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sábado, 4 de abril de 2015

Vinte filmes sobre a ditadura no Brasil

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Vinte filmes sobre a ditadura no Brasil

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Obras examinam prisões políticas, censura, resistência popular, lutas camponesas e operárias, tortura. No 51º aniversário do golpe, guia para compreender um período sombrio
Por Shellen Galdino, no Plaggiado
Diversos foram mortos, outros tantos torturados, outros tiveram que se exilar. Uma momento que jamais deve se repetir, porém, deve ser lembrada. Embora muitos ainda querem enterrar e não julgar os torturadores, existem diversos que lutam contra a volta deste momento e julgamento dos responsáveis.
Os anos de chumbo passaram por diversos momentos, neste sentido, é válido conferir uma síntese histórica: Cronologia da Ditadura Militar e algumas fotos.
Este período marcou profundamente a história do Brasil, onde parte da comunicação e da mídia apoiaram o golpe exemplo disso é a Folha de São Paulo e a Rede Globo. Assim como as empreiteiras Camargo Côrrea e Odebrecht. Vejam esta reportagem no Brasil de Fato: As quatro irmãs
Em contra partida, quem criticava a ditadura, era censurado, quando não torturado ou morto. Diversos livros proibidos, diversas vozes caladas, diversos filmes proibidos. De todo modo, o cinema brasileiro existem produções consideráveis sobre a temática, principalmente de forma mais recente, com o incentivo do Governo Federal através da Comissão Nacional da Verdade e do Cinema pela Verdade, mas, os filmes ainda são modestos para a necessidade de debater este período.
“É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. As provas das torturas trazemos no corpo”. (Frei Tito)
Aqui, segue 20 filmes interessantes para ajudar a compreender nossa história.
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1. MANHÃ CINZENTA (1968), Olney São Paulo – Em plena vigência do AI-5, o cineasta-militante Olney São Paulo dirigiu este filme, que se passa numa fictícia ditadura latino-americana, onde um casal que participa de uma passeata é preso, torturado e interrogado por um robô, antecipando o que aconteceria com o próprio diretor. A ditadura tirou o filme de circulação, mas uma cópia sobreviveu para mostrar a coragem de Olney São Paulo, que morreu depois de várias sessões de tortura, em 1978.


2. PRA FRENTE, BRASIL (1982), Roberto Farias – Um homem comum volta para casa, mas é confundido com um “subversivo” e submetido a sessões de tortura para confessar seus supostos crimes. Este é um dos primeiros filmes a tratar abertamente da ditadura militar brasileira, sem recorrer a subterfúgios ou aliterações. Reginaldo Faria escreveu o argumento e o irmão, Roberto, assinou o roteiro e a direção do filme, repleto de astros globais, o que ajudou a projetar o trabalho.


 
3. NUNCA FOMOS TÃO FELIZES (1984), Murilo Salles – Rodado no último ano do regime militar, a estreia de Murilo Salles na direção mostra o reencontro entre pai e filho, depois de oito anos. Um passou anos na prisão; o outro vivia num colégio interno. Os anos de ausência e confinamento vão ser colocados à prova num apartamento vazio, onde o filho vai tentar descobrir qual a verdadeira identidade de seu pai. Um dos melhores papéis da carreira de Claudio Marzo.


4. CABRA MARCADO PARA MORRER (1984), Eduardo Coutinho – A história deste filme equivale, de certa forma, à história da própria ditadura militar brasileira. Eduardo Coutinho rodava um documentário sobre a morte de um líder camponês em 1964, quando teve que interromper as filmagens por causa do golpe. Retomou os trabalhos 20 anos depois, pouco antes de cair o regime, mesclando o que já havia registrado com a vida dos personagens duas décadas depois. Obra-prima do documentário mundial.


5. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1997), Bruno Barreto – Embora ficcionalize passagens e personagens, a adaptação de Bruno Barreto para o livro de Fernando Gabeira, que narra o sequestro do embaixador americano no Brasil por grupos de esquerda, tem seus méritos. É uma das primeiras produções de grande porte sobre a época da ditadura, tem um elenco de renome que chamou atenção para o episódio e ganhou destaque internacional, sendo inclusive indicado ao Oscar.

