Mostrando postagens com marcador ditadura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ditadura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Com quantos absurdos e desvarios se constrói a ditadura do judiciário? Com quantas exceções se levanta um estado de exceção?

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/com-quantas-excecoes-se-normaliza-a-ditadura-do-judiciario/

Com quantos absurdos e desvarios se constrói a ditadura do judiciário? Com quantas exceções se levanta um estado de exceção?


Hoje eu me pus a pensar no que era pior: ser uma autora com bloqueio criativo por falta de temáticas ou por excesso de inspiração. O meu caso, certamente, parece ser o segundo.
Assim como acontecerá com todos os autores que se propuserem a pensar no poder judiciário no Brasil contemporâneo, ocorre algo como a obstrução arterial por excesso de absurdos. Reduz-se o aporte de fluxos e gera-se a sensação de absoluto mal estar e impotência. De nossa parte, no exercício da escrita, sentimos não caber mais tantos gritos e desconfortos, ficando nossos dias cada vez mais minguados e nossas forças exíguas. Há muito para falar e pouco tempo para pensar e processar, o que nos coloca em travamento.
Essa sensação é claustrofóbica, porque gera o sentimento de que nada do que pudermos fazer ou dizer será suficiente. O mar de lama que paira – e o jogo de palavras não é ocasional – estica os dias em anos e arrasta o último mês a reboque, como se estivéssemos em sala de tortura e perdêssemos a noção do tempo por prolongado sofrimento.
São tantos os mortos que falam:
– os corpos enlameados em Brumadinho, boiando indiferentes à fome do dinheiro;
– o rio Paraopeba, aos poucos, morrendo, prestes a levar com ele o rio São Francisco e seus cadáveres, humanos e não humanos;
– o corpo morto de Vavá, a deriva do poder da Lava Jato;[1]
– os corpos dos idosos e necessitados na proposta de reforma previdenciária, entorpecidos, desqualificados;
– a criminosa legalização da pena de morte, com a lei “anticrime” de Sérgio Moro, aprofundando as diferenças, já tão gritantes, e empoderando a violência policial, já tão empoderada, pela institucionalização formal da matança, já tão institucionalizada;
– os corpos controlados das mulheres na PL 261-2019;
– os corpos de crianças indígenas, irregularmente adotadas, como da kamayurá no Xingu, retirada da aldeia em polêmico caso envolvendo a ministra Damares Alves,[2]silenciadas, emudecidas, catequizadas e simbolicamente violentadas;
– o corpo escoltado de Jean Wyllys, exilado, forçosamente banido, ameaçado, inclusive por aqueles que deveriam ser os primeiros a protegê-lo, como a desembargadora Marília Castro Neves, que sugeriu em um grupo de magistrados o seu fuzilamento profilático, embora não “valesse a bala e nem o pano”;
– o corpo morto de Sabrina Bittencourt e de tantas outras mulheres a que ela deu voz e que morrem, dia a dia, em cada lembrança dos abusos e dos perigos do patriarcado penetrado nos discursos, inclusive e em especial os religiosos;
– a lógica manicomial dos corpos diferentes, na convulsoterapia e no internamento dos menores, na nota técnica 11/2019 do Ministério da Saúde;
– o cadáver putrefato mil vezes morto e mil  vezes lembrado de Marielle Franco, quase há um ano sem resolução.
Supomos que todos esses mortos não sejam ocasionais, fazendo-se necessária a análise confluente das institucionalidades em jogo.
Ao invés do uni-duni-tê dentre tantos finados, optamos por falar sobre o presente que eles nos anunciam: o enfraquecimento das leis e da Constituição, em contrapartida ao fortalecimento das vozes dos juízes e das outras narrativas que nestas se escondem. Os fantoches “heróicos” como os de Sérgio Moro anunciam emblemáticos esses novos poderes, em que se dá a autorização para a polícia matar por medo escusável, surpresa ou “violenta emoção” e dá-se aos juízes o poder de ditar a verdade dos fatos, ao sabor dos seus temperos e desejos. Acima da lei, da constituição e – ousamos dizer – do próprio poder político institucional, erguem-se os juízes, pintados como poços de “virtude” e “sabedoria”. Os prejuízos são incalculáveis…
Nesses momentos, renhida e renitente me estoura no peito a poeta, que pede escusas, por invocar Torquato Neto, em literato cantabile, pois toda palavra envolve o precipício e os literatos foram todos para o hospício, quem sabe agora retidos por eletrochoque.
As autoridades exalam juízes. Suas palavras não são ocasionais, mas remitentes; elas se fazem falar nas decisões vazias, nas entrelinhas, nas manifestações de poder e nos grotescos cenários agora pintados, que, como câncer, alastram o encarceramento em massa, fortalecem o crime organizado das milícias, insuflam o racismo institucional, aprofundam a segregação e revigoram a lógica do encarceramento, que exclui os corpos e bane a vida, separada e excluída de si mesma, entregue à morte, para falar com Agamben,[3] já que agora são os mortos que me sopram as narinas.
Esses novos formatos cada vez mais rasgam as leis e destroçam os dias, fazem-se presentes em cada espaço miúdo, até que se preencham e naturalizem os grandes recintos. Mas escolhemos resistir e reinaugurar a existência pela fala morta dos não existentes, pois, para falar novamente com Torquato Neto, toda palavra guarda uma cilada.
Com quantos absurdos e desvarios se constrói a ditadura do judiciário? Com quantas exceções se levanta um estado de exceção? Com quantos destroços se esfacela a Constituição, fazendo erguer a ditadura togada e truncada no lugar de uma democracia, que, embora deficitária, sujeita-se constantemente às perfectibilidades?
Um moroso silêncio paira sobre essas aberrações. Talvez, apenas talvez, os limites já tenham sido ultrapassados e já vivamos nos novos tempos: o da república togada. Os limiares se romperam e, assim como a lama, eles escorrem, deixando para trás os seus lastros e, para falar novamente com eles, os mortos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A memória artística da ditadura





