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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Maré: vida sob a ocupação

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Maré: vida sob a ocupação

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29 de março. O Exército entra no Complexo da Maré.
Mídias livres, teatro popular, associações, protestos. Como resiste a maior favela carioca ao crime organizado e a cinco meses de violências do Bope e Exército
Reportagem especial de Lia Imanishi, do Retrato do Brasil, parceiro de Outras Palavras
O complexo da Maré é um conjunto de 16 comunidades de moradores formado por ruelas, becos e construções apinhadas com acabamento e infraestrutura precários que foram sendo erguidas em meio a pequenas ilhas e manguezais à margem da baía de Guanabara, na capital do Rio de Janeiro, a partir dos anos 1940. Famílias desalojadas por obras urbanísticas e viárias no centro da cidade passaram a construir ali casas sobre palafitas e viviam, sobretudo, da pesca, ao sabor das marés. A região foi sendo paulatinamente aterrada, com rejeitos de obras da população vizinha e entulho transportado por caminhões do serviço público. Hoje, a Maré abriga cerca de 130 mil pessoas e é considerada o maior complexo de favelas do Rio. É também uma das áreas mais pobres da cidade. Em 2010, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região foi o 123º colocado, entre as 126 áreas administrativas do Rio.
A Maré é próxima das três principais vias expressas do Rio: avenida Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha, rotas obrigatórias para o aeroporto internacional Tom Jobim, para São Paulo e as zonas norte, oeste e sul da cidade. Como estão sempre congestionadas, os moradores da Maré têm um sério problema de mobilidade, além de respirar o ar mais poluído da capital.
Em meados de fevereiro, policiais militares e unidades da chamada Polícia Pacificadora do estado começaram a ser atacados com granadas e outros armamentos. As forças de segurança consideraram que o ataque fora comandado por bandidos da facção Comando Vermelho, ligada ao tráfico de drogas e baseada, entre outros locais, em duas comunidades da Maré. Em nome da segurança no período da Copa do Mundo, o então governador Sérgio Cabral pediu formalmente – e a presidente Dilma Rousseff autorizou – a ocupação da Maré pelas Forças Armadas até o final de julho, após o término da Copa quando, supostamente, já estarão implantadas Unidades de Polícia Pacificadora na região.
Numa atividade preparatória da ocupação militar, na madrugada de 21 de março, 120 homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da PM invadiram Nova Holanda e Parque União, as duas comunidades da Maré citadas, em busca dos traficantes e suas armas. Os policiais apreenderam sete quilos de maconha, três de cocaína, um fuzil, dois carregadores e uma granada.
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Militares na Baixa do Sapateiro. Foto: Naldinho Lourenço
A ocupação ocorreu sem incidentes. Dias depois, segundo o jornal comunitário Maré de Notícias, cinco jovens de 19 a 22 anos foram detidos por policiais, espancados e torturados psicologicamente. “Pensei que ia morrer”, disse um deles ao jornal. Ele relatou que os agressores eram dois policiais que chegaram ao local onde eles estavam – um cômodo mais banheiro – atirando para o alto. Os cinco foram agredidos. Os policiais queriam encontrar drogas ou armas, mas não acharam nem uma coisa, nem outra. Então, prenderam todos no banheiro e disseram que iriam explodir o local. Por fim, depois de uma hora e meia de ameaças, os cinco foram deixados trancados, com a ordem de não sair, sob pena de morte. Um deles conseguiu enviar uma mensagem de celular para a mulher. Ela os localizou e tentou entrar na casa. Os policiais a interceptaram e a mandaram embora. Por volta das 19 horas, ela voltou; os PMs tinham partido e ela conseguiu resgatar o marido e seus amigos. Segundo vizinhos, os PMs não saíram pela porta da frente. Provavelmente pularam para outra residência, saltando de laje em laje.
Maré de Noticias é mensal, produzido, impresso e distribuído na Maré por uma equipe formada por seis jornalistas e estagiários e um designer gráfico, nascidos na Maré ou em bairros periféricos. O jornal é feito em parceria com o Observatório de Favelas e tem sede no mesmo local da Redes de Desenvolvimento da Maré, uma organização não governamental. Vários moradores têm procurado o jornal para relatar violências durante a ocupação militar, a maior parte envolvendo a invasão de domicílios sem mandado judicial.
Os cinco rapazes agredidos em 26 de março passam bem, diz o Maré de Notícias. O mesmo não se pode dizer de Alexandre, um rapaz de 18 anos, ainda sem sobrenome divulgado, que teria sido morto pelo Bope na manhã do dia seguinte, uma quinta-feira. Segundo o Maré, entre oito e nove horas da manhã, quatro policiais do Bope abordaram dois rapazes que estavam numa praça na rua João Araújo, no Parque Rubens Vaz, outra das comunidades da Maré. Um dos rapazes teria sido dispensado. O outro, Alexandre, foi levado pelos policiais até sua própria casa, localizada na mesma rua, onde vasculharam seu quarto. Em seguida, ele foi conduzido a um beco próximo. Logo depois, segundo moradores contaram ao Maré, foram ouvidos quatro tiros. A seguir, os PMs bloquearam o acesso ao local. Algum tempo mais tarde, outros policiais chegaram num carro da Polícia Civil. Ficaram na casa de Alexandre até as 13h30 e de lá saíram com um saco preto, onde os vizinhos acreditam que estava o corpo do rapaz. Ainda segundo o Maré, quando o Bope saiu, boa parte dos vestígios do crime já havia sido removida. A assessoria de comunicação da Polícia Militar informou que o rapaz foi socorrido no Hospital Geral de Bonsucesso e que foi feita perícia no local onde ele teria sido assassinado. A PM informou ainda que a 21ª Delegacia de Polícia está investigando o caso e que o jovem tinha uma arma calibre 40.
