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sábado, 16 de agosto de 2014

Brasil tem maior aumento na produção de lixo em uma década

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81995

Brasil tem maior aumento na produção de lixo em uma década

EcoD
Adital


Quase metade do que os brasileiros jogam fora (41,7%) ainda vai para lixões. Imagem: Emidio Batista Almeida Filho 

Ao mesmo tempo em que a maioria dos municípios brasileiros deixa de acabar com os lixões, conforme determina a Lei de Resíduos Sólidos, a população aumenta a geração de resíduos, segundo mostra um relatório sobre o panorama do lixo no país, que foi lançado recentemente pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Segundo o levantamento, o Brasil teve, de 2012 para 2013, o maior crescimento na geração de resíduos por dia da última década. No ano passado, foram geradas 209.208 toneladas de lixo por dia, o que representa 4,1% a mais em relação a 2012, quando a cifra estava em 201.058 toneladas diárias. Ao mesmo tempo, essa escalada do descarte, fruto do aumento da renda e do consumo, não foi acompanhada de avanços significativos em gestão ambiental de qualidade, destaca o documento.
Para a Abrelpe, o maior índice anual de geração de resíduos nos últimos 10 anos é um alerta: o país está consumindo mais e descartando numa quantidade nunca antes vista. Quase metade do que os brasileiros jogam fora (41,7%) ainda vai para lixões, sem controle adequado e com altos índices de poluição.
Nordeste
Na avaliação do presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho, o maior gargalo para o país cumprir a Política Nacional de Resíduos está do Nordeste, região que ainda conta com 837 lixões a céu aberto, contra 453 aterros sanitários licenciados.
O país tem cobertura de coleta média de 90,4%. Na região nordestina, o índice é de 78,2%. "Dos 5.570 municípios brasileiros, 1.569 ainda fazem uso de lixão. E, desses, mais da metade está no Nordeste. O aumento na geração de resíduos de 2012 para 2013 não encontrou um sistema de tratamento adequado. Mais de 3 mil municípios não têm condições de fazerem aterros sanitários", destacou Silva Filho ao jornal O Globo.
Para a Abrelpe, o maior índice anual de geração de resíduos nos últimos 10 anos é um alerta: o país está consumindo mais e descartando numa quantidade nunca antes vista. "Não temos visto, ainda, um avanço significativo na coleta", afirma o presidente da entidade.
Lixões
O prazo para que os lixões fossem substituídos por aterros sanitários terminou no último dia 02 de agosto. Agora, as prefeituras ficam sujeitas ao pagamento de multa por cometerem crimes ambientais. Não por acaso, entidades nacionais de representação dos municípios já fazem intensa pressão pela ampliação do período de ajuste.
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, sinalizou que o Executivo federal parece determinado a rejeitar tal pleito, que deve se concentrar no Legislativo. O deputado federal Manoel Junior (PMDB-Paraíba) sugere uma emenda para dilatar o período de ajustamento. Quer mais oito anos, além dos quatro que os prefeitos já tiveram.
Fonte:http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2014/brasil-tem-maior-aumento-na-producao-de-lixo-em?tag=consumo_consciente#ixzz39bqiR1Y8

EcoD

Projeto do Instituto Ecodesenvolvimento

sábado, 15 de março de 2014

Celulares são os campeões de obsolescência programada

o eco
http://www.oeco.org.br/oeco-data/28093-celulares-sao-os-campeoes-de-obsolescencia-programada

Plataforma de jornalismo de dados do site ((o))eco. Por Daniel Santini

Celulares são os campeões de obsolescência programada
Daniel Santini - 14/03/14

Os celulares e smartphones são os campeões de obsolescência programada, sendo substituídos com frequência e descartados sem nenhum cuidado ambiental. É o que aponta pesquisa divulgada no começo do mês pelo Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC), baseada em levantamento feito pela Media Analysis. Neste sábado, dia 15, celebra-se o Dia Internacional do Consumidor, e para ajudar na reflexão sobre os novos hábitos de consumo, o site ((o)) eco organizou os principais resultados do estudo nos infográficos abaixo.
Clique nos botões para ver detalhes e comparar as informações, com especial atenção para a velocidade com que se descartam itens eletrônicos, em especial os digitais.




Leia também:

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Os bilionários da Globo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/Os-bilionarios-da-Globo/12/29978


Os bilionários da Globo

A soma das fortunas dos três filhos de Roberto Marinho poderia disputar o primeiro lugar do ranking de bilionários brasileiros.


Altamiro Borges
arquivo
 
Semana passada, o jornal Valor divulgou o chamado índice “Bloomberg Billionaires”, o ranking das 300 maiores fortunas do mundo. Em plena crise mundial da economia capitalista, ele confirmou que “as pessoas mais ricas do planeta ficaram ainda mais ricas em 2013 após aumentarem o seu patrimônio líquido coletivo em US$ 524 bilhões” e ainda indicou que “os ricos continuarão ficando mais ricos em 2014”, segundo declaração arrogante de um dos incluídos no ranking. A mídia nativa, porém, não deu maior destaque para os ricaços brasileiros – talvez porque na lista apareçam com destaque os três filhos de Roberto Marinho, donos das Organizações Globo, o maior império de comunicação da América do Sul.

