sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Morte em Paris

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Morte em Paris

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Por que o “Charlie Hebdo” foi atacado. As manifestações e o risco de mais xenofobia na Europa. Os sinais de um sistema em crise profunda
Pela Redação de Outras Palavras
Uma das hipóteses mais lúgubres do sociólogo Immanuel Wallerstein concretizou-se, em parte, esta manhã em Paris. Dois homens encapuzados e vestidos de negro, aparentando (ou simulando) ser fundamentalistas islâmicos, invadiram a sede de um jornal satírico francês, o Charlie Hebdo, e executaram, a rajadas de metralhadoras, ao menos doze pessoas. Entre os mortos estão o editor da publicação e outros três chargistas de enorme talento e renome internacional. Charlie Hebdo é irreverente, inclinado à esquerda e crítico às instituições religiosas. Esta postura levou-o, algumas vezes, a provocar o islamismo, religião de milhões de imigrantes oprimidos e discriminados na Europa.
Sejam quais forem os responsáveis pelo atentado, as consequências são potencialmente trágicas: aumento da onda xenófoba – especialmente anti-islâmica – na Europa. Crescimento dos partidos de extrema-direita. Reforço à postura ultra-agressiva que os Estados Unidos, com notável apoio da França, já adotam no Oriente Médio. Risco ampliado de guerras de provocação. Wallerstein adverte que a crise do capitalismo é profunda, mas poderá abrir espaço tanto para um sistema mais democrático e igualitário quanto para o oposto. Ao entrar em declínio, a ordem hoje hegemônica liberta a emergência e expansão de valores de um pós-capitalismo; mas engendra, ao mesmo tempo, riscos de um mundo ainda mais hierarquizado, violento e desigual. As circunstâncias do atentado e seu contexto parecem validar a hipótese.
Armados de fuzis, os dois assassinos chegaram à redação de Charlie Hebdo, no centro de Paris, por volta das 11h. Sob ameaça, obrigaram a cartunista Corrine Rey (“Coco”), que entrava com sua filha, a abrir a porta do prédio. Ela relatou que falavam “um francês perfeito” e disseram pertencer à Al-Qaeda. Subiram dois andares e começaram a fuzilaria.
Chegaram num momento preciso. Às quartas pela manhã, a redação reunia-se, para definir a pauta do número seguinte. Estavam presentes o diretor, Charb, mais três cartunistas –CabuTignous e Wolinski (este último mais conhecido do público brasileiro, por publicar, em abril de 2011, em Piauí, a sequência “Meio século de sexo”) – e quatro redatores (entre eles, o economista Bernard Maris, ex-membro do Conselho Científico do movimento ATTAC, em favor do controle social sobre o sistema financeiro).
TEXTO-MEIO
Todos foram mortos na hora, junto com mais dois funcionários do jornal e dois policiais. Os assassinos teriam gritado, segundo testemunhas que os jornais franceses não identificam claramente, “Allahu Akbar” [“Alá é o Maior”] e se vangloriado de que “vingamos o Profeta”. Mas fugiram de carro, ao invés de se auto-martirizarem, como é comum em atentados cometidos pelo terror islâmico. Além disso, até o fechamento deste texto, nenhum grupo havia assumido o ato.
Fundado em 1992, o atual Charlie Hebdo (que resgata o nome de uma publicação anterior)não é um jornal de extrema-esquerda, ao contrário do que se afirmou no Brasil. Parte de sua equipe esteve presente em revistas humorísticas ligadas à revolta de 1968. Mas seu foco central não são os grandes temas políticos franceses ou mundiais – mas a crítica às instituições religiosas e à ultradireita.
Nos últimos anos, voltou-se especialmente contra o islamismo. Em 2005, reproduziu umasérie de charges publicadas originalmente no jornal dinamarquês Jyllands Posten,consideradas ofensivas ao profeta Maomé. Manteve a mesma postura por anos a fio, o que despertou críticas de analistas importantes do Islã – como Alan Gresh, redator do Le Monde Diplomatique. Num texto publicado em 2012, ele defendeu, obviamente, a liberdade de expressão do Charlie Hebdo, mas criticou sua linha anti-islâmica. Lembrou que, além de discriminados, os muçulmanos sofrem, há anos, restrições às liberdades políticas (em 2014, o governo francês chegaria a proibir manifestação contra o ataque israelense aos palestinos da Faixa de Gaza). Diante deste contexto, Gresh indagava: seria correto, em 1931, em plena ascensão do nazismo, uma publicação alemã de esquerda estampar charges ridicularizando aspectos retrógrados da religião judaica?
A hipótese de que o atentado de hoje seja de autoria de fundamentalistas islâmicos é real. Num sinal da descoesão ocidental, apontada por Wallerstein, o New York Times lembra hoje que, entre os militantes do grupo ultrafundamentalista ISIS, criador de um califado no Iraque, há milhares de europeus (além de norte-americanos, seria justo acrescentar…).
Mas a pergunta clássica – cui profit, a quem beneficia o crime – sugere não ficar apenas nesta hipótese. Quase quinze anos após os atentados de 11 de Setembro, não foram respondidas as teorias segundo as quais a derrubada das Torres Gêmeas não poderia ocorrer sem algum tipo de participação das agências de inteligência dos Estados Unidos, nem as crônicas sobre o estranho comportamento do presidente George W. Bush ao ser informado de sua derrubada.
Mais de 100 mil pessoas saíram às ruas esta noite, em dezenas de cidades francesas, em solidariedade à redação de Charlie Hebdo. O clima foi de óbvia consternação e de defesa das liberdades. Manifestaram-se os que se sentem próximos de um jornal irreverente e sarcástico. Mas e a Europa profunda? Na própria França, as pesquisas colocam em primeiro lugar, na preferência dos eleitores para a próxima eleição à Presidência, Marinne Le Pen, da Frente Nacional, xenófoba e de extrema-direita. Na Alemanha, ressurgem, pela primeira vez depois da II Guerra Mundial, manifestações contra estrangeiros, articuladas por um movimento que se apresenta como contrário à suposta “islamização do Ocidente”. Que efeito terá o atentado de hoje sobre estes sentimentos já em ascensão?
As doze vítimas de hoje merecem tantas homenagens quanto cada um dos mais de 500 mil mortos no Iraque, desde a invasão norte-americana, ou as mais de 2.400 pessoasseletivamente assassinadas pelo governo norte-americano, por meio de drones, só entre 2009 e 2014.
Porém, mais que os mortos, está em questão o futuro do humanidade. Para Wallerstein, é impossível saber, hoje, o que virá após o declínio do capitalismo. É uma disputa que se prolongará por décadas e será definida em “uma infinidade de nano-ações, adotadas por uma infinidade de nano-atores, em uma infinidade de nano-momentos”.
O atentado de hoje chama atenção para os riscos inerentes a este cenário de crise. Mas pode, num sentido oposto, ecoar o apelo à ação feito, na sequência, pelo mesmo sociólogo. Ele diz: “Em algum ponto, a tensão entre as duas soluções alternativas vai pender definitivamente em favor de uma ou outra. É o que nos dá esperança. O que cada um de nós fizer a cada momento, sobre cada assunto imediato, importa”.

