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sábado, 12 de julho de 2014

Família Caiado na ‘lista suja’ do trabalho escravo

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2014/07/tio-de-ruralista-entra-na-lista-suja-do-trabalho-escravo/


Família Caiado na ‘lista suja’ do trabalho escravo

Quatro carvoeiros foram submetidos a condições degradantes e jornadas exaustivas. Caso é o segundo envolvendo família do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO)
Por Stefano Wrobleski | Categoria(s): Notícias
Vestindo chinelos e bermudas sujeitos ao pó e à fumaça resultantes da queima do carvão. Foto: SRTE-GO
Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO
O pecuarista Antônio Ramos Caiado Filho, tio do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO), está entre os 91 incluídos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) na atualização semestral da relação de empregadores flagrados com trabalho escravo, a chamada “lista suja”.  Ele foi considerado responsável por submeter quatro pessoas a condições degradantes e a jornadas exaustivas na produção de carvão em sua fazenda em Nova Crixás, cidade localizada a 400 km de Goiânia e um dos redutos eleitorais da família. Os resgatados afirmaram que foram obrigados a cumprir jornadas de até 19 horas seguidas, “das 2h às 21h”, nas palavras de um dos trabalhadores.
Os carvoeiros trabalhavam no local há cerca de um ano quando equipe de fiscais do MTE, procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT) e agentes da Polícia Rodoviária Federal chegaram ao local, em abril de 2013. Os trabalhadores produziam carvão vegetal em 12 fornos, sem qualquer equipamento de proteção individual como máscaras ou luvas. Eles trabalhavam vestindo chinelos e bermudas, sujeitos a contato direto com o pó e a fumaça resultantes da queima do carvão.
degradantes
Grupo mantinha 12 fornos acesos para queimar madeira de floresta devastada dentro da propriedade. Foto: SRTE-GO
Os trabalhadores também moravam no local, mas seus alojamentos estavam em condições precárias. A fiscalização apurou que eram barracos construídos “com placas de cimento e telha de amianto” próximos às carvoarias, “situação que somada ao forte calor da região (36º C) e à falta de ventilação dos locais, deixava quase insuportável a permanência dos trabalhadores”, de acordo com o relatório produzido. Além disso, as camas eram improvisadas e os colchões fornecidos estavam “imundos”. Os auditores fiscais também verificaram que as jornadas de trabalho iam muito além do regular. Uma das vítimas afirmou que trabalhava “das 2h às 21h e ainda acordava algumas vezes durante a noite para ‘corrigir os fornos’”
Na fazenda em que os trabalhadores foram resgatados são criadas 2.500 cabeças de boi ao longo de 6.400 hectares ­– o equivalente a 15 mil campos de futebol. O pecuarista nega ter responsabilidade sobre as condições a que os carvoeiros foram submetidos. Ele afirma que a área havia sido cedida em regime de comodato a um terceiro, e que nunca sequer foi ao local em que a produção de carvão acontecia. Afirma ainda que a madeira é resultante de árvores que pegaram fogo na fazenda e que foram vendidas por 10 mil reais para o carvoeiro, que escravizou o grupo para processar o material.
De acordo com o relatório de fiscalização, porém, “não há nenhum indício de que tal contrato fora firmado contemporaneamente à pactuação”, e que, além disso, ele não poderia ser considerado legal, porque não havia licença ambiental para a extração de madeira na área. A fiscalização concluiu ainda que o acordo “mais se assemelha à figura jurídica da parceria extrativista, em razão da existência de partilha de produtos e lucros da atividade desenvolvida”, já que o pecuarista também tirou proveito econômico da situação. Segundo os auditores, o produtor de carvão também removia árvores da fazenda de Antônio para transformar em carvão e, consequentemente, aumentar a área do pasto.
Na JustiçaO tio do deputado defende que a fiscalização tem cunho político. “Querem criar caso comigo, prejudicar talvez o Ronaldo [Caiado]… Não sei a origem dessa história”, diz o fazendeiro, que nega que lucrou com a escravidão de pessoas em sua fazenda. “É tudo mentira. Não vão provar nunca, se quiserem me responsabilizar por isso, vão responder”.
Após o flagrante, os advogados de Antônio entraram com processo na Justiça do Trabalhocontra a Superintendência do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE-GO) e tentaram, via liminar, impedir que Antônio fosse incluído na “lista suja”, a exemplo do que fizeram a OAS e o grupo GEP. O pedido, no entanto, não foi aceito pelo juiz do caso. Ao entrar na relação, Antônio e os demais empregadores ficam impossibilitados de receber financiamentos públicos e de diversos bancos privados, além de não conseguir fazer negócios com as empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

