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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Por que ler Cidades Rebeldes

outras palavras
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Por que ler Cidades Rebeldes

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Coletânea recém-lançada de textos sobre manifestações de junho debate crise da representação, papel das ruas e retomada do Direito à Cidade
Por Raquel Rolnik, em seu blog
Refletindo sobre como escrever o texto de apresentação deste livro [Cidades Rebeldes - Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil], deparei-me com o editorial de um semanário francês com a seguinte pérola:
Como na Turquia, as manifestações violentas que lançaram às ruas mais de um milhão de pessoas nas cidades brasileiras ecoaram como um trovão em um céu aparentemente sereno. Entretanto, elas demonstram, para além dos protestos contra a alta das tarifas nos transportes públicos, a débâcle do m ilagre brasileiro, q ue, após uma década de crescimento excepcional (5% ao ano), que aumentou a renda per capita de 7.500 para 11.800 dólares e fez emergir uma classe média de 90 milhões de pessoas, cresceu apenas 0,9% em 2012, por conta da política estatista e protecionista da presidenta Dilma Rousseff. (Editorial de Le Point, 27 jun. 2013. Tradução minha.)
O artigo prossegue com a ladainha do fundamentalismo neoliberal, apontando o elevado custo do trabalho, a alta carga tributária e a corrupção como os responsáveis pelo grande descontentamento manifesto nas ruas. Explicações como essas, que soam no mínimo patéticas para o grupo de autores que compõe esta bela e forte tentativa de interpretação das chamadas revoltas de junho, estiveram presentes não apenas nas leituras sobre os eventos, mas nas próprias manifestações. No decorrer dos protestos, houve uma disputa nos cartazes empunhados pelo conjunto heterogêneo que ocupou as ruas e uma guerra de interpretações das vozes rebeldes. Nesse sentido, esta iniciativa da Boitempo, que convoca o pensamento crítico independente para interpretar os fatos recentes no Brasil no calor do momento, é mais do que bem-vinda, e fazer a apresentação deste livro é, para mim, um enorme privilégio.
Podemos pensar essas manifestações como um terremoto – uma metáfora mais adequada do que o trovão mencionado no editorial do semanário francês –, que perturbou a ordem de um país que parecia viver uma espécie de vertigem benfazeja de prosperidade e paz, e fez emergir não uma, mas uma infinidade de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos. Mas, sobretudo – e isso é o mais importante –, fez renascer entre nós a utopia… No campo imediato da política, o sismo introduziu fissuras na perversa aliança entre o que há de mais atrasado/excludente/prepotente no Brasil e os impulsos de mudança que conduziram o país na luta contra a ditadura e o processo de redemocratização; uma aliança que tem bloqueado o desenvolvimento de um país não apenas próspero, mas cidadão.
Os autores desta coletânea apontam várias agendas como o epicentro do terremoto. Para Ruy Braga, “a questão da efetivação e ampliação dos direitos sociais é chave para interpretarmos a maior revolta popular da história brasileira”. O direito a ter direitos, que alimentou as lutas dos anos 1970 e 1980 e inspirou a Constituição e a emergência de novos atores no cenário político, parecia esvanecido no contexto da formação de uma espécie de hibridismo de Estado, desenvolvimentista e neoliberal, com uma cultura política e um modelo político-eleitoral herdados da ditadura. Nas palavras de Carlos Vainer (parafraseando Mao Tse-Tung), “uma fagulha pode incendiar uma pradaria” e, no nosso caso, essa fagulha foi a mobilização contra o aumento da tarifa nos transportes públicos convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL). O MPL-SP formula a questão da tarifa em seu ensaio neste livro como uma afirmação do direito à cidade. De acordo com o texto/manifesto, a circulação livre e irrestrita é um componente essencial desse direito que as catracas – expressão da lógica do transporte como circulação de valor – bloqueiam. João Alexandre Peschanski, compartilhando dessa visão, analisa a proposta da tarifa zero, sua apropriação possível pelo sistema capitalista e, ao mesmo tempo, seu potencial transformador da sociedade.
A situação da mobilidade nas cidades brasileiras assemelha-se muito à de Los Angeles, descrita por Mike Davis. Nas nossas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou fortemente com outras pautas e agendas constitutivas da questão urbana, como o tema dos megaeventos e suas lógicas de gentrificação e limpeza social. As palavras de Ermínia Maricato – “os capitais se assanham na pilhagem dos fundos públicos deixando inúmeros elefantes brancos para trás” – me lembraram um cartaz que vi em uma das passeatas: “Quando meu filho ficar doente vou levá-lo ao estádio”. A questão urbana e, particularmente, a agenda da reforma urbana, constitutiva da pauta das lutas sociais e fragilmente experimentada em esferas municipais nos anos 1980 e início dos anos 1990, foram abandonadas pelo poder político dominante no país, em todas as esferas. Isso se deu em prol de uma coalizão pelo crescimento que articulou estratégias keynesianas de geração de emprego e aumentos salariais a um modelo de desenvolvimento urbano neoliberal, voltado única e exclusivamente para facilitar a ação do mercado e abrir frentes de expansão do capital financeirizado, do qual o projeto Copa/Olimpíadas é a expressão mais recente… e radical.
Entretanto, não se compra o direito à cidade em concessionárias de automóveis e no Feirão da Caixa: o aumento de renda, que possibilita o crescimento do consumo, não “resolve” nem o problema da falta de urbanidade nem a precariedade dos serviços públicos de educação e saúde, muito menos a inexistência total de sistemas integrados eficientes e acessíveis de transporte ou a enorme fragmentação representada pela dualidade da nossa condição urbana (favela versus asfalto, legal versus ilegal, permanente versus provisório). A “fagulha” das manifestações de junho não surgiu do nada: foram anos de constituição de uma nova geração de movimentos urbanos – o MPL, a resistência urbana, os movimentos sem- -teto, os movimentos estudantis –, que, entre “catracaços”, ocupações e manifestações foram se articulando em redes mais amplas, como os Comitês Populares da Copa e sua articulação nacional, a Ancop.
O direito à cidade é também reivindicado por coletivos ligados à produção cultural, como relata Silvia Viana, que colocam a ocupação do espaço público como agenda e prática. As cidades brasileiras são cada vez mais e em vários momentos não apenas palco, mas objeto de intervenções desses coletivos, como no caso da ocupação Prestes Maia, em São Paulo, que articulou os grupos de produção cultural aos dos sem-teto e outros movimentos. O texto de Silvia Viana aponta para uma diferença substantiva que se estabeleceu nas interpretações – e apresentações – das manifestações: a clivagem entre “pacíficos” e “baderneiros”. Como em outros snapshots da guerra de significados, a ocupação da cidade foi disputada por diferentes sentidos. A tropa de choque, que no cotidiano executa pessoas sumariamente nas favelas e realiza despejos jogando bombas de gás nos moradores, entrou e saiu de cena ao longo das manifestações, lembrando que, no país próspero e feliz, a linguagem da violência ainda é parte importantíssima do léxico político. O artigo de Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira sobre o Rio de Janeiro demonstra a relação entre um projeto excludente de cidade e a militarização dos territórios populares. Ao lê-lo, ecoou em minha memória um dos slogans ouvidos nas ruas: “Que coincidência! Não tem polícia, não tem violência”.