Jornal satírico alvo do maior ataque terrorista em França

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Jornal satírico alvo do maior ataque terrorista em França

Homens armados com metralhadoras entraram nas instalações do Charlie Hebdo, em Paris, e abriram fogo sobre a redação, deixando doze mortos e quatro feridos em estado crítico. É o mais grave atentado terrorista em França desde 1835.
Imagem de dois dos atiradores disparando contra um carro da polícia antes de se porem em fuga. Foto Elise Barthet/Twitter
O ataque ocorreu esta quarta-feira de manhã e segundo testemunhos divulgados pela imprensa, dois homens encapuçados e armados de metralhadoras entraram no edifício do jornal e abriram fogo à sua passagem. As autoridades confirmaram 12 mortos e quatro feridos em estado crítico na sequência deste ataque. Entre os mortos estão os desenhadores Charb, que dirigia o jornal, Cabu, Wolinski e Tignous. Os atiradores conseguiram fugir, disparando contra a polícia que protegia o local e matando dois agentes.
O presidente francês reagiu ao atentado elevando o alerta antiterrorista na zona de Paris e colocando outros jornais sob proteção policial. "A França está em estado de choque. Trata-se sem dúvida de um atentado terrorista"
Charlie Hebdo é conhecido pelo seu humor corrosivo que não poupa partidos, instituições ou religiões. Em 2006, na sequência da onda de indignação por causa das caricaturas de Maomé publicadas por um jornal dinamarquês, o Charlie Hebdo decidiu republicá-las em França, o que lhe valeu um processo em tribunal por injúrias, em que acabou absolvido.
Já em 2011, outra caricatura de Maomé voltou a fazer capa  do jornal, a propósito do regresso da charia na Líbia, sobrepondo ao cabeçalho do jornal o nome "Charia Hebdo".  Na mesma madrugada em que o jornal saía para as bancas, um cocktail molotov incendiou a sede do jornal, que se tornou um alvo dos grupos integristas islâmicos.
A capa da edição do Charlie Hebdo no dia do atentado faz referência ao polémico livro "Submissão", de Michel Houellebecq.
Esta semana, a capa do jornal satírico evoca o livro lançado esta quarta-feira e que está a provocar polémica em França. "Submissão", um romance de Michel Houellebecq, conta a história da ascensão de um muçulmano à presidência de França, levando à instauração da poligamia e do uso do véu, com o próprio narrador do romance a a converter-se ao Islão para manter o seu emprego. O livro já lidera a lista de pré-encomendas na Amazon francesa e tem sido defendido e atacado com garra nos meios políticos e culturais, havendo quem o compare a "1984" de Orwell e quem o acuse de servir para abrir caminho à extrema-direita de Marine Le Pen.
(Atualização): Reações de condenação e manifestações de solidariedade
Por todo o mundo surgiram ao longo do dia mensagens de condenação do atentado à redação do Charlie Hebdo. Em Portugal, a condenação foi unânime na primeira sessão plenária da Assembleia da República e o voto proposto pelo Bloco será aprovado na sexta-feira.
Também o Sindicato dos Jornalistas repudiou o atentado e prestou homenagem "presta homenagem à resistência e à coragem dos que, enfrentando riscos tão inesperados como a brutal fuzilaria que esta manhã irrompeu pela redacção do “Charlie”, amam até aos limites a liberdade de expressão".
O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa a comunidade muçulmana em França e é presidido pelo imã da Grande Mesquita de Paris, também repudiou o massacre no Charlie Hebdo, ao afirmar que "este ato bárbaro de extrema gravidade é também um ataque contra a democracia e a liberdade de imprensa".
O imã da mesquita de Lisboa também se pronunciou contra estes "atos bárbaros de crueldade" e afirmou que se os autores forem muçulmanos isso "preocupa-nos ainda mais", uma vez que "utilizam o Islão de forma negativa" e denigrem a "mensagem da tolerância e da paz que ele transmite".
O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa a comunidade muçulmana em França e é presidido pelo imã da Grande Mesquita de Paris, também repudiou o massacre no Charlie Hebdo, ao afirmar que "este ato bárbaro de extrema gravidade é também um ataque contra a democracia e a liberdade de imprensa".
"Num contexto político internacional de tensões alimentado por delírios de grupos terroristas que se aproveitam injustamente do islão, apelamos a todos os que estão associados aos valores da República e da democracia que evitem as provocações que apenas servem para deitar gasolina no fogo", acrescentou o comunicado do CFCM.
Esta quarta-feira ao fim da tarde realizam-se concentrações de solidariedade com as vítimas deste atentado em dezenas de localidades francesas. Os partidos parlamentares da esquerda francesa convocaram para o próximo uma marcha silenciosa em Paris para prestar homenagem aos mortos e feridos do ataque. Entretanto, a empresa detentora do diário Le Monde, a Radio France e a emissora pública de televisão colocaram os seus meios humanos e materiais à disposição do Charlie Hebdopara que possa prosseguir a sua publicação.