le monde
https://diplomatique.org.br/a-memoria-artistica-da-ditadura/


CULTURA DE PROTESTO

A memória artística da ditadura

por Raisa Pina
novembro 8, 2018
Imagem por Cildo Meireles
compartilhar
visualização
Pinturas, gravuras, performances e happenings tensionaram a todo momento o autoritarismo e denunciaram os crimes contra a humanidade cometidos pelos militares, às vezes com imagens hiper-realistas, às vezes com um mero conceito lançado no ar, às vezes com intervenções urbanas que escrachavam o que era empurrado para debaixo do tapete social simbólico
Quando se fala em resistência à ditadura civil-militar brasileira da segunda metade do século XX, uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça são os artistas da época: ousados, corajosos que não se deixaram calar mesmo com a censura, as ameaças e a tortura correndo soltas. Primeiro, lembro-me de Gal Costa e Nara Leão; penso em Rita Lee e nos Mutantes; abraço em imaginação Gil, Caetano, Chico, Milton, Tom Zé, Rogério Duprat e toda a Tropicália. Depois do fatídico domingo de resultado das eleições, o que me trouxe à consciência da tarefa histórica que minha geração terá pela frente – e me fez abafar o choro que queria vir – foi a voz de Gal ecoando Divino Maravilho. “É preciso estar atenta e forte, não temos tempo de temer a morte”.
Cildo Meireles, Quem matou Herzog
Se a música, assim como a literatura e o teatro, é uma fonte rica de elementos sobre o que de fato foi o período dos militares no poder, gostaria de acrescentar ao pacote de referências poético-históricas uma linguagem artística por vezes deixada de escanteio nas análises políticas e que muito revela o lado apagado dos livros didáticos: as artes plásticas. Pinturas, gravuras, performances e happenings tensionaram a todo momento o autoritarismo e denunciaram os crimes contra a humanidade cometidos pelos militares, às vezes com imagens hiper-realistas, às vezes com um mero conceito lançado no ar, às vezes com intervenções urbanas que escrachavam o que era empurrado para debaixo do tapete social simbólico.
Numa manhã de uma segunda-feira qualquer, no ano de 1970, catorze trouxas ensanguentadas, cheias de ossos e carne em putrefação, emergiram no rio Arrudas, em Belo Horizonte. Pareciam ser corpos de desaparecidos políticos. Só podia ser. Rapidamente a polícia foi acionada. Quando conseguiram retirar as trouxas da água, para a surpresa de todos, não se tratavam de restos humanos, mas de Situações, intervenção feita por Arthur Barrio para expor o elefante branco no meio da sala: existiam mortos desaparecidos e uma cena daquela era completamente verossímil. Uma vez, em uma entrevista, perguntaram a Barrio de onde vinha a palavra “Situações”; ele respondeu que vinha “do dia a dia comum, uma coisa banal”. A banalidade da década de 1970 era sangue e carcaça.
Arthur Barrio. Situações, 1970