Para a linguagem da polícia – e da ordem – a ocupação das ruas é baderna; porém, amparados pela Constituição, como nos lembra Jorge Luiz Souto Maior, para vários movimentos sociais ali presentes, a retomada do espaço urbano aparece como o objetivo e o método, que determina diretamente os fluxos e os usos da cidade. Nas palavras do MPL-SP:
A cidade é usada como arma para sua própria retomada: sabendo que o bloqueio de um mero cruzamento compromete toda a circulação, a população lança contra si mesma o sistema de transporte caótico das metrópoles, que prioriza o transporte individual e as deixa à beira de um colapso. Nesse processo, as pessoas assumem coletivamente as rédeas da organização de seu próprio cotidiano.
Outros temas – e outras agendas, igualmente presentes nas ruas – podem ser lidos e interpretados a partir dessa fala do MPL: a participação, através de sua expressão mais radical, a autogestão, e as novas maneiras e métodos de fazer política tomaram as ruas como forma de expressar revolta, indignação e protesto. Isso não é novo na política. Mas hoje o tema da ocupação – no sentido do controle do espaço, mesmo que por um certo período, e, a partir daí, a ação direta na gestão de seus fluxos – tem forte ressonância no sentimento, que parece generalizado, do alheamento em relação aos processos decisórios na política e da falta de expressão pública de parte significativa da população. Ocupando as ruas, reorganizando os espaços e reapropriando suas formas, seguindo a linha teórica avançada por David Harvey em seu artigo, aqueles que são alijados do poder de decisão sobre seu destino tomam esse destino com seu próprio corpo, por meio da ação direta.
Desilusão/denúncia em relação à democracia e as formas de expressão pública? Na chamada agenda da “crise de representação” novamente convergem pautas e leituras contraditórias. Venício A. de Lima aponta como os grandes meios de comunicação, conglomerados empresariais monopolistas, investem sistematicamente na desqualificação dos políticos e da política e, nos últimos anos, insistem na pauta da corrupção como grande responsável pelas mazelas do país. Embora, de fato, o pacto de governabilidade tenha influenciado o distanciamento dos atuais partidos e políticos em relação à população e embora os chamados partidos de esquerda, uma vez conquistada a hegemonia na coalizão governante, tenham enterrado a pauta da participação popular e da gestão participativa direta, caracterizar a origem da crise atual no campo moral “corrupção”, do qual só os políticos participam, é, no mínimo, altamente reducionista e pode também resvalar para diversas formas de fascismo, no estilo “Melhor sem os políticos”.
A questão da representação não envolve apenas a crise dos partidos e da política e, portanto, a necessidade de uma reforma política, uma das principais agendas das ruas. Segundo Venício, “os jovens manifestantes se consideram ‘sem voz pública’, isto é, sem canais para se expressar”. Twitter, Facebook e as demais redes sociais, outros personagens dessa trama, não garantem a inclusão dos jovens – e de vários outros segmentos da população brasileira – na chamada “formação da opinião pública”, cujo monopólio é exercido pela grande mídia. É o que nos lembra Lincoln Secco: “Apesar de a maioria dos jovens manifestantes usar a internet para combinar os protestos, os temas continuam sendo produzidos pelos monopólios de comunicação”. Assim, entende-se também por que redes de TV foram, e continuam sendo, atacadas pelos manifestantes.
Qual a conexão entre o movimento no Brasil e outros tantos do planeta, como o que ocorreu ao mesmo tempo em Istambul, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados da Espanha? Esses movimentos transformaram da praça Tahrir, no Egito, à praça do Sol, em Madri, da praça Syntagma, na Grécia, ao parque Zuccotti, nos Estados Unidos, passando pela praça Taksim, na Turquia, em palcos de protestos majoritariamente compostos por jovens, convocados por meio de redes sociais, sem a presença de partidos, sindicatos e organizações de massa tradicionais. Slavoj Žižek analisa essa questão com maestria em seu ensaio. Voltando ao semanário francês que citei no início: até a eclosão das manifestações na praça Taksim (e das revoltas de junho no Brasil) o discurso hegemônico dos representantes do fundamentalismo de mercado enquadrava esses movimentos basicamente como protestos pela falta de emprego, renda e democracia representativa, ou de uma combinação desses elementos, ignorando os inúmeros conteúdos e agendas trazidos para as ruas, sobretudo o questionamento do “sistema”, essa velha palavra que sintetiza o modo de produção econômico-político da sociedade.
Nos diversos países que citei, assim como nas cidades brasileiras, os modelos de desenvolvimento e as formas de fazer política estão em questão. De acordo com Leonardo Sakamoto, a “civilização representada por fuzis, colheitadeiras, motosserras, terno e paletó [...] mais cedo ou mais tarde terá de mudar”. O velho modelo de república representativa, formulado no século XVIII e finalmente implementado como modelo único em praticamente todo o planeta, dá sinais claros de esgotamento.
Contra esse modelo baseado em estruturas verticais e centralizadas, movimentos como o Occupy e outros propõem formas horizontais de decisão, sem personificação de lideranças nem comando de partidos e comitês centrais. Esta foi também parte da “surpresa” das ruas: onde estão as bandeiras e os carros de som com os megafones? Quem são os líderes? Quem manda? O apartidarismo ganhou sua versão fascista, antipartidária, quando militantes de partidos quiseram aderir às manifestações e foram espancados… pelos próprios manifestantes.
O leitor deste conjunto de artigos provavelmente concordará comigo que a voz das ruas não é uníssona. Trata-se de um concerto dissonante, múltiplo, com elementos progressistas e de liberdade, mas também de conservadorismo e brutalidade, aliás presentes na própria sociedade brasileira. Como diz Sakamoto: “Uma vez posto em marcha, um movimento horizontal, sem lideranças claras, tem suas delícias – assim como as tem um rio difícil de controlar – e suas dores – assim como as tem um rio difícil de controlar”.
As propostas alternativas ao modelo dominante precisarão ter seu tempo de formulação e experimentação. Aos aflitos com a falta de novos modelos, eu perguntaria como teriam se sentido após a Revolução de 1848, na França… Temos que aprender a não nos assustar com isso também e, como diz Mauro Luis Iasi: “Devemos apostar na rebelião do desejo. Aqueles que se apegarem às velhas formas serão enterrados com elas”.
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O livro Cidades Rebeldes – Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, já se encontra disponível em nossa livraria, por apenas R$ 7,00