 
6. AÇÃO ENTRE AMIGOS (1998), Beto Brant – Beto Brant transforma o reencontro de quatro ex-guerrilheiros, 25 anos após o fim do regime militar, numa reflexão sobre a herança que o golpe de 1964 deixou para os brasileiros. Os quatro amigos, torturados durante a ditadura, descobrem que seu carrasco, o homem que matou a namorada de um deles, ainda está vivo –e decidem partir para um acerto de contas. O lendário pagador de promessas Leonardo Villar faz o torturador.


7. CABRA CEGA (2005), Toni Venturi – Em seu melhor longa de ficção, Toni Venturi faz um retrato dos militantes que viviam confinados à espera do dia em que voltariam à luta armada. Leonardo Medeiros vive um guerrilheiro ferido, que se esconde no apartamento de um amigo, e que tem na personagem de Débora Duboc seu único elo com o mundo externo. Isolado, começa a enxergar inimigos por todos os lados. Belas interpretações da dupla de protagonistas.


8. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAIRAM DE FÉRIAS (2006), Cao Hamburger – Cao Hamburger, conhecido por seus trabalhos destinados ao público infantil, usa o olhar de uma criança como fio condutor para este delicado drama sobre os efeitos da ditadura dentro das famílias. Estamos no ano do tricampeonato mundial e o protagonista, um menino de doze anos apaixonado por futebol, é deixado pelos pais, militantes de esquerda, na casa do avô. Enquanto espera a volta deles, o garoto começa a perceber o mundo a sua volta.


9. HOJE (2011), Tata Amaral – Os fantasmas da ditadura protagonizam este filme claustrofóbico de Tata Amaral. Denise Fraga interpreta uma mulher que acaba de comprar um apartamento com o dinheiro de uma indenização judicial. Cíclico, o filme revela aos poucos quem é a protagonista, por que ela recebeu o dinheiro e de onde veio a misteriosa figura que se esconde entre os cômodos daquele apartamento. Denise Fraga surpreende num papel dramático.
10. TATUAGEM (2013), Hilton Lacerda – A estreia do roteirista Hilton Lacerda na direção é um libelo à liberdade e um manifesto anárquico contra a censura. Protagonizado por um grupo teatral do Recife, o filme contrapõe militares e artistas em plena ditadura militar, mas transforma os últimos nos verdadeiros soldados. Os soldados da mudança. Irandhir Santos, grande, interpreta o líder da trupe. Ele cai de amores pelo recruta vivido pelo estreante Jesuíta Barbosa, que fica encantado pelo modo de vida do grupo.


11. BATISMO DE SANGUE (2007) – Apesar do incômodo didatismo do roteiro, o longa é eficiente em contar a história dos frades dominicanos que abriram as portas de seu convento para abrigar o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Gerando desconfiança, os frades logo passaram a ser alvo da polícia, sofrendo torturas físicas e psicológicas que marcaram a política militar. Bastante cru, o trabalho traz boas atuações do elenco principal e faz um retrato impiedoso do sofrimento gerado pela ditadura.


12. HÉRCULES 56
Na semana da independência de 1969 o embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, foi sequestrado. Em sua troca foi exigida a divulgação de um manifesto revolucionário e a libertação de 15 presos políticos, que representam diversas tendências políticas que se opunham à ditadura militar.



13. O DIA QUE DUROU 21 ANOS (2012) – de Camilo tavares, este documentário narra os interiores – desconhecidos pela maior parte da sociedade brasileira – da participação dos Estados Unidos na preparação e execução do golpe militar em 1964, através de documentos sigilosos que ficaram secretos durante anos. Mostra que os Estados Unidos estava decidido a invadir o Brasil para que o golpe tivesse sucesso.



14. DOSSIÊ JANGO (2013), de Paulo Henrique Fontenelle, este documentário traz à tona o conturbado período em que o ex-presidente João Goulart viveu no exílio e as nebulosas circunstâncias de sua morte. Partindo deste fato, o documentário alimenta o debate em torno da necessidade de investigação e de esclarecimento público deste período terrível de nossa História: a era das ditaduras militares latino-americanas.