Nesta semana, a edição brasileira do jornal espanhol El País abriu o jogo no artigo intitulado “Quem e quantos são os ricos na América Latina?”. Segundo a matéria, “na região há 111 multimilionários que superam 1 bilhão de dólares de patrimônio. O Brasil lidera ranking de ultrarricos”. Jorge Paulo Lemann, acionista da cervejaria Ambev, da rede da fast food Burger King e da fabricante de Ketchup Heinz, é o maior ricaço brasileiro e o 34º no mundo, com uma fortuna avaliada em US$ 22,3 bilhões. Na sequência surgem o banqueiro Joseph Safra, no posto 92, com US$ 12,4 bilhões; e os empresários Marcel Telles (posto 113, com US$ 10,4 bilhões) e Carlos da Veiga (posto 138, com US$ 8,9 bilhões), ambos sócios de Lemann.

Logo em seguida, no quinto, sexto e sétimo lugares dos mais ricos do Brasil, aparecem os filhos de Roberto Marinho, numa estranha contabilidade. “João Roberto Marinho (Organizações Globo), no número 165 do ranking mundial, com US$ 7,7 bilhões; José Roberto Marinho (Organizações Globo), no posto 166, com os mesmos dados que seu irmão; e Roberto Irineu Marinho (Organizações Globo), no número 177, com os mesmos dados de João e José Roberto”. Será que a estranha contabilidade tem alguma relação com sonegação de impostos e desvio de grana para os paraísos fiscais, como foi denunciado recentemente pelo jornalista Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho. De qualquer forma, somando as três fortunas, os três filhos do Marinho poderiam disputar o primeiro lugar no Brasil.

Como observa a matéria do El País, “desde a última crise de Wall Street, muitos cidadãos no mundo e, sobretudo nos EUA, protestaram contra este 1% da população global que domina a riqueza”. Fica a indagação: já que estão sendo planejados tantos protestos contra a Copa do Mundo no Brasil, inclusive com o discurso carbonário de vários “calunistas” da mídia golpista, não seria o caso de se organizar algumas manifestações contra os bilionários brasileiros, principalmente contra os donos das Organizações Globo? O motivo seria bem mais nobre e justo!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Começar pela mudança dos hábitos de consumo. A economia solidária como processo para a outra economia

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=78092

Artigos - Opinião
10.10.2013
[ Mundo ]
Começar pela mudança dos hábitos de consumo. A economia solidária como processo para a outra economia

Latinoamericana 2013
Adital

30ª Entrega
Prezadas/os Leitoras/res,
Em parceria com a Agenda Latino-americana/Servicios Koinonia, através de duas entregas semanais, divulgaremos na página web, no Facebook e no Twitter da ADITAL todos os textos (em português e espanhol) publicados na edição da Agenda 2013 - A OUTRA ECONOMIA, que, nas palavras de Dom Pedro Casaldáliga, "em linguagem bíblico-teológica temos a palavra-chave para falar da Outra Economia, verdadeiramente outra: o Reino, a economia do Reino. Obsessão de Jesus de Nazaré, revolução total das estruturas pessoais e sociais, utopia necessária, obrigatória, porque é a proposta do próprio Deus da Vida, Pai-Mãe da Família Humana".
Esperamos que apreciem e divulguem esse importante serviço.
*****************
Começar pela mudança dos hábitos de consumo. A economia solidária como processo para a outra economia
Por Luis Razeto
Santiago do Chile

