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sábado, 13 de junho de 2015

Friboi, a campeã nacional em acidentes

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=85323


Friboi, a campeã nacional em acidentes

Agência Pública
Adital
Por Maurício Moraes
Dados do Ministério da Previdência mostram que a JBS, dona da marca Friboi, é a campeã em acidentes de trabalho em frigoríficos no Brasil
Nos comerciais da Friboi na TV, o roteiro se repete. O ator Tony Ramos faz uma visita-surpresa à casa de um consumidor, para perguntar qual carne costuma comprar, e encontra um produto da marca na geladeira. "Carne confiável tem nome”, diz o artista. Quando fiscais aparecem, repentinamente, nas unidades da JBS, dona da Friboi, o resultado tende a ser previsível como a propaganda. Irregularidades e violações de direitos trabalhistas são tão frequentes que deixaram 7.822 funcionários da empresa doentes ou incapacitados para o trabalho nos últimos quatro anos. Isto equivale a cinco acidentes por dia durante todo o período.
Dados inéditos obtidos pela Públicacom o Ministério da Previdência Social, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que a JBS foi a campeã em comunicados de acidentes de trabalho, de 2011 a 2014, somando-se os setores de abate de gado e de fabricação de produtos de carne. No setor de abate de aves – em que começou a se expandir nos últimos dois anos, com a compra da Seara e de outros frigoríficos –, a empresa já subiu para o segundo lugar, em 2014, e ficou quase empatada com a BRF (antiga Brasil Foods).

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Funcionários da JBS trabalham em uma linha de produção da unidade de Rolândia (PR), interditada após fiscalização. Foto: MPT/PR


Com lucro líquido de US$ 2,04 bilhões, em 2014, a JBS é, hoje, o maior grupo privado do país em faturamento e a maior processadora de carnes do mundo. No ano passado, as vendas somaram R$ 120 bilhões. Este gigantismo foi conseguido com a ajuda de dinheiro público. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da BNDES Participações (BNDESPar), fez aportes de R$ 8,1 bilhões para favorecer aquisições, tornando-se seu maior sócio. A BNDESPar chegou a deter um terço do grupo. Em 2012, repassou uma cota equivalente a 10% de participação para a Caixa Econômica Federal e manteve-se com 24,5%. O grupo foi também o maior doador na campanha eleitoral do ano passado e destinou R$ 366,8 milhões a candidatos e partidos políticos.
A maioria dos acidentes da JBS no país ocorreu no setor de abate de bovinos, uma área historicamente perigosa para os trabalhadores. Foram registrados 4.867 comunicados no total: 1.294, em 2011, 1.225, em 2012, 1.261, em 2013, e 1.087, em 2014. Nesse setor, a empresa foi responsável por um em cada quatro acidentes informados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2011 e 2013 – cerca de 25% ao ano. Houve redução de 14% nos comunicados da JBS de 2013 para 2014, mas a empresa ainda concentrou um em cada cinco acidentes reportados no último ano (21%) e ficou atrás apenas da Marfrig.

Evolução dos acidentes de trabalho na JBS (2011-2014)
apublicaNa área de fabricação de produtos de carne, foram 506 acidentes reportados em 2011, 262, em 2012, 327, em 2013, e 369, em 2014 (incluindo a Seara, comprada em 2013). Nos quatro anos, a JBS foi a empresa com maior quantidade de casos. Já no setor de abate de aves, os incidentes começaram a aparecer em 2012, com a criação da divisão JBS Aves a partir do arrendamento da Doux Frangosul. Foram 49 comunicados naquele ano. Em 2013, a quantidade subiu para 289. Em 2014, depois da aquisição da Seara, houve um salto para 1.153 casos.
Ao todo, 3.110 acidentes da JBS de 2011 a 2014 (39%) ocorreram na Amazônia Legal, principalmente no Mato Grosso. O Estado tem o maior rebanho bovino do país, com 28,3 milhões de cabeças, segundo a pesquisa Produção da Pecuária Municipal de 2013, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O grupo mantém unidades também no Acre, no Maranhão, no Pará e em Rondônia. Foram registrados 713 incidentes na Amazônia Legal em 2011. O número passou para 821 em 2012, 840 em 2013 e 736 em 2014. Apesar das flutuações, foram dois por dia, em média, a cada ano.
Acidentes de trabalho na JBS por estado (2011-2014)
apublicaBaixe a tabela completa com os dados sobre comunicados de acidentes de trabalho em frigoríficos, de 2011 a 2014