Que nos lembremos da exposição Sala Escura da Tortura, realizada primeiramente em Paris, em 1973, pelo Grupo Denúncia e pelo Coletivo Anti-Fascista, depois refeita no Brasil em 2011, como uma iniciativa do Instituto Frei Tito, Ministério da Justiça e Anistia Internacional. Faziam parte do Denúncia quatro artistas, dos quais três eram sul-americanos exilados na França para fugir de governos ditatoriais: Julio Le Parc (Argentina), Gontran Guanaes Netto (Brasil), José Gamarra (Uruguai) e Alejandro Marcos (Espanha). Eles se basearam nos depoimentos de Frei Tito sobre a tortura, fizeram entre eles uma performance de reconstrução das sessões de absurdos, fotografaram as cenas de terror e depois as transformaram em pinturas hiper-realistas. Afogamento, choques, amarrações e suspensões foram algumas ferramentas de violência usadas pelo governo para punição e perseguição.
Grupo Denúncia, Sala escura de tortura, 1973
Em 1975, Letícia Parente deu sua contribuição potente com a vídeo-performance Marca Registrada, em que a artista, ao longo de aproximadamente dez minutos, borda a frase “Made in Brazil”. O bordado, diminuído historicamente como ofício doméstico das mulheres, é aqui ressignificado como demonstração de força e resistência tendo-se em vista o que se costura: a sola do pé da própria artista. As imagens causam angústia e é esta a intenção. Em apenas um vídeo aparentemente simples, Parente explicita muitas questões complexas: fala da dor de ser brasileira naquele momento, da entrega do país ao mercado internacional, da necessidade de lastro, de sua própria raiz e da sua condição de mulher no meio do furacão. Ao costurar seu próprio pé com a frase que marca sua origem, Letícia Parente nos fala de coragem. “A vida é feita de coragem”.
Letícia Parente, Marca Registrada, 1975
Na mesma década do trabalho de Parente, Alex Fleming se usou do hiper-realismo para revelar o não dito que existia por trás da defesa da família, da moral e dos bons costumes. Na série de gravuras Natureza-morta, o artista se apropria de um dos gêneros mais tradicionais das artes plásticas, geralmente decorativo, para expor os crimes cometidos pelos militares de bem. Se o conceito teórico de “natureza-morta” nas artes inclui “elementos inanimados” e “objetos imóveis”, no trabalho de Fleming as composições se revelam como cadáveres humanos eletrocutados, alvejados, sufocados, baleados, enforcados. Tudo bem explícito para que as famílias burguesas pudessem emoldurar e pendurar na sala de jantar, enquanto se ocupam de nascer e morrer.

A morte é tema central de diversos trabalhos plásticos feitos nas décadas de 1960 e, especialmente, de 1970. Carlos Zilio, por exemplo, tem dois autorretratos simples mas com uma potência que dói. Em Autorretrato aos 26 anos, o artista desenha o que seria uma foto sua em 3×4, primeiro com o rosto encarando o observador, depois de perfil, ambas com um número de fichamento feito pela polícia. Abaixo dessas duas imagens, uma cela se abre para um rapaz sair. Sem camisa, ele revela no peito o único ponto de cor da obra: o coração vermelho. Na base do papel, as dez digitais de Zilio, registro mais puro de sua identidade.
Três anos depois, Carlos Zilio se retratou novamente. A simplicidade desta obra é inversamente proporcional ao impacto: sobre um papel branco, no centro, a palavra “auto-retrato” aparece grafada em tipografia maquinal, manchada com uma única gota de sangue. Não existe mais nada no trabalho, nenhuma figura humana, apenas o rastro de algo que não existe mais, apenas o vestígio de um destino violento, sequestrado. Quanto Zilio escreve “autorretrato” em sua obra, ele cria espaço que deveria ser habitado por um homem; a ausência de uma figura humana leva a questionamentos do que se sucedeu, e a resposta vem com sangue. A ausência é consequência da violência.
Carlos Zilio. Autoretrato aos 26 anos, 1970
Em 1978, Paulo Brusky também se apropriou do gênero de autorretrato e fez sua própria versão: a composição inclui duas radiografias de crânio humano, feitas para reconhecimento da arcada dentária em cadáveres não identificados; abaixo das duas imagens, um retrato de rosto do artista coberto por uma tarja preta onde se lê “Protetor de identidade”. Em época de assassinatos, esconder-se não é covardia, é sobrevivência.
Impossível não mencionar Cildo Meireles e suas Inserções em Circuitos Ideológicos, uma série de intervenções urbanas com críticas explícitas à violência dos militares e à política econômica liberal colocada em prática. Se eu disse no início que, ao falar de ditadura, as primeiras imagens que me vêm à cabeça são dos artistas resistentes, talvez a segunda referência imagética que tenho do período militar é a do assassinato cruel do jornalista Vladimir Herzog. Lembro-me da primeira vez que vi a foto daquele suicídio encenado. Com dez anos de idade, eu já sabia que não era possível alguém se enforcar daquele jeito. No final da década de 1970, Cildo Meireles carimbou notas de dinheiro cobrando respostas e justiça para o jornalista. “Quem matou Herzog?” gritava nas cédulas que circulavam pelas cidades.
Precisaremos de muitos carimbos, pinturas, intervenções urbanas, graffiti, performances, happenings e todas as técnicas das artes plásticas para enfrentarmos e sobrevivermos ao período Bolsonaro. Precisamos delas como registro histórico e como formas de revolução. Obviamente que tentarão calar a todos, primeiro com o fechamento do Ministério da Cultura, depois com a criminalização de práticas artísticas, poéticas, obras etc. Nos últimos tempos já quiseram censurar as artes – lembrem-se do Queermuseu e da performance de Wagner Schwartz – mas elas resistiram e sempre resistirão.
A lista de artistas e trabalhos contestadores das práticas desumanas da ditadura civil-militar no Brasil é infinita e, com certeza, esse esforço aqui diz muito mais sobre meu esquecimento do que sobre minha lembrança. Peço desculpas desde já pela possível injustiça que cometi por der deixado de fora outros tantos nomes. De toda forma, o que trago é uma tentativa pequenina de contribuir com a restauração da força e da coragem da juventude para os próximos anos que virão, especialmente dos artistas, para que nunca aceitem se calar e que entendam que ser artista significa carregar consigo uma função social das mais importantes: a de transformação do nosso tempo e espaço em expressões que suscitarão a reflexão, o pensamento e a compreensão da nossa sócio-política.

*Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

 

 

sábado, 4 de abril de 2015

Vinte filmes sobre a ditadura no Brasil

op
http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=127137


Vinte filmes sobre a ditadura no Brasil

02 (1)
Obras examinam prisões políticas, censura, resistência popular, lutas camponesas e operárias, tortura. No 51º aniversário do golpe, guia para compreender um período sombrio
Por Shellen Galdino, no Plaggiado
Diversos foram mortos, outros tantos torturados, outros tiveram que se exilar. Uma momento que jamais deve se repetir, porém, deve ser lembrada. Embora muitos ainda querem enterrar e não julgar os torturadores, existem diversos que lutam contra a volta deste momento e julgamento dos responsáveis.
Os anos de chumbo passaram por diversos momentos, neste sentido, é válido conferir uma síntese histórica: Cronologia da Ditadura Militar e algumas fotos.
Este período marcou profundamente a história do Brasil, onde parte da comunicação e da mídia apoiaram o golpe exemplo disso é a Folha de São Paulo e a Rede Globo. Assim como as empreiteiras Camargo Côrrea e Odebrecht. Vejam esta reportagem no Brasil de Fato: As quatro irmãs
Em contra partida, quem criticava a ditadura, era censurado, quando não torturado ou morto. Diversos livros proibidos, diversas vozes caladas, diversos filmes proibidos. De todo modo, o cinema brasileiro existem produções consideráveis sobre a temática, principalmente de forma mais recente, com o incentivo do Governo Federal através da Comissão Nacional da Verdade e do Cinema pela Verdade, mas, os filmes ainda são modestos para a necessidade de debater este período.
“É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. As provas das torturas trazemos no corpo”. (Frei Tito)
Aqui, segue 20 filmes interessantes para ajudar a compreender nossa história.
TEXTO-MEIO
1. MANHÃ CINZENTA (1968), Olney São Paulo – Em plena vigência do AI-5, o cineasta-militante Olney São Paulo dirigiu este filme, que se passa numa fictícia ditadura latino-americana, onde um casal que participa de uma passeata é preso, torturado e interrogado por um robô, antecipando o que aconteceria com o próprio diretor. A ditadura tirou o filme de circulação, mas uma cópia sobreviveu para mostrar a coragem de Olney São Paulo, que morreu depois de várias sessões de tortura, em 1978.


2. PRA FRENTE, BRASIL (1982), Roberto Farias – Um homem comum volta para casa, mas é confundido com um “subversivo” e submetido a sessões de tortura para confessar seus supostos crimes. Este é um dos primeiros filmes a tratar abertamente da ditadura militar brasileira, sem recorrer a subterfúgios ou aliterações. Reginaldo Faria escreveu o argumento e o irmão, Roberto, assinou o roteiro e a direção do filme, repleto de astros globais, o que ajudou a projetar o trabalho.


 
3. NUNCA FOMOS TÃO FELIZES (1984), Murilo Salles – Rodado no último ano do regime militar, a estreia de Murilo Salles na direção mostra o reencontro entre pai e filho, depois de oito anos. Um passou anos na prisão; o outro vivia num colégio interno. Os anos de ausência e confinamento vão ser colocados à prova num apartamento vazio, onde o filho vai tentar descobrir qual a verdadeira identidade de seu pai. Um dos melhores papéis da carreira de Claudio Marzo.


4. CABRA MARCADO PARA MORRER (1984), Eduardo Coutinho – A história deste filme equivale, de certa forma, à história da própria ditadura militar brasileira. Eduardo Coutinho rodava um documentário sobre a morte de um líder camponês em 1964, quando teve que interromper as filmagens por causa do golpe. Retomou os trabalhos 20 anos depois, pouco antes de cair o regime, mesclando o que já havia registrado com a vida dos personagens duas décadas depois. Obra-prima do documentário mundial.


5. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1997), Bruno Barreto – Embora ficcionalize passagens e personagens, a adaptação de Bruno Barreto para o livro de Fernando Gabeira, que narra o sequestro do embaixador americano no Brasil por grupos de esquerda, tem seus méritos. É uma das primeiras produções de grande porte sobre a época da ditadura, tem um elenco de renome que chamou atenção para o episódio e ganhou destaque internacional, sendo inclusive indicado ao Oscar.

 
6. AÇÃO ENTRE AMIGOS (1998), Beto Brant – Beto Brant transforma o reencontro de quatro ex-guerrilheiros, 25 anos após o fim do regime militar, numa reflexão sobre a herança que o golpe de 1964 deixou para os brasileiros. Os quatro amigos, torturados durante a ditadura, descobrem que seu carrasco, o homem que matou a namorada de um deles, ainda está vivo –e decidem partir para um acerto de contas. O lendário pagador de promessas Leonardo Villar faz o torturador.