Na criação de outra economia, o ponto de partida é a transformação do consumo. A razão disto é clara: assumindo como fim da nova economia o ser humano, a sua realização e felicidade, é preciso que se comece por examinar se o seu consumo de bens e serviços que produz a economia está servindo a este objetivo, que leva necessariamente a satisfazer as verdadeiras necessidades do ser humano.
À economia capitalista não interessa que as pessoas sejam felizes nem que se realizem comunitariamente. Interessa só que os indivíduos estejam no mercado e comprem o mais possível, mercado para o qual é melhor inclusive que as pessoas permaneçam insatisfeitas, se isto as leva a comprar mais coisas e serviços.
O consumo, tal como é atualmente, leva as pessoas a viver as suas necessidades de tal maneira que as torna passivas, dependentes e competitivas. Será radicalmente diferente o consumo que nos torna pessoas criativas, autônomas e solidárias; mas este novo modo de consumo leva a entender de outra maneira as necessidades humanas.
É essencial deixar de pensar as necessidades como carências, como vícios que devem se prover dos bens e serviços de tal modo que haveria um jeito de correspondência biunívoca entre as necessidades e os produtos e serviços. A cada necessidade corresponderia um produto, e a cada produto corresponderia uma necessidade. Porém, desta maneira, as necessidades seriam procuradas como necessidades do próprio ser, mas como as necessidades de comprar e ter coisas e serviços.
Supõe-se, aliás, que as necessidades acontecem, isto é, satisfazem-se cada vez que os vazios se enchem com certos produtos, mas elas voltam aos poucos a se apresentar insatisfeitas e, portanto, estariam sempre demandando os bens e serviços que as satisfazem por algum tempo, para que mais adiante voltem a se apresentar os vazios, as carências.
Mas somos assim os seres humanos? Somos estas coisas com tantas carências, com tantos espaços vazios que se enchem e que se esvaziam, que vão se multiplicando e crescendo, e que exigem sempre mais bens e serviços com que se satisfaçam? Ou é que assim nos quer o mercado capitalista?
Atualmente as necessidades e o consumo estão crescendo enormemente, tanto pela lógica do mercado capitalista como pela do Estado benfeitor, de modo que a economia está fortemente pressionada a crescer, a multiplicar a sua oferta de bens e serviços, para satisfazer tanto as demandas coletivas que se exigem ao Estado, como as demandas individuais que se expressam no mercado. Desde ambas as perspectivas, desde ambas as lógicas, se está vivendo uma alta do umbral da quantidade de produtos que se exigem e do nível de acesso ao que se aspira.
O consumidor moderno parece insaciável e é tremendamente solicitante e exigente, pois considera que tem direito a que o Estado lhe conceda tudo de que necessita para alcançar o nível social médio e, além disto, ele tem o direito que o mercado lhe proporcione tudo o que deseja e pode pagar. E, se não pode pagar, considera que tem o direito a que lhe deem o crédito para comprar.
Esta verdadeira explosão de necessidades e demandas para o mercado e para o Estado gera uma pressão muito grande sobre o sistema produtivo. Uma pressão para crescer, isto é, para aumentar aceleradamente o processo de produção de bens e serviços juntamente com a acelerada expansão das necessidades.
Mas é preciso perguntar: é possível o crescimento indefinido? Haverá recursos e capacidades suficientes para sustentar o crescimento permanente? Se continuar por esse caminho, serão reversíveis as consequências que estão incidindo sobre o meio ambiente e a ecologia? E será possível superar os gravíssimos impactos que o consumismo exacerbado faz cair sobre a convivência coletiva, a governabilidade, a ética social e os valores culturais e espirituais?
Mais ainda, não é por acaso por estar chegando aos limites possíveis deste crescimento de consumo, que hoje se torna evidente a crise sistêmica da civilização moderna, e se percebe a necessidade urgente de construir uma civilização e uma economia diferentes?
E, indo mais a fundo no assunto: será verdade que chegando a mais produtos e serviços alcançamos uma melhor satisfação das necessidades humanas, que nos tornamos mais felizes, que nos realizamos melhor como pessoas?
O consumidor moderno não é um consumidor criativo, autônomo e solidário. Pelo contrário, o seu consumo é imitativo, dependente e competitivo. Trata-se de um consumo que apequena as pessoas, e que, em definitivo, gera insatisfação e infelicidade, que parece ser o estado habitual, mais amplo, em que se encontram muitas pessoas em fase terminal de crise da civilização moderna.
Desse consumo imitativo, dependente, compulsivo e competitivo teremos que nos libertar, para chegar a um consumo autônomo, criativo e solidário, como o que corresponde a uma nova e superior civilização. E essa mudança não será feita nem pelo mercado nem pelo Estado; é absurdo exigir do mercado ou do Estado, que são os impulsores do consumo dependente e passivo.
A mudança nas maneiras de consumo só é possível se a fizermos nós mesmos, mudando cada um e gerando, a partir do nosso círculo, uma mudança cultural que vá propagando um novo modo de viver as necessidades e de consumir o que é conveniente para a nossa realização pessoal e para o nosso desenvolvimento social.
O consumidor criativo, autônomo e solidário identifica os seus objetivos procurando a sua realização como pessoa humana integral, a satisfação de suas verdadeiras necessidades, que não são as que indicam o mercado e o Estado, nem mesmo os nossos instintos imediatos, mas as que descobrimos mediante o conhecimento da nossa natureza humana, daquilo que somos e do que estamos orientados a ser. E sabe que está inserido em uma comunidade de iguais, que vive em um ambiente natural junto a muitos outros seres e espécies de viventes, em relação aos quais tem responsabilidades essenciais.
Quando vivemos as necessidades de modo verdadeiramente humano, as experimentamos no plano da consciência. Inclusive as necessidades corporais, como a de nos alimentarmos e nos abrigarmos, se vivemos subjetivamente. As necessidades não são satisfeitas somente mediante a coisa que se tem ou a ação externa à qual nos aproximamos, mas pela ação do sujeito que a usa ou pelo serviço externo realizado.
A melhor satisfação das necessidades, chegar a uma superior qualidade de vida, e a realização pessoal ou grupal, não implicam incrementar as compras e o consumo, nem exigem necessariamente uma maior produção. Em troca, um ‘bom consumo’, um consumo realizador, leva a uma transformação radical da produção.
Se se produz para a satisfação das necessidades e o desenvolvimento humano, grande parte da atual produção, e, em particular, muitos bens e serviços que satisfazem o consumismo e o consumo dependente, imitativo e competitivo, deixarão de ser necessários e úteis. Uma nova estrutura da produção irá sendo criada na medida em que mais pessoas e grupos forem adotando os critérios que forem próprios para um ‘bom consumo’. Neste sentido podemos prever que se expandirão a agricultura e a produção de bens e serviços básicos, juntamente com a educação e a cultura, as comunicações e os serviços de proximidade. Poderiam diminuir a mineração, a indústria pesada, o transporte, a indústria do petróleo e seus derivados, a indústria química, os serviços financeiros e a extensa produção de coisas de pouco valor.
Nesta direção podemos ver que na outra economia seria necessário experimentar um grande desenvolvimento no trabalho autônomo e associativo, na autoprodução, nos processos de desenvolvimento local. Como resultado de tudo isto, melhorarão conjuntamente o meio ambiente e a qualidade de vida, chegando-se a um tipo de desenvolvimento muito diferente do insustentável crescimento econômico atual.
Em correspondência com as novas formas de consumo, viveremos um processo de crescimento da capacidade de produção das pessoas, das famílias, das comunidades e dos grupos locais. Vimos, com efeito, que o ‘bom consumo’ leva as pessoas e as comunidades da dependência à autonomia. Este é um processo, e, na realidade, a autonomia se torna possível uma vez alcançado certo nível de desenvolvimento pessoal.
São a insegurança, a carência de capacidades, a falta de relações, a ausência de convicções que tornam tão apreciada a aquisição de coisas e o recurso a serviços externos. Porém, quando se alcança certo nível de desenvolvimento pessoal, nós nos tornamos mais autossuficientes e menos necessitados de bens e serviços externos. Se alguém tem um bom desenvolvimento pessoal, uma riqueza de personalidade é muito provável que precise comprar menos bens e serviços, não porque tenham desaparecido as suas necessidades, mas porque se satisfazem mais automaticamente e o sujeito coloca maior dedicação às dimensões em que é capaz de autogerar projetos satisfatórios por sua conta.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais.