15. ZUZU ANGEL (2006), de Sérgio Rezende, narra o Brasil dos anos 1960. A ditadura militar faz o país mergulhar em um dos momentos mais negros de sua história. Alheia a tudo isto, Zuzu Angel (Patrícia Pillar), uma estilista de modas, fica cada vez mais famosa no Brasil e no exterior. O desfile da sua coleção em Nova York consolidou sua carreira, que estava em ascensão. Paralelamente seu filho, Stuart (Daniel de Oliveira), ingressa na luta armada, que combatia as arbitrariedades dos militares. Resumindo: as diferenças ideológicas entre mãe e filho eram profundas. Ela uma empresária, ele lutando pela revolução socialista e Sônia (Leandra Leal), sua mulher, partilha das mesmas idéias. Numa noite Zuzu recebe uma ligação, dizendo que “Paulo caiu”, ou seja, Stuart tinha sido preso pelos militares. As forças armadas negam e Zuzu visita uma prisão militar e nada acha, mas viu que as celas estavam tão bem arrumadas que aquilo só podia ser um teatro de mau gosto, orquestrado pela ditadura. Pouco tempo depois ela recebe uma carta dizendo que Stuart foi torturado até a morte na aeronáutica. Então ela inicia uma batalha aparentemente simples: localizar o corpo do filho e enterrá-lo, mas os militares continuam fazendo seu patético teatro e até “inocentam” Stuart por falta de provas, apesar de já o terem executado. Zuzu vai se tornando uma figura cada vez mais incômoda para a ditadura e ela escreve que não descarta de forma nenhuma a chance de ser morta em um “acidente” ou “assalto”.



16. EM BUSCA DE IARA (2013), de Flávio Frederico, este documentário relata a trajetória excepcional de Iara Iavelberg. Apesar de ter uma situação financeira confortável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar. Iara teve uma relação amorosa com o capitão Carlos Lamarca, e morreu em 1971, aos 27 anos de idade.



17. CONDOR (2007), de Roberto Mader, trata sobre a operação de mesmo nome. Condor foi o nome dado à cooperação entre governos militares sul-americanos que resultou no sequestro e assassinato de milhares de pessoas e no exílio de tantas outras. Uma análise contemporânea destes eventos, trazendo uma história de terrorismo de estado mas também de pessoas e da procura pela verdade e justiça.


18. DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO (2014), de Pedro Asbeg, narra o principalmente o ano de 1982. A ditadura militar completava dezoito anos de opressão e censura, a MPB sobrevivia de metáforas e o Corinthians era dominado pelo mesmo presidente em um período igualmente longo. Foi neste contexto de política, futebol, rock que foram vividos alguns dos mais importantes momentos recentes de nosso país. É sobre esse período de sonhos, conquistas, utopias e desilusões que trata “Democracia em Preto e Branco”.



19. CIDADÃO BOILESEN (2009), de Chaim Litewski, conta como o empresariado financiou a Operação Bandeirante (OBAN), principal órgão de repressão da ditadura militar brasileira. Através da surpreendente vida do ex-presidente da Ultragaz, Henning Boilesen, assassinado pela guerrilha em 1971, o documentário revela a ligação política e econômica entre civis e militares no combate à luta armada. Com dezenas de entrevistados, vasto material iconográfico e inéditos documentos até então secretos. Cidadão Boilesen discute o período mais brutal da recente história brasileira.



20. ELES NÃO USAM BLACK-TIE (1984), de Leon Hirszman. Em São Paulo, em 1980, o jovem operário Tião e sua namorada Maria decidem casar-se ao saber que a moça está grávida. Ao mesmo tempo, eclode um movimento grevista que divide a categoria metalúrgica. Preocupado com o casamento e temendo perder o emprego, Tião fura a greve, entrando em conflito com o pai, Otávio, um velho militante sindical que passou três anos na cadeia durante o regime militar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Depois da chuva e os caminhos da rebeldia

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http://outraspalavras.net/brasil/depois-da-chuva-e-os-complexos-caminhos-da-rebeldia/

