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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Proteção animal em favor da biodiversidade

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=82250

Proteção animal em favor da biodiversidade

Adital
Por Feliciano Filho*
A revista científica norte-americana Science publicou em julho edição especial que alerta para o risco de "defaunação” promovido pelo homem e a consequência do desaparecimento de espécies animais para a biodiversidade do planeta. Para os especialistas, promover a prevenção animal significa proteger espécies que têm papel fundamental no bem-estar humano.
Os especialistas que assinam os artigos apontam que o planeta estaria vivendo a sexta onda de extinção em massa. Dos vertebrados terrestres, 322 espécies foram extintas desde 1500 e as populações de espécies restantes tiveram declínio médio de 25% em abundância. De todas as linhagens animais – estimadas entre cinco e nove milhões – o mundo perde entre 11 e 58 mil todos os anos.
A proteção, aliada a políticas de preservação, tem papel fundamental para reduzir o impacto da extinção, que se configura em um grande condutor de mudanças ecológicas globais. Os pesquisados destacam os problemas que envolvem o desaparecimento de populações locais, que afeta ainda mais o funcionamento de ecossistemas naturais vitais ao homem.
Exercida de forma voluntária, a atividade do protetor animal abrange fiscalização, resgate, cuidados veterinários, conscientização, além de promover inúmeras outras ações apenas com o interesse de preservar e ajudar.
O exercício de iniciativas locais auxilia também na promoção de saúde pública, a medida que evita o abandono e realiza cuidados para manter a vitalidade dos animais domésticos.
Um exemplo é o avanço da estimativa de vida de cães e gatos na cidade de São Paulo, nos últimos dez anos. Números publicados pela imprensa apontam que há uma década um cão vivia cerca de nove anos e que hoje atinge por volta de 18 anos.
Ações individuais, programas de acolhimento, tratamento e adoção, além de legislações específicas voltadas ao bem-estar animal, têm ampliado os cuidados às espécies. E isso não se resume aos animais domésticos. Há um número crescente de Organizações não Governamentais (ONGs) que se dedicam à população de animais exóticos e silvestres, que são resgatados pelos órgãos de fiscalização e, por terem ficado tanto tempo em cativeiro, não podem mais ser devolvidos à natureza e necessitam de abrigo permanente.
É um trabalho árduo, dispendioso e, muitas vezes, pouco reconhecido. Os protetores dedicam tempo e recursos nessas atividades, vão desde o transporte de resgatados, medicamentos, lares temporários, atendimento veterinário, até esforços de conscientização.
A atividade de proteção animal é, portanto, uma ferramenta essencial para a preservação das espécies, seja no âmbito local ou global. Aliados aos órgãos de fiscalização e controle, ampliam a margem de ação de todo o sistema de conservação do meio ambiente.
Em prol do reconhecimento da importância da causa, está em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) o projeto de Lei 865/14, que institui no calendário oficial o dia 04 de outubro como o "Dia dos Protetores de Animais”.
A ideia é conscientizar a sociedade a respeito de nosso meio ambiente e de todos os elementos que o compõem, em especial os animais. Os protetores e protetoras são representantes de vários segmentos da sociedade. É deles a missão de ensinar a população a respeitar outras formas de vida, conscientizando-a de que existem leis que consideram crime os atos de crueldade e maus tratos, contribuindo, significativamente, para a formação de uma população mais atuante, consciente de seu papel como agente de proteção, responsável e solidária.
* Feliciano Filho é ativista em proteção animal há cerca de 15 anos.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Governo paulista proíbe testes em animais para fins cosméticos

o eco
http://www.oeco.org.br/salada-verde/27951-governo-paulista-proibe-testes-em-animais-para-fins-cosmeticos


Governo paulista proíbe testes em animais para fins cosméticos
((o))eco - 23/01/14

RoyalSede do Instituto Royal, em São Roque, interior de São Paulo. Ação de ativistas virou símbolo da luta contra testes em animais. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil. 
A polêmica em torno da invasão do Instituto Royal por ativistas dos direitos dos animais, em outubro passado e que culminou com o fechamento do estabelecimento ganhou um novo capítulo hoje. Na manhã desta quinta-feira (23/01), o governador Geraldo Alckmin sancionou o projeto de Lei 777, que proíbe a utilização de animais em testes de produtos cosméticos. A multa em caso de descumprimento pode chegar a R$ 1 milhão por animal apreendido.
Em caso de reincidência, o valor da multa dobra. O estabelecimento terá a suspensão temporária do alvará de funcionamento e em mais um caso de reincidência, a suspensão definitiva. Para os profissionais que descumprirem a lei, a multa pode chegar a R$ 40 mil.
A proibição é mais restritiva que a lei Arouca, de âmbito nacional, que estabelece procedimentos para o uso científico de animais nacionalmente.
O projeto de lei (PL) foi apresentado pelo deputado Feliciano Filho (PEN), que milita em prol dos direitos dos animais. O PL foi apresentado na Assembleia Legislativa no dia 24 de outubro, no auge da polêmica em torno dainvasão do Instituto Royal, em São Carlos e teve tramitação rápida: em menos de 2 meses estava aprovado.  
Uma vitória dos ativistas que torna o estado de São Paulo pioneiro ao proibir esse tipo de teste para fabricação de novos produtos cosméticos.
Proibição total
A Assembleia Legislativa de São Paulo está analisando um Projeto de Lei que proíbe qualquer tipo de teste em animais, mesmo o usado para testar novos medicamentos.
O PL 780 também foi apresentada no final de outubro. Helena Bonciani Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), se manifestou em carta aberta contrária ao projeto. Para Helena Nader, o PL coloca “em risco a pesquisa científica na área da saúde no estado de São Paulo”. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O Que é o Instituto Royal? Todo aquele que vive da ciência é mesmo cientista?