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/privatizacao-das-aguas-e-a-desilusao-dos-pescadores-artesanais-entrevista-especial-com-elionice-sacramento/524157-privatizacao-das-aguas-e-a-desilusao-dos-pescadores-artesanais-entrevista-especial-com-elionice-sacramento

Privatização das águas e a desilusão dos pescadores artesanais. Entrevista especial com Elionice Sacramento

Com a privatização das águas, “não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal”, adverte a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras artesanais.
Foto: http://bit.ly/1fNDm5V
Responsável por 70% da produção de pescado no país, a pesca artesanal está ameaçada pelo Projeto do Ministério da Pesca e da Aquicultura, denominado pelo movimento dos pescadores e pescadoras tradicionais de “privatização das águas públicas dos mares”.
Trata-se da Cessão de águas Públicas lançada em editais no mês de junho (Licitações: 11/2013- 12/2013-13/2013-14/2013), que transfere determinada área do mar para grupos que pretendem cultivar uma determinada espécie de peixe. Segundo a integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, Elionice Sacramento, já serão privatizadas áreas em cinco estados brasileiros, sendo “três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Elionice enfatiza que “quando o Ministério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esseMinistério atenderia a pesca artesanal”. Com o passar do tempo, acentua, o órgão passou a adotar políticas “que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil”.

