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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O que acontece quando um menino é estuprado pela Minustah no Haiti?

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http://apublica.org/2014/11/o-que-acontece-quando-um-menino-e-estuprado-pela-minustah-no-haiti/

O que acontece quando um menino é estuprado pela Minustah no Haiti?


Por Amy Bracken*
A Place d’Armes, praça localizada no centro da cidade de Goinaves, no norte do Haiti, é movimentada por comerciantes e grupos de amigos reunidos para descansar e socializar. Mas ali perto há uma área é menos frequentada – um trecho de tijolos cheios de arame farpado e pilhas de lixo.
“Foi ali que aconteceu, por lá”, diz meu companheiro.
O local abrigava um posto do contingente das tropas de paz paquistanesas – uma unidade policial das Nações Unidas que faz parte da missão de paz comandada pelo Brasil. Eles deixaram o lugar desde a chegada das tropas argentinas, que se instalaram em outra parte da cidade.
Segundo o relato de moradores da região foi ali que, no início de 2012, eles testemunharam o estupro de um garoto de 14 anos, portador de deficiência mental. O adolescente foi violentado por policiais das Nações Unidas em um carro oficial. Os fatos foram esquecidos por algumas pessoas na Place d’Armes. Para outros, a história ainda está viva.
Atrás desse arame farpado, na Place d’Armes na cidade de Gonaives, no Haiti, Jean, 14, foi abusado sexualmente durante anos por policiais da ONU
Atrás desse arame farpado, na Place d’Armes na cidade de Gonaives, no Haiti, Jean, 14, foi abusado sexualmente durante anos por policiais da ONU
O jovem Adler Delismat conserta telefones celulares. Segundo ele a vítima – vamos chamá-lo de Jean – era “um dos garotos que andam por aqui”. “Foi abandonado pela família. Os soldados sempre davam a ele algo para comer. Ele lustrava sapatos dos oficiais e eles lhe davam um pouco de dinheiro. Até que em uma manhã, nós soubemos que Jean havia sido estuprado pelos soldados. É inaceitável. Eu sei que a lei haitiana não permite isso.”
Tecnicamente, a lei haitiana não se aplica a missões de paz estrangeiras, de acordo com a Convenção sobre Privilégios e Imunidades da ONU.
Tecnicamente, a lei haitiana não se aplica a missões de paz estrangeiras, de acordo com a Convenção sobre Privilégios e Imunidades da ONU.
A disciplina é uma responsabilidade do país pacificador, a menos a imunidade seja suspendida pelo Secretário Geral, o que não acontece com militares e quase nunca com policiais.
Há pouco mais de uma década, as Nações Unidas intensificaram as medidas de formação e investigação para tentar resolver problemas de exploração e abuso nas suas forças de paz. Assim foi criada a Unidade de Conduta e Disciplina (CDU). Sylvain Roy, da CDU, insiste que a soberania do Estado-Membro não significa que a ONU é impotente quando se trata de disciplina. “Existe a necessidade de uma parceria”, diz ele, “que seja reconhecida pelo Estado-Membro e que nos permita abordar e tentar encontrar uma solução de forma mais abrangente.”
Em outras palavras, mesmo que a disciplina seja responsabilidade do país pacificador, a ONU pode tentar influenciar nessa decisão.

