessito empreender visitas à Ubá, com o objetivo de efetuar pesquisas, porque essas foram realizadas previamente. Desde 2009 frequento a colônia pois tenho amigos na comunidade. Em 2012, comecei a desenvolver uma pesquisa acadêmica no local, no campo da antropologia visual, relacionada ao resgate da história oral a partir de narrativas detonadas a partir da observação de fotografias antigas. A partir desta investigação acadêmica, consegui o apoio, junto ao Canal Futura, para a produção de um mini documentário, denominado ¨Cortina de Bambu¨. A reportagem documental está ainda em fase de produção e será apresentada no programa Sala de Notícias.
As pesquisas e entrevistas para o minidoc apontaram para questões, descritas na proposta por mim aqui apresentada, relevantes e passíveis de serem investigadas, mas que, infelizmente, devido à curta duração do minidoc (13 minutos), não poderiam ser abarcadas pela reportagem videográfica. O projeto Reportagem Pública seria uma oportunidade para o aprofundamento e a apuração de problemáticas levantadas em pesquisas prévias e que, embora não se encaixem no minidoc, merecem visibilidade.
Sendo assim, minhas próximas incursões a Ubá serão já para a realização de entrevistas com antigos internos, profissionais da área de saúde e representantes da Fhemig. Buscarei também, ainda em Ubá, acesso a documentos, tanto dos ex-internos, como da própria Fhemig, relevantes para a investigação. Estimo que sejam necessárias seis idas à Ubá, para entrevistas, visitas a arquivos, além de posterior checagem de informações.
Por telefone, posso realizar eventuais entrevistas com representantes do Morhan que estejam em outras cidades e, em Juiz de Fora, entrevistar antigos moradores do Educandário Carlos Chagas, além de visitar esta instituição e seus arquivos, para a busca de documentação pertinente às investigações.
Como as viagens a Ubá serão empreendidas principalmente nos fins de semana, calculo que o tempo necessário para o processo de apuração, checagem de dados, produção e edição do material fotográfico e redação, seja de três meses.
O que será entregue:
Reportagem estruturada a partir de narrativa textual e registros fotográficos.
Orçamento:
As despesas orçamentárias correspondem a gastos com transporte entre Juiz de Fora, onde moro, e Ubá, cidade em cuja zona rural se localiza a colônia. Incluem também gastos com acomodação, alimentação e comunicação.
O transporte demandaria cerca de 1350 reais em gasolina, calculando, para esta estimativa, seis idas à Ubá.
A estadia em Ubá, para o mesmo número estimado de visitas (e duas noites de hotel em cada visita, resultando em 12 diárias), demandaria aproximadamente 1200 reais.
Os gastos com alimentação nos dias em Ubá (cerca de 15 dias, média de 2 a 3 dias por visita) corresponderiam a cerca de 750 reais (calculando um gasto diário de 50 reais).
Outros gastos corresponderiam a ligações telefônicas interurbanas e para celulares, para agendamento de visitas e/ou entrevistas por telefone: aproximadamente 300 reais.
A partir deste cálculo, as despesas totais resultariam em 3600 reais. A remuneração para o meu trabalho como repórter e fotógrafa seria, portanto, de 2400 reais.

Governo equatoriano acusa ONG indígena de terrorismo

o eco


Governo equatoriano acusa ONG indígena de terrorismo
Giovanny Fabio Vera Stephanes - 22/12/13

