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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Exploração sexual infantil, a face oculta do Uruguai

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/538785-exploracao-sexual-infantil-a-face-oculta-do-uruguai


Exploração sexual infantil, a face oculta do Uruguai

Um dos cartazes da campanha em massa Não Há Desculpas, realizada por Conapees, Instituto da Criança e do Adolescente do Uruguai e Unicef. Foto: Cortesia do Conapees
Karina Núñez Rodríguez tinha apenas 12 anos quando se viu empurrada para a prostituição. Agora, com meio século de vida e seis filhos, é uma das vozes mais eloquentes contra a exploração sexual de meninas e adolescentes no Uruguai, país que insiste em não reconhecer essa crescente chaga.
A reportagem é de Diana Cariboni, publicada pelo portal Envolverde/IPS, 06-01-2015.
Seu sobrenome materno, Rodríguez, “tem tudo a ver com o que faço e com o que sou”, disse à IPS esta mulher ao explicar porque deseja usar ambos. Apesar de suas múltiplas contribuições, ela não tem outra renda que não a procedente do trabalho sexual.
Tal como sua avó, sua mãe também foi uma menina explorada. Agora ela se orgulha de ter quebrado este círculo familiar de servidão e marca uma data simbólica: quando sua filha mais nova completou 12 anos sendo uma menina alegre e pronta para entrar no ensino secundário.
No Uruguai, uma grande quantidade de menores, a grande maioria de meninas, é arrancada de sua infância e oferecida como mercadoria em troca de pagamentos variáveis: um maço de cigarros, uma dose de droga, um cartão de telefone celular, comida, roupa, abrigo ou dinheiro. São explorados por membros de suas famílias, vizinhos ou redes criminosas, pequenas ou mais organizadas.
A dona de um negócio alimentar organiza bailes em sua loja nos dias de pagamento dos peões rurais do lugar e convida meninas de 12 anos da vizinhança. Estas passam suas noites bebendo, dançando e mantendo relações sexuais nas instalações externas de uma capela próxima.
O proprietário, de 74 anos, de um hotel em uma zona turística paga a viagem de uma jovem de 15 anos, que vive a centenas de quilômetros, para ter sexo com ela. Depois, envia dinheiro aos seus exploradores, mas evita ser processado alegando ignorar que a adolescente era menor de 18 anos.
Um alto funcionário de uma província organiza uma festa com adolescentes, álcool e cocaína em um prédio governamental e é pego em flagrante quando, já bêbado, se vai em seu automóvel com uma das jovens.
Uma rede formada por caminhoneiros e os pais de duas das vítimas, obriga várias meninas a manterem relações sexuais com motoristas de caminhões em três povoados diferentes.
Casos com esses são notícia a cada semana no Uruguai. Em 2010, o governo declarou 7 de dezembro como dia nacional contra a exploração sexual de meninos, meninas e adolescentes. Mas ainda não pode medir o alcance do crime, punido com até 12 anos de prisão por uma lei de 2004. A prostituição adulta é legal no país e regulada pelo Estado.
Pelo menos 1,8 milhão de menores são explorados na prostituição ou pornografia no mundo, segundo a Ecpat, uma rede mundial de organizações dedicadas a combater esses crimes. Quase 80% do tráfico de pessoas é para exploração sexual, e mais de 20% das vítimas são meninos e meninas. De 2010 a setembro do ano passado, a justiça processou 79 casos envolvendo 127 acusados. Apenas 43 deles foram condenados, segundo um informe divulgado pelo Poder Judiciário.
Mas as denúncias policiais aumentam. Em 2007 foram 20, em 2011 chegaram a 40, em 2013 a 70, e nos dez primeiros meses de 2014 passaram de 80. “Cada caso afeta não só uma menina ou um menino. Pode implicar quatro ou cinco”, disse à IPS o presidente do Comitê Nacional para a Erradicação da Exploração Sexual Comercial e Não Comercial de Meninas, Meninos e Adolescentes (Conapees), Luis Purtscher. Além disso, os violadores superam em número as vítimas. “Em uma só noite, uma menina pode manter dez relações”, acrescentou.