Foram anos de abusos sexuais

No caso de Jean, a ONU trouxe especialistas de Brindisi, na Itália, e de Nova Iorque para trabalhar na investigação. De acordo com oficiais das Nações Unidas que pediram para não serem identificados, o que os investigadores encontraram é muito pior do que se pensava: o abuso ocorreu por anos. Jean era passado de um contingente para o próximo.
O abuso ocorreu por anos. Jean era passado de um contingente para o próximo.
Além disso, segundo os oficiais, foi descoberto que, quando soube que investigadores da ONU estavam a caminho, o comandante do contingente contratou um homem haitiano para levar Jean para outra cidade para escondê-lo dos investigadores.
Após a investigação, o Senado haitiano aprovou uma resolução pedindo que a ONU suspendesse a imunidade do país-membro. Os ministros da Justiça e das Relações Exteriores fizeram o mesmo pedido formalmente. “Estávamos abertos a todas as negociações para resolver o problema amigavelmente”, diz Arsene Dieujuste, o advogado da família de Jean.
Ele diz ter pressionado funcionários do governo para que eles pressionassem os agentes da ONU. Os agentes da ONU negociaram com autoridades paquistanesas, pedindo que os soldados fossem submetidos a um julgamento no Haiti com a condição de que o condenado ficasse em acomodações alternativas, e não na prisão local.
Um oficial da ONU que pediu para não ser identificado relatou estar presente em uma reunião com membros do alto escalão da organização na qual os participantes concordaram que algo dramático deveria ser feito. Suspensão de imunidade, condenação efetiva do comandante… alguma coisa. O oficial lembrou que havia um senso de determinação – alguns soldados batiam os punhos na mesa na reunião. Mas, segundo ele, a reunião foi seguida por um jantar entre o representante paquistanês para as Nações Unidas e o chefe das missões de paz da ONU. Depois disso, os esforços para que medidas exemplares fossem tomadas foram abandonadas. Seguiu-se a mesma rotina de sempre.
Afinal a corte marcial foi realizada no Haiti, com o acusado julgado e sentenciado por seus pares. O principal acusado confessou, foi expulso da corporação e condenado a um ano de prisão no Paquistão. Outros dois policiais também foram expulsos.
Nenhuma das pessoas contatadas pela reportagem, tanto na ONU quanto representantes do Paquistão, aceitaram o pedido de entrevista.

Daria para responsabilizar comandantes, diz CDU

Roy, da CDU, só comenta as ações da ONU para casos como este quando um comandante está envolvido. “Eu não vejo porque não se poderia solicitar responsabilização contra os comandantes das tropas” diz ele, “se temos provas… havia ordens e medidas tomadas por comandantes para interferir em uma investigação”.
Eu pergunto, “você pode ir além de solicitar?”
“Aí teríamos que entrar no relacionamento entre a ONU e o Estado-membro”, diz ele. “Mas a responsabilização pode não ser aplicada sempre, apesar da nossa crença de que poderia ser.”
Se a ONU não está satisfeita com um Estado-membro, ela pode expulsá-lo de uma missão. No entanto, segundo um oficial da organização, as missões de paz paquistanesas fazem um ótimo trabalho. Eles também são os maiores contribuidores para missões de paz, com mais de 8 mil policiais, tropas e peritos militares implantados. Embora a ONU pague os governos que contribuem em missões de paz, um funcionário diz que há uma resistência em dizer algo que ofenda aqueles que colocam seu pessoal em risco.
Para o advogado Dieujuste, não faz sentido que a ONU não seja responsabilizada. “Nós não conhecemos o Paquistão”, diz Dieujuste. “Quando vemos um carro com o símbolo da ONU, nós não sabemos se é francês ou o que é.
Quando vemos um carro com o símbolo da ONU, nós não sabemos se é francês ou o que é.
 A ONU é a instituição. Portanto, cabe à ONU acertar as contas.”
Dieujuste está pedindo uma indenização de 5 milhões de dólares para a família de Jean. Ele considera a quantia uma maneira de iniciar as negociações e diz que o dinheiro deve corresponder à hediondez do crime. Mas cerca de 20% seria o pagamento do seu trabalho como advogado.