mapa-blocosMapa dos blocos de petróleo oferecidos na Rodada XI. Crédito: Fundação Pachamama.
Era meio dia, quase hora do almoço, quando policiais e funcionários do Ministério do Interior do Equador ingressaram no edifício Shyris Century, na zona norte de Quito, e foram diretamente ao 12º andar, onde ficava o escritório da Fundação Pachamama, organização equatoriana defensora dos direitos indígenas e da conservação da Amazônia. A “visita” tinha como objetivo apresentar a ordem do Ministério do Ambiente que declarava a dissolução da Fundação Pachamama “por desvio dos propósitos e objetivos estatutários e por intervenção em políticas públicas, atentando contra a segurança interna do Estado e afetando a paz pública”, diziam os letreiros colocados nas portas da fundação.
Após o aviso oficial, todas as pessoas foram retiradas do escritório, que foi em seguida fechado e lacrado.
Para María Belén Páez, presidente da Fundação Pachamama, o fechamento da instituição “é um ato arbitrário que quer reprimir o nosso legítimo direito de discordar da decisão do governo nacional de entregar em concessão territórios das nações indígenas amazônicas para empresas petroleiras, sem respeitar seus direitos constitucionais, especialmente o da consulta livre, prévia e informada”, afirmou, em conferência de imprensa.
A fundação assessora há 16 anos comunidades indígenas da Amazônia do Equador na defesa de seus territórios.
Começo de um problema
O leilão foi realizado em a devida consulta prévia aos indígenas. Houve protestos.
Tudo começou no dia 28 de novembro, quando o governo do presidente Rafael Correa realizou a XI Rodada de Petróleo, em Quito, no processo de licitação de 13 blocos petrolíferos na zona Sudeste, na Amazônia do país. O leilão foi realizado em a devida consulta prévia aos indígenas. Houve protestos.
Nesta rodada, foram oferecidos 13 blocos para exploração de petróleo, apenas 4 blocos receberam ofertas. A empresa chinesa Andes Petroleum apresentou uma oferta para o Bloco 79 e para o 83; Repsol ofertou para o Bloco 29; e a equatoriana Petroamazonas ofertou para o Bloco 28, junto com as petroleiras estatais do Chile e da Bielorrússia.
De acordo com um estudo da Fundação Pachamama, o processo de consulta prévia que o governo diz ter realizado na área afetada pelos blocos de petróleo oferecidos na XI Rodada de Petróleo só chegou a 7% da população da área, e a 39% das comunidades que estão na área de influência.
O clima esquentou quando foram anunciadas os vencedores da licitação. Juan Lira,  Embaixador do Chile e Andrey Nikonov, empresário da petroleira Belorusneft, da Bielorússia, foram agredidos por manifestantes.
No sábado seguinte, dia 30 de novembro, o presidente Rafael Correa denunciou as agressões em seu programa de radio e televisão Enlace Cidadão. O presidente acusou diretamente a Fundação Pachamama e o coletivo Yasunidos de serem os responsáveis pelo protesto que culminou na agressão dos dois homens. É uma grave negligência, grave falha (...) eu quero o relatório de quem é o responsável disso”, sentenciou o presidente.
Na ocasião, José Serrano, ministro do Interior, afirmou que as agressões eram “inadmissíveis” e “intoleráveis”.
Atentado contra a segurança interna do Estado?
A partir dai começou a caça contra os responsáveis. No dia 4 de dezembro foi decretado o ataque contra os supostos agressores. De acordo com a Resolução 125 contra a Fundação Pachamama, nesse dia o vice-ministro de Segurança Interna do Ministério do Interior, Javier Córdova, solicitou ao Ministério do Ambiente que determine a dissolução ‘imediata’ da Fundação Pachamama, por não cumprir o Decreto Executivo 16. Este decreto estabelece a dissolução de organizações sociais que atentarem contra a segurança pública do Estado, por desviar-se dos objetivos pelos quais foi criada, ou por interferir em políticas públicas.
A velocidade para punir quem interfere nas políticas públicas do estado  foi notada a partir do pedido do vice-ministro de Segurança Interna: no mesmo dia que  enviou o relatório ao Ministério do Ambiente, solicitando a dissolução da fundação, o  Ministério do Ambiente emitiu a Resolução 125, fechando a mencionada ONG. Às 11h43 foi entregue à Polícia a ordem para proceder com a dissolução e fechamento de Pachamama. Às 12h50 a notificação de dissolução foi assinada por uma representante da ONG, já no escritório de Pachamama.
Decreto Executivo 16: lei das ONGs
