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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Eu sou Estádio, e não Arena

vermelho
http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=6500&id_coluna=99

Eu sou Estádio, e não Arena

Caio Botelho *

A frase acima foi retirada de um dos cantos entoados pela Torcida Organizada Bamor, do Esporte Clube Bahia. Sintetiza, de certo modo, o sentimento de que o modelo de Arenas adotado principalmente para atender as exigências da Copa do Mundo não logrou êxito quando o assunto foi a popularização do acesso a esses equipamentos.


O que é no mínimo contraditório, considerando que o futebol é justamente o esporte mais popular em nosso país. Entretanto, até a 37ª e penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2014, a média de público é apenas de 16.451 torcedores por jogo, com uma ocupação de 40% da capacidade dos estádios por partida¹.

Mesmo o Cruzeiro, campeão do ano e que detém a maior bilheteria por jogo (28.780 torcedores), não ocupa mais do que 47% do Mineirão, cuja lotação é de 61.846 lugares. Já o Flamengo, por sua vez, preenche um pouco mais de um terço (35%) da capacidade de 78.838 lugares do Maracanã.

São dados preocupantes, na medida em que se constata que o problema não é de falta de torcida. Mesmo os clubes mais populares, conhecidos pela capacidade de mobilização, estão com dificuldades para repetir com frequência o outrora costumeiro espetáculo de suas torcidas nas arquibancadas.

Jogando pela Série C do Campeonato Brasileiro, o Bahia, por exemplo, colocou nada menos do que uma média de 50 mil torcedores por jogo (!) na antiga Fonte Nova, no ano de 2007. Hoje, com a nova Arena Fonte Nova e jogando na Série A, a média do tricolor baiano não chega a 13 mil torcedores por jogo – e ainda assim representa a 11ª maior bilheteria do campeonato. O problema, portanto, não é desse ou daquele Clube, isoladamente.

Além de afastar o público, os ingressos caros também produzem um fenômeno que enfeia as arquibancadas, já que na medida em que os torcedores brasileiros estão tendo que se acostumar a assistir os jogos atrás do gol, onde os ingressos são mais em conta (o que não significa que sejam baratos), uma emblemática imagem que traduz esse modelo de Arenas é produzida: as arquibancadas de linha de fundo completamente lotadas, ao tempo em que as arquibancadas laterais ficam vazias, quase às moscas.

Sem contar que uma série de exigências peculiares dessas Arenas vão retirando a espontaneidade típica do brasileiro. As divisões em diversos setores fracionam a torcida (principalmente por renda), e não apenas os ingressos, mas as bebidas e alimentos também estão cada vez mais caros.

A modernização dos Estádios é fundamental para que o próprio futebol evolua, mas é preciso encontrar modelos que cumpram com essa finalidade sem excluir a maioria do povo do direito de assistir in loco ao seu Clube de coração. Mantida a lógica atual, o cenário que se vislumbra é perverso.

Claro que esse é apenas um dentre vários elementos que precisam ser considerados em um amplo processo de discussão sobre os rumos do esporte mais popular do Brasil. Afinal, outros fatores também vêm contribuindo para o constante processo de elitização do nosso futebol: más gestões na imensa maioria dos Clubes; CBF e Federações estaduais transformadas em feudos; a mídia – com destaque para a TV Globo – interferindo descaradamente nas tabelas e privilegiando alguns times em detrimento de outros; além, é claro, de inconfessáveis máfias envolvendo todos esses agentes.

O fato é que tem muita coisa errada. E o governo federal, as torcidas organizadas independentes, grupos e movimentos que se organizam em torno de Clubes e de um debate sério sobre o futebol, a exemplo do “Bom Senso”, precisam articular-se e construir uma ampla mobilização em defesa dessas pautas.

Eleições no Bahia

Considerando que não teremos outra oportunidade para tratar do assunto, aproveito para manifestar nossa posição nas eleições presidenciais do Esporte Clube Bahia, que acontecerá no dia 13 de dezembro e irá eleger o próximo presidente e os membros do Conselho Deliberativo.

Há cerca de um ano e meio o Bahia passa por um processo ímpar: como resultado de uma mobilização em massa de sua torcida e de uma série de ações judiciais que culminaram com uma intervenção, os antigos gestores do tricolor foram afastados, uma campanha de associação em massa foi promovida e eleições diretas foram adotadas. No primeiro pleito, Fernando Schmidt, figura vinculada ao pensamento progressista, foi eleito presidente para um mandato tampão, que se encerra no final desse ano.

Em que pese o mau desempenho dentro de campo, nesse período o Bahia evoluiu consideravelmente fora dele: as eleições livres e democráticas também são proporcionais, garantindo que cada segmento que se organiza em torno do Clube esteja representado no Conselho Deliberativo; este, por sua vez, passou a se reunir com frequência e a cumprir papel protagonista, e não figurativo como em outros tempos. Um novo Estatuto exige prestação de contas mensal e pública, o que tem sido feito, e passou-se a exigir Ficha Limpa aos que ocupam cargos na diretoria.

Fruto de um acordo histórico, o Bahia passou a ser proprietário de um novo e moderno Centro de Treinamento, a “Cidade Tricolor”, além de ter recuperado seu CT antigo, o Fazendão. A diretoria também comprou briga com setores da grande mídia, cortando benefícios recebidos às custas do Clube e, é claro, foi implacavelmente atacada por eles. A “democracia tricolor”, como ficou conhecido esse novo momento, tem tudo para trazer benefícios de médio e longo prazos a um dos mais populares Clubes brasileiros.

Nessas eleições são candidatos à presidência Antônio Tillemont, Binha de São Caetano, Marcelo Sant’Ana, Marco Costa, Nelsival Menezes, Olavo Fonseca e Ronei Carvalho.

Nesse sentido, registramos nosso apoio à candidatura do jornalista Marcelo Sant'Ana, com o número 91, e da chapa “Revolução Tricolor” para o Conselho Deliberativo, com o número 191. Em nossa opinião, são os que têm capacidade de assegurar essas conquistas e corrigir os equívocos cometidos na gestão de futebol.


¹Informações disponíveis em http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/publico-brasileirao.html

sábado, 28 de junho de 2014

A Copa das Copas é da América do Sul

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-Copa-das-Copas-e-da-America-do-Sul/4/31261


27/06/2014 - Copyleft

A Copa das Copas é da América do Sul

Chilenos, colombianos e argentinos se fizeram maioria nas arquibancadas de onde jogaram. Uruguaios e equatorianos contaram com o apoio dos brasileiros.


Pedro Silva Barros (*)
Festa em Caracas após a vitória brasileira contra Camarões na última segunda-feira (23). Foto de Luz Marín, do Instituto Cultural Brasil Venezuela (ICBV).

A copa do mundo voltou à América do Sul depois de 36 anos. Mais da metade de nós, sul-americanos, nunca havíamos visto um mundial em casa. Parte de nós não imaginava que participaríamos tanto do maior evento do principal esporte do planeta.

Chilenos, colombianos e argentinos se fizeram maioria nas arquibancadas de onde jogaram. Uruguaios e equatorianos contaram com o apoio indubitável dos brasileiros que encheram os estádios. Um fenômeno tão inédito como ignorado pelas análises feitas na onda dos protestos de junho do ano passado.

Os meios de comunicação jogaram sistematicamente contra a copa. Um exemplo entre muitos é o número 82 da revista venezuelana Clímax, que está nas bancas de Caracas com a capa “Brasil 2014: la gran estafa” e a chamada interna “Una fiesta para pocos. Brasil ha dado muestras de no estar preparado para fungir de buen anfitrión”.
 
A reportagem reproduz argumentos da revista brasileira Veja: os estádios foram caríssimos, a infraestrutura não vai funcionar, o mundial será uma vergonha para o Brasil e só foi feito para que se roubasse o erário público.
 