Sem indenização

Néumie Joseph trabalha para uma agência de proteção cidadã haitiana em Gonaives e está familiarizada com o caso de Jean. Ela diz que se os autores do crime fossem haitianos comuns, provavelmente Jean não teria uma representação adequada e o caso teria fracassado. Para ela, o público quer manter a ONU em um padrão mais elevado. “As ações de um ou dois indivíduos prejudicam a imagem da instituição”, afirma. “Os indivíduos podem ser presos, mas no caso de Jean, as pessoas precisam ver que a justiça foi feita pela instituição. A vítima precisa ser indenizada.”
De acordo com Roy, a ONU não dá indenizações em dinheiro, mas tem uma política de conectar as vítimas aos serviços da organização.
Agora Jean está sob custódia do governo haitiano, morando em um abrigo de uma organização sem fins lucrativos fora e Porto Príncipe e sem relações com a ONU. Não está claro se o Paquistão fez alguma contribuição para a família de Jean ou para o abrigo.
Com Diejuste e Junie Adain, a meia-irmã mais velha de Jean, dirigimos quatro horas para encontrá-lo. É um local pacífico, com pequenos prédios dispersos, decorado com esculturas de animais e árvores floridas. Esperamos em um quarto comum arejado e alegre, então Jean chega, sorrindo desconfiado.
Adain se aproxima do irmão cautelosamente, comentando sobre os quilos que ele ganhou. É uma coisa boa, e ele parece dizer em poucas palavras que está feliz ali. Mas Adain não está sorrindo. “Os soldados precisam ter vergonha do que fizeram”, ela diz. “Eles se aproveitaram da deficiência mental dele. Sabiam que não falaria.
Eles se aproveitaram da deficiência mental dele. Sabiam que não falaria.

E fizeram isso várias vezes. Mesmo que eles nunca paguem uma indenização, vão pagar no dia do juízo final.”
Adain diz que a família merece uma indenização por ter sido tão envergonhada. Insiste que gastaria o dinheiro para garantir que o irmão tenha uma vida boa.
Por enquanto, esse abrigo financiado por fundações parece estar finalmente proporcionando a Jean a proteção e a segurança alimentar que lhe faltaram quando criança, quando polia os sapatos dos soldados das missões de paz em troca de comida, dinheiro e amizade.
Essa reportagem foi produzida pelo site 100Reporters, em parceria com o programa The World da Public Radio International. Clique aqui para ler o original, em inglês.   
* Amy Bracken é uma jornalista freelancer baseada em Boston que sobre questões relacionadas com o Haiti

quinta-feira, 6 de março de 2014

Isolamento do Acre deixa mais de 1300 haitianos e senegaleses retidos em abrigo na fronteira

amazonia
http://amazonia.org.br/2014/03/isolamento-do-acre-deixa-mais-de-1300-haitianos-e-senegaleses-retidos-em-abrigo-na-fronteira/


Isolamento do Acre deixa mais de 1300 haitianos e senegaleses retidos em abrigo na fronteira