Desde a sua criação, esta lei tem sido tema de oposição, já que a normativa está sendo usada para acabar com organizações.
Usado para justificar a dissolução da Pachamama, o Decreto Executivo 16, assinado em junho deste ano, é a normativa que regula as atividades das organizações sociais não governamentais. Este decreto criou o Sistema Unificado de Informação das Organizações Sociais, com uma série de normas para regulamentar a organização social e a forma de participação delas na sociedade. Desde a sua criação, esta lei tem sido tema de oposição, já que a normativa está sendo usada para acabar com organizações.
De acordo com a Human Rights Watch, o decreto viola os direitos à liberdade de expressão e de associação, sendo que inclusive o direito internacional declara que os governos devem assegurar que seja permitido aos defensores dos direitos humanos realizarem suas atividades sem represálias, ameaças, intimidação, assédio, discriminação ou obstáculos legais desnecessários. “O decreto do presidente Correa que regula a sociedade civil deu ao governo o poder de dissolver organizações de direitos humanos e de outro tipo que se interponham em seu programa de governo”, disse José Miguel Vivanco, diretor executivo para as Américas de Human Rights Watch.
Farith Simon, professor da Universidade San Francisco de Quito, em sua coluna do dia 16 deste mês, no jornal El Comercio do Equador, intitulada “O verdadeiro perigo”, dizia que quando foi elaborada a nova Constituição do país, “várias vozes se levantaram para advertir os riscos de excesso de poder que foi concedido ao Executivo”.
Nessa nova Constituição, o povo seria o protagonista no governo, em uma ‘democracia participativa’, sendo parte do “planejamento, decisão e gestão dos assuntos públicos, no controle social de todos os níveis do governo, e na definição das políticas públicas”, explica Farith. No entanto, a dissolução da Fundação Pachamama mostra um panorama contrário à ‘democracia participativa’ constitucional, afirma o professor, onde o Poder Executivo “considera a participação política das ONGs como um ‘atentado contra a democracia’, visão claramente incompatível com a norma constitucional que reconhece ‘todas as formas de organização da sociedade, como expressão da soberania popular para desenvolver processos de autodeterminação e incidir nas decisões e políticas públicas (...) de todos os níveis do governo’”.
A diretora de Pachamama, em uma carta ao jornal El Telégrafo, “recusa a decisão do governo de dissolver nossa organização sem notificação prévia, sem o devido processo, sem permitir o direito à defesa e baseado em acusações não provadas”.
Segundo a AFP, nos últimos anos o governo equatoriano tem endurecido as normas para as ONGs, de forma que só no ano passado 26 organizações foram fechadas por não cumprir com obrigações e responsabilidades.
No dia 12 deste mês, a Fundação Pachamama apresentou ao Ministério do Ambiente um recurso de apelação e suspensão da Resolução 125 que dissolveu a organização. Agora, o Ministério tem 15 dias para se pronunciar sobre a suspensão da medida e dois meses para responder o recurso de apelação.
Coletiva de imprensa Fundação Pachamama
Começo de uma reação em cadeia?
Como se de uma reação em cadeia se tratasse, na sexta-feira, 20 de dezembro, o ministro da Presidência da Bolívia, Juan Ramón Quintana, anunciou a expulsão da ONG Ibis, de origem dinamarquesa, por intromissão política no país.
Em conferência de imprensa, o ministro afirmou que Ibis é uma organização que se dedicou a dividir as organizações sociais e a “interpretar de forma errada seu papel, sua responsabilidade e seu mandato para trabalhar em Bolívia”. “Estamos cansados de tolerar a intromissão política de Ibis na Bolívia e que promova conflitos internos nas próprias organizações”, disse Juan Ramón, referindo-se à Confederação Indígena do Oriente Boliviano (CIDOB) e o Conselho Nacional de Qollasuyo (CONAMAQ), duas organizações indígenas hoje opositoras do governo de Evo Morales.
A organização Ibis diz em seu site que seu papel fundamental “é acompanhar e fortalecer as capacidades dos povos indígenas e suas organizações legitimando seus direitos coletivos e individuais, contribuindo na construção de sociedades interculturais e Estados plurinacionais”.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Javier Sicilia, um poeta mexicano contra o narcotráfico