[Ver abaixo um dos arautos nacionais do #NãoVaiTerCopa e do fracasso da Copa no Brasil]



 
A torcida sul-americana compareceu porque confiou em suas equipes e também porque estava segura de que nós os brasileiros organizaríamos uma grande copa. Desconsideraram a avalanche de críticas de que o torneio seria um fiasco. Para isso, além da paixão pelo futebol, contribuiu o fato de conhecermos muito bem a nossa imprensa, que é muito parecida em toda a região. Sabíamos que todo aquele quadro alarmista era falso.

No caso da mídia nativa, o quadro é de emulação. Está se superando em relação à cobertura das manifestações de junho do ano passado quando de crítica passou a apoiadora. Desta vez os grandes meios de comunicação nacional não só mudaram repentinamente de opinião como, em um ato de aparente desespero e explícito despudor, começaram a atribuir aos seus congêneres internacionais a responsabilidade pela uruca pré-copa. Não é de se estranhar que cada vez mais reproduzam argumentos do tipo: “Agora o mundo está vendo o equívoco de haver apostado contra o Brasil”. Lembrando Freud, a negativa histérica e veemente dos próprios atos, acompanhado do mecanismo de transferência da responsabilidade a terceiros é a patética assunção da culpa; o famoso batom na cueca! Até o Ronaldo se viu obrigado a mudar o discurso e retirar as críticas à organização do mundial.

Na copa, o Brasil exerceu o papel de liderança que nossos vizinhos esperam. Acertamos quando pensamos grande. Estamos fazendo uma copa para toda a América Latina. Tudo caminha para que seja reafirmada a escrita de que só os sul-americanos ganham as copas do lado de cá do Atlântico. Mas dessa vez a copa também está fazendo com que os sul-americanos nos conheçamos mais, muito mais. Esse convívio é a condição que nunca houve para a ampliação da integração da América do Sul. 


A América do Sul em 1978 e em 2014

Nos últimos 50 anos a América do Sul organizou uma única copa, na Argentina em 1978. Ela me foi apresentada como um dos poucos consensos no futebol brasileiro: roubada, tudo armado, a Argentina comprou o Peru e ao Brasil coube o título de campeão moral, que nunca valeu nada. Refletia um momento de muita obscuridade no Cone Sul. Ditaduras na Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia... O regime militar argentino, assim como os outros, se legitimava também pelo discurso da ameaça externa. A pouca cooperação regional que existia se concentrava na repressão, em perseguir e matar a esquerda onde quer que ela estivesse.

O brasileiro, durante e depois daquela competição de 1978, não se sentiu mais sul-americano. O mesmo valeu para os próprios argentinos, para os peruanos e para os demais vizinhos que não participaram do torneio.

Se consolidou a versão que a Argentina era nossa rival, para além do futebol. Cresci ouvindo que os argentinos eram nossos maiores inimigos; a todos os nossos vizinhos o Brasil era apresentado como a grande ameaça.

No meio tempo, a copa de 1986 seria na Colômbia. A instabilidade interna e as exigências da FIFA fizeram o país desistir de organizar o torneio. Chegaram a oferecer a copa ao Brasil, que na época não a aceitou e ela foi acontecer no México. Até 2003, Argentina e Colômbia se apresentavam como possíveis candidatas, na definição; em 2006, toda a América do Sul já estava unida em torno candidatura do Brasil. 

Hoje o momento é outro, completamente diferente dos anos setenta ou mesmo dos noventa. O Brasil e a América do Sul de 2014 estão construindo democracias cuja riqueza é, com muitas contradições, diminuir as desigualdades, garantir a diversidade e incluir massas que até há muito pouco tempo eram consideradas eternas excluídas. A cooperação regional agora tem objetivos muito mais nobres, o Mercosul cresce, a Unasul se consolida e recentemente foi criada a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Todas essas novidades incomodam muito os que têm jogado contra a copa do Brasil.

A espetacular presença dos 100 mil argentinos em Porto Alegre, das dezenas de milhares de colombianos em Belo Horizonte, Brasília e Cuiabá, de chilenos também em Cuiabá, Rio e em São Paulo, dos equatorianos em Curitiba e dos uruguaios em Natal, além da grande quantidade de bandeiras da Venezuela em todos os estádios, particularmente em Manaus, criaram uma atmosfera inédita para a reconhecimento mútuo da região. Parte considerável visitou o Brasil pela primeira vez. A maioria quer voltar.

A copa está consolidando, coroando, o processo de afirmação da região que começou a ganhar corpo na virada século com a falência do Consenso de Washington e que foi impulsionada com a ascensão de governos populares em muitos dos nossos países. A América Latina e o Caribe são a única região do mundo em que as desigualdades diminuíram na última década.

Pela primeira vez na história a América do Sul tem desempenho melhor do que o europeu numa primeira fase de mundial. Nosso aproveitamento foi de 83% (5 classificados de um total de 6 participantes) contra 46% do velho continente (6 classificados de um total de 13 participantes). Em termos absolutos, se consideramos as seleções latino-americanas em seu conjunto (somando México e Costa Rica), classificamos 7 seleções (7 classificados em 9 participações, ou 78% de aproveitamento) contra as 6 europeias.

Não tenho dúvidas que o Paraguai, mesmo com a sua retranca, apresentaria um futebol melhor do que o da Grécia. Ou que a Venezuela, que nas eliminatórias ganhou da Argentina com Messi em Puerto La Cruz e da Colômbia com Falcao em Puerto Ordaz, seria uma estreante melhor do que a Bósnia. Aliás, o futebol está superando o beisebol, herança das petroleiras americanas do início do século, como principal esporte na Venezuela. A organização da copa América em 2007 com a construção de sete novos estádios foi decisiva para o movimento que levou as venezuelanas ao quarto lugar no mundial sub-17 feminino neste ano.

Em 2014, também pela primeira vez, a América do Sul jogou com 6 equipes. Não tivemos nenhuma decepção. Equador, o pior sul-americano, foi o melhor entre os eliminados na primeira fase. Saiu da copa ao empatar com um dos três melhores europeus jogando com um a menos por mais de quarenta minutos.

A copa é parte da consolidação da autoestima sul-americana. Nada mais simbólico do que o jogo entre Chile e Espanha no Maracanã. O Chile nunca havia derrotado sua antiga metrópole. Sete derrotas e um empate. Ganharam de 2 a 0. Os sul-americanos não temos jogado com a arrogância dos espanhóis contra a Holanda, tampouco com a ingenuidade da Costa do Marfim contra a Grécia. Temos feito no nosso jogo, e estamos ganhando.

Jogos em todo o país, até na Amazônia

A escolha de realizar partidas em cidades sem tradição futebolísticas foi uma das decisões mais criticadas e, ao mesmo tempo, mais acertadas da organização dessa copa. Fez que a copa fosse de todos os brasileiros, com jogos nas cinco regiões, garantiu que fosse uma copa sul-americana, por estar mais próximas dos vizinhos, e criou possibilidades para fortalecer nosso futebol e a integração regional.

Ao envolver todo o país estamos fazendo um mundial com a grandeza do Brasil. A decisão corajosa de sediar jogos em Manaus e em Cuiabá, além de quatro capitais nordestinas foi uma atitude consoante com nosso objetivo constitucional de diminuir as desigualdades regionais e compatível com várias outras ações de governo dos últimos anos, como a criação de dezenas de universidades, particularmente nas regiões mais pobres do país.

Os minimalistas defendiam um mundial enxuto, com jogos onde sempre há. São Paulo, Rio, Porto Alegre e Belo Horizonte. Talvez em Curitiba, Salvador e Recife também. Diziam que a falta de tradição futebolística e de dinâmica econômica em Fortaleza, Manaus, Natal e Cuiabá deixariam esses estádios vazios.
 
