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segunda-feira, 24 de março de 2014

Justiça condena pecuarista a pagar R$ 500 mil por trabalho escravo

amigos da Terra
http://amazonia.org.br/2014/03/justi%C3%A7a-condena-pecuarista-a-pagar-r-500-mil-por-trabalho-escravo/


Justiça condena pecuarista a pagar R$ 500 mil por trabalho escravo

O pecuarista Mozar Marcondes Filho, proprietário da Fazenda Agropecuária Sorriso, situada na rodovia AC-90 (Estrada Transacreana), em Rio Branco (AC), foi condenado pela Justiça do Trabalho por prática de trabalho escravo e por dano moral coletivo.
O pecuarista terá que pagar R$ 500 mil por dano moral coletivo, pela prática de trabalho escravo, além de R$ 5 mil para cada um dos 14 trabalhador escravizados, a título de indenização por dano moral individual, incluindo verbas trabalhistas rescisórias.
As duas sentenças foram proferidas na quinta-feira pelo juiz substituto Celso Antonio Botão Carvalho Júnior, da 2ª Vara do Trabalho de Rio Branco, baseadas em ações movidas pelo procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho no Acre e Rondônia, Marcos Gomes Cutrim.
O advogado Marivaldo Gonçalves Bezerra disse ao Blog da Amazônia que vai recorrer das sentenças junto ao Tribunal Regional do Trabalho da 14ª Região. A defesa do pecuarista alega que na Fazenda Sorriso não existia trabalho degradante, ao contrário do que foi noticiado pelo MPT na ação civil pública e na ação civil coletiva.
- Respeitamos as sentenças do juiz, mas discordamos dos termos delas, pois não existia trabalho degradante na fazenda. A maior evidência disso é que o pecuarista foi absolvido do crime de trabalho escravo pela Justiça Federal. É um contrassenso ser absolvido do crime por suposto trabalho degradante e ser condenado por isso na Vara do Trabalho, embora sejam esferas independentes da Justiça – assinalou o advogado.
Os trabalhadores da Fazendo Sorriso foram resgatados pelo Grupo Móvel de Fiscalização ao Trabalho Escravo em abril de 2012. Eles prestavam serviços em condições análogas a de escravo por cerceamento da liberdade de ir e vir.
Todas as irregularidades foram confirmadas em inquérito civil, incluindo as condições degradantes, excesso de jornada e o cerceamento da liberdade de ir e vir a que estavam submetidos.
Os autos de infração e o relatório de fiscalização revelam inúmeras infrações à legislação trabalhista e as condições degradantes de trabalho a que estavam submetidos os trabalhadores, que não gozavam de “seus direitos mais fundamentais”.
O relatório destaca as condições precárias de moradia e higiene a que se submetiam os trabalhadores. No pasto, bebiam água de um igarapé, porque não era fornecia garrafa térmica nem cantil. Os trabalhadores faziam, na maioria das vezes, suas necessidades fisiológicas de excreção no “mato”, ao relento, vulneráveis aos perigos da natureza no meio rural.
Sanitário separado por cerca elétrica
A única instalação sanitária da qual os trabalhadores faziam uso na fazenda ficava do outro lado de uma cerca elétrica. Para fazer uso do sanitário, os trabalhadores tinham que subir uma escada e passavam por cima da cerca elétrica.
A fazenda não fornecia aos trabalhadores equipamentos de proteção individual, nem vestimentas de trabalho. Mesmo quando realizavam aplicação de agrotóxicos, adjuvantes e produtos afins, a mesma concedia apenas luvas.
Desse modo, os trabalhadores utilizavam suas roupas pessoais do dia a dia e compravam botas e bonés para realizar qualquer trabalho no campo. Sem qualquer tipo de treinamento específico, exerciam trabalhos como aplicação de agrotóxicos e limpezas de pasto.
O transporte dos empregados para as frentes de trabalho, ou seja, para os pastos da fazenda, era realizado em carroceria aberta e sem cobertura, “improvisada” ao trator, sem qualquer compartimento de separação entre trabalhadores, ferramentas e equipamentos, o que acarreta perigo grave e iminente de acidente.
Por causa desse tipo de transporte, já ocorreu acidente de trabalho na fazenda, quando um trabalhador teve as duas pernas imprensadas e esmagadas por um portão de ferro transportado inadequadamente e sem observância das normas de segurança na carroceria de um trator.
Os trabalhadores, alguns com anotação em carteira, outros trabalhando informalmente no sistema de diárias, saíam para o trabalho, de segunda a sábado, inclusive nos feriados, por volta das 6h30. Eles faziam pausa para almoço, entre 11h30 e 13h, e permaneciam na própria frente de trabalho, sem qualquer cobertura, conforto, condições adequadas e salutares de descanso até retomarem ao trabalho. Suas atividades eram encerradas entre 17h30 e 18h, chegando ao alojamento por volta das 19h.
Além da jornada de trabalho exaustiva, dois vaqueiros afirmaram que trabalhavam de segunda a domingo, tendo folga somente no dia de pagamento, o que coincidia com o dia dos demais trabalhadores.
Os trabalhadores sofriam cerceamento da liberdade dos mesmos porque estavam impedidos de sair da fazenda por ordem dada pessoalmente pelo (a mando do proprietário) ou pelo fazendeiro, via telefone.
- Não podiam sair nos sábados à tarde, domingos e feriados, nem mesmo quando já haviam trabalhado nesses dias, a não ser no dia do pagamento – assinala o juiz do trabalho.
Por: Altino Machado
Fonte: Terra Magazine/ Blog da Amazônia 

terça-feira, 18 de março de 2014

Isolado há 20 dias, Acre vive cotidiano de incerteza e preços altos

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529268-isolado-ha-20-dias-acre-vive-cotidiano-de-incerteza-e-precos-altos


