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sábado, 4 de abril de 2015

Presos brasileiros são tratados com chá alucinógeno

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http://amazonia.org.br/2015/04/presos-brasileiros-sao-tratados-com-cha-alucinogeno/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+2+de+abril+de+2015


Presos brasileiros são tratados com chá alucinógeno

Presos dançam com religiosos após uso de ayahuasca em Ji-Paraná (RO)
À medida em que o céu da noite envolvia a cidade na bacia amazônica no Brasil, a cerimônia no templo ao ar livre começava de uma forma bem simples.
Dezenas de adultos e crianças, todos vestidos de branco, ficaram em fila. Um sacerdote entregou a cada um deles uma xícara de ayahuasca, uma bebida alucinógena com aspecto barrento. Eles engoliram; alguns vomitaram. Hinos foram cantados. Mais ayahuasca foi consumida. À meia-noite, os membros da congregação pareciam estranhamente energizados. Então a dança começou.
Estes rituais são comuns por toda a Amazônia, onde a ayahuasca vem sendo consumida há séculos, e religiões inteiras cresceram em torno do preparado psicodélico. Mas a cerimônia foi diferente numa noite deste mês: entre os que bebiam do decanter do sacerdote estavam presidiários, condenados por crimes como assassinato, sequestro e estupro.
“Finalmente estou percebendo que eu estava no caminho errado nesta vida”, disse Celmiro de Almeida, 36, que cumpre pena por homicídio em uma prisão a quatro horas dali, por uma estrada que serpenteia pela floresta. “Cada experiência me ajuda a me comunicar com a minha vítima para pedir perdão”, disse Almeida, que já tomou ayahuasca quase 20 vezes no templo.
A administração de um alucinógeno para detentos que saem em licenças curtas no meio da floresta tropical reflete uma busca contínua por formas de aliviar a pressão sobre o sistema carcerário brasileiro. A população carcerária do país dobrou desde o começo do século, para mais de 550 mil, sobrecarregando as prisões, já mal financiadas, com violações aos direitos humanos e rebeliões violentas que incluem até decapitações.
Uma das rebeliões mais sangrentas em prisões nas últimas décadas aconteceu na cidade próxima de Porto Velho, em 2002, quando pelo menos 27 detentos foram mortos no presídio Urso Branco. Na mesma época, o Acuda, um grupo pioneiro de luta pelos direitos dos presos em Porto Velho, começou a oferecer aos presos sessões de ioga, meditação e Reiki, um ritual de cura que direciona energia das mãos do praticante para o corpo do paciente.
Dois anos atrás, os terapeutas voluntários do Acuda tiveram uma nova ideia: por que não dar ayahuasca aos detentos também? A bebida amazônica, que geralmente é feita da mistura e fervura de um cipó (Banisteriopsis caapi) com uma folha (Psychotria viridis), está crescendo em popularidade no Brasil, Estados Unidos e outros países.
O Acuda teve problemas para encontrar um lugar onde os presos pudessem beber ayahuasca, mas finalmente foram aceitos por uma ramificação do Santo Daime, uma religião brasileira fundada nos anos 1930 que mistura catolicismo, tradições africanas e os transes de comunicação com espíritos popularizados no século 19 por um francês conhecido como Allan Kardec.
“Muitas pessoas no Brasil acreditam que os presos devem sofrer, suportando a fome e a perversidade”, disse Euza Beloti, 40, psicóloga do Acuda. “Esse pensamento reforça um sistema em que os presos voltam à sociedade mais violentos do que quando entraram na prisão.” No Acuda, diz ela, “nós simplesmente vemos os presos como seres humanos com a capacidade de mudar”.
Darci Altair Santos da Silva, 43, operário da construção civil que cumpre pena por abuso sexual de uma criança menor; em Rondônia, presos são tratados em cerimônia religiosas com o chá alucinógeno ayahuasca
Beloti e outros terapeutas testam os aspectos dessa filosofia em um prédio dentro de um vasto complexo prisional em Porto Velho. Os juízes e administradores dos presídios permitem que cerca de dez detentos de prisões de segurança máxima da cidade vivam no prédio do Acuda, uma antiga instalação militar. Dezenas de outros presos de penitenciárias vizinhas frequentam as sessões de terapia do Acuda todos os dias.