terça-feira, 26 de março de 2013

Baixas de conflito

blog do sakamoto
http://reporterbrasil.org.br/2006/05/baixas-de-conflito/


15/05/2006 - 16:23

Baixas de conflito

O tráfico de drogas, que vem crescendo rapidamente desde a década de 80 nas grandes cidades brasileiras, é a maior causa de morte entre os jovens nas periferias. A batalha acontece longe dos olhos da classe média e da mídia, que só eventualmente dão atenção ao problema
texto e fotos: Leonardo Sakamoto | Categoria(s): Reportagens
Arquivo Repórter Brasil – Matéria publicada em novembro de 2005
"Primeiro, foi meu irmão mais velho. Tinha uns 16 anos. Ele estava passeando com um amigo – que era irmão de um cara com envolvimento no tráfico – quando foram parados por quatro "pés-de-pato" [justiceiros]. Disseram que tinham um assunto para tratar com o amigo do meu irmão e que ele podia ir embora. Mas ele ficou, só queria ir se o amigo fosse também. Então, foram levados para o alto de um morro. Meu irmão tomou uns oito tiros, no peito, na cabeça. O outro, fingiu-se de morto e sobreviveu. Com meu segundo irmão, foi diferente. Ele tinha 19 anos, era do tráfico, tinha homicídios nas costas. Amanhã, faz um ano e mês… Contou para a menina que ele estava ficando o lugar aonde ia se esconder, pois a polícia estava fazendo uma varredura na favela. Mas ela traiu meu irmão. A polícia foi direto lá. Ele se entregou, mas a polícia não quis saber. Eu não sei te informar bem a história, mas foi algo forjado pela polícia mesmo. Atiraram pelas costas, argumentando que tinha reagido, depois colocaram dentro do camburão e rodaram. Bateram nele. Quando chegou no hospital já estava praticamente morto."
De tempos em tempos, a violência causada pelo tráfico de drogas retorna com força ao noticiário, normalmente no momento em que ela desce o morro ou foge da periferia das grandes cidades. Como aconteceu em meados de 2005, quando os confrontos entre policiais e traficantes na favela da Rocinha, no município do Rio de Janeiro, bloquearam importantes vias de circulação. Longe dos olhos da classe média, porém, essa batalha urbana não pára de produzir seus mortos. Anônimos, como os dois irmãos de Cláudio*, sobrevivente de uma favela de São Paulo.
 