Isolado há 20 dias, Acre vive cotidiano de incerteza e preços altos

Isolados há 20 dias por causa da cheia do rio Madeira, os moradores do Acre enfrentam um cotidiano marcado por privações e incerteza, em que os combustíveis começam a rarear nos postos de gasolina, e os alimentos, quando ainda podem ser achados nos supermercados, estão com os preços muito mais altos do que o normal.
A reportagem é publicada por BBC Brasil, 15-03-2014.
As águas do Madeira invadiram a BR-364, a única ligação rodoviária do Acre com o restante do país. A cheia afeta também o oeste de Rondônia e o sul do Amazonas, e nos três estados há cidades em situação de emergência. Em Porto Velho, o Madeira está acima dos 19 metros, o maior nível desde 1982.
A Defesa Civil de Rondônia estima que a BR-364 estará tomada pelas águas até o fim de março. Em alguns trechos da rodovia dentro do estado, a lâmina d'água chega a um metro de profundidade e apenas veículos de grande porte tentam atravessar as águas. Muitos sequer se arriscam.
A invasão da rodovia pelo rio é algo desconhecido para os moradores dos dois estados. Passou a ser lugar-comum na região culpar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, ambas no rio Madeira, pelas cheias.
Gasolina
Para os motoristas de Rio Branco, a falta de combustíveis impôs um desafio adicional além dos congestionamentos e da falta de estacionamentos, problemas que enfrentam diariamente na capital acreana.
Vários postos da cidade colocaram cones em frente às bombas, sinalizando que não há gasolina, diesel ou etanol. Nos que ainda há combustível, as filas são gigantescas e os preços, reajustados.
De acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP), o Acre já tem o combustível mais caro do país. O preço médio do litro da gasolina é R$ 3,30, mas alguns estabelecimentos chegam a vender o litro por até R$ 3,45.
Para não ficar sem gasolina, os motoristas estão optando por sempre manter o tanque cheio. "É a melhor forma para não ficar no prego, e andar menos com o ar-condicionado ligado", comenta o militar aposentado Camilo Nogueira, que passou em dois postos antes de achar o combustível.
Alimentos
Nos supermercados, muitos produtos estão faltando e outros, quando estão disponíveis, tiveram uma clara diminuição na oferta e na qualidade. A reportagem esteve em dois supermercados de Rio Branco nesta semana e notou espaços vazios em quase todos os segmentos, dos enlatados aos produtos de limpeza da casa.
Dono da maior rede de supermercados do Acre, Adem Araújo diz que 90% dos gêneros alimentícios consumidos são importados. "O nosso estoque de hortifrúti é para no máximo três dias. Nos outros produtos, como arroz, feijão, trigo também já há uma redução de estoque, com previsão de durar no máximo mais 20 dias. Já enfrentamos dificuldades para fazer a reposição nas prateleiras, há espaços vazios", diz Araújo.
A funcionária pública aposentada Aldenora Torres seleciona entre os poucos tomates que encontra aqueles menos "estragados". "Estamos pagando caro por produtos sem a mínima qualidade. É preciso selecionar bem para não levar frutas e legumes estragados. Tudo está muito caro, falta o essencial", afirma ela.
Os preços de alguns legumes, além de sofrer os efeitos do isolamento do estado, subiram por conta da entressafra da produção no país, justificou esta semana a Associação de Supermercados do Acre (ASA). "Antes o que dava para comprar com R$ 100 hoje é impossível. Agora eu desembolso até R$ 140 no que eu comprava por bem menos", diz o comerciante Paulo Sérgio.
Com medo do agravamento da situação, a professora da Universidade Federal do Acre (Ufac) Cláudia Dias decidiu fazer uma pequena estocagem de alimentos. "Não se sabe o que pode acontecer mais uns dias, os preços continuarão a subir, então prefiro ter alimento suficiente até tudo voltar ao normal", comenta.
Ajuda
O governo pediu ajuda federal para evitar o completo desabastecimento de alimentos. Três aviões de carga da Força Aérea Brasileira (FAB) fazem o transporte de alimentos entre Porto Velho e Rio Branco.
Os empresários dizem que a logística, contudo, não atende às necessidades do mercado. O setor de supermercados avalia que há um consumo de cem toneladas diárias de hortifrúti. Segundo o governo do Acre, desde o dia 24 de fevereiro a FAB realizou 44 voos, totalizando 320 toneladas transportadas.
"O maior risco para o consumidor não é o aumento de preços, mas não haver o produto", diz Jurandi Aragão, presidente da Associação Comercial e Industrial do Acre (Acisa).
Enquanto parte dos alimentos chega pelos céus, os combustíveis e o gás têm como única opção os rios. A principal fornecedora de gás no Norte, a Fogás, levou para o Acre 900 toneladas de gás em duas balsas.
Para este fim de semana está prevista a chegada de uma embarcação com 5 milhões de litros de combustíveis, entre gasolina e óleo diesel.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Isolamento do Acre deixa mais de 1300 haitianos e senegaleses retidos em abrigo na fronteira

amazonia
http://amazonia.org.br/2014/03/isolamento-do-acre-deixa-mais-de-1300-haitianos-e-senegaleses-retidos-em-abrigo-na-fronteira/


Isolamento do Acre deixa mais de 1300 haitianos e senegaleses retidos em abrigo na fronteira

