quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O verdadeiro alvo do Ocidente é o Irã, e não a Síria

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523313-o-verdadeiro-alvo-do-ocidente-e-o-ira-e-nao-a-siria

O verdadeiro alvo do Ocidente é o Irã, e não a Síria

O Irã está profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Além disso, uma vitória de Bashar representa uma vitória do Irã. E vitórias do Irã não podem ser toleradas pelo Ocidente. O artigo é de Robert Fisk, do Independent e reproduzido por Carta Maior, 02-09-2013.
Eis o artigo.
Antes que comece a guerra ocidental mais idiota na história do mundo moderno – eu me refiro, é claro, ao ataque à Síria que todos nós vamos ter que engolir – podemos dizer que os mísseis que esperamos ver cruzando os céus de uma das cidades mais antigas das humanidade não têm nada a ver com a Síria.
Eles têm como objetivo atacar o Irã. Eles pretendem atacar a república islâmica agora que ela tem um presidente novo e vibrante – diferente do bizarro Mahmoud Ahmadinejad – e bem quando ele pode estar um pouco mais estável.
Irã é inimigo de Israel. Então o Irã é, naturalmente, inimigo dos EUA. Então dispare os mísseis no único aliado árabe do Irã.
Não há nada de agradável no regime de Damasco. Nem esses comentários livram a cara do regime quando se trata de uso de armas químicas em massa. Mas eu tenho idade suficiente para me lembrar de que quando o Iraque – então aliado dos EUA – usou armas químicas contra os curdos em Hallabjah em 1988, nós não invadimos Bagdá. De fato, esse ataque esperou até 2003, quando Saddam não tinha mais armas químicas ou qualquer outra arma com as quais tínhamos pesadelos.
E eu também me lembro de que, em 1988, a CIA disse que o Irã foi o responsável pelo uso de armas químicas emHallabjah, uma mentira deslavada, que mirava no nosso inimigo, contra quem Saddam estava lutando em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah. Mas aí está. Jeitos diferentes, padrões diferentes.
E eu acho que vale a pena notar que quando Israel matou 17 mil homens, mulheres e crianças no Líbano em 1982, numa invasão supostamente provocada pela tentativa de homicídio pela OLP do embaixador israelense em Londres – foi o amigo de SaddamAbu Nidal, quem organizou o atentado, não a OLP, mas isso não importa agora – os EUA pediram aos dois lados que tentassem “se conter”. E quando, poucos meses antes dessa invasão, Hafez Al-Assad – pai deBashar – mandou seu irmão para Hama para exterminar milhares de rebeldes da Irmandade Muçulmana, ninguém soltou um murmúrio que fosse condenatório. “Regras de Hama” foi como meu velho amigo Tom Friedman cinicamente classificou esse banho de sangue.
De qualquer forma, há uma Irmandade diferente por aí esses dias – e Obama nem se dignou a dar uma vaiadinha quando seu presidente eleito foi deposto.
Mas espere um pouco. O Iraque – quando era aliado “nosso” contra o Irã – também usou armas químicas contra o exército iraniano? Usou. Eu vi os resultados desse ataque horroroso feito por Saddam – oficiais dos EUA, devo dizer, fizeram um tour pelo campo de batalha depois, e se reportaram de volta para Washington – e nós não demos a mínima bola para isso. Milhares de soldados iranianos foram envenenados até a morte por essa arma terrível na guerra entre 1980 e 1988.
Eu viajei de volta para Teerã em um trem noturno com soldados feridos e cheguei a sentir o cheiro da coisa, abrindo as janelas dos corredores para diminuir o cheiro. Esses jovens tinham feridas dentro de feridas, literalmente. Eles tinham dores que surgiam dentro das dores, algo próximo do indescritível. Ainda assim, quando os soldados foram enviados para hospitais ocidentais para serem tratados, nós, jornalistas, chamamos esses feridos – depois de evidências das Nações Unidas muito mais convincentes do que as que podemos encontrar hoje em Damasco – de “supostas” vítimas de armas químicas.
Então o que diabos estamos fazendo? Depois de incontáveis milhares de mortes na terrível tragédia síria, de repente – agora, depois de meses e anos de prevaricação – estamos indignados com algumas centenas de mortes. Terrível. Inconcebível. Sim, é verdade. Mas nós deveríamos ter ficado traumatizados por essa guerra em 2011. E em 2012. Mas por que agora?
Suspeito que eu saiba o motivo. Suspeito que Bashar Al-Assad esteja ganhando a guerra contra os rebeldes que temos armado secretamente. Com a ajuda do Hezbollah libanês – aliado do Irã no Líbano – o regime de Damasco quebrou os rebeldes em Qusayr e podem estar no processo de quebra-los ao norte de Homs. O Irã está cada vez mais envolvido na proteção ao governo sírio. Portanto, uma vitória de Bashar é uma vitória do Irã. E vitórias iranianas não podem ser toleradas pelo Ocidente.
E enquanto estamos falando de guerra, o que aconteceu com aquelas ótimas negociações entre palestinos e israelenses de que John Kerry andava se gabando? Enquanto expressamos nossa tremenda angústia com o terrível uso de armar químicas na Síria, a terra palestina continua sendo destruída. A política do Likud de Israel – de negociar a paz até não haver mais Palestina – continua a toda, e é por isso que o pesadelo do Rei Abdullah, da Jordânia, (muito mais potente que as “armas de destruição em massa” que imaginávamos em 2003) só aumenta: que a “Palestina” fique na Jordânia, não na Palestina.