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Ano novo, tragédia velha

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Ano novo, tragédia velha

Em decisão liminar, STF suspende a publicação da nova “Lista Suja” do Trabalho Escravo, deixando trabalhadores e o mercado vulneráveis a empresas infratoras.
A publicação da nova versão da “Lista Suja” do Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que deveria acontecer no último dia 30, foi suspensa graças a uma ação movida pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão liminar foi expedida pelo ministro Ricardo Lewandowski, em caráter emergencial, durante o recesso de Natal. Com isso, empresas e instituições financeiras que utilizam a ferramenta para eliminar o trabalho escravo de seus negócios ficam descobertas até que o STF julgue em definitivo o processo.
A Ação Direta de Inconstitucionalidade 5209 (Adin 5209) foi protocolada no STF em 22 de dezembro de 2014. Mesmo com o recesso de Natal, em apenas cinco dias (27), o ministro Lewandowski deferiu uma liminar determinando a suspensão da publicação do cadastro. Com a decisão, as portarias interministeriais que regulamentam o processo de inclusão dos nomes e de divulgação da lista, ficam suspensas. A decisão tem caráter provisório e pode ser derrubada caso a decisão definitiva do STF seja desfavorável à ação ou se a liminar for cassada até lá. O tribunal só retornará do recesso em fevereiro.
“É inadimissível que no início de um novo ano tenhamos que lidar com uma decisão que representa tudo que há de mais velho e horrível na história do Brasil”, classifica Rômulo Batista, da campanha da Amazônia do Greenpeace.
A última lista, publicada em julho de 2014, continha 609 nomes de empresários flagrados com trabalhadores atuando em condições análogas a da escravidão. Destes, 380 eram de estados da Amazônia Legal, sendo que 10% foram multados por desmatamento ilegal nos últimos cinco anos. A nova lista, que deveria ter sido publicada no penúltimo dia de 2014, traria quase 100 nomes adicionais, chegando perto de 700 empregadores que utilizam mão de obra escrava ou análoga a escravidão, segundo apurou o site Repórter Brasil.
A suspensão aconteceu no mês em que a “lista suja” recebeu um prêmio da Controladoria-Geral da União (CGU), na categoria de boas práticas da transparência.
Em nota, a Abrainc informou que agiu contra a inclusão de suas associadas na lista por considerar as portarias inconstitucionais, assim com o processo de inclusão dos nomes.
Conceito de Trabalho Escravo na mira do “progresso”
Decisões como esta do STF colocam o Brasil mais próximo de seu passado sombrio do que de um futuro promissor. Um tempo em que empresários que desmatavam, escravizavam e destruíam eram colocados em pé de igualdade com empresas responsáveis e que respeitavam os direitos socioambientais do País.
Mas a ofensiva contra a “lista suja” do trabalho escravo não é exatamente uma novidade. Durante 2014 a chamada bancada ruralista do Congresso trabalhou intensamente para tentar desconstruir os avanços garantidos pela PEC do Trabalho Escravo, aprovada no ano passado – depois de 19 anos de debates. A emenda à Constituição possibilita o confisco de terras de proprietários flagrados com trabalhadores atuando em condição análoga a escravidão. Mas agora, em sua fase de regulamentação, representantes do agronego´cio tentam enfraquecer a proposta.
O projeto de regulamentação apresentado pelo senador Romero Jucá propõe a retirada dos termos “praticas humilhantes e degradantes” do conceito oficial de trabalho escravo, além de tornar mais difi´cil a inclusa~o de nomes de proprieta´rios infratores na lista do MTE, que só poderiam ser inseridos depois de esgotadas as possibilidades de apelação judicial, o que pode levar até 20 anos no sistema judiciário brasileiro. Atualmente, basta o empregador ter sido flagrado e autuado em uma operação de fiscalização do MTE.
Mercado pode ser contaminado pelo trabalho escravo durante suspensão
As empresas que assinaram o Compromisso Pu´blico da Pecua´ria e a Morato´ria da Soja utilizam a lista do MTE para manter o trabalho escravo longe de suas cadeias produtivas, boicotando aqueles que constam no documento. Da mesma maneira, mais de 400 companhias de diversos setores utilizam a ferramenta para cumprir o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.
Dos 609 nomes incluídos na última versão da lista, a maioria (27%) está no Pará. O Pará foi o estado da Amazônia Legal que mais desmatou em 2014. De acordo com o PRODES, foram perdidos 1.820 km2 de florestas no ano passado no estado. Segundo o MTE, a atividade pecuária é exercida por 40% dos empresários flagrados em todo o País, seguida da produção florestal (25%) e da agricultura (16%).
Manter fora do mercado empresários que cometem ilícitos sociais e ambientais deve ser uma prioridade do governo brasileiro. Mas enquanto a publicação da nova lista encontra-se bloqueada pela justiça, o mercado pode estar adquirindo, sem saber, produtos de empresas que mantém trabalhadores em condições análogas a da escravidão.
“A suspensão da publicação da nova lista e a retirada do site da lista antiga representam uma ameaça real às empresas e pessoas que não adquirem produtos e serviços de quem se encontra no cadastro. Por sorte, a última lista, que ficou disponível até 26 de dezembro, foi amplamente divulgada e ainda pode ser consultada. Afinal, o Brasil ainda é um País livre”, conclui Rômulo.
Fonte: Greenpeace Brasil

Incêndios criminosos impedem regeneração florestal na Terra Indígena Marãiwatsédé (MT)

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Incêndios criminosos impedem regeneração florestal na Terra Indígena Marãiwatsédé (MT)