Deputado denunciou “escravidão” de médicos

Ronaldo Caiado na tribuna do Congresso (Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados)
Ronaldo Caiado na tribuna do Congresso (Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados)
Ronaldo Caiado fez denúncias em fevereiro deste ano de que médicos do programa Mais Médicos, do governo federal, estariam sendo “escravizados”. Ele e seu partido, o Democratas, ofereceram abrigo para a médica cubana Ramona Matos Rodriguez, que abandonou o programa. O uso do termo “escravidão” para definir a situação dos profissionais do programa é considerado exagerado por quem atua no combate a este crime no Brasil.
Família Caiado
É o segundo caso de trabalho escravo envolvendo a família do parlamentar. Em 2010, 26 trabalhadores foram resgatados em fazenda de propriedade de Emival Ramos Caiado, primo do deputado e irmão de Antônio. O parlamentar, que cumpre sua quinta legislatura, foi um dos 29 deputados que votaram contra a PEC do Trabalho Escravo em 2012, e tem se pronunciado em favor da mudança da definição de escravidão contemporânea na lei brasileira. Hoje, este crime está previsto no Artigo 149 do Código Penal, que inclui a caracterização de escravidão por condições degradantes e jornadas exaustivas.
Deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária, a chamada Bancada Ruralista, da qual Ronaldo Caiado faz parte, têm defendido uma nova definição mais restrita, que contemple apenas ameaças físicas e medidas diretas de cerceamento de liberdade. A pressão por mudanças na definição levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a se posicionar, em novembro de 2013, a favor do conceito atual.
A aprovação da PEC do Trabalho Escravo, promulgada como Emenda Constitucional 81, é considerada uma ameaça pelos ruralistas porque a medida prevê a expropriação de propriedades onde for flagrado o trabalho escravo. Ronaldo Caiado, além de integrante da Bancada Ruralista, é um dos fundadores e ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), entidade criada com o objetivo de garantir e proteger a propriedade privada no campo.
Procurado pela Repórter Brasil, o deputado informou, por meio de sua assessoria, que não tem relação com o caso e não iria se posicionar sobre o assunto.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Família Caiado na ‘lista suja’ do trabalho escravo

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2014/07/tio-de-ruralista-entra-na-lista-suja-do-trabalho-escravo/