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9027:social041113&catid=71:social&Itemid=180


 O Que é o Instituto Royal? Todo aquele que vive da ciência é mesmo cientista?

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ESCRITO POR CARLOS A. LUNGARZO   
SEGUNDA, 04 DE NOVEMBRO DE 2013


Há alguns dias, ativistas dos direitos animais, desarmados, entraram num bunker de tortura de bichos protegido por guardas, para liberar 178 beagles, o que deve ser considerado um gesto até agora ímpar no Brasil, análogo aos feitos dos ecologistas e os pacifistas no mundo desenvolvido.

Não é por acaso que a mídia, alguns blogueiros, os profissionais da ciência e diversos membros do establishment se unificaram numa ampla perseguição contra os ativistas.

Esta é a primeira vez que uma petição no Brasil tem 660.014 assinaturas (às 11:00, 30/10) em apenas um de vários sites que acolhem o protesto. Os especialistas em assuntos gerais dizem que o instituto era uma referência nacional. Mas, afinal, ninguém responde: o que é o Instituto Royal?

Busca Inglória

Durante décadas no Brasil, eu nunca havia ouvido falar do Instituto Royal de São Roque, SP. Envergonhado, comecei uma busca com pouco retorno, através da internet.

Encontrei o verbete “Instituto Royal” no Google, mas associado apenas a protestos contra o trato cruel de animais (desde 2012), ou, a partir do dia 18/10/13, associado com a liberação dos beagles. Não encontrei nenhum site nem página que indicasse a estrutura, função,staff, propósitos e história do Instituto. Quase toda ONG tem pelo menos um pequeno site com todos esses dados, salvo que...

(Procure no Google a palavra “instituto”, e acrescente diversos nomes. Verá que todos os institutos têm um site com uma aparência como a deste aqui.)

O único que encontrei foi uma página de 23 linhas, criada nas coxas e claramente às pressas pouco após a libertação dos cachorrinhos, explicando, superficialmente e sem dados, que o Royal era muito bom e tudo estava nos conformes.

Obviamente, essa “informação” só serviu para aumentar as suspeitas. A maior dúvida era: que tipo de coisa seria o Royal?

Um instituto dentro de uma estrutura pública, por exemplo, da USP? Ou um instituto dentro de uma estrutura privada, por exemplo, da PUC? Um instituto federal, como o IMPA? Ou estadual, como o BUTANTAN? Ou ainda privado, como o ETHOS? Uma empresa com fins lucrativos? Uma ONG?

Alguém me disse que era uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) e procurei nos registros de domínios da Internet. As OSCIPS são um tipo de organização semelhante às ONGs, mas que podem ter parceria com o poder público, gozam de muitos direitos e outros tantos deveres, alguns dos quais nem sempre são bem usados. Vide.

Eis o que achei no Registro.br
Servidor DNS: ns11.srv22.netme.com.br
Servidor DNS: ns12.srv22.netme.com.br
Expiração: 2014-07-02
Status: Publicado
titular:       Inst. de Ed. p/ Pesq. e Desenv. Inov. tec. Royal
documento:     007.196.513/0001-69
responsável:   Silvia Ortiz
país:          BR
c-titular:     INROY
c-admin:       INROY
c-técnico:     INROY
c-cobrança:    INROY
servidor DNS: ns11.srv22.netme.com.br
status DNS:    29/10/2013 AA
último AA:     29/10/2013
servidor DNS: ns12.srv22.netme.com.br
status DNS:    29/10/2013 AA
último AA:     29/10/2013
criado:        02/07/2009 #5725335
expiração:     02/07/2014
alterado:      25/10/2013
status:        publicado
Contato (ID):  INROY
nome:          Instituto Royal
criado:        25/10/2013
alterado:      25/10/2013

Agora, com o CPNJ, procurei no módulo de Oscips do Ministério da Justiça e encontrei apenas isto, posto acima. Veja a exagerada pompa do nome oficial do Royal.

O link da direita conduz a uma rendição de contas que não acrescenta nenhuma informação interessante para nosso fim. Então, o problema continua. Onde a gente encontra tudo isto: o histórico “científico” do Royal, seus protocolos experimentais, a lista de seus colaboradores e clientes, os produtos realmente aplicáveis que foram viáveis graças a seus testes, os registros de suas experiências longitudinais etc.?

Aliás, é o Royal conhecido no exterior? Qualquer instituição brasileira respeitável é conhecida em todo o ocidente, ao menos pelos especialistas. Esta pergunta é relevante, porque nem organizações radicais de defesa dos animais, como PETA (vide), incluem o Royal na sua lista de desafetos. Ou seja, para os ecologistas, Royal nem merece aparecer na lista dos vilãos.

Formulo em minha própria linguagem uma pergunta que já fez a atriz Luisa Mell: por que ninguém, salvo as elites e as forças repressivas, consegue entrar nesse maravilhoso instituto? (Veja o blog de Luisaaqui)

Aliás, o Royal obteve seu credenciamento pelo CONCEA (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal) somente em 2013, mais precisamente há poucas semanas. O deputado estadual por São Paulo, Fernando Capez, fez notar, num incisivo e emocionante discurso na ALESP, que, sendo assim, nos anos anteriores de funcionamento, as experiências não eram supervisionadas. Mas as coisas estranhas continuam: em 2012, apesar disso, o Royal recebeu oficialmente R$ 5.249.498,52. Para quê? O lugar onde está instalado o Royal foi declarado para funcionar como canil. (Vide). Estranho, se até poucas semanas atrás a finalidade era outra e não havia fiscalização do CONCEA, então os testes e as torturas de animais poderiam ser aplicados sem qualquer protocolo a verificar.

De acordo com as generosas regras, uma Oscip tem cinco anos para se credenciar. Então, o Royal não estava em infração de acordo com a lei. Mas, seus trabalhos começaram, dizem, em 2005. Assim, como é possível que as autoridades do Royal digam ao jornal O Estado de São Paulo que os ativistas defensores dos animais “fizeram perder 10 anos de pesquisa”? (vide, 2º par.)

Isto significa que, nos primeiros cinco desses 10 anos, o patrimônio genético coletado estava em outros institutos e foi transferido ao criar o Royal, ou que foi acumulado por pesquisadores individuais ou pequenos grupos que se uniram para formar o Royal, ou alguma outra coisa igualmente espúria.

Intermezzo: ciência e ética

A ofensiva dos mercadores de animais para tortura tem atraído o mais sujo e infame da mídia, como a famosa revista subvencionada por racistas sul-africanos. Esta, em maior medida, mas também outras, aparentemente menos rasteiras, fazem gozação dos argumentos dos defensores de animais (DA, doravante) como: “você nunca deu um remédio a seu filho doente? Ele foi testado em animais”. Estas insanidades confundem os leigos, que passam a ter um ódio irracional pelos ativistas, mas a motivação é apenas a sede de lucro.

Cuidado! Muitos defensores de animais, especialmente líderes, aconselham calma e mesura aos seus colegas em suas ações, porque a comunidade científica está quase totalmente contra os ativistas. E como se pode pensar que a ciência, que foi a arma maior da racionalidade contra a superstição e o preconceito, possa incorrer nas mesmas provocações? Por exemplo, o ministro de Ciência, Marco A. Raupp, doutorado na University of Chicago sob a orientação de Jim Douglas Jr. com uma tese sobre métodos de Galerkin, uma tese séria, diz coisas como “isto se faz em todo o mundo, não apenas no Brasil”. Isso é um argumento próprio, ou melhor, suficiente para um matemático?

Bom, os DA’s, mas especialmente os de esquerda, como em meu caso (há DA’s de diversos estilos: religiosos, apolíticos e até de direita, como Brigitte Bardot), devemos nos confrontar com uma nova massa poderosa: além dos que têm as armas, o poder institucional e o dinheiro, agora aparecem os cientistas. Nossa! Um caso para que Clark Kent se transforme em Super Homem.

No entanto, as coisas não são assim tão lineares. A relação entre ciência e sociedade é um problema complexo com séculos de história, começando com o confronto de Marx e Engels com os positivistas e malthusianos. Podemos, pelo menos, fazer uma observação geral até retomar a questão em outro texto.

O que hoje se chama “ciência” (chamada até 1844 Filosofia Natural, quando Wheeler aplicou a ela o termo science) foi filha da velha filosofia especulativa, cujos mitos e divagações combateram desde a época antiga (Epicúreos contra os dogmas Aristotélicos) e a época medieval (Escola de Oxford contra as invencionices de Santo Tomás), até crescer e poder prescindir totalmente da filosofia especulativa, com Galileu, Newton e a brilhante era da razão dos séculos 17 e 18. Quando Newton inicia seus Princípios Matemáticos da Philosophia Natural, deixa claro: a física (filosofia natural) se ocupa da matéria.

Ora, se a ciência está fundada sobre o empirismo e o racionalismo em ação conjunta, como é possível que a grande massa dos cientistas esteja equivocada? Esse é o ponto.

Os cientistas não estão equivocados. Mas nós devemos diferenciar entre racionalidade científica e racionalidade ética. Quando estas estiverem integradas o mundo será uma maravilha; agora podemos reconhecer essa integração nas obras de algumas poucas figuras brilhantes da história da ciência do século XX, como Bertrand Russell, Linus Pauling, Noam Chomsky... E muitos seguidores desconhecidos.

Muitas pessoas bem intencionadas, mas que desconhecem o ventre do mundo científico, confundem um fato absolutamente verdadeiro – a ciência é a única forma de conhecimento objetiva, justificável, sistemática, aproximadamente explicativa e produtora de enunciados crescentemente confirmáveis – com um falso: os cientistas são atores sociais que usam esse conhecimento para o bem do mundo, de maneira ética e generosa.

Esta fábula pintada minha geração leu quando criança, nos livros da moral oficial, mas bastou chegar à adolescência para saber que não é assim a coisa real. As provas são esmagadoras: alguém duvida que o 3º Reich teve de seu lado não apenas engenheiros, médicos e tecnocratas, mas também grandes cientistas, físicos, químicos e biólogos? Quantos prêmios Nobel em física trabalham na produção de bombas atômicas? Seria possível a guerra química sem especialistas na área? Quantos prêmios Nobel norte-americanos trabalham para o Pentágono, para a NSA, para a CIA? Quantos químicos e biólogos se especializam em drogas usadas em tortura?

A ciência é, grosseiramente falando, um conhecimento verdadeiro. Saber a verdade permite a você gerar ações com alta probabilidade de sucesso. Essas ações, porém, não têm moral própria. É o ator social quem as dota de moral. Uma mesma teoria pode servir para construir um mundo melhor, ou para enriquecer donos de laboratórios, fabricantes de armas, exércitos, vigaristas e genocidas.

Portanto, os cientistas com ética pragmática não são inimigos novos. Eles são apenas executores, numa área da sociedade, dos interesses dos antigos inimigos: os grandes grupos econômicos.

Este foi um intermezzo. Volto ao Instituto Royal.

Dramatis Personae

No rodapé da página que o Royal colocou na Internet (institutoroyal.org.br), há um link que promete mais informação. Clicando, aparece um vídeo onde uma senhora fala das virtudes do Royal e da malignidade dos invasores.

Essa senhora é mencionada pela mídia como Silvia Ortiz, mas também aparece em alguns outros lados como Sílvia Barreto Ortiz.

O único lugar onde existem dados que podem dar um perfil de Ortiz é na biblioteca da UNICAMP, onde aparece sua dissertação de mestrado. Aí, ela está inscrita como Silvia Colletta Barreto da Costa Ortiz.

Entretanto, seu nome não aparece na plataforma de currículos Lattes. Nesta plataforma, mais de um milhão de pessoas vinculadas com o mundo da ciência inscrevem seus currículos. Qualquer pessoa interessada em atuar na área científica pode fazer isso: doutores, mestres, graduados, estudantes, técnicos, até autodidatas.

Na busca que fiz com os indicadores “silvia ortiz” e os expandidos “silvia barreto”, com ou sem acento, seu currículo não é encontrado. Se quiser experimentar por sua conta, procure “cnpq”. Todo cientista tem interesse em figurar no Lattes, inclusive aqueles que abandonam definitivamente a ciência. Meu currículo, desatualizado, é claro, ainda se conserva, após sete anos de aposentado da vida científica.

Procurando no buscador do Google, encontrei 34 referências a Silva Barreto Ortiz, a maioria vinculada com o incidente dos Beagles. Vejaaqui. Nunca vi um cientista, mesmo jovem, ter menos de um milhar de referências. Poder-se- ia supor que Ortiz tem algum interesse em passar despercebida.

Mas ela aparece sim no depósito virtual de dissertações e teses da UNICAMP. Este é um procedimento padrão da Universidade, e não depende da vontade do autor. Em 02-12-1996, defendeu uma dissertação de mestrado no Programa de Genética e Biologia Molecular.

Nesse acervo (vide) a busca devolve apenas um resultado, que é uma dissertação de mestrado orientada por Julia K. Sakurada. A dissertação pode ser baixada por qualquer pessoa que preencha um breve cadastro no mesmo site. O trabalho estuda os aspectos genéticos da resistência de camundongos a certo agente patógeno. A dissertação confirma afirmações feitas por Ortiz nos últimos dias sobre a necessidade de usar animais saudáveis em experimentação, para evitar contaminação. Seu mestrado parece atentar à criação de um biotério de animais sãos, como sua atual atividade na USP confirma. Nesta universidade, Ortiz aparece como diretora dos biotérios, mas não temos encontrado nenhum dado relativo a seu doutorado.

No site do Institut Pasteur, de Paris (vide), encontramos 81 referências a “Ortiz”, mas todas elas se referem a pessoas com nomes diferentes de “Silvia” ou qualquer outro da gerente do Royal. Doutorado não significa sabedoria, muito menos ética, mas fico intrigado por saber onde Ortiz fez o seu. Fez?

Silvia Barreto Ortiz é também presidente do COBEA (Colégio Brasileiro de Experimentação Animal). O colégio aparece em seu estatuto (vide) como uma “sociedade civil, de caráter científico cultural, sem fins lucrativos”. Segundo isso, se sustenta com as mensalidades dos sócios.

Não Apenas Animal Testing

O fato de que Ortiz estivesse vinculada à UNICAMP e à USP foi usado como uma credencial de virtude por parte de cientistas e comunicadores. Não se pode criticar esta adoração quase religiosa pelas pessoas instruídas (que raramente se vê em outros países) numa sociedade onde até ter uma escola primária de mínima qualidade é um grande privilégio, e onde as grandes universidades, especialmente as paulistas, se gabam de seu ranço elitista.

Contudo, apesar de estar num dos setores com menos demanda por parte do capitalismo (lógica matemática e história da ciência), nos 19 anos na Unicamp pude perceber que era difícil encontrar algum colega do campus que não fizesse parte de um convênio, ou tivesse uma consultoria paga através de fundações da mesma universidade, ou superpusesse mais de uma dedicação “exclusiva”, ou que não desse prioridade ao seu consultório, escritório, empresa de planejamento ou assessoria, e assim em diante, sem faltar o caso de acúmulo de salários de dois países, embora esses casos fossem raros.

Porém, também a UNICAMP tem um histórico sobre experimentação animal muito especial. Pelo menos no único caso que foi divulgado, usaram-se membros da espécie homo sapiens para experimentos com anticoncepcionais NORPLANT, que produziram danos catastróficos pelos quais ninguém foi responsabilizado. Não é possível dar referências online, porque os sites que denunciaram o caso foram desativados pouco depois, por causa de ordens de ninguém-sabe-quem. Era o período entre 1985 e 1993, e a Unicamp coordenou uma ação da qual umas vinte universidades brasileiras se tornaram cúmplices.

A médica Giselle Israel e a socióloga Solange Dacach se arriscaram a fazer uma detalhada pesquisa num universo de 3.544 mulheres das favelas do Rio de Janeiro, até onde os experimentadores chegaram com suas amostras de Norplant. O trabalho das denunciantes foi publicado no Brasil, mas anos depois saiu de circulação. Finalmente, o livro foi publicado no Texas. O leitor encontra uma versão no setor Google books, aqui:

The Norplant Routes-Detours of Contraconception

Os experimentos em mulheres, pobres e afrodescendentes, em sua maioria, foram feitos no Brasil, pois na Finlândia, pátria da matriz, bem como em outros países, as leis proibiam a experimentação em humanos, salvo no caso de voluntários. No caso em apreço, as mulheres nem sabiam exatamente o que estavam recebendo. A droga não apenas barrou a concepção, como também deixou muitas mulheres estéreis. Além disso, as vítimas sofreram cefaleias (26%), agitação, ansiedade, confusão e agressividade (20%), obesidade (18%) e uns 10% de cistos, queda do cabelo, lesões ao útero e infecções.

Mesmo assim, o coordenador do experimento da UNICAMP, o ginecologista LB, afirmava que o Norplant era totalmente confiável.

Nosso atual ministro de Ciência talvez teria dito: “por que tanto alvoroço? Não somos os únicos em fazer experimentos”. Com efeito, o Norplant foi experimentado em 24 países, míseros quintais do terceiro mundo habitados por pessoas esfomeadas e marginalizadas, e alguns deles governados por ditaduras.

Não é raro, então, que os cientistas apoiem sem qualquer restrição experiências em animais não humanos, sendo que os experimentos com humanos só podem ser feitos em lugares muito afastados e discretos, o que custa dinheiro.

Quem tem possibilidade de fazer pesquisa de arquivos de jornais pode ler a reportagem do Jornal do Brasil, caso a página não tenha sido censurada.
LEAL, L. N. Entrevista com Marinete Souza de Farias. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de maio 1997.

Algumas pessoas talvez ainda guardem o livro original: ISRAEL, G; DACACH, S. As rotas do Norplant: desvios da contracepção. Rio de Janeiro: Redeh, 1993.

O Mistério do Royal

É óbvio que o Royal e seu staff estão tentando se esconder, e isso parece ter sido sua atitude desde o começo. As hipóteses sobre as causas deste mistério podem ser várias, mas todas são da mesma índole.

A “fabricação” de animais sãos, para serem alvo de experimentos e depois descartados, deve ter parecido um negócio original e graúdo aos misteriosos e anônimos fundadores do Royal. Com efeito, tendo como padrão de comparação o trato dos doentes pobres nos hospitais, é evidente que os animais usados em experimentação deviam estar eivados de diversas pestes, e os efeitos neles não poderiam ser apreciados. Então, uma ideia brilhante: laboratórios estrangeiros pagariam muito bem por experimentos feitos em animais saudáveis.

Ora, sendo que o Brasil não assina quase nenhum acordo internacional sobre proteção aos animais, e os poucos porventura assinados não respeita, esse mistério não seria necessário. Mas há outras razões; algumas são mais sociais, outras mais econômicas.

Uma razão é que o povo brasileiro, com seu singular naturalismo e sua sensibilidade com os animais, promoveria, como aconteceu neste caso, uma reação muito grande se todas as atrocidades ficassem óbvias como estas. Mas a quem beneficiam estes atos de sadismo na experimentação com animais? Se descartarmos as disfunções psiquiátricas de alguns pesquisadores (Vide), fica o grande negócio da produção de animais para experimentos tortuosos.

Com efeito, a realização de numerosos experimentos cruéis, onde se mutilam, esquartejam, cegam, queimam e matam milhares de animais, diminui as despesas dos laboratórios, pois é menos caro que experimentos In silico (simulação com computador) ou in vitro (ensaio com culturas).

Estas duas são formas que, combinadas com experimentações reversíveis e indolores em animais não humanos e em voluntários humanos, substituiriam totalmente a prática atual de tortura e extermínio massivo de bichos. Por sinal, os argumentos que pretendem que as culturas também exigem experimentação animal são falaciosos. O soro fetal bovino usado em muitas culturas pode ser extraído mediante uma cirurgia com anestesia. Isto se faz com cavalos de raça e touros reprodutores, cuja saúde é cuidada pelos veterinários dos magnatas muito mais que a de qualquer humano. Quanto à extração do feto sob anestesia, é, simplesmente, um aborto. Sendo o aborto aceitável em humanos, por que não seria em animais?

É de se imaginar que os principais clientes sejam laboratórios estrangeiros, sendo que, qualquer que seja o grau de civilização de um país, os capitalistas preferem dinheiro e não direitos, sejam animais ou humanos.

Neste sentido, em muitos países da Europa, e inclusive nos EUA, há restrições para o uso de animais em experimentos. O Animal Welfare Act (Laboratory Animal Welfare Act of 1966, P.L. 89-544) restringe o uso de animais de sangue quente, salvo algumas espécies de ratos. Obviamente, proíbe totalmente a tortura de bichos domésticos, especialmente gatos e cães, que não podem ser utilizados mesmo mortos, por causa da dificuldade para saber de que maneira morreram.

A União Europeia possui diversas restrições de acordo com o país, mas o Testing ban de cosméticos é válido em todos eles (vide). Émuito provável que o Royal tenha nesses laboratórios de cosméticos, bem como nos dos produtos de limpeza, seus principais fãs. Um especialista não identificado que colaborou no exame dos beaglesteria dito que as raspagens de pele em frio eram típicas de experimentos com cosméticos.

Se os ativistas se informam o suficiente com cientistas sensíveis (que existem) e pressionam seus parlamentares, poderão conseguir que o Instituto seja desativado, e seus responsáveis indiciados por crimes ambientais. É possível que haja pessoas que sabem exatamente o que acontece no Royal, e que, se lhes fosse dada proteção, talvez falassem. Essa é a esperança. E permitirá um grande avanço ético na ciência.

Carlos Lungarzo é professor aposentado da Unicamp, ativista dos direitos humanos e membro da Anistia Internacional.

domingo, 27 de outubro de 2013

Cientistas e protetores divergem sobre o uso de animais em experimentos

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=78375

Ciência e Tecnologia
24.10.2013
Cientistas e protetores divergem sobre o uso de animais em experimentos

Natasha Pitts
Adital

Foto:Divulgação/DivulgaciónCausou intensa comoção dentro e fora do Brasil o resgate dos 178 cães da raça Beagle, retirados do Instituto Royal no último dia 18, em São Roque, Estado de São Paulo. Após o ocorrido, o debate sobre a utilização de animais em testes de cosméticos e medicamentos ganhou força no país, na grande mídia e nas redes sociais. Se por um lado os ativistas repudiam a prática, por outro, alguns cientistas e pesquisadores reafirmam a importância de testar nos animais o que posteriormente será utilizado em seres humanos.
O resgate dos beagles, raça escolhida por ser dócil, foi feito por ativistas que acampavam em frente ao Instituto Royal para repudiar os testes com os animais e os maus-tratos sofridos pelos bichos durante as experiências. Isso ficou demonstrado quando se verificaram as irritações ao redor dos olhos, orelhas furadas, línguas cortadas e um ambiente sujo e impróprio para a permanência dos bichos.
De acordo com Tarcísio Palhano, assessor da presidência do Conselho Federal de Farmácia (CFF), a utilização dos animais é feita sob rigorosos protocolos de pesquisa que envolvem aspectos éticos.
"Os animais são e ainda serão, por muito tempo, indispensáveis para experimentos de medicamentos ou novos fármacos, até porque os ensaios em método de experimentação são muito importantes para se encontrar luzes sobre determinada substância. Em relação a determinados órgãos, às vezes há semelhanças que favorecem pelo menos a extensão da informação ou pistas para que aquela informação não chegue nos experimentos em humanos do zero, mas se tenha algum dado, contudo nem sempre isso é perfeitamente extrapolado para o ser humano”, esclareceu em entrevista a Adital.
Como prova disso, Palhano lembrou o ocorrido na década de 50, quando o medicamento Talidomida provocou o nascimento de cerca de 15 mil crianças com má formação. O fármaco foi desenvolvido em um laboratório alemão com o objetivo de controlar as náuseas e a tensão, típicas dos primeiros meses de gravidez. A substância foi testada em animais, mas nada aconteceu nas fêmeas prenhas.
Geuza Leitão, presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), associação civil mais antiga do Brasil, responsável pela instituição do Movimento de Proteção Animal no país em 1895, pensa de forma diferente. A defensora aponta que existem métodos alternativos ao uso de animais, sejam eles ratos, cachorros, gatos, macacos ou outros quaisquer.
"Hoje já existem métodos substitutivos, como a simulação computadorizada, experiências in vitro e uso de animais já mortos. Inclusive, alguns cientistas e pesquisadores assumem que a utilização de animais é um mito, mas também existe o grupo dos que afirmam que a medicina não evoluiria sem o uso dos animais. A verdade é que a experiência com animais é inútil, cruel e desnecessária”, garantiu.
O caso também motivou a criação e divulgação nas redes sociais de diversas listas com os nomes das empresas de cosméticos que usam ou não os animais em testes, para que as pessoas decidam de que lado querem ficar. Geuza explicou que é difícil dizer se essas informações são totalmente confiáveis.
"Certamente estas listas são feitas por protetores, mas é difícil dizer se estão corretas e atualizadas, pois algumas empresas, como a Avon, usavam animais para teste, depois deixaram de usar e recentemente retomaram a prática”, explicou.
A defensora também ressaltou que não apenas a indústria cosmética ou farmacêutica faz uso dos animais como cobaias para experiência. "Empresas produtoras de caneta, palha de aço, cigarro e material de limpeza são algumas das que usam animais para saber o efeito que seus produtos podem causar nos seres humanos”.

sábado, 7 de setembro de 2013

Violência crua, um flagrante de trabalho infantil em matadouro

repórter br
http://reporterbrasil.org.br/trabalhoinfantil/violencia-crua-um-flagrante-de-trabalho-infantil-em-matadouro/

Texto e fotos por Daniel Santini, da Repórter Brasil
da série especial Promenino*
Atenção: texto e imagens fortes a seguir
Enviado a Lagoa de Pedras (RN) - O boi branco está amarrado pela perna esquerda, com uma corda atada a uma cerca de madeira. São doze homens dentro do matadouro municipal de Lagoa de Pedras, município do interior do Rio Grande do Norte com população estimada em 7.372 pessoas e rebanho de 5.100 bovinos. Duas crianças esperam, trepadas na cerca. O boi hesita. Um dos homens levanta uma marreta e, sem pestanejar, desce ela com toda força na direção da testa do animal.
Uma fração de segundo, o boi desvia a cabeça, a pancada passa a milímetros do seu olho direito. O lugar cheira a sangue e merda. Um dos meninos sorri. Os homens gritam, o boi gira, desesperado, preso à corda. A segunda marretada é precisa. O boi branco cai, tendo espasmos, tentando coices inúteis, morre devagar. O corpo é arrastado para fora, outro boi é trazido para dentro do galpão aberto, sem paredes, sem nenhuma estrutura. Homens jogam água no chão de cimento onde ficou sangue, há mofo na mureta que limita o espaço, o ferro que segura as telhas está todo enferrujado.
Do lado de fora, onde há mais espaço para trabalhar, outros dois meninos de 12 anos com facas pontiagudas e afiadas estão debruçados sobre outro boi recém-morto. Praticamente um em cada três habitantes de Lagoa de Pedras tem menos de 15 anos. Em 2010, a mortalidade infantil do município era de 29,6 para cada mil nascidos vivos, média bem acima da nacional (19,7) e da estadual (16,7). A atividade em matadouros está entre as Piores Formas de Trabalho Infantil estabelecidas pela Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Assim como os adultos, as duas crianças trabalham de chinelos, ficando descalças em diversos momentos para andar sobre a carne, com o cuidado de se equilibrar para não fazer os órgãos internos romperem.
Menino de 12 anos corta e limpa boi momentos após abate em matadouro de Lagoa de Pedras. Fotos: Daniel Santini
Menino de 12 anos corta e limpa boi momentos após abate em matadouro de Lagoa de Pedras. Fotos: Daniel Santini
Lagoa de Pedras, no RIo Grande do Norte
Pele do animal é arrancada com uma faca afiada com uma série de puxões que requerem habilidade
Lagoa de Pedras, no Rio Grande do Norte
Para a limpeza das tripas, garoto tem de praticamente entrar no boi. A carne ainda está quente e os músculos sofrem breves espasmos, mesmo com o animal já morto
Apenas um dos trabalhadores usa botas de plástico. Não há nenhum outro equipamento de proteção. Os meninos hesitam ao verem a chegada da equipe de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego. A auditora fiscal do trabalho Marinalva Cardoso Dantas, coordenadora do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador, para ao lado dos dois. Ao seu lado, a auditora fiscal Virna Soraya Damasceno olha com dificuldade para a cena crua, vermelha. A carne, mesmo com o animal morto, ainda se mexe. São breves espasmos dos músculos, agora já descobertos, sem pele. O pai de uma das crianças, depois de cumprimentar a todos educadamente, dá um grito para um dos meninos. “Vai ficar aí parado? Não tem de ter vergonha, você está trabalhando, não na rua roubando!”.
O mais magricelo volta a se debruçar e trabalhar, e fica praticamente dentro da barriga do boi. O outro ainda titubeia por alguns momentos, antes de abaixar e ajudar o colega. Nenhum dos outros garotos que estavam esperando o outro boi ser morto se aproxima enquanto a fiscalização está presente.
Responsabilidade
A auditora Marinalva Dantas registra a situação com uma câmara fotográfica, identifica as crianças e conversa com elas. As informações servirão de base para um relatório a ser entregue ao Conselho Tutelar da cidade e para a cobrança de providências da Prefeitura em relação às condições de trabalho no matadouro municipal. A estratégia de autuar e responsabilizar o poder público é a mesma utilizada em ações em outros matadouros públicos e em feiras livres em outras das cidades da caatinga onde o emprego de crianças em tarefas pesadas insalubres é cotidiano, comum.
Em um contexto grave de pobreza e miséria, responsabilizar as famílias pura e simplesmente não basta, explica a auditora. Adultos e crianças trabalham nos abatedouros por comida. Os meninos costumam receber, em troca da limpeza do “fato” do boi, como são chamadas as entranhas do animal, miúdos e tripas de menor valor.
Crianças recebem miúdos do boi como pagamento pelo trabalho
Crianças recebem miúdos do boi como pagamento pelo trabalho
Garoto que trabalhou na limpeza leva pagamento para casa
Garoto que trabalhou na limpeza leva pagamento para casa
Também é difícil responsabilizar quem se beneficia economicamente do sistema estabelecido. Em Lagoa de Pedras, os bois costumam ser levados ao abatedouro por pequenos produtores locais e são abatidos no domingo, na véspera da feira livre local, onde a carne é vendida, muitas vezes, também por meninos. A cidade é uma das mais carentes do país. Com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0.553 (em um critério que vai de 0 a 1), Lagoa de Pedras ocupava em 2010 a 5.150ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros.
Banalização
O trabalho infantil é tido como algo normal na região. Fiscalizar a prática não é tarefa fácil e há até quem hostilize os auditores. É fácil ouvir os adultos defenderem, mesmo dentro dos matadouros, que criança tem de trabalhar “para não virar vagabundo”, “para não se envolver com droga” e “para aprender uma profissão”, só para citar alguns dos argumentos repetidos a esmo.
A psicóloga infantil Christiane Sanches, do Centro de Referência às Vítimas da Violência, do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, alerta, no entanto, que crianças vítimas de trabalho infantil estão mais sujeitas a problemas, em especial as que se deparam com realidades cruas como a do abate de animais. “Quando a criança se depara diretamente com uma situação de extrema violência, ela rompe uma fase de desenvolvimento. A fantasia é importante, é uma forma de a criança se relacionar com a realidade”, explica, ressaltando que brincar e imaginar são atividades fundamentais para a formação de adultos responsáveis, capazes de manter boas relações sociais, relações afetivas e independência.
Garoto trabalha com os avós na barraca em que carne crua é vendida na feira livre de Brejinho (RN)
Garoto trabalha com os avós na barraca em que carne crua é vendida na feira livre de Brejinho (RN)
É fácil ver crianças trabalhando nas barracas açougue na feira de Monte Alegre (RN)
É fácil ver crianças trabalhando no setor onde estão as barracas que servem de açougue na feira de Monte Alegre (RN)
Menino manuseia faca no corte de carne de frango, também em Monte Alegre (RN)
Menino manuseia faca no corte de carne de frango, também em Monte Alegre (RN)
O risco de acidentes é maior para crianças em função da força necessária para os cortes
O risco de acidentes é maior para crianças em função da força necessária para os cortes
Nos abatedouros, a banalização da morte é marcada por episódios de crueldade e o trabalho envolve ações violentas. Entre as atividades que os garotos cumprem estão arrancar toda a pele do animal recém-morto puxando aos poucos e separando o couro com breves golpes e cortar a cabeça e as patas. A noção do que é vida e morte se dilui na mesma medida que o sangue se espalha pelas mãos, pés e pernas desnudas de moleques magrelos. A auditora fiscal Marinalva Dantas conta que em uma das ações flagrou crianças “brincando” de espetar um boi ainda vivo com lâminas.
Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, a psicóloga Christiane Sanches explica que a frieza e falta de sensibilidade podem ser mecanismos de defesa de crianças que tiveram contato com eventos de extrema agressividade. “A família tem de ter a preocupação em relação a uma profissão, mas dentro de uma faixa de desenvolvimento adequada. É preciso respeitar etapas. O trabalho infantil é uma ruptura do que se espera de determinadas fases. Quanto menor a faixa etária, mais grave a situação”, alerta, destacando que o fato de a atividade ser considerada normal pela comunidade agrava a situação. “Ao fazer o corte, a criança está seguindo o modelo da família, está exercendo um papel dentro da sociedade. Se não aceitar, está excluída, o que provoca desamparo emocional. Não trabalhar vira uma vergonha”, diz.
Estômago aberto, sangue e fezes
Em um canto do abatedouro, um dos cachorros que ronda o local aproxima-se de um pedaço de carne crua sangrando. Com uma machadinha na mão, um dos adultos que trabalha quebrando os ossos da base do peito de um boi morto para ao perceber o avanço, gira o instrumento e dá um golpe com o cabo. O animal dá um ganido, late e se afasta rápido, a tempo de evitar a pancada. A dois passos, outro trabalhador carrega o intestino de um boi.
Ele faz furos com o facão para o ar sair e a pele não romper ao ser erguida, leva com cuidado o órgão até o fundo do terreno e, com um golpe seco, abre o intestino. A merda escorre em um canal aberto junto com sangue e outros dejetos. Um tanto se espalha no chão, o homem caminha descalço sobre a sujeira. O cheiro é insuportável. A menos de dois passos, os garotos trabalham no boi, terminando de separar os pedaços de carne. “A gente se corta às vezes. Eu já fiquei com o pé todo em carne viva”, conta um dos trabalhadores adultos, puxando e ajeitando um pedaço de carne com a faca. “Trabalho com isso desde que eu tinha 9 anos. Aqui todo mundo é assim. E trabalho para viver. Melhor do que roubar, né?”, conta.
Cachorros circulam o matadouro, que é todo aberto. Sangue e fezes escorrem em canais
Cachorros circulam o matadouro, que é todo aberto. Sangue e fezes escorrem em canais
Trabalhadores usam chinelos ou trabalham descalços, caminhando sobre resíduos
Trabalhadores usam chinelos ou trabalham descalços, caminhando sobre resíduos
Por si só, as condições de trabalho em abatedouros e empresas de processamento de carne já são consideradas problemáticas. Em 2011, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social (MPAS), ocorreram 19.453 acidentes de trabalho e 32 mortes envolvendo o setor. Os problemas levaram o Ministério do Trabalho e Emprego a estabelecer em abril de 2013 a Norma Regulamentadora nº 36, que, entre outras medidas, determina adequação e organização de postos de trabalho.
Em Lagoa de Pedra, crianças e adultos que trabalham no matadouro ostentam cortes abertos, marcas de acidentes leves ou profundos. “Trabalhadores com lesões e feridas nas mãos devem ser afastados da função e evitar o contato direto com a carne, uma vez que isso pode facilitar tanto a contaminação da carne que está sendo manipulada como a infecção do trabalhador”, explica a bióloga e veterinária Isabel Cristina Lopes Dias, mestre em Saúde e Ambiente.
“A desproteção desses trabalhadores e o contato direto e/ou indireto com animais e/ou suas secreções são situações críticas de exposição e transmissão de microrganismos zoonóticos. As crianças estão mais vulneráveis tanto às doenças quanto aos acidentes, pois precisam realizar tarefas e manusear instrumentos desconexos de sua capacidade física e psicológica, justamente em uma fase em que são mais imaturas e ingênuas.”
* Reportagem produzida em parceria com Promenino/Fundação Telefônica Vivo, e publicada também no site Promenino, que reúne mais informações sobre combate ao trabalho infantil