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sábado, 28 de junho de 2014

Expulsos das ruas

ag pública
http://apublica.org/2014/06/expulsos-das-ruas/

Expulsos das ruas

Em Belo Horizonte, população de rua é vítima da repressão às manifestações e de práticas de “limpeza da cidade” – pertences pessoais são recolhidos pela prefeitura
No dia de abertura da Copa do Mundo, 12 de junho, Rômulo Félix surgiu nas telas de uma emissora de televisão regional sendo arrastado pelo chão por um policial militar nas proximidades da Praça da Liberdade, cartão-postal da capital mineira.
Morador de rua é arrastado durante protesto em BH
O morador de rua, negro, 59 anos, há oito vivendo nas ruas de Belo Horizonte, estava no trajeto do protesto contrário à Copa do Mundo quando eclodiu o conflito entre policiais e manifestantes. Rômulo diz que foi agarrado pelo PM quando tentou defender uma jornalista. Foi preciso que uma conhecida, a produtora cultural Sílvia Andrade, interviesse para que o homem fosse liberado pela PM: “Em questão de segundos, o Rômulo estava sendo levado pela polícia. Ele estava sendo arrastado muito violentamente e chutado por vários policiais. Pedi para levá-lo para casa porque era meu amigo. Foi preciso que o Alberto-Luiz [tenente-coronel e chefe da comunicação da PM de Minas Gerais] mandasse os policiais pararem de bater”, conta. Sílvia conheceu Rômulo através do “Viaduto Ocupado”, movimento de ocupação do espaço do viaduto Santa Tereza, no Centro de BH, ponto tradicional de reunião de pessoas em situações de rua, da cultura do Hip-Hop e de movimentos sociais.
Outro morador de rua não teve a mesma “sorte” de Rômulo, defendido pela amiga. O homem de cerca de 30 anos, cuja identidade foi preservada, foi detido horas depois junto a outros manifestantes próximo à Praça da Estação, no centro de BH, e levado para a 6ª Delegacia Noroeste, no bairro Alípio de Melo – local definido pela polícia e diversas entidades, dentre elas, o Ministério Público de Minas Gerais, para receber os envolvidos em manifestações. “Ele chegou à delegacia com machucados no rosto. É um morador de rua bastante conhecido por quem tem escritório no Centro da cidade. Como ele tem transtornos mentais, não fala muito claramente e, quando vê tumulto, ele corre. Provavelmente viu a polícia, correu e os policiais acabaram o pegando na confusão”, descreve a advogada popular Fernanda Vieira, um dos defensores voluntários de plantão na delegacia nesta noite. “A polícia argumenta que todos os que estavam detidos participavam da manifestação, mas ele estava na delegacia sem saber que estava ali. Você perguntava e ele mais murmurava que falava”, relata a advogada. O morador de rua foi liberado somente após as 3h da manhã, junto a outros jovens que prestaram depoimento à Pública e questionaram arbitrariedade nas detenções (leia os depoimentosaqui e aqui). A ativista Karinny Magalhães, da Mídia Ninja, que denunciou tortura policial, também estava na mesma delegacia. Ela e mais dois jovens foram transferidos ao sistema prisional e liberados na madrugada de sábado.
Foi justamente o receio que a realização da Copa do Mundo em Belo Horizonte – e a repressão às esperadas manifestações – intensificasse as violações de direitos da população de rua que levou diversas entidades, dentre elas o Ministério Público Estadual, Tribunal de Justiça, Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População de Rua e Catadores de Materiais Recicláveis (CNDDH), defensores públicos e advogados voluntários, a manter plantões durante o mundial.
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Morador de rua dorme no Centro de Belo Horizonte a poucos metros de onde ocorre uma manifestação anti-Copa. (Imagem: Bruno Fonseca/Agência Pública)
Em nota à imprensa, a Polícia Militar comunicou que deteve 12 pessoas nos protestos do dia 12, dentre eles um menor, e que dois dos detidos faziam parte de um grupo que atacou e virou uma viatura policial próximo à Praça da Liberdade. Sobre as manifestações do dia 14, a PM informou que deteve 26 pessoas, dentre eles quatro menores, e apreendeu uma arma branca e material explosivo (coquetel molotov). A PM acusa os detidos de incitação ao crime, dano e furto. A corporação já havia afirmado no final de maio que poderia utilizar a força para remover moradores de rua do perímetro Fifa ao redor do estádio do Mineirão.