No mesmo dia da morte de Alexandre, dirigentes de associações de moradores da Maré e representantes de ONGs atuantes no bairro procuraram o comando da PM para reclamar. O tenente-coronel Rodrigo Sanglard, do Comando de Operações Especiais, incentivou os moradores a denunciarem a morte de Alexandre e outros supostos abusos. “Só se entra [em uma casa] com mandado ou com autorização do morador”, afirmou Sanglard. “Se não, é abuso de autoridade.”
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Bope já atua na região desde 21 de março
Na madrugada do domingo seguinte, 30 de março, 1.180 homens das polícias Civil e Militar e mais 250 fuzileiros navais, com 21 blindados da Marinha do Brasil e quatro helicópteros – um dos quais apelidado de Caveirão do Ar, também blindado – ocuparam a Maré para dar suporte à instalação da 39ª UPP do estado. Foi uma operação rápida, sem troca de tiros. No sábado seguinte, 5 de abril, um novo grupo, composto por 2.050 militares da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército, aportou na Maré para substituir os policiais civis, e mais 200 fuzileiros navais se juntaram aos 250 ali instalados. Os militares disseram ter poder de polícia, podendo fazer prisões. Segundo eles, seria feito um mapeamento da área e as buscas se concentrariam nas proximidades das casas usadas por traficantes.
Na madrugada de 5 de abril, quando os militares chegaram, havia ainda muita gente nas ruas e ouvia-se música alta. Os militares mudaram esse clima. Começaram a revistar pessoas e a pedir documentos dos ocupantes dos carros que passavam. Por volta das seis horas da manhã, blindados das Forças Armadas se posicionaram nas saídas do complexo. Quando o dia clareou, Gustavo Augusto, de 18 anos, foi, segundo a PM, encontrado morto num dos acessos ao conjunto de favelas. Mais tarde, passado o meio-dia, Vinícius Guimarães, de 15 anos, morreu baleado em meio a uma batalha de pedras travada entre cerca de 60 jovens das comunidades de Nova Holanda e Baixa do Sapateiro.
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Forças Armadas assumem ocupação, com 2,7 mil homens, supostamente até dia 31 de julho
A ocupação da Maré apresenta dificuldades para o Exército. Fernando Montenegro, coronel da reserva que filmou a missão de ocupação no complexo do Alemão, disse ao diário Folha de S.Paulo que lá as tropas foram instaladas nos teleféricos, caixas d’água e casas de traficantes abandonadas que ficavam no alto dos morros. “Tínhamos uma visão do terreno de cima, o que nos dava uma vantagem. Na Maré, a área é plana. Se estiverem andando apenas em becos e sem ocupar as lajes, as tropas vão ficar à mercê de ataques.” Para Montenegro, a tropa de paraquedistas é das melhores do Exército, mas a tarefa é difícil.
Balanço feito pela Secretaria de Segurança (Seseg) do estado referente aos 15 dias das operações que antecederam a ocupação militar do início de abril constatou que a PM já havia matado 16 pessoas e ferido oito no complexo da Maré, supostamente em 36 confrontos com suspeitos. Foram apreendidas 101 armas, 2.252 munições e uma quantidade não divulgada de drogas ilícitas.
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Polícia Federal, Militar, Civil e da Marinha participam da ocupação do Complexo da Maré
Alexandre Fontenelle, coronel da PM lotado no Comando de Operações Especiais, disse em entrevista coletiva que ocorreu só um confronto direto com morte, o do Parque Vaz, episódio em que, possivelmente, se deu a morte de Alexandre. “O restante foi em conflitos pontuais”, para os quais Fontenelle deu uma explicação simples: “As ocorrências registradas fazem parte do processo pré-pacificação”.
Em 6 de maio, Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública, participou do evento “Diálogos necessários – Seminário sobre segurança pública nas favelas”, realizado na Maré. Presentes estavam também Juliana Barroso, representante da Seseg, Alexandre Ciconello, da Anistia Internacional Brasil, e Jailson Silva, do Observatório de Favelas. Durante o encontro, moradores relataram casos de violações de direitos e de abuso por parte das forças policiais.
Juliana disse estar comprometida com a implantação de uma UPP com mais participação dos moradores. Admitiu, no entanto, que o processo tem falhas e é necessário fortalecer as disciplinas de direitos humanos na formação de policiais.
Já Soares foi enfático ao criticar a ocupação militar na Maré. Segundo ele, a ação não se sustenta: “O Estado foi incapaz de resolver os problemas de segurança e teve que recorrer a um expediente externo absolutamente artificial e provisório”.