Nos últimos cinco anos, o Conapees treinou 1.500 funcionários públicos, incluindo educadores, trabalhadores sociais, agentes policiais e fiscais. “Temos três mil olhos e ouvidos a mais, com algum grau de treinamento para detectar e denunciar”, afirmou Purtscher, como outro motivo para o aumento das denúncias.
A violência de gênero também tem um papel relevante. Na lista de 12 países latino-americanos, mais Espanha e Portugal, oUruguai tem a mais alta taxa de mulheres assassinadas por seus parceiros, atuais ou passados, para cada cem mil habitantes, segundo informe divulgado pelo Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe.
Dentro da campanha de sensibilização, o Conapees publicou um aviso em jornais e revistas dizendo “Meninas, muito meninas”, seguido de um número de telefone que recebeu cem chamadas no primeiro dia e 500 no primeiro final de semana.
Núñez Rodríguez se converteu em ativista após presenciar o sofrimento de jovens submetidas ao “processo de amaciar” nas “whiskerias” (prostíbulos e locais de venda de bebida alcoólica): “torturas, penetrações forçadas e coletivas, golpes”, destinadas a criar “tal laço de temor entre a vítima e o explorador que a menina possa ficar toda a noite parada em uma esquina em qualquer parte sem nem mesmo pensar em ir à polícia”, descreveu.
Ela contou como conseguiu apresentar 27 denúncias às autoridades. Desses casos, “participei em nove processos e tenho a honra de as pessoas confiarem em mim e me apresentarem mais e mais provas concretas”, detalhou. Revisa pessoalmente os dados e se apoia em uma rede de oito amigas e colegas em diferentes cidades do país. “Graças a Deus, temos WhatsApp”, afirmou, sorrindo.
Em 2007, junto com outras companheiras, criou o Grupo Visão Noturna, para promover uma postura independente das autoridades em questões de saúde vinculadas à prostituição e para exigir respeito com as trabalhadoras sexuais.
Em 2009, pouco depois de denunciar na delegacia de uma pequena cidade do interior que duas adolescentes seriam traficadas, um suposto cliente a convidou para seu carro. Viajaram 20 quilômetros até a periferia. “Nove homens me deram uma surra. Fiquei 11 dias sob cuidados intensivos e três meses sem poder caminhar”, contou. Depois da recuperação, “voltei a denunciar o mesmo crime”, destacou. Ela sofre ameaças de morte e disse que alguma pode se concretizar.
Na zona oeste de Montevidéu, terminais de ônibus, parques, autopistas, cantinas e até casas particulares são os locais onde se comete crimes sexuais contra meninas e meninos, diz o informe Um Segredo Em Voz Alta, escrito por Purtscher e outros sete especialistas que entrevistaram mais de 50 pessoas.
A área está atraindo grandes investidores e mão de obra masculina, o que pode agravar a situação, mas carece de mecanismos para ajudar as vítimas, segundo várias fontes. Tampouco o país os possui. Um programa governamental de assistência criado em 2013 com esse fim está sem financiamento e conta com apenas duas equipes próprias. Essa lenta resposta oficial exaspera Núñez Rodríguez. “Quando uma criança é explorada, não se pode esperar”, afirmou.
Por todos os lados
Denunciar é perigoso, mas esses crimes e suas vítimas não estão ocultos. A fotógrafa belga Susette Kok registrou muitos locais públicos em uma exibição e um livro em que retrata 27 pessoas que foram vítimas infantis de exploração sexual e agora, invariavelmente, são trabalhadoras sexuais. “Foi muito fácil encontrar a exploração. Está por todos os lados”, disse àIPS.
A “casinha do amor”, um conjunto de muros em pedaços, com o chão coberto por camisinhas usadas, aparece ao lado de uma igreja em Fray Bentos, no sudoeste uruguaio. Um enferrujado “contêiner de paixões” emerge em uma instalação esportiva e, outra vez, ao lado de uma igreja, à entrada de Young, no ocidente do país.
Dezenas de lugares semelhantes se espalham pelo país: um banco em um campo de futebol da vizinhança, uma grossa árvore junto a uma ponte, que a ironia batizou de “sexo ecológico”, cabanas, clubes e “bares de camareiras”.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Fortaleza vive 'boom' de turismo sexual