Dentro do complexo, os internos praticam meditação. Eles fazem massagem ayurvédica uns nos outros. Eles aprendem habilidades como manutenção de motos. A oficina de carpintaria dá a eles acesso a ferramentas como serrotes, martelos e furadeiras. E eles cuidam de uma horta, plantando verduras e legumes e as plantas usadas para fazer ayahuasca.
Tratar presos com drogas psicodélicas em qualquer lugar é visto como algo raro. Em um experimento de curta duração nos Estados Unidos na década de 1960, pesquisadores da Universidade de Harvard, sob a direção do psicólogo Timothy Leary, deram psilocibina, uma droga derivada de cogumelos psicoativos, para detentos em uma prisão em Concord, Massachusetts.
“Certamente é uma novidade para os presos, mas a ayahuasca tem um grande potencial porque, em condições ideais, pode produzir uma experiência transformadora em uma pessoa”, diz Charles S. Grob, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da UCLA, que conduziu pesquisas extensas sobre a ayahuasca.
Grob alertou que há riscos. A bebida pode exacerbar as doenças de pessoas tratadas com medicamentos antipsicóticos para esquizofrenia ou transtorno bipolar. A ingestão de drogas como cocaína ou metanfetamina antes de consumir ayahuasca também é perigosa.
“Isso seria um desastre porque o indivíduo poderia ter uma reação hipertensiva que levaria a um derrame”, disse Grob.
Os supervisores do Acuda, que obtêm permissão de um juiz para levar cerca de 15 presos uma vez por mês para a cerimônia no templo, dizem que estão conscientes dos riscos da ayahuasca, comumente chamada de Daime no Brasil ou simplesmente de chá. Ao mesmo tempo, os terapeutas do Acuda consomem a bebida com os internos e, de vez em quando, com o guarda de prisão que se voluntaria para acompanhar o grupo.
“É assim que deve ser”, disse Virgílio Siqueira, 55, policial aposentado que trabalha como guarda no complexo prisional que inclui o Acuda. “É gratificante saber que podemos sentar aqui na floresta, beber nosso Daime, cantar nossos hinos, viver em paz.”
Muitas pessoas no Brasil, onde políticos conservadores estão ganhando força enquanto prometem combater o crime em um país com mais homicídios por ano do que qualquer outro, ainda não estão convencidas. Terapeutas voluntários do Acuda disseram que têm clientes em seus consultórios particulares que não concordam em dar esse tipo de atenção para os condenados. Alguns parentes de vítimas que sofreram nas mãos dos presos do Acuda argumentam que o projeto é injusto.
“Onde estão as massagens e a terapia para nós?”, pergunta Paulo Freitas, 48, gerente de uma fábrica de couro cuja filha de 18 anos, Naiara, uma estudante universitária, foi sequestrada, estuprada e assassinada em Porto Velho em 2013 por um grupo de homens, um crime que deixou muitas pessoas neste canto da Amazônia perplexas.
Freitas disse ter ficado chocado ao saber recentemente que um dos homens condenados pelo assassinato de sua filha deveria ser transferido em breve para os cuidados do Acuda. “Isso é absolutamente revoltante”, disse ele. “Os sonhos da minha filha foram extintos por esse homem, mas ele vai ter permissão para ir para a floresta e beber o seu chá.”
Outros questionam se o consumo de Daime pode ajudar a reduzir as taxas de retorno à prisão. Luiz Marques, 57, economista que fundou o Acuda, disse que a organização espera reduzir a reincidência, mas ele enfatizou que o objetivo mais imediato é a “expansão da consciência” dos presos em relação ao certo e o errado.
No templo de Ji-Paraná, os presos pareciam experimentar uma série de reações depois de beber a ayahuasca. Sentados em cadeiras de plástico de jardim sob um telhado com telhas à mostra, alguns pareciam impassíveis. Outros pareciam perdidos em contemplação. Um estava constantemente aos prantos, como se demônios estivessem à porta. Todos eles cantavam a plenos pulmões quando o ritmo dos hinos ficava mais intenso.
“Somos considerados o lixo do Brasil, mas este lugar nos aceita”, disse Darci Altair Santos da Silva, 43, operário da construção civil que cumpre pena por abuso sexual de uma criança menor de 14 anos. “Eu sei que o que eu fiz foi muito cruel. O chá me ajudou a refletir sobre este fato, sobre a possibilidade de um dia poder encontrar a redenção.”
Fonte: The New York Time
Tradução: Eloise De Vylder/ UOL

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Política de saúde para álcool e outras drogas: tratamento ou salvação?