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/-Javier-Sicilia-um-poeta-mexicano-contra-o-narcotrafico/6/29864


Javier Sicilia, um poeta mexicano contra o narcotráfico

O poeta mexicano Javier Sicilia fez da morte do filho de 24 anos uma causa não só sua, mas de todas as outras vítimas da chamada guerra ao narcotráfico.


Eduardo Febbro
Arquivo

Cuernavaca, México – A narração pontual do horror pode não bastar. O desfile interminável de mortos na rua, de imagens de gente pendurada nas pontes, de decapitados, fuzilados, a contagem regular de novas vítimas que se somam as 50 mil da véspera são só isso: imagens e estatísticas. A sociedade prossegue mergulhada em um estranho silêncio. Mas um estouro entre tantos torna-se uma revelação incrível.

O poeta mexicano Javier Sicilia encarna na pele e nos ossos essa transformação da sociedade mexicana. Com ele se passou do silêncio à rua, da mansidão à rebeldia, da solidão e do anonimato ao movimento, da mais profunda injustiça ao sonho de que exista uma justiça. Um drama precipitou esse despertar coletivo. No final de março de 2011, Juan Francisco Sicilia, seu filho de 24 anos, foi assassinado pelo crime organizado junto com outros seis jovens no Estado de Morelos.

Dessa morte íntima, Javier Sicilia fará uma causa, não sua, mas sim de todas as outras vítimas. Javier Sicilia saiu à rua para reclamar justiça, por seu filho e pelas dezenas de milhares de mortos que o narcotráfico deixou no país. Marchas, caravanas ao longo do país, pouco a pouco o México foi abrindo os olhos ante o horror com que convivia. Dessas marchas surgiu um grupo, o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade.

Sicilia obrigou o presidente que havia lançado uma guerra contra o narcotráfico, Felipe Calderón, a dialogar, aceitar as responsabilidades do Estado, a pactuar uma lei geral de vítimas mediante a qual fossem garantidos os seus direitos. Sem disparar um só tiro. Só com as marchas, as caravanas, a poesia como aposta e alguns cadernos que foram sendo preenchidos com os nomes de tantos mortos anônimos.

O Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade é uma das iniciativas mais originais e únicas do último quarto de século. Deu nome e sobrenome aos mortos. Não tem similar no mundo: não só enfrentou o Estado, como também os criminosos, a impunidade e o pior inimigo da justiça: o silêncio.

“Já não há mais o que dizer. O mundo já não é digno da Palavra”, escreveu Javier Sicilia no último poema de seu último livro. O poeta decidiu calar-se para sempre, mas não o homem de ação que, em seus protestos por justiça coletiva, descobriu o México extenso da dor e do horror.

Em seu mundo natural de Cuernavaca, Javier Sicilia fala com essa marca que fica nos olhos quando a vida fere sem avisar. Não há ódio nem rancor em suas palavras, mas sim o peso de uma consciência viva e a bondade que, para além do mal, persiste no coração humano. Às vezes, a poesia pode convocar a consciência moral de uma nação no momento de máximo horror, de máximo adormecimento dessa consciência. Javier Sicilia e seu movimento tornaram realidade esse “milagre cívico”.

Seu movimento tem uma essência muito pessoal. Frente à violência extrema que assola o México, você saiu à rua para pedir justiça tendo a poesia como mediadora.

Os dois grandes movimentos dos últimos 20 anos que tem uma posição moral indiscutível foram gerados com uma linguagem poética. O zapatismo e o nosso.

Toda linguagem poética rompe a unicidade o unívoco das linguagens políticas e permite voltar a ver a realidade em sua profundidade, em seu horror e em sua humanidade. Ambos os movimentos, com diferentes linguagens poéticas, mas sempre utilizando os recursos da poesia, as imagens, os símbolos, as metáforas, funcionaram e desvelaram um horror que estava oculto sob as linguagens unívocas do político, sob a abstração da estatística. Também revelaram a responsabilidade do Estado frente a essa humanidade negada. No caso do Subcomandante Marcos foi com as comunidades indígenas, no caso do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade foram as vítimas desta guerra contra o narcotráfico lançada pelo ex-presidente Felipe Calderón.

Por que a poesia pode mais que a própria verdade do horror e do incontável número de assassinatos? Qual é sua capacidade de interação, de revelação ou de consolo?

A poesia nasce do mais profundo do humano, nasce do coração, e só desde o coração se pode assumir tanta dor e dar tanto amor. Isso é o que permitiu a ambos movimentos fazer o que fizeram pelas vítimas, ir contra o crime organizado, contra o Estado e plasmar o registo de sua respectiva desumanidade, de seu terrível desprezo, e das dívidas que o Estado tem com as vítimas.

Você conseguiu o que quase ninguém havia conseguido até então: interpelar o Estado, colocá-lo diante de sua responsabilidade.