Desde 1996, a Caminhada pela Vida e pela Paz reúne milhares de moradores da Zona Sul de São Paulo, que protestam contra a violência
Drogas matam. Mas os óbitos por overdose ou em decorrência de crimes cometidos sob a influência de entorpecentes ilegais são a minoria dos casos. Registros policiais mostram que há mais homicídios relacionados ao consumo excessivo de álcool – que é uma droga permitida – do que a qualquer outra. A forma como o tráfico se organizou é a principal razão dessa guerra, cujas baixas normalmente são homens, jovens, pobres, moradores de comunidades carentes, envolvidos direta ou indiretamente nesse contexto. Em outras palavras, na maioria das vezes, matam-se mutuamente. Não são os únicos envolvidos nesse sistema, mas compõe a parte visível e descartável.
Infelizmente, falta consenso sobre o número de mortos nesse conflito. Há diferentes pesquisas que atribuem ao tráfico de 12% a mais de 50% do total de assassinatos de cidades como o Rio e São Paulo, dependendo da metodologia adotada. Mas todos os estudos são unânimes em afirmar que o problema é grave e está crescendo principalmente entre os mais jovens.
Algumas estatísticas relativas à 2004 ajudam a ver as conseqüências disso. Os homicídios de pessoas entre 15 e 24 anos representaram quase 35% do total no município de São Paulo ao mesmo tempo em que 93% dos assassinatos foram do sexo masculino, de acordo com dados da prefeitura. Em 2004, no Estado do Rio de Janeiro, menores de idade eram 60% do total de pessoas presas por envolvimento em drogas e 18% por envolvimento com armas.
Outro dado vem de Alba Zaluar, coordenadora do Núcleo de Pesquisa das Violências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), sobre o bairro da Cidade de Deus. O lugar tornou-se conhecido mundialmente após o filme homônimo de Fernando Meirelles, no qual a própria favela é a protagonista da história. Lá, em torno de 380 pessoas – das quais 77 menores de idade – estavam envolvidas nesse tipo de crime em 2001 (o que representava menos de 1% da população do bairro) . Em um período de 13 anos, 722 jovens dessa comunidade morreram na guerra do tráfico, ou seja, a quase substituição completa e por duas vezes de todos os traficantes.
"Não é uma guerra no sentido formal, mas tem níveis de guerra", explica Marianna Olinger, pesquisadora do projeto COAV (Crianças e Jovens em Violência Armada Organizada), ao analisar a situação carioca. Facções como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e o Amigos dos Amigos são grupos criminosos e não têm objetivos políticos ou anseios de tomar o governo, muito menos criar um "Estado paralelo". Pelo contrário, eles se valem da falta de uma presença do Estado e criam um "poder paralelo" em um determinado território para proteger o seu negócio.
Não é o consumo de drogas pelos envolvidos que levam a matar os rivais e sim uma questão muito mais racional: o comércio. No capitalismo, toda a expansão de mercado é conflituosa. Quando se abre uma loja em um bairro, os que lá já estavam estabelecidos podem se sentir prejudicados. Ainda mais quando os forasteiros trazem produtos melhores e a preços mais baixos. Se a concorrência é agressiva e chega a tal ponto que a convivência pacífica torna-se insustentável, pode-se apelar à Justiça, que decidirá quem tem razão na disputa. Mas o que fazer quando se vive em um sistema ilegal, condenado pela própria Justiça? A solução é ter o maior poder bélico possível para fazer valer o seu ponto de vista sobre o demais, sobre a polícia, sobre os moradores de determinada comunidade.
É necessário controlar-se – por bem ou por mal – um território. "No comércio, nenhum atacadista vai vender para alguém que não tem como pagar. Nesse sentido, uma das garantias que o traficante pode dar é ter um território consolidado, seguro para estocar a mercadoria e vender à sua freguesia. Teoricamente, quanto mais território um grupo possui, mais bocas [pontos de venda] ele terá e, conseqüentemente, mais freguesia e poder", explica Thiago Rodrigues, pesquisador da PUC-SP e coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina.
Favela de Paraisópolis, encravada no coração do Morumbi: desigualdade
Formas da violência
Um marco para a escalada da violência ligada ao tráfico de drogas no Brasil é a chegada da cocaína em quantidade e a preço baixo da Bolívia, Colômbia e Peru na década de 80. Antes disso, o comércio da maconha era bem mais pacífico, sem grandes estruturas de distribuição ou de controle territorial. Assaltantes de banco e outros criminosos do Comando Vermelho – primeira grande facção criminosa do Rio de Janeiro nascida nas celas do presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande – começaram a se estruturar. Quadrilhas proprietárias de pontos de venda se uniram nessa espécie de "federação", para defender seus interesses e garantir a segurança. O negócio encontrou um grande público consumidor, prosperou e cresceu.
Vale aqui uma ressalva importante. Não é exatamente a pobreza que gera a violência do tráfico. Este se beneficia de um ambiente em que a população foi esquecida pelo governo e pela sociedade, no qual os serviços públicos são precários, o acesso à Justiça é difícil e as forças de segurança agem muitas vezes como aqueles a quem deveriam combater.
Em um local onde a realidade está em construção, é mais fácil impôr as próprias regras. De acordo com Guaracy Mingardi, um dos diretores do Instituto Latino-americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud), "o tráfico para ser violento depende da desorganização local e da ausência do Estado". Dá como exemplo de região com tráfico e com índices mais baixos de violência a "Cracolândia", na região central de São Paulo.
Os bairros que conseguiram manter organizações sociais foram os menos afetados. "Líderes comunitários não podem impedir a venda da droga, mas podem impor limites, como fazer com que um traficante não fique na porta de um morador vendendo droga sem que o morador permita", explica Alba Zaluar.
As pesquisas do Laboratório de Economia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), coordenadas por Samuel Kilsztajn, identificaram três tipos de origem de assassinatos relacionados com o tráfico. A primeira é através do não cumprimento das regras internas da quadrilha. Por exemplo, desrespeitar uma decisão de superiores ou delatar algum companheiro. "Há casos em que um traficante deu um cheque sem fundo para pagar dívidas de drogas e foi jurado de morte. Sua mãe tentou quitar o débito, mas os outros traficantes disseram que queriam era a vida dele. Tornou-se uma questão de fazer valer o regimento interno", explica Kilsztajn. Na prática, é a pena de morte instituída. "Pra sobreviver, tem que usar a cabeça. Senão, vai para a cadeia ou para o inferno", afirma Ricardo*, que foi gerente de uma boca de drogas em uma favela de São Paulo.
A segunda forma é através da briga de gangues por território. Há alguns anos, uma quadrilha foi expulsa por outra mais forte do Jardim Ângela, bairro periférico do município de São Paulo, e se instalou em Parelheiros, a quilômetros dali. Para desocupar a nova área, foi matando os traficantes locais um a um. A regra é que o mais forte (e mais armado), prevalece. A terceira e última são os confrontos com a polícia, que podem acontecer tanto na tentativa de captura de traficantes e no desmantelamento da rede de tráfico quanto no acerto de contas pelo não pagamento de propinas a agentes corruptos. No caso "dona Vitória" – a senhora que filmou durante anos o tráfico de drogas da janela de seu apartamento no Rio de Janeiro – foi descoberta a participação de nove policiais.
"Já dei R$ 5 mil para policial livrar a minha cara", explica Ricardo. "Ficam recebendo por semana, por quinzena. Assim deixam a gente livre. Mas se a grana acabar, mandam tudo pra cadeia."
Todo mundo ganha