Família Caiado na ‘lista suja’ do trabalho escravo

Quatro carvoeiros foram submetidos a condições degradantes e jornadas exaustivas. Caso é o segundo envolvendo família do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO)
Por Stefano Wrobleski | Categoria(s): Notícias
Vestindo chinelos e bermudas sujeitos ao pó e à fumaça resultantes da queima do carvão. Foto: SRTE-GO
Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO
O pecuarista Antônio Ramos Caiado Filho, tio do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO), está entre os 91 incluídos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) na atualização semestral da relação de empregadores flagrados com trabalho escravo, a chamada “lista suja”.  Ele foi considerado responsável por submeter quatro pessoas a condições degradantes e a jornadas exaustivas na produção de carvão em sua fazenda em Nova Crixás, cidade localizada a 400 km de Goiânia e um dos redutos eleitorais da família. Os resgatados afirmaram que foram obrigados a cumprir jornadas de até 19 horas seguidas, “das 2h às 21h”, nas palavras de um dos trabalhadores.
Os carvoeiros trabalhavam no local há cerca de um ano quando equipe de fiscais do MTE, procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT) e agentes da Polícia Rodoviária Federal chegaram ao local, em abril de 2013. Os trabalhadores produziam carvão vegetal em 12 fornos, sem qualquer equipamento de proteção individual como máscaras ou luvas. Eles trabalhavam vestindo chinelos e bermudas, sujeitos a contato direto com o pó e a fumaça resultantes da queima do carvão.
degradantes
Grupo mantinha 12 fornos acesos para queimar madeira de floresta devastada dentro da propriedade. Foto: SRTE-GO
Os trabalhadores também moravam no local, mas seus alojamentos estavam em condições precárias. A fiscalização apurou que eram barracos construídos “com placas de cimento e telha de amianto” próximos às carvoarias, “situação que somada ao forte calor da região (36º C) e à falta de ventilação dos locais, deixava quase insuportável a permanência dos trabalhadores”, de acordo com o relatório produzido. Além disso, as camas eram improvisadas e os colchões fornecidos estavam “imundos”. Os auditores fiscais também verificaram que as jornadas de trabalho iam muito além do regular. Uma das vítimas afirmou que trabalhava “das 2h às 21h e ainda acordava algumas vezes durante a noite para ‘corrigir os fornos’”
Na fazenda em que os trabalhadores foram resgatados são criadas 2.500 cabeças de boi ao longo de 6.400 hectares ­– o equivalente a 15 mil campos de futebol. O pecuarista nega ter responsabilidade sobre as condições a que os carvoeiros foram submetidos. Ele afirma que a área havia sido cedida em regime de comodato a um terceiro, e que nunca sequer foi ao local em que a produção de carvão acontecia. Afirma ainda que a madeira é resultante de árvores que pegaram fogo na fazenda e que foram vendidas por 10 mil reais para o carvoeiro, que escravizou o grupo para processar o material.
De acordo com o relatório de fiscalização, porém, “não há nenhum indício de que tal contrato fora firmado contemporaneamente à pactuação”, e que, além disso, ele não poderia ser considerado legal, porque não havia licença ambiental para a extração de madeira na área. A fiscalização concluiu ainda que o acordo “mais se assemelha à figura jurídica da parceria extrativista, em razão da existência de partilha de produtos e lucros da atividade desenvolvida”, já que o pecuarista também tirou proveito econômico da situação. Segundo os auditores, o produtor de carvão também removia árvores da fazenda de Antônio para transformar em carvão e, consequentemente, aumentar a área do pasto.
Na JustiçaO tio do deputado defende que a fiscalização tem cunho político. “Querem criar caso comigo, prejudicar talvez o Ronaldo [Caiado]… Não sei a origem dessa história”, diz o fazendeiro, que nega que lucrou com a escravidão de pessoas em sua fazenda. “É tudo mentira. Não vão provar nunca, se quiserem me responsabilizar por isso, vão responder”.
Após o flagrante, os advogados de Antônio entraram com processo na Justiça do Trabalhocontra a Superintendência do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE-GO) e tentaram, via liminar, impedir que Antônio fosse incluído na “lista suja”, a exemplo do que fizeram a OAS e o grupo GEP. O pedido, no entanto, não foi aceito pelo juiz do caso. Ao entrar na relação, Antônio e os demais empregadores ficam impossibilitados de receber financiamentos públicos e de diversos bancos privados, além de não conseguir fazer negócios com as empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

Deputado denunciou “escravidão” de médicos

Ronaldo Caiado na tribuna do Congresso (Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados)
Ronaldo Caiado na tribuna do Congresso (Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados)
Ronaldo Caiado fez denúncias em fevereiro deste ano de que médicos do programa Mais Médicos, do governo federal, estariam sendo “escravizados”. Ele e seu partido, o Democratas, ofereceram abrigo para a médica cubana Ramona Matos Rodriguez, que abandonou o programa. O uso do termo “escravidão” para definir a situação dos profissionais do programa é considerado exagerado por quem atua no combate a este crime no Brasil.
Família Caiado
É o segundo caso de trabalho escravo envolvendo a família do parlamentar. Em 2010, 26 trabalhadores foram resgatados em fazenda de propriedade de Emival Ramos Caiado, primo do deputado e irmão de Antônio. O parlamentar, que cumpre sua quinta legislatura, foi um dos 29 deputados que votaram contra a PEC do Trabalho Escravo em 2012, e tem se pronunciado em favor da mudança da definição de escravidão contemporânea na lei brasileira. Hoje, este crime está previsto no Artigo 149 do Código Penal, que inclui a caracterização de escravidão por condições degradantes e jornadas exaustivas.
Deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária, a chamada Bancada Ruralista, da qual Ronaldo Caiado faz parte, têm defendido uma nova definição mais restrita, que contemple apenas ameaças físicas e medidas diretas de cerceamento de liberdade. A pressão por mudanças na definição levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a se posicionar, em novembro de 2013, a favor do conceito atual.
A aprovação da PEC do Trabalho Escravo, promulgada como Emenda Constitucional 81, é considerada uma ameaça pelos ruralistas porque a medida prevê a expropriação de propriedades onde for flagrado o trabalho escravo. Ronaldo Caiado, além de integrante da Bancada Ruralista, é um dos fundadores e ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), entidade criada com o objetivo de garantir e proteger a propriedade privada no campo.
Procurado pela Repórter Brasil, o deputado informou, por meio de sua assessoria, que não tem relação com o caso e não iria se posicionar sobre o assunto.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Novo e polêmico Código Florestal de Goiás é aprovado