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/-Politica-de-saude-para-alcool-e-outras-drogas-tratamento-ou-salvacao-/4/31622

Política de saúde para álcool e outras drogas: tratamento ou salvação?

A questão da participação das Comunidades Terapêuticas como atores no tratamento das dependências de álcool e outras drogas tem sido um nó para nossa polít


Rita de Cássia de A. Almeida (*)
Arquivo
A questão da participação das Comunidades Terapêuticas como atores no tratamento das dependências de álcool e outras drogas tem sido um nó para nossa política de saúde mental.  Longos e árduos anos de debates, trabalho e militância ativa de familiares, trabalhadores e usuários culminaram da desconstrução progressiva (e que ainda está em curso) de um modelo de tratamento que sempre priorizou e valorizou as longas internações e o isolamento social. Assim sendo, a noção de que as Comunidades Terapêuticas têm se configurado como um passo atrás naquilo que a Reforma Psiquiátrica Brasileira conquistou ao longo das últimas décadas precisa ser considerada, para que não cometamos os mesmo erros de outrora.

Mas além de reinaugurar o isolamento sócio familiar como método de intervenção, as Comunidades Terapêuticas, posto que a grande maioria delas é coordenada e mantida por instituições religiosas, criam uma delicada confusão entre tratamento e salvação. Por considerar que, para ocorrer o tratamento, a salvação espiritual e a crença ou aceitação de Deus/Jesus sejam fundamentais, grande parte dessas instituições se pautam em discursos morais e religiosos que não deveriam ser confundidos com o tratamento em si.

Dias atrás ministrei algumas aulas em uma pós-graduação em saúde mental e, dada a ementa proposta no módulo, o tema das Comunidades Terapêuticas foi inevitável. Na turma havia alunos que, inclusive, trabalhavam nessas instâncias, o que enriqueceu e acalorou bastante as discussões. A defesa pela presença das Comunidades Terapêuticas no cuidado de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas se pautou basicamente na seguinte premissa: elas funcionam em muitos casos.

Meu percurso de 17 anos trabalhando e militando no campo da saúde mental do SUS tem mostrado que as vias possíveis de recuperação e tratamento dos casos de dependência de drogas são múltiplas e diversas. Conheço pessoas que se recuperaram tratando no CAPS ou em outro tipo de serviço ambulatorial. Conheço casos em que a participação em grupos de autoajuda, do tipo AA e NA foram suficientes, sem nem mesmo a necessidade de um serviço de saúde de suporte.
 
Também acompanhei casos em que uma internação em Hospital Geral, numa Comunidade Terapêutica ou mesmo em um Hospital Psiquiátrico, teve efeito terapêutico. Mas também acompanhei casos onde a vinculação da pessoa a uma religião com códigos morais mais rígidos foi suficiente para uma mudança de comportamento, e casos onde uma eventual prisão ou intervenção judicial (muitas vezes por conseqüência dos efeitos ou do envolvimento com as drogas) também serviu como elemento transformador. Também não é incomum que o aparecimento de uma doença grave, que coloca o sujeito diante da morte, produza um efeito terapêutico que todas as tentativas anteriores não produziram. Quem não assistiu ao filme Clube de Compras Dallas, que assista! E vale lembrar, que a história de Ron, que faz uma virada em sua vida depois de contrair HIV, não é ficção, é real.
 
Também recomendo o Especial produzido pela HBO: Verdade Fora de Disputa, programa estrelado por Mike Tyson e dirigido por Spike Lee, onde Tyson conta sua trajetória de vida, incluindo seu problema relacionado com álcool e cocaína. No relato do pugilista sua prisão em 1992 foi a responsável pela conversão ao Islamismo e pela subsequente libertação das drogas. O depoimento de Tyson é fundamental para compreendermos a diversidade de discursos que podem figurar como “salvadoras” para o sujeito diante da dependência de drogas. Ou seja, assim como Jesus, Alá também pode salvar.