A base de um Estado consiste em garantir a paz, a segurança e a justiça de uma sociedade. Quando isso não se cumpre há algo que está falhando profundamente.
E isso é o que ocorre no México, onde há 98% de impunidade. Se está se matando, sequestrando e destruindo a vida humana, como faz o crime organizado, há algo que não está funcionando bem no Estado. E alguém tem que interpelar o Estado. Em um dos diálogos com o ex-presidente Felipe Calderón, ele se atreveu a me dizer por que eu não reclamava para os narcos. Eu lhe respondi: diga-me que não há Estado e então nós nos acertaremos com os criminosos. Mas, até onde sei, o Estado tem que responder por isso.

O Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade nasceu em 2011, depois do assassinato de seu filho e amigos. O México já conhecia um grau de horror inqualificável, no entanto, essas mortes despertaram o país, o fizeram olhar de frente para o que estava ocorrendo.

As linguagens que descrevem fenômenos sociais não são suficientes para explicar isso. Por que, a partir de mim e de meu filho, foi possível conseguir uma coisa desta natureza? A explicação histórica, antropológica, não basta para entendê-lo.

Creio que pertence a uma ordem que nos rebaixa, a uma espécie de milagre cívico nascido do horror, da tragédia. Creio que não há resposta. Eu nunca pensei em passar à ação coletiva, não pensava que ia fazer um movimento. Eu só fui protestar, reclamar, expor minha palavra. E algo ocorreu a partir dessa palavra e tudo começou a se articular, algo estava aí à espera de uma palavra-chave, de uma palavra mágica que convocasse uma mobilização, uma dignificação, uma lógica humana de vida, de força moral.

Creio que a partir da morte de meu filho João Francisco e de seus amigos e das palavras proferidas se despertou a reserva moral do país, que estava adormecida, mergulhada. Mas estava viva. O terror adormece, o terror busca escapar por saídas psíquicas que nos levam à aparência de certa indiferença. Mas as reservas estão aí. Enquanto não se matar completamente a alma de um povo, a reserva moral está esperando algo que a detone. Aqui foi uma tragédia e uma palavra dura, indignada, ou seja, dizer: “Basta. Estamos fartos disso”. As forças vivas despertaram a partir da morte. O horror que era negado neste país tornou-se visível.

A partir desse despertar, foram realizadas caravanas em todo o país pela paz. O que descobriu neste périplo?

Vi um México que intuía que existia, do horror e do mal, um México que nunca havia sentido antes com todo o peso de minha carne, um México que toquei com todos os meus sentidos. Vi esse México massacrado, destroçado, sofrendo. Um dia, em uma das caravanas que fizemos em uma das zonas mais duras do país, Durango, se aproximou de mim um menino de cinco anos com o retrato de seu pai. Ele me disse: “esse é meu pai, mataram ele, ontem me entregaram ele envolto em um cobertor”. Esse menino órfão era a imagem do país. Nestes tempos, o horror é a incapacidade de vê-lo. Por isso o horror se torna mais brutal.

Devo dizer também que um Estado corrupto como este também gera uma tremenda corrupção moral. Há uma parte deste país que, junto com o Estado, está profundamente corrompida, degradada. Não se explica que tenhamos chegado onde chegamos. Este é um poder que se baseia na máfia e na delinquência. Por isso temos o que temos. Refazer isso será muito custoso. É muito fácil destruir, corromper. Construir é muito difícil.

O movimento se confrontou com dois poderes: o do Estado e o dos criminosos.

Todo poder é covarde porque utiliza uma força que transcende toda proporção humana. Os criminosos exercem um poder cínico, covarde. E tivemos que confrontar essa imensa covardia, esse imenso cinismo, tanto do Estado quanto dos criminosos. Os desafiamos desde nossa pequenez e com as armas que são o amor e a dignidade. Com isso atravessamos este país, atravessamos os Estados Unidos. Já não podem ocultar o horror, a dor e a impunidade. Terão que encontrar um caminho de justiça e de paz. A força coletiva é muito importante frente ao poder, o poder precisa ver uma nação de pé, expressando-se. A democracia não se resume às urnas. A democracia é o poder do povo. Quando um povo se une e desafia um Estado que não está cumprindo a vontade desse povo, aí começamos a viver a democracia.

Isso é o que ocorreu com as mobilizações. Neste momento, o Estado teve medo e começamos a viver a democracia. Foi a presidência, o poder político, que veio até nós e disse: “dialoguemos”. De acordo, dissemos, mas segundo nossas condições.