Mais de 1,3 mil imigrantes haitianos e senegaleses estão retidos no abrigo mantido pelos governos estadual e federal em Brasiléia, a 235 quilômetros de Rio Branco, na fronteira com a Bolívia, por causa da cheia do Rio Madeira, que forçou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes a fechar a BR-364 e deixou o Acre isolado do restante do país.
Os imigrantes estão documentados com CPF e com um protocolo expedido pela Polícia Federal. Mais de 300 já foram selecionados por empresas interessadas em contratá-los, mas não puderam viajar. O tráfego na rodovia federal entre o Acre e Rondônia, parcialmente coberta por águas do Rio Madeira, está interrompido desde a semana passada por questões de segurança.
- Mais de 100 imigrantes saíram de Brasiléia, mas tiveram que voltar de Rio Branco por causa do fechamento da rodovia. Estão aqui com os bilhetes das passagens de ônibus esperando que o tráfego seja restabelecido – disse o gerente do abrigo, Damião Borges, funcionário da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos do Acre.
Muito precário, a capacidade para 300 pessoas no abrigo já foi ultrapassada. Mais de 17 mil haitianos já passaram por Brasiléia desde que teve início o fluxo migratório na fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru.
Vista parcial do abrigo em Brasiléia
- Nós já chegamos a ter 1,5 mil imigrantes no abrigo. Caso o tráfego na rodovia não seja normalizado, temos expectativa de muito em breve ter mais de 1,5 mil pessoas. Os haitianos não param de chegar, bem como os senegaleses. Todo esse tumulto que você está vendo se agravou por causa do isolamento do Acre. Ainda bem que o governo federal liberou mais de R$ 2 milhões para investimento numa estrutura melhor para os imigrantes que passam por aqui – acrescentou Borges.
Quando entram no Brasil, os haitianos formalizam pedido de refúgio à Polícia Federal e recebem um protocolo que lhes dá direito de residência legal até que o processo seja analisado e julgado pelo Comitê Nacional para os Refugiados ou pelo Conselho Nacional de Imigração.
O protocolo também dá direito aos haitianos e senegaleses de se deslocarem pelo Brasil, passando a residir e trabalhar em qualquer lugar, sem restrições de movimento no território nacional. Eles são obrigados apenas a comunicar o local de residência à Polícia Federal, como estabelece a lei brasileira para todos os estrangeiros que vivem no país.
Imigrantes na calçada em frente ao abrigo
A maioria dos haitianos e senegaleses vinha sendo contratada para trabalhar em frigoríficos em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.
- Não sei o motivo de São Paulo e Paraná ter parado de contratá-los. Atualmente, Santa Catarina é quem mais contrata. O Mato Grosso também contrata bastante, para trabalho em frigoríficos e na construção civil, além de Goiás. Mas o destino da maioria dos senagaleses é São Paulo e, principalmente, Caxias do Sul.
Segundo Damião Borges, em todos os estados, os haitianos se adaptam melhor ao trabalho em frigoríficos, onde chegam a passar até três meses na emprego. O salário deles varia de R$ 800,00 a R$ 950,00, além transporte, alimentação e alojamentos das empresas.
- A maioria desse povo tem esperança de obter documentação que permita ter como destino final a Europa. Depois de sair dos frigoríficos, muitos se deslocam pelo Brasil e um tanto viaja para a Guiana Francesa na esperança de obter visto de entrada na Europa – o funcionário do governo estadual.
Damião Borges e Jean Katumba
De Puerto Maldonado, no Peru, onde se encontra, o professor Foster Brown relata que conversou com Guimo Loaiza Muñoz, da Defensoria del Pueblo en Madre de Dios, que tem a responsabilidade especial para proteger os direitos humanos de idosos, crianças, mulheres, indígenas e presos.
Segundo Foster Brown, a Defensoria trabalha com um orçamento muito reduzido. Guimo e quatro advogados são responsáveis para todo o departamento de Madre de Dios. Guimo gostaria de ter mais interações com entidades brasileiras e bolivianas na região. Ele precisa especialmente de dados sobre o movimento de migrantes para poder atuar e chamar atenção do governo central sobre abusos de direitos humanos.
- Os haitianos que entraram legalmente no país tem direito de passar, via território peruano, ao Brasil. A policia não tem direito de impedir ou pedir dinheiro e os taxistas não precisam transportar os haitianos durante a noite. Uma recomendação é que os haitianos sejam acompanhados por oficiais do governo para impedir exploração – disse o professor.
Senegales
Jovens senegaleses
No abrigo de Brasiléia atualmente estão 20 imigrantes da República Dominicana e mais de 200 do Senegal. Os senegaleses embarcam em avião, em Dakar, capital e a maior cidade do Senegal, cumprem escala na Espanha, de lá seguem para o Equador e percorrem a mesma rota dos haitianos até Assis Brasil (AC), na tríplice fronteira do Brasil, Bolívia e Peru.
- O Brasil é conhecido no mundo inteiro, sobretudo agora, por causa da Copa do Mundo. Eles acessam internet, se informam sobre a rota dos haitianos, e se mandam pra cá.
Jean Katumba, da República Democrática do Congo, que mora e atua na organização África do Coração, em São Paulo, está em Brasiléia para orientar os imigrantes africanos. Os senegaleses, que recusam todas as propostas de trabalho em frigoríficos, preferem trabalhar na construção civil.
- Estou impressionado com a quantidade de senegaleses aqui. Eles poderiam muito bem entrar no Brasil a partir de um estado no litoral, mas preferem entrar por trás, via Equador. É uma longa viagem, que custa quase US$ 7 mil, e isso nos preocupa.
Katumba assinala que na África existem muitos problemas e que todos os imigrantes senegaleses buscam trabalho no Brasil
- São Paulo abriga uma comunidade senegalesa muito forte. Uma parte vai para lá, mas a maioria prefere Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Aqui no Brasil tem muito trabalho, muito emprego. Os senegaleses chegam e vão trabalhar em empresas de senegaleses. Tanto em São Paulo como no Rio Grande do Sul, trabalham em construções. O Brasil não pode negar que tem trabalho demais aqui – explica.
Jean Katumba tem mantido reuniões com os senegaleses, orientando-os a entrar em território brasileiro por outros estados.
- Nossa preocupação é fazer com que eles venham para o Brasil de forma legal. Eles não precisam gastar tanto dinheiro indo até o Equador e sendo extorquidos no Peru ou na Bolívia. A viagem até aqui pode custar bem menos e sem tanto perigos, como ocorre quando percorrem a mesma rota dos haitianos a partir do Equador.
Haitianos e senegaleses na frente do abrigo
Por: Altino Machado
Fonte: Terra Magazine/ Blog da Amazônia 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Isolado do país por cheia, Acre decreta situação de emergência

amazonia
http://amazonia.org.br/2014/02/isolado-do-pa%C3%ADs-por-cheia-acre-decreta-situa%C3%A7%C3%A3o-de-emerg%C3%AAncia/


Isolado do país por cheia, Acre decreta situação de emergência

BR-364, que liga Rondônia ao Acre, afetada pelas águas da cheia histórica do Rio Madeira
O governador do Acre, Tião Viana (PT), decretou situação de emergência nas áreas do Estado afetadas direta e indiretamente por enchentes. Por causa da cheia do Rio Madeira, quatro trechos da BR-364, única ligação rodoviária do Acre o restante do país, estão com a pista submersa em lâmina d’água de 80 centímetros. A situação de emergência durante 90 dias já foi reconhecida pela Defesa Civil Nacional.
O tráfego de veículos pequenos na rodovia que liga Rondônia ao Acre está interrompido, sendo autorizado a passagem apenas de caminhões com alimentos. Em Porto Velho, o prefeito Mauro Nazif (PSB) declarou situação de calamidade pública também em razão da enchente do Rio Madeira, que vem se mantendo com o nível de 18,58 metros acima da cota de alerta.
O centro comercial de Porto Velho está completamente tomado pelas águas. O Mercado Municipal, Restaurante Popular, Mercado do Peixe e o Terminal Hidroviário também foram interditados pela prefeitura, para quem a cidade já sofreu prejuízos decorrentes da cheia que somam R$ 586 milhões.
Em Rio Branco, o nível do Rio Acre nesta quinta é 14,81 m, ou seja, 81 centímetros acima da cota de transbordamento. O rio subiu 44 centímetros em 24 horas. Existem 1,3 mil pessoas (331 famílias) sendo mantidas pela Defesa Civil em abrigos.
No decreto de situação de emergência, publicado na edição do Diário Oficial do Estado desta quinta-feira, o governo do Acre considera as “intensas e extraordinárias” chuvas no Estado e em Rondônia, bem como na Bolívia e no Peru. O governo admite o risco de desabastecimento de itens básicos para manutenção das atividades públicas e privadas no Estado, a exemplo de alimentos e combustíveis.
De acordo com o governo do Acre, os prognósticos técnicos a respeito de precipitação pluviométrica nos próximos dias, indicam a continuidade do aumento do nível dos rios da região. O decreto do governador considera que “a situação é um evento natural, de evolução gradual, e que as medidas emergenciais de amparo à população são urgentes e necessárias”.
Embora represem água em Porto Velho, os consórcios responsáveis pela construção das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio negam qualquer relação das obras com a cheia histórica.
Por determinação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Hidrelétrica Santo Antonio desligou as turbinas no começo da semana por questão de segurança. Jirau está com apenas quatro turbinas em operação.
A paralisação da usina tenta minimizar o sofrimento de ribeirinhos e da população de Porto Velho. Além disso, segundo o ONS, como estão em final de obra, algumas áreas de Jirau e Santo Antonio têm estruturas frágeis e provisórias. O risco de um acidente poderia aumentar por causa do volume de água do Madeira.
Caminhões com destino ao Acre, na travessia do Rio Madeira