Os Xavante da Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé, no leste mato-grossense, tentam manter as tradições que herdaram de seus antepassados, mas enfrentam desafios para conseguir os recursos da natureza para fazer suas casas, seu artesanato e para realizar seus rituais. A caça também está escassa e até água falta. Além disso, acredita-se que a água de alguns rios esteja contaminada com agrotóxicos.
Os desafios são enormes, talvez até maiores do que foi conseguir recuperar a posse da terra que era ocupada por seus antepassados. A desintrusão de não índios da TI Marãiwatsédé terminou em janeiro de 2013 (saiba mais sobre esse caso). E deixou como herança para os Xavante a TI mais desmatada da Amazônia Legal. Dos 165 mil hectares, localizados na região norte do Araguaia mato-grossense, mais de 104 mil hectares estavam desmatados na época da desintrusão. Os restantes 40% de floresta ficam longe da aldeia, estabelecida na área mais desmatada. (veja no gráfico abaixo o ranking do desmatamento de Tis)
Situadas em Terras Indígenas demarcadas, as aldeias Xavante quase não mudam de local.  Sem caça e coleta suficientes para alimentar a todos, os índios sobrevivem com as míseras cestas básicas do governo, que trouxeram com elas o sedentarismo e muitas doenças.  Mesmo assim a comida não é suficiente e também falta assistência, médica principalmente.
Troncos retorcidos indicam os incêndios que impedem a regeneração natural|Rafael Govari-ISA
Para que a aldeia consiga o mínimo de suprimentos tradicionais, é necessária a recuperação dos mais de 100 mil hectares desmatados.  Porém, a situação é crítica.  “Desde 2013, houve mais devastação que regeneração”, diz Diego Schmith Gino, da Opan.  É isso mesmo que você leu.  Depois da desintrusão, milhares de incêndios, além de impedir a regeneração, estão devastando o que resta de mato da Terra Indígena.  Somente em agosto de 2014, no auge da seca, os satélites do Inpe detectaram 1.200 focos de queimadas dentro da Marãiwatsédé, conforme análise feita pelo ISA (Instituto Socioambiental).
O modo de vida dos Xavante
O pensamento difundido na sociedade de que existe pouca terra para muito índio nasceu devido a desinformação sobre a cultura indígena e com base em uma visão que prioriza o uso da terra para a produção agropecuária e o lucro econômico. Os Xavante utilizam a terra para extrair o alimento que consomem, não para produzir e vender.
De acordo com a indigenista da organização Operação Amazônia Nativa (Opan), Maria Nahssen, que trabalha com os Xavante, esse é um povo tradicionalmente seminômade. “É um povo caçador e coletor”, explica. Antes da colonização da região Xingu/Araguaia, os Xavante ocupavam uma área muito maior. As aldeias eram transferidas de local de tempos em tempos.
Dentro da organização social dos Xavante, os homens são responsáveis pela caça e proteção, pela manutenção dos rituais e cerimônias religiosas; as mulheres pelos afazeres familiares, coleta e plantio. Trabalhos bem definidos e uma rotina guiada pelas estações do ano e sustentada pelo que a natureza oferecia. Neste ritmo eles viviam, mudando de lugar, caçando e coletando.
As roças xavante são compostas por espécies que se mantêm no sistema florestal por longo prazo. Baseada em um manejo prolongado e agroflorestal, os Xavante são também agricultores, pois parte das espécies coletadas, como cará, inhames e batata doce, são domesticadas para a coleta.
Buscar alternativas eficazes e viáveis para a recuperação da Terra Indígena mais desmatada da Amazônia Legal é um desafio. E deverá acontecer por meio da regeneração natural com auxílio das técnicas existentes, como o plantio mecanizado de sementes florestais. Mas o fogo tem impedido a regeneração natural, a alternativa mais barata. “Se der uma cessada nas queimadas, a gente acredita que em poucos anos a floresta estará grande novamente”, diz Diego.
Os Xavante culturalmente põem fogo na mata para fazer roça e caçar. Mas é um incêndio controlado e se for praticado de tempos em tempos, alguns estudos indicam ser benéfico para o equilíbrio do Cerrado. Porém a quantidade e a constância dos focos na TI em processo de regeneração e fragilizada, traz um desequilíbrio que está matando o que sobrou da vegetação.
Para 2015, existe a expectativa de os Xavante ocuparem mais o território. Por enquanto, eles estão em apenas uma aldeia, que fica localizada em um extremo da TI, mas a dinâmica cultural Xavante possibilita que as aldeias se fragmentem à medida que elas incham. No caso de Marãiwatsédé, a aldeia permaneceu unida por causa do perigo dos invasores.
Com a ocupação, poderá haver maior controle do território com a diminuição das invasões e dos incêndios criminosos. Diminuindo os incêndios, enfim, a floresta pode se regenerar e oferecer uma perspectiva de vida diferente para as futuras gerações. Depois de conquistara terra, a luta dos Xavante continua.
Coleta de sementes é alternativa viável
Sem recursos naturais suficientes e com ajuda mínima do governo, os Xavante estão buscando alternativas de renda para suprir suas necessidades mais básicas.  Só que isso precisa ser feito com respeito à sua cultura.  Uma dessas alternativas foi a criação, em 2011, de um grupo de coletoras de sementes, que hoje totaliza 35 mulheres.  Em 2014, a coleta rendeu apenas R$ 5.895,23. Parece pouco, mas foi mais que o dobro que o arrecadado em 2013, de R$ 2.273,54, tornando-se uma importante fonte de renda para as famílias.
Coletoras xavante estão ajudando a repovoar os quintais da aldeia|Rafael Govari-ISA
A indigenista Maria Nahssen explica que a coleta só não é maior por conta da devastação, e também por falta de transporte. “As áreas de floresta ficam longe da aldeia e eles não possuem locomoção para fazer esse deslocamento”. Para o ano que vem está sendo planejada a realização de expedições para a coleta de sementes.
As sementes são entregues para a Associação Rede de Sementes do Xingu, com sede em Canarana/MT, que tem hoje 421 coletores associados espalhados pela região Xingu/Araguaia e que comercializou neste ano mais de 26 toneladas de sementes florestais para a recuperação de áreas degradadas em todo o Brasil.
Para o ano que vem, utilizando recursos do FAM (Fundo Amazônia), estão previstas a construção de um viveiro de mudas e de uma casa de sementes na aldeia, além da aquisição de kits de beneficiamento de sementes. Capacitações para melhorar a eficiência também estão sendo programadas.
De acordo com suas possibilidades, os Xavante já recuperaram um hectare de área degradada com o plantio de sementes a lanço. Até o final do ano estava previsto o plantio de mais três hectares. Com a coleta de sementes, os quintais das casas também estão cheios de árvores, principalmente frutas.
Fonte: ISA – Instituto Socioambiental

A arte do contraponto

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http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed832_a_arte_do_contraponto