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532505-fortaleza-vive-boom-de-turismo-sexual


Fortaleza vive 'boom' de turismo sexual

Fortaleza vive 'boom' de turismo sexual, apesar do fechamento de boates e políticas públicas contra a prática.
A reportagem é de Morris Kachani e publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, 18-06-2014.
Madrugada de terça-feira, entorno da Arena Castelão. A apenas 300 metros da entrada para convidados da Fifa, a travesti Chiara, 20, veste um collant preto e um crucifixo. "Faço programa desde os 12. É muito ruim no começo, mas depois você acostuma. E ninguém passa fome", conta.
Há quem cobre R$ 10 pela noite. Chiara pede R$ 50 - "mais barato que o ingresso para a Copa", afirma, rindo--, e está satisfeita com o início do evento esportivo. "O movimento aumentou e eu amo os gringos. Quem sabe me caso com um deles e vou morar lá na Europa", diz.
Apesar de as autoridades terem lançado um plano conjunto, com 700 pessoas envolvidas, plantão 24 horas e campanha publicitária, Fortaleza vive com o Mundial um "boom" do turismo sexual.
Os donos de boates comemoram o movimento --há quem diga, sem precedentes na capital cearense, um dos principais destinos internacionais de prostituição.
Há mais policiamento, com apoio de 3.000 homens do Exército. À tarde, na hora do jogo do Brasil contra o México, em plena Fan Fest, a garota de programa Yara, de Belém, só elogiava: "É bom porque a gente se sente mais segura para trabalhar".
'Mudar pra quê?'
A meia hora de distância, em uma confortável viagem de carro pelas pistas ampliadas da avenida que liga o estádio ao centro, está a praia de Iracema, ponto preferencial para programas de luxo.
Há famílias e crianças pelo calçadão. Mas, nos bares perto da estátua de Iracema, hordas de torcedores mexicanos ocupam os balcões e as pistas de dança -- um cruzeiro com 4.000 deles, na maioria homens, aportou anteontem.
São esperados 350 mil turistas para a Copa, de acordo com a Secretaria de Turismo. "Eu amo as brasileiras, já me apaixonei umas cem vezes desde que cheguei", afirma Ramón Ortega, 34, engenheiro aeronáutico, em meio a um grupo de amigos, alguns já meio bêbados.
Na esquina, Valeska, 19, uma morena de longos cabelos lisos, cobra R$ 200 pelo programa. "Que medo desses gringos! Mas nunca fui maltratada e, em uma noite, ganho o salário de uma balconista. Mudar pra quê?", diz.
Na Copa do Mundo das garotas de programa, homens de países nórdicos e os holandeses aparecem entre os campeões de preferência.
Espanhóis e alemães empatam. Italianos ficam na repescagem. Latinos como os mexicanos ou uruguaios, que vieram assistir ao jogo contra Costa Rica na semana passada, são como os brasileiros.
Cidade mascarada
A exploração sexual de crianças e adolescentes pode ser vista por vários cantos. De acordo com Lídia Rodrigues, que coordena o colegiado de uma rede de ONGs, o número de menores de idade que oferecem seus corpos na região mais que dobrou nos últimos três anos, com a demanda dos operários do estádio. Eram cerca de cem, hoje não são menos de 250.
Um mês antes da Copa, oito boates tradicionais da cidade foram fechadas. O plano de convergência, que deve vigorar apenas durante o torneio, ainda conta com três centros de acolhimento para crianças e jovens.
"Muitos pais deixam as crianças para assistir aos jogos. Por isso, orientamos que as deixem conosco. Temos psicólogos e atividades lúdicas", diz Tânia Gurgel, da Fundação da Criança e da Família Cidadã, da prefeitura.
Para Alice Oliveira, coordenadora interina da associação das prostitutas cearenses, a cidade foi "mascarada" para a realização do Mundial. "Com o aperto da fiscalização sobre hotéis e motoristas de táxi, muitos estrangeiros compraram casas e apartamentos. Os encontros pela internet estão bombando'."
A socióloga Glória Diógenes, ex-secretária municipal de Direitos Humanos, afirma que nunca houve uma política pública de longo prazo para coibir a exploração sexual. "Fizeram uma assepsia social na área turística da cidade para não ficar a olho nu. Fortaleza é um lugar onde o abismo social só se acentuou com o crescimento econômico", afirma a pesquisadora da UFC (federal do Ceará).