Infrações deliberadas
Os dados fornecidos pelo Ministério da Previdência Social confirmam a percepção dos procuradores do Ministério Público do Trabalho que fiscalizam de perto esses setores. "A JBS tem uma política deliberada de precarização dos direitos fundamentais dos trabalhadores”, afirma o procurador Sandro Eduardo Sardá, gerente nacional do Programa de Adequação das Condições de Trabalho nos Frigoríficos. "Isso vem gerando uma legião de trabalhadores amputados e mortos em razão de acidentes de trabalho.” O grupo foi criado em 2010 por causa do elevado número de problemas registrados nesse tipo de empresa.
De acordo com Sardá, a JBS mantém condições ruins de trabalho para obter o máximo de lucro. Isso é feito de várias maneiras. Em uma das mais comuns, adota-se um ritmo excessivo – e, portanto, ilegal – na jornada dos funcionários. "É um ritmo de trabalho incompatível com a proteção à saúde dos trabalhadores”, diz o procurador. Nos frigoríficos de aves, isso leva muitos dos funcionários a adquirirem doenças ocupacionais. Nos frigoríficos de bovinos, tem como resultado uma grande quantidade de amputações.
Uma amostra da extensão do problema pôde ser vista recentemente. No dia 13 de maio, uma força-tarefa formada pelo Ministério Público do Trabalho, pelo Ministério do Trabalho e Emprego, pelo INSS, pela Receita Federal e pela Advocacia-Geral da União interditou 45 máquinas que apresentavam riscos à saúde dos trabalhadores, em uma unidade de abate de frangos da empresa em Rolândia, no Paraná. Com 4 mil funcionários, a fábrica pertence à Big Frango, adquirida pela JBS no ano passado, e abate 400 mil frangos por dia.
Entrevistas feitas com 400 trabalhadores durante a operação mostram as consequências de uma jornada excessiva. Uma parcela de 52,9% dos funcionários ouvidos – ou seja, mais da metade – admitiu terem tomado algum tipo de remédio, aplicado emplastros ou feito compressas para poderem trabalhar nos 12 meses anteriores. Além disso, 38% deles disseram sentir uma dor forte durante a realização de suas atividades. Terminado o dia de trabalho, 75,4% afirmaram ficarem cansados (35,1%), muito cansados (23%) ou exaustos (17,3%).
A força-tarefa escolheu essa unidade, entre tantas outras, por meio de cruzamentos de dados públicos e privados. Os procuradores identificaram uma enorme quantidade de consultas médicas relacionadas ao trabalho no ano passado. Foram 2.033, além de 70.279 atendimentos de enfermagem, equivalentes a 225 por dia nessa fábrica. Já os afastamentos por doenças osteomusculares ou traumas somaram 6 mil horas em 2014.
Tipos de acidentes de trabalho na JBS (2011-2014)
Muitos dos problemas vêm da gestão anterior, mas os resultados da operação indicam que não houve mudanças significativas. "Algumas empresas já tinham condições ruins de trabalho, em razão de má administração. Eles vieram, adquiriram essas indústrias e a situação dos trabalhadores piorou, envolvendo a questão salarial e a questão de saúde”, diz Ernane Garcia Ferreira, presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação do Estado do Paraná (FTIAPR). "Lucro, lucro, lucro. Essa é a visão da empresa.”
Mais rápidos que máquinas
Uma fiscalização na unidade de Montenegro (Rio Grande do Sul), no início do ano passado, resultou na interdição de máquinas e atividades. Foram aplicados 33 autos de infração após a visita. Entre as irregularidades, uma das que mais chamaram a atenção dos fiscais foi a situação dos funcionários responsáveis por embalar frangos do tipo griller – um galeto pequeno, exportado principalmente para o Oriente Médio. Para colocar a ave dentro de um saco plástico, é necessário passá-la dentro de um funil. Os funcionários escalados para a tarefa realizavam nada menos de 90 movimentos por minuto com os braços.
Com isso, os trabalhadores conseguiam embalar 30 frangos por minuto, ou um frango a cada dois segundos, aproximadamente, com três movimentos. Não existem máquinas capazes de atingirem tamanha produtividade. As mais rápidas embalavam 15 frangos por minuto, metade da velocidade de um funcionário da JBS. "Se uma máquina consegue dar conta apenas dessa produção, imagine o nível de exigência dos músculos, dos tendões, dos braços do trabalhador nesse posto”, afirma Mauro Müller, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego no Rio Grande do Sul. Ao todo, 93% dos empregados entrevistados no setor disseram terem sentido dor na semana anterior à visita.
A mesma operação verificou as condições na unidade de Passo Fundo (RS) e encontrou funcionários lidando com uma quantidade de peso acima do normal. No setor de descarregamento de frango vivo, havia pessoas manuseando 50 toneladas por dia. O máximo permitido pela legislação, no entanto, são 10 toneladas diárias. A fábrica também usa empilhadeiras e paleteiras elétricas movidas à bateria, que pesam 1,1 tonelada cada. A troca dessas baterias, feita a cada turno, era manual. Os funcionários usavam o corpo para fazer a substituição, empurrando ou puxando as peças.
A fiscalização dos relógios de ponto na unidade de Passo Fundo, de 16 de maio a 15 de dezembro do ano passado, identificou cerca de 27 mil jornadas além do limite permitido. "É muita coisa. É, praticamente, o setor produtivo todo trabalhando uma média diária de 9h40”, diz Müller. "A partir do momento em que você prorroga a jornada além das oito horas, estaria aumentando em 50% o risco de adoecimento por LER/Dort [lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho]. É muito grave. Há o aumento da jornada, o aumento da fadiga e o aumento do risco de adoecimento num ambiente que tem vários outros fatores de risco”.
No Mato Grosso, estado que concentra a maior quantidade de acidentes da JBS, uma das linhas de atuação do Ministério Público do Trabalho tem sido impedir as horas extras em ambientes insalubres. "A atividade do frigorífico tem ritmo intenso, com um grande número de movimentos na unidade do tempo, atuando em baixas temperaturas. Então, há uma porção de riscos”, explica Leomar Daroncho, procurador do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso. "Tem uma série de condenações com fundamento da insalubridade. Nessas condições, não é razoável que os trabalhadores fiquem expostos além do número de horas que a legislação permite”.
Desobedecer à jornada de trabalho máxima permitida, no entanto, não é exclusividade da JBS. Isso vale para outras transgressões à legislação cometidas em frigoríficos. "Os problemas que o setor tem, a JBS também tem. Sob o ponto de vista trabalhista, não é muito diferente do que ocorre com as demais empresas. Como é a maior, é claro que tem mais problemas”, diz Daroncho. "No Mato Grosso, o setor de frigoríficos é o que mais tem mais acidentes de trabalho e está bem à frente do segundo lugar.” Ele estima que de 30% a 35% das ações na Justiça do Trabalho no estado envolvam essas empresas.
As 10 empresas do setor frigorífico com mais acidentes (2011-2014)
apublicaSalários baixos são comuns, principalmente porque muitos frigoríficos estão instalados em cidades pequenas, com poucas opções de inserção no mercado de trabalho. Isso estimula a prestação de horas extras. "O trabalhador acaba buscando na jornada excedente uma forma de sobreviver, de custear a sua vida. E com isso ele produz a médio prazo sérios problemas em relação à integridade física dele mesmo”, ressalta Daroncho.
Também falta muitas vezes uma estrutura física adequada para o trabalho. Funcionários da JBS da área fria na unidade de Pontes e Lacerda (MT), por exemplo, não tinham um lugar adequado para descansar. Depois de trabalharem a quase zero grau, ficavam em ambiente externo, cuja temperatura às vezes beirava 40 graus. Uma decisão judicial, de novembro do ano passado, obrigou a empresa a construir um espaço refrigerado para as pausas. Determinações como essa trazem multas pesadas se forem descumpridas.