O fato é que ninguém pode menosprezar ou questionar o efeito terapêutico de nenhuma intervenção ou evento, especialmente quando o próprio sujeito significa tal evento como seu ponto de virada, como sua cura ou mesmo salvação. E quanto mais o adoecimento do sujeito é atravessado pelo campo da subjetividade, tanto mais essas significações são importantes no processo de tratamento e cura.

Num dos CAPS em que atuo, acompanhamos por anos o caso de M., uma dependente grave (álcool, cocaína e crack) para a qual já tínhamos tentado todas as intervenções possíveis, inclusive as de internação. Seu problema com as drogas a levou a cometer pequenos delitos e a se envolver com o tráfico para sustentar o próprio vicio, motivo pelo qual ficou detida por duas vezes. M. teve dois filhos que foram praticamente criados pela avó (mãe de M.). Uma de suas filhas R., que vimos crescer durante o processo de tratamento, mostrou-se tão madura que, quando adolescente, acabou por assumir funções de cuidar da mãe, ao invés de ser cuidada por ela.  O tratamento de M. seguia entre pequenas melhoras e grandes e nocivas recaídas até que R. (filha de M.) engravidou e deu a luz a uma criança com problemas graves de saúde. R. que se mostrava tão madura e responsável não reagiu bem à situação e caiu em depressão. Quando achávamos que M. sucumbiria diante do novo desenho familiar, eis que ela simplesmente renasce, ressignifica completamente sua posição diante das drogas e não só se afasta delas, como passa a ser aquela que vai cuidar do neto e da filha. Na construção de sentido de M., seu neto nasceu com problemas exatamente para que ela se libertasse das drogas.

Podemos nos reportar ou construir uma dezena de teorias “psi” para explicar como se deu a entrada deste bebê na dinâmica de M. e sua família, e de como isso fez com que a droga deixasse de ocupar o centro da vida de M., entretanto, não podemos de forma nenhuma menosprezar a construção feita por ela: que a doença do neto foi sua porta de saída das drogas. Quem sou eu, ou quem somos nós para questionar e desprezar a construção de M.? Quem somos nós para questionar o sentido que Tyson deu para a sua prisão e conversão ao Islamismo? Quem somos nós para menosprezar quando alguém nos diz que Deus ou Jesus lhe “tirou das drogas”? Quem somos nós para questionar alguém que se diz grato por ter contraído uma doença terminal ou ter sido preso, já que foi esse seu ponto de virada para o tratamento?

Não. Ninguém tem o direito de descontruir a construção de ninguém, especialmente quando ela é produto da dor, do sofrimento, do desespero ou do desejo de se curar. Sendo assim, não podemos negar que o discurso da salvação, explorado por grande parte das Comunidades Terapêuticas, tenha seu efeito de construção significante para algumas pessoas. No entanto, uma coisa é dizer que o discurso da salvação pode ser uma das portas de saída para o problema das drogas, outra coisa é assumir o discurso da salvação como norte dentro da política pública sobre álcool e outras drogas. Ou seja, o discurso da salvação ou da crença pode ter efeito terapêutico para algumas pessoas (e é obvio que tem), mas isso não quer dizer que possamos sustentar dentro da política de saúde mental, terapêuticas baseadas nesses tipos de discurso.

O discurso da salvação ou da crença podem atravessar as pessoas que fazem uso do SUS, mas não podem nortear políticas do SUS. Da mesma maneira, posso considerar que o nascimento do neto de M. com uma doença grave tenha tido efeito terapêutico em sua luta contra a dependência, mas não posso propor que “ter um neto com doença” seja diretriz política para tratamento de drogas. Assim como não podemos propor como política de drogas, a prisão, infecção por HIV e a conversão ao Cristianismo ou ao Islamismo.

Por isso, advogar que as Comunidades Terapêuticas devam participar da política de álcool e outras drogas porque sua estratégia de salvação e de conversão funciona para muitos casos, é um argumento muito frágil. Para participar do SUS é preciso muito mais do que isso, é preciso se submeter aos seus princípios e respeitar suas instâncias. Que alguns desejem e até conquistem a salvação, tudo bem! Mas que isso não seja feito em nome do SUS, já que a missão do SUS é o tratamento e seus desdobramentos: a prevenção e a reabilitação ou reinserção psicossocial.
 