Elionice Sacramento é integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais.
Confira a entrevista.
Foto: http://bit.ly/1avWeSZ
IHU On-Line - O que caracteriza a privatização das águas públicas e qual é o objetivo desta privatização? Em que consiste essa política desenvolvida pelo Ministério da Pesca e Aquicultura?
Elionice Sacramento – Queria dizer que quando oMinistério da Pesca foi criado, na primeira gestão do governo Lula, os pescadores no Brasil apoiaram sua criação com a ilusão de que esse Ministério atenderia a pesca artesanal. Depois percebemos que ele estava adotando políticas que fortaleciam mais a aquicultura, ou seja, o processo de criação de pescados em cativeiro, e os empresários, que têm relação com essa atividade, sem considerar o trabalho dos pescadores artesanais do Brasil. Então, o governo passou a ver o Ministério como um espeço de promoção política de alguns deputados, tanto que se criou um esquema de corrupção muito grande no Ministério no que diz respeito à documentação de pescadores. Daí para frente começamos a ouvir falar em um projeto de privatização das águas públicas.
Em junho, foi lançado no país um edital para a privatização de áreas de quatro estados brasileiros, ou seja, serão privatizadas três áreas no Ceará, 26 no Rio Grande do Norte, duas em Pernambuco, 16 no Maranhão e 22 na Bahia, as quais são historicamente utilizadas pelos pescadores e pescadoras artesanais. Trata-se de um modelo que passa por cima das comunidades tradicionais que utilizam aquele espaço com uma relação de respeito com o mar e que interessa às forças capitalistas.
IHU On-Line - Como funciona esse processo de privatização das águas?
Elionice Sacramento – Foi lançado um edital, os interessados demonstram seus interesses, concorrem a esses espaços. Após a licitação, o grupo interessado terá direito de fazer uso daquele espaço durante 20 anos e pagar uma quantia mínima aos cofres públicos.
IHU On-Line - O que a privatização das águas públicas significa para as comunidades tradicionais, especialmente, as pesqueiras? Além das comunidades, quem mais será prejudicado com a privatização desses espaços?
Elionice Sacramento – Não só os pescadores serão prejudicados, mas a sociedade de modo geral, porque vai haver um processo de diminuição da pesca artesanal. Então, os turistas serão prejudicados, e o comércio dessas regiões também, porque esses pescados que são produzidos em cativeiro são pescados para exportação, e não para uso nacional. Por outro lado, haverá um processo de desequilíbrio do meio ambiente, porque espécies estranhas serão cultivada no mar, e o lixo produzido por elas ficará no mar.
Sem contar que os pescadores e pescadoras artesanais desempenham um papel fundamental no Brasil. Nós somos guardiões de uma tradição milenar, somos produtores de alimento, porque 70% de todo pescado produzido no país vem da pesca artesanal. Então, essa tradição só se manteve durante tantos anos porque estabelecemos com a natureza uma relação de completo respeito, uma relação de amor, mas principalmente uma relação de dependência e de respeito.
Respeitamos os períodos de reposição dos peixes, e agimos de acordo com a determinação da natureza. Esses processos industriais não têm respeito com nada. Eles atropelam tudo, desmontam processos de organização que já existem nas comunidades.
IHU On-Line - Já existem editais lançados para a compra de corpos d’águas em alguns estados. Do ponto de vista legal, como o movimento vem contestando os editais e esse processo de privatização?
Elionice Sacramento – Esse edital lançado em junho feriu algumas leis e alguns acordos internacionais. Por exemplo, o princípio de consulta às comunidades tradicionais não foi cumprido.
Então, as comunidades que fazem uso desses espaços não foram consultadas sobre esse processo de privatização das águas públicas. E isso já é motivo de ilegalidade do processo.
Quando o edital foi lançado na Bahia, o ministro em exercício à época não quis ouvir os integrantes do movimento e disse que apenas uma pessoa poderia falar. Quando nós nos negamos a aceitar essa proposta, o ministro levantou e disse que não ficava no encontro. Não houve nenhum tipo de diálogo com a comunidade. Por outro lado, nós visitamos a Secretaria de Patrimônio da União, que foi quem regularizou as áreas da água para ceder ao Ministério da Pesca, e questionamos por que os territórios não estão sendo cedidos aos pescadores, e sim para a apicultura. Segundo as pessoas que nos receberam, existia a Secretaria de Patrimônio da União desconhecia o porquê de essas áreas não serem destinadas para a pesca artesanal.
Então, entramos com um recurso contestando a ilegalidade do processo, fomos até a 6ª Câmara Federal, procuramos a Promotora Deborah Duprat, e também outros cinco promotores. Todos receberam esse processo com muita indignação.
IHU On-Line - Os editais determinam que as empresas vencedoras das licitações devem promover um número mínimo de empregos. Como você enxerga esse ponto específico?
Elionice Sacramento – A maioria dos empreendimentos, quando chegam às comunidades, apontam a justificativa de que vão gerar empregos. Por conta disso, esses empreendimentos acabam recebendo a aceitação de políticos e de pessoas que não têm vocação para a pesca. Só que isso é enganação. Temos muita clareza de que o discurso do emprego não é verdadeiro, até porque o processo que querem implementar é muito industrial.
IHU On-Line - Quais apoios são importantes no processo de luta para impedir a privatização das águas públicas?
Elionice Sacramento - Nós estamos em campanha pela própria ação e regularização dos territórios pesqueiros. Nessa campanha foi pensado um projeto de iniciativa popular onde a sociedade brasileira vai dizer, através de assinaturas, se concorda que o território pesqueiro seja protegido. Também temos divulgado o trabalho dos pescadores, porque somos invisível nesse país. Parece que a sociedade não sabe de onde vem o peixe que gostamos de comer.
IHU On-Line - Você gostaria de acrescentar algo?
Elionice Sacramento - Gostaria de sugerir que as pessoas acessem o nosso blog, assinem o abaixo assinado pelaCampanha da Regulamentação dos Territórios Pesqueiros, e compreendam a importância da pesca artesanal e dos pescadores e pescadoras.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Jornalismo com contraindicação nas revistas femininas