eco
http://www.oeco.org.br/salada-verde/27336-novo-e-polemico-codigo-florestal-de-goias-e-aprovado?utm_source=newsletter_752&utm_medium=email&utm_campaign=as-novidades-de-hoje-em-oeco
Nas tribunas, os estudantes da UFG e os agricultores com a camisa do Sou Agro: embates em torno do novo código florestal goiano. Foto: Y. Maeda/ALEGO.
Com apenas um voto contrário, a Assembleia Legislativa de Goiás aprovou em primeiro turno o projeto de lei que institui o novo Código Florestal do Estado. A votação aconteceu em sessão extraordinária, na manhã desta terça-feira (02). Ontem, os deputados tentaram votar o projeto, mas adiaram a tarefa após protestos. A matéria ainda terá que ser novamente votada em segundo turno.

O objetivo da nova lei é dar segurança jurídica aos produtores rurais. Por isso, o governo de Goiás encaminhou o projeto de lei 2.205/13 à Assembleia, no dia 12 de junho. O projeto revoga a lei estadual 12.596, de 14 de março de 1995. A matéria foi aprovada por 37 deputados, com apenas um voto contrário do deputado Major Araújo (PRB).

De acordo com os ambientalistas, o projeto é uma cópia dos dispositivos da Lei Federal, que estão sendo questionados por ações diretas de inconstitucionalidades (ADINs), propostas pela Procuradoria-Geral da República no Supremo Tribunal Federal.

Em carta aberta, o Ministério Público de Goiás (MP-GO), a Universidade Federal de Goiás (UFG) e Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), pediram ao presidente da Assembleia Legislativa a convocação de mais audiências públicas para discutir pontos polêmicos do projeto. Não foram atendidos.

O governo argumenta que mais de 80 reuniões e audiências públicas foram realizadas até o momento, desde que foi criado um grupo setorial para rever a legislação ambiental goiana, em setembro de 2011.

Ontem, houve protestos durante votação da matéria. Os estudantes contrários a votação do Projeto de Lei foram impedidos de participarem da audiência pública. Por causa da confusão nos corredores, os deputados adiaram a votação.

Mesmo assim, os deputados voltaram a se reunir hoje, em sessão extraordinária. O clima hoje era conciliação, tanto que alguns pontos polêmicos do projeto foram abandonados, como o que permitia o cumprimento da exigência de reserva legal em outro estado que não Goiás. 

As modificações do texto original aconteceram após acordo costurado com o líder do governo na Assembleia, Fábio Sousa (PSDB), durante reunião extraordinária da Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), que foi realizada entre as sessões em plenário.

A criação de um fórum permanente para discutir propostas de adequação da legislação ambiental estadual está entre as mudanças. O fórum será presidido pelo secretário estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, com participação dos titulares das Secretarias de Cidades e da Agricultura, além da participação de membros das universidades goianas e outras entidades governamentais e civis.

"É um avanço termos proibido a reserva legal extra-propriedade, que permite ocupar e desmatar aqui e ocupar reserva em outro Estado. As cotas de inundação também serão consideradas pelo fórum permanente. Rio é por onde a água vai. Avançamos para preservar. Meio ambiente não se faz em ações concentradas em cada dez anos. O fórum terá representatividade", disse o deputado Mauro Rubem (PT) ao comentar o projeto.

Além disso, o projeto do código disciplinou o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Programa de Regularização Ambiental (PRA).

O estado de Goiás não é o único que se apressou para modificar a lei estadual. Em Minas Gerais, a Assembleia Legislativa também aprecia matéria para a mudança da legislação. Com a mudança do Código Florestal Federal, tanto Minas Gerais quanto Goiás ficaram com uma lei florestal mais rígida do a nacional. E, agora, eles se apressam em torná-la mais branda. 