Documentos comprovam recolhimento de pertences pessoais

Não são apenas as manifestações durante a Copa que preocupam os defensores da população de rua em todo país. O CNDDH divulgou na última semana um relatório nacional de “violações de direitos da população em situação de rua nos meses que antecedem a realização da Copa do Mundo”. No documento, são denunciadas pelo menos três atuações consideradas ilegais de recolhimento de pertences realizadas pela Prefeitura de BH com acompanhamento da Polícia Militar no período anterior ao Mundial. O texto descreve a retirada de “roupas, documentos, cobertores, alimentos e instrumentos de trabalho”. As ações aconteceram no Viaduto da Avenida Francisco Salles, Viaduto da Avenida Silva Lobo, importantes vias de acesso ao Centro, e na Rua Alagoas, na Savassi. O relatório do CNDDH também denuncia violações em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre. Em SP, o texto acusa limpeza urbana e remoção forçada de cerca de 90 pessoas em via de acesso à Arena Corinthians; no RJ, há a denúncia de remoção forçada de pessoas de regiões próximas ao estádio do Maracanã que teriam sido encaminhadas para abrigos, onde já existem denúncias de superlotação, precariedade das instalações e falta de segurança.
Em Belo Horizonte, a remoção de pertences de moradores de rua foi proibida em dezembro de 2012, quando o TJMG antecipou tutela (decisão temporária, mas com efeito imediato) impedindo que a Prefeitura ou o Estado realizassem os recolhimentos, sob multa de R$ 10 mil diária. A decisão foi resultado de uma Ação Civil Pública ajuizada pelo Coletivo de Defesa de Direitos Humanos Margarida Alves. Em julho de 2013, embora a decisão tivesse sido mantida pelo TJMG, o mesmo coletivo Margarida Alves denunciou que os recolhimentos continuavam a acontecer, apontando sobretudo o período dos jogos da Copa das Confederações.
Em dezembro do mesmo ano, tendo em vista que o texto da primeira decisão do TJMG impedia “especialmente a apreensão de documentos de identificação e de pertences necessários à sobrevivência”, a Prefeitura publicou uma instrução normativa que determinou quais seriam esses objetos necessários à sobrevivência: “bens móveis lícitos que o cidadão em situação de rua seja capaz de portar consigo em um só deslocamento e sem auxílio de veículos transportadores, tais como peças de vestuário, alimentos, documentos pessoais, bolsas, mochilas, receituários médicos, medicamentos, cobertores, objetos de higiene pessoal, materiais essenciais ao desenvolvimento do serviço/trabalho, utensílios portáteis, dentre outros”. A instrução ainda determinou que sempre que houver recolhimento o morador de rua deve receber um auto e informações de onde retirar seus pertences.
Para o professor de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Programa Polos de Cidadania, André Freitas, a instrução normativa da Prefeitura é ilegal. O Polos é uma das 11 entidades da sociedade civil que compõem o Comitê de Políticas para a População de Rua da Secretaria de Políticas Sociais da Prefeitura. “Participei da construção da Instrução Normativa representando a UFMG e a sociedade civil entendia que nenhum pertence deveria ser recolhido. Com isso, a Prefeitura de Belo Horizonte decidiu excluir a sociedade civil da decisão. O prefeito Marcio Lacerda vetou que a sociedade civil participasse do controle social dessas ações, entendendo que a participação popular é algo temerário. Esta normativa vem disciplinar justamente o que pode e não pode ser recolhido. Do nosso ponto de vista, sem políticas estruturantes e estruturadas, nenhum objeto deve ser recolhido”, disse o professor durante audiência pública sobre violação de direitos da população de rua realizada na Procuradoria Geral de Justiça no final de maio deste ano.
Além de não apoiar a instrução normativa, o Polos entrou com pedido de acesso à informação (LAI) e obteve os relatórios dos recolhimentos da Prefeitura de BH aos quais a Pública teve acesso. De acordo com os documentos, a Prefeitura vem recolhendo carrinhos de supermercado, colchões, colchonetes, cobertores, roupas, baldes, produtos de limpeza, vassoura, sombrinhas, dentre outros objetos, além de realizar o desmanche de “cabanas” de papelão. Em várias abordagens é impossível saber o que foi recolhido – os relatórios identificam apenas que os pertences foram retirados em invólucros com lacres. Há diversos episódios nos quais todos os objetos encontrados são removidos por não haver pessoas no momento da ação. Há ainda relatos dramáticos de pessoas em situação de rua que não aceitam o recolhimento e enfrentam os fiscais, como o de um homem, encontrado debaixo do viaduto da avenida Francisco Sales, que afirmou ser portador de HIV e ameaçou se cortar com um pedaço de copo de vidro quebrado. O relatório da Prefeitura relata que o homem acabou se ferindo na mão com o caco, foi imobilizado por policiais militares e levado a um centro de saúde. Ele retirou parte dos pertences recolhidos no dia seguinte. O relatório também transcreve fala de pessoas no entorno elogiando as ações e de moradores que gritam dos apartamentos “até que enfim”.
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No relatório da Prefeitura de BH, há diversos casos de recolhimento de pertences de moradores de rua que não estavam no local. É comum que carrinhos de supermercado, roupas e colchões sejam levados. (Imagem: reprodução Relatórios Referentes às Ações de Gestão do Espaço Público)
O CNDDH encomendou um parecer jurídico junto aos professores Tatiana de Souza, doutora em Direito Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas (PUC MG), e José Luiz Magalhães, doutor em Direito pela UFMG, que argumentam que a instrução normativa é inconstitucional e que o Estado vem praticando crime de subtração de coisa alheia móvel, segundo os artigos 155 e 157 do Código Penal Brasileiro. A partir do parecer, ainda em 2013, entidades redigiram uma carta aberta crítica à instrução e questionando falta de diálogo com a sociedade civil e as próprias pessoas em situação de rua. A Frente Mineira sobre Drogas e Direitos Humanos (FMDDH) também divulgou nota afirmando que a instrução é contraditória e classifica as ações como “higienistas”.