Realidade oculta
Os dados de acidentes de trabalho da JBS e de outras empresas podem esconder um cenário muito pior. Isso porque o setor de frigoríficos é conhecido por não comunicar muitas das ocorrências. Com medo de perder o emprego ou as bonificações que melhoram os baixos salários, funcionários costumam trabalhar adoentados. "Há os casos que vão para a mídia e também aqueles que não aparecem. O trabalhador corta o dedo, recebe quatro, cinco pontos e vai trabalhar, porque é o encarregado daquele dia. Se faltar, perde prêmio de abate, de couro, de desossa. Então prefere trabalhar acidentado a ficar afastado”, diz Vilson Gimenes Gregório, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Carne e Derivados de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Acidentes de trabalho na JBS por tipo de atividade econômica (2011-2014)
O assédio moral na linha de produção, segundo Gregório, também é comum. "O trabalhador está ali, fazendo o serviço. Os supervisores querem que faça mais rápido e gritam. As mulheres querem ir ao banheiro e não podem ir antes do intervalo. Se forem, são preguiçosas, não querem trabalhar. Esse é o tratamento deles”, afirma o sindicalista. Benefícios acertados em convenção coletiva, como cesta básica, às vezes, são cortados pela empresa se o funcionário faltar, o que é ilegal. "Eles não respeitam os acordos coletivos. Passam por cima de tudo e fazem do jeito deles”, diz Gregório. Até mesmo atestados de saúde que determinam afastamentos têm o tempo reduzido sem a devida justificativa.
O índice de subnotificação de acidentes de trabalho no setor pode passar de 90% a 95%, calcula o procurador Heiler Ivens de Souza Natali, coordenador nacional do Programa de Adequação das Condições de Trabalho nos Frigoríficos. De acordo com Natali, o problema acaba sendo evidenciado com a atuação das forças-tarefa que fazem inspeções nas unidades. Quando os fiscais descobrem afastamentos que podem ter ocorrido devido à natureza da atividade e não foram comunicados, isso pode resultar em uma ação judicial, por exemplo. Por isso, os dados de comunicados de acidentes de trabalho segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), divulgados pelo Ministério da Previdência Social, são apenas uma amostra do que ocorre de fato.
Diante do enorme número de problemas, Natali afirma que a JBS tem feito algumas mudanças para diminuir a quantidade de acidentes de trabalho nos seus frigoríficos. "A JBS tem uma política de segurança que está tentando implementar. Isso é verdade”, afirma. "Só que há uma outra discussão: se essa política está adequada e se ela está em vigor nas unidades do Brasil inteiro. E, para os dois questionamentos, a resposta, em princípio, não é afirmativa.” A realidade não corresponde às imagens mostradas na publicidade.

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Apesar de um acidente já ter ocorrido nesta máquina de limpar moela, ela continuava em operação sem as proteções necessárias em unidade da JBS Friboi. Foto: Divulgação MTE / Repórter Brasil


A situação torna-se ainda mais complicada por causa do modo como o grupo se expande no país. Em vez de comprar empresas saudáveis e lucrativas, a JBS prefere adquirir frigoríficos altamente endividados. "Considerada a política de aquisições da JBS, que não parece levar em consideração as condições de trabalho oferecidas pela empresa que está sendo adquirida, imaginamos que o reflexo disso seja a existência de um número de unidades com elevado nível de violações de direitos trabalhistas”, afirma Natali. Segundo o procurador, isso resultará, mais tarde, em um cenário litigioso.
Pública procurou a JBS para saber por que o número de acidentes de trabalho nas unidades da empresa é tão elevado. Perguntamos também que tipos de medidas vêm sendo tomadas para diminuir esse tipo de ocorrência e quanto do faturamento tem sido investido em programas de prevenção e redução de acidentes nos últimos anos. Questionamos ainda por que interdições de máquinas e condenações judiciais são tão frequentes nas unidades do grupo.

Um vídeo incômodo

Um dos atritos mais recentes entre os sindicatos e a JBS é a questão do plano de saúde. Nas unidades de Forquilhinha (Santa Catarina) e Nova Veneza (Paraná), a empresa reajustou o valor do plano individual e tentou cobrar uma taxa adicional de R$ 104 para cada dependente. Isso aumentaria o impacto no contracheque dos funcionários. Como os salários giram em torno de R$ 1.000, abatimentos extras poderiam inviabilizar a adoção do benefício. Em outros locais, como os frigoríficos de abate de bovinos, os trabalhadores não têm plano e a empresa não queria concedê-lo.
Como o grupo se recusava a negociar, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Alimentação (Contac/CUT) produziu um vídeo em que denunciava o problema e publicou o conteúdo no YouTube, em fevereiro deste ano. O filme, de pouco mais de um minuto, foi inspirado nas propagandas da JBS e recebeu legendas em inglês. Uma consumidora chega ao açougue e pede a carne "daquele ator famoso”. O atendente, então, fala sobre o reajuste do plano de saúde. Assustada, a cliente decide adquirir outro produto.

A Contac também convocou uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, para denunciar as más condições de trabalho nos frigoríficos do grupo. Foi o que bastou para a JBS criar uma mesa de negociações com os sindicalistas. A primeira reunião ocorreu em 12 de março, dia do protesto, que acabou desmarcado. "A empresa passou a dialogar com a gente”, afirma Wagner do Nascimento Rodrigues, secretário-geral da FTIAPR. "Infelizmente o diálogo ainda não gerou como fruto a solução de problemas”.
Os encontros com os sindicalistas têm ocorrido uma vez por mês, em média, desde março. Outras questões trabalhistas também são debatidas com Wesley Batista, presidente executivo da JBS, como a adoção de um piso salarial unificado para os funcionários em todo o país. "Iniciamos uma pauta nacional”, diz Siderlei de Oliveira, presidente da Contac. "Já começamos a discutir o plano de saúde. Vamos ver se avançamos mais aí. Pelo menos mudou esse aspecto de relação sindical, que nós não tínhamos há anos”.
Leia também:

Veja a resposta da JBS [Friboi] sobre acidentes de trabalho


Agência Pública

Agência de Reportagem e Jornalismo investigativo.
http://apublica.org/

sábado, 16 de maio de 2015

As grandes lições do terremoto do Nepal

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542604-as-grandes-licoes-do-terremoto-do-nepal