Rússia: reprimidos, gays avançam

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Rússia: reprimidos, gays avançam

130830_LGBT Russia
Lei homofóbica atiça violência mas, contraditoriamente, abre caminho para debater padrões sexuais alternativos. Ativistas rejeitam boicote às Olimpíadas de 2014
Por Taís González
O presidente russo, Vladimir Putin, sancionou no dia 30 de junho uma lei que proíbe “propaganda de relações sexuais não-tradicionais para menores”, abrindo um novo capítulo na história dos direitos dos homossexuais na Rússia. A lei impõe pesadas multas a pessoas que forneçam informações sobre homossexualidade a menores de 18 anos, e proíbe a adoção de crianças russas por homossexuais solteiros que vivam em países onde é legal o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A proibição federal baseou-se no “sucesso” de leis regionais sobre “propaganda do homossexualismo para menores”, aprovadas em dez regiões a partir de 2006.
Entretanto, a lei é ambígua e perigosa. Sem uma definição legal de “propaganda” ou “relações sexuais não tradicionais”, não é possível controlar o modo como as autoridades irão utilizá-la. Para se ter ideia, quatro turistas holandeses foram detidos no norte da cidade de Murmansk, em julho, fazendo um documentário sobre o que é ser LGBT na Rússia. A justificativa foi que estariam espalhando “propaganda de relações não-tradicionais entre menores de idade”, já que os documentaristas teriam falado com adolescentes em um acampamento.
Perigo iminente. Desde que a proibição da propaganda homossexual começou a ser adotada, os casos de agressões multiplicaram-se, apontando para a triste realidade de que as consequências dessas leis serão principalmente sociais, e não legais. Por exemplo, na cidade de Ryazan, LGBTs têm vivido sob a lei da propaganda gay há mais de sete anos. Durante este tempo, apenas duas pessoas foram condenadas, depois de recorrerem a instâncias superiores. Seus casos foram levados à Comissão de Direitos Humanos da ONU e ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Entretanto, desde então, prisões de manifestantes, perseguições e assassinatos mostram que a forte presença da homofobia entre os cidadãos russos. Há apenas vinte anos, a homossexualidade era considerada um crime no país.
Não há números oficiais sobre violência antigay na Rússia, mas casos recentes mostram o problema no país. Em 9 de maio, o jovem Vladislav Tornovoy, de 23 anos, foi morto em Volgograd, a 950 quilômetros de Moscou. Atacado com garrafas de cerveja e uma pedra de 20 kg, o jovem não resistiu aos ferimentos. Um dos dois homens que o mataram foi preso pelo “suposto homicídio”. Aos 39 anos, Oleg Serdyuk foi assassinado em 29 de maio na região leste da Rússia, porque teria “orientação sexual não tradicional”. Em 30 de maio, o tribunal da cidade de Dzerzhinsk condenou a onze anos de prisão um homem que matou outro russo por ter lhe oferecido um relacionamento homossexual.