7. CABRA CEGA (2005), Toni Venturi – Em seu melhor longa de ficção, Toni Venturi faz um retrato dos militantes que viviam confinados à espera do dia em que voltariam à luta armada. Leonardo Medeiros vive um guerrilheiro ferido, que se esconde no apartamento de um amigo, e que tem na personagem de Débora Duboc seu único elo com o mundo externo. Isolado, começa a enxergar inimigos por todos os lados. Belas interpretações da dupla de protagonistas.


8. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAIRAM DE FÉRIAS (2006), Cao Hamburger – Cao Hamburger, conhecido por seus trabalhos destinados ao público infantil, usa o olhar de uma criança como fio condutor para este delicado drama sobre os efeitos da ditadura dentro das famílias. Estamos no ano do tricampeonato mundial e o protagonista, um menino de doze anos apaixonado por futebol, é deixado pelos pais, militantes de esquerda, na casa do avô. Enquanto espera a volta deles, o garoto começa a perceber o mundo a sua volta.


9. HOJE (2011), Tata Amaral – Os fantasmas da ditadura protagonizam este filme claustrofóbico de Tata Amaral. Denise Fraga interpreta uma mulher que acaba de comprar um apartamento com o dinheiro de uma indenização judicial. Cíclico, o filme revela aos poucos quem é a protagonista, por que ela recebeu o dinheiro e de onde veio a misteriosa figura que se esconde entre os cômodos daquele apartamento. Denise Fraga surpreende num papel dramático.
10. TATUAGEM (2013), Hilton Lacerda – A estreia do roteirista Hilton Lacerda na direção é um libelo à liberdade e um manifesto anárquico contra a censura. Protagonizado por um grupo teatral do Recife, o filme contrapõe militares e artistas em plena ditadura militar, mas transforma os últimos nos verdadeiros soldados. Os soldados da mudança. Irandhir Santos, grande, interpreta o líder da trupe. Ele cai de amores pelo recruta vivido pelo estreante Jesuíta Barbosa, que fica encantado pelo modo de vida do grupo.


11. BATISMO DE SANGUE (2007) – Apesar do incômodo didatismo do roteiro, o longa é eficiente em contar a história dos frades dominicanos que abriram as portas de seu convento para abrigar o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Gerando desconfiança, os frades logo passaram a ser alvo da polícia, sofrendo torturas físicas e psicológicas que marcaram a política militar. Bastante cru, o trabalho traz boas atuações do elenco principal e faz um retrato impiedoso do sofrimento gerado pela ditadura.


12. HÉRCULES 56
Na semana da independência de 1969 o embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, foi sequestrado. Em sua troca foi exigida a divulgação de um manifesto revolucionário e a libertação de 15 presos políticos, que representam diversas tendências políticas que se opunham à ditadura militar.



13. O DIA QUE DUROU 21 ANOS (2012) – de Camilo tavares, este documentário narra os interiores – desconhecidos pela maior parte da sociedade brasileira – da participação dos Estados Unidos na preparação e execução do golpe militar em 1964, através de documentos sigilosos que ficaram secretos durante anos. Mostra que os Estados Unidos estava decidido a invadir o Brasil para que o golpe tivesse sucesso.



14. DOSSIÊ JANGO (2013), de Paulo Henrique Fontenelle, este documentário traz à tona o conturbado período em que o ex-presidente João Goulart viveu no exílio e as nebulosas circunstâncias de sua morte. Partindo deste fato, o documentário alimenta o debate em torno da necessidade de investigação e de esclarecimento público deste período terrível de nossa História: a era das ditaduras militares latino-americanas.



15. ZUZU ANGEL (2006), de Sérgio Rezende, narra o Brasil dos anos 1960. A ditadura militar faz o país mergulhar em um dos momentos mais negros de sua história. Alheia a tudo isto, Zuzu Angel (Patrícia Pillar), uma estilista de modas, fica cada vez mais famosa no Brasil e no exterior. O desfile da sua coleção em Nova York consolidou sua carreira, que estava em ascensão. Paralelamente seu filho, Stuart (Daniel de Oliveira), ingressa na luta armada, que combatia as arbitrariedades dos militares. Resumindo: as diferenças ideológicas entre mãe e filho eram profundas. Ela uma empresária, ele lutando pela revolução socialista e Sônia (Leandra Leal), sua mulher, partilha das mesmas idéias. Numa noite Zuzu recebe uma ligação, dizendo que “Paulo caiu”, ou seja, Stuart tinha sido preso pelos militares. As forças armadas negam e Zuzu visita uma prisão militar e nada acha, mas viu que as celas estavam tão bem arrumadas que aquilo só podia ser um teatro de mau gosto, orquestrado pela ditadura. Pouco tempo depois ela recebe uma carta dizendo que Stuart foi torturado até a morte na aeronáutica. Então ela inicia uma batalha aparentemente simples: localizar o corpo do filho e enterrá-lo, mas os militares continuam fazendo seu patético teatro e até “inocentam” Stuart por falta de provas, apesar de já o terem executado. Zuzu vai se tornando uma figura cada vez mais incômoda para a ditadura e ela escreve que não descarta de forma nenhuma a chance de ser morta em um “acidente” ou “assalto”.