A arte do contraponto

Por Rolf Kuntz em 06/01/2015 na edição 832
 
A manchete menos caridosa sobre o discurso de posse da presidente Dilma Rousseff saiu no Globo: “Dilma recicla promessas e vê ‘inimigos externos’ da Petrobras”. O tom foi mantido no subtítulo: “Presidente lança lema ‘Brasil, pátria educadora’, que já tinha usado em 2013”. O pessoal fez a lição de casa e explorou bem o lema requentado. A expressão havia sido usada em 1º de maio de 2013 – “Poderemos gritar do fundo do nosso coração: Brasil, pátria educadora!” Essa informação foi um diferencial respeitável.
A cobertura do Globo apresentou as duas falas da presidente, no Congresso e no parlatório do Palácio do Planalto, mostrou o contexto dos discursos e mencionou a presença, nas cerimônias, de políticos citados na Operação Lava Jato, da Polícia Federal, uma ampla investigação sobre o saque da Petrobras. Na cobertura da Folha de S.Paulotambém se chamou a atenção para a presença dos políticos citados nas delações, com destaque para os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros.
Nas matérias de alguns jornais houve um contraponto entre as palavras da presidente, a interpretação das falas e a referência às circunstâncias políticas e econômicas. Nessas coberturas, as matérias principais apresentaram tanto o resumo das palavras oficiais quanto a sua explicação. Boa parte dos leitores deveria ter assistido aos discursos no dia 1º, quinta-feira. Para esse público, o contraponto e a tradução das mensagens foi um bom serviço.
Sapo-boi
As coberturas mais explícitas chamaram logo a atenção dos leitores para a grande omissão, o assunto muito importante e quase ignorado nos pronunciamentos presidenciais. A crise econômica brasileira – quatro anos de baixo crescimento, inflação elevada, contas públicas em pandarecos e contas externas esburacadas – foi quase esquecida no falatório da posse.
Um mea culpa seria quase inimaginável, mas quem poderia esperar uma quase total omissão do grande assunto? O primeiro desafio da presidente Dilma Rousseff, em seu segundo mandato, será arrumar as contas públicas, passo indispensável para conter a inflação e retomar o caminho do crescimento econômico. Nenhuma pessoa minimamente informada ignora esse ponto. Em seu discurso de posse, ela mesma reconheceu a importância dessa tarefa. Mas limitou-se a esse reconhecimento e à promessa de um ajuste “com o menor sacrifício possível para a população”. Quem esperava algo mais sério se decepcionou.
Nos 12 meses até novembro, o buraco fiscal chegou a R$ 288,2 bilhões, valor correspondente a 5,64% do produto interno bruto (PIB). Esse resultado, o déficit nominal, incorpora o saldo primário e também os juros da dívida pública.
Na maior parte dos países da União Europeia, muito mais afetados que o Brasil pela crise de 2008, os números são menos feios – um detalhe acessível a qualquer pessoa curiosa, mas nunca reconhecido pela cúpula do governo brasileiro. Nenhum jornal citou esses detalhes na cobertura da posse, mas nenhum repórter ou editor deveria esquecê-los naquele dia. Podem ter esquecido aqueles números, mas o ponto essencial, o problema, foi lembrado.
Na edição daquele dia, quinta-feira (1/1), grandes jornais haviam estimulado a expectativa de um tratamento mais cuidadoso do desafio econômico. “Dilma toma posse com discurso de ajuste fiscal sem mudar política social”, havia anunciado em manchete oEstado de S.Paulo. O principal título de capa da Folha de S.Paulo havia sido mais ousado no otimismo: “Dilma usará posse para explicar ajuste na economia”.
Ninguém havia sacado essas manchetes do nada. Fontes do governo haviam dito como deveria ser o discurso presidencial. Se enfatizaram a referência ao conserto das contas públicas foi porque, como qualquer pessoa razoavelmente informada, entendiam a importância política e econômica do tema.
Mas a presidente preferiu passar muito rapidamente pelo problema. Ela falou sobre o ajuste “como se tivesse acabado de engolir um sapo-boi, como se tivesse se rendido a uma força de ocupação, a de sua nova equipe econômica, mas ainda gritando ‘no pasarán!”, escreveu o colunista Vinicius Torre Freire, da Folha de S.Paulo.
De véspera
Parte importante do trabalho de tradução e de explicação das falas presidenciais ficou para os colunistas. Isso foi mais nítido na cobertura do Estadão, muito contida nos textos principais e mais explicativa e analítica nas matérias dos colunistas. O contraste entre as palavras e os fatos conhecidos apareceu mais fortemente no texto de Dora Kramer, iniciado com um título curto e vigoroso: “Faltou a verdade”. Num das melhores passagens, o texto contrasta a defesa de “práticas mais modernas e éticas” com a montagem de um ministério baseada no loteamento e na barganha. A escolha do ex-governador cearense Cid Gomes para o Ministério da Educação aparece como caso exemplar: quais as suas credenciais para concretizar o lema “pátria educadora”?
No Valor (sexta, 2/1), o contraponto entre os discursos presidenciais e os fatos conhecidos apareceu já nos textos principais da cobertura, mais condimentados que os títulos. Mas o contraponto foi explorado mais amplamente no material do Globo. Mesmo sem comentários dos colunistas, a cobertura das cerimônias seria suficiente para situar o leitor diante de um quadro muito mais interessante e desafiador do que o mundo apresentado nos discursos. A abertura da matéria sobre a fala presidencial no Congresso vale como um painel:
“No momento em que o governo corre o risco de ser tragado pelo escândalo da Petrobras, o combate à corrupção teve destaque no discurso da presidente Dilma Rousseff no plenário do Congresso. Dilma fez ainda uma defesa enfática da crise e tentou descolar-se da crise: afirmou que preservaria a estatal de ‘predadores internos e de seus inimigos externos’.”
Teria sido mais “objetivo” resumir o discurso sem mencionar as circunstâncias? Alguns poderão defender essa opinião. Mas sempre se poderá perguntar: para que, se o público interessado em política já havia assistido aos pronunciamentos presidenciais, pela TV, no dia anterior?
***
Rolf Kuntz é jornalista

Não existe mais latifúndio no Brasil, diz nova ministra da Agricultura

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Não existe mais latifúndio no Brasil, diz nova ministra da Agricultura