As grandes lições do terremoto do Nepal

Todo o mundo sabia há anos que quando um terremoto sacudisse o Nepal, localizado em uma das zonas sísmicas mais ativas do sul da Ásia, a quantidade de mortos e os danos seriam descomunais. “Estima-se que as perdas humanas, só no vale de Katmandu, no caso de um evento sísmico importante, serão catastróficas”, alertou Mahendra Bahadur Pandey, ministro de Assuntos Exteriores do Nepal, na Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Redução do Risco de Desastres, realizada em março na cidade japonesa de Sendai.
A reportagem é de Amantha Perera, publicada por Envolverde, 13-05-2015.
Apenas algumas semanas depois, em 25 de abril, houve o terremoto de 7.8 graus de magnitude. Mais de 8.500 pessoas foram declaradas mortas, enquanto centenas continuam desaparecidas. As autoridades temem que o saldo de mortes aumente nos próximos dias. Mais de 17.500 pessoas estão feridas e 10 hospitais ficaram completamente destruídos, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Dos 27 milhões de habitantes do país, cerca de oito milhões, principalmente nas regiões ocidental e central, são vítimas do desastre.
As cidades maiores, como Katmandu e Pokjhara, foram muito afetadas. Nas 72 horas após o terremoto mais de meio milhão de pessoas fugiram da capital para zonas periféricas. O Nepal luta para atender as necessidades de uma população assediada e assustada, que resistiu à inúmeras réplicas do sismo na semana posterior ao terremoto.
Centenas de famílias continuam vivendo em barracas de campanha, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) solicitou fundos para a ajuda alimentar de emergência destinada a cerca de 3,5 milhões de pessoas. Os médicos atendem os pacientes na rua. A OMS destinou US$ 1,1 milhão ao pessoal e suprimentos médicos e já tratou de 50 mil pacientes nos 14 distritos mais gravemente afetados.
Mas, há um limite para o que podem fazer as agências de ajuda e os países doadores, e os especialistas consideram que o governo não está preparado para assumir a maior parte dos esforços de recuperação. “Trata-se de uma enorme operação de ajuda, provavelmente a maior que já realizamos na região”, afirmou à IPS Orla Fagan, porta-voz do escritório regional doOCHA em Bancoc, na Tailândia. A reconstrução a longo prazo poderia custar até US$ 5 bilhões, e as agências da ONUinformaram nos últimos dias que necessitam de pelo menos US$ 415 milhões para a ajuda imediata e nos próximos três meses.
Fagan explicou que, como a ameaça era conhecida, o Nepal havia alcançado antes do terremoto certo grau de coordenação e preparação em caso de desastres, sobretudo com relação à formação e sensibilização das pessoas. “Houve coordenação entre governo e as agências da ONU, mas em escala muito pequena. Deve-se compreender que esse é um dos países mais pobres do mundo e os recursos são extremamente escassos”, acrescentou a porta-voz.
Nepal está na lista de países menos adiantados e ocupa o 145º lugar entre 187 países no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Também tem uma dívida superior a US$ 3,8 bilhões com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Asiático de Desenvolvimento. Em 2014 o governo destinou mais de US$ 217 milhões para o pagamento dessa dívida, alguns recursos teriam sido essenciais para melhorar seus sistemas de preparação e gestão de desastres. 
Apesar do risco real de sofrer terremotos, chuvas torrenciais, deslizamentos de terra e transbordamento de lagos glaciais, suas políticas de resposta em caso de desastre continuam sendo regidas pela Lei de Ajuda Diante das Calamidades Naturais de 1982. O parlamento ainda não ratificou um projeto de lei de 2008 que prevê a criação de uma Autoridade Nacional de Gestão de Desastres. “A esperança agora e que com todos os recursos internacionais e a boa vontade recebidos o Nepal possa construir uma política e um mecanismo de preparação para os desastres naturais mais forte”, ressaltou Fagan.
“Em primeiro lugar, os fundos devem ser usados para as intervenções de recuperação”, recomendou SI Arambepola, diretor do Centro Asiático de Preparação para os Desastres, em Bancoc. “Mas uma parte dos fundos deve ser empregada para desenvolver um mapa do caminho para um Nepal que seja resistente aos desastres”, acrescentou.
“O documento também identificaria as funções e responsabilidades de diversas agências governamentais na aplicação, assegurando que o governo inicie um plano de longo prazo para a redução do risco de desastres com o apoio da comunidade de desenvolvimento”, disse o especialista à IPS. Esse documento especificaria quais divisões emitiriam os alertas, quais as difundiriam e quais seriam encarregadas das evacuações, por exemplo.
Arambepola acredita que o Nepal poderá aprender com seus vizinhos que também experimentaram desastres naturais. “O Nepal deve seguir o exemplo de outros países do sul da Ásia, como ÍndiaPaquistão e Sri Lanka, para desenvolver a política, os marcos jurídicos e o marco institucional para a redução do risco de desastre”, apontou.
Sri Lanka, em particular, é um bom exemplo porque em 2004 teve uma crise semelhante, totalmente sem preparação para enfrentar a devastação do tsunami asiático que deixou o saldo de 35 mil mortes, mais de um milhão de pessoas sem lar e um custo de reconstrução superior aos US$ 3 bilhões.
O ex-secretário do Ministério de Gestão de Desastres do Sri Lanka, SM Mohamed, assegurou que o tsunami os obrigou a “despertar” porque desatou os esforços do governo e da sociedade civil para que o país nunca mais estivesse em uma situação de guarda baixa. O caminho para uma gestão melhor e uma preparação mais sólida nem sempre foi tranquilo, mas o Sri Lanka avançou muito desde aquele fatídico dia, e uma das medidas foi a criação do Centro de Gestão de Desastres (CGD).
Este organismo se converteu no principal centro nacional para a preparação em caso de desastres, bem como na agência pública central para a coordenação do socorro e alertas. Conta com escritórios nos 25 distritos do país cujo pessoal está preparado para se deslocar a qualquer momento. Em abril de 2012 o CGD dirigiu a evacuação de mais de um milhão de pessoas da costa, devido a uma ameaça de tsunami.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Por que opor-se a usinas nucleares? Da inquietação ao pânico. Ou à indignação?