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Soldado das Forças Armadas, que ocupam favelas do Complexo da Maré
Em maio, policiais e militares continuaram a promover operações em diferentes pontos da Maré. Várias dessas operações provocaram o fechamento de quatro escolas municipais. Numa delas, a 16 de abril, por volta do meio-dia, o Caveirão do Ar sobrevoou a área ocupada por um grupo de alunos que saíam da Escola Municipal Nova Holanda. Foram ouvidos tiros que, pelas marcas deixadas no chão de uma das ruas, parecem ter sido disparados do helicóptero.
A Maré já viveu histórias trágicas envolvendo estudantes: em maio de 2011, um aluno foi morto dentro do CIEP Gustavo Capanema; em agosto do ano passado, um homem foi morto dentro do CIEP Samora Machel. As salas da administração do CIEP Samora estão cheias de marcas de balas e o clima entre os profissionais é de insegurança. OMaré de Notícias ouviu alguns deles: “Geograficamente, ficamos entre dois grupos rivais. Além do confronto do lado de fora, muitas vezes grupos armados pulam o muro da escola, que virou rota para fugir da polícia. Hoje, o muro não é obstáculo, cadeados são arrombados, não há respeito com a área escolar, relata um. “O inexplicável é que o posto de saúde Samora Machel, que funciona no mesmo prédio do colégio, está fechado [desde 8 de abril]. Ou seja, para a secretaria municipal de Saúde os funcionários não têm condição de trabalho. Isso é uma incoerência”, critica outro.
Há quem diga que oito professores e 20 alunos já pediram transferência este ano: “As crianças já estão traumatizadas. Quando há tiros, se jogam no chão. Todos os dias aqui é uma tensão. O funcionário da secretaria municipal de Educação vem aplicar prova e não deseja voltar. Nós estamos aqui todos os dias. Detalhamos o problema em nossas atas, mas não há respostas”.
BOPE OCUPA O COMPLEXO DA MARÉ
Bope ocupa o Complexo da Maré
As incursões policiais também afetaram o funcionamento de creches, postos de saúde e do comércio da Maré. Alguns moradores evitam sair à noite.“Na sexta-feira, eu gostava de tomar uma cervejinha, bater um papo. Agora vou direto pra casa”, relata um deles. “Agora mudou, estou com medo. No sábado, 6 de abril, foi quase uma hora de tiroteio. Estávamos jogando futebol e tivemos de correr para o vestiário.” “Eu estava na rua Teixeira Ribeiro, onde sábado tem feira e fica lotada de pessoas. Os policiais entraram dando tiro para o alto, apontando a arma no horário da feira. Eram umas 10h40”, conta outro morador.
Mensalmente, desde 2010, os presidentes das associações de moradores locais se reúnem no coletivo “A Maré que queremos” para debater políticas públicas que possam gerar mudanças estruturais e melhorar a qualidade de vida nas comunidades. Em 18 de abril, no início de uma dessas reuniões, realizada na Nova Holanda, dez líderes comunitários foram surpreendidos com a notícia de que um blindado da polícia estava dentro do CIEP Operário Vicente Mariano. Foram falar com o tenente-coronel Sanglard para cobrar explicações. Um dos representantes do grupo disse ao policial que a forma como as operações policiais vinham ocorrendo provocava uma inversão de valores: “Em vez de a comunidade se sentir segura com a polícia, ela está com medo”. O blindado tinha ocupado o pátio da escola das 8h30 às 10h30. As aulas já haviam sido suspensas, por outras operações policiais na região. Informado sobre o incidente e o impacto das ações no funcionamento de escolas, creches e postos de saúde, Sanglard se comprometeu a levar o problema até o comando da PM.
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Membros da comunidade se organizam em assembleia
“A população não pode ver o Exército como inimigo”, afirmou, durante palestra promovida pelo Ministério Público Militar, Ronaldo Lundgreen, general de brigada e um dos oficiais à frente da ocupação da Maré. Segundo ele, os militares foram treinados num curso com base no relatório de 600 páginas da Operação Arcanjo, a intervenção de 19 meses do Exército no complexo do Alemão. Os soldados teriam aprendido a patrulhar ruas, a deparar com cidadãos comuns indo e vindo para a escola e o trabalho. “O soldado não tem um inimigo à sua frente. Ele tem um cidadão, uma criança. Às vezes, ele tem o bandido. É nesse momento que devemos ter mais cuidado.” Ronaldo conclui: “Não podemos nos esquecer de que o nosso Exército tem militares que moram no Alemão e na Maré. Isso faz com que a gente se sinta parte da comunidade”.