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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Goiânia e Fukushima: Lições (não) aprendidas

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http://www.oeco.com.br/convidados-lista/26442-goiania-e-fukushima-licoes-nao-aprendidas?utm_source=newsletter_500&utm_medium=email&utm_campaign=as-novidades-de-hoje-em-oeco 

Familiares relembram os 20 anos do acidente do césio-137, em Goiânia, 2007. Foto: Greenpeace Brasil
Nesta semana, completam-se 25 anos do acidente do Césio 137 em Goiânia, considerado o maior acidente radiológico do mundo. A radiação de uma cápsula de césio abandonada em um ferro velho atingiu mais de 6 mil pessoas e gerou 6 mil toneladas de material radioativo. 

Nesta mesma semana, a crise nuclear em Fukushima completa 18 meses. A combinação dos desastres naturais com a falta de segurança dos sistemas de resfriamento do complexo nuclear resultaram no derretimento do núcleo de três reatores e, consequentemente,  no alastramento de radiação por uma área de 13 mil quilômetros quadrados obrigando 146 mil pessoas a se deslocarem.  

Até hoje, o governo e as autoridades nucleares falham em reconhecer o número correto de impactados em Goiânia e alterar a fiscalização nuclear no Brasil de forma a impedir que novas fatalidades aconteçam. A gestão do setor continua confusa; a mesma agência governamental exerce as funções díspares de fomento e fiscalização de atividades nucleares.

No início do mandato da Presidenta Dilma, esperava-se que o governo fizesse uma grande reformulação na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).  Curiosamente, o pacote de mudanças previamente anunciado acabou sendo adiado em função do acidente de Fukushima e nunca se concretizou.

No Japão, a moral do setor nuclear não anda muito melhor. O Comitê Japonês de Investigação concluiu, em relatório,  que as autoridades foram ineficientes na reação ao acidente nuclear de Fukushima. O estudo  apontou que tanto o operador dos reatores quanto o órgão regulador japonês falharam em oferecer medidas de mitigação adequadas, por excesso de confiança na segurança das usinas nucleares.

No Brasil,  o que se seguiu após o desastre do Césio foi o avanço do projeto atômico, com a inauguração da usina de Angra 2, em 2000, e a retomada das obras de Angra 3, em 2009. 

Nem os desdobramentos mundiais do acidente de Fukushima foram suficientes para interromper a empreitada. Alguns países, como EUA e França, já paralisaram seus planos de expansão nuclear e outros, como Alemanha, Itália e Suíça planejam a desativação de suas centrais até a próxima década. Todos os reatores europeus estão sendo submetidos a testes de segurança para reavaliar sua verdadeira vulnerabilidade a acidentes. 

Parte dos recursos para a construção de Angra 3 viria de bancos europeus, intermediados por fiança alemã, desde que fosse comprovado, dentro dos atuais critérios, que as usinas do complexo de Angra são seguras e resistem a impactos naturais. Mas novamente o risco de acidentes vem sendo minimizado pelas autoridades nacionais, que tardam em providenciar respostas adequadas às limitações de segurança das usinas de Angra,  jamais projetadas e testadas para funcionarem em regiões de solo desfavorável e sujeitas a deslizamentos, o que dirá outras intempéries.

Pelo menos no campo energético, o Japão está fazendo sua lição de casa. Desligou todos os seus 53 reatores e resistiu ao aumento da demanda energética no verão do hemisfério norte, lançando mão de medidas de eficiência energética. O programa de incentivo a energias renováveis já resultou na instalação de 560 MW em energia solar fotovoltaica após um mês, e prevê-se um total de 2500 MW em energias renováveis até março do próximo ano, o equivalente a duas usinas de Angra 3. 

No Brasil, o BNDES tem investido em energias renováveis, notadamente parques eólicos. No entanto, também segue como o grande apoiador da construção de Angra 3, aportando R$ 6 bilhões ou 60% do investimento - valor que pode aumentar se o empréstimo europeu não vier. 

Depois do legado dos acidentes de Goiânia e Fukushima, sem mencionar o trágico episódio de Chernobyl, na Ucrânia, não precisamos de mais vítimas para ter a certeza de que esse não é o caminho a ser seguido. Precisamos é de coragem e ousadia para apostar em uma revolução energética, investindo ainda mais em energias renováveis e aproveitando o enorme potencial brasileiro de fontes de energia como eólica, solar, por biomassa e oceânica.





Ricardo Baitelo
 é Doutor em engenharia e planejamento energético, é coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.