sábado, 20 de julho de 2013

Hidrelétricas do Tapajós: em mapa, números e gráficos

o eco
http://www.oeco.org.br/hidreletricas-do-tapajos/27374-hidreletricas-do-tapajos-em-mapa-numeros-e-graficos?utm_source=newsletter_767&utm_medium=email&utm_campaign=as-novidades-de-hoje-em-oeco

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No mapa interativo acima, é possível ver as localizações aproximadas dos empreendimentos. E, clicando nas localidades, o leitor pode descobrir mais informações sobre cada um. O Complexo Hidrelétrico do Tapajós é composto pelas seguintes usinas: UHE São Luiz do Tapajós, UHE Jatobá, UHE Jamanxim, UHE Cachoeira do Caí, UHE Cachoeira dos Patos, todos em estudos, além de outros dois aproveitamentos inventariados: Chocorão e Jardim do Ouro. O empreendimento ainda está na fase de estudo de viabilidade, que para algumas das usinas ainda não começou. 

Espera-se que, após a conclusão, o complexo tenha uma potência instalada de 10.682 megawatts (MW). A vizinha, a Usina de Tucuruí, também no Pará, tem capacidade instalada de 8.370 MW. Se comparado às outras megausinas brasileiras, só fica atrás da binacional Itaipu, de propriedade brasileira e paraguaia, com 14.000 MW e da ainda em construção Usina de Belo Monte, que se estima gerará, em plena capacidade, 11.233 MW. 

Itaituba (tupi para "lugar de pedregulhos") é um dos principais centros econômicos do Pará e uma das cidades que apresentam crescimento econômico acelerado no interior do país. A 15ª maior cidade (em termos populacionais) do estado, 3ª maior cidade do oeste paraense, com o 13º maior PIB. A cidade é considerada pelo IBGE como um centro sub-regional (terceiro na hierarquia de classificação de centros urbanos do IBGE, caracterizado pela existência de atividades de gestão e de influência sobre os municípios mais próximos) de médio porte (por possuir população entre 100.000 e 500.000 habitantes), encontrando no setor de serviços o motor de sua economia.

Mas este não é um retrato completo. Entre meados da década de 1980 e início da década de 1990, a economia do município era fundada na extração do ouro no Vale do Tapajós. Observou-se no período um crescimento desorganizado da cidade, com um significativo aumento da pobreza na periferia, além da degradação ambiental causada pelo mercúrio. Com a redução da exploração do ouro no início da década de 90, a cidade começou a ver surgir empreendimentos ligados principalmente ao setor agropecuário e madeireiro.

A extração de ouro, entretanto, ressurge a partir de 2000, com a instalação de grandes conglomerados ligados à atividade de mineração e com o garimpo clandestino. Na região de Itaituba, hoje, há cerca de 3 mil garimpos clandestinos. O setor, em seu modelo legal ou ilegal, é a verdadeira força motriz da economia local.

O abastecimento de energia até fins dos anos 1990 representava um problema crônico para a cidade. Em 1998, Itaituba passou a ser atendida pelo Projeto Tramoeste, que transmite energia produzida na Hidrelétrica de Tucuruí para diversas cidades no oeste paraense. A construção do Complexo de Tapajós certamente representará semelhante, um novo "boom" econômico na região. Os custos sociais e ambientais, entretanto, podem ser altos demais,como demonstram os artigos desta série.

Veja nos gráficos abaixo, a evolução do município nas últimas décadas:



sexta-feira, 19 de julho de 2013

McDonald’s lança cartilha que ensina empregados a gerir baixos salários

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2013/07/mcdonalds-lanca-cartilha-para-ensinar-empregados-a-gerir-baixos-salarios/