As Forças Armadas têm, de fato, entre seus quadros, habitantes de favelas. Exemplo notável, embora mau, é o de Marcelo Santos das Dores, o Menor P, um dos chefões do tráfico na Maré, ligado ao Terceiro Comando Puro. Preso em março, Menor P foi da Brigada de Infantaria Paraquedista, a unidade de elite do Exército que ocupou a Maré. Ele dava treinamento militar a seus homens e também tinha o hábito de torturar desafetos. Menor P é investigado pela morte do guarda municipal William Oliveira, cujo corpo teria sido queimado e está desaparecido. Oliveira seria informante da inteligência do Exército, monitorava os bandidos e fazia vídeos. A Polícia Federal (PF) também diz que o armeiro da quadrilha de Menor P é um ex-fuzileiro naval, outra das forças de elite que ocupam o complexo. Quatro dias depois da prisão de Menor P, oito integrantes de seu bando foram presos, entre eles um policial militar, um ex-agente penitenciário e um instrutor de tiros. A investigação que levou à prisão dos bandidos durou um ano. Segundo a PF, Menor P chegava a gastar até 500 mil reais por mês com propina a policiais corruptos. Em nota, após a prisão de parte da quadrilha do traficante, estimada em 200 homens, a Seseg afirmou que “a corrupção policial não é tolerada e o combate a esse crime já resultou na expulsão de 1.640 policiais militares e civis na atual gestão”.
Tendo de um lado os bandidos, alguns dos quais treinados pelas Forças Armadas, como vimos, e, de outro, o Exército e a polícia, os moradores da Maré vão tentando se organizar. Em duas das comunidades, Parque União e Nova Holanda, eles estão lutando para derrubar um mandado de busca coletivo, que autoriza a invasão de qualquer casa na área, expedido pela Justiça e apoiado em inquérito de delegacia de combate às drogas. Eliana Souza, diretora da Redes de Desenvolvimento da Maré, trabalha desde 2012 com os moradores do complexo, esclarecendo seus direitos e deveres. Naquele ano, em ação conjunta com o Observatório de Favelas e a Anistia Internacional, foi lançada a campanha “Somos da Maré, temos direitos”.
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Foram distribuídos cerca de 50 mil folhetos com orientações sobre como agir em caso de abordagem policial. Também foram distribuídos adesivos para colar na porta das casas, com os dizeres: “Conhecemos nossos direitos! Não entre nesta casa sem respeitar a legalidade da ação”. Atualmente, três equipes da Redes estão batendo de porta em porta para renovar a entrega desse material. Jornalistas e fotógrafos profissionais vinculados às instituições parceiras da Redes também circulam no complexo, para documentar as operações da polícia e do Exército desde o início da ocupação militar.
“Não assistiremos de forma passiva à ação das forças de segurança”, diz Eliana. “Elas devem representar a chegada efetiva de uma perspectiva de presença republicana do Estado, e não funcionar como um ‘exército de ocupação’.”
Parada Gay da Maré
Conexão G, primeira parada LGBT organizada dentro de uma favela, é um dos exemplos da organização civil dentro do Complexo
Silvia Noronha, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), considera que as UPPs não se baseiam em princípios democráticos nem promovem a autonomia da população das áreas populares. “A democracia envolve a possibilidade de os cidadãos participarem da decisão das políticas públicas. Nas UPPs, há uma série de fóruns para os quais a população é convocada, mas para que os moradores sejam notificados sobre remoções e outras decisões que já foram tomadas.”

terça-feira, 10 de junho de 2014

Em três anos, violações relacionadas à Copa e Olimpíadas se agravaram no Rio de Janeiro

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http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81014


Em três anos, violações relacionadas à Copa e Olimpíadas se agravaram no Rio de Janeiro

Natasha Pitts
Adital

O Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro lançou mais uma versão do dossiê "Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos”, em que denuncia os transtornos que o Mundial de Futebol vem acarretando para a cidade do Rio de Janeiro. Trazendo atualizações e informações novas, o relatório revela um panorama amplo, envolvendo questões de moradia, mobilidade, trabalho, esporte, meio ambiente, segurança pública, informação, participação popular e economia.
Durante seus três anos de atuação o Comitê Popular do Rio pode constatar que as violações relacionadas às intervenções para receber os megaeventos esportivos apenas se agravaram. A poucos dias da Copa do Mundo, a constatação óbvia é de que o legado deixado é apenas uma cidade mais cara, com menos espaço para a população pobre e trabalhadora e mais restrições ao exercício pleno da cidadania.
"Os novos marcos legais e institucionais impostos pelos megaeventos esportivos violam abertamente os princípios da impessoalidade, universalidade e publicidade da lei e dos atos da administração pública. A população na rua, em protestos legítimos por direitos, sentiu na pele o aumento da repressão policial, e novas formas de criminalização dos movimentos sociais. Grupos culturais, vendedores de rua, torcedores, se viram diante dos efeitos perversos da Lei Geral da Copa e das regras da Fifa para os lugares associados aos jogos e seu entorno”, denunciam.
No capítulo sobre Moradia, o Comitê destaca a aceleração da "limpeza social” de áreas valorizadas da cidade. Até o momento, calcula-se que 4.772 famílias foram removidas no Rio de Janeiro, totalizando 16.700 pessoas. Outras 4.916 famílias estão sob ameaça de remoção. Vale destacar que os dados são subestimados e a contagem feita pelo Comitê e sua rede de contatos, pois não existem dados oficiais.
As famílias foram removidas por diversos motivos, como ampliação do aeroporto, obras de instalação ou reformas de equipamentos esportivos, obras viárias; algumas famílias foram removidas por estarem em área de interesse turístico e outras por estarem instaladas em áreas ditas de risco e interesse ambiental.