O Brasil precisa de uma reforma agrária pontual, já que o latifúndio deixou de existir no país. Os conflitos fundiários com indígenas ocorrem porque eles “saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”.
Recém-empossada ministra da Agricultura, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) não abandonou o discurso ligado ao agronegócio que a tem colocado em rota de colisão com movimentos sociais e com setores do PT.
Nesta entrevista à Folha, ela disse que recebeu da presidente Dilma Rousseff a missão de “revolucionar” a pasta e que não teme a contenção de gastos para este ano.
A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), recém-empossada ministra da Agricultura, com a presidente Dilma (Foto: Alan Marques/Folhapress)
Folha – A senhora assume o ministério no momento em que grandes importadores de alimentos, como a China, crescem menos ou até enfrentam crise, como a Rússia. Como será o ano para o agronegócio?
Kátia Abreu – Há dificuldades, mas não temos muitos temores em relação às commodities de alimentos. A China, que importa 23% dos nossos produtos, pode parar de investir em uma porção de coisas. Mas 1,3 bilhão de pessoas lá seguem precisando almoçar, jantar e lanchar. Está havendo uma queda de preços [dos alimentos exportados], mas não creio em alteração de volume. Mesmo com o embargo [de potências internacionais], os russos continuam se alimentando de frango. As pessoas têm de comer. E a gente não exporta produtos muito agregados, consumidos por pessoas ricas. Exportamos é carne, que a massa come, um produto processado por lá.
A sua primeira viagem internacional será a esses países. Qual será a pauta?
Vamos assinar acordos firmes e claros para a habilitação, por exemplo, de novas fábricas frigoríficas no Brasil, para que elas possam exportar para esses países. Os chineses e os russos verbalizam: “Não queremos ficar na mão de JBS, Marfrig, Minerva [os maiores frigoríficos do país]“. Eles querem ter mais opções de compra. Vamos ampliar as possibilidades.
Não haverá reação dos frigoríficos que já têm esse mercado?
Ninguém gosta de dividir nada, né? As pessoas, quanto mais ganham, mais felizes ficam. Mas cabe ao Estado brasileiro abrir oportunidades e fazer o jogo da nação. E não de corporações. Eu não posso focar o privilégio de alguns em detrimento dos demais.
Ainda sobre a crise: o ano será de contenção de gastos. Como ficará o orçamento do Ministério da Agricultura?
Todo mundo me fala: “Você vai brigar com o [ministro da Fazenda] Joaquim Levy”. Gente, tenho uma tranquilidade tão grande! O setor [do agronegócio] é tão consolidado e dá respostas tão rápidas que é perigoso até ele me dar mais do que peço. É verdade! Ele não quer que o país se recupere? Vai recuperar com que, gente? Fabricando o que, a não ser comida? Então não tenho medo dos cortes do Levy. Ele vai investir em carne boa. Não vai investir em carne podre. O agronegócio não é carne podre.
Movimentos sociais que apoiaram a reeleição de Dilma Rousseff afirmam que a nomeação da senhora foi um tapa na cara deles.
Se eles me apoiassem, aí era difícil, né?
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) diz que a senhora criminaliza os movimentos e até já pediu CPI contra eles.
Quero dialogar com eles. Diálogo sempre. E condenar invasão, sempre. Tem MST que invade, isso é ilícito, sim, e vai continuar sendo. Está na Constituição.
A senhora trabalha com a possibilidade de haver invasão em terras de sua família?
O que? O Ministério do Trabalho já pediu [documentos de propriedades] de 1987 para trás, quando o meu marido ainda era vivo. Eles vão à minha casa 24 horas por dia. Não acham nada. Meu filho não aguenta mais. Já invadiram também. Eu te falo com franqueza: não tenho nada contra assentamentos.
No Tocantins, sentei com o MST, eles me pediram ajuda. Tive audiência com o [então ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel] Rossetto para arrumar dinheiro para eles comprarem a fazenda de um cidadão. Se eu quero terra, por que eles não podem querer? Agora, não invade, pelo amor de Deus, porque não dá.
O país não necessita acelerar a reforma agrária?
Em massa, não. Ela tem de ser pontual, para os vocacionados. E se o governo tiver dinheiro não só para dar terra, mas garantir a estrutura e a qualidade dos assentamentos. Latifúndio não existe mais. Mas isso não acaba com a reforma. Há projetos de colonização maravilhosos que podem ser implementados. Agora, usar discurso velho, antigo, irreal, para justificar reforma agrária? A bancada [ruralista] vai trabalhar sempre, discutir, debater.
A senhora vai chamar os movimentos para dialogar?
Conflitos em outras áreas não são da alçada do Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento]. Meus colegas do Desenvolvimento Agrário, do Incra, podem mediá-los com competência. Agora, passou o pé para dentro da terra, tô dentro. Inclusive índio. Se quiser ajudar os índios a produzirem, sou a parceira número um. Faço isso no meu Estado.
A proposta da PEC 215, em discussão no parlamento, de passar a responsabilidade por demarcação de terras indígenas para o Congresso não traz o risco de que não se demarque mais nada no país?
Não. Porque não vai sair mais nada nunca do jeito que está. O STF já decidiu que terra demarcada não pode ser ampliada. Até então tinham saído várias, de forma equivocada, empurradas pela Funai [Fundação Nacional do Índio] a toque de caixa.
Enquanto os índios reivindicavam áreas na Amazônia, a gente nunca deu fé do decreto de demarcação [em vigor]. É um decreto inconstitucional, unilateral, ditatorial, louco, maluco. “E por que vocês só foram ver isso depois?” Porque os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção.
Não temos problema com terra indígena, a nossa implicância é com a legalidade. Se a presidenta entender que os pataxós estão com a terra pequena, arruma dinheiro da União, compra um pedaço de terra para eles e dá. Ótimo. Eu só não posso é tomar terra das pessoas para dar para outras.
As terras dos índios também foram tomadas.
Então vamos tomar o Rio de Janeiro, a Bahia. Por que [o raciocínio] só vale em Mato Grosso do Sul? O Brasil inteiro era deles. Quer dizer que nós não iríamos existir.
E os pequenos agricultores, haverá alguma política específica para eles?
Nós precisamos criar uma grande classe média rural brasileira. Ela hoje não existe. Dos cinco milhões de produtores do país, 300 mil são das classes A e B e só 796 mil da C. Nas classes D e E estão 70%, que contam com financiamento barato, mas não têm assistência técnica. Nós precisamos pegar essas pessoas, identificá-las, fazer editais e leilões para dar a elas assistência continuada. Eu tenho que fazer igual babá, decidir o que vai produzir. Não existe terra ruim. Tendo água, até na Arábia Saudita as pessoas plantam.
Haverá um “Proer” para o setor sucroalcooleiro?
Este é um assunto gravíssimo, que deve envolver todo o governo. A crise é total. Precisamos, em primeiro lugar, conhecer o endividamento do setor, que está alavancado em dólar. Não tenho a solução mágica. Mas temos de encontrar um mecanismo de estabilidade desse biocombustível [o etanol] que não seja só a ligação com o petróleo.
Uma das queixas do setor é a de que a Agricultura depende de tantos outros ministérios que acaba limitada.
A presidente Dilma me disse, de pronto, a minha missão: “Kátia, é para revolucionar”. Nós não podemos mais ficar só anunciando Plano Safra todo ano, cento e tantos bilhões para isso, cento e tantos bilhões para aquilo. É muito pouco. Ela quer que o Ministério da Agricultura tenha uma interlocução forte com o Ministério dos Transportes para discutir logística, PAC 2, PAC 3.
Mas não haverá tantos recursos para os investimentos.
Temos de apostar tudo na privatização. A presidente inclusive enviará proposta ao Congresso mudando a legislação de hidrovias. Temos vários “Mississippi” maravilhosos. O correto é o governo fazer as hidrovias e depois concessionar para a iniciativa privada tocar.
A senhora é tida como ministra da cota pessoal de Dilma. Considera-se amiga dela?
Falar que é amiga de presidente pega mal. Não sou amiga da presidente. Sou fã da presidente. Ela é um ser humano bom. Ela tem espírito público. Ela vai para a luta. Ela não quer saber. Ela vai, nestes quatro anos, escrever uma bela biografia. E eu quero colaborar para escrever uma biografia maravilhosa para ela na minha área.
Por: Mônica Bergamo
Fonte: Folha de São Paulo 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Marcelo Rubens Paiva

cult
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/06/as-verdades-de-marcelo-rubens-paiva/