Nascido no Piauí, Ricardo veio para São Paulo há sete anos, mas já trabalhava no tráfico em sua terra natal, buscando maconha em uma cidade e entregando em outra. Há algum tempo, seu grupo tomou uma favela após disputa com rivais. "Foi conquistada a custo de vidas, guerreado. Hoje, aqui tudo é união." Mas a boca, que vende crack, cocaína e maconha, já teve dias melhores segundo ele. O mercado consumidor é grande, mas a concorrência também.
Os altos lucros do tráfico vêm exatamente de sua ilegalidade. O produto acaba adquirindo um preço maior, pois nele estão embutidos os riscos do investimento, das possíveis perdas, das propinas. A estrutura visível do tráfico que envolve de "aviões" (que levam pequenas quantidades de droga para os vendedores e clientes), "fogueteiros" (que avisam da chegada de droga ou de rivais através de fogos de artifício), soldados, "vapores" (vendedores) até gerentes e donos são sua parte mais conhecida. A ponta de um imenso iceberg.
Cemitério São Luiz, para onde vão muitos dos jovens, mortos pela violência do tráfico, no Capão Redondo (ao fundo), em São Paulo
Traficantes das facções criminosas do Rio de Janeiro e o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, costumam ir buscar a droga fora do país para vender aqui. Já o comércio internacional é realizado por quatro grandes grupos (africanos, árabes, asiáticos e sul-americanos/europeus) que utilizam o Brasil como rota de passagem para a África, Europa e América do Norte e também comercializam com traficantes locais, como explica o delegado Ronaldo Urbano, coordenador geral de Prevenção e Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal.
Através da "lavagem de dinheiro", os recursos dos grandes traficantes são legalizados. Nos últimos tempos, tem havido um esforço de instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público para atacar essa estrutura através do corte de seu financiamento. "Temos traficantes sendo investigados com mais de 100 milhões de dólares em bens acumulados. Quanto maior seu poder aquisitivo, melhores advogados pode contratar, melhor sua rede de influências", completa Urbano.
Hotéis, bingos, postos de gasolina são utilizadas nessa "lavanderia" por ter uma movimentação de difícil controle. Fazendas e gado também são uma opção de traficantes, como Leonardo Mendonça, que investiu na pecuária do Sul do Pará. Lojas de veículos e outros imóveis foram a escolha de Naldinho, de Santos (SP), caso que envolveu Edinho, filho de Pelé. Uma outra forma de limpar o dinheiro é através da compra de bilhetes premiados de loteria através de informação passada de dentro de órgãos públicos sobre os ganhadores.
"Hoje, a ênfase ainda é na apreensão da droga e do traficante", lamenta Elvécio Barbosa, promotor de justiça do Gaepa, órgão do Ministério Público de São Paulo que atua no combate a esse crime. Investigações são longas, mas produzem resultados de impacto sem tantas trocas de tiro.
Apesar do tráfico concentrar renda em uma comunidade (poucos são os envolvidos com o crime, menor ainda o número dos que realmente lucram), o seu dinheiro ajuda a esquentar a economia formal. Isso vai das roupas de grife compradas pelos jovens traficantes até a indústria de armas.
De acordo com relatório, divulgado em junho, do Escritório contra Drogas e Crime das Nações Unidas, o mercado de drogas ilícitas movimentou cerca de 322 bilhões de dólares em 2004. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), esse comércio representa de 2% a 5% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) internacional. Parte desse dinheiro sofre lavagem e entra no sistema financeiro, podendo virar investimentos, tornando-se parte da economia legal. Isso realimenta o sistema do tráfico, que continua ativo e forte. O combate dessa estrutura depende, portanto, de um complicado concerto internacional, devido ao interesses envolvidos, que vão além da saúde pública.
A guerra de fora
O governo do presidente norte-americano Richard Nixon cunhou a idéia de "Guerra às Drogas", motivado pelo problema dos soldados que voltavam do Vietnã viciados em heroína. O termo foi retomado, anos mais tarde, por Ronald Reagan, mas, de acordo com Wálter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas e juiz aposentado de São Paulo, com outras intenções: "O que ele queria na verdade era combater o comunismo. Com isso, a droga passou a ser um pretexto para intervenções em outros países". Após o fim da Guerra Fria, o instrumento continuou sendo utilizado como uma bandeira de ataque às drogas e de defesa mundial da saúde pública. "Mas por trás dessa bandeira, há o interesse no petróleo colombiano, por exemplo. Hoje, essa política é um biombo para esconder interesses estratégicos, geopolíticos e econômicos."
Ele denunciou ações ilegais da Drug Enforcement Administration (DEA), órgão norte-americano responsável pelo combate às drogas, em território brasileiro. "O que eles faziam aqui e ao que eu me opus quando era secretário? Espionagem e cooptação financeira de delegados. A DEA é composta de gente tão bandida quanto os traficantes."
O governo brasileiro tem seguido o modelo norte-americano, adequando-o à nossa realidade. Aqui, há mais energia gasta em ações de repressão ao consumo do que em prevenção educativa, de combate ao tráfico de varejo do que em desmantelamento de esquemas de lavagem. Como se viu acima, os jovens traficantes são a parte visível e menor desse sistema e enfrentá-los é equivalente a enxugar gelo. Vale lembrar também que drogas acompanham a humanidade desde o seu início e que é impossível acabar com uma demanda por decreto. Talvez a melhor experiência disso seja a "Lei Seca", que vigorou nos Estados Unidos, entre 1920 e 1933, proibindo a comercialização de bebidas alcoólicas. A venda continuou de forma ilegal, propiciando lucros e poder para o crime organizado, eternizando figuras de gangsters, como Al Capone.
A liberação das drogas eliminaria o tráfico e diminuiria a violência? Antes de mais nada, há duas coisas diferentes: a descriminalização – em que o usuário não é mais tratado como criminoso – e a legalização – em que a droga ganharia um status semelhante ao que hoje têm o álcool e o tabaco. Para essa pergunta, não há consensos. Boa parte dos entrevistados afirmam que isso poderia diminuir a estrutura do tráfico e, conseqüentemente, o número de mortos. Alguns concordam com a descriminalização, como já acontece em outros países (ver box). Mas a maioria absoluta acredita que é impossível a legalização das drogas, principalmente da cocaína, crack e heroína, considerando-se o atual nível de informação da população. Isso poderia causar um grande problema de saúde pública.
Atacar a estrutura do tráfico e sua sustentação, o que inclui também o comércio ilegal de armas, é uma saída. Porém, será inócua se o Estado não se fizer presente e se não houver mudanças estruturais que garantam dignidade para os moradores e outras opções de vida para os que saem em um busca de um lugar no mundo todos os anos.
"Um jovem que entra para um grupo criminoso pensa bastante antes de fazer isso e toma a decisão por falta de opções", lembra Marianna Olinger, do Viva Rio. Mais do que uma escolha pelo crime, é uma escolha pelo emprego e pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Dessa forma, pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo – pois não são apenas os jovens de classe média que querem o tênis novo que saiu na TV. Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia. E uma vez dentro desse sistema, terá que agir sob suas normas. Matando e morrendo, em uma batalha que para cada baixa, fica uma família. Como a de Cláudio.
"Lá em casa a gente tem um problema sério. Minha mãe bebe e fala para mim que é hábito, mas acho que já gerou um vício. A todo momento, ela lembra deles, mas quando está bebendo é que ataca mais a saudade. Embriagada, às vezes, ela chama pelos meus irmãos… Aí eu penso que eles estão justamente ali. Uma coisa doida."
(*) Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.
(Reportagem também publicada na revista Caminhos da Terra.)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Cuiabá está entre as 50 cidades mais violentas do mundo