Desde 2011, devido à visibilidade dada à luta popular, algumas conquistas aconteceram e comunidades conseguiram negociar melhores indenizações ou a remoção para casas e apartamentos mais próximos ao local onde moravam.
A situação do trabalho formal e informal gerado pelas obras também é abordada no dossiê, com base no fato de que a geração de empregos é uma das principais justificativas utilizadas pelo governo para mobilizar grandes investimentos para os megaeventos esportivos. A precarização do trabalho promovida pelos consórcios e reforçada pela omissão dos órgãos fiscalizadores foi constatada em várias obras, sobretudo nas relacionadas a transporte, reforma de estádios e arenas esportivas. A contrapartida dos trabalhadores foi a organização de greves na busca por mais segurança, melhores salários e benefícios, como participação nos lucros, aumento no valor da cesta básica e plano de saúde para si e suas famílias.
Nas ruas, o trabalhador informal também viu sua fonte de renda ser retirada. Desde o início de 2009, a gestão do prefeito Eduardo Paes vem implementando uma política de repressão contra camelôs e trabalhadores informais com a operação "Choque de Ordem”, que busca realizar a limpeza urbana do Centro e outras regiões. Em junho de 2009, foi realizado um cadastramento e recadastramento para vendedores informais. O problema denunciado pelas lideranças de rua é que as vagas abertas estavam extremamente aquém da demanda. Eles estimam 60 mil trabalhadores, enquanto a Prefeitura recadastrou 4 mil e abriu 14.400 vagas de vendas.
No capítulo sobre esporte, o Comitê aponta os gastos exorbitantes, que excedem de longe o que foi gasto em outros países. Com relação às Olimpíadas, o orçamento previsto já excedeu em 1,4 bilhão o orçamento original. No Caso da Copa, com exceção de Fortaleza, Estado do Ceará, todos os estádios apresentaram aumentos "astronômicos" em seus orçamentos. O Brasil tem, hoje, sete dos estádios mais caros do mundo. No total, serão gastos mais que R$ 8 bilhões para os estádios da Copa de 2014. O capítulo também faz críticas à elitização dos estádios com o encarecimento dos ingressos e desrespeito aos patrimônios históricos da cidade.
Ao final do documento, o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro expõe nove propostas voltadas para o reforço a direitos que vêm sendo violados pelo Estado e pelos promotores privados dos megaeventos, em associação com os agentes públicos. Veja as propostas e o dossiê completo em:
https://comitepopulario.files.wordpress.com/2014/06/dossiecomiterio2014_web.pdf

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Brasil se revolta a cada imagem

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O Brasil se revolta a cada imagem

A última foto brutal, que remonta à época da escravidão, mostra um rapaz negro, pelado, espancado e esfaqueado na orelha, amarrado a um poste pelo pescoço com uma trava de bicicleta.  
A reportagem é de María Martín e Francho Barón e publicado pela edição brasileira do El País, 06-02-2014. Foto: Yvonne de Mello (Facebook)
O Brasil se contorce por imagens, cada vez mais fortes. Elas parecem gravar-se a fogo nas pupilas dos receptores, criam debate e, em seguida, são esquecidas diante da brutalidade da próxima foto. Assim aconteceu com aquela imagem do policial ferido por uma pedra durante as manifestações de junho, com o rosto roxo de uma jornalista ferida por uma bala de borracha, com as decapitações no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, ou com as cacetadas dos policiais nos negros da periferia que curtiam um rolê em um shopping de São Paulo.
A última imagem poderosa, que rememora também uma outra época, a da escravidão que durou até 1888 no Brasil, mostra um adolescente negro, pelado, espancado e esfaqueado na orelha, amarrado a um poste pelo pescoço com uma trava de bicicleta. O rapaz, sem nome conhecido e com três passagens por roubo segundo a polícia, foi amarrado à vista de todos por um suposto grupo de justiceiros na Zona Sul do Rio. Foi apenas uma mulher, Yvonne Bezerra de Melo, de 66 anos, quem ligou  para os bombeiros para libertá-lo. Yvonne, embora defendida por muitos, foi insultada por meio das redes sociais por ter libertado um bandido.
Em todas essas imagens o debate acaba sendo o mesmo. De um lado se clama para que essa –ou aquela- foto não se repita nunca, porque lembra a escravidão, a ditadura, e que não tem lugar em uma democracia. Do outro ainda se ouve o velho discurso de “bandido bom, é bandido morto”.
Os roubos aumentaram 60% no bairro (Charge do Sisejufe - Sindicato dos Servidores do Judiciário Federal)
Diante da recente recuperação dos índices de criminalidade e de uma sensação generalizada de crescente insegurança, o Rio de Janeiro acaba de ressuscitar o velho fantasma dos grupos de civis justiceiros que aplicam a lei e a ordem à vontade.
Em resposta à avalanche de críticas, a Polícia Militar do Rio abordou na última segunda-feira um grupo de 14 indivíduos, de idades entre 15 e 22 anos, autodenominados “Justiceiros do Flamengo” e vizinhos de vários bairros de classe média, acusados de tentar agredir dois jovens de uma favela próxima. A delegada responsável por ambos os casos, Monique Dias, declarou que podem existir conexões entre as duas agressões e que suas equipes trabalham para identificar os responsáveis.