Bons costumes. Más línguas afirmam que estas são atitudes extremas para tentar deter manifestações que estariam multiplicando o número de adeptos da homossexualidade, como por exemplo a da banda punk feminista Pussy Riot. O grupo realizou em fevereiro de 2012, na Catedral Cristo Salvador, em Moscou, uma manifestação bem-humorada contra a campanha à presidência do então primeiro-ministro Vladimir Putin. As jovens conquistaram simpatia dentro e fora da Rússia devido às acusações de que três delas teriam recebido tratamento cruel enquanto sob custódia, e arriscavam-se a receber sentença de sete anos de prisão. Em agosto do mesmo ano, as três foram condenadas por vandalismo motivado por ódio religioso e condenadas a dois anos de prisão cada uma.
Uma das justificativas da lei gira em torno da proteção da moral, dos bons costumes, da família e, claro, do declínio da taxa de natalidade da Rússia. “Com um golpe de caneta, as autoridades endossaram restrições ao direito à liberdade de expressão, em nome dos ‘tão falsos’ valores tradicionais”,afirmou Rachel Denber, vice-diretora da Human Rights Watch na Europa e Ásia Central.
Não ao boicote. Com a aprovação da lei federal e o aumento de casos de agressão contra a comunidade LGBT, cresce a incerteza sobre a segurança dos atletas que participarão dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, previstos para fevereiro na cidade de Sochi. O Comitê Olímpico Internacional recebeu “fortes garantias” de que não haverá discriminação. “A Rússia comprometeu-se a cumprir rigorosamente as disposições da Carta Olímpica e seus princípios fundamentais”, afirmou o vice-premiê Dmitry Kozak. A Carta rejeita qualquer tipo de discriminação.
A despeito dessa afirmação, uma onda de boicotes ronda os jogos. Para Nikolai Alexeyev, presidente do GayRussia.Ru eMoscow Pride Organizing Committee, contudo, boicotar grande eventos esportivos só irá abafar as vozes dos LGBT no país. Ele declara que “a Olimpíada é uma oportunidade única para a comunidade LGBT da Rússia e do mundo estar presente e ter sua voz ouvida. […] Os Jogos Olímpicos de Sochi podem transformar-se no maior incentivo ao movimento gay da nossa história”. Para Alexeyev, a lei “deu um impulso à luta LGBT. Mais ativistas estão protestando em várias cidades russas. O tema está sendo amplamente discutido na mídia, o que era impensável em 2005, quando nós começamos. O efeito é oposto ao que eles queriam atingir. Estão promovendo propaganda gay na Rússia, mais do que qualquer outro ativista LGBT”.

Geopolítica e classes sociais

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Geopolítica e classes sociais