McDonald’s lança cartilha que ensina empregados a gerir baixos salários

Objetivo da empresa é mostrar “melhor maneira de gastar dinheiro”; guia propõe gastos ínfimos com saúde e segundo emprego aos funcionários da franquia
Por Repórter Brasil | Categoria(s): Notícias
O McDonald’s criou, em conjunto com a Visa, uma página na internet – Practical Money Skills – para orientar seus funcionários a serem “bem-sucedidos financeiramente” com os ganhos recebidos na empresa, um ambiente de trabalho “gratificante e compensador”. A campanha, realizada pelas sedes das duas companhias nos Estados Unidos, procura guiar os empregados da rede de fast foods a gerirem sua remuneração salarial.
O salário de um empregado do restaurante é, em média, de US$ 8,25 por hora nos EUA. No site, há uma cartilha que ensina, passo a passo, a “melhor maneira de gastar seu dinheiro”. Entre as recomendações o guia propõe um orçamento mensal de US$ 20 para despesas com saúde. No país, porém, não há sistema público de saúde, e toda e qualquer necessidade médica deve passar por hospitais ou clínicas particulares.
A cartilha também prevê que um funcionário do McDonald’s inclua no orçamento os ganhos com um segundo emprego. Além disso, há uma versão da página em espanhol. O documento, ainda, não leva em consideração diferenças do custo de vida nas diferentes regiões do país, bem como não faz qualquer menção a gastos para indivíduos que tenham de sustentar uma família.
Funcionários denunciam violações trabalhistas, em frente à sede do McDonald's em Chicago, no último 6 de junho. (Foto: National Guestworker Alliance)
Funcionários denunciam violações trabalhistas, em frente à sede do McDonald’s em Chicago, no último 6 de junho. (Foto: National Guestworker Alliance)
Procurada pela reportagem para comentar o caso, a assessoria de imprensa da empresa alocada no Brasil disse que não iria se pronunciar por se tratar de uma questão relacionada à franquia estadunidense.
Segundo números da própria companhia, a rede emprega mais de 1,7 milhão de pessoas e tem 33 mil restaurantes em todo o mundo, em mais de 119 países. De acordo com levantamento das melhores corporações para se trabalhar no mundo, realizado pela companhia Great Place to Work, a rede de restaurantes foi eleita a 4ª melhor transnacional alocada na América Latina, no período entre junho de 2011 e março de 2012.
Ainda este ano, no entanto, o McDonald’s foi alvo de um protesto internacional, ocorrido no último 6 de julho em pelo menos 33 localidades, para denunciar violações a direitos trabalhistas, principalmente contra trabalhadores imigrantes, e práticas contra a livre associação sindical.
Condenação trabalhista no Brasil
Em março deste ano o McDonald’s foi condenado pela Justiça do trabalho brasileira por estabelecer um regime de expediente variável e impedir que funcionários trouxessem a própria refeição de casa, duas práticas que costumavam ser adotadas pela empresa. A juíza Virgínia Lúcia de Sá Bahia, da 11ª Vara do Trabalho do Recife, determinou que em todo o Brasil a franquia cessasse essas condutas.
Nas Filipinas, trabalhadores protestam contra condições de emprego na rede de restaurantes. (Foto: National Guestworker Alliance)
Nas Filipinas, trabalhadora protesta contra condições de emprego na rede de restaurantes. (Foto: National Guestworker Alliance)
A condenação à época decorreu de uma ação movida pelo procurador do Trabalho Leonardo Osório Mendonça. Para o MPT, na ocasião, a jornada móvel variável fazia que “o empregado estivesse, efetivamente, muito mais tempo à disposição da empresa do que as oito horas de trabalho diárias previstas nos contratos ‘normais’ de trabalho”, além de “não garantir o pagamento sequer de salário mínimo ao final do mês”.
Trabalho escravo
Além de irregularidades trabalhistas, o McDonald’s já foi denunciado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Gastronomia e Hospedagem de São Paulo e Região (Sinthoresp) por suposta exploração de trabalho escravo. A denúncia culminou na abertura pela Polícia Federal (PF) do inquérito policial 0233/2012 em 16 de outubro de 2012. O assunto foi encaminhado para a Justiça e, em maio de 2013, retornou para mais investigações. Ainda não há, porém, comprovação da prática por autoridades.
Desde 2009, o McDonald´s integra o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo e pode ser suspenso se for comprovada a submissão de trabalhadores à escravidão. Na época, ao Comitê de Gestão do Pacto, a empresa afirmou que as alegações do Sinthoresp não têm qualquer suporte “fatídico ou legal”.
*com informações das agências de notícias

Obra do Santander é flagrada com trabalho escravo

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2013/07/obra-do-santander-e-flagrada-com-trabalho-escravo/