Desconsideraram que o Brasil está mudando e é muito maior do que o Centro-Sul.
Assisti a um único jogo do mundial. Havia comprado os ingressos antes mesmo do sorteio dos grupos. Optei pala primeira rodada em Manaus, a sede mais próxima da Venezuela. O sorteio apresentou um duelo entre dois ex-campeões, Itália e Inglaterra. Peguei o carro e fui com minha família a partir de Caracas. Muitos quilómetros de estrada. Fiquei aliviado ao ver a simplicidade do trâmite para passar com o carro na fronteira após o ingresso da Venezuela ao Mercosul. No hotel em Boa Vista, havia mais de trinta motoqueiros venezuelanos que faziam o mesmo trajeto. Na estrada, centena deles. Alguns ônibus também iam ao mesmo destino: a Arena da Amazônia.

O estádio mais questionado do mundial custou 500 ou 600 milhões de reais. Tudo funcionou: foi rápido para entrar, a visão do jogo da arquibancada era muito boa, a cerveja gelada, os banheiros limpos. Lotou nos quatro jogos da primeira fase, com um público total de 160 mil pessoas. Se o estádio fosse construído só para a copa, cada ingresso teria que custar quase R$ 4 mil para cobrir todo o custo. Não sei quanto os ingleses, italianos, portugueses, suíços, camaroneses, hondurenhos, norte-americanos e croatas que foram assistir os jogos de seus países gastaram nos dias que ficaram em Manaus, mas não deve ter sido menos do que esse valor.

A maioria do público, porém, era de brasileiros. Muitos de outras regiões do país, vários nunca conheceriam Manaus se não fosse a copa. Ninguém negaria a importância para o país de mais brasileiros conhecerem a Amazônia.

A exposição de Manaus ao mundo foi a maior da história; seu benefício para nós, difícil de calcular. Só nos EUA 25 milhões assistiram ao vivo a partida contra Portugal, mais do que a média das cinco partidas da final da NBA e dos seis jogos da final do beisebol do ano passado. Quanto custaria expor por duas horas para 25 milhões de estadunidenses a ideia subentendida de que a Amazônia tem dono e não são eles? E aos milhões de europeus que assistiram Itália contra Inglaterra?

No dia seguinte, o calor da cidade, que é o mesmo desde que ela foi criada, era o principal assunto nos sites de nossos jornais que não se cansaram de criticar os gastos com o estádio de Manaus. Nenhuma menção aos benefícios do evento para o país. Quando levei meus filhos ao Teatro Amazonas pensei sobre quantos, ao verem aquela construção, não faziam a pergunta simplista que os jornais não se cansaram de estimular sobre os estádios: não seria melhor ter construído um hospital ou uma escola? Minha resposta seria a mesma sobre a Arena da Amazônia.

Fracasso das previsões, sucesso de público e crítica 

Os números satisfatórios e o entusiasmo com o mundial após o final da primeira fase são inquestionáveis. O fracasso das previsões também.

O banco Goldman Sachs, que por vias tortas acertou em cheio ao tecer o termo BRIC, parece ir no mesmo caminho agora. Se equivocaram em boa parte dos fundamentos em 2001, mas a agrupação BRIC, depois BRICS, tornou-se realidade anos depois. Em 2014, previu que os europeus dominariam a primeira fase, mas apontaram uma final sul-americana entre Brasil e Argentina. Apostaram que 11 dos 13 europeus passariam de fase, metade ficou pelo caminho. Erraram os oito cruzamentos das oitavas de final! Tirando Alemanha e Brasil, que foram à segunda fase em todas as copas desde que ela passou a ser realizada com grupos e oitavas em 1986, o banco acertou apenas 7 dos outros 14 times. Péssimo rendimento, considerando que 16 dos 32 classificariam.

Pode parecer temerário que as finanças do mundo sejam operadas por esses modelos. Esperamos que, outra vez, acertem no que ficará para a história. Que o Brasil campeão contra os hermanos seja tão real como a Cúpula que se reunirá em Fortaleza na semana depois da copa.

A revista americana ESPN FC indicava que a Argélia era o segundo com menos chances de classificar entre todos os países. Para o Goldman Sachs, a Costa Rica seria o time com menos chance de ser campeão e não haveria nenhum africano nas oitavas. É o que dá utilizar modelos em que os resultados do passado definiriam o presente. Diferente de Espanha, Inglaterra e Itália, Argélia, Costa Rica e Nigéria estão vivos e enfrentarão três dos poucos europeus que restaram.

Há alguns anos, poucos apontavam o sucesso de público que estamos tendo. As médias de pessoas presentes e de ocupação nos estádios são espetaculares. Superam todos os campeonatos nacionais do mundo. No campeonato brasileiro o público médio é de 15 mil (ocupação de 44%) e no italiano de 22 mil (51%). A copa das copas supera a ocupação e o público médio dos melhores campeonatos nacionais nesses quesitos, o alemão (45 mil, 93%) e o inglês (34 mil, 97%). A fabulosa taxa de ocupação de 98% garantirá um público médio final bastante superior aos 50 mil. A média de público só ficará atrás da copa dos EUA, que utilizou estádios de futebol americano. O púbico total deve igualar o recorde de 3,5 milhões.

Os alemães realizaram uma grande copa e com ela reestruturaram e melhoraram seu campeonato nacional. Nós podemos fazer o mesmo respeitando nossas especificidades e utilizando um dos nossos maiores ativos, as dimensões continentais e um mercado interno que cresceu extraordinariamente na última década. O problema não são os estádios caros, mas a gestão que vamos fazer deles. Por que não os times do Brasileirão mandarem cinco partidas por campeonato em estádios neutros, como os novos de Brasília, Manaus, Cuiabá, Fortaleza ou Natal, ou antigos que devem se modernizar em Belém ou Campo Grande.
A revista Veja um mês antes do início da copa era taxativa em seu site: “A seleção pode até ganhar, mas o Brasil já perdeu”. Hoje poderíamos dizer sem dúvidas: A seleção pode até perder, mas o Brasil já ganhou!
 
(*) Pedro Silva Barros é palmeirense, brasileiro, sul-americano. As opiniões expressas neste artigo são estritamente pessoais, não representando necessariamente a de nenhuma das instituições às quais o autor é vinculado.


Créditos da foto: Festa em Caracas após a vitória brasileira contra Camarões na última segunda-feira (23). Foto de Luz Marín, do Instituto Cultural Brasil Venezuela (ICBV).

Arena Pantanal pode sofrer ‘desmanche’ e ter capacidade reduzida pela metade

amazonia
http://amazonia.org.br/2014/06/arena-pantanal-pode-sofrer-desmanche-e-ter-capacidade-reduzida-pela-metade/

Arena Pantanal pode sofrer ‘desmanche’ e ter capacidade reduzida pela metade


Foram quatro jogos.  Uma carga de 41.112 lugares disponibilizada em cada partida.  Ao fim delas, um total de 158 mil torcedores passando por seus assentos.  Talvez a maioria deles não volte a ver a Arena do Pantanal, em Cuiabá, da mesma forma que acompanharam nesta terça-feira, na goleada de 4 a 1 da Colômbia sobre o Japão: o estádio que custou mais de R$ 500 milhões pode ter a sua capacidade reduzida pela metade.
O período de uso exclusivo do palco pela Fifa se encerra na próxima terça-feira.
A partir da data, a entidade devolverá, então, as chaves e o Governo passará a tratar mais firmemente de seu futuro. Uma licitação para tentar atrair a iniciativa privada deverá ser lançada no próximo mês e a expectativa é ter o processo definido até outubro.
No modelo de concessão do projeto previsto para ser disponibilizado nas próximas semanas, uma das alternativas que o futuro ‘dono’ terá será a redução de tamanho da Arena Pantanal. Em vez dos atuais 43.150, ela passaria a contar com apenas 20.000 lugares.
Segundo apurado pelo ESPN.com.br, a mudança envolveria a retirada das arquibancadas superiores dos setores Sul e Norte.
Procurado pela reportagem, o secretário da Secopa (Secretaria Extraordinária da Copa) no Mato Grosso, Maurício Guimarães, confirmou a possibilidade, embora não acredite ser essa a melhor opção para o operador.
“Existe, sim. Só não acredito ser viável. A Arena tem essa concepção que torna possível reduzi-la para 20 mil pessoas, mas é preciso ponderar o seguinte: você retirou (os assentos), não consegue recolocar mais. Se já está tudo pronto e não tem um custo operacional tão grande mantê-los, sinceramente não vejo lógica. Você pode simplesmente fazer um evento com 40 mil e outro com 20 mil”, afirma Guimarães ao ESPN.com.br.
Essa decisão, no entanto, ficará a cargo do vencedor da licitação.
É motivo de temor a hipótese de a Arena Pantanal virar um ‘elefante branco’. Para se ter uma ideia, o Cuiabá Arsenal, tricampeão brasileiro de futebol americano, é dono de uma média de público maior do que a do estadual, com 3.100 pessoas. Não existe como ele conseguir bancá-la sozinho, ainda assim: são apenas três partidas por temporada.
O custo operacional de um jogo no estádio é de cerca de R$ 125 mil.
Reduzir o seu tamanho, sugerem dirigentes de clubes locais consultados pela reportagem, seria uma forma de minimizar também um eventual efeito negativo que atuar num palco dessa dimensão poderia trazer.
“Quando foi feito o projeto, houve a preocupação de que você poderia retirar (esses assentos), bastando desparafusar porque são estruturas metálicas, parafusadas uma na outra. Por isso, existe essa possibilidade”, explica o secretário da Secopa no Mato Grosso, Maurício Guimarães.
Por: Marcus Alves
Fonte: ESPN 