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Projetos de carbono no Acre ameaçam direito à terra

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2013/12/projetos-de-carbono-no-acre-ameacam-direito-a-terra/


Projetos de carbono no Acre ameaçam direito à terra

Famílias de seringais nos rio Purus e Valparaiso sofrem restrições no manejo tradicional de agricultura para que latifundiários vendam créditos de carbono
Por Verena Glass* | Categoria(s): Reportagens
Bacia dos rios Purus e Juruá – Uma das principais bandeiras da luta de Chico Mendes, a consolidação do direito dos seringueiros do Acre a seus territórios, continua sendo uma questão espinhosa 25 anos após a sua morte, completados neste domingo (22). A falta de regularização fundiária de muitos seringais, ainda hoje áreas com alto nível de preservação ambiental, continua motivando sérios conflitos entre fazendeiros e seringueiros, mas também abre caminho para projetos de manejo da floresta que nem sempre beneficiam a população tradicional.
Margens preservadas do rio Purus despertaram interesse pela venda de carbono. Fotos: Verena Glass
Margens preservadas do rio Purus despertaram interesse pela venda de carbono. Fotos: Verena Glass
Problemas neste sentido têm sido relatados nos três primeiros projetos privados de crédito de carbono no Acre, propostos no contexto do Sistema de Incentivos aos Serviços Ambientais (Sisa, aprovado por lei em outubro do ano 2010) e que pretendem promover a preservação florestal e a venda de créditos de carbono através de iniciativas de REDD+ (Redução de Emissões provenientes de Desmatamento e Degradação Florestal). São eles os projetos Purus, Valparaiso e Russas, que preveem restrições e até paralisação das atividades tradicionais de cultivo agrícola de famílias de seringueiros e posseiros, para que emissões assim evitadas possam ser vendidas no mercado internacional de créditos de carbono.
O Projeto Purus, idealizado pelo ex-prefeito de Sena Madureira, Normando Sales, e pelo advogado Wanderley Rosa, foi apresentado ao Instituto de Mudanças Climáticas (IMC) do Estado em junho de 2012. Abrange cerca de 34,7 mil hectares dos seringais Porto Central e Itatinga, localizados às margens do rio Purus entre os municípios de Sena Madureira e Manoel Urbano, e onde vivem 18 comunidades de seringueiros, posseiros e pescadores.
Apresentando-se como donos dos seringais, em 2009 Sales e Rosa começaram a procurar os moradores locais – muitos dos quais vivem na área há mais de 40 anos – para discutir o projeto, e no início de 2011 propuseram a 17 famílias que firmassem um acordo pelo qual deixarão de fazer o manejo tradicional de lavouras (brocagem, a roçagem e queima de mato), caça, retirada de madeira, abertura de picadas e estradas, e qualquer outra ação de interferência na vegetação. Para monitorar o cumprimento do acordo, seria criado um sistema de fiscalização de infrações e providências quanto à punição dos infratores.
Para viabilizar a parte econômica e técnica do projeto (que encontra-se ainda em fase de registro no IMC), foi acordado um investimento inicial com a empresa CarbonCO, LLC, subsidiária da Carbonfund.org Foundation, localizada em Bethesda, Maryland, EUA. O inventário do carbono que deixaria de ser liberado sem os manejo tradicional dos seringueiros foi supervisionado pela empresa de consultoria TerraCarbon, LLC, de Illinois/EUA. E a venda dos créditos de carbono resultantes será feita pela The Carbon Neutral Company, de Londres.
De acordo com os moradores dos seringais, desde o início o projeto causou desconfiança entre a comunidade. Vários movimentos sociais do Estado, críticos às soluções de Economia Verde propostas para mitigar problemas ambientais a partir da financeirização dos bens naturais, e preocupados com possíveis violações de direitos, também questionaram a iniciativa, o que motivou uma visita da Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente da Plataforma DHESCA(Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais) ao Acre entre final de novembro e início de dezembro deste ano, para verificação de eventuais problemas.
Documento mencionado. Clique para ampliar
Documento mencionado. Clique para ampliar
Em depoimento aos pesquisadores da relatoria, João*, produtor de banana e morador do local há mais de 35 anos, relata: “um dia chegou aqui o Normando [Sales, dono do seringal Porto Central], e já começou ameaçando. Disse que aqui tudo era terra dele, mas ele nunca apresentou título do Incra. Eles chegaram com um documento para a gente assinar, desse negócio de carbono, e disse que quem assinava podia ficar na terra, quem não assinava tinha que sair”. Em troca da assinatura, conta o seringueiro, Normando Sales prometeu que traria para a comunidade uma série de benfeitorias, como escola, posto de saúde, casas novas, barco e energia solar.
O documento mencionado (assinado por João, mas não entregue ao fazendeiro) reafirma por diversas vezes que o assinante reconhece a propriedade das terras em nome da empresa Moura e Rosa Investimentos Ltda, criada em 2009 por Normando Rodrigues Sales e Wanderley Cesário Rosa, seus diretores. Legalmente, a empresa e a área do Projeto Purus pertenceriam a Felipe Moura Sales (filho de Normando) e Paulo Silva Cesário Rosa (filho de Wanderley). “Essa é uma das questões que mais preocupa a comunidade”, explica João, que afirma já ter dado entrada no programa Terra Legal para tentar a regularização de seu lote.
Independente disso, explica a advogada Laura Schwarz, do Centro de Memória das Lutas e Movimentos Sociais da Amazônia, que acompanha o caso, legalmente as famílias teriam direito ao usucapião da área em função do longo período de posse, mas ainda não existe nenhum o processo de regularização em andamento.
Futuro em chequeNo início de 2013, possivelmente por pressões das famílias, um relatório de execução do projeto, elaborado pelo técnico da Carbon.Co, LLC, Brian McFarland, aponta novas regras para o uso da terra. Além de reconhecer que “existem comunidades assentadas sobre o que eram originalmente terras de propriedade privada”, o documento afirma que, “para resolver este conflito ou disputa, Moura & Rosa irá reconhecer voluntariamente qualquer área desmatada e sob uso produtivo de cada família que vive no Seringal Itatinga parcelas Seringal Porto e Central. A área mínima a ser intitulado de cada família será de cem hectares, que é o tamanho mínimo que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) diz que uma família no Estado do Acre necessita para uma vida sustentável. As comunidades que desmataram e colocaram em uso produtivo mais de cem hectares receberão toda a área que foi desmatada. Todas as comunidades – que se unirem voluntariamente o Projeto Purus ou não – serão chamadas à terra que eles têm colocado em uso produtivo. Este processo será facilitado por um grupo independente, incluindo o Ministério Público do Acre”.
 Além da agricultura, as famílias também usam as áreas florestadas para caçar, para o extrativismo, retirada de madeira para casas ou construção de canoas. Isso passaria a ser proibido
De acordo com a advogada Laura Schwarz, no entanto, a questão não se resolve. Para justificar o Projeto Purus, baseado na hipótese do “desmatamento evitado” para a geração de créditos de carbono, a empresa Moura & Rosa alegou que, como proprietária, poderia converter parte da floresta dos seringais em pastagem (prevendo o corte raso de 20% de sua extensão total para acomodar de 10 a 12 mil cabeças de gado), além de desenvolver atividades madeireiras. Numa lógica inversa e perversa, explica a advogada, criminaliza-se então o manejo tradicional dos pequenos agricultores, impondo-lhes restrições que justifiquem a venda de carbono (apesar de o próprio governo do Acre ter reconhecido que o uso do fogo é essencial na agricultura familiar de pequeno porte, e sua proibição poderia causar insegurança alimentar), e limita-se definitivamente o desenvolvimento futuro da comunidade através da restrição da área disponível. “Além da agricultura, as famílias também usam as áreas florestadas para caçar, para o extrativismo, retirada de madeira para casas ou construção de canoas. Isso passaria a ser proibido, bem como o estabelecimento de atividades produtivas das próximas gerações. Como ficariam os filhos dos posseiros se não puderem estabelecer futuramente seus próprios lotes produtivos, com casas e roças?”, questiona.
 Roça de banana de familia do Projeto Purus: impacto do plantio sobre o ambiente tradicionalmente é mínimo
Roça de banana de familia do Projeto Purus. Impacto do plantio sobre o ambiente tradicionalmente é mínimo
Desmatamento incentivado
Muito similar ao Projeto Purus, os projetos de REDD+ nos seringais Valparaiso e Russas ainda não foram oficializados junto ao governo do Estado, mas já estabeleceram uma série de restrições às suas comunidades.
Localizados em áreas de mata fechada no rio Valparaiso, afluente do Juruá no município de Cruzeiro do Sul, os dois projetos são gerenciados pelo ex-deputado federal e presidente do Partido da República (PR) no Acre, Ilderlei Souza Rodrigues Cordeiro (dono da I.S.R.C. Investimentos e Assessoria LTDA) , em parceria com as empresas americanas CarbonCo e Carbon Securities.
 Chamavam uma família aqui, umas cinco ali, nunca todo mundo junto, e falaram que ia ter projeto quer a gente queira, quer não
De acordo com os moradores das comunidades Valparaiso, Terra Firme de Cima (localisadas na área do Projeto Valparaiso) e Tres Bocas (na área do Projeto Russas),  apesar de lidarem diretamente com Iderlei, o dono dos seringais seria o fazendeiro Manoel Batista Lopes, envolvido em sérios conflitos com os seringueiros na década de 1990. A situação dos trabalhadores, segundo relatório feito  na época pelos procuradores do Trabalho Victor Hugo Laitano e João Batista Soares Filho era análoga à de escravos, conforme detalhado na pesquisa “Trabalho compulsório, poder e transgressão no rio Valparaíso – Alto Juruá – Amazônia brasileira - 1980-90″.
“Pelo que sabemos, o Iderlei arrendou essas terras do Manoel pra fazer esse projeto de carbono. Ou comprou, não sabemos direito”, explica José*, da comunidade Valparaiso. “Desde os anos 1980, estamos lutando pela titulação das terras, queremos a criação de uma Reserva Extrativista (resex), mas eles vieram e falaram que resex não é um bom negócio pra nós. Já teve muito conflito aqui por causa disso”.
Produtores de farinha de mandioca, principal fonte de renda das comunidades, os seringueiros explicam que o processo de implantação do projeto de carbono nunca foi explicado direito. “Chamavam uma família aqui, umas cinco ali, nunca todo mundo junto, e falaram que ia ter projeto quer a gente queira, quer não. Falaram que a gente vai ser proibido de brocar e botar fogo, e que em troca iam dar de colher a geladeira. E cursos. Falaram que iam dar máquinas, mas aqui, pra chegar, só se for de helicóptero. Mas até agora não veio nada, só as placas (dos projetos). Eles inclusive tomaram a madeira que a gente tinha cortado pra nossa igrejinha, pra fazer as placas. Hoje temos placa do projeto, mas a igreja continua sem paredes”, afirma João.
Reunião na igreja da comunidade Valparaiso, cuja madeira foi confiscada para fazer placas do projeto
Reunião na igreja da comunidade Valparaiso, cuja madeira foi confiscada para fazer placas do projeto
Placa do Projeto Valparaiso na comunidade Terra Firme de Cima
Placa do Projeto Valparaiso na comunidade Terra Firme de Cima
Moradora da comunidade Terra Firme de Cima, dona Rosa*, 68 anos, confirma que o desconhecimento dos detalhes do projeto é geral. “O Iderlei passou de casa em casa com um documento e fez a gente assinar, muitos nem sabem ler, ninguém sabe o que assinou. Disse que a gente nunca mais ia poder botar fogo nas roças, mas que ele ia dar mucuna (semente de adubação verde) pra gente, que a gente ia produzir o dobro. Mas ninguém nem sabe o que é mucuna. E das outras coisas que ele disse que ia dar, não deu nada”.
 Aí ele falou pra gente desmatar bastante esse ano, quem brocava dois hectares devia brocar quatro, mas que não era pra contar pra ninguém. E que ano que vem estaria tudo proibido
De acordo com outro morador, Iderlei teria dito que a proibição da brocagem e do fogo começaria em 2014. “Aí ele falou pra gente desmatar bastante esse ano, quem brocava dois hectares devia brocar quatro, mas que não era pra contar pra ninguém. E que ano que vem estaria tudo proibido”.
Em Três Bocas, os moradores confirmam o incentivo “secreto” ao desmatamento, mas acrescentam que houve também uma promessa de que as áreas de uso poderiam eventualmente ser tituladas para as famílias. “Mas a gente acha que quem titula terra é o governo. Se temos o direito à terra, não precisa ter promessa de fazendeiro dizendo que vai fazer, porque até agora tudo que prometeu não cumpriu. Faz quase um ano que o Iderlei não aparece aqui”, afirma um morador.
Questionados se a comunidade foi suficientemente informada sobre o projeto, outro morador conta que certa vez estava andando com um “gringo” no mato e, quando quebrou um galho, “o gringo ficou todo ouriçado, disse que isso era crime. E carbono é que nem caviar, a gente ouviu dizer que existe, mas nunca viu. Alguém lá fora vai ganhar dinheiro porque nós vamos deixar de fazer roças para alimentar nossas famílias? Isto não me parece justo”.
Moradores de Tres Bocas: a preocupação é com a sobrevivencia das próximas gerações
Moradores de Tres Bocas: a preocupação é com a sobrevivencia das próximas gerações
Apesar de várias tentativas, a reportagem não conseguiu falar com representantes do IMC e do Incra sobre os projetos. Já a relatora da Plataforma Dhesca, Cristiane Faustino, que se reuniu com diversos órgãos do governo estadual e federal após as visitas de campo em dezembro, explicou que o Incra apontou que, de início, não acompanha os projetos de REDD e tem pouca intervenção na regularização fundiária das áreas envolvidas. Quanto ao IMC, a informação coletada pela Relatoria é que os Projeto Purus e Valparaíso/Russas não foram ainda aprovados pelo órgão, que  requereu informações adicionais sobre os mesmos.
“Do ponto de vista dos direitos humanos, é preciso fazer uma avaliação aprofundada sobre os riscos que os projetos de REDD  impõem as comunidades, especialmente devido às desigualdades econômicas e políticas que permeiam suas ações. A segurança  dos territórios para os posseiros e as comunidades tradicionais é a primeira condição para que seus direitos humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais sejam garantidos. Isso deve ser política básica para enfrentar as injustiças e riscos sociais e ambientais, e não devem estar submetidas à lógica do mercado, que tem outros interesses e linguagens”, explica Cristiane.
* A jornalista Verena Glass esteve na região acompanhando missão da Plataforma Dhesca
** Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos comunitários

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Acre quer fechar fronteira para evitar excesso de haitianos no Brasil

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527333-acre-quer-fechar-fronteira-para-evitar-excesso-de-haitianos-no-brasil



Acre quer fechar fronteira para evitar excesso de haitianos no Brasil

O governo do Acre alerta para o alto número de haitianos que estão entrando no país via Brasiléia (Acre). O secretário de Justiça e Direitos Humanos do estado, o ex-deputado federal Nilson Mourão (PT), afirmou que teme a ocorrência de uma tragédia no alojamento dos imigrantes. O espaço tem capacidade para 300 haitianos e hoje é ocupado por 1.200, ou seja, quadruplicou o número de ocupantes. Mourão defende o fechamento da fronteira entre Brasil e Peru no local onde se dá a passagem dos haitianos. O secretário pediu ao governador do Acre, Tião Viana (PT), que faça essa solicitação ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Em janeiro de 2012, foi revelado o drama dos cerca de 3 mil imigrantes que entraram ilegalmente pelas fronteiras dos estados brasileiros fugindo da pobreza e em busca de trabalho nas principais capitais do país
— A situação se tornou insustentável. Houve um aumento substantivo do número de imigrantes. Em média, chegam 70 deles por dia. O abrigo está sobrecarregado. Estou prevendo uma iminente tragédia, que pode acontecer a essas pessoas. Um incêndio naquele espaço num colchão pode levar a morte de muita gente e destruir o abrigo. As pessoas ficam muito próximas uma das outras. Com tanta gente pode acontecer um estresse e gerar uma briga. E, antes que isso ocorra, é preciso adotar uma atitude emergencial. E a única que tem no momento é o fechamento da fronteira — disseNilson Mourão.
A reportagem é de Evandro Éboli e publicada pelo jornal O Globo, 16-01-2014.
Ao responder um pedido do governo do Acre para se fechar a fronteira entre o Brasil e o Peru no trecho de passagem dos haitianos, o Ministério da Justiça informou que esta não é uma tradição no país. "O Brasil não possui tradição de no fechamento de fronteiras" - informou o ministério numa nota no final da tarde desta quarta-feira. O governo federal informou que a chegada dos haitianos é controlada pela Polícia Federal e que, em 2013, chegaram ao Brasil 13.669 cidadãos do Haiti.
O secretário afirmou que as empresas brasileiras não estão, nesse momento, contratando os haitianos. Até agora, cerca de 15 mil deles já estão no país e a maioria trabalhando em empresas de São Paulo, do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e no Paraná.
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, está acompanhando a situação e marcou uma reunião para a próxima segunda-feira - com a Casa Civil e o governo do Acre - para discutir o assunto. Há em curso um plano nacional de integração dos imigrantes, proposto pelo Ministério da Justiça, e que está sob avaliação da Casa Civil desde novembro do ano passado. O ministério confirmou a reunião na segunda-feira para tentar achar uma solução para conter o acesso dos haitianos.
Os haitianos, para chegar no Brasil, passam pelo Equador, Bolívia e chegam à cidade de Iñapari, no Peru, separada de Brasiléia por uma ponte. Mourão afirmou que o governo brasileiro deveria pedir a cooperação dos governos dos outros países para impedir momentaneamente o fluxo dos haitianos.
— Se fechar a fronteira nesse ponto, em Iñapari, eles ficam retidos lá. Ou se fechar entre o Peru o Equador, eles nem iniciam a viagem. O Brasil deveria fazer gestão junto a esses países. Eles passam livremente lá e o destino deles é aqui. A ideia é fechar momentaneamente a fronteira e, depois que a situação se regularizar, liberamos novamente.
O secretário afirmou também que já há problema de alimentação. São servidas diariamente 3.600 refeições e já faltam insumos, como carne e frango, para todos os estrangeiros. Brasiléia é uma cidade pequena, com apenas 10 mil habitantes.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Brasil esconde emergência humanitária no Acre

conectas
http://www.conectas.org/politica-externa/brasil-esconde-emergencia-humanitaria-no-acre

Brasil esconde emergência humanitária no Acre

Campo de ‘refugiados’ abriga mais de 800 haitianos em condições desumanas. Para Conectas, Brasil maquia crise internacional e deve articular solução urgente no âmbito da ONU e da OEA

12/08/2013

O governo brasileiro faz uso há meses de um jogo de palavras – entre migração e refúgio – para minimizar a grave crise humanitária instalada na cidade acreana de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, 240 km a sudoeste da capital do Estado, Rio Branco.

Mais de 830 imigrantes – quase todos, haitianos – vivem confinados num galpão, com capacidade para apenas 200 pessoas, em condições insalubres de higiene, repartindo o uso de apenas 10 latrinas e 8 chuveiros, onde não há distribuição de sabão nem pasta de dente, o esgoto corre a céu aberto e as pessoas são empilhadas durante meses num local de 200 m2, com teto de zinco, no qual lonas plásticas negras servem de cortina, sob temperaturas que chegam aos 40 graus. O hospital local diz que 90% dos pacientes provenientes do campo têm diarreia. O local já abriga 4 vezes mais pessoas do que deveria e 40 novos haitianos chegam todos os dia.

“É insalubre, desumano até. Os haitianos passam a noite empilhados uns sobre os outros, sob um calor escaldante, acomodados em pedaços de espuma que algum dia foram pequenos colchonetes, no meio de sacolas, sapatos e outros pertences pessoais. A área onde estão as latrinas está alagada por uma água fétida, não se vê sabão para lavar as mãos e quase todos com os que conversamos se queixam de dor abdominal e diarreia. Muitos passam meses nessa condição”, disse João Paulo Charleaux, coordenador de Comunicação da Conectas, que esteve no local.

Conectas realizou uma missão a Brasiléia do dia 4 ao dia 6 de agosto, onde gravou 20 entrevistas com moradores do campo, conduzidas pela pesquisadora convidada da Conectas Gabrielle Apollon, no idioma creole, falado pelos haitianos. Gabrielle já havia feito previamente outras 27 entrevistas com haitianos que conseguiram chegar a São Paulo, totalizando mais de 20 horas de depoimentos gravados. Nas histórias, eles contam como chegam ao Brasil depois de gastar até US$ 4 mil em pagamentos a atravessadores no trajeto desde o Haiti.

Os haitianos também dizem que a concessão de ‘visto humanitário’ na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe não funciona como prometido – atravessadores cobram taxas, não há informação clara sobre os procedimentos, é difícil conseguir atendimento e tem sido pedido currículo para favorecer o que se chama “imigração qualificada” ao Brasil, sem levar em conta justamente o caráter “humanitário” que este visto deveria ter, de acordo com o próprio governo brasileiro.

“Posso dizer que o que vivemos aqui em Brasiléia não é para um ser humano. Eles nos colocaram de novo no Haiti que tínhamos logo após o terremoto: a mesma sujeira, o mesmo tipo de abrigo, de água, de comida. Isso me machuca e me apavora. Eu sabia que o caminho até aqui seria duro, porque você está lidando com criminosos, mas, ao chegar aqui no Brasil, estar num lugar desses é inacreditável”, disse o haitiano Osanto Georges, de 19 anos.

No campo superlotado, as brigas para formar filas são constantes. “No dia em que chegamos, a polícia sacou arma de fogo para controlar um distúrbio. É evidente que se trata de uma tarefa complexa demais para ser gerida da forma como está sendo. A situação no campo é semelhante em muitos aspectos ao que eu mesmo vi quando estive no Haiti, pouco após o terremoto, em 2010. Trata-se de uma questão regional, que envolve, pelo menos cinco países: Brasil, Peru, Bolívia, Equador e Haiti. Pediremos a realização de uma audiência temática na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA e enviaremos nossas constatações a dois relatores independentes da ONU, um para migrantes e outro designado para acompanhar a situação de direitos humanos no Haiti”, disse Charleaux.

Membros da organização também entrevistaram in loco médicos do hospital de Brasiléia, policiais, membros do Ministério Público Federal e do Conselho Tutelar e autoridades de governo, em Rio Branco, além de diversos moradores da cidade acreana. A organização também usou duas vezes a Lei de Acesso à Informação para obter de diversos ministérios, em Brasília, informações acuradas sobre a situação. Na maioria dos casos, os nomes das fontes estão omitidos obedecendo a pedidos expressos de funcionários públicos que não possuem autorização formal para falar em nome das organizações para as quais trabalham.

‘90% tem diarreia’
Quase todos os haitianos entrevistados pela Conectas entre 4 e 6 de agosto se queixaram de dor abdominal e diarreia. Conectas visitou o Hospital Raimundo Chaar, de 46 leitos, responsável por atender casos de urgência e emergência na cidade. De acordo com membros da equipe, já houve surtos de diarreia que levaram 40 haitianos ao pronto socorro de uma só vez. Um dos funcionários explica que o hospital não recebe nenhum recurso adicional para lidar com o fluxo de haitianos. “Os políticos estão tratando isso aqui como se fosse um assunto de diplomacia, mas, enquanto isso, todos os dias, estamos importando miséria e doença sem poder lidar com isso”, disse, revelando parte do preconceito e rechaço preocupantes na cidade. A informação é confirmada por plantonistas, que se dizem espantados com o fluxo de novos pacientes. Segundo eles, são atendidos em média 4 haitianos por dia, mas no dia em que o hospital recebeu a Conectas, houve 10 atendimentos de haitianos do campo, só no período da manhã. A consulta é feita sem o auxílio de tradutores e, segundo as fontes ouvidas no local, “90% dos casos são de diarreia e 10% de doenças respiratórias”. As pessoas responsáveis pelo atendimento disseram nunca ter entrado no campo e receberam com surpresa a informação sobre as condições de higiene no local.