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10414:meioambiente130115&catid=72:imagens-rolantes


Por que opor-se a usinas nucleares? Da inquietação ao pânico. Ou à indignação?



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ESCRITO POR CHICO WHITAKER   
TERÇA, 13 DE JANEIRO DE 2015



“É perigoso viver no mundo. Não tanto por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que olham e deixam que aconteça”.
Albert Einstein (1)

Quando se questiona o uso da energia nuclear, na matriz energética brasileira, o primeiro argumento de quem a defende é de que só ela pode oferecer energia sem interrupção. E que já nisso ela é muito superior à hidráulica, porque a água que move as turbinas pode faltar. E à solar – que não produz eletricidade à noite – ou à eólica – que deixa de produzi-la quando o vento para. Além disso, por que prescindir da energia nuclear, se a demanda de energia elétrica, num país em desenvolvimento, é crescente, e isto nos obriga a utilizar todas as opções existentes, ainda mais quando as “alternativas” que, embora existam, produzem energia ainda muito cara?

Se estes argumentos não nos convencem, nos lembram imediatamente as vantagens econômicas comparativas da energia nuclear. E que ela é a que menos interfere nas condições de vida da população e no meio ambiente. Não se está aventando que pode ser solução até para o aquecimento global? E mais: ela é a mais limpa. Uma afirmação final encerra a discussão: ela é também a mais segura!

Não podemos, então, nos darmos por vencidos, até porque tais discussões exigem conhecimentos de que nem sempre dispomos. Na verdade, há uma enorme distância entre o que sabemos – os comuns dos mortais – de física, química, engenharia, economia, e os conhecimentos exigidos para se falar com um mínimo de propriedade do uso da energia atômica para produzir eletricidade. O tema é para especialistas, como se diz. Quem não o conhece e ousa abordar a questão corre o risco de ser logo desqualificado. E quando o somos ficamos inibidos e inseguros até para nos exprimirmos. De fato, temos que nos recolher à nossa ignorância.

Mas apesar disso conseguimos facilmente perceber que tudo que acontece com usinas nucleares é envolto em mistério e segredo, e a informação a respeito logo desaparece. É certo que estamos permanentemente imersos num mar de informações sempre renovadas, substituídas por outras mais espetaculares. Mas parece que há coisas que não deveríamos ter sabido. Por quê?

E ainda uma grande dúvida continuará nos alfinetando: se essa fonte de energia é assim tão boa, porque em alguns países – como a Alemanha, a Bélgica, a Suíça – seus governos decidiram abandoná-la? Porque em outros – como a França e o Japão – há grandes movimentos sociais que lutam para que seus países “saiam" do nuclear?  O que explica essa oposição a usinas nucleares?

Para nossa sorte – dos “comuns dos mortais” – um número crescente de “especialistas” e de “não-especialistas”, mundo afora (mais em outros países do que aqui no Brasil), está contando coisas (2) que nos ajudam a superar nossas dúvidas e a começar a compreender o que se passa de fato com tais usinas.

Quanto ao segredo e mistério no tratamento do tema, encontramos uma série de respostas. A primeira delas surge quando ficamos conhecendo a origem da tecnologia das usinas nucleares. A pesquisa sobre a possibilidade de desintegrar átomos, em que se baseia o seu funcionamento, atendeu inicialmente a um objetivo militar, na Segunda Grande Guerra. O que se queria era construir a bomba atômica – que usa a enorme energia que resulta de desintegrações encadeadas de átomos. Era a busca da “arma definitiva”, cujo poder destruidor foi constatado pela primeira vez no genocídio ainda impune de Hiroshima (com átomos de urânio) e em Nagasaki (com átomos de plutônio, um elemento artificial que resulta da desintegração do urânio). O segredo é essencial na cultura de guerra. As bombas tinham sido construídas secretamente, antes que algum “inimigo”, existente ou futuro, as fizesse. Esse mesmo segredo se impôs em seguida, como não podia deixar de acontecer, na corrida armamentista da Guerra Fria, em que um número maior de nações buscava construir suas próprias bombas, como arma de dissuasão.

A partir daí, o segredo passou a ser usado quase que “naturalmente” em tudo que se referisse à pesquisa atômica, até chegar ao desenvolvimento da tecnologia das usinas, que emergiu do Programa Átomos para a Paz. Com esta tecnologia, se conseguiu controlar a desintegração de átomos de urânio, interrompendo-a no momento desejado. E ela passou a servir para o bom “negócio” da construção de reatores nucleares, de altos investimentos e altos lucros, interessando a grandes multinacionais. Surgiu, então, outra razão para se manter o segredo: ele é a “alma do negócio”, na atmosfera competitiva da economia capitalista (por isso a espionagem industrial é nela usada sistematicamente, sem maiores preocupações senão a de evitar que seja descoberta). E como usinas e equipamentos nucleares são de alto valor agregado, os governos protegem suas empresas exportadoras, para o bem de seus balanços de pagamentos...

Mas ao se ouvir o discurso sobre o “uso pacífico” da energia nuclear, surge outra dúvida. O que se diz é que esse uso, diferentemente daquele feito com objetivos militares, beneficia enormemente as populações, mesmo quando entra na categoria do “negócio”: na medicina, com a luz que chega às casas e às ruas, com a eletricidade nos hospitais, nas indústrias, nos meios de transporte. Não se deveria então disseminar ao máximo os conhecimentos sobre reatores nucleares? Não deveria a ONU estimular os governos a superarem o egoísmo e ampliar a cooperação internacional, e mesmo a participação social no desenvolvimento dessa tecnologia?

Sabemos todos que perspectivas humanitárias nem sempre conseguem apoio... Mas na verdade ocorre que o problema não é esse. O que leva a manter o segredo a qualquer custo é uma razão de outra natureza. Contrariamente a um dos argumentos usados para defender as usinas nucleares (de que elas são o modo mais seguro de se produzir eletricidade), elas têm um terrível calcanhar de Aquiles, que é exatamente sua insegurança. O segredo é necessário porque ficaremos muito inquietos ao começarmos a descobrir os riscos que se escondem por detrás das belas aparências das usinas. E se ficarmos conhecendo mais em detalhe como e por que acontecem os acidentes nas usinas, sentiremos uma certa angústia e, logo depois, passaremos ao pânico... O que decretará o fim do “negócio”.