Depois da chuva e os caminhos da rebeldia

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Filme ambienta, na Salvador dos 1980, impasse da juventude entre democracia instituída e seus limites; e entre cólera política e ternura amorosa 
Por Deni Rubbo
Nasci em 1985. Vivi, portanto, apenas míseros quatro anos de vida nos anos 1980, dos quais recordo de poucas coisas. Meus primeiros flashes de vida, mais ou menos nítidos, estão na eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 90, no vilão Caniggia e, mais tarde, na figura acachapante do ex-presidente Fernando Collor de Melo estampado nos canais de TV. No entanto, há um estranho pertencimento àquelas “décadas perdidas”, não apenas pelo gosto da literatura e música produzidas que marcaram diretamente os jovens da década subsequente, mas também pelos imbróglios políticos na qual o Brasil transitava.
Talvez por isso o filme Depois da Chuva, dirigido por Claudio Marques e Marília Hugues, que estreia essa semana em diversas regiões do Brasil, depois de uma peregrinação de mais de um ano e meio em festivais nacionais e internacionais, venha causar um efeito pouco comum no público: é como se descobríssemos uma ferida aberta, da qual curiosamente não tínhamos nos dado conta.
Além de preencher uma lacuna considerável na história do cinema brasileiro, o filme conseguiu, com sensibilidade, transmitir uma atmosfera poderosa, sem caricaturá-la, criando um conjunto de situações interessantes na trama. O uso de imagens reais da época – como no filme chileno No (2012, Pablo Larraín) – é apenas um dos ingredientes que permite esta retomada da história recente do país , seja nos discursos pelas Diretas Já, especialmente os de Tancredo Neves, seja no desenvolvimento da indústria cultural, através das esdrúxulas propagandas.
Caio (Pedro Maia), estudante secundário, tem 16 anos e mora na cidade de Salvador. O ano é 1984, no auge das Diretas Já. Logo na abertura do filme, um discurso inflamado pela democratização do país e um corte rápido nos transportarão para uma escola de classe média, onde circula a notícia de que finalmente ocorrerão eleições livres na associação estudantil do colégio. Mas, diante de tal horizonte promissor, de possibilidades abertas, de euforia social, o protagonista opta, não sem certa soberba e desdém, pela rejeição desse otimismo. Caio situava-se em um campo distinto, nos interstícios da anarquia e da revolta, que flertava pouco com o entusiasmo democrático que impregnava tanto a escola quanto o país.
TEXTO-MEIO
Cabelos compridos, livros roubados, aulas cabuladas, a descoberta da maconha e da bebida alcóolica, a valorização da música (em especial o punk rock) fazem parte de um ritual de passagem do adolescente-protagonista que descobre no socialismo libertário uma ideologia compatível com seus anseios rebeldes.
Além de participar ativamente da Rádio Pirata “O inimigo do Rei”, que reproduzia as ideias anarquistas na capital baiana, um exemplo desse espírito rebelde está na sequência da apresentação do grupo de teatro na escola. A primeira exibição, comportada, em que um menino canta burocraticamente a música de Geraldo Vandré arrancando aplausos da diretora careta, conservadora e retrógada, converte-se em algo totalmente distinto a seguir. Os integrantes do grupo de Caio sobem ao palco vestidos de mulher, encachaçados, entoando palavras depravadas e cantando um punk rock ensurdecedor. Não é preciso dizer sobre o impacto negativo que a apresentação causa na diretora…
Todavia, o choque, a virulência, a revolta, a acidez, a raiva no espírito inquieto de Caio não o insensibilizam no despertar amoroso que, como os poetas sussurram infinitamente, segue por vezes características antípodas das descritas acima. Assim, toda construção no filme da relação afetiva entre Caio e Fernanda (Sophia Corral), desde as cenas em que conversam em frente ao mar, passando pela loja de discos, até a esgrima com galhos, está longe de soar enfadonha. Isso porque os diretores procuram apresentar um personagem que é antes de uma imagem política construída, acabada, o retrato de um jovem em formação na década de 80 na capital baiana. Como jovem, ele está descobrindo novas sensibilidades. A doçura, a delicadeza, a hesitação, a timidez também são características que entram na bagagem da personalidade de Caio, assim como na construção do seu cordão afetivo. Isso não o faz incoerente, e sim simplesmente humano.
Há quem possa dizer que os jovens atores do filme são irregulares. Bobagem. Pois é justamente essa busca pela naturalidade que o filme integra nos personagens (por exemplo, a fala baixa, a comunicação através de gestos, olhares, o jeito de andar), que lhe dá originalidade e precisão na interpretação. Não por acaso, Pedro Maia arrematou o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília, tornando-se o mais jovem premiado nessa categoria.
No desenrolar da trama, tanto o anarquismo quanto as eleições diretas (na escola e no país) enfrentam obstáculos. Tanto o discurso de Tancredo Neves na televisão quanto a história de vida da atriz americana Grace Kelly (com quem se identifica a mãe de Caio) parecem distantes como projetos de futuro imaginado pelo protagonista.
Caio é suspenso da escola, por escrever uma redação, em que sugere haver mais mentiras que verdades, mais farsantes que convictos na “transição democrática”. Não deixa de ser um recado amargo, para um país que não conseguiu ainda assegurar requisitos básicos de uma sociedade democrática. Não se trata de igualar ditadura civil-militar com democracia formal, mas dar ênfase a possíveis continuidades que não foram suprimidas entre os dois regimes. O autoritarismo (ou a violência do Estado) que sobreviveu à transição, por mais que tenha sido combatido, continuou com força, independente das periodizações políticas e das cartas constitucionais.
Em sua trama, o filme também sublinha o descaso da família de Caio. A mãe, ausente, está mais preocupada com os apetites que a indústria cultural televisiva lhe oferece, e o pai é uma figura invisível. Essa clara ausência familiar não significa um álibi para justificar a revolta do filho desamparado. Até porque o filme está longe de moralismos. Ela é, antes disso, mais uma metáfora de um país que marca sempre o encontro com o futuro mas nunca comparece. Assim, o sentimento de orfandade não é apenas de Caio, mas de um país inteiro.
Bem diferente dos livros oficiais de história do Brasil nos quais as páginas sobre a década de 80 caricaturavam um país alegre, festivo, entusiasmado e animado, Depois da Chuvaescreve que por detrás da euforia caminhava uma latente amargura, uma incorrigível aflição, uma ferida pouco cicatrizada, uma chuva torrencial de 21 anos que alagou a memória sob uma água cheia de ratos. Enfim, 1984 foi uma esquina de perigos e espectros, percebida mais de uma década antes na canção Como nossos pais, escrita por Belchior e cantada pela saudosa voz de Elis Regina:
“Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens”.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O amor que diz só o próprio nome