Conforme alguns depoimentos, este grupo diz ter sua origem no descontentamento da comunidade do Flamengo pelos constantes assaltos em um precioso parque que o separa da Baía de Guanabara. Flamengo é um bairro que serve de ponte entre a nobre zona sul do Rio e o centro da cidade. Antigamente, viveu períodos de esplendor e seus aristocráticos edifícios orientados para o mar albergam amplos apartamentos difíceis de se encontrar em outras zonas do Rio. Deles, é possível contemplar uma imponente vista do Pão de Açúcar e da sinuosa Baía de Guanabara. Hoje, no entanto, suas ruas se tornaram um local pouco recomendável para passear a certas horas da noite.
Há anos que o Parque do Flamengo é palco de ondas de assaltos. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio, os roubos a pedestres registrados nesta área aumentaram mais de 60% em 2013 em comparação com o mesmo período do ano anterior (de janeiro a outubro).
A apresentadora do SBT Rachel Sheherazade apoiou em horário de máxima audiência o que para essa gangue seria uma tentativa de impor a ordem no bairro. Sheherazade disse que a atitude é “até compreensível” por conta da onda de violência que vivemos no Brasil e que, frente à omissão do Estado, resta ao “cidadão de bem” se defender. Seu discurso foi elogiado nas redes sociais junto a mensagens de amor incondicional, enquanto outros a criticaram. Esses mesmos grupos de justiceiros teriam também a missão de limpar a região dos gays e dos negros, conforme o relato de um vizinho do Aterro do Flamengo que foi alvo dos ataques da gangue.
"Estas questões sempre existiram, a grande diferença é o processo de comunicação. Esse processo de globalização de informação banalizou o sofrimento e as cenas têm uma conotação quase que virtual... tudo é muito imediato e descartável", afirma a socióloga Elza Pádua, autora da tese Esquizofrenia Social.
"Como a sociedade brasileira esta se comportando a respeito disso? Estamos tão horrorizados quanto com a guerra de judeus contra árabes, quanto a mulher que é estuprada na Índia... O que apenas diferencia esses caos dos nossos é a proximidade. É o sentimento de pânico pela proximidade. Estamos realmente no limite, agora começa um problema muito sério, que é como você lida com uma realidade como esta sem enlouquecer", completa Pádua.
"E a única forma de lidar é sair desse principio individualista que a gente tem, pensar que o que acontece lá fora é nossa responsabilidade também. É urgente que a gente perceba isso e saia dos processos individualistas. Só no olhar do outro como parte de você, só se preocupando com outro como parte de você, vai dar possibilidade de mudar o caos ao que chegamos. Não tem uma outra maneira de produzir uma mudança, senão considerar essa mudança fundamental para si mesmo".
A imagem daquele rapaz de 16 anos foi superada poucos dias depois pelo brutal registro de uma chacina da PM do Rio em uma operação contra o tráfico em uma favela. Seis cadáveres – negros - e rios de sangue. Mas a plateia já parece anestesiada.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Rio de Janeiro: as razões da greve gigante

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http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/rio-de-janeiro-as-razoes-da-greve-gigante/

Rio de Janeiro: as razões da greve gigante

Assembleia de professores em agosto de 2013. Foto: SEPE RJ.
Assembleia de professores em agosto de 2013. Foto: SEPE RJ.
Professora explica: mobilização combate projeto de ensino vulgar, que despreza conteúdos humanísticos, humilha educadores e os reduz a formadores de mão-de-obra pouco qualificada 
Por Larissa Costard*, no Blogueiras Feministas
Tenho pouco mais de cinco anos atuando como professora no município do Rio de Janeiro. Nesse tempo já vi de tudo. Já vi assédio moral, já vi diretor participando de paralisação, já vi aprovação automática na famigerada gestão César Maia (quando entrei, peguei seu último ano explícito, agora ela existe veladamente), mas nunca vi o que rolou esse ano. Cheguei à rede municipal do Rio com uma categoria destroçada, participei de assembleias bastante esvaziadas. A primeira coisa, então, é que mal sabem os de fora o orgulho que os professores sentem de estar em assembleias e passeatas que chegaram a congregar 20 mil (números da PM) nas ruas, principalmente profissionais da educação, em defesa de uma educação pública de qualidade.
Sem dúvida a mobilização de profissionais da educação foi estimulada pela Primavera Carioca [1] e pelas jornadas de junho. Muitos voltaram a participar da política a partir daí. A partir daí reconhecemos que a rua é nossa, e eles é que tem que nos engolir, não o contrário. Profissionais passaram a reconhecer que seu sindicato não é uma entidade com personalidade própria e começaram a disputar as políticas com garra, no peito e na raça. E aí começamos também a refletir o estado da nossa rede de educação. Vi a greve nascer numa assembleia com mil decretando o estado de greve, e a vi crescer, ao lado de afetos que carrego desde a graduação.