domingo, 22 de junho de 2014

Assim os Krahôs vivem Futebol e Copa

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http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/assim-os-krahos-vivem-futebol-e-copa/


Assim os Krahôs vivem Futebol e Copa

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Centenas assistem, nas aldeias, às partidas. Mas homens e mulheres preferem praticar esporte, enquanto pajé pensa em feitiçarias pela seleção…
Por Paulo GermanoLauro Alves e Laércio Guterres, em Na Beira da Copa
Os krahô se amontoam diante da única TV da aldeia, sentados sob um sol escaldante em frente à casa do cacique. Cansado do modorrento zero a zero entre Brasil e Sérvia, o pajé Alcides Pirca, 63 anos, menciona a feitiçaria em seu desabafo.

– Se Seleção chama pajé, Seleção ganha Copa – resmunga em português vacilante o líder espiritual da Aldeia Manoel Alves Pequeno, onde 300 índios habitam casas de barro e palha, sem banheiro nem luz elétrica (um gerador garante a TV do cacique), no interior de Itacajá, no Tocantins.

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Desde que o futebol ganhou força entre os krahô – coisa de 10 anos para cá –, os pajés aprontam horrores contra os times rivais. Há 28 aldeias na região, portanto são frequentes os torneios entre elas, tanto de futebol masculino quanto de feminino. Nos últimos Jogos Indígenas do Povo Krahô, no mês passado, as equipes passaram a levar seus próprios pajés às outras aldeias para inspecionar as partidas. E para averiguar a bola.

– Só pajé enxerga feitiço de outro pajé. Já joguei com bola enfeitiçada: perna fica mole, corpo fica lento, pessoa parece anta jogando – descreve o meia José Crato, 27 anos, assegurando que seu time só levou 10 a 2 devido à mandinga do pajé adversário.
Alcides Pirca, o feiticeiro magro e sisudo da Manoel Alves, explica como faria o Brasil ser hexacampeão com sua magia. Em primeiro lugar, é preciso entender que pajés como Pirca passam boa parte do tempo na floresta, sempre em contato com animais e plantas. Ao encontrar na mata uma anta, por exemplo, ele se comunica mentalmente com ela, repousa sua enrugada mão sobre a cabeçorra do bicho e, na despedida, pede ao animal que lhe conceda a alma assim que morrer.

– Quando morre, espírito da anta avisa a gente – afirma o pajé, que agora assiste às mulheres abandonarem o amistoso na TV para jogar bola no campo da aldeia, enquanto os homens se preparam para a corrida de tora, o mais tradicional esporte krahô.

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Para consumar o feitiço, o último passo consiste em esfregar nas mãos três grãos de milho: enquanto esfrega, Pirca evoca a alma da anta fumando cachimbo (quem fuma é ele, não a alma da anta) com sublime concentração e, depois que o milho vira pó, a farelada é lançada sobre a bola do jogo. Pronto. Os atletas da Croácia, que na quinta-feira enfrentam o Brasil na abertura da Copa, sentiriam suas pernas pesadas e curtas como antas balofas.

– Problema é que bola sai e gandula devolve outra – pondera o filho de Pirca, o pajé iniciante Pedro Iraniacá, que já mandou parar muito jogo por feitiço dos oponentes.

– Mas cada vez que bola enfeitiçada volta, Brasil faz dois gols – garante o pai.
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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Território da Fifa

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=80259


[#CopaPública] Território da Fifa

Agência Pública
Adital

Por Ciro Barros e Giulia Afiun


CIDADES-SEDE RESTRINGEM COMÉRCIO AMBULANTE NA COPA DO MUNDO. NA FOTO, RECIFE.(FOTO: CHICO PEIXOTO/LEIA JÁ IMAGENS)
Nas cidades-sede, pressão sobre ambulantes aumenta com regras da FIFA; nas áreas de restrição comercial, só vai vender quem vestir a camisa dos patrocinadores
"Estamos sendo constantemente ameaçados pela Prefeitura do Recife e tememos que o quadro fique mais grave com a aproximação da Copa do Mundo. Mas nós não vamos recuar um passo.” Assertivo, Severino Souto Alves, presidente do Sintraci (Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Comércio Informal do Recife), se exalta ao falar da situação dos trabalhadores ambulantes na capital pernambucana.

AMBULANTES PROTESTAM PELO DIREITO DE VENDER COMIDAS E BEBIDAS NO ENTORNO DOS ESTÁDIOS EM RECIFE, DURANTE A COPA DO MUNDO (FOTO: VICTOR SOARES/LEIA JÁ IMAGENS/ESTADÃO CONTEÚDO
Desde outubro de 2013, o Sintraci – criado em dezembro de 2012, para se contrapor aos possíveis impactos negativos da Copa do Mundo – convocou dez manifestações em diversos pontos da Região Metropolitana do Recife; foram seis só nos últimos dois meses. Reivindicam a garantia de permanência de vendedores ambulantes em alguns pontos da cidade (como os bairros da Casa Amarela e da Boa Vista, por exemplo), a construção de shoppings populares, mais diálogo com a administração do prefeito Geraldo Julio (PSB) e a exoneração de João Braga, secretário de Mobilidade e Controle Urbano, órgão responsável por disciplinar o comércio informal em Recife.


PROTESTO DE TRABALHADORES AMBULANTES NO DIA 11 DE ABRIL DE 2014 PEDE A SAÍDA DO SECRETÁRIO DE MOBILIDADE E CONTROLE URBANO, JOÃO BRAGA. (FOTO: FACEBOOK SINTRACI)
"Todas as negociações [com a secretaria] são feitas de forma a restringir o comércio informal”, afirma Severino. Segundo ele, mais de 300 comerciantes já tiveram suas barracas retiradas de vários pontos da cidade e sem realocação alguma.
A chegada da Copa do Mundo acirra a tensão entre trabalhadores ambulantes e as Prefeituras. Um dos pontos críticos é o estabelecimento de áreas de restrição comercial durante os eventos oficiais da FIFA (desde jogos até os congressos da entidade). Desde o dia anterior a qualquer um desses eventos, leis e decretos criados especificamente a Copa do Mundo passam a vigorar nessa áreas.