OBSERV IMPRENSA
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed755_jornalismo_com_contraindicacao_nas_revistas_femininas

Jornalismo com contraindicação nas revistas femininas

Por Roxana Tabakman em 16/07/2013 na edição 755
 
Na capa, uma chamada atraiu os meus olhos: “Células-Tronco - As novidades para deixar o rosto jovem em minutos”. Como nasci mulher e loira, ou seja, sou geneticamente incapaz de ter senso crítico, e além de tudo os 50 anos estão mais perto do que longe e sei que o Photoshop não presta para o dia a dia, fui direto à matéria. Maravilha! As células-tronco prometem corrigir tudo! Leio: “devolver à pele o viço, elasticidade e corrigir defeitos da idade”. Também vou guardar a revista para minha filha adolescente, porque – segundo o artigo “Células-tronco para uma pele jovem”, da revista Corpo a Corpo (Editora Escala) – a injeção também melhora as cicatrizes da acne e outros defeitos da pele. Na visão sobre o assunto oferecida pela repórter que entrevistou a dermatologista Dayse D’Ávila, o método é simples e seguro.
Porém, mulheres, alguém tem que contar como é a realidade, mesmo que seja ruim. O que diz a matéria não é tudo verdade. Especialmente a última palavra: seguro.
Deixo para os estudiosos da comunicação avaliar a peça jornalística pelo Index of Scientific Quality (Índice de Qualidade Científica) e dar um resultado entre um (baixa qualidade) e cinco (alta qualidade). Para isso, eles terão que medir o grau de clareza do texto em relação a seu público-alvo, a distinção clara entre opiniões e informações, o nível de evidência e credibilidade das fontes utilizadas, o fundamento em relação a suas afirmações e ter comprovado que apresenta claramente os benefícios e riscos.
Porém, como o que melhor sabemos fazer os jornalistas é contar histórias verdadeiras, vou contar uma,publicadana Scientific American, que vai ajudar os leitores a dar o seu veredicto.
Era uma vez uma mulher que chegou numa luxuosa clínica estética da Califórnia, The Morrow Institute, reclamando que não conseguia abrir o olho direito. Quando o médico pediu para ela tentar, ela reclamou de dor. Alem do grito, do corpo da mulher saiu outro som, como se fosse uma música rítmica, feita com castanholas. O cirurgião, Allan Wu, convidou-a logo para ir ao centro cirúrgico. O que ele achou ao cortar a pele, entre a sobrancelha e o olho, ninguém esperava.
As pinças cirúrgicas começaram a extrair pedaços de osso, um depois de outro... demoraram seis horas para acabar. O inexplicável era que os ossos estavam isolados, e o crânio não tinha nenhuma fratura. Um enigma para a ciência? Não por muito tempo. A resposta estava no prontuário.
Três meses antes, a mulher tinha recebido – em troca de 20 mil dólares – injeções de células-tronco em uma clínica de Beverly Hills. Como na técnica recomendada na matéria brasileira, as células tinham sido obtidas da própria gordura da paciente, da região abdominal. A única diferença é que as células-tronco foram colocadas junto a um material de recheio clássico, que contém um mineral (hidroxiapatita de cálcio). O procedimento médico tinha dado bons resultados estéticos. O problema estava na natureza.
O que aconteceu foi que as células-tronco (que em condições normais não estariam lá) aproveitaram o mineral disponível (que se não fosse pelo procedimento estético também não estaria lá) para construir pedaços de osso (que, logicamente, não deveria crescer ali). Ou seja, tendo os elementos, a natureza simplesmente atuou segundo as suas próprias e conhecidas regras. Pena que não era o que a mulher esperava.
As células vivas não são um remédio como qualquer outro. Células-tronco são celebres porque podem se transformar em diversos tipos de tecido. Isto tem sido obtido em laboratório e, em alguns casos como o relatado, no corpo dos pacientes. O lado B desta terapia biológica é que as células-tronco podem diferenciar-se em tecidos que não sejam os desejados, podem crescer de forma pouco controlável, podem gerar cartilagem, osso, ou outros tipos celulares, sem que se possa controlar a quantidade e o formato. É por isso, justamente, que ainda não estão permitidas na prática médica. Porque ainda há muita insegurança no processo, não pelos resultados estéticos.
A história relatada começa no ano de 2009. E acaba? Ninguém sabe. As células-tronco ainda estão lá. “Pode acontecer de novo”, advertiram à paciente arrependida. Paradoxos dos tratamentos biológicos: têm uma aura de saudáveis que nem sempre tem correspondência com a realidade.