Insegurança na rua, denúncias de precariedade nos abrigos

Se nas ruas os desabrigados enfrentam violência durante as manifestações e recolhimento de pertences, nos albergues municipais não faltam queixas quanto à precariedade das instalações. A denúncia foi apresentada aos Ministérios Públicos Federal e Estadual pelos próprios moradores de rua, que formaram uma comissão e redigiram uma lista de queixas. “Há pouco tempo atrás nós tivemos uma epidemia de percevejos e uma tal de muquirana. Nós não temos culpa nenhuma, nós não criamos percevejos não. O albergue deveria adotar o mesmo procedimento de higiene que se usa em hospitais. Até porque são materiais que com certeza evitam a transmissão de doenças infectocontagiosas. Peço que seja criada uma comissão de pessoas responsáveis por estas questões e que faça visitas periódicas e presencie o estado em que somos assistidos”, declarou Marcos Soares, morador de rua e alberguista, perante promotores, advogados e outros colegas de rua que o aplaudiram. “Eu moro na rua há 4 anos e por não ser nascido em BH – e a pessoa que não é de BH não pode permanecer no albergue por mais de 5 dias – onde vou ficar? O outro albergue está lotado. A assistente não está aceitando quem não é de BH e nós temos que sofrer a humilhação de ter que dormir na rua”, denunciou Marcus de Jesus, também frequentador de albergues. Outros desabrigados denunciaram insegurança dentro dos albergues, chuveiros insuficientes e medo de transmissão de doenças, como tuberculose.
A reportagem conversou com outros usuários dos albergues em BH, que confirmaram denúncias de precariedade nos abrigos. Aparecido, de 53 anos, reclama que a situação é pior para os mais velhos, que viram reféns de outros moradores de rua mais jovens. Ele diz que já teve seus documentos roubados em três ocasiões. “Se você não coloca até os sapatos debaixo do colchão, levam tudo”, diz.
Moradores de rua e entidades de defesa de direitos humanos denunciam violações durante audiência no Ministério Público (Imagem: divulgação Cimos MPMG)
Moradores de rua e entidades de defesa de direitos humanos denunciam violações durante audiência no Ministério Público (Imagem: Cimos MPMG)
A Pública solicitou à Prefeitura de Belo Horizonte a listagem de todos os albergues, repúblicas e outros locais para atendimento ou direcionamento da população de rua de Belo Horizonte. A reportagem pediu ainda os gastos da Prefeitura com esses espaços e informações sobre contratos com empresas terceirizadas, quando existirem. Até o fechamento da reportagem não houve resposta. Um documento da Prefeitura de BH de 2011 ao qual a Pública teve acesso informa que há vagas para 819 pessoas somando todos os centros de acolhimento para população de rua, incluindo repúblicas – menos da metade dos 1.827 moradores de rua de acordo com o último censo da Prefeitura, publicado neste ano. A capacidade dos centros de acolhimento municipais em 2011 já era insuficiente mesmo em relação ao censo de 2005, quando a população de desabrigados era de 1.164 pessoas.
“Há uma busca por vagas nos serviços de abrigamento e as vagas são insuficientes e os abrigos não estão adequados. Você tem uma legislação nacional [resolução 09/de abril de 2013] que prevê a forma de organização desses abrigos e do serviço de abordagem, que vai falar de 50 pessoas por equipamento, e você tem equipamento aqui hoje com 400 pessoas”, avalia Samuel Rodrigues, coordenador do Movimento Nacional da População de Rua. Entretanto, na visão de Saulo concentrar os investimentos públicos na construção de abrigos é “enxugar gelo”. “Talvez se a gente abolisse essa modalidade e trabalhasse na modalidade de moradias sociais, de outra forma de pensar a moradia, você teria muito mais êxito com a própria recuperação das pessoas, com a reinserção social”, opina.
A Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social (SMAAS), responsável pelos programas voltados a crianças e adolescentes em situação de rua, respondeu à Pública afirmando que possui capacidade total para 45 adolescentes em três unidades na cidade, e confirmou que o Centro de Referência da Criança e do Adolescente Miguilim Cultural, inaugurado há mais de 15 anos, está com atividades suspensas desde 26 de março. Segundo a SMAAS, o motivo são uma série de arrombamentos ocorridos no período de janeiro a março de 2014 e a queda de um muro devido a obras no loteamento vizinho à unidade.
Contudo, não há apenas derrotas. Os movimentos de defesa da população de rua comemoram que os restaurantes populares da capital oferecem refeições grátis para os desabrigados. “Tem muita coisa a ser melhorada, ser cuidada, mas não podemos perder de vista aquilo que tem dado certo e o que deve se investir. Com todos os desafios, BH tem uma rede básica de atenção que aponta alternativas de saída das ruas”, comenta Claudenice Lopes, da Pastoral de Rua da Arquidiocese de BH, uma das entidades pioneiras na defesa dos moradores de rua na cidade. Ao longo das entrevistas com os diversos defensores da população de rua, foi praticamente um consenso que Belo Horizonte é uma das capitais com estrutura mais avançada de atendimento aos desabrigados, mesmo após as denúncias acima. O CNDDH de Belo Horizonte, por exemplo, foi o primeiro inaugurado no Brasil. “Evidente que BH tem uma política mais avançada, mas mesmo assim estamos muito aquém do se espera. A população de rua tanto de BH quanto de qualquer outro lugar tem uma demanda urgente de tudo”, afirma Saulo.