A meu ver, nossas reivindicações se pautavam em dois eixos principais: a carreira de profissional da educação e o projeto político pedagógico da prefeitura do Rio. De um lado, a reivindicação de valorização profissional numa cidade totalmente elitizada, com o custo de vida explodido, é fundamental. Nos meus poucos anos já vi esse salário sendo erodido pelo projeto de uma cidade-empresa dos megaeventos e minhas tentativas de valorização profissional, através de especialização, foram frustradas. A prefeitura do Rio de Janeiro não valoriza os professores que buscam maior e melhor formação, o que resulta em anos e anos de pós-graduações que não se revertem em melhoria nas condições de trabalho nem em salário.
Ouvi muitas vezes que a reivindicação salarial é uma demanda egoísta do professor. Sobre isso, algumas considerações: ainda que a greve fosse só por salário, me desculpem, mas como qualquer profissional de qualquer área, é meu direito reclamar. Esse juízo de valor resulta de uma visão de professor não-profissional, a “tia da alfabetização” que dava aula por amor, não por dinheiro. Como profissional (quase doutora em História), exijo para mim remuneração condizente com a minha responsabilidade.
A segunda coisa, que vale sempre lembrar, sobre a avaliação que reivindicação salarial é egoísta, é que professor mal remunerado é professor que tem que trabalhar turnos extras. E cada turno extra representa, no caso da minha disciplina, 4 turmas a mais. Cada turma com 44 alunos (realidade da minha escola, há escolas com mais alunos por turma). Faça as contas. Imaginem-me agora em semana de prova… me imaginem passando pesquisa para estas crianças? Como corrigir, como dar a atenção necessária? E não, não acreditem na Thatcher da educação quando ela diz em entrevista no rádio que professor “gosta de dar uma aulinha de noite”. Então, para a galera moralista que diz que professor não pode brigar por salário, fica a dica que não somos missionários e que professor bem remunerado é professor com menos turmas, e por isso, trabalho de mais qualidade para cada uma delas.
Passeata dos professores no Rio. Foto: SEPE RJ.
A segunda questão em torno da qual giravam nossas demandas, expostas pela mídia como “demandas pedagógicas”, diziam respeito ao projeto de educação da prefeitura. Desde o primeiro ano da gestão Paes-Costin começaram a ser implementados os projetos intervencionistas que atacam o cerne do nosso trabalho e nos impedem de dar uma educação humanista e crítica para esses discentes.
O primeiro projeto “entubado”, chamado “Realfa”, visava às crianças que já no fundamental II ainda não sabiam ler e escrever (sim, a aprovação automática deixou um saldo de muitos analfabetos no nono ano de escolaridade). Recebido como uma coisa positiva, esse projeto já iniciava a prática do professor polivalente, ou seja, um especialista de disciplina que daria “todas as matérias”. Na verdade, o ensino de História, Geografia, Ciências ficara totalmente marginalizado, o foco era em realfabetizar e ensinar as operações básicas de matemática.
Depois deste projeto veio o “Acelera”, cujo público alvo eram as crianças de oitavo ano que estavam “fora da faixa etária” (sic) – cabe ressaltar aqui que fora da faixa para a prefeitura era uma defasagem de mais de um ano da idade esperada na série. Ou seja, reprovou uma vez, já era. Entrou na escola tarde demais, já era. Saiu da escola por algum tempo, já era. O tempo de aprendizagem não pode esperar. Nesse projeto os jovens cursariam o oitavo e o nono ano juntos, sendo “despejados” no ensino médio, custe o que custar. A novidade veio no ano passado, o último projeto, voltado para as crianças de sétimo ano. Todos os repetentes seriam enviados para uma classe especial, o projeto chamado “Nenhum Jovem a Menos”, onde cursarão múltiplas séries em um ano, com vistas a não “se atrasarem”.
Todos esses projetos têm inúmeras nuances e questões, mas gosto de ressaltar duas: primeiro, o professor polivalente perde sua capacidade de elaborar e selecionar o material didático que quer usar – os mesmos são fornecidos pela Fundação Ayrton Senna e Fundação Roberto Marinho – e não pode fazer as avaliações de seus alunos, que vem verticalmente elaboradas pela Secretaria de Educação/Fundações; segundo, esses alunos, fora de série alguma, não podem ser reprovados e não fazem as provas oficiais que geram os índices que fazem o ranking da educação nacional. Não é de se estranhar que o Rio tenha saído de 26º para 14º lugar nos primeiros anos da gestão Paes. Nunca vi um projeto de educação dar efeito tão rápido. Na verdade, os alunos considerados “problema” não estão participando destes índices.
Além dos projetos, apostilas elaboradas e bem pagas para serem impressas também vêm chegando há algum tempo nas nossas salas de aula — ainda que excelentes profissionais de área, ligados à pedagogia e à universidade, venham reelaborando os livros didáticos e seja possível encontrar alguns com conteúdo atualizado e inclusive bem amarrados no politicamente correto. Recursos, aliás, para pagar investimento em material é o que não faltam: data show, educopédia (um site que disponibiliza um conjunto de aulas virtuais para os professores apresentarem a seus alunos – e que ainda tem a indecência de serem consideradas “formação continuada”).