(*) Psicóloga/psicanalista da Rede de Saúde Mental do SUS
 


Créditos da foto: Arquivo




Paulo Roberto Stockler - 17/08/2014
Vago, o artigo, sobre como a influência do pessoal das Comunidades Terapêuticas iria nortear política pública de saúde, em relação à adicção. Participando, recentemente, de curso sobre Saúde Mental, patrocinado pela AADOM, em Curitiba, o que se disse sobre o assunto, foi justamente o contrário. O SUS estaria regulando às comunidades, no sentido de descaracterizá-las como "milagreiras"e estipulando critérios científicos mínimos, considerando o que é bem colocado no artigo sobre a falta de tratamento protocolar seguramente eficiente quanto a percentual de resultados positivos no controle de doença, ou seja, preservando as construções dos indivíduos que beneficiam-se, no caso dessas comunidades, sem que se "escancare" a porta para legalização de funcionamento destas. Sendo assim, não me parece procedente a preocupação quanto a ingerência delas na formação de políticas públicas para o setor, muito pelo contrário. Complementando a crítica ao texto, que pretende ser construtiva, AA e NA são grupos de ajuda mútua, não de autoajuda.

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sábado, 28 de junho de 2014

Drogas: tenente da PM propõe legalização

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http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=17776


Drogas: tenente da PM propõe legalização

Captura de tela de 2014-06-25 21:06:13
Na Bahia, Danillo Ferreira estuda Filosofia, atualiza constantemente um blog, não cogita deixar polícia. “Sou minoritário, mas sei que estamos enxugando gelo”, diz
Entrevista a Renan Truffi, na Carta Capital
Ter que sair às ruas por pouco mais de três anos para prender traficantes e combater os pontos de venda de drogas fez o tenente Danillo Ferreira, de 28 anos, da Polícia Militar na Bahia, refletir sobre o seu papel como agente do Estado na guerra contra as drogas. “Todo policial sabe que a gente enxuga gelo nessa questão”, resume, antes de completar com uma conclusão sobre o assunto: “É impossível proibir o consumo de qualquer tipo de substância em uma democracia”.
Apesar de ser policial militar, Danillo Ferreira tornou-se, há um ano, porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition (LEAP) no Brasil, uma organização internacional que reúne juízes, promotores, policiais e agentes penitenciários a favor da legalização de todas as drogas, com o objetivo de reduzir o número de mortes e impedir o desenvolvimento de estruturas criminosas que nascem com o tráfico.
“(O patrulhamento) foi uma das fontes de convencimento de que essa atual política contra drogas é ineficiente. Hoje você prende um traficante e todo o estoque dele. Digamos que ele saia depois de um mês. Em algumas semanas, ele consegue ter o mesmo estoque de novo. Que empresa, economicamente falando, consegue reaver todo seu estoque dentro de um mês? Você olha isso e pensa: ‘Estou lidando com algo que não tem controle’. É algo irracional o que estamos fazendo. O que aquilo está gerando? Tem gerado toda uma estrutura criminosa necessária para resistir à repressão. Você tem tráfico de armas, aliciamento de menores”, argumenta.
O convite para integrar o LEAP veio depois que Ferreira chamou atenção da juíza Maria Lucia Karam, uma das diretoras da organização, com opiniões publicadas em seu blog, chamado Abordagem Policial. O tenente, que se considera de esquerda, defende em seus textos que “modificar a política de drogas no Brasil é essencial para poupar a energia que as polícias poderiam utilizar para questões essencialmente policiais”. Apesar das opiniões incomuns para um PM, ele garante que nunca foi censurado pela corporação. Pelo contrário, foi convidado para assumir o setor de Comunicação Social da PM para cuidar das redes sociais da polícia militar baiana. Os textos, porém, não agradam toda a estrutura hierárquica.