Não dialogamos na obscuridade, não dialogamos atrás de portas fechadas, dialogamos frente à nação porque este é um tema da nação e diz respeito a todos nós. Assim foram os diálogos. Chamamos o poder de tu e o confrontamos como o que ele é: servidor desta nação, da cidadania. Mas nós sozinhos não valíamos nada. O poder não zombou de nós porque chegamos unidos.

Vocês conseguiram também algo muito profundo: dar nome e sobrenome aos mortos, dotá-los da identidade que o Estado e os criminosos negavam. Retiraram o manto de silêncio.

O país acumulava cinco anos de profunda dor, de muitas vítimas. Neste momento, tínhamos mais de 40 mil mortos, 10 mil desaparecidos. E apesar disso, nada ocorria. O poder político falava de “baixas colaterais” enquanto que o presidente dizia: “estão se matando entre eles”. O poder negou às vítimas seus direitos civis, seus direitos humanos. Eu disse: através da morte de meu filho assumo a morte de todos. A partir deste momento, todos os jovens assassinados neste país, que são a maioria, são meus filhos. Assim começaram a chegar as vítimas, assim começaram a falar, assim começou a falar a alma de um povo. As vítimas vinham e narravam seu horror, sua dor, com suas próprias palavras.

Fomos do norte ao sul do país para que as vítimas falassem, para que contassem sua história. Uma palavra se tornou a palavra de todos, com seus respectivos nomes, sobrenomes e histórias. Formou-se uma grande coalizão, reunindo setores da esquerda e da direita, o que foi fundamental para este movimento. O nome de João Francisco Sicilia nomeou a todos. O que fizemos foi abrir os espaços públicos aos negados para que nomeassem seus mortos, suas dores, sua condição de vítimas. Eu não fui mais que a voz de uma tribo de pessoas que sofriam, por minha voz falaram as vítimas e através do nome de meu filho estão falando muitas outras vítimas.

Como se salva um ser humano que, em seu nome pessoal e no de sua sociedade, enfrentou o horror? Com esquecimento, perdão?

O perdão é complexo. É preciso entender o perdão. Há quem ache que o perdão é esquecimento, mas não é. O perdão é um dom, é um ato de gratuidade como o amor. Quando me perguntam se perdoei os criminosos que mataram meu filho eu respondo: sim, perdoei. Pedi justiça, não pedi sua morte. Mas para que esse dom se cumpra, o perdão não pode prescindir da justiça. Tem que haver arrependimento da outra parte. Caso o contrário o perdão não ocorre.

Você disse depois da morte de seu filho que não escreveria mais.

Minha relação com a escritura mudou substancialmente. Deixei de escrever poesia.

As palavras degradadas de minha época já não me bastam para dizer, veja o paradoxo, o horror indizível que estamos vivendo, nem para empreender a reconstrução do sentido. O idioma não me basta mais. Estamos diante de fenômenos onde a linguagem entra em crise. Fenômenos de horror, da morte, de ausência de sentido que colocam em crise a língua e, sobretudo, a mais alta expressão da língua que é a expressão literária. Um escritor vive da língua de sua época, quando essa língua se degrada pela barbárie que estamos vivendo no México, pelo uso mentiroso da linguagem, essa língua já não é suficiente para poder refundar os sentidos. Isso ocorreu em meu país.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Transgênicos: a importância de abrir o debate

OP
http://outraspalavras.net/blog/2013/12/19/transgenicos-a-importancia-de-abrir-o-debate/