16. EM BUSCA DE IARA (2013), de Flávio Frederico, este documentário relata a trajetória excepcional de Iara Iavelberg. Apesar de ter uma situação financeira confortável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar. Iara teve uma relação amorosa com o capitão Carlos Lamarca, e morreu em 1971, aos 27 anos de idade.



17. CONDOR (2007), de Roberto Mader, trata sobre a operação de mesmo nome. Condor foi o nome dado à cooperação entre governos militares sul-americanos que resultou no sequestro e assassinato de milhares de pessoas e no exílio de tantas outras. Uma análise contemporânea destes eventos, trazendo uma história de terrorismo de estado mas também de pessoas e da procura pela verdade e justiça.


18. DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO (2014), de Pedro Asbeg, narra o principalmente o ano de 1982. A ditadura militar completava dezoito anos de opressão e censura, a MPB sobrevivia de metáforas e o Corinthians era dominado pelo mesmo presidente em um período igualmente longo. Foi neste contexto de política, futebol, rock que foram vividos alguns dos mais importantes momentos recentes de nosso país. É sobre esse período de sonhos, conquistas, utopias e desilusões que trata “Democracia em Preto e Branco”.



19. CIDADÃO BOILESEN (2009), de Chaim Litewski, conta como o empresariado financiou a Operação Bandeirante (OBAN), principal órgão de repressão da ditadura militar brasileira. Através da surpreendente vida do ex-presidente da Ultragaz, Henning Boilesen, assassinado pela guerrilha em 1971, o documentário revela a ligação política e econômica entre civis e militares no combate à luta armada. Com dezenas de entrevistados, vasto material iconográfico e inéditos documentos até então secretos. Cidadão Boilesen discute o período mais brutal da recente história brasileira.



20. ELES NÃO USAM BLACK-TIE (1984), de Leon Hirszman. Em São Paulo, em 1980, o jovem operário Tião e sua namorada Maria decidem casar-se ao saber que a moça está grávida. Ao mesmo tempo, eclode um movimento grevista que divide a categoria metalúrgica. Preocupado com o casamento e temendo perder o emprego, Tião fura a greve, entrando em conflito com o pai, Otávio, um velho militante sindical que passou três anos na cadeia durante o regime militar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Adversários da ditadura

oi
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/videos/view/adversarios_da_ditadura


CHUMBO QUENTE II

Adversários da ditadura

Alberto Dines | Programa nº 758 | 22/01/2015 | 0 comentários
 

O Observatório da Imprensa relembra o período mais sombrio da história da República brasileira pela ótica da mídia: uma das protagonistas do golpe, logo convertida em vítima do regime de exceção. O Programa entrevistou 35 personagens, entre jornalistas, historiadores, ex-guerrilheiros e famílias de vítimas da ditadura. Neste episódio o Observatório relembra o impacto do AI-5 e mostra como os jornalistas driblaram a censura. Com a mídia convencional amordaçada, nasceram os jornais alternativos, bravos adversários da ditadura militar. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade recomendará punição aos agentes da ditadura

vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/254885-1


Comissão da Verdade recomendará punição aos agentes da ditadura

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) entregará, na próxima quarta-feira (10) à presidenta Dilma Rousseff o relatório final das investigações. O documento, com cerca de 2 mil páginas, recomendará punição civil, administrativa e criminal para suspeitos de serem responsáveis pela violação de direitos humanos na ditadura. 


Reprodução
  
Segundo a assessoria do órgão, o relatório apontará 434 mortos e desaparecidos políticos, o que amplia em 72 nomes o total de 362 registrados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

A Comissão da Verdade foi criada pela Lei 12.528/2011 e instituída em maio de 2012 por Dilma. O colegiado foi constituído a fim de apurar as denúncias de violações de direitos humanos entre 1946 e 1988, período que abrange o regime militar.

Durante os últimos anos, foram colhidos 1.120 depoimentos – 132 de agentes militares –, produzidos 21 laudos periciais e realizadas 80 audiências públicas em 15 estados. No período de funcionamento da comissão, foram feitas sete diligências em Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Entre as pessoas ouvidas pela CNV nesses dois anos e meio, estiveram o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do II Exército; o general reformado José Antonio Nogueira Belham, que comandou o DOI-Codi do Rio de Janeiro; e o coronel Paulo Malhães, morto neste ano, e que admitiu ter participado de torturas e mortes durante o regime militar.

O coordenador da Comissão da Verdade, Pedro Dallari, afirmou que o relatório pedirá a punição aos agentes da ditadura em razão de o colegiado ter provas “robustas” da participação dessas pessoas em casos de tortura, execuções e ocultação de cadáveres. Na avaliação de Dallari, os trabalhos da comissão foram positivos e ele diz que o documento está além de questões político-ideológicas.