‘Vai piorar’
De acordo com o coordenador do campo, Damião Borges, do Governo do Estado do Acre, o campo vem recebendo 40 novos haitianos por dia, apesar de a última alteração estrutural ter ocorrido há quatro meses. Ele diz que o aumento do número de recém chegados, combinado com a diminuição da oferta de vagas por parte de empresas que antes buscavam trabalhadores no campo, está criando um caos social para os próprios haitianos no Brasil. “Isso precisa ter um fim porque nossos recursos se esgotaram. O Estado tem uma dívida de R$ 700 mil com a empresa que provê alimento para o abrigo e o prazo para pagar termina no dia 15 de agosto. Precisamos urgentemente que o Governo Federal nos ajude. Aqui foi posto R$ 4,5 milhões pelo Governo do Estado e R$ 2 milhões pelo Governo Federal, em 2 anos e 8 meses. Mas o peso, mesmo, quem carrega, é a cidade de Brasiléia. Isso não pode estar a cargo de um município pequeno e modesto como esse”, disse. A Conectas foi informada, durante a missão, que há 3 meses não há repasse de verba do Governo Federal para o Estado do Acre destinado ao atendimento dos migrantes haitianos. Mais grave, não há previsão de novas remessas.

Queixas sobre água e comida
O maior número de queixas recebidas no campo diz respeito à qualidade da água e dos alimentos consumidos. O local possui um único ponto de distribuição de água potável, um filtro industrial, com três torneiras. Para a administração, as dores abdominais são causadas pelo efeito do cloro, que “provoca diarreia de três dias em pessoas que possuem muitas amebas no organismo”. Outro aspecto negativo mencionado é a má qualidade dos alimentos, que, para os gestores do serviço, tem a ver com a diferença de paladar e de hábitos alimentares entre brasileiros e haitianos. Ainda que os problemas relatados se deem por essa razão, pouco se tentou para alterar substancialmente o cardápio. As refeições são distribuídas em marmitas de papel alumínio enquanto a Polícia Militar monta guarda ao lado da fila de mais de 800 pessoas. Os relatos de brigas nas filas são frequentes.

Crianças desacompanhas e indocumentadas
Outro local visitado pela Conectas foi o Conselho Tutelar de Brasiléia, por onde passaram 20 casos de crianças e adolescentes haitianos sem documentos ou separadas dos pais. Mas, no dia 7 de agosto, quando a missão da Conectas já havia regressado a Rio Branco, 5 crianças haitianas chegaram ao campo. “Estamos muito além de nossas modestas capacidades. Esse, para mim, é o pior momento, desde que os haitianos começaram a chegar”, disse um dos membros do Conselho Tutelar. Apesar do aumento de trabalho, não houve, segundo a fonte, nenhum aporte adicional de recursos, estrutura material ou funcionários desde o início da crise. Ao todo, 5 conselheiros trabalham no local, atendendo todos os problemas relativos a crianças e adolescentes na cidade. “De repente, uma pequena cidade como essa tem de lidar com um fenômeno deste tamanho, sem sequer receber qualquer preparação”, complementou. Entre os haitianos, há inúmeros relatos de roubo de documentos – entre muitos outros pertences – no caminho até chegar ao Brasil.

Comunidade local
“Brasiléia é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. Os moradores não aguentam mais essa situação. Isso pode se desdobrar em ações de hostilidade”, disse à Conectas, em Rio Branco, uma autoridade do Governo do Estado do Acre. A declaração reflete o estado de espírito dos moradores desta cidade pequena, de apenas 20 mil habitantes. Embora os moradores mostrem compreensão e solidariedade com os haitianos, as manifestações de cansaço e descontentamento são cada vez mais frequentes. Os moradores do campo competem por vagas com os moradores locais nos postos de saúde, supermercados, padarias, agências bancárias, farmácias, correios e demais serviços públicos.

Funcionários
Uma das constatações evidentes é a desproporção entre o número de funcionários e o número de moradores no campo. Ao longo de três dias, apenas 2 funcionários trabalharam em período integral no campo, atendendo diretamente os 832 haitianos, num pequeno trailer com um computador e um ventilador. Apesar da dedicação integral, os funcionários são locais, não falam o idioma dos haitianos e não receberam o treinamento necessário, nem possuem experiência prévia na gestão de questões humanitárias, aplicando a este contexto complexo a lógica de atendimento a ocorrências próprias de uma pequena cidade. Não basta boa vontade e dedicação. Apesar das constantes viagens ao local de membros do Governo do Estado do Acre, baseados em Rio Branco, faz-se necessária a constituição urgente de um corpo de trabalhadores familiarizados com crises humanitárias para gerir o campo.

Comunicação
O campo e o hospital não dispõem de nenhum tradutor. Os poucos funcionários tentam falar espanhol, mas os haitianos, na imensa maioria dos casos, falam apenas creole. As instruções para formar filas ou entregar documentos são feitas no grito, o que aumenta a incerteza e a ansiedade dos haitianos, que muitas vezes se aglomeram e brigam por espaço diante do pequeno trailer da Polícia Militar, que serve de escritório da administração do campo. Não há nenhuma senhalética no campo, ou serviço de amplificação de voz. Os poucos cartazes em creole estão escritos à mão. No campo, não há cartazes sobre DST/Aids nem sobre hábitos de higiene, assim como cartilhas sobre direitos ou qualquer outro material comunicacional com orientação aos recém chegados.

Refúgio x Visto Humanitário
Todos os residentes do campo são oficialmente solicitantes de refúgio, por orientação do próprio Governo, que, após 6 meses de análise dos pedidos, prorrogados por mais 6 meses, nega a concessão do refúgio a todos os haitianos.

Este arranjo legal, enquadrado numa política chamada pelo Brasil de “visto humanitário”, evita a deportação dos haitianos que chegam ao País, uma vez que a lei proíbe a deportação de solicitantes de refúgio durante o período de tramitação do pedido. O improviso, entretanto, está fazendo com que uma grave crise humanitária – originada por uma situação de violência interna, seguida de diversos desastres naturais, o último deles um terremoto responsável pela morte de 220 mil pessoas no Haiti – seja tratada como um simples problema migratório no Brasil. “A principal consequência disso é uma abordagem improvisada, amadora e descoordenada, que sobrecarrega o pequeno município de Brasiléia e sua população, quando, na verdade, deveria ser gerida por especialistas em emergências humanitárias desta complexidade. Do ponto de vista humanitário, a questão do nome do visto que se dê é agora menos urgente do que as condições brutais enfrentadas no campo. Esta política de visto humanitário está sendo tudo, menos humanitária”, disse Charleaux.

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