Transgênicos: a importância de abrir o debate

Martin Langer
Audiência promovida pelo Ministério Público Federal revela que persistem dúvidas sobre “segurança” das plantas modificadas e expõe necessidade de romper silêncio sobre temas nacionais relevantes
Por Elenita Malta Pereira
O Ministério Público Federal (MPF) realizou em 12 de dezembro de 2013, em Brasília, uma audiência pública sobre a iminente liberação de sementes transgênicas de milho, soja e algodão resistentes ao herbicida 2,4-D, componente do famoso “Agente Laranja” que tanto prejuízo causou ao Vietnã. O MPF, a AGAPAN e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) já haviam solicitado à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTN-Bio) a realização da Audiência, para discutir com maiores detalhes os riscos da utilização dessa tecnologia. No entanto, a comissão recusou a proposta, e o MPF decidiu realizar o evento em suas próprias dependências.
Na audiência, transmitida pela TVMPF ao vivo, foram ouvidos representantes a favor e contra os transgênicos, de forma democrática. Em três mesas temáticas, foram abordados as pesquisas sobre o 2,4-D; aspectos da avaliação toxicológica do produto no Brasil e exterior – aqui ele é considerado “Extremamente tóxico”; riscos à saúde humana e animal, danos ao ambiente; a estrutura e composição da CTN-Bio, implicações éticas de suas ações e sugestões para melhorar seu funcionamento.
Os dois primeiros expositores defenderam o uso da tecnologia de transgênicos + agrotóxicos (agricultura convencional). Ivo Carraro, representante da CNA, começou citando a chamada de uma reportagem: “o agronegócio fez a sua lição de casa”, para reforçar supostos ganhos em produtividade. Segundo ele, o agronegócio é responsável pelo superávit da balança comercial brasileira, e tem conseguido isso superando uma equação difícil: produzir alimento e, ao mesmo tempo, preservar o ambiente.
Para justificar seu apoio à tecnologia OGM, comparou dados da agricultura dos anos 1970 com o cenário atual, afirmando que houve um crescimento de 317% na produção, enquanto a área plantada aumentou em apenas 47%. Isso comprovaria para ele que esse modelo de “agricultura é eficiente, preserva o ambiente e alimenta o vivente”. Para Carraro, como a alta produtividade dessa tecnologia, não haveria necessidade de desmatamento, por isso, ela promoveria a preservação do ambiente.
O segundo palestrante, representando a Dow Chemical, o agrônomo William J. da Silva, afirmou que os transgênicos não causam danos às plantas, ao ambiente ou à saúde humana – são inócuos. Segundo Silva, as aplicações serão tratorizadas e não aéreas, e, se o agricultor seguir a bula e respeitar os prazos de carência, não haveria problemas. No entanto, esse argumento joga a culpa no agricultor – a parte mais fraca da história, que nem sempre é orientado – e busca eximir a indústria da culpa por eventuais intoxicações que possam ocorrer.
As duas apresentações seguintes apresentaram argumentos contrários à liberação. Tanto o representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTN-Bio, Leonardo Melgarejo, como o professor da UFSC, Rubens Nodari, tocaram em pontos críticos da tecnologia.
Melgarejo enfocou as pesquisas apresentadas pelas empresas à CTN-Bio para subsidiar a aprovação das sementes. No caso da semente com 2,4-D, houve pesquisas em apenas dois municípios brasileiros, Indianápolis (MG) e Mogi Mirim (SP), porém, deveriam ser realizadas em todos os biomas brasileiros, para averiguar o resultado em diferentes ecossistemas. As informações fornecidas pelas empresas também não incluem estudos para duas gerações de animais, bem como de animais prenhes – os dados são insuficientes para a liberação, mas a CTN-Bio libera.
O professor Nodari destacou a impossibilidade de acesso às pesquisas das empresas. Elas não permitem que pesquisadores independentes tenham acesso ao produto (protegido por patentes) e aos processos adotados. Até mesmo seu pedido do processo da semente de feijão transgênico desenvolvido pela EMBRAPA foi negado. Diante dos impactos causados por essa tecnologia (aumento do consumo de agrotóxicos, morte de abelhas, contaminação de leite materno, danos à saúde e ao ambiente), Nodari vê a necessidade de suspender as aprovações e reformular todo o sistema. Ele pediu que o MPF entre com uma ação civil pública para suspender a tramitação de todos os OGMs e agrotóxicos associados, a mudança no sistema de aprovação dos transgênicos, e que fosse seguido o princípio da precaução, estabelecido no Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança. A análise de risco deve levar em conta a precaução e ocorrer de forma transparente e cientificamente competente, o que não acontece hoje.