Marcelo Rubens Paiva

Leia perfil publicado na CULT 178
Helder Ferreira
É difícil definir uma década tão conturbada quanto a de 1980 foi para o Brasil. Talvez porque o período tenha sido uma época de redefinição. Se no campo político foi a década da abertura “lenta, gradual e segura” para a democracia, das “Diretas Já!”, do fim da ditadura militar, no comportamental, foi a era do “desbunde” – a resposta mais visceral ao fim da rigidez militarizada, da repressão, da censura. Foi nesse tempo de mudanças, mais precisamente no final de 1982, que Feliz Ano Velho, o romance autobiográfico do filho do deputado cassado e desaparecido político Rubens Beyrodt Paiva, chegou às livrarias. Nele, Marcelo narra como, no dia 14 de dezembro de 1979, às 17h, com o Sol em conjunção em Netuno e em oposição a Vênus, ele pulara com a pose do Tio Patinhas para mergulhar em um lago com 50 centímetros de profundidade, batera a cabeça no chão, fraturara a quinta vértebra cervical e comprimira a medula, resultando, a curto prazo, na invasão de seus tímpanos por uma estranha melodia – “biiiiiiiiin” – e, permanentemente, em uma tetraplegia. Ele também conta como foi o processo de recuperação, intercalando a narrativa com digressões, flashbacks e flashforwards sobre suas experiências, traçando um retrato da geração dos universitários de classe média da qual fazia parte, e também expurgando alguns fantasmas, como o do sequestro e assassinato de seu pai.
Hoje, trinta anos, diversos livros, peças de teatro e filmes depois, ele se encontra em seu apartamento no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, recebendo a reportagem da CULT. É a típica residência do escritor “meio intelectual, meio de esquerda”: paredes (azuis) forradas por centenas de livros, alguns quadros e um diploma de bacharel em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo, discos do Chico Buarque, móveis em madeira rústica, um sofá branco meio puído, um lustre no estilo luminária chinesa, dois gatos e um computador com o Twitter aberto no navegador. O lançamento de As verdades que ela não diz, coletânea de contos e crônicas sobre o universo feminino, assunto predileto do escritor, e a divulgação, feita pela Comissão Nacional da Verdade, de documentos que, discordantes da versão dada pelos militares à época, atestam a morte do pai de Marcelo nas dependências do DOI-CODI do Rio de Janeiro, em 1971, motivaram o encontro. Mas não é nenhum dos dois assuntos o que pauta a conversa inicialmente, quando ele descobre que o repórter havia lido, recentemente, seu primeiro livro.
– Você achou muito datado? Achou sexista?
– Ah, é datado no sentido de ser um retrato de uma certa geração. Mas há aspectos que continuam atuais. Eu não achei sexista… até achei estranho você se autocriticar diversas vezes pelo seu suposto machismo. Você se acha machista?
– Eu não me acho machista, não. Mas a época em que escrevi era mais sexista. Hoje, acho que muitas vezes a gentileza é confundida com o ato de você subjugar uma mulher. E eu fui educado assim, com essas regras de etiqueta que devem ter sido criadas na Era Vitoriana, como abrir a porta do carro, pagar a conta e caminhar do lado da rua quando acompanhado de uma mulher.
Marcelo é do tipo de pessoa que observa atentamente seu interlocutor; seus olhos não vagueiam pelo recinto enquanto o outro fala, nem demonstram impaciência. O bigode e o cabelo, ainda vastos mas já grisalhos, as rugas e os quilos acumulados ao longo das últimas três décadas já o distanciam do garoto magricela retratado em seu primeiro romance, e, ao mesmo tempo, o aproximam da figura rechonchuda do pai. Aos 53 anos, ele já tem a idade que considera ideal para a criação literária.
É que, apesar de sempre ter sido um ávido leitor, tendo já devorado toda a obra de Dostoiévski, Kafka e Sartre aos 20 anos, ele afirma nunca ter imaginado que seria escritor. “Na minha época, uma pessoa de 20 anos não tinha nem o direito de pensar em ser escritor; as pessoas começavam a escrever com 40, 50 anos – aliás, elas deveriam. Não existia uma literatura feita por jovens”, afirma ele. “Entrei nessa por causa do Caio Graco [editor da Brasiliense naquela altura], que teve a ideia da coleção Cantadas Literárias. Ele buscava a inovação da literatura brasileira, trazendo pessoas de diversos universos para uma mesma coleção focada numa literatura mais coloquial”.
Talvez ele tenha criado precedentes para outros.
A escritora gaúcha Luisa Geisler – que, aos 21 anos, tem dois livros publicados (e premiados) e foi incluída na antologia “Os melhores jovens escritores brasileiros”, da revista Granta – acredita que os livros de Marcelo foram importantes para sua formação cultural. “Li Feliz Ano Velho quando ainda estava na escola, porque minha professora era grande fã dele. Mais tarde, li Malu de bicicleta. Acho que a maneira que ele interpreta a mulher é muito íntima, muito sincera e bem-humorada. Me agrada bastante”.
Para Antonio Prata, 35, tido por Marcelo como o “melhor cronista brasileiro, disparado”, a leitura de Feliz Ano Velho foi inspiradora. “Li num ônibus, indo do Rio para São Paulo. Eu tinha uns onze anos, acho, e foi uma revelação: então pode ter All Star na literatura? E referências pop, baseados, gírias?”.
Já para o autor de Diário da queda, Michel Laub, 40, que leu o romance aos 18 anos, a experiência foi mais catártica. “Li Feliz Ano Velho na cama, me recuperando de um acidente de carro em que quebrei uma vértebra. Por isso, mas não só por isso (gostei bastante do livro), foi uma experiência inesquecível”, escreveu por e-mail.
Marcelo no lançamento de Feliz Ano Velho, em 1982
Cabeceira de escritor
Ele conta que o que o levou a escrever Feliz Ano Velho foi, além da vontade de dividir sua dor com as pessoas, mostrar que a cadeira de rodas não era sua única história, não o definia. “Eu queria discutir isso. Que, apesar de estar numa cadeira de rodas, eu tinha desejos, amigos, fumava maconha, transava, ia a shows de rock, ao Pacaembu”, conta. “Então, quando eu vejo um filme ou leio um livro, eu me pergunto o que a pessoa quer mostrar com aquilo. O E aí, comeu?, por exemplo, tinha um motivo. Queria falar sobre o universo masculino e sobre como os homens se relacionam entre si e com as mulheres. Muita gente acabou achando o filme machista, mas não era sobre o machismo”, comenta sobre o longa que, no ano passado, levou 2,5 milhões de brasileiros às salas de cinema e é baseado na peça homônima que lhe rendeu o Prêmio Shell de teatro em 1999.
– E como surgiu a ideia de reunir as crônicas e contos de As verdades que ela não diz?