"Nós não somos uma comissão jurídica. Embora a maioria dos integrantes seja de pessoas da área do direito, nós não fomos mandatados para exarar posições júridicas. Nós não somos um órgão jurídico. Qual foi a nossa atribuição? Apurar o fato em si e propor recomendações. O fato que se revelou é um quadro muito grave de graves violações dos direitos humanos, torturas, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres", disse Dallari.

"Tivemos investigações que dizem respeito a eventos ocorridos há muito tempo, há mais de 40 anos. Então, isso, obviamente, criou um quadro de dificuldade. Mesmo nesse contexto, acho que a comissão conseguiu – do ponto de vista do levantamento de informações pela busca da verdade – fazer um bom trabalho e isso vai se refletir nas 2 mil páginas do relatório, que é consistente, abrangente e muito detalhado, que não tem opiniões. É um relatório fático", afirmou.

Segundo ele, as cerca de 2 mil páginas do documento que serão entregues à presidente Dilma Rousseff "deixarão claro" que os trabalhos da comissão não tiveram viés ideológico.
O relatório não vai analisar o regime militar. O documento analisa as graves violações feitas pelo regime. Foi o que nós fizemos. [...] O relatório tem toda a consistência necessária e tira esse viés político."
Pedro Dallari, coordenador da Comissão Nacional da Verdade
Para o coordenador da CNV, o documento precisa ser "amplamente" divulgado, para que a sociedade brasileira e as famílias de vítimas do regime tenham conhecimento do que ocorreu no período da ditadura. "E é até capaz que o leitor ache nossas conclusões tímidas, pelas provas que vamos apresentar", avalia.

Dallari afirmou ainda que o fato de ter sido criado na CNV um departamento de perícia técnica permitirá, segundo avalia, que a comissão não seja acusada de ter produzido um documento "contra militares", mas, sim, segundo ele, que mostre o que ocorreu no país durante o regime e ainda não havia sido divulgado.

"O relatório não vai analisar o regime militar. O documento analisa as graves violações feitas pelo regime. Foi o que nós fizemos. Essa análise é importante porque nós nos concentramos em uma base pericial, na apuração de todos os fatos com exame de documentos. O relatório tem toda a consistência necessária e tira esse viés político", afirmou.

Tortura em instalações militares

Em meio aos 50 anos do golpe militar que deu início à ditadura, as Forças Armadas se comprometeram a apurar denúncias de que torturas teriam sido praticadas em instalações militares durante o regime.

Em 18 de fevereiro, a CNV enviou ao ministro Celso Amorim o pedido de instauração das sindicâncias internas.

Em relatório enviado à CNV, porém, Exército, Marinha e Aeronáutica informaram não ter encontrado provas de que houve desvio de finalidade do uso das instalações, o que significa que não foram encontradas provas de casos de tortura nas dependências militares, segundo a comissão.
De acordo com Dallari, constará do relatório final da comissão recomendação para que as Forças Armadas reconheçam que no período do regime militar instalações do Exército, Marinha e Aeronáutica foram usadas em casos de violação de direitos humanos.

Ex-presidentes

Nesses dois anos e meio de trabalho, a Comissão da Verdade trabalhou também com análises relacionadas às mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, o Jango.
Com autorização da família, os restos mortais de Jango foram periciados e, segundo divulgaram a Secretaria de Direitos Humanos e a Polícia Federal, o laudo pericial não encontrou sinais de envenenamento, conforme suspeita de familiares.

Os exames dos restos mortais começaram em 2013, a pedido da Comissão Nacional da Verdade. Jango, exilado da ditadura militar, morreu na Argentina, em 1976. A causa oficial da morte foi infarto. Para a família, ele teria sido assassinado em uma ação da Operação Condor, aliança entre as ditaduras militares da América do Sul nos anos 1970 para perseguir opositores dos regimes.

Apesar de suspeitas de que JK tivesse sido vítima de um atentado, a CNV concluiu que o governo militar (1964-1985) não teve participação na morte do ex-presidente. Ele morreu após o veículo Chevrolet Opala, placa NW-9326 RJ, que conduzia Juscelino e seu motorista Geraldo Ribeiro pela Via Dutra, rodovia que liga São Paulo a Rio de Janeiro, colidiu frontalmente com uma carreta Scania Vabis, placa ZR-0398-SC, após ter sido atingido por um ônibus.

Cooperação internacional
Durante a realização da Copa do Mundo, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, esteve em Brasília e se encontrou com a presidente Dilma Rousseff. Após a reunião, ele convidou a imprensa para uma entrevista coletiva na Embaixada dos Estados Unidos e anunciou que o país disponibilizaria documentos obtidos por Washington referentes à ditadura brasileira. Ainda em julho, o colegiado divulgou no site os documentos entregues pelos EUA.