Na verdade, as usinas nucleares são extremamente perigosas. Sua segurança é um dos grandes mitos inventados para construir sempre mais usinas. E os “acidentes severos” – como os técnicos os chamam, cuidadosamente – são verdadeiras “catástrofes sociais”. Os “especialistas” e “não especialistas” que estão passando essa informação são de países que já foram vitimados por elas ou estão bastante ameaçados de o serem, como a Ucrânia, o Japão, a França.

A complexidade do funcionamento e operação das usinas cria a possibilidade de uma combinação de falhas: de projeto, de materiais e aparelhagens e de erros humanos. São as “falhas múltiplas” (como são chamadas, no jargão técnico que esconde seu completo significado). E isto independentemente da eventual interferência de fatores externos – como o terremoto e o tsunami no Japão e possíveis atentados terroristas nos dias de hoje. As falhas múltiplas podem levar os operadores a não mais conseguirem interromper as desintegrações em cadeia, o que eleva a altos níveis a temperatura do reator, que chega a fundir.

As consequências são, portanto, muito mais violentas que as de qualquer outro acidente com obra humana ou pela ação da natureza. Fenômenos químicos fora do controle levam as usinas a explodirem. E com sua explosão é espalhada uma quantidade incomensurável de partículas de elementos radioativos, que foram produzidos com a desintegração de átomos com que funcionavam, e que contaminarão a terra, a água, o ar, as plantas, os animais, as coisas, e sempre milhares de pessoas... Ainda quando os reatores se encontrem dentro de solidíssimos edifícios de contenção das partículas, em caso de explosão, sua massa fundida perfurará a base em que tiverem sido instalados, por mais espessa que seja, até chegar ao lençol freático (3).

Por isso os acidentes em que o reator não chega a fundir, que se multiplicam ao longo do tempo de vida das usinas, são pouco noticiados. E são minimizadas as consequências dos acidentes em que houve tal fusão e que já não podem ser escondidos (4). Usa-se para isso até mesmo a autoridade científica da Organização Mundial da Saúde (OMS), na divulgação de dados menos dramáticos sobre os efeitos dos acidentes (5).

Mas o problema das usinas, que leva tantos a elas se oporem, não é somente o do risco de acidentes. Se continuarmos semeando usinas nucleares pelo mundo afora, não estaremos somente transformando nosso planeta numa casa de horrores, cujos moradores poderão, de um momento para outro, viver os infindáveis sofrimentos causados por imprevisíveis catástrofes. Pode-se dizer que elas não passam de hipóteses, de baixa probabilidade (6). Mas algo de muito concreto já está se passando desde que a primeira usina nuclear do mundo começou a funcionar: nós mesmos e muitas futuras gerações teremos que manter guardados, inacessíveis aos seres humanos, o “lixo atômico” (7) de alta radioatividade, formado pelos produtos da desintegração do urânio nos reatores e pelos restos radioativos das usinas que terão de ser desmontadas após seu tempo previsto de vida. E simplesmente mantendo o funcionamento das usinas que já construímos, a cada dia que passa mais “lixo radioativo” se acumulará.

Também chamado eufemisticamente de “rejeito radioativo”, um tal “lixo” não serve senão para irradiar e contaminar – e, no caso do plutônio, para fabricar bombas. E só deixará de emitir radiações depois de séculos e mesmo muitos milhares de anos (8).

Um detalhe importante a lembrar: os elementos radioativos contidos nesse “lixo” são artificiais, isto é, eles só existem no nosso planeta porque seres humanos constroem reatores que os fabricam. Ou seja, são obra humana, talvez com um pequeno apoio do diabo...

Tudo isto nos permite entender porque alguns poucos físicos brasileiros, mais ferinos, não chamam seus colegas pró-nucleares de nucleocratas, mas sim de nucleopatas...

E nos permite entender também porque nem cabe discutir alternativas para tomar o lugar da energia nuclear na matriz energética – uma questão que sempre se levanta. Essas alternativas já existem e estão sendo desenvolvidas em muitos países, para que seu custo não as inviabilize. Na mesma perspectiva, não cabe também discutir se “a emenda é pior que o soneto”: os países que “saem” do nuclear – como a Alemanha – passam a usar mais carvão e petróleo como fontes energéticas, com seus conhecidos efeitos no aquecimento global, até que outras fontes ocupem o espaço. São opções de natureza diferente, cada uma com seu “preço social”. A “saída” do nuclear não precisa ser “compensada” de alguma maneira. O nuclear é uma escolha “proibida” em si (9).

Mas não podemos entrar em pânico. Temos de passar da angústia à indignação (10), frente à irresponsabilidade (ou, no mínimo, a inconsciência) com que as “autoridades constituídas” tratam dessas questões. E temos urgência em passar da indignação à ação, na luta contra a insanidade (11).

Terão as “autoridades” brasileiras, um dia, a coragem de tomar a decisão de eliminar da nossa matriz energética a opção da energia nuclear, antes que seja tarde demais? Precisarão, tristemente, do argumento dos fatos? Conseguirá nossa sociedade, apesar de tudo isso lhe parecer tão longínquo, pressionar tais “autoridades” a assumirem sua responsabilidade, em vez de deixar que as coisas aconteçam?


Notas:


1) Citação da página inicial do livro La verité sur le nucléaire – le choix interdit (“A verdade sobre o nuclear – a escolha proibida”), de Corinne Lepage, Éditions Albin Michel, 2011.

2) Depois do acidente de Fukushima, que estremeceu certezas, muitos livros de crítica ao nuclear estão sendo escritos.

3) A contaminação da água usada para resfriar o reator fundido e sua passagem para o lençol freático e para o Oceano Pacífico é o maior problema enfrentado até hoje no Japão, depois do acidente de Fukushima.

4) A denúncia de que algo grave teria ocorrido em Chernobyl, na então União Soviética, em 1986, foi feita quando uma quantidade anormal de partículas radioativas foi detectada nos céus de Estocolmo, alguns dias depois de ter ocorrido o acidente. Mas antes já tinha ocorrido outro acidente igualmente grave na União Soviética, em 1957, nos inícios da corrida armamentista da Guerra Fria, com reatores destinados à produção de plutônio para bombas atômicas. Esse acidente ficou, no entanto, desconhecido do mundo durante 20 anos. Só se soube dele pelo relato feito em Londres por cientistas dissidentes que deixaram seu país.