Violência que passa batido

A reportagem da Pública ouviu diversos relatos de violência da população de rua de BH – alguns deles, segundo as denúncias, teriam sido praticados por policiais. Em comum, a maioria dos desabrigados afirmam que não levaram os casos à frente, sem realizar Boletins de Ocorrência, e há episódios que não foram comunicados nem às entidades de defesa.
Um exemplo é a situação relatada pelo morador conhecido como Gil, no dia 11 de junho, véspera da abertura da Copa. Ele diz ter sido pressionado por policiais para remover uma faixa que havia amarrado a dois carrinhos de supermercado dias antes, na Praça Raul Soares, região Central de Belo Horizonte. “Falaram que eu não podia colocar faixa de reivindicações, protestos, esse tipo de manifestações. Aí eu falei assim: ‘nós somos moradores de rua, só precisamos ter nosso espaço’. Ele falou assim: ‘se vocês não tirarem esses carrinhos da rua, nós vamos colocar fogo em cada um, cada um desses carrinhos’, comenta.
Gil diz que amarrou a faixa para denunciar a repressão e o preconceito e relembra vários casos que precisou argumentar para não ter de deixar a praça. “Por que um americano pode vir aqui dar um pulo na fonte e eles não falam nada? Para eles é normal. Se eu pular, acham que a gente está depredando”, conta Gil. “Um dia até falaram para a gente: isso aqui é uma área restrita, vocês não pode ficar aqui, não. Estávamos no jardim na praça”, completa, apontando que outros jovens que faziam um piquenique na grama não foram repreendidos. Pouco tempo antes da conversa com Gil, uma viatura da Polícia Militar identificada como “Batalhão Copa” circulava na praça, parou em frente ao local onde estavam Gil e seus companheiros, e seguiu caminho.
Gil, morador de rua, protesta contra preconceito em praça de Belo Horizonte no dia de abertura da Copa do Mundo. Segundo ele, um policial ameaçou atear fogo aos carrinhos caso não removesse a faixa. (Imagem: Bruno Fonseca: Agência Pública)
Gil, morador de rua, protesta contra preconceito em praça de Belo Horizonte no dia de abertura da Copa do Mundo. Segundo ele, um policial ameaçou atear fogo aos carrinhos caso não removesse a faixa. (Imagem: Bruno Fonseca: Agência Pública)
Os casos se multiplicam: Maria Aparecida Ferreira, alberguista, disse já ter sido humilhada por policiais e guardas municipais; Daniel Santos da Cruz, da comunidade Amigos de Rua, afirmou que já presenciou agressões pela PM e xingamentos; a pesquisadora portuguesa Inês Guedes, pesquisadora do programa de mobilidade da UFMG com a Universidade de Coimbra relatou ter chamado a polícia para impedir uma agressão a um morador de rua por parte de um segurança de um restaurante – segundo ela, quando a PM chegou, nada foi feito, o agressor fugiu e não foi registrado B.O.
Algum avanço no combate à violência contra a população de rua parece ser mais possível quando há outros cidadãos envolvidos. Foi esse o caso de Fidélis Alcântara, candidato de oposição para o governo estadual pelo PSOL e que participou do coletivo contrário à administração municipal “Fora Lacerda” e também do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (Copac). Na noite de 28 de junho de 2013, período da Copa das Confederações, ele e outros conhecidos interromperam fiscais da Prefeitura que realizam o recolhimento dos pertences de moradores de rua no viaduto Santa Tereza. Segundo Fidélis, os moradores reagiram ao recolhimento e um fiscal chegou a agredir um dos desabrigados, o que levou o grupo a chamar a polícia e registrar Boletim de Ocorrênciaconstando infração contra o patrimônio. “É uma perseguição sistemática sem oferecer alternativas para a população de rua. Em 2013, como isso ficou muito forte às vésperas da copa das confederações, montamos um grupo de Monitoramento de Ações Higienistas”, comenta. Foi através do grupo que Fidélis chegou à ocorrência no viaduto Santa Teresa. Ele chegou a ser intimado a prestar esclarecimento sobre o caso neste ano, mas disse desconhecer se o processo havia progredido.
Desde que foi inaugurado, em 2011, o CNDDH registrou mais de 100 homicídios de moradores de rua em BH, cerca de 5% do total de pessoas encontradas pela PBH em situação de rua no censo de 2013.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Um Leão sem dentes