De origem humilde, Danillo Ferreira trabalhou cortando carne em açougue na adolescência, mas agora cursa Filosofia e não pensa em largar a Polícia Militar. “Quanto a gente fala de legalizar todas as drogas, a questão é que há todo um discurso que tenta impor esse medo: ‘Olha, nós vamos viver numa Cracolândia geral’. Não se trata disso. Trata-se, na verdade, de fazer com que os danos sejam reduzidos. Os EUA, com bilhões de dólares já investidos nesta guerra, não conseguiram (acabar com o tráfico)”, diz. “Repressão não é possível”.
Leia a seguir entrevista com o tenente Danillo Ferreira:
CartaCapital: Quando você ingressou na PM e por quê?
Danillo Ferreira: Eu entrei na PM em 2006, tinha 20 anos. Na verdade, eu entendia muito pouco do universo da segurança pública e das polícias. A minha relação com polícia era a de um cidadão que percebia que havia problemas na atuação, mas que nunca tinha procurado se aprofundar sobre o tema. Embora eu sempre tenha, de algum modo, me identificado com um posicionamento mais à esquerda, de (a entrada na academia) influenciou os meus posicionamentos e entendimentos sobre a questão policial, mesmo que hoje eu tenha até uma nova visão sobre a esquerda. Isso tem mudado pra mim, mas em geral pode ser dito que sou de esquerda.
Por que você quis ser policial?
Eu prestei vestibular para Direito e não passei. Foi quando pintou a possibilidade de fazer a prova da academia da Polícia Militar. Naquela época, tinha afinidades com o Direito. E pela academia eu me tornaria um operador do Direito de uma maneira muito direta, muito pratica. Acabei fazendo concurso e ingressei na polícia.
Você já se considerava de esquerda antes de entrar na PM?
Nas polícias, na verdade, o indivíduo é colocado em diversos dilemas o tempo todo, É questionado sempre sobre contradições morais e éticas não só no ambiente policial, mas na relação entre policial e cidadão. Então, se por um lado já tinha um pensamento progressista antes de entrar na PM, refletir sobre esses dilemas me fizeram ir em busca de pessoas que pensassem a polícia e falassem sobre essas contradições. Depois disso, teve a criação do blog Abordagem Policial, no qual eu acabei dialogando com muitas pessoas, de acadêmicos a policiais de outros estados. Isso também me ajudou muito a me definir em relação a todos esses temas que tocam a segurança pública.
Como é ter essas opiniões dentro da PM? Você já foi questionado pelas coisas que defende ou pelos textos que você publica no blog?
O blog Abordagem Policial começou em 2007, quando eu ainda estava na academia de polícia. Mais do que de esquerda, eu sou blogueiro. Sempre prezei muito pela liberdade de opinião, pelo respeito ao outro. Isso está acima do posicionamento político-ideológico. E, vendo as discussões entre os policiais nos corredores da academia, eu e alguns colegas percebemos que essas assuntos poderiam incluir outros atores nas discussões. Aos poucos, o blog foi crescendo. Na época, acadêmicos estranhavam o fato de que policiais pudessem estar se manifestando na internet, até porque ainda hoje é proibido legalmente. O Código Penal Militar proíbe que o policial militar faça críticas a superiores ou a autoridades políticas. Eu posso votar, mas não posso criticar. Ainda estamos sob essa sombra legal.
O Abordagem Policial cresceu, acabei sendo chamando pra palestrar. A Unesco fez um estudo e revelou o blog como um dos principais veículos sobre segurança do País (em 2009). E é claro que alguns posicionamentos meus chegam a incomodar policiais de todos os escalões. Tanto policiais da base como coronéis são diametralmente contrários ao que estou dizendo. Ao mesmo tempo, desde que comecei o blog, nunca tive intervenção de nenhum comandante no sentido de que o blog não deveria ser feito ou de que não prosseguisse. No Rio de Janeiro, isso aconteceu com alguns policiais, mas aqui tive essa tolerância por parte dos meus superiores, até tive incentivos em alguns momentos, embora tenha essa questão legal. É algo que está sempre em suspenso: a possibilidade de punição é uma realidade.
Você estuda Filosofia. Pensa em sair da polícia?
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É, eu estudo filosofia. A princípio não tem nada que me faça pensar em sair da polícia. Estou prestes a lançar meu primeiro livro. Eu gosto de escrever e só sairia se fosse pra me tornar escritor, mas, como a gente sabe, a vida de escritor no Brasil é difícil.