Mais de 1,3 mil imigrantes haitianos e senegaleses estão retidos no abrigo mantido pelos governos estadual e federal em Brasiléia, a 235 quilômetros de Rio Branco, na fronteira com a Bolívia, por causa da cheia do Rio Madeira, que forçou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes a fechar a BR-364 e deixou o Acre isolado do restante do país.
Os imigrantes estão documentados com CPF e com um protocolo expedido pela Polícia Federal. Mais de 300 já foram selecionados por empresas interessadas em contratá-los, mas não puderam viajar. O tráfego na rodovia federal entre o Acre e Rondônia, parcialmente coberta por águas do Rio Madeira, está interrompido desde a semana passada por questões de segurança.
- Mais de 100 imigrantes saíram de Brasiléia, mas tiveram que voltar de Rio Branco por causa do fechamento da rodovia. Estão aqui com os bilhetes das passagens de ônibus esperando que o tráfego seja restabelecido – disse o gerente do abrigo, Damião Borges, funcionário da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos do Acre.
Muito precário, a capacidade para 300 pessoas no abrigo já foi ultrapassada. Mais de 17 mil haitianos já passaram por Brasiléia desde que teve início o fluxo migratório na fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru.
Vista parcial do abrigo em Brasiléia
- Nós já chegamos a ter 1,5 mil imigrantes no abrigo. Caso o tráfego na rodovia não seja normalizado, temos expectativa de muito em breve ter mais de 1,5 mil pessoas. Os haitianos não param de chegar, bem como os senegaleses. Todo esse tumulto que você está vendo se agravou por causa do isolamento do Acre. Ainda bem que o governo federal liberou mais de R$ 2 milhões para investimento numa estrutura melhor para os imigrantes que passam por aqui – acrescentou Borges.
Quando entram no Brasil, os haitianos formalizam pedido de refúgio à Polícia Federal e recebem um protocolo que lhes dá direito de residência legal até que o processo seja analisado e julgado pelo Comitê Nacional para os Refugiados ou pelo Conselho Nacional de Imigração.
O protocolo também dá direito aos haitianos e senegaleses de se deslocarem pelo Brasil, passando a residir e trabalhar em qualquer lugar, sem restrições de movimento no território nacional. Eles são obrigados apenas a comunicar o local de residência à Polícia Federal, como estabelece a lei brasileira para todos os estrangeiros que vivem no país.
Imigrantes na calçada em frente ao abrigo
A maioria dos haitianos e senegaleses vinha sendo contratada para trabalhar em frigoríficos em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.
- Não sei o motivo de São Paulo e Paraná ter parado de contratá-los. Atualmente, Santa Catarina é quem mais contrata. O Mato Grosso também contrata bastante, para trabalho em frigoríficos e na construção civil, além de Goiás. Mas o destino da maioria dos senagaleses é São Paulo e, principalmente, Caxias do Sul.
Segundo Damião Borges, em todos os estados, os haitianos se adaptam melhor ao trabalho em frigoríficos, onde chegam a passar até três meses na emprego. O salário deles varia de R$ 800,00 a R$ 950,00, além transporte, alimentação e alojamentos das empresas.
- A maioria desse povo tem esperança de obter documentação que permita ter como destino final a Europa. Depois de sair dos frigoríficos, muitos se deslocam pelo Brasil e um tanto viaja para a Guiana Francesa na esperança de obter visto de entrada na Europa – o funcionário do governo estadual.
Damião Borges e Jean Katumba
De Puerto Maldonado, no Peru, onde se encontra, o professor Foster Brown relata que conversou com Guimo Loaiza Muñoz, da Defensoria del Pueblo en Madre de Dios, que tem a responsabilidade especial para proteger os direitos humanos de idosos, crianças, mulheres, indígenas e presos.
Segundo Foster Brown, a Defensoria trabalha com um orçamento muito reduzido. Guimo e quatro advogados são responsáveis para todo o departamento de Madre de Dios. Guimo gostaria de ter mais interações com entidades brasileiras e bolivianas na região. Ele precisa especialmente de dados sobre o movimento de migrantes para poder atuar e chamar atenção do governo central sobre abusos de direitos humanos.
- Os haitianos que entraram legalmente no país tem direito de passar, via território peruano, ao Brasil. A policia não tem direito de impedir ou pedir dinheiro e os taxistas não precisam transportar os haitianos durante a noite. Uma recomendação é que os haitianos sejam acompanhados por oficiais do governo para impedir exploração – disse o professor.
Senegales
Jovens senegaleses
No abrigo de Brasiléia atualmente estão 20 imigrantes da República Dominicana e mais de 200 do Senegal. Os senegaleses embarcam em avião, em Dakar, capital e a maior cidade do Senegal, cumprem escala na Espanha, de lá seguem para o Equador e percorrem a mesma rota dos haitianos até Assis Brasil (AC), na tríplice fronteira do Brasil, Bolívia e Peru.
- O Brasil é conhecido no mundo inteiro, sobretudo agora, por causa da Copa do Mundo. Eles acessam internet, se informam sobre a rota dos haitianos, e se mandam pra cá.
Jean Katumba, da República Democrática do Congo, que mora e atua na organização África do Coração, em São Paulo, está em Brasiléia para orientar os imigrantes africanos. Os senegaleses, que recusam todas as propostas de trabalho em frigoríficos, preferem trabalhar na construção civil.
- Estou impressionado com a quantidade de senegaleses aqui. Eles poderiam muito bem entrar no Brasil a partir de um estado no litoral, mas preferem entrar por trás, via Equador. É uma longa viagem, que custa quase US$ 7 mil, e isso nos preocupa.
Katumba assinala que na África existem muitos problemas e que todos os imigrantes senegaleses buscam trabalho no Brasil
- São Paulo abriga uma comunidade senegalesa muito forte. Uma parte vai para lá, mas a maioria prefere Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Aqui no Brasil tem muito trabalho, muito emprego. Os senegaleses chegam e vão trabalhar em empresas de senegaleses. Tanto em São Paulo como no Rio Grande do Sul, trabalham em construções. O Brasil não pode negar que tem trabalho demais aqui – explica.
Jean Katumba tem mantido reuniões com os senegaleses, orientando-os a entrar em território brasileiro por outros estados.
- Nossa preocupação é fazer com que eles venham para o Brasil de forma legal. Eles não precisam gastar tanto dinheiro indo até o Equador e sendo extorquidos no Peru ou na Bolívia. A viagem até aqui pode custar bem menos e sem tanto perigos, como ocorre quando percorrem a mesma rota dos haitianos a partir do Equador.
Haitianos e senegaleses na frente do abrigo
Por: Altino Machado
Fonte: Terra Magazine/ Blog da Amazônia 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Sem acesso a políticas públicas, haitianos são explorados