– A Isa Pessoa, minha editora, sempre me disse que tenho um jeito peculiar de escrever sobre as mulheres. E que as mulheres gostam de me ler e gostam de ler quando os homens falam delas. Aí surgiu o projeto do livro, que reúne um material que eu fui escrevendo e acumulando ao longo de 8 anos. Depois, rolou uma edição, reescrevi muita coisa.
Há doze anos, Isa Pessoa trabalha como editora de Marcelo. Nos primeiros 11, pela Objetiva, que ela deixou no ano passado com a criação da Editora Foz, pela qual publicou o último livro do escritor. “O Marcelo é um escritor que se aprimora a cada livro, aquela figura que faz, que estuda. Com ele dá pra dialogar, sugerir ideias, propor soluções… ele é bem aberto”, conta. “A ideia do livro surgiu porque, além das crônicas que já tinham repercutido bastante no blog dele no Estadão, o Marcelo, tendo crescido ao lado de quatro irmãs, mãe e avó, sendo casado e conselheiro sentimental de outras tantas mulheres, é bem conhecedor da alma feminina, que está sempre retratada nos livros dele”.
Nos últimos tempos, os escritores norte-americanos Jeffrey Eugenides, David Foster Wallace e Jonathan Franzen têm revezado espaço na cabeceira do autor. O último, em particular, chama sua atenção. “O Franzen fala que é preciso se comunicar com o público, facilitar a leitura, ser lido. Eu sempre quis ser lido, o único livro que eu fiz experimental foi o Ua:Brari, que, por consequência, foi um dos meus romances que menos repercutiu”, declara ele, que afirma não possuir preconceitos contra a cultura de massa. “Eu adoro Resident Evil, filme de zumbi; eu gosto mais de filme de zumbi do que muito filme de arte. Já vi muita gente falando bobagem, que o pior filme brasileiro é melhor que o melhor norte-americano. Não acho. Discordo totalmente. A crítica, agora, parece que ergueu um altar para O som ao redor, aquele filme do… esqueci o nome dele”.
– Kleber Mendonça Filho?
– Isso! Não aguento mais ouvir falar do Kleber Mendonça Filho. Tô até com aquela resenha que saiu na Carta Capital, no dossiê sobre “O vazio da cultura”.
– E o que você achou da revista?
– Discordo totalmente que há um vazio da cultura. Acho que o Mino Carta não vai ao cinema, ao teatro, não compra disco, não baixa música. É um absurdo afirmar isso! O Kleber Mendonça Filho é um grande cineasta, mas a boa cultura brasileira não se resume apenas a um cineasta e a um filme. Acho que as pessoas estão por fora, elas não estão vendo o que está sendo feito. Não estão lendo o que está sendo escrito, não estão indo ao teatro. É muito fácil meter o pau, muito difícil criticar, mais difícil ainda elogiar.
Ora muito elogiado, ora muito criticado, Marcelo diz sustentar uma relação bastante dúbia com a crítica. “As poucas críticas equilibradas que eu recebi e com as quais eu aprendi foram de escritores. Por exemplo, a resenha do Ivan Ângelo sobre Não és tu, Brasil, e a do Paulo Leminski sobre Blecaute”. Ao seu ver, o grande problema é o elitismo de uma classe cultural que se acha distante das grandes massas. “A desigualdade social brasileira também se reflete numa desigualdade cultural, onde se renega tudo o que é popular”, critica. “O Plínio Marcos, por exemplo, que morreu praticamente na miséria, sempre foi tratado como um autor secundário. Ele mesmo falava: ‘sempre me trataram como um semianalfabeto e eu acho que sou um semianalfabeto’”.
Professora da Universidade de Brasília (UnB) e autora do ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, Regina Dalcastagnè acha curioso nunca ter recebido um único artigo sobre a obra do escritor. “Sempre me pergunto o que faz a crítica reverenciar alguns nomes e esquecer de outros, no caso de Marcelo Rubens Paiva talvez exista essa marca equivocada de ‘escritor para jovens’, que sempre gera preconceito no meio acadêmico”, filosofa. “Também nunca trabalhei com ele, embora o Feliz Ano Velho tenha sido um livro importantíssimo na minha adolescência. Acho que não gostei de Blecaute, e daí o abandonei. Boa hora para voltar a lê-lo”.
– Bom… Era só isso? Eu tenho fisioterapia agora, às 17 horas.
Então, foi preciso marcar mais um encontro. Faltava falar sobre a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ficou para dali a dois dias.
A família Paiva em 1964
Dois dias depois
Desapareceram com o pai do Marcelo há 42 anos. Em Feliz Ano Velho, ele narra a invasão de sua casa e a consequente prisão do pai. Diversos artigos de seu blog foram dedicados ao caso ou a assuntos relacionados. Segundo o dramaturgo Mário Bortolotto, amigo de Marcelo, o escritor lida com o assunto de maneira tranquila. “Ele quer descobrir quem foi realmente, mas não tem um lance de revolta. Nunca vi ele nervoso com isso. Não é uma coisa que fica amargurando ele, não. Ele amava muito o pai, isso fica nítido pelas conversas que já tive com ele”, conta.
Os documentos que atestavam a estada de Rubens Paiva no DOI-CODI não representaram grande novidade para o escritor. Ao seu ver, foi mais do mesmo. “Tudo o que foi divulgado, eu já sabia. Inclusive, o documento que foi divulgado já tinha sido publicado no livro Segredo de Estado, do Jason Tércio. Dois ou três documentos que saíram sobre a estadia do meu pai no DOI-CODI também foram entregues, não descobertos pela CNV. Então, na verdade, a CNV não descobriu nada! Eles divulgaram o que já sabíamos em um momento oportuno, em que estava havendo uma troca de coordenador geral. E o que saiu queria mostrar serviço e divulgou esses documentos”, afirma.
O que a família Paiva deseja é que a CNV assuma uma postura mais ativa e passe a chamar pessoas para depor. “No livro Segredo de Estado estão os nomes de todos que trabalharam no DOI-CODI em 1971. Existiam várias equipes: equipe de busca e apreensão, que era o pessoal que prendia; existia a equipe de inteligência, entre aspas; e existia na equipe do depoimento, da tortura”, relata, com aparente irritação. “A gente não sabe quem que deu soco, quem deu choque elétrico, quem cortou a garganta, quem cortou os braços… não se sabe isso. Talvez a CNV descubra se chamar essas pessoas para depor”.
Enquanto aguarda desdobramentos, Marcelo continua cobrando posições mais demarcadas da CNV. Ele também conta que acaba de entregar o roteiro do longa Vale Tudo, sobre o lutador de UFC José Aldo, que ele escreveu em parceria com Afonso Poyard, e que começa a ser filmado em dezembro; e se prepara para as filmagens de No retrovisor, longa baseado na peça de teatro homônima, que roterizou com Mauro Mendonça Filho, que será produzido pela Cazé Filmes, responsável por E aí, comeu?. Mas, por hora, ele só precisa enviar sua coluna semanal para o jornal O Estado de S Paulo.