Mas não tem recurso para professor. Esse sim, é bicho em extinção no projeto da Secretaria. Não é à toa que os ginásios experimentais, as tais escolas ‘GENTE‘ com tutores, a substituição do espanhol pelo inglês, vem cada vez mais dispensando professores, esse não faz parte do projeto de educação (que aqui não está narrado nem em um terço de seu rosário). Assim, com essa gestão, perdemos o que tínhamos de mais caro no processo pedagógico: a autonomia de atender as necessidades de nossos alunos. Tudo é genérico, vale do aluno do Leblon, aquele que estuda na escola pública que fica dentro do condomínio na Barra, passando pelo da favela de Santa Cruz. Não, não é feito para funcionar.
Eis então, que surge o PCCR (Plano de Cargos, Carreiras e Remunerações) da Prefeitura do Rio de Janeiro, que une as duas frentes da nossa luta. Ataca diretamente a nossa carreira e institucionaliza o projeto de educação a partir da reforma do quadro de professores. Todos os parquíssimos benefícios só valem para os professores que migrarem para 40 horas semanais, sem a remuneração condizente (o salário nem se compara ao pago nos colégios federais), eliminando aqueles que trabalham nos regimes de 16 horas (fundamental II), 22,5 horas (fundamental I) e os 30 horas (modalidade especial do professor de fundamental II).
O plano institucionaliza a separação entre professor e pesquisador, desautorizando-nos a produzir o conhecimento (logo, criando cada vez mais profissionais com dificuldade de criticá-lo) quando afirma que as pós-graduações valorizadas serão somente as da área de educação (não que esta não seja importante, mas o professor precisa ter o direito de escolher a área que deseja pesquisar); institucionaliza o professor polivalente (extinguindo as carreiras de PI e PII – respectivamente professor de 6º ao 9º e os de 1º ao 5º anos), criando o professor de educação básica, que pode atuar em qualquer área. Esses são alguns exemplos de como o PCCR mata, via carreira do professor, não só nosso futuro profissional como a educação crítica e de qualidade.
A greve, então, ganha contornos muito especiais. Diz respeito à defesa de uma educação pública de qualidade, luta contra a morte da escola pública. E nessa batalha de vida ou morte nos encontramos até hoje. Literalmente. Nesses dias de luta e de cansaço, conhecemos e nos fizemos guerreiros. Reinventamos nosso papel social e levantamos a cabeça como profissionais de educação. Não queremos esse projeto, não queremos essa carreira, não queremos esses alunos que nos querem empurrar.
Queremos qualidade na educação, queremos fazer nosso trabalho com dignidade, queremos lutar pelos filhos e filhas da classe trabalhadora, dos quais o direito de educação está sendo tirado com esse plano terrível. Estivemos juntos nesses dias, e acreditem quando eu falo, fazer greve cansa mais do que dar aula. Passar nas escolas, conversar com os colegas que não estão em greve, fazer vigílias em frente à Prefeitura, em frente à Câmara de Vereadores, marchar da Cidade Nova à Cinelândia, do Largo do Machado ao Palácio da Cidade, como cansa… Andar com o adesivo sendo espreitada por policiais e tendo que correr como louca, pular no primeiro ônibus que estiver aberto para não ter o corpo destroçado pela violência… cansa.
Manifestação de professores no Rio de Janeiro. Foto: SEPE RJ.
Manifestação de professores no Rio de Janeiro. Foto: SEPE RJ.
Mas é no outro que nos fortalecemos. Nas mensagens trocadas, na solidariedade do biscoitinho e da água, nos informes, na ocupação. Bravos e bravas guerreiras, não aceitamos mais que a Secretaria dê aula pela gente. Queremos nossos alunos de volta, nossa autonomia, cumprir o papel que estudamos e empenhamos nossa vida para cumprir. Queremos nossos sonhos de volta. O terrorismo do corte de ponto, de corte do auxílio alimentação  (!!!), a violência da polícia não vão nos deter. Nossos alunos estão com a gente, os pais estão com a gente.
Não precisamos dessa mídia nojenta, porque nossa força está na rua, e na lição de solidariedade que os companheiros dão uns aos outros. A cada corrida da polícia os educadores voltarão com mais um. A carnificina da PMERJ não será em vão e não vai nos deter. O estado de exceção que se tornou a regra no Rio de Janeiro não irá nos calar. Temos medo, mas também temos sangue.  E como sempre dizemos: amanhã seremos mais.
“O povo unido é povo forte, não teme a luta, não teme a morte. Avante companheiro que essa luta é minha e sua, unidos venceremos e a greve continua!”
Referências
[1] “Primavera carioca” é uma referência às mobilizações relacionadas à campanha de Marcelo Freixo nas últimas eleições municipais do Rio.
[+] Para entender melhor o quadro da luta dos educadores no município do Rio, “Educação não é mercadoria! A quem serve a lógica da meritocracia nas escolas?”, texto de Juliana Lessa.
[+] Para entender melhor o quadro no âmbito do estado do Rio, Alguns comentários sobre o ‘Plano Estratégico’do estado do Rio para a Educação e as ‘metas’”, texto de Rael Fizson.
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* Larissa Costard é professora universitária e da educação básica. Fala melhor com as mãos do que com a voz, por isso brinca de pintar, festejar e decorar. Acredita que a História se faz mais com beleza e com ação do que com livros, por isso está vendo nas ruas sua sala de aula dos sonhos. Vai dar a volta no mundo, vai, e ver o mundo mudar.