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 O amor que diz só o próprio nome

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ESCRITO POR CASSIANO TERRA RODRIGUES   
TERÇA, 05 DE AGOSTO DE 2014



Relutei em escrever as vagas impressões que me ocorreram sobre Hoje eu quero voltar sozinho(Brasil, 2014, dir. Daniel Ribeiro). O filme nacional está premiadíssimo mundo afora (uma olhadela na página do Facebook basta para constatar) e ainda é bastante comentado, elogiosamente, em certas rodas intelectuais. O que aqui escrevo não é elogioso – custa-me escrever ainda mais quando não me agrada o filme, mas em função de alguns amigos me incentivarem a publicar uma perspectiva que, segundo eles, não é comum, peço desculpas ao leitor e lanço aqui minha dissonância.

Copio o resumo da trama do filme da mesma página do Facebook já citada:

altLeonardo é um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca de seu lugar. Desejando ser mais independente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém, a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo.

O filme desenvolve esse motivo. No entanto – aqui, perdoem-me, conto o final da história – há um ponto a mais: os “sentimentos até então desconhecidos” descobertos por Leonardo (Ghilherme Lobo) nada mais são que uma atração homossexual por Gabriel (Fábio Audi). O filme, assim, mostra de maneira “terna” não só os dilemas e as dificuldades pessoais de Leonardo em assumir seu sentimento genuíno, como também as dificuldades e preconceitos que ele enfrenta por ser cego e, afinal, homossexual.


A chegada de Gabriel é o detonador do processo de autodescoberta de Leonardo. A partir disso, temos a certeza de que o processo é sem volta, só nos resta esperar para ver como ele chegará ao fim. Nesse sentido, o filme é absolutamente banal em sua estrutura narrativa: há um herói, os obstáculos para ele realizar sua tarefa estão postos, sabemos que ele a realizará, resta ver como e com quais feridas ele chegará a seu objetivo.

Mas o maior problema do filme não é essa manjadíssima estrutura narrativa (já que 99,99999999...% das histórias têm uma estrutura parecida desde Homero). Há que se falar da total artificialidade do filme. Não serve a escusa de se tratar de uma obra de ficção: a representação de adolescentes de classe média alta, todos brancos e bem alimentados, andando de bicicleta num universo que parece mais os Estados Unidos que São Paulo (isso sem falar na representação do “bullying”, bastante distante da realidade brasileira), mostra uma má-fé em sentido sartriano.

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Para Sartre (para explicar muito superficialmente), a liberdade é nossa definição mais radical: somos livres para escolhermos como vivemos, como agimos. Ao contrário de coisas e objetos fabricados, cuja essência está determinada, não há essência humana prévia à existência humana: somos o que fazemos de nós mesmos, nossa existência é anterior a qualquer essência – radicalmente, não há essência humana, só há existência humana no mundo. A consciência desse fato existencial leva as pessoas a agirem no mundo de diversas maneiras, implicando inevitavelmente a responsabilidade por nossas ações. E a má-fé surge exatamente aí: a má-fé de Sartre não é uma mentira, um engodo, uma hipocrisia, mas o fruto de uma crença em alguma essência humana que nos escusa de nossa responsabilidade sobre nossas ações – a má-fé vem de jogarmos a responsabilidade de nossas ações sobre elementos externos a nós mesmos, como a religião, o sagrado, a sociedade, os outros...

altA má-fé do filme revela-se na escolha do cenário. A escola filmada é a Escola Estadual Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, outrora orgulho da educação pública paulista; mas evidentemente todos presumem que se trata de uma escolha particular, uma vez que a burguesia classe B não matricula seus rebentos em escolas públicas há décadas. Mas esse não é o problema mais importante. O problema do filme, o ponto nevrálgico, o fio na navalha sobre o qual o filme se equilibra, é a representação das personagens masculinas e femininas. Sejamos claros: o filme mostra a estupidez e a burrice do preconceito contra os homossexuais, de um ponto de vista adolescente, pretensamente cheio de ternura e leveza que ridiculariza os estereótipos comuns contra os homossexuais.

No entanto, a má-fé com a qual representa a situação existencial das personagens faz não sobrar nada dessa ternura às mulheres, com a consequência de uma representação bastante misógina e machista (em geral, as duas coisas andam juntas) do universo feminino. Parece ser uma representação bastante inconsciente – como só pode ser quando se trata desse tipo de má-fé, o que torna as coisas ainda piores. Se não, vejamos.

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A melhor amiga de Leonardo, Giovana (Tess Amorim), é a amiga legal. Essa amiga legal pensa, fala e parece que só vive em função de arrumar um namorado. Ela confunde a amizade de Leo com amor (ou desejo) e, ao descobrir que ele está atraído por Gabriel, afasta-se. Vive um período de tormento longe de Leo. Só volta à alegria quando ambos se reconciliam. Ao contrário de Leo, que está muito bem se autodescobrindo com Gabriel.

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A outra amiga, a colega de escola, Karina (Isabela Guasco), atrai os maus comentários de Giovana por ser muito atrevida. Como Giovana, também só parece pensar em namorado. Ousada, dá em cima de Gabriel sem culpas ou vergonhas, ao contrário de Giovana. Aparece o perfeito estereótipo da adolescente “patricinha” e “piriguete” (há algum tempo, as gírias eram “patricinhas” e “mauricinhos”, hoje em dia, fala-se em “coxinha”, evitando a associação com os nomes. Mas – é uma pergunta sincera! – “coxinha” é adjetivo de dois gêneros?).

A mãe de Leonardo, Laura (Lúcia Romano), é a clássica histérica, proibitiva e superprotetora, a ponto de sufocar o pobre adolescente incompreendido. Incapaz de enxergar a pessoa Leonardo, ela só aparece no filme para fazer o contraponto ao pai legal e compreensivo, Carlos (Eucir de Souza). Só o pai e a avó, Maria (Selma Egrei), conseguem dialogar com Leonardo em algum nível amigável – a mãe é incapaz de se mostrar equilibrada quando se trata de reconhecer alguma autonomia em Leonardo.

As personagens femininas do filme, então, ou são representadas como figuras absolutamente maternais e dessexualizadas (a avó e a professora, a qual pouco aparece), ou como figuras desequilibradas emocionalmente, indo da histeria à angústia causada pela falta do objeto de desejo (a mãe e as garotas da escola).

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Em todo caso, todas as mulheres do filme aparecem ali em função do desejo masculino: Leonardo e Gabriel são plenamente autônomos, plenamente capazes de dar conta do próprio desejo, são autônomos ao ponto de serem criativos do próprio desejo – se o mundo lhes apresenta obstáculos, eles mesmos criam as condições de superá-los – a frase em um cartaz do filme indica essa capacidade construtiva dos personagens: “nem todo amor acontece à primeira vista”. As mulheres, ao contrário, não: seu desejo é representado como falta, são incapazes de desejar criativamente, só encontram satisfação e têm sua libido apaziguada quando tudo vai bem com os garotos – não têm autonomia na criação da própria libido, precisam de algo vindo de fora delas mesmas. Os garotos do filme certamente são dignos; mas onde está a dignidade das mulheres?

Vai mal o inconsciente cinemático homossexual masculino se continuar machista. Há que descolonizar o desejo.

Cordiais saudações.


Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUC-SP e esforça-se diariamente para vencer os próprios preconceitos.