OP
http://outraspalavras.net/brasil/um-leao-sem-dentes/

Um Leão sem dentes

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Na madrugada de 21/06, mais de 800 pessoas ocuparam terreno no Morumbi.
Sem-teto erguem barracas diante de torres luxuosas no Morumbi. “Milhares de pessoas vivenciaram o fracasso deste sistema em prover a elas seu direito a uma casa”, diz Boulos. Foto: Mídia Ninja
Coordenador nacional do MTST responde a articulista da Folha: “mau jornalismo, opiniões conservadoras e boa dose de caráter duvidoso”
Por Guilherme Boulos
A grande arma de um leão são os dentes. A de um jornalista são os argumentos. O jornalista Leão Serva demonstrou em seu artigo hoje na Folha de São Paulo não ter dentes nem argumentos. O fato de seu fraco artigo ter visibilidade num jornal de circulação nacional só pode explicar-se pelo fato de ter sido ele Secretário de Redação deste jornal.
Do início ao fim, seu texto “A Copa dos Sem Teto com Teto” está recheado de análises preconceituosas recolhidas diretamente do senso comum e de fatos inverídicos. É um ataque raivoso ao MTST e a mim particularmente.
No campo da análise, diz que o MTST não deseja teto ou moradia para seus participantes, mas sim marketing político. Supõe com isso que os participantes do Movimento seriam manipulados por líderes interesseiros. É preciso compartilhar do sentimento elitista de superioridade para imaginar que a adesão cada vez maior de milhares de trabalhadores sem-teto ao MTST seria por ignorância dos pobres incautos.
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Estas milhares de pessoas que participam de ocupações nos centros urbanos brasileiros já vivenciaram — ao contrário do Sr. Leão — o fracasso deste sistema em prover a elas seu direito mais fundamental a uma casa. E fazem ocupações por perceberem, pela experiência do desenvolvimento urbano no Brasil, que esta é a única forma de os mais pobres conseguirem acessar este direito.
O MTST não criou esse fato. Diante dele, busca organizar e dar um direcionamento político ao conflito. Político no sentido de encontrar soluções pelo enfrentamento político contra aqueles que impedem e historicamente impediram que os mais pobres tivessem qualquer direito nesse país. Marketing, diz o Leão. É compreensível que aqueles que só conseguem pensar a política como propaganda e marketing — digno de quem foi assessor de comunicação da gestão de Kassab na cidade de São Paulo — confundam estratégia política com busca de “flashes”.
Seu texto resolveu também filosofar sobre centro e periferia. Além de incompreensão das dinâmicas urbanas deu ainda um espetáculo de desinformação.
Desde a década de 1980 as grandes metrópoles tornaram-se policêntricas. Este fenômeno foi estudado com grande propriedade pelo geógrafo Mark Gottdiener e pela corrente da “produção social do espaço urbano”. Inicialmente verificado nos Estados Unidos e na Europa, o fenômeno das metrópoles policêntricas se espraiou para a Ásia e América Latina. São Paulo é um caso exemplar.
Acreditar que uma cidade de 11 milhões de habitantes tenha uma única região que concentre serviços, comércio e infraestrutura urbana é de uma ingenuidade própria de quem nunca saiu dos Jardins e idealiza as periferias urbanas.
Várias das ocupações organizadas pelo MTST — inclusive a Copa do Povo, mencionada no artigo — estão em regiões de expansão de serviços e da especulação imobiliária. É o caso das ocupações do Campo Limpo, da Faixa de Gaza e Portal do Povo no Morumbi e de Itaquera.
Aliás, só quem nunca esteve em Itaquera para dizer que dali para o centro velho da cidade demora-se duas horas. Talvez ele estivesse considerando as panes frequentes do metrô gerido pelo governo tucano ao qual serviu como assessor na Prefeitura de São Paulo.
Entrando então no campo das informações o Leão se supera incrivelmente. Diz que a Ocupação Copa do Povo está localizada numa área verde. Na realidade, o zoneamento atual da área é industrial e ela está integralmente fora da APA do Carmo, que é a reserva verde daquela região.
Diz ainda que os movimentos sem-teto arrecadam muito dinheiro, por cobrarem mensalidades. Desafiamos o Leão sem dentes a comprovar uma só palavra desta sua afirmação. O MTST não cobra nem nunca cobrou mensalidade de seus membros. Qualquer um que visite uma ocupação pode verificar isso facilmente com seus olhos. E perante o assédio da imprensa a nossas ocupações nos últimos meses, é estranho que tal “furo” não tenha antes vindo à tona. Falta de interesse dos jornalistas de Veja,Estadão ou Folha não seria. É que talvez nenhum deles tenha tido a sem-vergonhice de mentir desta forma.
Enfim, mau jornalismo combinado com opiniões conservadoras e uma boa dose de caráter duvidoso dão nisso. Não costumamos no Movimento responder textos desta envergadura. Dizem que dá azar. Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino vivem acusando o MTST por aí. Não achamos que valha a pena o tempo de resposta. Mas o Leão, rei da selva conservadora, ultrapassou desta vez os limites da hipocrisia.