TRABAjADORES AMBULANTES PROTESTAn En RECIFE (FOTO: FACEBOOK SINTRACI)
Criadas para proteger os interesses dos patrocinadores da Copa, as Áreas de Restrição Comercialforam definidas na Lei Geral da Copa (12.663/2012) que atribuiu a regulamentação dessas áreas aos municípios-sede, o que já foi feito em sete sedes: BrasíliaFortaleza,NatalRecifeRio de JaneiroSalvador eSão Paulo.
(Veja os mapas abaixo)
As áreas são delimitadas por linhas imaginárias – não há barreiras físicas – e governadas pelas regras da FIFA, em alguns casos, revogando as leis municipais sobre comércio (incluído o ambulante), promoções e publicidade. O objetivo é dar à FIFA o direito de conduzir essas atividades nas áreas de grande concentração de torcedores – e de exposição na televisão -, garantindo aos seus patrocinadores exclusividade comercial e publicitária.
Na capital pernambucana, além do entorno da Arena Pernambuco, que fica no município de São Lourenço da Mata, uma série de ruas e avenidas como as da Boa Viagem, Conselheiro Aguiar e Domingos Ferreira (na orla da Praia de Boa Viagem) e um bairro inteiro – chamado Bairro do Recife – foram incluídos na área de restrição pelo decreto municipal 27.157/2013, sancionado pelo prefeito Geraldo Julio a dez dias do início da Copa das Confederações, no ano passado. Em seu artigo 6o, o decreto determina: "Não será autorizado qualquer tipo de comércio de rua na Área de Restrição Comercial nos dias de Evento e em suas respectivas vésperas, salvo se contar com a prévia e expressa manifestação positiva da FIFA.” Brasília e Fortaleza têm artigos idênticos em seus respectivos decretos.
"É preocupante, porque são áreas onde o comércio ambulante atua sempre aqui no Recife”, diz Severino. Em nota publicada em 8 de abril passado, a Prefeitura afirmou que recebeu o sindicato 38 vezes desde janeiro de 2013 para conversar e que vem tocando negociações em pontos reivindicados pelos ambulantes.
FALTA DE DIÁLOGO E INDEFINIÇÃO
Em Fortaleza, o vice-diretor da Aprovace (Associação Profissional do Comércio de Vendedores Ambulantes do Estado do Ceará), Guilherme Caminha, reclama da falta de diálogo. "Estamos tentando sentar para conversar desde o início do ano com a Prefeitura para saber como vão funcionar as coisas na Copa do Mundo e não temos respostas”, afirma. "A área do [estádio] Castelão e o centro da cidade são importantes para a gente e esperamos que haja diálogo para podermos atuar por ali. Até agora as únicas informações que eu tenho são as que você me conta”, ele disse ao nosso repórter.
Segundo dados da ONG Streetnet, cerca de 52 mil vendedores informais trabalham na capital cearense. Para a Copa das Confederações, em 2013, foram oferecidas aos ambulantes 250 vagas no entorno do Castelão e no Polo Urbanizado da Lagoa de Messejana. "No fim deste mês vencem as permissões que nós temos para trabalhar lá e nós não sabemos o que vai acontecer. Até agora a prefeitura só apreendeu nossas mercadorias. Só vejo eles perseguindo os ambulantes, mas não ofereceram espaço nenhum para a gente”, afirma Caminha.
Já em Belo Horizonte, as barracas que desde os anos 1960 vendiam feijão tropeiro e outras comidas típicas no entorno do Mineirão foram retiradas em 2010, quando começou a reforma do estádio para a Copa do Mundo. Há quatro anos os barraqueiros não têm trabalho garantido (Leia a história completa aqui).
"Para nós, a Copa foi acompanhada de desemprego e falta de renda”, desabafa Selma Salvino da Silva, presidente da Abaem – Associação dos Barraqueiros da Área Externa do Mineirão -, que também representa outros trabalhadores ambulantes da cidade. Ela conta que, durante a Copa das Confederações, quem decidia trabalhar nos arredores do estádio tinha que fazê-lo ilegalmente, correndo o risco de ter mercadorias apreendidas pela fiscalização. Além disso, a polícia bloqueou a entrada para a Avenida Antônio Abrahão Caran, principal via de acesso ao Mineirão, o que manteve os ambulantes a pelo menos 1 km de distância do estádio.
No dia 9 de julho de 2013, logo após as manifestações que marcaram o país, o governador Antonio Anastasia se reuniu com militantes no Palácio da Liberdade e fez promessas aos ambulantes: "Estamos falando de trabalhadores e familiares. Vou me esforçar para resolver a situação deles o quanto antes. Vamos quebrar a cabeça pra isso”.
"Tem sempre muita luta e muita reunião”, diz Selma, apontando a falta de resultados efetivos apesar das inúmeras audiências que a Abaem teve com assessores do governo do estado, Ministério Público, Secretaria municipal da Copa, BH Trans (Empresa de Transporte e Trânsito de BH), Defensoria Pública e Polícia Militar, entre outras entidades. A última reunião foi no dia 19 de março e as negociações seguem em andamento.
Na Copa do Mundo, os ambulantes querem autorização para vender no entorno do estádio ou pelo menos nas áreas de fan fests (eventos oficiais de exibição pública dos jogos nas cidades-sede). "A gente espera uma negociação pacífica e uma resposta dos órgãos competentes. Quando a gente perceber que não vai ter negociação nem articulação, aí vamos fazer uma ocupação”, alerta Selma.
Até agora não se sabe nem exatamente qual será a área de restrição comercial em Belo Horizonte. Em dezembro de 2013, seis meses depois da Copa das Confederações, Belo Horizonte aprovou aLei nº 10.689, estabelecendo que o comércio de rua nas imediações e principais vias de acesso ao estádio seguirá as determinações da Fifa em acordo com a prefeitura, não sendo aplicáveis as normas municipais sobre o assunto. Mas não definiu o perímetro das áreas de restrição, o que terá que ser feito por meio de um decreto. Questionada sobre a demora em definir as áreas de restrição comercial e sobre seu posicionamento em relação aos ambulantes, a Secretaria da Copa de Belo Horizonte não respondeu até o fechamento da reportagem.
A SERVIÇO DOS PATROCINADORES
O Fórum dos Ambulantes de São Paulo, que reúne membros de sindicatos, associações e coletivos ligados aos trabalhadores ambulantes, atua desde 2011 em conjunto com o Comitê Popular da Copa de São Paulo para garantir os direitos dos trabalhadores ambulantes na capital paulista. Em junho de 2012, com assistência jurídica do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, o Fórum conseguiu uma liminar revogando as cassações de Termos de Permissão de Uso (TPUs) feitas pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD) naquele ano. Na decisão da juíza Carmen Oliveira, da 5ª Vara da Fazenda Pública, aparece o número de licenças cassadas: 4 mil.