Como surgiu o convite para o LEAP?
Eu encontrei a LEAP por acaso. Minhas opiniões já se assemelhavam muito com as da organização, então, fiz um cadastro no site e comecei até a escrever mais sobre o tema no blog. Aí a juíza Maria Lucia Karam, depois de ver os meus textos e a repercussão deles, me convidou para ser porta-voz.
Como foi aceitar esse convite? Você teve que pedir autorização da PM por ser uma organização em favor da legalização de todas as drogas?
Eu não pedi autorização a ninguém. Na verdade, essa (legalização das drogas) é uma opinião minoritária não só na polícia, mas na sociedade toda. De alguma forma, a polícia é uma reprodução da sociedade. É bom frisar, claro, que há elementos culturais e organizacionais que potencializam certas condutas. Mas, veja, de certo modo, a polícia é uma reprodução daquilo que a própria sociedade permite que ela seja ou do que ela é. Então, a guerra às drogas ou o culto da guerra às drogas é quase consensual por ideologia ou desconhecimento. A resistência que há na sociedade é a resistência que há na polícia. No blog, 80% dos comentários são contra a legalização. Dizem que é preciso endurecer e etc. Acho que não tem muita diferença entre falar para o meu superior sobre legalização das drogas e falar para a minha mãe, por exemplo. Os dois me olham com o mesmo espanto.
Você chegou a atuar na rua? Por quanto tempo?
Fique entre três e quatro anos na rua, e hoje estou trabalhando nas mídias sociais da PM na Bahia por causa desse destaque com o blog. Em dado momento, um superior me perguntou: ‘É possível fazer algo parecido com a polícia?’ Eu falei que sim e, hoje, embora sejamos a quinta polícia em termos de tamanho, somos a segunda página em número de fãs no Facebook. Só estamos atrás da PM de São Paulo. Até caso de estupro a gente já atendeu na página da PM. Isso tem sido bastante satisfatório.
Você participou de ações contra traficantes e de apreensão de drogas?
Sim, essa foi inclusive uma das fontes de convencimento de que essa atual política é ineficiente. Os policiais, de maneira geral, sabem. Nós estamos enxugando gelo. Hoje, você prende um traficante e todo o estoque dele. Digamos que ele saia depois de um mês. Em algumas semanas, ele consegue ter o mesmo estoque de novo. Que empresa, economicamente falando, consegue reaver todo seu estoque dentro de um mês? Você olha isso e pensa: ‘Estou lidando com algo que não tem controle’. É algo irracional o que estamos fazendo. Claro, como policial, minha obrigação é realizar o procedimento adequado, respeitando os preceitos que a lei estabelece. Outra coisa é você refletir sobre o que está acontecendo e quais são as consequências daquilo. O que aquilo está gerando: toda uma estrutura criminosa necessária para resistir à repressão. Você tem tráfico de armas, aliciamento de menores…
Você diz uma coisa interessante no blog. Além das vítimas de aliciamento do tráfico e dos usuários, nós estamos enxugando gelo com a vida de policiais…
Sim. Para que tem servido a guerra às drogas? Para que as classes inferiores da sociedade se trucidem. Então 90% dos PMs são oriundos das classes inferiores e você tem esses policiais sendo responsáveis por um combate infrutífero. Morte só gera degradação e o objetivo, que é impedir o consumo, não é realizado.
O que você acha da nova lei antidrogas?
No começo do governo Dilma, o (ex- secretário Nacional de Justiça) Pedro Abramovay sugeriu: ‘Nós temos que caminhar para evitar que aquele jovem pego com alguma quantidade droga, mas não armado, não seja preso’. Qualquer coisa que não vá na direção da legalização e de evitar a prisão é infrutífero e improdutivo. Nós temos um grande exemplo histórico que é o caso da Lei Seca nos Estados Unidos. O que fazemos hoje é muito semelhante ao que eles faziam no passado. O que temos hoje de organização criminosa é algo que reproduz o que eram as máfias de venda de bebida alcoólica. A nova lei antidrogas não ajuda em nada, só aprofunda esse cenário. Pior, a maioria da população entende até que foi pouco. O consenso geral é de que precisamos de leis mais duras, mais prisão, mais proibição.
No Brasil está crescendo a discussão em torno da legalização da maconha, mas o LEAP defende a legalização de todas as drogas, certo?
Veja, o principio básico é: todo indivíduo tem direito de fazer o que quiser com o seu corpo. Esse é um principio básico. Qual é a grande questão em torno da discussão sobre a legalização das drogas? O dano que a droga gera a terceiros. Então, por exemplo, a maconha é mais fácil de discutir. Eu desafio qualquer policial a dizer em quantas ocorrências alguém sob efeito de maconha estava cometendo qualquer tipo de crime. Eu passei quatro anos e nunca vi. Nesse sentido, aparentemente, a maconha é danosa apenas para quem a usa. Quando a gente fala de legalizar todas as drogas, a questão é que há todo um discurso que tenta impor esse medo: ‘Olha, nós vamos viver numa Cracolândia geral’. Na verdade, o que é preciso é discutir uma política que não incentive as drogas. Não se trata disso, mas de fazer com que os danos que as drogas causam, e todas as drogas causam danos, sejam reduzidos. Então, quando a gente fala que queremos a legalização de todas as drogas, estamos querendo que sejam desenvolvidas políticas para que os danos sejam reduzidos.
Nós temos uma política de sucesso no consumo de tabaco que foi negativada midiaticamente. E aí tem uma grande contradição, porque com o álcool isso não é feito. Nós temos um número avassalador de mortes no trânsito em função do álcool. A política do álcool também está com a mão errada. Os danos não estão sendo reduzidos. Há apenas uma legalização sem controle sobre os danos que o álcool pode gerar. Essa é a questão: o foco precisa ser mudado. Repressão não é possível. Os EUA, com bilhões de dólares já investidos nessa guerra, não conseguiram fazer isso. É impossível proibir o consumo de qualquer tipo de substância em uma democracia. Nem as ditaduras conseguem. Então, é isso: admitir a impossibilidade da repressão e partir para a redução de danos.
Legalizar todas as drogas faria com que a polícia pudesse focar sua atenção em outros problemas?
É claro que uma política desse tamanho não se faz do dia para a noite. Não é baixando um decreto legalizando todas as drogas que todos os problemas serão resolvidos. É preciso caminhar em estrutura de saúde, em estrutura de direcionamento social. Tem uma séria de medidas que são necessárias. O foco é garantir que não precisemos combater armados o consumo de uma substância. A gente acaba criando uma estética, um aparato bélico para a repressão que transforma a estrutura militar. Isso não é só Polícia Militar. Guarda Municipal e Polícia Civil agem da mesma forma. Aí a gente esquece todo aquele trabalho comunitário de aproximação da sociedade com o cidadão, que é o grande insumo da atividade policial. Quanto mais relacionado e intrincado na sociedade, mais o policial tem informações sobre o que necessita para garantir segurança de uma comunidade.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Documentário: Mulheres ‘mulas’

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79725

Documentário: Mulheres ‘mulas’

Adital
O Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC) lançou recentemente o documentário "Mulheres mulas: vítimas do tráfico e da lei”, que relata a problemática e trajetória das mulheres no tráfico internacional de drogas.
A série documental mostra que as mulheres mulas são tão vítimas do tráfico de drogas quanto criminosas. Os vídeos relatam ainda a vulnerabilidade dessas mulheres, o que favorece sua entrada no submundo do tráfico de drogas e pessoas; a desigualdade de gênero e as sentenças criminais desproporcionais que as mulheres recebem quanto condenadas.
O ITTC promoveu debates durante o lançamento da série documental sobre novas estratégias para viabilizar tratamentos mais humanos e penas mais adequadas para os delitos das mulheres ‘mulas’. A série foi exibida pelo ITTC, em São Paulo, na semana passada. Durante esta semana, o ITTC exibirá, em seu site (WWW.ittc.org.br) os vídeos, emtre depoimentos e opiniões de entidades e organizações sobre a temática.
Assista as entrevistas e depoimentos para a série documental:
http://www.youtube.com/watch?v=Tu8nWgc4F8Q



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