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Operários de Belo Monte pagam sexo com vale

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http://amazonia.org.br/2014/06/oper%C3%A1rios-de-belo-monte-pagam-sexo-com-vale/




Operários de Belo Monte pagam sexo com vale

A cada início de mês, o pagamento dos operários da obra da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, provoca um boom nos serviços de prostituição de Altamira (a 900 km de Belém), estimulando inclusive a exploração de crianças e de adolescentes.
As informações constam de um estudo da UFPA (Universidade Federal do Pará), financiado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, e finalizado em maio.
No domingo (8), a Folha mostrou que, segundo a pesquisa, Belo Monte empurrou índios da região para o circuito de exploração sexual na cidade, a mais impactada pela construção da usina.
Relatos obtidos pelos pesquisadores apontam que os operários da obra usam até vale-alimentação para pagar pelos serviços sexuais.
Embora a prostituição ocorra abertamente nas boates de Altamira, a exploração de menores de idade costuma ser camuflada, pois as adolescentes geralmente não têm permissão para trabalhar nesses estabelecimentos.
Segundo o estudo, donos de casas noturnas fornecem telefones das garotas. Várias delas também fazem ponto em outros locais.
Nas rondas feitas pela equipe do projeto, foram encontradas menores de idade em duas casas, “porém, sem a possibilidade de saber se elas estavam trabalhando nas boates ou fazendo ‘ponto’ em frente delas”, diz o relatório.
Alto escalão
A pesquisa aponta que tanto operários da obra como alguns de seus funcionários de alto escalão estão envolvidos na exploração sexual.
Em um dos casos, uma conselheira tutelar encontrou em uma residência grande, com piscina e churrasqueira, três adolescentes e duas mulheres maiores de idade, todas em trajes de banho, com quatro homens. Segundo ela, tratavam-se de altos funcionários de Belo Monte.
A obra tem em torno de 25 mil operários, que incharam o município de 99 mil habitantes. Funcionários dizem que buscam os serviços por ficar muito tempo longe de suas famílias e por causa da intensa rotina de trabalho.
O estudo analisou casos registrados nas instituições públicas e ouviu moradores de Altamira, em especial, taxistas. Em abril, os pesquisadores firmaram um pacto com Belo Monte para o enfrentamento da violência sexual.
Outro lado
A Norte Energia, empresa responsável por Belo Monte, diz que houve redução de 33% na violência contra crianças e adolescentes na cidade, pelos dados do Conselho Tutelar, e que tem ajudado a enfrentar o problema.
A empresa diz ter feito ações educativas, como palestras, e doado equipamentos a órgãos de segurança pública e assistência social.
Já o CCBM (Consórcio Construtor de Belo Monte), contratado pela Norte Energia para fazer a obra, afirma que reduziu o intervalo entre as visitas dos trabalhadores a suas famílias e que também faz campanhas contra exploração sexual de menores de idade, inclusive com seus operários.
Por: Aguirre Talento
Fonte: Folha de São Paulo