5) A OMS é uma agência da ONU que não pode, por convênio, divulgar dados sem uma revisão de outro organismo da ONU, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), criada para promover o uso dessa energia...

6) Para fundamentar a baixa probabilidade, os defensores das usinas lembram que houve até hoje, além do citado na nota anterior, somente três “acidentes severos”: em Three Miles Island, em Chernobyl e em Fukushima. Mas não se conta que em acidentes sem a fusão do reator há múltiplas possibilidades de vazamento de radioatividade, em proporções menores, assim como há o transporte ininterrupto de elementos radiativos, como o urânio usado como combustível e o “lixo atômico”, que são uma ameaça permanente de acidentes com tais vazamentos.

7) A existência desse “lixo” desmonta por si só o outro mito inventado sobre a energia nuclear: o de que é a mais limpa...

8) O plutônio, exatamente, leva 24.100 anos para que a metade de sua massa deixe de ser radioativa. É a chamada “meia vida”, outro eufemismo usado para dourar a pílula...

9) Esse é o título da obra citada na primeira nota deste texto.

10) No Japão a população afetada pelo acidente de Fukushima já não está somente indignada, ela sente propriamente “raiva” dessas autoridades (ver “relato de viagem a Fukushima”,http://www.chicowhitaker.net/artigo.php?artigo=85).

11) Há muito que se pode fazer. Um mínimo, por exemplo, seria colher assinaturas na Iniciativa Popular de mudança da Constituição proibindo usinas nucleares no Brasil... Baixe os formulários para isso e veja informações e ações em curso no site www.xonuclear.net.


Chico Whitaker é da Comissão Brasileira Justiça e Paz no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e responsável pela Lei 9840, que pune crimes eleitorais, feita com base na iniciativa popular.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eduardo Campos morre em acidente aéreo em Santos

o globo
http://oglobo.globo.com/brasil/eduardo-campos-morre-em-acidente-aereo-em-santos-1-13586260

Eduardo Campos morre em acidente aéreo em Santos

Jato em que estava o presidenciável caiu em aérea residencial no litoral paulista

POR 
Candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos - Reprodução
BRASÍLIA, SANTOS E RIO - O candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, morreu na manhã desta quarta-feira em um acidente aéreo em Santos (SP). O jato em que estava o político caiu no bairro do Boqueirão. Não houve sobreviventes. Ao contrário do informado antes pelo PSB, a mulher do candidato, Renata, e o filho Miguel não estavam na aeronave. Segundo nota oficial da empresa aérea, Líder Aviação, e da Polícia Federal estavam no avião, além de Campos, o assessor Pedro Almeida Valadares Neto, o assessor de imprensa Carlos Augusto Ramos Leal Filho (Percol), Alexandre Severo Gomes e Silva (fotógrafo), Marcelo de Oliveira Lyra (staff da campanha) e os pilotos Marcos Martins e Geraldo da Cunha. O acidente que matou o presidenciável aconteceu no mesmo dia da morte do avô dele Miguel Arraes, que falaceu dia 13 de agosto de 2005. Segundo o deputado Alfredo Sirkis, a candidata a vice da chapa do PSB, Marina Silva, foi convidada por Campos a embarcar no jato, mas rejeitou o convite porque tinha uma gravação de programa eleitoral em São Paulo. (Veja mais fotos do local do acidente). O trágico acidente que custou a vida do candidato do PSB causará impacto tanto na sucessão presidencial quanto no debate eleitoral.
O Comando da Aeronáutica informou, por nota, que o avião, modelo Cessna 560XL, prefixo PR-AFA, caiu às 10h. “A aeronave decolou do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino ao aeroporto de Guarujá (SP). Quando se preparava para pouso, o avião arremeteu devido ao mau tempo. Em seguida, o controle de tráfego aéreo perdeu contato com a aeronave”, diz nota da Aeronáutica.
presidente Dilma Rousseff declarou luto oficial de três dias e, assim como o candidato do PSDB, Aécio Neves, suspendeu os compromissos de campanha. Dilma também ligou para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e solicitou rapidez na perícia da polícia sobre as causas do acidente.
Campos iria para um evento na cidade de Santos chamado SantosExport. A aeronave (aparelho Cessna, prefixo PRAFA) pertencia à empresa AF Andrade Empreendimentos e Participações Ltda. e já havia sido utilizada pelo candidato outra vez. Segundo relatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a manutenção anual do avião estava em dia, com validade até 14 de fevereiro de 2015. O avião foi inspecionado em fevereiro deste ano.
Testemunhas relataram que a aeronave pegava fogo poucos instantes antes da queda e que tentou desviar de prédios.
- Parecia uma bola de fogo caindo do céu. Na hora, nem pensei que fosse um avião, achei até que fosse um meteorito. Foi um barulho muito forte e um clarão tão grande que não se conseguia ver mais nada. Quando percebi, o quintal já estava pegando fogo - disse a aposentada Miriam Rodrigues Martinez, de 61 anos, que teve a casa interditada pela Defesa Civil em Santos.
O Corpo de Bombeiros planeja trabalhar por toda a noite na localização dos corpos. Segundo o porta-voz da corporação, Marcos Palumbo, como os corpos estão carbonizados e, parte deles, dilacerados, a identificação deve ser feita por meio de exame de arcada dentária e de DNA.
Foram requisitados cães farejadores e equipamentos de iluminação para auxiliar nos trabalhos da equipe. Além de localizar os corpos, os militares buscam a caixa-preta da aeronave.
O superintendente da Polícia Federal em São Paulo Roberto Troncon, que estava em Brasília, embarcou para Santos com 11 peritos que atuarão nas investigações da queda do avião. Entres eles, estão especialistas em identificação por DNA e um especialista em identificação de vítimas de acidentes aéreos.
A ministra Ana Arraes soube da morte do filho em seu gabinete no Tribunal de Contas da União (TCU). Ela chegou a passar mal e precisou ser atendida pelo serviço médico. Pessoas que estavam próximas relatam que a ministra teria dito que "Deus não dá um fardo pesado a quem não pode carregar. Não sei se eu vou conseguir carregar". Ela já embarcou para Recife em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para ficar com a família.
Jato em que viajava o presidenciável Eduardo Campos cai em Santos - RICARDO NOGUEIRA / AFP
A Santa Casa de Santos atendeu seis feridos do acidente, entre eles uma criança. Eles sofreram ferimentos leves e já receberam alta.
O bairro do Boqueirão, onde ocorreu a queda, é bastante movimentado. Testemunhas relatam que ouviram barulho de uma explosão. O quarteirão foi isolado pela Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e equipes de resgate. Com o estrondo na hora da queda, vidraças de lojas quebraram-se.
De acordo com o Climatempo, com dados da base aérea do Guarujá, a chuva e a formação de névoa restringiram a visibilidade horizontal no aeroporto, que registrou visibilidade de 3 mil metros, no horário do acidente com a aeronave.
Pela resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha de Eduardo Campos tem dez dias para definir o nome do novo candidato à Presidência. O substituto pode pertencer a qualquer um dos seis partidos que compõem a coligação "Unidos pelo Brasil" (PSB, PPS, PHS, PRP, PPL e PSL). A coalizão conta ainda com o apoio da Rede, grupo fundado por Marina Silva, mas que ainda não conseguiu o registro de partido político. Marina é filiada ao PSB, mesmo partido de Campos.
Ainda sob o impacto da tragédia, o irmão do presidenciável, Antônio Campos, em conversas com dirigentes do partido, defendeu que a candidata a vice na chapa, Marina Silva (Rede Sustentabilidade), substitua Eduardo Campos na disputa pela Presidência. Tonca, como é conhecido, acha que a luta de Eduardo Campos não pode morrer com ele. Mas correntes socialistas defendem que o substituto seja do PSB, já que Marina e seu grupo tem projetos próprios e só se abrigaram no partido até a criação da Rede , oficialmente.
Segundo Antônio Campos, o corpo do ex-governador será sepultado no jazigo da família, no cemitério de Santa Amaro, na Zona Norte de Recife. No local também está enterrado Miguel Arraes, responsável pela introdução do neto na política. Antônio disse ter falado com Eduardo pela manhã sobre o desempenho do candidato na entrevista concedida na noite anterior ao Jornal Nacional.
— Perdi um irmão muito amado. Eduardo morreu no mesmo dia do meu avô, há 9 anos. Mas morreu lutando pelos seus ideais e pelo que acreditava. Deixou um legado de luta e de reflexão para melhorar o país. Ele estava feliz com a participação no Jornal Nacional. Vai ser enterrado junto do tumulo do meu avô — disse.