domingo, 8 de junho de 2014

A estratégia de Boulos e a hesitação de Dilma

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A estratégia de Boulos e a hesitação de Dilma

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140605-MTST2b
Capazes de mobilizar multidões na Copa, sem-teto não querem confronto com governo. Estão sendo empurrados para isso, em novo sinal do impasse político brasileiro
Por Antonio Martins
Um golpe de sorte e alguma capacidade de enxergar cenários. Graças a estes fatores, Guilherme Boulos – coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) – abriu ontem (5/6) a série de entrevistas em vídeo que Outras Palavras fará, em parceria com o Estúdio Fluxo, sobre temas nacionais e internacionais relevantes [a entevista pode ser vista, na íntegra, aqui]. O MTST é a bola da vez, na grande onda de mobilizações sociais iniciada em junho do ano passado. Na quarta-feira (4/6), mobilizou 25 mil pessoas, pelo direito a moradia. Rodeou o “Itaquerão”, onde, em seis dias, começa a Copa do Mundo.
Articula-se em todo o país. Em São Paulo, ocupou enormes terrenos urbanos, antes entregues à especulação imobiliária. Neles vivem (acampados em tendas), organizam-se e se politizam cerca de 30 mil pessoas. O que Boulos expôs, na entrevista a Bruno Torturra (do Fluxo) e a mim, é essencial para compreender a potência atual do movimento. Também ajuda a compreender os limites que o governo Dilma impôs a si próprio – e a necessidade de rompê-los.
Três características centrais distinguem o MTST, na vasta galáxia de movimentos que se enxergam como herdeiros das jornadas de junho. A primeira é a ênfase no trabalho de base, consequência de uma avaliação particular sobre a conjuntura política do Brasil. Ao contrário de muitos, os sem-teto não julgam que estejamos às vesperas de derrubar a ordem capitalista. Reconhecem a importância dos protestos do último ano – mas também seus limites. Grandes transformações, adverte Boulos, só são possíveis com envolvimento ativo das maiorias. Não basta convencer pequenos grupos, os “60 ou 70 mil mais mobilizados”. A fase, portanto, não é de enfrentamentos abertos, mas de “acumular forças”.
Terminada a fase dos grandes protestos, em julho de 2013, as ruas esvaziaram-se. Alguns grupos tentaram compensar este vazio radicalizando artificialmente as manifestações – o que as desgastou junto a parcela crescente da população. Os sem-teto adotaram outra tática. Preferiram voltar-se para as periferias. Lá, prossegue o líder do movimento, deu-se algo que nem as classes médias, nem a mídia, enxergaram. O desconforto provocado pela especulação imobiliária converteu-se em desejo de agir. A vitória na redução da tarifa de ônibus “funcionou como gatilho: sinalizou que a luta social poderia alcançar conquistas”, diz Boulos.
“Não fomos nós que estimulamos as ocupações de terrenos. Era a população que nos procurava”, prossegue ele. Criado há quinze anos – em seu início, como uma espécie de “braço urbano” do MST –, o MTST havia acumulado experiência para atender ao chamado. Ao invés de se lançar a enfrentamentos egoicos com a polícia (e as vitrines de bancos…), articulou desejos coletivos. O resultado apareceu rapidamente.
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No final de novembro começava, na Zona Sul de São Paulo, a Ocupação Nova Palestina. Reuniu 8 mil famílias e tem mais 2 mil na lista de espera. São “trabalhadores em busca de alternativa ao aluguel, que passou em poucos anos de R$ 300 para R$ 800, sem que o salário tenha subido de modo proporcional, explica o líder dos sem-teto. Têm, nas ocupações, uma escola. Organizam-se em Grupos de Trabalho, para cuidar da alimentação, segurança e limpeza. Realizam assembleias periódicas. Debatem e agem. Em 29 de abril, ocuparam a Câmara dos Vereadores, para exigir que o Plano Diretor de São Paulo ampliasse a possibilidade de criar Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) para construção de moradias populares.
A segunda característica distintiva do MTST é sua postura diante do poder. Depois de junho, e a exemplo do que ocorre entre movimentos como o Occupy e os Indignados espanhois, tornaram-se frequentes, nas manifestações brasileiras, ataques genéricos contra o Estado. Seriam todos os governantes iguais? Estaríamos num momento em que é possível nos voltar contra eles em bloco?
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O MTST tem uma visão diferente – e bastante sofisticada. Boulos vê o Brasil num impasse. Durante dez anos, diz ele, os governos Lula e Dilma ampliaram direitos sociais sem incomodar os poderosos: “o bolo crescia, era possível aumentar a fatia de todos”. Nos últimos anos, a receita desandou. Num cenário internacional mais difícil – inclusive com desaceleração da China, hoje principal importadora de produtos brasileiros –, a economia está estagnada. Seria hora “da redistribuição efetiva de renda” e de “mudanças estruturais”, como a Reforma Política e a Reforma Tributária. Dilma hesita, temerosa de romper os laços do governo com setores do grande capital – banqueiros, empreiteiras, indústria automobilística, por exemplo. A ponto de o líder dos sem-teto ter dito, na entrevista, que não considera de esquerda o atual governo.