Fonte: G1

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Revelado documento secreto que cataloga “inimigos” durante Guerra Civil em El Salvador

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82873

Notícia com vídeo relacionadoRevelado documento secreto que cataloga “inimigos” durante Guerra Civil em El Salvador

Marcela Belchior
Adital
A Comissão de Direitos Humanos de El Salvador (CDHES) acaba de revelar, publicamente, um documento confidencial das Forças Armadas (FAES) do país em que são registradas ações do serviço de inteligência governamental durante a Guerra Civil, que ocorreu no território nacional entre os anos 1980 a 1992. O chamado Livro Amarelodemonstra como foram cometidos crimes pelos militares, contendo uma lista de quase 2 mil pessoas identificadas, fotografadas e que, em grande parte, foram capturadas ou mortas.

O documento confirma o envolvimento da Força Armada em crimes de homicídio, tortura e desaparecimentos forçados durante a Guerra Civil. Foto: Reprodução.


Assinalados no livro como "terroristas delinquentes”, os alvos eram pessoas ligadas à Frente Farabundo Martí de Liberação Nacional (FMLN), partido político de oposição criado a partir de cinco organizações guerrilheiras, mas também a sindicatos e partidos de tendência direitista. Entre eles figura o atual presidente da República, Salvador Sánchez Cerén, um dos principais dirigentes da FMLN que, em 1970, participou da criação da primeira organização armada de esquerda no país, a Forças Populares de Libertação Farabundo Martí (FPL).
Do total de nomes identificados no livro, 43% se referem à lista de desaparecimentos forçados ou de pessoas que tiveram direitos humanos violados. Os casos foram denunciados tanto pelas próprias vítimas quanto por seus familiares, diante de organizações humanitárias salvadorenhas e da Organização das Nações Unidas (ONU), ainda nos anos do conflito.

O Livro Amarelo contém 270 páginas com nomes, fotos e outras informações dos insurgentes perseguidos pelo Exército. Foto: Reprodução.


A difusão do Livro Amarelo representa a suplantação de anos de táticas obstrucionistas por parte do Exército e de outras forças de segurança de El Salvador, e se localiza em um contexto político no qual o país busca reavaliar a história das violações aos direitos humanos durante o conflito. Como afirma o diretor da Comissão de Direitos Humanos, Miguel Montenegro, a apresentação do Livro Amarelo é uma maneira de superar a impunidade que ainda existe no país a respeito da guerra. "Lá estão os nomes e sobrenomes de quem foi assassinada e assassinado pelas Forças Armadas de El Salvador”, declarou à imprensa.
Montenegro destaca que o livro deverá gerar grande impacto e diz esperar repercussão nacional e internacional no que tange ao respeito aos direitos humanos, fazendo-se conhecer os fatos que construíram o conflito e pressionando por justiça em torno dos responsáveis pelas violações. O diretor da Comissão exige que a Corte Suprema de Justiça (CSJ) de El Salvador discuta a Lei de Anistia do país, que ele considera inconstitucional, para penalizar quem cometeu crimes de guerra.
Para isso, parte das provas está contida no documento. Além de identificar os militantes que estavam na mira do Exército salvadorenho, o registro também revela uma lista de defensores de direitos humanos, líderes sindicais e outras figuras políticas. Muitos deles foram vítimas de detenções ilegais, tortura, execução extrajudicial, desaparecimento forçado, entre outras violações.

Presidente Salvador Sánchez Cerén catalogado no livro (à esquerda) e na atualidade. Foto: Reprodução.

O Livro Amarelo é o primeiro documento militar confidencial, proveniente dos próprios arquivos do Exército, que se torna público em El Salvador e, até o momento, a única prova da violação de direitos com perseguição, vigilância e desaparecimento de cidadãos/ãs durante a Guerra Civil. Publicado na Internet, o registro também traz uma série de documentos provenientes de arquivos estadunidenses, nos quais se evidencia a participação da CIA (Central Intelligence Agency), do Governo dos Estados Unidos, e de outros serviços de repressão.
Entenda o conflito
Embora nunca tenha sido declarado de maneira oficial, o período conhecido por Guerra Civil de El Salvador foi um conflito bélico interno. Nele, se enfrentaram as Forças Armadas de El Salvador, encarregada de defender a soberania do Estado, contra as forças insurgentes da FMLN.
O confronto armado repercutiu na morte ou desaparecimento de pelo menos 75 mil salvadorenhos/as civis mortos e 8 mil desaparecidos/as em 12 anos de embate. A guerra civil foi encerrada após um processo de diálogo entre as partes e a assinatura do acordo de paz, que permitiu a desmobilização das forças guerrilheiras e sua incorporação legal à estrutura política do país.
Saiba mais sobre a luta por justiça às violações de direitos humanos na Guerra Civil de El Salvador em depoimentos de vítimas do conflito:

Leia também
Documentários resgatam história de guerra civil salvadorenha
34 anos da morte de Dom Oscar Romero: ainda sem punição
Decisão do arcebispado de El Salvador desampara vítimas de violações

Marcela Belchior

Jornalista da ADITAL