ELISÂNGELA SOARES DE MELO VENDE aGUA, helado y gaseosa A lOS Obreros Del ITAQUERÃO, En SÃO PAULO, y PRETENDE TRABajAR DURANTE lOS JueGOS De lA COPA (FOTO: JOSEH SILVA/AGÊNCIA PÚBLICA)
A liminar foi derrubada pela Prefeitura ainda em 2012, mas os ambulantes conseguiram reestabelecê-la no Supremo Tribunal de Justiça (STJ). Em 16 de maio de 2013, uma audiência pública definiu que o processo seria suspenso por 180 dias para a elaboração de um plano municipal para o comércio ambulante. Com esse objetivo, foi criado, em setembro, oGrupo de Trabalho dos Ambulantes, composto por representantes dos ambulantes, da sociedade civil e do poder público, e coordenado pela Secretaria de Coordenação das Subprefeituras.
Esse plano ainda não foi lançado, mas o Grupo de Trabalho dos Ambulantes tem funcionado como espaço de articulação de um acordo entre SP Copa (Secretaria Municipal da Copa), FIFA, Secretaria de Coordenação das Subprefeituras e Fórum dos Ambulantes para garantir trabalho aos ambulantes durante a Copa do Mundo. ”Estamos negociando para que os ambulantes vendam produtos das empresas patrocinadoras da Copa no entorno do estádio, na fan fest e nos outros cinco eventos de exibição pública”, diz André Cintra, assessor de imprensa da SP Copa.
Porém,o decreto nº 55.010, publicado na quinta-feira passada, afirma apenas que a FIFA possui o direito sobre o comércio de rua nas áreas de restrição comercial nos dias de eventos oficiais e nas vésperas, sem detalhar como isso vai acontecer.
"Vai ter ambulante na Copa. Isso está fechado. É uma coisa boa para o ambulante, boa para quem está nas ruas. Para a Ambev e para a Coca-Cola, o que importa é vender a latinha, então quanto mais ambulantes houver, melhor”, afirma Cintra. Segundo ele, o número de ambulantes que poderão atuar nesse esquema e a logística ainda estão sendo discutidos pelo Grupo de Trabalho, mas deve ficar em torno de 400 postos de trabalho.
Esse esquema conta com as benção da FIFA, que declarou: "Em 2013, por meio de uma iniciativa inédita, a FIFA e COL autorizaram que quatro Sedes da Copa das Confederações da FIFA Brasil 2013, em conjunto com os patrocinadores oficiais, implementassem um projeto com ambulantes, que foram previamente selecionados, treinados e devidamente credenciados para atuação nas imediações dos estádios nos dias dos jogos. Para a Competição em 2014, a FIFA e COL, juntamente com outros atores relevantes, têm estimulado as autoridades locais e patrocinadores oficiais da Copa do Mundo da FIFA 2014™ a desenvolver e implementar projeto semelhante. É importante notar que, mesmo que seja conduzido um programa de qualificação para os vendedores do setor informal pelas autoridades locais, a atuação dependerá de autorização prévia e deverá ser fiscalizada nos dias dos jogos, a fim de garantir o mínimo impacto para as operações e, sobretudo, proteger aqueles que consumirão os produtos em questão.”
NA BOCA DO ITAQUERÃO

AINDA EM OBRAS NO DIA 3 DE ABRIL DE 2014, ENTORNO DO ITAQUERÃO, EM SP, TERÁ APENAS AMBULANTES AUTORIZADOS PELA FIFA. (FOTO: JOSEH SILVA/AGÊNCIA PÚBLICA)
O assessor de imprensa da SP Copa também reconheceu as limitações da comunicação da prefeitura com os vendedores que estão hoje no entorno do estádio do Corinthians, o Itaquerão. Ali, os ambulantes trabalham em meio aos canteiros de obras sonhando com as oportunidades oferecidas pela Copa do Mundo ao mesmo tempo que convivem com a total falta de informação, como apurou a reportagem da Pública em visita à Arena Corinthians no dia 3 de abril. "O pessoal tá querendo montar um negocinho aqui, arrumar um cantinho para vender. Só que perto não vai poder ficar”, diz Elisângela Soares de Melo, que há duas semanas vende água, refrigerante e sorvete para os operários e visitantes do Itaquerão.

ITAQUERÃO, SÃO PAULO, 3 DE ABRIL DE 2014: OS AMBULANTES QUE VENDEM PARA OPERÁRIOS – NOS INÚMEROS CANTEIROS DE OBRA EM VOLTA DO ESTÁDIO – NÃO SABEM SE VÃO PODER TRABALHAR DURANTE OS JOGOS DA COPA.
"No começo do ano, fomos na prefeitura pedir uma licença para trabalhar aqui, mas eles disseram que ninguém ia ficar na frente do estádio porque lá dentro vai ter um shopping que vai atender às necessidades dos torcedores”, relata Josi dos Santos, que trabalha lá há três meses. "Se ninguém se opuser, estaremos aqui. Mas a gente não sabe o que vai acontecer”, resume Valéria Nogueira, ambulante no local há um ano.
‘A FIFA TEM PODER DE MUNICÍPIO’
"Uma vez que as atividades não autorizadas concentram-se, invariavelmente, no entorno dos estádios e outros Locais Oficiais de Competição, focando no grande número de torcedores que transitam em tais regiões, as Áreas de Restrição Comercial tornam-se, operacionalmente, essenciais para a organização da Copa do Mundo da FIFA”, afirma o departamento de imprensa da entidade, alegando que os ambulantes podem "atrapalhar o fluxo de pessoas e de carros na chegada aos jogos, além de trazer problemas para as equipes de segurança”.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB (SP), Martim de Almeida Sampaio, que fez um estudo sobre a Lei Geral da Copa, critica o que considera a criação de tipos penais inexistentes para garantir os privilégios da FIFA e de seus patrocinadores. "Há três crimes novos nessa legislação: proteção à marca FIFA, marketing de emboscada por associação e [marketing de emboscada] por intrusão. Eu pesquisei: pelo Direito Comparado não existem essas três figuras penais nos principais sistemas legais”, afirma. O marketing de emboscada por associação é quando alguém divulga marcas, produtos ou serviços e os associa aos eventos ou símbolos oficiais da FIFA, sem a autorização dela. Já o marketing de intrusão ocorre quando alguém faz uma promoção de produtos, marcas e serviços nos locais de competição, sem se associar ao evento, mas chamando a atenção do público. Os crimes estão definidos nos artigos 32 e 33 da Lei Geral da Copa e têm penas previstas de três meses a um ano de detenção.
"O Direito Penal é um campo do Direito cujo objeto tutelado é a sociedade. Por exemplo, existe uma lei que diz que matar é crime. Isso está protegendo quem? Alguma pessoa específica? Não, está protegendo a sociedade. A Lei Geral da Copa é um caso de Direito Penal de autor. Não se está protegendo a sociedade, mas se está protegendo as marcas da FIFA”, argumenta.
"Essa lei declara um autêntico estado de sítio. A soberania nacional foi posta de lado. A Constituição Federal declara a nossa liberdade comercial e a Lei Geral da Copa delimita áreas onde a FIFA é responsável por determinar quem [pode comercializar] e o que pode ser comercializado”, critica o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Sobre os ambulantes, diz: "a FIFA agora assume a postura de legislador municipal e tem o poder de proibir inclusive os vendedores ambulantes que estão devidamente regularizados”.
"Transferir para a FIFA o papel de gestão de um espaço urbano dentro da cidade é muito grave”, reitera Orlando Santos Jr., sociólogo doutor em Planejamento Urbano e pesquisador do Observatório das Metrópoles. "Quem legitimou essa autoridade para que a FIFA possa regular o espaço público de uma parte da cidade? Há também um impacto sobre o direito dos cidadãos de se apropriarem da cidade na qual vivem. Eu estou com o meu direito cerceado por uma lei de exceção que não me permite a apropriação desse espaço durante um certo período. Cria-se um precedente do ponto de vista de subordinar a gestão do espaço público a interesses privados”, diz Orlando.
Sobre os ambulantes, é taxativo: "As medidas de restrição ao comércio ambulante sinalizam como uma restrição ao próprio direito ao trabalho, garantido pela Constituição. Está se criando uma restrição específica a certo grupo social, portanto, a meu ver, restringindo seu direito ao trabalho”, diz Santos Jr.
O coordenador do programa de justiça da ONG Conectas, Rafael Custódio, tem a mesma percepção: "Uma coisa é a FIFA querer regular as áreas onde o evento acontecerá, outra coisa é querer regular o espaço público do entorno. Regulamentar dessa maneira o entorno dos estádios é absolutamente ilegal e abusivo. O interesse de uma entidade privada se sobrepõe a uma série de direitos fundamentais e sobretudo ao interesse público”, afirma.