Isso não o leva, porém, a igualar o PT aos partidos que representam as velhas elites. Coerente com sua estratégia de acumular forças, Boulos busca coroar a impressionante onda de mobilizações dos sem-teto com uma vitória. Ainda que seja parcial, sabe ele, esta conquista pode ter enorme efeito simbólico. Significará interromper a maré de especulação imobiliária, segregação social e alta opressiva dos preços, que marca as metrópoles brasileiras desde a virada do século.
E aqui surge o terceiro traço particular deste movimento que mantém acesa a chama das jornadas de junho. Ele não se limita a criticar a Copa do Mundo, nem a fazer reivindicações genéricas e intangíveis (“Se não tiver direitos, não vai ter Copa”). Formulou uma pauta concreta de exigências. Ela é, ao mesmo tempo, viável e transformadora. Por isso, coloca o governo Dilma não diante de uma crítica retórica (ainda que estridente…), mas em face de um dilema real.
São três os pontos que o MTST persegue, para que o governo sinalize que o legado da Copa não se limitará a um punhado de obras e milhares de desalojados. Primeiro, um controle público dos preços dos aluguéis urbanos. É algo que interessa tanto ao sem-teto quanto à classe média. “Já houve no Brasil – frisa Boulos – inúmeras leis de regulação das relações entre proprietários e inquilinos. A primeira delas veio no início do século passado, em resposta à greve geral de 1917, em São Paulo. A liberdade total para especular veio dos governos neoliberais e foi mantida, até o momento, por Lula e Dilma. Está na hora de revê-la, o que exige uma nova lei.
As duas reivindicações seguintes são o fim da atual onda de despejos (o MTST quer instalar, na secretaria de Direitos Humanos do governo federal, uma comissão que acompanhe as decisões judiciais contra moradores, dê visibilidade a seu caráter muitas vezes absurdo e permita abrir negociações) e uma mudança substancial no programa Minha Casa, Minha Vida. Aqui, entram aspectos que a população desconhece.
Em seu formato atual, explica Boulos, o programa é um prêmio para as empreiteiras e o mercado imobiliário, muito mais que para as populações sem casa. Foi concebido na esteira da crise financeira de 2008, que ameaçava destroçar o setor de construção no Brasil. Suas regras primitivas denunciam esta deformação.
A empresa que ergue um conjunto habitacional é remunerada, pelo governo federal, por apartamento entregue – não importando qualidade, tamanho ou localização. São R$ 76 mil por unidade, a partir de 39m². Não há estímulo algum para oferecer espaço mais amplo (as famílias são muitas vezes numerosas) ou prédios próximos à infra-estrutura do centro. Vigora a lei da selva. Quando mais barato o terreno (portanto, mais distante e sem benfeitorias), e mais rude a construção, maiores serão os lucros do empresário. Não por acaso, até os grupos gigantescos que empreitam obras públicas – como Camargo Corrêa e Oderbrecht – abriram um ramo no Minha Casa, Minha Vida.
O MTST quer um critério menos tosco. Por que não estabelecer faixas de remuneração aos construtores, segundo a localização do conjunto habitacional, tamanho e qualidade da obra?
Por que não quebrar o quase-monopólio das construtoras, abrindo espaço para que os próprios movimentos sociais construam as habitações? Um conjunto que os sem-teto erguem no momento, na Grande S.Paulo, terá apartamentos de 63m² e três dormitórios. Porém, pelas regras atuais, as construtoras privadas têm 66 vezes mais recursos federais, do Minha Casa, Minha Vida, que os movimentos por habitação.
Boulos reconhece: o governo federal não tem como resolver, até a Copa, a questão dos alugueis. Pode fazer sinalização. Por exemplo, anunciando uma Medida Provisória, ou Projeto de Lei. Mas em relação aos despejos, e às mudanças no Minha Casa, Minha Vida, há espaço. Que pesará mais, para Dilma? A possibilidade de abrir diálogo com um movimento social emergente, cujas reivindicações expressam parte do resgate da dívida social brasileira? Ou o compromisso com o círculo de interesses que gira em torno de empreiteiras, políticos e lobbies?
Na manhã desta sexta-feira (6/6), o MTST anunciou que suspendera a manifestação marcada para diante do Estádio do Morumbi (São Paulo), onde o Brasil enfrenta, esta tarde, a Sérvia, no último amistoso antes da Copa. É um voto de confiança no governo, com quem seguem as negociações. Mas não uma desistência. A Copa começa em menos de uma semana. Qual será a sinalização de Dilma? O projeto lulista considera a hipótese de um passo adiante? Ou será necessário superá-lo, a partir de longo trabalho de base, para vencer também o impasse em que o Brasil se meteu?