midia news
http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=3&cid=150771


COTIDIANO / INSEGURANÇA PÚBLICA
21.02.2013 | 11h18 - Atualizado em 21.02.2013 | 11h17
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Cuiabá está entre as 50 cidades mais violentas do mundo

Pesquisa revela que a Capital de MT ocupa a 28ª posição no ranking da criminalidade

MidiaNews
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Segundo a pesquisa, 380 homicídios foram registrados na Grande Cuiabá, em 2012
LISLAINE DOS ANJOS
DA REDAÇÃO
Cuiabá voltou a figurar no ranking das 50 cidades mais violentas do mundo no ano, segundo o estudo elaborado pela Organização Não-Governamental (ONG) mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal.

A capital de Mato Grosso ocupa, ainda, a 8ª posição entre os 15 municípios brasileiros que aparecem no ranking da pesquisa.

O estudo leva em conta os dados relativos ao ano de 2012, a taxa de homicídios dos países pesquisados e os dados estatísticos fornecidos pela Polícia Civil e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisa considerou o número de homicídios dolosos registrado na Grande Cuiabá, que foi de 380, representando uma taxa de 45,28 execuções a cada 100 mil habitantes – deixando a cidade em 28ª colocação.

Em 2011, os dados da pesquisa apontavam a ocorrência do mesmo número de execuções, mas uma taxa de 48 mortes a cada 100 mil habitantes (Leia mais AQUI).

A primeira posição entre as capitais brasileiras que integram o ranking é ocupada, mais uma vez, por Maceió (AL), com 801 execuções e taxa de 85,88, o que lhe rendeu o 6º lugar entre as cidades mais violentas do mundo. Confira o estudo completo em anexo.
A novidade deste ano, no ranking, em relação a 2011, é a inclusão de Brasília na lista, ocupando a 49ª colocação. A cidade registrou 764 execuções em 2012, o que lhe rendeu uma taxa de homicídios de 29,73.

País violento


O número de cidades brasileiras na lista fez com que o país voltasse a ser o “campeão” de participação entre os países estudados e entre as unidades da América do Sul. Além disso, chama a atenção o fato de que todas as cidades brasileiras são capitais.

O segundo lugar, entre os países, ficou com o México, que possui nove cidades no ranking, seguido pela Colômbia (6), Venezuela (5), Estados Unidos (5), África do Sul (3), Honduras (1), El Salvador (1), Guatemala (1), Haiti (1), Jamaica (1) e Puerto Rico (1).

A primeira posição no ranking, porém, voltou a ser ocupada pela cidade de San Pedro Sula, de Honduras, que contabilizou 1.218 homicídios em 2012, o que representa uma taxa de 169,3 assassinatos a cada 100 mil habitantes.

Outro lado


Por meio de nota, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) afirmou que os dados oficiais referentes a taxas de criminalidade são publicados, todos os anos, pelo Ministério da Justiça.

Segundo a pasta, os dados oficiais revelam que a taxa de homicídio doloso por cada 100 mil habitantes em Cuiabá, em 2012, foi de 38,12, número menor do que o que foi registrado em 2011 (41,34).

Confira a íntegra da nota:

“A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) informa que dados oficiais referentes a taxas de criminalidade no país são publicados anualmente pelo Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). A última publicação das taxas de criminalidade no Brasil foi divulgada em 2012 com dados referentes ao ano de 2011.

Estatística feita pela Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso aponta que, em 2012, Cuiabá registrou 214 homicídios dolosos, uma redução em relação ao ano de 2011, quando a Capital somou 230 homicídios dolosos.