EXPULSOS DO MINEIRÃO HÁ QUATRO ANOS, OS BARRAQUEIROS EXIGEM VOLTA AO ESTÁDIO ANTES DA COPA. (FOTO: AGÊNCIA PÚBLICA)
A FIFA afirmou por meio de nota que "as áreas de restrição não são uma medida inédita ou exclusiva da Copa do Mundo da FIFA™ ou da Copa das Confederações da FIFA. É usual que eventos de grandes proporções (e não apenas esportivos) contem com áreas nas quais determinadas atividades comerciais não são permitidas. Trata-se de medida lógica e necessária para a preservação da ordem e da legalidade em um evento que atrairá milhões de pessoas”.
Veja os mapas das cidades-sede com as Áreas de Restrição Comercial definidas:


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Toda criança tem direito a não ser campeã

comciência
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=98&id=1194

Toda criança tem direito a não ser campeã
Por Hugo Tourinho Filho
10/04/2014
O ser humano, em todas as fases da vida, está sempre descobrindo e aprendendo com seus semelhantes e através do domínio sobre o meio em que vive. A esse ato de busca, de troca, de interação, de apropriação se dá o nome de educação. Neste sentido, é inegável a importância da utilização dos conteúdos dos jogos, ginásticas, lutas e dança na prática regular de exercícios físicos realizados durante a infância e adolescência como importante estratégia para o ato de educar. No entanto, a atividade física, por si só, não educa, pois seus efeitos dependem da situação criada, especialmente, em relação aos aspectos de interação social e ao clima afetivo-emocional, entre os quais a interação com o educador é fundamental.
Atualmente, no mundo em que vivemos, o lúdico está sendo excluído do universo infantil. As crianças estão brincando cada vez menos e este fato se dá em virtude de alguns fatores, entre os quais se destacam: o amadurecimento precoce, a redução do espaço físico e do tempo de brincar em função, muitas vezes, do excesso de atividades – o aprendizado de línguas estrangeiras, as aulas de computação, as aulas de reforço escolar, a participação em equipes esportivas e competições, e toda uma gama de compromissos que, em tese, estariam “preparando” nossas crianças para o mercado de trabalho.
Quando sobra tempo, em muitos casos, as horas de lazer são gastas à frente da televisão e dos jogos eletrônicos (videogames, tablets, jogos em celulares). Não se quer dizer com isso que não seja importante a participação em tais atividades e que o contato com novas tecnologias seja prejudicial à criança, pelo contrário, pois tais ferramentas também precisam ser exploradas dentro do ato de educar no mundo contemporâneo. O grande problema é quando não há espaço para o lúdico.
O lúdico na educação infantil, apoiado nas ações do jogo, da dança, enfim, por meio do movimento, é uma importante forma de educar. Para manter o equilíbrio com o mundo, a criança necessita brincar, jogar, criar e inventar. A infância é a idade das brincadeiras. A brincadeira é algo inerente à criança – é sua forma de trabalhar, refletir e descobrir o mundo que a cerca. Uma criança que não sabe brincar será, fatalmente, um adulto que não sabe pensar e com sérias dificuldades para criar.
Neste sentido, a ludicidade, como conteúdo dos jogos, ginástica, lutas e dança nos programas de exercícios físicos na infância, está longe da concepção ingênua de passatempo, brincadeira ou diversão superficial, muito pelo contrário, quando bem planejada se torna uma importante ferramenta para o desenvolvimento integral da criança. Dentro dessa linha de raciocínio, a participação das crianças nas atividades esportivas deve ser voltada, necessariamente, à aquisição de um repertório motor amplo e variado que possibilite uma maior vivência motora – experiência com diferentes formas de se movimentar a fim de criar uma “biblioteca motora” ampla e rica, além dos estímulos que propiciarão um melhor desenvolvimento cognitivo e socioafetivo.
Quanto maior o repertório motor (biblioteca motora), maior será a capacidade de aprender e executar novos padrões de movimento – mais preparada a criança ficará nas fases seguintes (adolescência e fase adulta) para aprender movimentos mais complexos e realizados com maior precisão, fato que, no caso da formação de atletas, aumentará as chances de obtenção do alto rendimento. Acredita-se importante ressaltar que é durante as primeiras etapas do aprendizado esportivo, a iniciação esportiva, que se estabelecem as bases do futuro rendimento, sem jamais buscar o rendimento – toda criança tem direito a não ser campeã.
Essa constatação parece fazer todo o sentido diante de todas as possibilidades que a participação em programas de atividades físicas pode propiciar nessa importante fase da vida, que vão muito além de uma vitória, um título ou a quebra de um recorde. Todavia, nem sempre é dessa forma que é encarada a participação das crianças na sua iniciação esportiva e dos adolescentes em sua formação atlética.
Essa afirmação pode ser ilustrada por meio da reflexão dos motivos que levam um adulto a matricular uma criança em uma escola ou em uma “escolinha” de esportes. Quando levamos uma criança para o seu primeiro dia de aula, dificilmente pensaremos que com essa atitude estaremos contribuindo para a formação de um futuro gênio da bioquímica ou da física, ou que ao matricularmos nossas crianças na escola estaremos contribuindo para a preparação do próximo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.
Já quando matriculamos uma criança numa “escolinha” de futebol, natação, tênis, futsal ou qualquer outro esporte, não é difícil encontrar o seguinte desejo – “este será o futuro Neymar do futebol, ou o Cielo da natação e – por que não? – o Federer do tênis ou o Falcão do futsal”. Por que numa escolinha de esportes não desejamos apenas que nossas crianças sejam felizes por estarem num ambiente que lhes proporciona, acima de tudo, boas experiências? Não, neste caso queremos que elas se tornem as melhores, as campeãs. Com essa forma de agir, podemos estar contribuindo para a instalação de um grande problema no que diz respeito à participação das crianças no esporte e que pode ser intensificado com o advento da Copa do Mundo e das Olimpíadas que serão organizadas em nosso país.
Embora ainda não se tenham explicações adequadas para inúmeros questionamentos relacionados aos efeitos da prática regular de exercícios físicos envolvendo integrantes da população jovem, verifica-se que, nos últimos anos, uma grande quantidade de informações vem sendo acumulada com referência ao assunto, muito provavelmente, em função do aumento da participação de jovens em programas de treinamento.
Em especial, no Brasil, com a organização da próxima Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas a serem realizadas em 2016, espera-se que esse aumento na participação dos jovens em eventos esportivos tome uma proporção cada vez maior. E a busca pelo rendimento sem a devida atenção às fases que precisam ser respeitadas dentro da iniciação esportiva e formação atlética de crianças e adolescentes pode nos levar a deparar com um quadro de pressão excessiva que, ao invés de contribuir para aumentar o desejo em praticar esportes, irá acelerar o processo de abandono do hábito saudável da prática esportiva desde a mais tenra idade.
Nas últimas décadas verificou-se uma explosão do profissionalismo no esporte. O interesse da iniciativa privada por essa área e as consequentes oportunidades de independência financeira e ascensão social têm levado os profissionais envolvidos com esse segmento a uma corrida incessante em busca do sucesso que, em muitos casos, tem trazido sérios prejuízos psicofisiológicos às pessoas envolvidas nesse processo.
É comum deparar-se com atletas que abandonaram o esporte por se sentirem “desmotivados”. Por vezes, afirmam ter perdido o objetivo de treinar e/ou competir. “O que eu estou fazendo aqui neste jogo?”, pode-se ouvir. “Eu treino cada vez mais e não consigo mais melhorar minhas marcas!”, é outra afirmativa recorrente. Essas frases são frequentes no mundo do esporte competitivo e alguns sintomas de apatia, fadiga excessiva, perda de rendimento e lesões frequentes têm motivado os pesquisadores da área a investigar as causas de tantos males.
Diversos problemas como dificuldades em melhorar o desempenho, conflito entre técnico e atleta, uso de drogas muitas vezes utilizadas como doping em busca de melhores resultados e estresse emocional são extremamente intensificados pela incrível pressão exercida pelas sessões de treinamento face às exigências da preparação dos atletas de elite que se inicia cada vez mais precocemente.
Formação atlética inadequada e o “burnout”