Jesus Aparecido Ferro, professor da UNESP e representante da Monsanto, apresentou um histórico do 2,4-D e dados sobre o uso internacional do produto. Criado durante a Segunda Guerra Mundial, teve patente requerida em 20/02/1942, e concedida em 29/06/1943. A patente para o uso na agricultura veio em dezembro de 1945. É o herbicida mais usado no mundo, terceiro nos EUA, depois de Atrozina e Glifosato. Ferro afirmou que o 2,4-D não causa danos à saúde, segundo as autoridades norte-americanas, canadenses, e europeias. Também a FAO e OMS teriam realizado várias avaliações e publicado referências afirmando que ele não causa câncer.
No entanto, a expositora seguinte, Karen Friedrich, pesquisadora e toxicologista da Fiocruz, criticou as pesquisas apresentadas por Ferro, publicadas nos anos 1980-90, até no máximo 2003 – estavam desatualizadas. Não só o trabalhador rural que aplica o produto está exposto. Segundo a professora, a exposição aos agrotóxicos e no caso do 2,4-D, afeta humanos desde o estágio fetal (pois o produto passa pela placenta da mãe para o feto), até a idade adulta. Mesmo o recém-nascido pode ingerir o produto – há várias pesquisas brasileiras que mostram a presença de agrotóxicos no leite materno.
Karen salientou que o 2,4-D é um disruptor endócrino, afetando os hormônios andróginos nos homens e estrógenos nas mulheres. Ele pode também causar efeitos agudos (morte rápida) ou danos ao longo da vida, por seu efeito cumulativo, como mal formações, neurotoxidade, nefrotoxidade (problemas renais), danos ao sistema imunológico, câncer de todos os tipos e até diabetes. Ela lembrou que a Lei dos agrotóxicos (Lei 7802/1989), em seu artigo 3º, parágrafo 6, justamente determina a proibição do registro de produtos que “revelem características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, de acordo com os resultados atualizados de experiências da comunidade científica”; “provoquem distúrbios hormonais, danos ao aparelho reprodutor, de acordo com procedimentos e experiências atualizadas na comunidade científica”; e que “causem danos ao ambiente”. Ou seja, a liberação das sementes programadas para resistir a esse herbicida é um flagrante desrespeito à lei brasileira.
Também importantes foram os esclarecimentos da atual e do anterior Gerente-Geral da ANVISA, Ana Maria Vekic e Luiz Cláudio Meirelles. Ana explicou como funcionam os procedimentos de registro, classificação toxicológica e avaliação de perigo adotados pela agência (a monografia com dados de cada substância pode ser consultada no site da ANVISA). Meirelles, exonerado em nov/2012 quando denunciou esquema de corrupção na agência, afirmou que o 2,4-D pode formar dioxina (a substância mais perigosa já inventada pelo homem), e que não há nenhum laboratório no Brasil capaz de detectar sua presença. Para ele, não pode haver liberação, num contexto precário de vigilância e controle, como é o brasileiro.
Outro ponto discutido foi o funcionamento e estrutura da CTN-Bio. O professor de filosofia Pablo Rubén Mariconda (USP) enfatizou o caráter ético das decisões da CTN-Bio, que deveria seguir o princípio da precaução, e sugeriu a criação de uma câmara de acompanhamento, para atuar em conjunto à comissão, com ênfase na Biossegurança. Também a professora de Direito Ambiental Solange Teles (MACKENZIE) mencionou os conflitos de interesse que envolvem alguns membros da comissão (apontados em reportagem da jornalista Verena Grass), sugerindo que eles preenchessem uma declaração onde poderiam expor suas ligações com as indústrias interessadas na aprovação das sementes. Solange propôs também a degravação das reuniões e que os dados sobre a saúde fossem abertos à população. Em sua opinião, a CTN-Bio deveria incorporar questões socioeconômicas nas decisões, procurar subsídios em estudos independentes, e estimular o uso de técnica menos agressivas ao ambiente, como o manejo de pragas.
A audiência não gerou nenhum resultado imediato, mas o MPF agora tem subsídios suficientes para tomar as medidas que julgar cabíveis ao caso. O mais importante a ressaltar do encontro é a importância da realização periódica de eventos desse tipo, para aprofundar o debate sobre temas tão relevantes à população. Por exemplo, mereciam audiências como essa as mudanças no Código Florestal, as demarcações de terras indígenas e áreas de conservação, o Código de Mineração, entre outros temas tão urgentes que estão sendo discutidos somente entre políticos e especialistas. O MPF cumpriu seu papel ao proporcionar o espaço para o debate e também ao transmitir ao vivo pela internet. No caso dos transgênicos, é extremamente importante que a sociedade participe, pois, ao contrário do que seus defensores propõem, eles não requerem apenas decisões técnicas. Como bem apontou a professora Solange, esse tipo de questão não é somente técnica, mas principalmente política.