Obra do Santander é flagrada com trabalho escravo

Banco, no entanto, não foi responsabilizado. Esse foi o terceiro caso de infrações trabalhistas na mesma construção, localizada em Campinas (SP)
Por Stefano Wrobleski | Categoria(s): Notícias
Vinte e sete trabalhadores foram resgatados em condições análogas às de escravo nas obras de um data center do banco Santander em Campinas, no interior de São Paulo. O flagrante aconteceu em março, mas o relatório da fiscalização só foi finalizado esta semana. O documento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reúne as medidas tomadas contra a construtora Machado & Machado, uma das empresas contratadas pelo banco que empregava as vítimas.
Trabalhadores foram resgatados da obra do data center do Santander (Foto: Fernanda Forato)
Trabalhadores foram resgatados da obra do data center do Santander (Foto: Fernanda Forato)
A fiscalização encontrou os funcionários da Machado & Machado em condições degradantes de trabalho, o que caracterizou a escravidão. Dentre as infrações, os empregados eram submetidos a jornadas extensivas, com a realização diária de até oito horas extras acima das oito permitidas pela legislação, além de longos períodos sem descanso semanal. Um dos resgatados chegou a trabalhar por trinta dias sem folga.
A subcontratação é tão excessiva que chega a empresas de porte tão pequeno que, por isso, não têm capital de giro
De acordo com Nei Messias Vieira, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) que acompanhou a operação, os salários eram atrasados com frequência e só eram pagos depois que a construtora recebia do Santander, o que ocorria até o quinto dia útil de cada mês. “Isso é comum na construção civil. A subcontratação é tão excessiva que chega a empresas de porte tão pequeno que, por isso, não têm capital de giro”, disse. Segundo Djalma Pirillo, advogado da Machado & Machado, esse foi o primeiro contrato da empresa de “valor expressivo e de longa duração”. “A maioria das obras é de curta duração, com serviços iniciados no começo do dia e concluídos no final da tarde”, declarou.
De acordo com o auditor fiscal do trabalho João Batista Amâncio, que participou da operação, o canteiro de obras do data center tinha uma área de mais de um milhão de metros quadrados, com diversos prédios em construção, e contava com mais de 700 trabalhadores contratados por “dezenas” de empresas: “Para se ter uma ideia, só uma das empresas contratadas pelo Santander havia subcontratado outras dez empresas”.
Outra infração da Machado & Machado, que atingiu ao menos dez pessoas, foi a retenção de carteiras de trabalho por mais de 48 horas, tempo máximo permitido por lei para anotações pelo empregador. Em alguns casos, os empregados já haviam sido demitidos há mais de uma semana e só tiveram seus documentos devolvidos quando a fiscalização chegou ao local.
Lixo em alojamento de obra do data center do Santander, em Campinas (SP). Foto: MPT
Alojamento estava em péssimo estado de higiene (Foto: MPT)
Alojamento degradanteEntre os resgatados, doze trabalhadores eram de outros estados e dormiam em alojamento que estava em estado precário de manutenção, o que agravou as condições degradantes de trabalho. Segundo a fiscalização, o local não possuía água filtrada e estava em péssimo estado de conservação e higiene, com todos os cômodos, incluindo a cozinha, sendo usados como quartos. Além disso, era constante a presença de porcos e cabras no alojamento, que entravam para se alimentar dos restos de comida. Segundo o procurador, o MPT já havia recebido denúncias sobre irregularidades em alojamentos de outras empresas da obra, mas a fiscalização foi concentrada na Machado & Machado “porque as denúncias mais recentes apontavam para ela”. Ainda de acordo com Nei, queixas contra as demais construtoras não puderam ser apuradas pela falta de auditores fiscais e procuradores do trabalho que afeta a região.
Logo depois da fiscalização, a Machado & Machado assinou um Termo de Ajuste de Conduta com o MPT se comprometendo a cumprir a legislação trabalhista e pagou todas as verbas rescisórias, que chegaram a R$ 73 mil. Quanto aos autos de infração requeridos pelo MTE, o advogado da empresa alega que “a maioria das acusações não tem procedimento” e está questionando-as na Justiça.
De acordo com o auditor fiscal, o Santander não foi responsabilizado pelos trabalhadores em condições análogas às de escravo porque “não havia nenhuma infração que justificasse [a responsabilização] do ponto de vista legal, ainda que a contratação seja moralmente condenável”. Em nota, o banco afirma que “não tolera o desrespeito às boas e necessárias práticas corporativas pelas quais todas as organizações estão obrigadas a zelar”. “Para garantir o cumprimento das normas legais, o banco contratou uma empresa especializada em segurança do trabalho, intensificou as vistorias aos alojamentos utilizados pelas fornecedoras e aumentou a frequência dos treinamentos e palestras de esclarecimento e orientação quanto à segurança e ao cumprimento de normas”, declarou. A obra foi concluída em maio.
Essa foi a terceira vez que irregularidades trabalhistas foram flagradas pelos auditores fiscais. Da última, em fevereiro de 2012, o engenheiro responsável pela obra chegou a ser preso por desrespeitar sistematicamente as interdições feitas pelo MTE.

A Fifa de hoje e o FMI de ontem

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A Fifa de hoje e o FMI de ontem

Antes os protestos eram contra o FMI, que se tornou famoso por impor aos países subdesenvolvidos modelos econômicos concentradores de renda, excludentes e elitistas. Agora, o alvo é a Fifa, que faz estádios pasteurizados e elitiza o futebol. Por Dermi Azevedo

Tudo indica que as próximas manifestações da sociedade civil incluirão necessariamente a Fifa entre os causadores de muitos males. O FMI (Fundo Monetário Internacional) tornou-se tristemente famoso por impor aos países subdesenvolvidos modelos econômicos concentradores de renda, excludentes e elitistas – em nome da luta contra a inflação, resultando no aumento da pobreza estrutural.

Já a Fifa atua como o czar do futebol mundial. Desconhece o papel dos Estados-nações legitimados pelo Estado Democrático de Direito. A recente realização no Brasil da Copa das Confederações representou um espaço muito especial para a revelação de desse novo Futebol-Ditadura.

Estádios
Passou a ser adotada, em nível mundial, uma arquitetura padronizada pela Fifa, sem qualquer consideração para com os desenhos arquitetônicos nacionais. Tanto faz ser um estádio construído na África, quanto na Europa ou na América Latina. Tudo é pasteurizado. Da mesma forma, os torcedores são empastelados em um perfil único, marcado pela mentalidade alienada e disciplinada. 

A Fifa cria um torcedor que obedece de qualquer maneira os ditames neocolonialista de seu presidente, Joseph Blatter. É proibida a presença nos estádios das torcidas organizadas. Era também limitado o número de toques dos poucos tambores admitidos nos espaços reservados ao futebol. 

Desaparece também o vínculo entre o torcedor e o estádio: o Maracanã, já deixou de ser o estádio-símbolo dos grandes encontros entre a torcidas e o futebol. Já foi privatizado e ninguém sabe até agora a quem vai pertencer. 

Os jogos são definidos apenas por critérios financeiros. Uma partida entre Palmeiras e Corinthians, por exemplo, pode ser mudada de última hora para o estádio do Mangueirão, em Belém/PA. Só interessa o lucro. Não importa o que pensam os torcedores e os jogadores.

Ingressos
As classes populares são segregadas do seu esporte preferido, o futebol. A nova classe média da Fifa tem dinheiro o suficiente para pagar mais de 100 reais para ver uma partida.

A Espanha, o rei e o comunista

carta maior
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A Espanha, o rei e o comunista

Quando escreveu sobre o rei Juan Carlos, o hispanista britânico Paul Preston foi pouco crítico ao sucessor e defensor do responsável pelo Holocausto Espanhol – uma expressão que eles mesmo usa sobre a Guerra Civil. Agora, com um livro sobre o comunista Santiago Carrillo, o problema é o oposto: só há sombras, não há luzes. Por Vicenç Navarro

Finalmente li o livro de Paul Preston sobre Santiago Carrillo. Antes de escrever minha opinião sobre o livro, sinto a necessidade de explicar minha relação com cada um deles. Não conheço pessoalmente Paul Preston. Conheço sua obra, que utilizei em ocasiões em minha atividade docente. Quem conheci foi Santiago Carrillo.

Comecemos por Paul Preston. Ele é, sem dúvida, o hispanista britânico que escreveu com maior detalhe o acontecido na Espanha durante a mal chamada Guerra Civil. Sua condição de historiador estrangeiro lhe deu acesso a fontes de informação vetadas a historiadores espanhóis. E essa condição de estrangeiro lhe deu também a liberdade e a segurança que os historiadores espanhóis não tiveram, e continuam não tendo. Tudo o que digo não desmerece o grande valor de seu trabalho. Mas é importante sublinhar e explicar por que os historiadores que estudaram com maior detalhe aquele conflito civil têm sido predominantemente estrangeiros. Ainda hoje, jovens historiadores na Espanha têm que ir com cuidado naquilo que analisam e em como o fazem, temerosos por futuro profissional. Não esqueçamos que ainda hoje, na Espanha, se levou aos tribunais um jornalista por descrever o partido fascista, a Falange, como corresponsável do genocídio contra o povo espanhol.

Uma vez dito isso, quero pois destacar que as forças democráticas devem a estes historiadores estrangeiros e muito especialmente a Paul Preston, um voto de agradecimento. Havendo esclarecido isso, acho que é justo também acrescentar alguns comentários sobre o trabalho de Paul Preston, com a esperança de que os historiadores espanhóis recheiem algumas páginas vazias daquela história contada e habilmente narrada por Preston. Na verdade, a historiografia de Preston é bastante tradicional, fixando-se nos grandes personagens e nos grandes eventos. Dir-me-ão que isso é comum na historiografia atual. Mas mesmo que isso seja comum não quer dizer que seja suficiente. A melhor história que li sobre a intervenção militar estadunidense na II Guerra Mundial foi a descrita pelo escritor estadunidense Studs Terkel, que narra a história daquele conflito do ponto de vista dos soldados que a realizaram e das pessoas comuns e rotineiras que a sofreram. São precisamente esses desconhecidos os que fazem a história. Nesse aspecto, aprendi mais do que foi a mal chamada Guerra Civil (e a ditadura que a seguiu) através da experiência contada por meus pais e familiares daquela contenda (todos eles vencidos naquela guerra e sofrendo represálias pela ditadura) do que com os livros de história. Seria de desejar que à história formal, enormemente valiosa, dos personagens, fosse acrescentada a história das pessoas comuns que a fazem. E daí a importância de que sejam espanhóis, baseados na história real, das diferentes nações e povos que a Espanha contém, os que escrevam também essa outra história. Fazê-lo acrescentaria o enorme valor ao estudar os agentes e seu contexto, que é o que falta a Preston em sua análise de Carrillo.

O que me leva à segunda observação sobre Preston: sua limitada sensibilidade na biografia para esse contexto, o que explica o que pode definir-se como seu oportunismo. Preston escreveu recentemente um livro (Juan Carlos, el Rey de un Pueblo) sobre o Monarca no qual idealizou a figura do Rei, apresentando uma das biografias mais positivas escritas sobre este personagem. É surpreendente que o próprio autor do livro ‘O Holocausto Espanhol’ seja tão positivo com o sucessor e defensor do responsável deste dito holocausto. Além disso, o livro tem não só dados errôneos, mas também silêncios significativos.
Mas meses mais tarde, Paul Preston escreveu um livro sobre Carrillo que é, da primeira à última página, a demonização desta figura comunista, apresentando-o como enormemente ambicioso e capaz de trair todos seus amigos a fim de alcançar o cargo de máximo poder. Livro esse que é a mera narrativa de “traições” a seus amigos e companheiros do Partido Comunista. O contraste entre a biografia do Rei e a de Carrillo não pode ser mais acentuado. Fica claro no livro sobre Carrillo que o autor o detesta, estereotipando a figura de um dirigente comunista que, tipicamente, não se deterá diante de nada para conseguir seu poder pessoal.

Para as gerações que perderam a Guerra e para nós que sofremos a repressão e a transição, nos custa aceitar essa dupla imagem que Preston apresenta sobre o Rei e sobre Santiago Carrillo. Parece óbvio que o Rei foi enormemente ambicioso, que traiu seus amigos e parentes, tudo com o objetivo de manter seu poder, havendo dirigido uma transição claramente inédita que nos levou a uma democracia muito incompleta, com escassíssima consciência social, com uma resistência ao reconhecimento da plurinacionalidade do Estado espanhol, e a um enorme subdesenvolvimento social, cultural e político. Por mera objetividade, Preston deveria ter sido muito mais crítico com a figura do Rei. E o mesmo em relação a Carrillo, ainda que ao contrário. Carrillo teve sombras, mas também luzes que não aparecem neste livro.

A demonização de Santiago Carrillo
Conheci Santiago Carrillo através de Manolo Azcárate, a pessoa encarregada de relações internacionais dentro do PCE, com o qual colaborei, entre outros eventos, no preparo à visita de Carrillo aos EUA, a primeira visita que um dirigente eurocomunista fez a Washington. Manolo Azcárate foi uma das pessoas que conheci na resistência antifranquista que me mais impressionou, por sua integridade, compromisso, honestidade, coragem e percepção quanto ao que a Espanha necessitava. E foi Manolo quem me pediu que ajudasse a organizar a visita de Santiago Carrillo aos EUA, o que fiz. Estando nos EUA ajudei tanto o Partido Comunista como o Socialista, durante e depois da clandestinidade. Foi a partir de então, da incumbência de Manolo, que conheci Santiago Carrillo, com quem estabeleci uma relação de amizade que ficou deteriorada quando critiquei a transição (escrita pela primeira vez em ‘Bienestar Insuficiente, Democracia Incompleta – Sobre lo que no se habla en nuestro país’), mostrando que distou muito de ser exemplar, o que desagradou profundamente Santiago Carrillo e seus colaboradores.

Santiago Carrillo não foi o demônio que Preston descreve. Preston o acusa inclusive de servilismo diante do poder, e de ser um oportunista ao extremo, carente de princípios. Não estou de acordo com isso, pelo menos na parte que eu vi e vivi. Estive presente na entrevista que teve com a direção do Departamento de Estado dos EUA, atuando, a pedido de Carrillo, como seu tradutor. E posso dar fé que, diante do Departamento de Estado, foi igualmente crítico com a política do governo federal que com a da União Soviética, sabendo de antemão que os funcionários do governo federal não esperavam nem desejavam uma crítica dele.

Estes e outros fatos que algum dia explicarei, não encaixam com a visão que Preston transmite. Carrillo tinha defeitos e graves, sendo sua falta de cultura democrática um deles. Mas, apesar de meus desacordos, Carrillo fez o que achava melhor para a classe trabalhadora espanhola, antepondo isso a todo o resto. Pode-se criticar sua estratégia na transição: eu o fiz. Mas ele e o partido que liderou fizeram muito, muito mais pela democracia que o Rei da Espanha, ao contrário do que Preston, em um refutável oportunismo, declarou.

Ver as lutas internas dentro da direção do Partido Comunista como mera luta pelo poder pessoal, sem analisar o contexto, é profundamente errôneo. Eu simpatizei com a postura de Manuel Azcárate na disputa que levou a ruptura. Mas não pode interpretar-se aquela luta como uma luta para conseguir mais poder ou para aferrar-se ao trono. Um tanto igual em sua luta com Jorge Semprun. Na verdade, a enorme decepção por Semprun como Ministro de Cultura (é extraordinária a falta de sensibilidade de Semprun, como Ministro, para a necessidade de recuperar a memória histórica – por mais livros que houvesse escrito antes) era previsível e explicaria em parte os choques que tiveram entre si.

Mas a história de Carrillo não pode ser a lista de “traições”. A história de Carrillo é, repito, com suas luzes e sombras, a história do Partido Comunista, que é muito mais interessante que a história que Preston preparou. Além disso, os atos pessoais de Carrillo devem entender-se dentro do contexto que o configurou. E se nesse contexto houvesse sido mais interessante analisar a relação de Carrillo com os militantes do Partido Comunista, que como ocorreu na maioria dos países sob ditaduras fascistas ou fascistoides, foram sempre os indivíduos com maior dedicação e compromisso na luta contra tais ditaduras. Esta dedicação, heroica na grande maioria de casos, lhes faz também vulneráveis a sua possível manipulação. E ainda que houve muito disso, também é verdade que para muitos militantes de PCE, Carrillo foi quem melhor articulou sua luta e seus compromissos. De tudo isso, que é o que tornaria sua biografia interessante, Preston não diz nada. Que lástima!

*Catedrático de Políticas Públicas, Universidade Pompeu Fabra e Professor de Public Policy em The Johns Hopkins University. Artigo na coluna “Domínio Público” no jornal PÚBLICO, 11 de julho de 2013

Quem tem medo da Reforma Tributária

outras palavras
http://outraspalavras.net/brasil/quem-tem-medo-da-reforma-tributaria/

Quem tem medo da Reforma Tributária

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Ladislau Dowbor sustenta: país exige mudanças, mas para fazê-las é preciso redistribuir riqueza. Herança da ditadura, impostos atuais são injustos e bloqueiam direitos 
Entrevista a Gilson Camargo, do Extra-Classe | Imagem:Ernst KirchnerRua, Dresden (1908)
Um certo clima de impasse marca a cena brasileira, duas semanas depois da grande onda de manifestações em junho. Qual será o próximo lance? Mídia e conservadores, ávidos por capturar os protestos, constroem uma narrativa primária, porém relativamente eficaz. Tem dois eixos: “a culpa é do governo, incompetente; será preciso apertar os cintos”. Tal simplismo, presente em toda a cobertura midiática, é duplamente funcional. Volta o foco do descontentamento contra um projeto político que a maior parte das elites não aceita; e, em especial, evita que a luta por direitos, ainda difusa, evolua para o perigoso questionamento da desigualdade.
Mas e entre os que fomos às ruas para exigir cidades habitáveis, um país menos injusto e uma nova democracia? Quais os próximos passos, após a redução das tarifas de ônibus? Que propostas são capazes de sensibilizar novamente a multidão? Como criar uma alternativa ao discurso conservador? Na busca de respostas, vale considerar o que sugere Ladislau Dowbor, um economista com vasta experiência em temas como redistribuição de riquezas e formas colaborativas de produção. Ele quer recolocar na pauta nacional o tema da Reforma Tributária. Seu raciocínio é claro: não há mágicas, na vida pública; para conquistar direitos, é preciso enfrentar privilégios; só se abre espaço para o Comum impedindo que poucos se apropriem da riqueza produzida por todos.
Ladislau constrói esta trilha com base em informação relevante e capaz de mobilizar. Ele lembra que o país ainda vive sob o sistema tributário construído pela ditadura militar em 1966. Sua característica essencial é concentrar riquezas. Ele isenta de impostos as fortunas e as grandes empresas. Fecha os olhos à sonegação e ao ocultamento de dinheiro nos centros “off-shore”. Concentra a carga tributária sobre os salários e o consumo. Como resultado, priva o Estado brasileiro dos recursos necessários a expandir direitos sociais. 
O professor não se limita à crítica. Em entrevista concedida a Gilson Camargo, do valoroso jornal sindical Extra-Classe, ele elenca quatro caminhos para a Reforma Tributária. São facilmente compreensíveis e sensibilizadores. Os ricos devem pagar impostos. Os tributos precisam incidir principalmente sobre a renda (concentrando as contribuições sobre quem podem oferecê-las) e não sobre o consumo (porque neste caso, pobres pagam as mesmas alíquotas dos milionários). As atividades financeiras não podem ficar isentas. Além de arrecadar, a tributação deve, complementarmente, inibir atividades pouco desejáveis, como as que geram emissões de CO² ou produzem lixo desnecessário.
Para abraçar a Reforma Tributária, alerta Ladislau, é necessário superar um mito interesseiro. Mídia e elites alegam que “a carga tributária brasileira é altíssima” e tratam como inaceitável qualquer proposta que implique mais impostos. Vencer este tabu exige esforço. É preciso contestar dogmas com fatos. Vale muito associar tributação com justiça social e direitos. Impostos progressivos nas cidades podem, por exemplo, transformar o sistema de mobilidade urbana e ou assegurar tarifa zero. 
O Brasil vive um momento raro. Centenas de milhares de pessoas, que foram às ruas, estão dispostas a examinar criticamente a sociedade em que vivem. Podem ir além dos discursos tolos — mas para tanto, é preciso abrir com elas diálogos estimulantes. Segue a entrevista em que Ladislau expõe, em detalhes, suas ideias. (A.M.) 

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A aprovação do Código Tributário Nacional, em 1966, foi a última alteração no sistema de arrecadação de impostos do país. Quase meio século depois, quais são os re flexos dessa reforma?
Ladislau Dowbor – O código de 1966 é aprovado como parte de um conjunto de medidas que consolida a concentração de renda no país. Trata- -se da mesma lógica do arrocho salarial promovido com o golpe de 1964. Durante os anos 1950, expandem-se no Brasil as empresas multinacionais, com particular importância do automóvel. No país pobre da época havia a opção de reformas de base, com aumento do salário mínimo e reforma agrária, o que expandiria o mercado interno popular. E havia a opção inversa, de concentração maior ainda da renda. A primeira opção geraria mais mercado de bens populares, ou bens-salário. A segunda geraria maior mercado de luxo, expandindo a classe média e o consumo do tipo apartamento/carro/ eletrodomésticos. Esta última foi a opção imposta, e a lógica da reforma tributária foi de desonerar as classes abastadas para que pudessem comprar os produtos so fisticados produzidos pelas multinacionais. Com isso, os instrumentos distributivos da tributação, como uma elevada alíquota de Imposto de Renda, bem como impostos sobre a fortuna, sobre herança e sobre a terra foram ignorados em proveito de tributos indiretos embutidos no preço dos bens que compramos. De finiu-se assim a principal característica do sistema tributário nacional, que permanece até hoje, que é dos pobres pagarem proporcionalmente mais impostos do que os ricos, e de se abandonar a visão redistributiva dos impostos, que foi, por exemplo, o fator principal do sucesso do modelo de desenvolvimento europeu.
Por que é difícil promover nova reforma tributária? Que interesses estão em jogo e qual a relação dessa agenda com o sistema político-partidário?
A dificuldade maior reside no modelo de financiamento das campanhas políticas. Uma das heranças mais pesadas da era FHC foi a autorização, a partir de 1997, do financiamento corporativo das campanhas. Isso elevou fortemente os custos de uma eleição. Em texto recente, Alceu Castilho (jornalista, autor do livro Partido da Terra, Ed. Contexto, que revela o percentual do território brasileiro que está nas mãos de políticos) a firma que existe uma bancada da Friboi no Congresso, com 41 deputados federais eleitos e sete senadores. Dos 41 deputados financiados pela empresa, só um, o gaúcho Vieira da Cunha, votou contra as mudanças no Código Florestal. O próprio relator do Código, Paulo Piau, recebeu R$ 1,25 milhão de agropecuárias, de um total de doações para a sua campanha, que foi de R$ 2,3 milhões. A conclusão a que Castilho chega é que a Friboi não patrocinou essas campanhas para que eles votassem contra os interesses da empresa, que evidentemente é a favor das mudanças no Código Florestal, pois a plantação de soja empurra os rebanhos de gado para o Norte, para a Amazônia, o que interessa à empresa. Ou seja, com o financiamento corporativo, temos uma bancada ruralista, da grande mídia, das montadoras, dos grandes bancos, das empreiteiras, e temos de ficar à procura de uma bancada do cidadão. Esta deformação maior do próprio núcleo de aprovação das leis torna difícil, na atual composição do Congresso, e enquanto não se instituir o financiamento público e controlado das eleições, fazer qualquer modificação tributária que seja do interesse da população em geral.
Quais diretrizes devem orientar uma reforma tributária voltada para os interesses da sociedade e para os princípios da justiça tributária?
As diretrizes de uma reforma decente são bastante claras. O objetivo geral é de se assegurar que o dinheiro público seja utilizado de maneira produtiva, estimulando as atividades que promovem o desenvolvimento equilibrado, e taxando as que são mais prejudiciais. Nesse sentido busca- se desonerar as atividades que geram emprego, por exemplo, e a folha de pagamento em geral. Mas também se trata de taxar as atividades especulativas financeiras. O melhor imposto que havia no Brasil, a CPMF, taxava essencialmente as movimentações financeiras dos grandes intermediários, era simples de cobrar e favorecia o financiamento da saúde pública, tendo, portanto um impacto redistributivo. Outro princípio é de se assegurar um peso maior aos impostos diretos progressivos, como o IR com alíquota parecida com as dos EUA e Europa, reduzindo- se o peso relativo dos impostos indiretos (sobre bens de consumo), que oneram proporcionalmente mais os pobres. Um terceiro princípio está ligado à tributação sobre a riqueza familiar acumulada como, por exemplo, o imposto sobre a fortuna na França, que é pago pelos muito ricos e permite financiar o RMI, renda mínima dos mais pobres. Um quarto princípio consiste em tributar as chamadas externalidades negativas. Uma empresa que emite dióxido de carbono está gerando impactos climáticos, poluindo o meio ambiente e gerando doenças, mas não paga pelas emissões. Na Austrália, por exemplo, as maiores empresas pagam uma taxa fixa por cada tonelada de dióxido de carbono que emitem, o que as estimula a instalar filtros e a pesquisar formas mais limpas de produção.
Como explicar, para não iniciados, por que o país precisa da reforma?
De forma geral, transita pelo governo um terço do PIB do país, hoje 34% da totalidade da produção de bens e serviços. Essa carga tributária é moderada e há uma correlação rigorosa entre o tamanho do imposto e o nível de desenvolvimento: quanto mais pobre o país, menor a carga tributária, piores são os serviços públicos, o que por sua vez trava o desenvolvimento. Sai mais barato para a população ter um sistema público de transporte de massa do que ter de tirar diariamente o carro da garagem e enfrentar os engarrafamentos. Nos Estados Unidos, gasta-se US$ 7,3 mil por pessoa por ano com saúde, dominantemente com gastos privados, e resultados pífios, enquanto no Canadá vizinho, onde se gasta cerca de US$ 3,2 mil com sistema público, os resultados são incomparavelmente melhores. Assim, produzir meias e bonecas Barbie é muito mais produtivo com um sistema empresarial privado, mas saúde, educação, cultura, segurança e outros serviços essenciais para a nossa qualidade de vida funcionam melhor e tornam-se mais baratos para todos quando são assegurados com sistemas públicos, como é o caso na Inglaterra, na França e em outros países que avançaram na qualidade de vida. O mais produtivo é gerar um esforço de informação para a população. Os grupos mais ricos, que não querem mexer no imposto, colocam por toda parte os “impostômetros”, mas não vemos em nenhum lugar um “lucrômetro”. Temos pela frente um grande esforço didático, no sentido de se mostrar que não se trata do tamanho do imposto, mas sim de quem paga, sobre que atividades, e com que uso final dos recursos.
É viável alterar o sistema tributário sem promover reformas em outros setores?