No começo dos anos 1980, o termo “burnout” começou a aparecer com frequência na literatura esportiva, sendo explicado como uma síndrome que tem o poder de afastar as pessoas de suas atividades – no caso do esporte, o abandono da prática esportiva. Técnicos em todos os níveis começaram a discutir os perigos do “burnout” em sua profissão. Atletas de elite começaram a abandonar o esporte no auge de suas carreiras, afirmando que estavam “esgotados” e que a participação tinha-se tornado tão aversiva que era impossível para eles continuar. Preocupações com o grande número de atletas que passaram a desistir do esporte durante a adolescência tornaram-se frequentes.
Mas, na verdade, tudo começou em 1959, quando Thibaut e Kelley avançaram para uma teoria que fornece uma base para diferenciar as retiradas do esporte provenientes do “burnout”, daquelas provenientes de outros motivos. Thibaut e Kelley começaram seus estudos com a suposição de que o comportamento humano é governado principalmente pelo desejo de maximizar as experiências positivas e minimizar as negativas. A partir dessa perspectiva, as pessoas têm relações ou participam de atividades só enquanto os resultados da participação são suficientemente favoráveis. O favorecimento é determinado pelo equilíbrio entre recompensas e custos. No entanto, eles ainda verificaram que a decisão de entrar ou de permanecer em uma relação ou em uma atividade não é baseada somente no resultado recompensa menos custos, ou seja, se a recompensa for maior que os custos, a tendência seria continuar na atividade e o contrário levaria ao abandono da mesma.
Os resultados da participação em uma atividade são avaliados em relação a dois padrões: o nível de comparação e o nível de comparação a alternativas. O nível de comparação é uma escala pessoal, onde a atividade pode ser avaliada, em seus extremos, como boa/satisfatória/prazerosa ou ruim/insatisfatória/não prazerosa. A relação do resultado com o nível de comparação determina quanta satisfação uma pessoa encontrará em uma atividade, mas não determina se a pessoa continuará na atividade. Algumas vezes os atletas continuam a participar da atividade embora já não sintam mais satisfação em sua prática. O nível de comparação a alternativas, sim, pode explicar a retirada da atividade. Se a pessoa já não sente mais prazer na atividade, mas verifica uma impossibilidade de manter um status social, por exemplo, em virtude da sua retirada, ela pode optar por permanecer na atividade. Por outro lado, se ela verifica que tem possibilidades de mudança, sem grandes perdas, ou seja, uma alternativa mais atraente, então ela abandona a atividade em que está e que já não lhe garante mais satisfação, trocando-a por outra.
Estudos que revisaram os motivos de desistência esportiva encontraram como a razão mais proeminente de abandono da prática do esporte o interesse por outras atividades, e não demandas excessivas de treinamento ou excesso de pressão por resultados.
Em todos os casos acima, parece ser impróprio atribuir a desistência ao “burnout”. Em contraste à desistência baseada numa mudança de interesses ou numa reorientação de valores, o “burnout” resulta de um aumento dos custos induzidos pelo estresse. No “burnout”, o abandono da prática não se dá apenas pelo fato de haver uma alternativa mais atrativa e sim por não se suportar mais permanecer naquela função.
Verificando alguns conceitos de “burnout”, isso pode tornar-se mais claro. “Burnout” é um subproduto do estresse prolongado que pode resultar em consequências negativas, tais como: absenteísmo, insônia, fadiga, e sentimentos de passividade ou de agressividade. “Burnout” é uma síndrome multidimensional caracterizada por sentimentos de exaustão e despersonalização emocionais e um reduzido senso de realização pessoal. “Burnout” é uma resposta à tensão emocional crônica de lidar extensivamente com outros seres humanos, particularmente quando eles são problemáticos. Então, muitas vezes os valores das “recompensas” não diminuem, mas os custos induzidos pelo estresse se tornam pesados demais. Como conclusão, pode-se utilizar a ideia de que o “burnout” envolve uma desistência psicológica, emocional e, às vezes, física de uma atividade em resposta ao estresse excessivo – no caso aqui discutido, as pressões realizadas em momentos inoportunos nas crianças e adolescentes envolvidos com o esporte competitivo.
Alguns estudos têm sinalizado para o fato de que as raízes do “burnout” estavam fundadas na organização social do esporte de competição. Nessas pesquisas, os jovens entrevistados frequentemente mencionaram pressões e estresse relacionados à participação esportiva, mas as pressões e o estresse que pareciam ser piores para eles eram aqueles ligados à falta de controle sobre suas próprias vidas. Os jovens atletas verbalizaram o quanto gostariam de experimentar outras coisas fora do esporte. Um jovem atleta de 17 anos expressou seus sentimentos imediatamente antes de desenvolver os sintomas do “burnout” da seguinte maneira: “Eu dizia a todo mundo: ‘Eu patino por diversão. Adoro as viagens, a competição, a atenção, as multidões’. Eu sempre dizia: ‘Para alcançar meus objetivos, eu tenho que fazer muitos sacrifícios’. Mas quando eu me tornei mais velho, eu vi que eu estava perdendo muito. Outros garotos estavam fazendo coisas que eu nunca tinha tido tempo de fazer. Eu me senti sufocado!”
Não existe dúvida de que o estresse está associado ao “burnout”. Contudo, as raízes do “burnout” entre jovens atletas vão além do estresse crônico, além das demandas emocionais e consequências do esporte competitivo, e além dos recursos psicológicos individuais. O “burnout” é mais bem explicado se tratado como um problema social ao invés de uma falha pessoal.
As identidades são construídas através de relações sociais e os jovens envolvidos no esporte competitivo encontram-se em situações nas quais se torna quase impossível se envolver em outras atividades e desempenhar outros papéis. Eles não têm poder de construir socialmente suas identidades fora do esporte. Então, o jovem esportista desenvolve sua identidade de “atleta”, enquanto todos os outros papéis sociais são tolhidos. Logo, o “burnout”, dentro dessa concepção social, ocorre quando os jovens não veem possibilidades de socialmente construir uma identidade desejada afora sua identidade de atleta.
O envolvimento no esporte torna-se análogo a estar sobre uma corda bamba: é excitante, eles são bons, eles são o centro das atenções, mas sabe-se que não se pode mudar o foco de atenção para nada além do esporte sem perder o equilíbrio. E se eles perderem esse equilíbrio, eles sabem que não terão uma rede para segurá-los. Em virtude disso, passam a se sentir inseguros. Essa insegurança afeta o rendimento. E a inabilidade de manter os padrões de desempenho leva à retirada do esporte.
Nesse sentido, parece razoável sugerir que quando o “burnout” é conceituado como um problema social ao invés de uma falha pessoal, isso sugere uma mudança, indo além do tratamento do estresse. Assim sendo, se os cientistas do esporte focalizarem sua atenção exclusivamente sobre ajustes individuais e administração do estresse, sem lidar com as condições sociais nas quais o desenvolvimento da identidade é tolhido, resultando em jovens atletas que perdem o controle significativo sobre importantes partes de suas vidas, o problema não será resolvido de forma efetiva. Jovens atletas, frequentemente, necessitam muito mais de uma avaliação crítica com relação à sua participação no esporte e uma maior autonomia sobre sua vida do que simples técnicas de controle de estresse.
Por fim, os atletas precisam ser encorajados a se tornarem menos dependentes e mais autônomos em suas decisões. Atletas são seres humanos com sentimentos, desejos, necessidades e sonhos, e não máquinas de performance esportiva! Os jovens devem aprender com o esporte que não são perfeitos e que vão errar muitas vezes. Eles não deveriam ter receio de agir por medo de errar. É preciso ensiná-los a ter iniciativa, agir e ousar sabendo que vão errar muitas vezes. Os erros os tornam mais fortes se forem aceitos de maneira apropriada.
E as crianças? Ah! As crianças podem e devem jogar imaginando ser o Neymar, o Lionel Messi ou o Cristiano Ronaldo – elas têm todo o direito de sonharem ser um astro numa partida de futebol, basquete, vôlei ou tênis, pois isso faz parte do lúdico que enriquece a infância. Porém, é incorreto pensar que todas as crianças que se dedicam ao esporte vão atingir altos níveis de rendimento. Em sua maioria, elas se beneficiaram pelo simples fato de estarem envolvidas com a prática esportiva: sentem alegria, fazem amigos e aprendem as habilidades dos esportes praticados, o que as ajudará durante toda a vida.
Hugo Tourinho Filho é professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto.