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terça-feira, 2 de setembro de 2014

A esperança em um saquinho de terra

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534844-a-esperanca-em-um-saquinho-de-terra


A esperança em um saquinho de terra

Uma mulher observa os escombros do Copa do Povo.  Fonte: Joel Silva (FOLHAPRESS)
Antes mesmo de que o sol raiasse, o dia dos acampados da Copa do Povo, na zona leste de São Paulo, já tinha cor e sentimento. Cor vermelha, das camisetas e bandeiras, da luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e dos olhos chorosos de quem vai sentir saudade. O sentimento era de tristeza pelas despedidas, mas também de felicidade de quem está mais perto de alcançar a casa própria. Durante quatro meses, essas cerca de 4.000 famílias compartilharam o que tinham – a esperança e o apoio mútuo – e o que não tinham também. Hoje se ajudam com a desmontagem dos barracos e a retirada de entulho, com dois caminhões cedidos pela subprefeitura de Itaquera. O espaço sem barracas dará lugar a prédios de moradia popular.
A reportagem é de Beatriz Borges, publicada pelo jornal El País, 31-08-2014.
Dona Ana Maria de Jesus está muito emocionada. Não consegue acreditar no que aconteceu em sua vida desde que acampou com o MTST no terreno de 155.000 metros quadrados ao lado do Parque do Carmo, para garantir uma casa onde pudesse morar com a filha e a neta. "Nunca imaginei que fosse ter essa força, de estar aqui, dormindo com chuva, sol e frio. Eu fui corajosa e hoje eu digo: O que aparecer, eu estou pronta para lutar", afirma a diarista de 62 anos, que voltará ao seu barraco de madeirite na Vila Sílvia (zona leste), onde mora há dois anos em uma ocupação irregular, enquanto espera a definição das próximas etapas até a construção definitiva dos blocos de apartamentos.
Apesar de faltar apenas um mês para as eleições, muitos acampados disseram que ainda nem pensaram em quem vão votar – alguns chegaram a responder que não sabiam nem onde dormiriam à noite. Os três candidatos com maior intenção de voto, Aécio NevesDilma Rousseff e Marina Silva, foram mencionados em igual medida, mas nenhum dos ocupantes soube dizer qual deles está mais comprometido com a causa da casa própria – e há 6,9 milhões de pessoas no Brasil nesta situação, segundo o IBGE. Ainda assim, no mesmo palanque onde os coordenadores subiram para falar com os participantes, também aproveitaram o microfone representantes do PSOL, que mencionaram a atuação da candidataLuciana Genro na causa dos sem teto, e o vereador Nabil Bonduki, do PT, participante ativo nas negociações do movimento sobre o Plano Diretor e que falou sobre as próximas lutas que o MTST terá que travar no bairro, como transporte, saúde e educação.
A desocupação do Copa do Povo, que tem o nome em protesto pelos gastos excessivos da Copa, é fruto de um acordo com a empresa dona do terreno e os poderes públicos – e todos assinaram os papéis para garantir o compromisso. A proprietária, Viver Incorporadora, definiu com o MTST que teriam preferência na compra do terreno (o movimento é uma entidade do programa federal Minha Casa Minha Vida). Um segundo acordo foi firmado entre os Governos federal, estadual e municipal para garantir a liberação das verbas públicas necessárias para a construção de moradias populares no local.
Em junho, o movimento pressionou a votação do Plano Diretor da cidade e conseguiu aprovar uma lei específica para este acampamento, alterando o zoneamento para permitir a construção de casas no local. A mesma lei está sendo questionada por um grupo de Promotores de Habitação, que a consideram inconstitucional pela mudança do zoneamento não constar no Plano Diretor, mas em uma lei separada. A retirada dos barracos, mesmo assim, facilitará o próximo passo: a avaliação da área pela Caixa Federal que, segundo a proprietária, vale 35 milhões de reais.
Esse montante parece exagerado para um bairro onde o metro quadrado construído custa 3.436 reais, um dos mais baixos da cidade, de acordo com dados de 2013 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Os aluguéis na zona, no entanto, aumentaram 8,18% no último ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas. Mas tanto comprar como alugar um imóvel em um bairro que está a uma hora do centro de São Paulo, é algo distante da realidade financeira dos acampados. A diarista Gláucia Lopes Pinheiro, que estava desarmando a barraca sem saber para onde iria, pensava nos seis filhos, dos quais cuida sozinha. "Eles estão na casa da minha mãe, na Cidade Tiradentes (zona leste), mas já são dez pessoas lá. Eu ainda não sei para onde vou, antes preciso conseguir um carreto para levar as coisas daqui", disse a sem teto, apontando para o colchão e as roupas divididas em sacolas de supermercado. Pinheiro afirma que quer uma casa "para ter sossego e dar lugar" para seus filhos.
Outros que saem do Copa do Povo, como o carpinteiro pernambucano Monteiro de Carvalho, encontrou abrigo em um lugar provisório que, de momento, pode pagar. "Um barraco em São Mateus, por 300 conto", para onde irá depois de ajudar os companheiros a desarmar as lonas estendidas em toda a extensão do morro. "Estou saindo daqui hoje para entrar no meu apartamento amanhã", diz o trabalhador de 40 anos que ganha 1.180 reais por mês e que há cinco anos está na fila para conseguir uma casa no programa Minha Casa Minha Vida. Um teto, para ele, significa poupar os filhos de situações que ele passou. "Muitas noites em dormitórios, nem posso chamar aqueles lugares de casa", lamenta, afirmando que sua história não é nada perto das que conheceu no acampamento.
Como eles mesmos dizem, a luta continua. E pelos discursos de encerramento do Copa do Povo, a pressão popular seguirá. "Estamos saindo sem nenhuma viatura, sem ser enxotado por ninguém", disse um dos líderes do movimento,Guilherme Boulos, "mas temos que estar preparados para os problemas que virão na hora de transformar o que está no papel em realidade". "Se a Caixa criar problema, acampamos lá. Se a Prefeitura dificultar, também sabemos o endereço", disse em tom ameaçador. Recentemente, uma mulher, Dona Dina, foi atropelada nas imediações do Copa do Povo e seu filho Serginho falou emocionado sobre a falta de sinalização nas ruas e criticou a CET. A falta d'água e a responsabilidade da Sabesp também foram outros assuntos do dia, o que dá a entender que serão as próximas pautas do movimento.
No final do ato, todos os presentes receberam uma lembrancinha. Se tratava de um pacotinho vermelho, do tamanho de um bombom, com um laço branco. Dentro havia terra. A terra sobre a qual os 3.500 apartamentos serão construídos. E, mais uma vez, as formiguinhas, como eles mesmos se denominam, cantaram alto a vitória, com os pés batendo e levantando poeira daquele mesmo chão onde têm a esperança de que sua casa seja logo construída: "Pisa ligeiro, pisa ligeiro. Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro".

sábado, 16 de agosto de 2014

O Lado Sombrio do Brasil

survival international
http://www.survivalinternational.org/copa

O Lado Sombrio do Brasil

Brasil: evoca Carnaval, Copacabana e a Copa do Mundo da FIFA.

Mas arranhando a superfície você irá encontrar um lado mais sombrio, porque esquecido da imagem popular do Brasil é o chocante tratamento de seus primeiros povos.

Seus estádios de futebol são construídos sobre terras indígenas e sua riqueza recém-descoberta vem da desapropriação de índios e do roubo de suas terras.

Agora o Brasil está planejando um novo assalto em seus primeiros povos: visando as terras que eles conseguiram manter.

Tome ação ↓ 

 

Fantasmas da Copa do Mundo

Quando os primeiros europeus chegaram ao Brasil em 1500, era o lar de mais de 10 milhões de índios. Cinco séculos de assassinatos, torturas, doenças e exploração devastaram esta população, e na década de 1950 sua população havia caído para cerca de 100.000.
O eminente senador e antropólogo Darcy Ribeiro estimou que durante o século passado uma tribo foi extinguido a cada ano e ele previu que não haveria um único índio em 1980. Acredita-se que quase 1.500 tribos foram extintas desde 1500.
Outras são tão reduzidas em tamanho que numeram menos que as 11 pessoas em um time de futebol:
5: A tribo Akuntsu (estado de Rondônia)
4: A tribo Juma (estado de Amazonas)
3: A tribo Piripkura (estado de Rondônia)
2: Os índios do Rio Tapirapé (estado de Maranhão)
1: ‘O último de sua tribo’/O homem do buraco (estado de Rondônia)
Os últimos sobreviventes da tribo Akuntsu.
©Survival

Os Estádios

No menor estádio, em Curitiba (capacidade: 41.456), caberia a maior tribo amazônica (os Tikuna: população 40.000) com assentos de sobra.
O estádio com a maior capacidade é o Maracanã no Rio (capacidade: 76.804). A audiência será bastante maior do que a tribo maior do Brasil, os Guarani (população: 51.000), alguns dos quais vivem a apenas 50km de Rio.

Estádios de Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba

Estas cidades estão em estados que hoje têm alguns dos conflitos de terras mais agudos. As tribos que vivem no sul do Brasil – os Guarani Mbyá, Guarani Ñandeva, Kaingang, Xokleng e Xetá – vivem em pequenas parcelas de terras, porque colonos têm roubado a maioria de seus territórios.
Tribo ameaçada: Os Xetá foram quase totalmente exterminados nos anos de 1950, porque suas terras foram roubadas deles. Em 1999, tinha somente 8 sobreviventes, três homens e cinco mulheres, todos da mesma família.
As terras ancestrais dos Guarani foram roubadas deles e ocupados por fazendeiros e plantações de cana-de-açúcar, e as florestas têm sido destruídas. Alguns índios são forçados a morar na beira da estrada.
© Paul Borhaug/Survival International

Maracanã, Rio de Janeiro

Maracanã é uma palavra indígena Tupi que significa papagaio. (Também pode se referir a maraca-na – um chocalho com sementes usado nas cerimônias religiosas dos Guarani). O nome verdadeiro é Estádio Mário Filho.
Quando o trabalho de reconstrução começou para a Copa do Mundo, um grupo de 70 índios de 17 diferentes tribos que estavam ocupando uma mansão abandonada do século 19 perto do estádio foram expulsos, e suas casas destruídas, pela criação de um grande estacionamento de carros, e um museu de futebol. Os índios queriam que o prédio fosse preservado como um Centro Cultural Indígena.
Esta mansão colonial foi a casa do primeiro instituto de pesquisa cultural indígena no Brasil em 1910. Pouco depois, tornou-se o escritório principal do Serviço de Proteção ao Índio, hoje Funai. Até 1978, era a sede do Museu dos Povos Indígenas no Brasil.
Tribo extinta: A tribo Goitacá que viveu ao longo da costa do Rio foi exterminada em um conflito armado com os colonos europeus.

Estádio de Cuiabá, Estado de Mato Grosso

Tribos que vivem nesta área incluem os Nambiquara, Umutina e Pareci.
 
Os Umutina foram dizimados por sarampo e outras doenças. Numeravam 400 em 1862, mas em 1943, eram apenas 72. Sua população está agora recuperando lentamente.
Os Nambiquara sofreram terrivelmente quando a rodovia BR 364, financiada pelo Banco Mundial, foi cirada no vale fértil que era sua terra. Eles numeravam 7.000 em 1915, mas em 1975 apenas 530 deles permaneciam.
Hoje, a população dos Nambiquara é de 2.000, mas suas terras ainda estão sendo invadidas por garimpeiros de diamantes, madeireiros e fazendeiros.
‘Eles enfrentaram cães, correntes, armas Winchester, metralhadoras, napalm, arsênico, roupas contaminadas com varíola, falsos certificados, remoções, deportações, estradas, cercas, incêndios, ervas daninhas, gado, os decretos de lei e a negação dos fatos.’ Darcy Ribeiro, senador e antropólogo brasileiro.
Tribo ameaçada:1.400 km de Cuiabá (quase equidistante entre os estádios de Manaus e Cuiabá), vivem os Kawahiva, umas das tribos isoladas mais ameaçadas do mundo.
© C Levi-Strauss

Estádio de Belo Horizonte, estado de Minas Gerais

Aproximadamente 100 km ao nordeste de Belo Horizonte é uma terra indígena chamada ‘Fazenda Guarani’, habitada por índios Krenak e Pataxó. Ambos sofreram grande perdas quando tentaram impedir a expansão da fronteira colonial.
Na década de 1960, o Estado brasileiro estabeleceu duas prisões secretas administradas por polícias militares para punir e reformar indígenas que resistiram às invasões de seus territórios. Um ex-presidiário os chamou de campos de concentração onde os índios foram forçados a trabalhar, e batidos e colocados em confinamento solitário se eles recusavam. ‘Eu fui presidiário aqui por doze anos. A polícia bateu nos Krenak tanto que tínhamos que banhar com água e sal depois.’ Manelão Pankararu
A Comissão Nacional da Verdade do Brasil está investigando os maus tratos dos indígenas nas prisões.
Tribo ameaçada: Os Krenak numeram hoje somente 350.
 




Estádio de Manaus

Manaus, a capital do estado de Amazonas, é a única cidade amazônica a sediar a Copa do Mundo. O estádio foi construído no estilo de uma cesta indígena.
Tribo extinta: Manaus tem o nome da tribo Manáos, agora extinta. Os Manáos lutaram contra o domínio portuguesa, liderados pelo seu grande líder Ajuricaba que uniu várias tribos para resistir, mas foi eventualmente derrotado.
Manaus cresceu muito no final do século XIX, com a riqueza do ciclo da borracha. Dezenas de milhares de indígenas foram escravizados e forçados à cortar seringa. Atrocidades terríveis aconteceram com os índios – milhares morreram torturados, ou de doenças e desnutrição. Alguns indígenas evitaram a escravidão se retirando para as cabeceiras remotas dos tributários na Amazônia, onde hoje eles evitam qualquer contato com a sociedade nacional.
Cem quilômetros de Manaus é a terra dos índios Waimiri Atroari. A partir do século XVIII, essa tribo valentemente resistiu invasões dos caçadores e seringueiros, e muitos morreram em conflitos violentos, mas o contato foi feito na década de 1970, quando o governo criou uma estrada que atravessou suas terras. Centenas de pessoas morreram de doenças e em confrontos violentos com as tropas do exército enviados para reprimir sua resistência contra a estrada. O General Gentil Nogueira Paes disse, ‘A estrada tem que ser concluída mesmo que tenhamos que abrir fogo nesses índios assassinos se for preciso. Eles já nos desafiaram fortemente e eles estão obstaculizando a construção.’ A Comissão Nacional da Verdade do Brasil está investigando as atrocidades contra os Waimiri Atroari durante esse período.
Tribo ameaçada: A população dos Waimiri Atroari havia caído de 6.000 para 374, a população em 1988. Hoje são mais de 1.500. Acredita-se que pelo menos um grupo de índios isolados vive em seu território.
Tribo ameaçada: Apenas 370 km de Manaus há duas tribos isoladas. No Brasil, tem mais tribos isoladas que em qualquer outro pais: a Funai estima que existam até 80 grupos isolados. Muitos, como os Kawahiva e os Awáestão em fuga dos madeireiros fortemente armados e fazendeiros que estão destruindo sua floresta.
© Fiona Watson/Survival

Estádio do Brasília

Tribo ameaçada: Apenas cinco horas de carro de Brasília, pequenos grupos de índios se escondem. Eles são os Avá Canoeiro que agora são somente 24 pessoas – os últimos remanescentes de uma tribo orgulhosa e forte que tem estado na fuga desde 1780, e agora está na beira da extinção. No início da década de 1980, centenas de trabalhadores de construção chegaram para construir uma usina hidrelétrica no Rio Tocantins, na terra dos Avá Canoeiro.
O lago da barragem inundou o último refúgio dos índios, e sua terra para caçar. Quando a construção começou, a Funai montou uma missão urgente para contactar os grupos restantes – logo ficou claro que poucos Avá Canoeiro tinham sobrevivido. Em 1983, eles eventualmente contactaram um casal de Avá Canoeiro, Iawi e Tuia, e a mãe e tia de Tuia, Matcha e Naquatcha. O pequeno grupo tinha sobrevivido um massacre cruel em 1962, e depois tinha passado 20 anos se escondendo em cavernas no alto das montanhas.
Iawi e Tuia tiveram dois filhos, Trumak e Putdjawa que tem um filho chamado Paxeo, com um índio Tupirapé.
Outro pequeno grupo de Avá Canoeiro, totalizando em torno de uma dúzia de pessoas, foi contatado em 1973. Quase todos tiveram cicatrizes das balas dos pistoleiros contratados pelo rancho Camagua, propriedade de um banco brasileiro. O grupo foi encontrado morando escondido em um pântano – o seu último refúgio que tinha sido seu terra de caça, agora dividida por cercas de arame farpado – e os índios estavam sofrendo de desnutrição. Este grupo tem menos de 20 pessoas.
© Walter Sanches/FUNAI

Estádios do Nordeste: Recife, Salvador, Fortaleza e Natal

Das 23 tribos da costa do nordeste, apenas os Fulnio retêm sua língua.
 
Esta área foi uma das primeiras a serem colonizadas. Hoje é o local de alguns dos mais amargos conflitos de terra. Os Pataxó Hã Hã Hãe têm lutado pelos direitos territoriais por décadas, durante as quais foram sujeitos à violência e ao assassinato de seus líderes.
Seis horas de carro ao sul de Salvador, os índios Tupinambá são frequentemente ameaçados pela polícia, que tem invadido suas aldeias para expulsá-los de suas terras em favor de fazendas de gados. Em agosto de 2013 quatro índios Tupinambá foram assassinados e seus corpos mutilados, e 26 casas destruídas.

Dinheiro

O governo do Brasil está gastando pelo menos EUA$791 milhões para pagar pela segurança durante a Copa do Mundo. Uma soma semelhante pagaria pelo menos três vezes o orçamento anual da Funai – Fundação Nacional do Índio.

FIFA ignora a história dos povos indígenas do Brasil

No seu siteFIFA não menciona os indígenas:

FIFA diz: ‘Oficialmente, contudo, o português Pedro Alvares Cabral é considerado como o descobridor do Brasil. Sua frota, procurando as Índias, desembarcou no sul de o que hoje se chama Bahia dia 22 de abril de 1500’.
O líder indígena Davi Kopenawa Yanomami diz: Os brancos clamam hoje: ‘Nós descobrimos a terra do Brasil!’ Isso não passa de uma mentira. Ela existe desde sempre e Omama nos criou com ela. Nossos ancestrais a conheciam desde sempre. Ela não foi descoberta pelos brancos! Mas os brancos continuam a mentir para si mesmos pensando que descobriram esta terra! Como se ela estivesse vazia!
‘Nós descobrimos estas terras! Possuímos os livros e, por isso, somos importantes!’, dizem os brancos. Mas são apenas palavras de mentira. Eles não fizeram mais que tomar as terras das gentes da floresta para se pôr a devastá-Ias. Eu sou filho dos antigos Yanomami, habito a floresta onde viviam os meus desde que nasci e eu não digo a todos os brancos que a descobri! Ela sempre esteve ali, antes de mim. Eu não digo: ‘Eu descobri esta terra porque meus olhos caíram sobre ela, portanto a possuo!’ Ela existe desde sempre, antes de mim. Eu não digo: ‘Eu descobri o céu!’ Também não clamo: ‘Eu descobri os peixes, eu descobri a caça!’ Eles sempre estiveram lá, desde os primeiros tempos.
© Sarah Shenker/Survival

Nenhuma palavra sobre os índios:

FIFA diz: ‘A floresta tropical brasileira é outra fonte de riquezas naturais, incluindo óleo de tungue, borracha, óleo de carnaúba, fibra de caroá, plantas medicinais, óleos vegetais, resinas, madeira para construção e várias madeiras utilizadas na fabricação de móveis. O Brasil também começou com a mineração recentemente, novamente aproveitando de seus abundantes recursos naturais.’
A realidade: A floresta não é apenas uma ‘fonte de riquezas naturais’; é a terra ancestral de centenas de milhares de índios, e muito dessa terra foi roubada deles ou destruída. A mineração em terras indígenas vem acontecendo há décadas.

Nenhuma palavra sobre os índios:

FIFA diz:‘O Brasil tem cerca de 190 milhões de habitantes: é o quinto país mais populoso da Terra. Quase 75 por cento da população é católico, e outros 26 milhões são protestantes. A comunidade judaica do Brasil é muito pequeno em comparação.’
‘A língua oficial é o português, mas muitos brasileiros falam outros idiomas de acordo com suas origens. O alemão e o italiano, por exemplo, são bastante prevalentes nas cidades do sul.’
A realidade: A grande maioria das línguas faladas no Brasil são línguas indígenas – mais de 200.

E os indígenas brasileiros têm sua própria versão de futebol

Alguns povos indígenas no Brasil têm seus próprios esportes parecidos ao futebol.
Os Pareci, por exemplo, que vivem a 100 km do estádio de Cuiabá, jogam xikunahity. O jogo é jogado por duas equipes de 10 homens em um retângulo, semelhante em tamanho a um campo de futebol, que ‘chutam’ a bola feita de mangaba com a cabeça. Normalmente, uma aldeia Pareci desafia outra para um jogo. Cada jogador traz objetos como anzóis e linha para o jogo, e as apostas são colocadas.
Os Enawene Nawe, a 400 km de Cuiabá, também jogam futebol de cabeça.
© Survival

O patrocinador da Copa do Mundo, Coca-Cola, usa índios para promover seus produtos – mas a empresa está implicada na luta territorial dos índios

A Coca-Cola usa uma imagem de um índio sorridente bebendo Coca-Cola, em sua publicidade. Mas a empresa está comprando açúcar da gigante alimentícia Bunge – que compra cana-de-açúcar de terras roubadas dos Guarani.
Um porta-voz Guarani disse: ‘A Coca-Cola tem de parar de comprar açúcar da Bunge. Enquanto essas empresas lucram, nós somos forçados a aguentar a fome, a miséria e os assassinatos’.
© Survival

A Coca-Cola usa uma imagem de um índio sorridente bebendo Coca-Cola, em sua publicidade. Mas a empresa está comprando açúcar da gigante alimentícia Bunge – que compra cana de açúcar de terras roubadas dos Guarani.

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Aja agora!

Os índios do Brasil precisam de sua ajuda. Sem apoio de fora, eles têm pouca chance de sobrevivência.
O Brasil é o lar de mais tribos isoladas do que em qualquer outro lugar do planeta. Eles são os mais vulneráveis de todos os povos do país.
Eles dependem completamente de sua floresta para sua sobrevivência, mas grande parte está sendo destruída para a exploração madeireira, pecuária, mega-barragens, estradas, exploração de petróleo e gás, e muito mais. O governo e os latifundiários agora estão planejando abrir suas terras ainda mais, para grandes projetos industriais.
Esses projetos e as ondas de imigrantes que atraem ameaçam dizimar inteiras comunidades isoladas, como tem acontecido tragicamente com inúmeras tribos no Brasil desde que foi colonizado pelos europeus há 500 anos.
Somente com suas terras intactas e protegidas para seu uso exclusivo, as tribos isoladas poderão sobreviver. Esta é uma das crises humanitárias mais graves do nosso tempo.
Os índios isolados do Brasil são os mais vulneráveis de todos os povos do país.
©Gleison Miranda/FUNAI/Survival

Saiba mais…

Para aprender mais sobre a história dos indígenas do Brasil, leia a reportagem da Survival ‘Deserdados’, que relata sua historia desde a invasão dos europeus até o ano 2000

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A goleada que levamos da Copa

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9928:submanchete120814&catid=72:imagens-rolantes


 A goleada que levamos da Copa

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ESCRITO POR COMITÊ POPULAR DA COPA   
TERÇA, 12 DE AGOSTO DE 2014


Tem um mês que a Copa acabou. Só que, seguindo um poema de Drummond que circulou muito nas redes sociais após a eliminação da seleção, podemos perguntar: “foi-se a Copa”? Agora que já estamos um pouco mais distanciados, podemos responder com mais calma. Pensamos que foi e não foi e que, ainda seguindo o poema, faz e “não faz mal”. O torneio, esse foi, e não faz mal. O futebol, por seu encanto, anula o que está fora do campo e das arquibancadas, o juízo fica suspenso e talvez mesmo os que foram mais atentos aos problemas implicados na realização do evento tenham vibrado apaixonados, momentaneamente esquecidos; porém, depois que o jogo acaba, segue o lance.

Alguns males causados pela vinda da Copa da FIFA vieram para ficar. E nada mais simbólico que uma competição feita por meio de privatizações de espaços públicos, flexibilização legal visando beneficiar grandes corporações, repressão e assalto ao tesouro público tenha começado com um gol contra do Brasil.

O Comitê Popular da Copa – SP, desde 2011, denuncia, critica e luta contra as violações de direitos humanos ocasionadas pelo evento e não é agora, que ainda resta fechar a conta e detalhar qual o legado da Copa, e para quem ela efetivamente foi, que ele irá acabar. Aliás, foram tantas denúncias, críticas e lutas que parece irônico que a Copa das tropas, a Copa das remoções, a Copa das exclusões, a Copa da exploração, a Copa das mortes, a Copa das empreiteiras, a Copa do maior lucro da FIFA e suas parceiras comerciais tenha sido também a
Copa na qual o país-sede foi eliminado com a maior goleada de sua história.

Parece-nos, contudo, muito mais vergonhoso do que a histórica derrota que nenhuma das famílias dos dez operários mortos na construção dos estádios do mundial tenha sido devidamente indenizada com pensão vitalícia e nenhuma construtora tenha sido responsabilizada. Também nos parece vergonhoso e inaceitável que, ao invés de se prontificar na realocação ‘chave a chave’ em moradias dignas das famílias removidas, o governo federal tenha apenas se apressado em escamotear dados sobre remoções. Também não temos notícia de nenhuma grande campanha nos aeroportos, hotéis, estádios e outros locais oficiais do evento de prevenção e combate à exploração sexual, e nenhuma das redes de exploração foi desmantelada, embora conhecidas. Também a Lei Geral da Copa, com suas várias zonas de exceção, se manteve intacta, embora amplamente questionada.

Quanto à repressão às manifestações que temos visto desde junho de 2013 e que vimos ao longo de todo o primeiro semestre de 2014, iniciada a Copa, se intensificou ainda mais, com requintes de legalidade. É assim que vimos o governo do estado se articulando com juízes, promotores e as polícias na repressão aos trabalhadores metroviários para dar boas condições de sediar a abertura. É essa a política de segurança pública unificada considerada pela presidente como o “grande legado”. É assim que vimos o exército, a força nacional, as polícias militares e civis atuando juntas na brutal repressão do dia 12 de junho, em alguns atos pontuais ao longo do torneio e no encerramento. E tudo isso graças ao trabalho conjunto dos Ministérios da Defesa e da Justiça, dos governos estaduais com a cobertura do Judiciário e do Ministério Público. No dia 23 de junho, aqui em São Paulo, foram detidos Fábio Hideki e Rafael Lusvarghi, acusados de resistência e desacato, incitação à violência, associação criminosa e porte de explosivos, e durante os 46 dias que estiveram presos vimos pedidos de liberdade provisória, habeas corpus e até o bom senso negados. Porém, devido à inconsistência das acusações de que ambos portavam artefato explosivo, foram soltos no dia 7 de agosto.

Os vídeos que mostram o momento das prisões e os depoimentos de pessoas que presenciaram as detenções tornam evidente que o flagrante alegado pela polícia foi forjado. Além disso, a perícia disse que eles não explodiriam nada com iogurtes e salgadinhos, e o artigo do código penal que prevê associação criminosa reza que os dois acusados, que não se conheciam antes do crime ser imputado, deveriam ser, por força da lei, no mínimo três. Durante o tempo em que estiveram presos, afirmam ter sido torturados, assim como tantas outras pessoas encarceradas. Todas elas são vítimas do sistema penal, algo extremamente necessário para a manutenção do capitalismo e da democracia (neo)liberal representativa.

Flagrantes forjados, prisões ilegais, tortura e cerceamento da ampla defesa são práticas cotidianas nas quebradas, morros e periferias há tempos. É essa mesma lógica-padrão que precisa ser escancarada para que os muitos Amarildos e Cláudias não sejam apenas mais um número nas estatísticas. E é nesse ponto que se sustenta nosso entendimento de que todo preso é preso político. É importante ressaltar que a distinção entre preso político e preso comum só fortalece a lógica punitivista do encarceramento, na qual a transgressão de uma lei ou uma possível "ameaça à ordem publica" justificam a perseguição e a privação da liberdade das pessoas, em sua grande maioria negros, pobres e moradores das periferias.

No Rio de Janeiro, durante a Copa, vimos Rafael Braga, que havia sido detido um ano antes em um protesto na Copa das Confederações, ser condenado a cinco anos em regime fechado por porte de desinfetante e água sanitária, mesmo que a perícia tenha atestado que não é assim que se faz um molotov. Também 23 ativistas tiveram prisão preventiva decretada na véspera da final e, enfim, no dia 13 de julho, quando todos pensavam que a Copa já ia acabar e que não haveria mais nenhuma grande novidade por parte da repressão, além dos espancamentos, balas de borracha e bombas de costume, manifestantes e outras pessoas que por ali passavam tiveram seu direito de ir e vir totalmente cerceado, sendo obrigados por bloqueios policiais a permanecerem por cerca de 3 horas, durante o horário da partida de encerramento, numa área de poucos quarteirões na Tijuca.

Ainda durante a Copa, vimos torcedores amontoados nas Fan Fests e não vimos negros nos ‘estádios de exceção’. Vimos pessoas em situação de vulnerabilidade social serem expulsas do centro para não chocar os turistas, vimos reintegrações de posse, agressões a advogados populares e vimos trabalhadores ambulantes em sistema de trabalho precário sem nenhum direito trabalhista garantido, situação essa colocada por empresas e, na sua maioria, mediada pelas prefeituras. Vimos também pessoas serem impedidas pela polícia de usar estações de metrô próximas à arena Corinthians, enquanto quem possuía ingressos tinha acesso ao expresso da Copa. Vimos ruas e outras áreas públicas cercadas por militares e, do lado de dentro, um circo com quiosques das corporações patrocinadoras garantindo sua publicidade e lucros.

E isso tudo foi só durante a Copa? Os precedentes de privatização do espaço público e expulsão da população pobre estão abertos. Assim como é incômoda a sensação de que os movimentos populares, se não tiverem força suficiente para colocar os governos contra a parede, podem ser brutalizados e pouca gente parece se importar. Também o público das partidas do Itaquerão não parece que vai mudar muito da Copa em diante, com ingressos a R$ 180,00 para quem não é “fiel-torcedor”.

Outra coisa que não vai mudar com o fim da Copa é o endividamento público, que aumentou em média 51% nas cidades-sede, em decorrência da flexibilização do limite estabelecido por lei na fase de preparação do evento. São Paulo, por exemplo, está com o endividamento em 200% da arrecadação. Também não tem mais como voltar atrás no dinheiro público gasto com a Copa, com os R$ 870 milhões repassados dos cofres públicos para a montagem das estruturas usufruídas unicamente pela FIFA e suas parceiras; não tem como reverter os empréstimos subsidiados, com taxas de juros ridículas e condições de pagamento generosas para as pobres megaempresas do setor de construção civil, como a Odebrecht. Também não temos mais como ver um centavo em impostos dos mais de R$ 10 bilhões arrecadados pela FIFA. Não tem mais como forçar que os governos investissem os mais de R$ 8 bilhões gastos com mobilidade por ocasião da Copa levando em conta as necessidades da população. Mas não podemos nada? Sim, podemos exigir a auditoria da dívida pública, porque, depois de tudo isso, afirmamos: nós não vamos pagar nada!

Realmente foi uma trágica goleada de violações. Mas, como diz o governo, tudo isso não foi em prol do desenvolvimento nacional? Em prol das cidades na competição por investimentos internacionais? Não há nenhum gol de honra marcado pelo Brasil nessa história toda? Mas nós sempre perguntamos: Copa pra quem? Desenvolvimento pra quem? Cidade pra quem?
Se alguém poderá marcar esse gol de honra, será o povo cuidadosamente auto-organizado. Quanto a nós, seguiremos fechando detalhadamente a conta da Copa, divulgando seu verdadeiro legado, somando com as lutas dos que estão abaixo e à esquerda, construindo um novo campo, um novo jogo, com novas regras, sem juízes, nem donos da bola, nem impedimentos, nem deslealdades. Esse é o legado que queremos, o da luta popular, o da resistência à opressão. Não podemos voltar atrás, mas bola pra frente!

Leia também:

terça-feira, 29 de julho de 2014

A história de Jaílson, um operário da Copa

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A história de Jaílson, um operário da Copa


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sábado, 28 de junho de 2014

Copa do Mundo e os Direitos Humanos

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Repórter Brasil

Copa do Mundo e os Direitos Humanos


COLETIVA DE IMPRENSA PRESIDENTE DA FIFA
Presidente da Fifa, Joseph Blatter. Foto: Marcello Casal Jr./ABr


É Copa do Mundo, amigas e amigos! Mas nem por isso a gente aqui na Repórter Brasil parou de acompanhar ações importantes em curso em todo o Brasil. No destaque desta edição do boletim, chamamos a atenção para a tentativa em curso no Congresso Nacional de esvaziar a "lista suja" do trabalho escravo, o que representaria um grave retrocesso no combate à exploração de pessoas no país. Apresentamos a denúncia que a seleção Palestina preparou para apresentar no congresso da Fifa, e a carta enviada ao presidente da entidade, Joseph Blatter, pedindo que a organização e suas empresas parceiras tomem medidas para garantir Direitos Humanos durante os jogos. Uma reportagem especial detalha a crise pela qual passa a fiscalização do trabalho no Brasil, e um levantamento inédito indica de maneira detalhada onde aconteceram todos os resgates de escravos desde 1995, quando as operações de fiscalização começaram. O especial "Eles Mandam", mapeamento de redes de poder no país, foi atualizado e reunimos também artigos sobre diferentes questões no país, além de dicas de como configurar seu Facebook para não perder atualizações da Repórter Brasil. Boa leitura!
Copa do Mundo e Direitos Humanos
Durante a Copa, Congresso pode esvaziar ‘lista suja’ do trabalho escravo 
Relatório de projeto que pretende regulamentar trabalho escravo quer proibir manutenção de cadastros que incluam nomes antes de condenação judicial
Carta a Blatter pede que Fifa garanta direitos humanos na Copa 
Mensagem foi enviada em nome do Institute for Human Rights and Business, que acaba de lançar, com apoio da Repórter Brasil, a plataformamegasportingevents.org
 
No Brasil, palestinos pedirão suspensão de Israel da Fifa 
Delegação palestina fará a solicitação durante o congresso da entidade que começa nesta terça-feira em SP. Eles acusam os israelenses de abusos contra os jogadores de futebol
 
Fiscalização do trabalho 
Número de fiscais do trabalho despenca e MPT aciona Justiça para garantir contratações 
Em ação assinada por 15 procuradores, Governo é intimado a preencher imediatamente 863 vagas. OIT também cobra e MTE reconhece que quadro atual é insuficiente. Pedido de contratações está parado no Ministério do Planejamento
Repórter Brasil faz levantamento inédito de casos de trabalho escravo no Brasil 
Flagrantes de escravidão desde 1995 foram disponibilizados publicamente e organizados em infográfico interativo para facilitar pesquisa 
Poder
Relações entre empresas brasileiras estão na plataforma Eles Mandam
Banco de dados consolidado na segunda etapa do projeto Eles Mandam amplia transparência e explicita relações entre grandes grupos econômicos brasileiros