Em 2012, a taxa de homicídio doloso por 100 mil habitantes em Cuiabá foi de 38.12, enquanto em 2011 foi registrada uma taxa de 41.34”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A periferia invade o universo digital

IBASE
http://www.canalibase.org.br/a-periferia-invade-o-universo-digital/


A periferia invade o universo digital

O que a nova classe média tem a dizer sobre si mesma? Essa é a questão que embala os trabalhos do A Vida DoLadoDeCá, estudo documental idealizado pela Rede DoLadoDeCá em parceria com a Apis3 e IK Ideas. Nesse trabalho, as pessoas que fazem parte das chamadas Classe C e nova classe média falam da perspectiva de quem está dentro da comunidade sobre as mudanças que estão ocorrendo com eles mesmos. Ao invés de recorrer a estudos feitos por terceiros, o estudo d’A Vida DoLadoDeCá vai direto à fonte para documentar a tão falada ascensão da periferia.
No vídeo abaixo está a primeira parte do estudo: “Universo Digital, a nova rua da periferia”. Nesse fragmento, moradores de comunidades falam sobre a sua relação com a internet e o mundo digital. A partir de histórias pessoais contadas pelos participantes, é possível ver como o computador é cada vez mais importante em suas rotinas, seja para o trabalho ou para o lazer. Assista:

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Movimentos Sociais Populares e a luta por Direitos Humanos

africas
http://www.africas.com.br/movimentos-sociais-populares-e-a-luta-por-direitos-humanos/


Movimentos Sociais Populares e a luta por Direitos Humanos

Gilvander Luís Moreira*
Ponta pé inicial.
No Jornal A Verdade – Um jornal dos trabalhadores a serviço da luta pelo socialismo – na edição de agosto de 2012, Ano 12, n. 142, p. 8, foi publicada uma entrevista comigo. Na entrevista tratamos de seis assuntos intimamente relacionados. Abaixo, apresentamos, em forma de texto, o teor da entrevista.
1. A luta pelos Direitos Humanos e a Comissão da Verdade.
Dia 16 de maio último, a Presidenta Dilma Rousseff, atendendo a um grande clamor do povo organizado instalou a Comissão da Verdade que em dois anos tentará apurar  violações aos direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar-civil-empresarial. Essa Comissão investigará pelas brechas já abertas pelo Movimento contra a tortura. Esse quer passar a limpo os horrores cometidos nos anos de chumbo. Mas uma Comissão oficial jamais conseguirá o que precisamos: apurar de fato a verdade que liberta, aquela que precisa revelar quem torturou e matou e quem mandou torturar e matar. Para isso será indispensável que o Movimento de luta pelos Direitos Humanos, nas suas mais diversas especificidades, organize e dissemine Comissões de Verdade e Justiça independente do governo e dos militares.
Precisamos não apenas de sete, mas de “setenta vezes sete” pessoas integrando Comissões locais e regionais. Não poderemos descansar enquanto não punirmos todos os ditadores e seus vassalos e enquanto não conquistarmos a abertura dos arquivos da ditadura. Em vários países afrolatíndios muitos generais já foram julgados e estão detrás das grades. Perdoar ditadores e torturadores é ser cúmplice da perpetuação da tortura.
2. As contradições do “desenvolvimento” nas grandes cidades.
Desde Collor, passando por FHC e Lula até Dilma, a política econômica do Governo Federal tem feito opção pelo capital e seus adeptos banqueiros, empresários e latifundiários. O PAC é, na prática, Plano de aceleração do Crescimento das empresas, não do povo. As grandes obras, faraônicas por sinal, tais como Transposição do rio São Francisco, Usinas e barragens de Jirau, Santo Antônio (em Rondônia) e Belo Monte (no Pará), ferrovias, Transnordestina, construção e/ou reforma de portos e aeroportos, doze estádios etc promovem crescimento econômico para um pequeno grupo de grandes empresas, a maioria delas transnacionais. Isso fomenta a especulação imobiliária nas cidades. Com isso, ficam à mingua – quase sem orçamento – as áreas sociais da saúde, educação, habitação, reforma agrária e outros direitos humanos.
Assim os empobrecidos estão sendo, de forma sorrateira e lentamente,  expulsos para as periferias das regiões metropolitanas. Isso é progresso para uma minoria e desgraça para a maioria. O Deus da vida abomina essa política econômica neoliberal que impõe uma ditadura econômica sobre o povo. Inclusão pelo consumo é enganação. As pessoas não têm só estômago e barriga. A gente quer é vida com dignidade, o que passa por reformas agrária e urbana (que é algo muito diferente de urbanização de favelas), agricultura familiar segundo o paradigma da agroecologia, sustentabilidade ambiental, economia popular solidária e direitos humanos para todos e não só para uma minoria.
3. A criminalização dos Movimentos Sociais Populares que fazem ocupações rurais e urbanas.
As condições de vida real do povo não estão coloridas como aparecem na propaganda dos partidos políticos e na grande imprensa. Infelizmente, a injustiça social e ambiental está crescendo e a classe trabalhadora, cada vez mais marginalizada, não está tolerando mais a corda no pescoço. Como uma panela de pressão no fogo, nas entranhas da vida social há efervescência e ebulição. O povo organizado conseguiu inscrever na Constituição de 1988 que toda propriedade deve cumprir sua função social. Para isso é preciso ser simultaneamente produtiva, respeitar o meio ambiente, ter relações trabalhistas justas e partilhar sua produtividade. Descumprindo a função social, perde o proprietário o critério objetivo inerente à propriedade que é o direito de posse. Portanto, um imóvel que não cumpre a função social e está vazio deve sim ser ocupado. Ninguém tem a posse de uma área vazia. Posse é algo concreto, real, que se pode tocar e pisar. Em outras palavras, que está nas mãos.
Como conseqüência lógica não pode o Poder Judiciário, baseado somente no registro, dar as garantias da ação possessória. Invasor é aquele que se diz proprietário sem legitimidade. Em um país campeão em concentração fundiária e com grandes propriedades sem cumprir sua função social, ocupar é um direito e um dever. Ai dos pobres que não se unem e não se organizam para ocupar os terrenos abandonados. Morrerão aos poucos. Parabéns ao povo das ocupações que está  lutando por emancipação humana a partir da conquista da terra.
4. Ameaças de morte (e de ressurreição).
Já fui ameaçado de morte (e de ressurreição) muitas vezes. É só os conflitos se acirrarem e a luta de classe acontecer que as ameaças surgem. Logo após o covarde e truculento despejo da Ocupação Eliana Silva, do MLB, em Belo Horizonte, MG, dias 11 e 12 de maio último, quatro homens foram vistos no portão da minha casa em um horário em que eu deveria chegar, mas quem chegou foram outros dois frades. De 22 de junho último, até o dia 14 de julho, recebi no meu celular oito ameaças. Um ameaçador ligando a partir de telefone público e dizendo “Padreco, sua batata queimou. Some de Belo Horizonte enquanto é tempo.” Depois: “Você ainda está em Belo Horizonte? Se prepare!” Coisas desse tipo.
Sei muito bem que acompanhar as ocupações rurais do MST em Minas Gerais e as ocupações urbanas em Belo Horizonte, Itabira, Timóteo e Uberlândia, denunciar as injustiças sociais e ambientais, cobrar direitos humanos dos presos e dos homossexuais, tudo isso consola quem está na aflição, mas incomoda quem está gozando as benesses do capitalismo. Mas seguiremos lutando até o dia em que construirmos uma sociedade justa, solidária, ecumênica e sustentável ecologicamente. Ai de nós se nos calarmos diante de tantas violências perpetradas contra os pobres. O Deus da vida conta conosco nessa empreitada de luta por vida e liberdade para todos e tudo.
5. Ocupação Eliana Silva: organização, despejo e a continuidade da luta por moradia digna.
As 350 famílias sem-terra e sem-casa da Ocupação Eliana Silva se organizaram durante meses buscando se libertar da cruz do aluguel, que come no prato do pobre, que é veneno para quem ganha só salário-mínimo. Na madrugada do dia 21 de abril de 2012, em Belo Horizonte, MG, ocuparam um terreno abandonado há mais de 40 anos. O MLB coordenou a Ocupação Eliana Silva com idoneidade, com participação ativa e paixão pela defesa dos pobres. Durante três semanas, a comunidade se construía. Mas o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, exigiu na justiça reintegração de posse, mesmo sem comprovar ter a posse do terreno. O Judiciário – defensor do privilégio que é propriedade só para alguns – mandou despejar Eliana. Sem avisar, chegaram mais de 400 policiais da polícia militar de Minas Gerais: tropa de choque, GATE e outros pelotões da PM, inclusive com caveirão, um tanque de guerra.
A Ocupação Eliana Silva resistiu 36 horas, inclusive dormindo ao relento após terem suas barracas destruídas. O povo foi despejado, mas não baixou a cabeça. Está se organizando para um novo embate. A luta vai continuar até depois que todos conquistem terra e moradia digna. O povo da Eliana Silva está de parabéns pela firmeza, organização e ousadia com que está lutando. Não foi em vão o choro das crianças e toda a dor perpetrada pelo Estado. Vamos transformar a sexta-feira da paixão que fizeram com a Ocupação Eliana Silva em um domingo de ressurreição.
6. Movimentos Sociais Populares e Imprensa Popular nos próximos anos.
Infelizmente, a crise plural que nos envolve se agravará, pois o dragão, que é o capitalismo, ainda soltará muito fogo sobre os empobrecidos e sobre a biodiversidade. A crise econômica européia está chegando ao Brasil. As massas estão sendo seduzidas pelo canto da sereia da inclusão pelo consumo. A dívida externa foi internalizada. Com isso a dívida pública que o Estado brasileiro tem para com 20 mil banqueiros é quase impagável. É uma tremenda injustiça deixar de investir anualmente 250 bilhões de reais nas áreas sociais para repassar para banqueiros credores da dívida pública. Estima-se que em paraísos fiscais Maluf e muitos outros magnatas brasileiros já esconderam mais de 520 bilhões de reais. As massas vão sentir cada vez mais as conseqüências do endividamento, a intensificação do trabalho, arrocho salarial e as agruras de morar cada vez mais distante dos centros das cidades. Nesse contexto, felizes os empobrecidos que se unem, se organizam e, de cabeça erguida, partem para a luta.
Sonho com o dia em que todos os Movimentos Populares do campo e das periferias das cidades dêem as mãos e em lutas conjuntas possam sacudir o edifício do capitalismo que está podre e deve ser derrubado o quanto antes. O que move o mundo, no mais profundo, não são as armas, mas os sonhos libertários. Sonhemos acordados, de mãos dadas na luta. É preciso acreditar na força da microcomunicação através dos jornais populares, rádios populares, internet – e-mails, facebook, twitter, blogs, sítios etc. Cada militante deve adquirir o hábito de colecionar endereços eletrônicos e, assim, ampliar seus braços, sua voz e seu corpo. A luta faz nascer e crescer a esperança. Só perde quem não entra na luta ou quem desiste da luta. Lutar até depois da vitória, eis a nossa tarefa que deve ser abraçada por amor, por paixão.
Belo Horizonte, MG, Brasil, 06 de agosto de 2012.
*Gilvander Luís Moreira é Frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina, em Minas Gerais, Brasil; e-mail:gilvander@igrejadocarmo.com.br – www.gilvander.org.br – www.twitter.com/gilvanderluis - facebook: Gilvander Moreira.
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