Jato cai em Santos, no litoral paulista, e mata Eduardo Campos

zh notícias
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/jato-cai-em-santos-no-litoral-paulista-e-mata-eduardo-campos-4574134.html


Jato cai em Santos, no litoral paulista, e mata Eduardo Campos

Além do candidato à presidência e ex-governador de Pernambuco, outras seis pessoas estariam na aeronave

Atualizada em 13/08/2014 | 16h2213/08/2014 | 11h35
Jato cai em Santos, no litoral paulista, e mata Eduardo Campos Ricardo Nogueira/AFP
Além de Campos, outras seis pessoas morreram no acidenteFoto: Ricardo Nogueira / AFP
Um jato particular caiu em Santos, no litoral de São Paulo, e atingiu casas por volta das 10h desta quarta-feira. Na aeronave, estava o candidato à presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ex-governador dePernambuco, Eduardo Campos, que morreu no acidente

Assessores do político, um cinegrafista, um fotógrafo e dois pilotos também estariam na aeronave e teriam morrido. A candidata à vice-presidência, Marina Silva, a mulher e o filho do presidenciável não estavam no jato — que pertencia à empresa Af Andrade Empreendimentos e Participações Ltda. Os familiares do político estariam em Recife. Quatro pessoas ainda ficaram feridas no acidente, conforme a prefeitura de Santos.

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Infográfico: aeronave na qual estava Campos se dirigia do Rio a SP


Integrantes da campanha de Campos se dividiram nesta quarta-feira em duas aeronaves: parte viajou ao Recife e o restante a Santos — e Eduardo Campos estava no jato em direção à cidade paulista. O presidenciável estaria se deslocando para um evento no Guarujá. Na noite de terça-feira, ele concedeu entrevista ao Jornal Nacional.
Foto: Cristiano Mariz, Especial
Ainda de acordo com o Comando da Aeronáutica, a aeronave é um Cessna 560XL, prefixo PR-AFA, que decolou do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino ao Aeroporto de Guarujá (SP). Quando se preparava para pouso, o avião arremeteu devido ao mau tempo. Em seguida, o controle de tráfego aéreo perdeu contato com a aeronave.
O deputado federal pelo PSB no Rio Grande do Sul Beto Albuquerque recebeu a notícia da morte de Eduardo Campos em um evento na Federasul. Abalado, disse que o "Brasil perdeu um grande tomoneiro". Ele se desloca para São Paulo ainda nesta quarta-feira, assim como a vice de Eduardo, Marina Silva.
A Aeronáutica informou que já começou as investigações para apurar os fatores que possam ter contribuído para o acidente. Viaturas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, da Polícia Militar e dos bombeiros atenderam ao acidente. Peritos da Polícia Federal irão auxiliar na identificação dos corpos.

O analista de logística ferroviária Tássio Ricardo Cardozo Silva, 25 anos, presenciou o exato momento em que o jato caiu. Eram 10h02min, segundo Tássio, quando a aeronave "caiu de bico".

— Eu trabalho a 300 metros do local e vi o avião caindo a uns 65 graus, de bico. Minha mesa fica de frente para a janela e presenciei a aeronave desabando. Fiquei sem reação, depois caí na real. Teve explosão e muita fumaça. Os socorristas chegaram rápido — disse.
Campos morreu no mesmo dia do falecimento do avô Miguel Arraes. Aos 49 anos, o político deixa a mulher, a economista Renata Campos, e cinco filhos.

Confira as informações ao vivo: 
Jato com Eduardo Campos cai no litoral paulista