Da história americana há muitas leituras, entre elas a de que terapias com células-tronco potencialmente perigosas se oferecem como tratamento de beleza até nos países mais sérios. No Brasil, é sabido que há profissionais oferecendo tratamentos com células-tronco sem ter havido sequer consenso sobre sua validade prática. E, afinal de contas, não é aceito pelas autoridades de saúde. Os pacientes podem cair na armadilha por pensar que, se um tratamento é oferecido em um consultório bonito, e o profissional até der um recibo pelo pagamento, é evidente que se trata de uma prática legal. Porém, no Brasil, como em muitos países, não há uma lista de procedimentos permitidos ou proibidos, e todos são cientes disso: falta fiscalização para impedir a comercialização de terapias não comprovadas. (Voltando ao caso americano, qualquer médico no Brasil pode colocar as células-tronco junto ao mineral, como no exemplo dado, porque não há um método único recomendado pelas associações profissionais).
Um paciente pode ser enganado por um médico que desrespeita as regras. O jornalista não pode, ele é responsável pelo que publica. A imprensa generalista pode não saber de tudo, mas tem que saber entrevistar. A resposta da pergunta certa para esta matéria é que a única terapia com células-tronco comprovada e aprovada no mundo para uso em humanos é o transplante de medula óssea. O resto é experimental. O que significa? Muitas coisas; entre elas, por exemplo, que não há garantias. E que se alguém fizer, tem que ser gratuita.
Entre nós
Todas as revistas femininas dedicam a maioria das suas páginas – excetuando moda – a assuntos relacionados à saúde. O interesse das leitoras pela medicina não é mais do que um reflexo de uma mudança de atitude na qual os pacientes se encarregam de sua própria saúde e buscam informações em todas as fontes possíveis. As mulheres ainda mais, responsáveis pela saúde de varias gerações da família.
O contato entre a mídia e as vozes especialistas é, por sua vez, cada vez mais fluido, facilitado pelas assessorias de imprensa cada vez mais populares no setor médico. Porém, em muitos casos, a busca midiática responde a razões de estratégia de marketing pessoal. A ingenuidade ou falta de capacitação de alguns jornalistas, somada às pressões de diferentes origens, pode fazer estragos.
É lamentável que, na busca pelo apelativo, muitas vezes se esqueça de que o essencial deveria continuar sendo a qualidade da informação, ainda mais quando pode haver consequências gravíssimas como é o caso dos artigos de conteúdo médico. As notícias sobre dietas, por exemplo, deveriam ser tratadas com o rigor imposto à prescrição de um tratamento para obesidade. Não é o que acontece. Em geral, as dietas publicadas oferecem a metade dos minerais necessários, falta a elas cálcio e ferro, e têm menos vitaminas do que o adequado para o funcionamento correto do organismo [ver aqui].
Em conclusão, o boom informativo sobre medicina pode ter efeitos contraproducentes se à quantidade não forem incorporadas doses crescentes de qualidade.Na mesma edição da matéria das células-tronco há, dez páginas depois, outra matéria de título autoexplicativo “Bisturi, aí vou”. Esta, como é devido, tem dentro de um box um texto menor, porém de titulo acertado: “Todo cuidado é pouco”.
Nas primeiras páginas da mesma revista, há um espaço fixo que se chamaEntrenós. Claramente, é uma conversa amigável, íntima, com as leitoras. Nós é uma referencia às outras mulheres.
Gostaria de ter uma conversa assim com os jornalistas que fazem as matérias de saúde nas revistas femininas. Ou talvez não seja necessário, não acho palavras melhores para dizer do que as que a editora Karine César colocou naquele Entrenós para suas leitoras:
“Basta um comentário colocado de forma equivocada para que toda nossa segurança vá por água abaixo. Leva muito tempo para percebermos que um mundo cheio de regras e julgamento serve para nos nortear e motivar... Mas não pode nunca nos paralisar”.
É assim mesmo. As matérias de medicina das revistas femininas fazem muita diferença na vida das leitoras e suas famílias. É preciso apenas tentar fazê-las cada dia melhor. É fácil: em saúde, geralmente isso se alcança com o respeito a algumas regras.
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Roxana Tabakman é bióloga e jornalista, autora de A saúde na mídia: medicina para jornalistas, jornalismo para médicos (lançamento previsto da edição em português para setembro de 2013, pela Editora Summus)