Uma condição necessária para a reforma tributária é a difusão de informação honesta sobre como funciona o sistema atual, e porque ele favorece os mais ricos e frequentemente os menos produtivos. O objetivo é o que se chama normalmente de qualidade do imposto. Com a mídia que temos, hoje controlada por um oligopólio de quatro grupos, a informação é sistematicamente deformada. Por exemplo, quando foi abolida a CPMF, a revista Veja apresentou uma capa de um leão com boné de Papai Noel dizendo que o fisco estava devolvendo R$ 80 bilhões à população. Evidentemente, não se tratava de devolução nenhuma e sim da desoneração dos grandes bancos, que deixariam de pagar o imposto que incidia essencialmente sobre transações financeiras.
A lavagem de dinheiro é uma variável a ser combatida antes da reforma tributária?
Sim. Outro eixo de iniciativas paralelas à reforma tributária tem a ver com o controle dos recursos ilegais. Com a crise financeira mundial gerou-se um conjunto de atividades de busca de reforma institucional do sistema de intermediação, em particular dos grandes bancos. Os primeiros resultados mostram que o estoque de dinheiro ilegal, fruto de evasão fiscal, lavagem de dinheiro de drogas, de comércio ilegal de armas e de diversas formas de corrupção, é da ordem de US$ 21 trilhões a US$ 32 trilhões de dólares, equivalente a algo entre um terço e metade do PIB mundial, sob controle e gestão dominante de bancos americanos e britânicos, além dos tradicionais Suíça e Luxemburgo. Os dados levantados na pesquisa do Tax Justice Network mostram que se trata, no caso do Brasil, de um provável volume de US$ 520 bilhões, ou seja, cerca de 25% do PIB brasileiro.
Qual o custo para a sociedade e como combater essa subeconomia criada pelo sistema bancário para se proteger?
Essa ilegalidade e fraudes por parte dos grandes bancos internacionais, que em nome de preservar a privacidade dos seus clientes asseguram fluxos seguros e secretos de dinheiro ilegal, penalizam os pagadores honestos, em particular os assalariados cujos rendimentos são declarados pelos empregadores, e desoneram as grandes fortunas, e em particular os intermediários financeiros. Um elemento muito positivo nesse quadro de gradual construção de um marco regulatório e de busca de soluções mais adequadas é a aprovação em maio de 2012 da Lei da Transparência, que obriga todas as entidades públicas a produzir as informações sobre todas as suas atividades. É um primeiro passo importantíssimo, que deve melhorar muito a redução do sistema de corrupção, mas falta evidentemente evoluir para sistemas transparentes no setor privado, em particular na linha da “disclosure” hoje demandada por diversos governos, para que a população, ou pelo menos os bancos centrais, saibam qual é o grau de desequilíbrio financeiro que os grandes bancos estão gerando.
O senhor tem reafirmado que o país precisa sair da atual estrutura tributária regressiva – que, ao invés de captar dos mais ricos para repassar aos mais pobres na forma de serviços e assim dinamizar o conjunto da economia, cobra mais imposto dos assalariados – e adotar um sistema distributivo. O que isso significa?
A deformação do nosso sistema torna-se aparente ao compararmos os impactos do imposto sobre o coeficiente Gini, que mede a desigualdade de renda. O resultado final é a fragilidade financeira do Estado e a dificuldade de exercer uma política redistributiva. O contraste com os países desenvolvidos é evidente. Enquanto na União Europeia, depois dos impostos, o coeficiente Gini melhora em 32,6%, na média da América Latina melhora em apenas 3,8%, o que com o nível de desigualdade existente, é particularmente grave. A mesma deformação se apresenta, com algumas variações, para os diversos países da região. Acrescente-se que o sistema financeiro comercial não cumpre as suas funções de fomento. A financeirização das atividades econômicas levou à generalização das atividades especulativas e do rentismo, com particular gravidade no caso do Brasil. Com a fragilidade das finanças públicas, o desvio do uso das poupanças privadas pelo sistema bancário comercial, e a passividade dos bancos centrais na regulação do sistema de intermediação financeira – a herança do princípio da “autonomia do Banco Central” – orientar os recursos em função das necessidades do desenvolvimento torna- -se um dos principais eixos de enfrentamento.
Como reverter a relação entre a tributação regressiva e a desigualdade social, que é uma característica de grande parte das economias latino-americanas?
Após a aprovação de cláusulas mais democráticas nas leis dos países latino-americanos, a exemplo da reação pendular aos desmandos das ditaduras militares, o embate mais forte está se dando em torno da inevitável reforma tributária. Ter políticas tributárias regressivas na região mais desigual do planeta é particularmente absurdo e explica, inclusive, a persistência da própria desigualdade. Na América Latina, o imposto direto (em particular o imposto de renda que melhor permite progressividade segundo a riqueza e a renda) é da ordem de 5,6%, quando representa 15,3% nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Não é surpreendente que a pobreza dos países coincida com a baixa participação dos impostos diretos: é resultado do poder dos mais ricos de impedir a tributação que poderia visa-los. É de se notar também a fragilidade da carga da seguridade social nos países mais pobres, ainda que constantemente denunciada como excessiva na mídia conservadora. O resumo da questão é simples: os privilegiados querem guardar os seus privilégios, ainda que a sua manutenção trave o desenvolvimento do conjunto. A tributação, no entanto, é essencial à continuidade das políticas sociais.
A reforma tributária implica mudança na distribuição de renda e no modelo de desenvolvimento do país, em renúncia fiscal e impactos na Previdência. Como equacionar isso?
O Brasil instituiu desde 2003 uma política de sistemática redistribuição de renda. É um gigantesco avanço, com cerca de 40 milhões de pessoas tiradas da miséria, dinamização do consumo na base da sociedade, o que por sua vez reativou a economia e gerou mais de 15 milhões de empregos formais, criando uma dinâmica qualificada de círculo virtuoso. No entanto, com cerca de 15% dos recursos do Estado sendo diretamente redistribuídos para a sociedade sob forma de previdência, bolsa-família e outros mecanismos, a carga tributária líquida disponível para o Estado situa-se em torno de 21% do PIB, o que é relativamente limitado para um conjunto de atividades, em particular de fornecimento de serviços sociais públicos e de investimento em infraestruturas. É importante notar que uma tributação mais sólida das atividades de especulação financeira obrigaria os capitais parados em atividades rentistas a buscar aplicações produtivas na economia, o que tenderia a estimular mais as atividades. Voltamos sempre ao mesmo princípio básico, de se tributar melhor os mais ricos, os rentistas financeiros que ganham sem produzir, os recursos acumulados em paraísos fiscais, para orientar esses recursos para reforçar as políticas redistributivas.
Entrevista publicado originalmente na revista Extra Classe