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/2014/01/sem-acesso-a-politicas-publicas-haitianos-sao-explorados/#comment-13396


Sem acesso a políticas públicas, haitianos são explorados

Mesmo depois de quatro anos de constante crescimento da migração haitiana, Brasil quase não tem programas para recebê-los. Situação favorece graves violações
Por Stefano Wrobleski | Categoria(s): Reportagens
Há quatro anos, em 12 de janeiro de 2010, o chão tremeu no Haiti. O mais forte terremoto de que se tem notícia na história do país mais pobre do Ocidente deixou milhares de desabrigados. Na capital, Porto Príncipe – onde um em cada oito haitianos vivem –, estimou-se, na época, que cerca de 80% das construções vieram abaixo ou ficaram seriamente abaladas. O desastre também matou 316 mil pessoas. Chefiando com aparato militar uma missão da Organização das Nações Unidas (ONU) que está no país desde 2004, o Brasil tornou-se o destino de cerca de 22 mil hatianos nos quatro últimos anos.
Em busca de emprego, os migrantes sofrem com a falta de políticas públicas, e muitos acabam superexplorados. Há casos até de trabalho escravo – em 2013, em duas operações diferentes, 121 haitianos foram libertados da escravidão no Brasil.
Uma das divisas de Brasileia – município acriano por onde haitianos entram no país –, que faz fronteira com a Bolívia (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)
Uma das divisas de Brasileia – município acriano por onde haitianos entram no país –, que faz fronteira com a Bolívia (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)
Mesmo depois de quatro anos da tragédia que impulsionou a vinda de haitianos para o Brasil, o país ainda não possui políticas públicas sólidas para recebê-los. A reportagem conversou com Paulo Sérgio de Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração (CNIg), um órgão colegiado vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego responsável por formular as políticas migratórias no país em acordo com o Estatuto do Estrangeiro, formulado em 1980, durante a ditadura militar.