domingo, 26 de maio de 2013

Por trás da moda, há um submundo de exploração

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520285-por-tras-da-moda-ha-um-submundo-de-exploracao

Por trás da moda, há um submundo de exploração

No mundo da moda, campanhas de publicidade apresentam jovens conscientes das dimensões sociais do mundo, do desafio ecológico e mesmo do respeito à diversidade. Mas suas cadeias de produção escondem um submundo corroído pela exploração da mão de obra barata e por condições deterioradas de fábricas. Agora, essa situação começa a ganhar contornos políticos - e até religiosos - que ameaçam governos.
A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-05-2013.
O colapso de um edifício em Bangladesh no final de abril, deixando mais de 1,2 mil mortos e mais de 2 mil feridos, abriu as feridas do setor têxtil e da moda, que nos últimos anos embarcou na busca por fornecedores de baixo custo para poder colocar no mercado camisas, calças e centenas de outros artigos a preços baixos.
Temendo prejuízos globais diante das tragédias, empresas de todo o mundo se apressaram na semana passada a assinar acordos com sindicatos se comprometendo em garantir a segurança de seus funcionários. Especialistas disseram ao Estado que a atitude tem muito mais a ver com salvar a imagem do setor que com os trabalhadores, que há anos alertam sobre as más condições nas fábricas.
Já outros alertam que a ação pode ter sido tardia. Em Bangladesh, protestos se proliferam e grupos islamistas já usam o acidente para mobilizar um movimento para depor o governo.
O país asiático transformou-se na última década no segundo maior fornecedor de produtos têxteis do mundo, com 3,5 mil empresas exportando, 4 milhões de trabalhadores e investimentos externos no valor de US$ 19 bilhões. Mas a chegada dos investimentos só ocorreu graças a um fator: 90% desses trabalhadores ganham apenas US$ 1,1 por dia, o que permite à indústria têxtil mundial a movimentar US$ 1 trilhão por ano e gerar lucros, mesmo em plena crise mundial.
As multinacionais da moda não escolheram Bangladesh por acaso. O país tem o menor salário mínimo do planeta: US$ 38 por mês. Para o sindicato internacional IndustriALL, bastaria um aumento de US$ 0,02 no preço de cada camisa vendida no Ocidente para garantir que a renda dos trabalhadores em Bangladesh dobrasse. Com US$ 0,10 a mais, todas as 3,5 mil fábricas poderiam ser renovadas e estar dentro dos padrões europeus.
Quando o edifício Rana Plaza desabou o impacto foi global. Algumas empresas rapidamente reconheceram seu envolvimento. Outras, negaram, mesmo depois que suas etiquetas foram encontradas ensanguentadas entre corpos - entre elas a italiana Benetton e a alemã Kik.
O Rana Plaza era o espelho da expansão descontrolada do setor no país. O prédio ganhou três andares suplementares para garantir uma maior produção. Mas, num país com falta de investimentos em energia, geradores muito pesados foram colocados no teto, vibrando 24 horas por dia. A capital, Daca, situa-se em uma zona de terremoto e, segundo a ONU, 72 mil edifícios não resistiriam a um desastre natural de magnitude 6.
Empresas como a inglesa Primark e a canadense Loblaw admitiram sua produção no prédio que desabou. Mas lançaram um desafio ao fato de que outras 28 empresas ocidentais estavam em silêncio sobre sua participação. Nos dias após o colapso, campanhas promovidas por ativistas reuniram mais de 1 milhão de assinaturas cobrando uma resposta das empresas têxteis ocidentais.
Depois de semanas de negociações, um acordo foi obtido na quarta-feira na Suíça, envolvendo gigantes como a H&M,Zara, Hennes & Mauritz AB, PVH, Tchibo, Tesco, Marks & Spencer, El Corte Inglés, Mango, Carrefour, Benetton,Esprit e C&A. O plano prevê que inspeções independentes sobre a segurança das fábricas serão realizadas e obras terão de ser feitas em locais que não cumpram padrões mínimos. As empresas Ocidentais ainda se comprometem legalmente a garantir a segurança dos trabalhadores e asseguram que o fornecedor que se recusar a seguir essa linha terá seu contrato suspenso.
Mas as empresas não deixam de atacar o governo de Bangladesh, apontando para inspetores que fazem visitas apenas para receber propinas e leis pouco transparentes sobre os direitos de trabalhadores.
A maior rede de varejo do mundo, o Walmart, rejeitou aderir ao acordo e disse que realizará de forma independente a vistoria sobre as 279 fábricas instaladas em Bangladesh. O problema é que essa não é a primeira vez que o Walmart faz tal promessa. Em novembro, uma outra fábrica foi destruída por um incêndio que matou 112 pessoas, levando o Walmarta anunciar que estava rompendo o acordo de fornecimento com a empresa.
Nas ruas de Daca, nem mesmo o acordo acalmou os trabalhadores. Ao menos mil fábricas estão paralisadas pelos protestos que, segundo observadores, ganham dimensões políticas. Cerca de 70 deputados nacionais são donos de empresas do setor têxtil.
Gilbert Houngbou, vice-diretor da Organização Internacional do Trabalho, admitiu ao Estado que um dos temores é que a crise seja usada justamente por grupos islâmicos radicais para atrair a população frustrada pelas mortes e mobilizar um apoio popular suficiente para depor o governo. "Esse aspecto político é real", declarou.
Os militantes logo perceberam que poderiam aproveitar o sentimento de indignação para ganhar força. Manifestantes saíram às ruas e pelo menos 22 pessoas morreram em choques com a polícia. O governo sabe que os radicais estão usando a crise e vem apelando à comunidade internacional a não promover um boicote sobre as exportações do país.Daca teme que o abandono das empresas Ocidentais amplie a miséria, que apenas garantiria o avanço dos islâmicos.
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