sábado, 7 de junho de 2014

Outras Palavras entrevista Guilherme Boulos, líder do MTST

outras palavras
http://outraspalavras.net/blog/2014/06/05/outras-palavras-entrevista-guilherme-boulos-lider-do-mtst/


Outras Palavras entrevista Guilherme Boulos, líder do MTST

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Diálogo, às 14h de hoje (5/6), via webTV, abordará papel da multidão, na luta pelo Direito à Cidade. Iniciativa inaugura série de programas sobre temas contemporâneos, em parceria com Estúdio Fluxo
Por Antonio Martins | Imagens: Midia Ninja
Algo mudou radicalmente, nas últimas semanas, nas manifestações que questionam a Copa do Mundo. Um novo sujeito político entrou em cena: os trabalhadores sem-teto. Agora, os protestos já não reúnem centenas de pessoas — mas dezenas de milhares. Todos mostram o rosto. Não há cenas de violência egoica. Quem revela sua potência é a multidão. Ontem, 25 mil pessoas circularam a Arena Corinthians, onde começará, em uma semana, o grande torneio de futebol. “O recado está dado”, avisaram: “exigimos que os governos aceitem nossas reivindicações; do contrário, as ruas nos esperam de braços abertos nos próximos dias e semanas”… A PM não ousou provocá-los.
Articuladas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), as novas mobilizações distinguem-se das anteriores também por irem além do protesto. Acampados em diversas áreas de São Paulo, antes reservadas à especulação imobiliária (numa delas, a Nova Palestina, há 30 mil moradores), os manifestantes fazem três reivindicações claras. Querem o controle público dos preços de alugueis, para frear as altas incontroláveis dos últimos anos. Exigem o fim dos despejos forçados — com instalação, na secretaria especial de Direitos Humanos do governo federa, de uma Comissão de Acompanhamento, com participação direta dos movimentos sociais. Pressionam por mudanças-chave no programa Minha Casa Minha Vida: construções dignas, próximas do centro das cidades, realizadas sempre que possível por cooperativas, e não mega-empreiteiras. Pontuais e pragmáticas na aparência, as propostas, se alcançadas, mudarão os ares de um ambiente urbano hoje marcado por elitismo, segregação social, onipresença do dinheiro e das relações mercantis.
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Professor de Filosofia formado pela USP, com especialização em  Psicanálise,Guilherme Boulos é coordenador nacional do MTST. Outras Palavras vai entrevistá-lo esta tarde (a partir das 14h) em São Paulo, com transmissão ao vivo por webTV (acessivel neste mesmo post). O diálogo abre novo esforço editorial. Voltados ao texto escrito, queremos explorar também as possibilidades do vídeo. Vamos começar a fazê-lo numa série de entrevistas, por meio das quais abordaremos temas centrais da conjuntura brasileira.
O diálogo com Boulos marca, também, uma nova parceria: será produzido em conjunto com o Estúdio Fluxo. Recém-lançado pelo jornalista Bruno Torturra (e instalado no Vale do Anhangabaú, coração de S.Paulo), o Fluxo tem produção própria de relevância e qualidade notáveis. Abre-se, além disso, a projetos compartilhados — algo em sintonia com a vocação de Outras Palavras. Resgatar o jornalismo, numa era de decadência dos velhos jornais, exigirá esforço, compartilhamento e colaboração. Queremos dar mais um passo a partir de hoje.