Haitianos com carteira de trabalho no país
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As principais ações a nível federal com relação aos haitianos, segundo Paulo Sérgio, foram três: a concessão dos vistos permanentes em caráter humanitário a partir de 2012; o lançamento e distribuição de duas cartilhas direcionadas a esses migrantes (baixe-as aqui eaqui); e medidas para reduzir o número de haitianos que permanecem por mais tempo no abrigo de Brasileia, no Acre.
No entanto, depois que chegam ao país, a recomendação do governo aos haitianos é procurar entidades da sociedade civil onde possam obter orientações e ajuda para ter meios de permanecer no país: “Designamos, em algumas cidades brasileiras, ONGs que têm atuação na questão migratória como uma referência para esses haitianos quando eles chegassem ao Brasil. Toda relação de haitianos que chega, a gente informa a essa rede de entidades porque pode ser que eles as procurem”. Ele ainda explicou que outras medidas estão sendo estudadas: “Temos trabalhado junto ao Ministério da Educação para realizarmos cursos profissionalizantes do Pronatec [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego] voltados aos haitianos que estejam acoplados com o aprendizado do português básico para o trabalho”. As discussões, no entanto, só começaram em setembro de 2013 e não há prazos para a implementação desses cursos.
Paulo Sérgio também informou que aproximadamente 30% dos haitianos que estão no Brasil têm a carteira de trabalho assinada. Dentre os brasileiros, os trabalhadores com contratos de trabalho formalizados representam 60%.
FomeDiante deste cenário e de um crescente número de migrantes haitianos, sobram tarefas para ONGs e outras entidades da sociedade civil preocupadas com a questão. Nem sempre casos em que migrantes haitianos enfrentam problemas chegam ao conhecimento das autoridades e iniciativas do tipo têm ajudado a minimizar problemas.
Em Rondônia, um dos principais destinos dos haitianos depois que saem do Acre, o auditor fiscal do MTE Juscelino Durgo tirou as manhãs de sábado para dar aulas de legislação trabalhista em um projeto do Serviço Pastoral do Migrante, vinculado à Igreja Católica. Ele conta que a iniciativa começou em 2010 com as “missões solidárias” organizadas pela arquidiocese do Estado para levar serviços essenciais a locais distantes que não possuem aparelhos estatais. “Mas a coisa aconteceu meio por acaso e nós não esperávamos os haitianos. Eles chegaram e ficaram em situação muito complicada, andando pelas ruas e passando fome. Então criamos um projeto de acolhimento a eles”, diz Juscelino.
A fome era um problema de saúde deles porque a maioria deles só fazia uma refeição por dia
Além das aulas de legislação trabalhista, os migrantes também têm aulas gratuitas de Língua Portuguesa durante as noites de segunda a sexta-feira, quando também é oferecida janta a eles. Um dos articuladores da missão para os haitianos, o padre João Batista Toledo da Silveira justifica: “A fome era um problema de saúde deles porque a maioria deles só fazia uma refeição por dia”.
Quando o projeto cresceu, ele conta que contratou um dos haitianos que migrou para Rondônia. Além de ser poliglota, ele era professor na terra natal e passou, então, a ensinar português aos que chegam. Hoje o Serviço Pastoral Missionário tem uma parceria com a Universidade Federal de Rondônia (Unir), que cede professores e dá apoio financeiro para as atividades.
Já no Mato Grosso, o Centro de Pastoral para Migrantes, também vinculado à Igreja Católica, recebe apoio do Ministério do Trabalho e Emprego através de um convênio que possibilita a auditora fiscal Marilete Girardi ficar na sede da entidade por quatro tardes por semana orientando os haitianos que chegam. Lá eles cadastram as empresas que queiram contratar os migrantes que chegam, além que também oferecerem aulas de português duas vezes por semana. Além disso, a casa hospeda os haitianos até que recebam o primeiro salário: “Eles chegam só com a roupa do corpo. Se não tivesse alguém para dar um apoio mínimo, eles estariam perdidos”, explicou Marilete.
Com 210 empresas cadastradas, ela diz que os homens recebidos geralmente conseguem emprego na mesma semana – em geral na área da construção civil –, mas as mulheres acabam tendo que esperar entre 20 a 30 dias. Marilete também garante que todos saem da Pastoral com carteira assinada. “Muitos empresários pensam que, porque são haitianos, eles podem ser levados sem registro. Quando descobrem que é necessário, não voltam”, revela.
Confira no infográfico abaixo onde estão os haitianos com registro de trabalho no Brasil
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Confira a primeira parte desta reportagem: Imigrantes haitianos são escravizados no Brasil