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Estão ressurgindo condições para que países periféricos coesionem-se internamente, reduzam desigualdades e questionem hierarquia internacional. Risco é perder novamente o bonde…
Por José Luis Fiori
Não há nenhuma evidencia histórica de que exista uma relação necessária e monogâmica entre determinadas estratégias internacionais de poder e algum estado, regime político ou modo de produção particular. Nem tampouco, com alguma religião, fase do capitalismo ou classe social específica. Por isto, não é possível deduzir uma politica internacional de um catálogo genérico dos interesses ou coalizões de classe. Como tampouco se pode atribuir – de forma necessária e permanente – uma politica econômica ortodoxa ou heterodoxa a alguma classe ou fração de classe exclusiva. Tudo dependerá, nos dois casos, das circunstâncias históricas, políticas e geopolíticas específicas de cada país.
O sociólogo e economista austríaco, Karl Polanyi (1886-1964), foi quem propôs, talvez em 1944, a tese mais original e instigante sobre a existência de uma “regularidade variável” e de longo prazo, na história do sistema interestatal e do capitalismo, entre as estratégias internacionais dos países e suas politicas econômicas e sociais — ou, de forma mais ampla, entre sua geopolítica e suas classes sociais. Resumindo o argumento: Karl Polanyi identifica a recorrência de um “duplo movimento” na história do capitalismo, que seria resultado da ação permanente e contraditória de dois princípios organizadores das economias e sociedades de mercado, cada um deles apontando para objetivos diferentes. Um, seria o “princípio do liberalismo” econômico que propõe, desde as origens do sistema, a globalização ou universalização dos mercados auto-regulados, através da defesa permanente do laissez faire e do livre comércio. E o outro, seria o princípio da “autoproteção social”, uma reação defensiva que se articula historicamente não em torno de interesses de classes particulares, mas em torno da defesa das “substâncias sociais ameaçadas pelos mercados”.i Este princípio de “autoproteção social”, por sua vez, tenderia a se manifestar de duas maneiras diferentes: i) dentro de cada país, através de várias formas de luta, mobilização e democratização política e social, e de construção de redes igualitárias de proteção coletiva das suas populações; e ii) dentro do sistema internacional, através de uma reação defensiva/ofensiva dos estados que decidem proteger seus sistemas econômicos nacionais, frente a situações de crise e de aumento da competição e da belicosidade do sistema interestatal. No caso dos países europeus, estes dois movimentos de autoproteção social e internacional convergiram, na maioria dos casos, graças à natureza secular, extremamente competitiva e bélica, do seu sistema político. Mas o mesmo também ocorreu na luta anti-colonialista de alguns países asiáticos, onde o sentimento de identidade e mobilização nacional cumpriu papel decisivo na soldagem de uma “comunidade de interesses” frente a um tipo de desafio externo que diluiu as fronteiras de classe e estimulou várias formas e políticas de proteção e fortalecimento nacional, e de solidariedade e igualdade social. Nestes casos, pode-se dizer que ocorreu uma espécie de “renacionalização” das burguesias locais, e uma maior identificação de suas elites com seus territórios, suas populações e suas economias nacionais. Foi sobretudo nestas situações e circunstancias que se formaram os grandes consensos e as coalizões de poder responsáveis pelo sucesso econômico e internacional das potencias europeias e asiáticas. Por fim, pode-se dizer, a partir da tese central de Polanyi, que não existem proprietários das ideias, das políticas, e das estratégias. A história ensina que uma mesma ideia ou estratégia pode ser apoiada por diferentes coalizões de poder, em diferentes momentos e países, dependendo do contexto internacional.
Agora bem, na segunda década do século XXI, o contexto mundial de crise, e aumento da belicosidade e da competitividade internacional está anunciando – uma vez mais — o surgimento de “condições externas” favoráveis à uma nova “era de convergência” entre as políticas de autoproteção social e nacional, dentro dos países situados nas escalões inferiores do sistema interestatal capitalista. Segundo Polanyi, como vimos, é nestas conjunturas que se abrem as portas para a formação dos consensos e das coalizões de poder capazes de questionar as assimetrias de poder e riqueza internacionais, e com força para sustentar politicas nacionais de crescimento e igualdade sociais aceleradas. Mas é também nestas horas de bifurcação que os países podem perder o bonde da histórica por longos períodos de tempo, caindo na vala comum do “desenvolvimentismo preguiçoso”, perdidos na teia repetitiva e sonolenta das diatribes macroeconômicas, e movidos pela força quase inercial de infinitos interesses coligados e satisfeitos, sem uma hegemonia e uma direção estatal clara. Por absoluta falta de ousadia internacional e de uma estratégia econômica e social coerente, expansiva e de longo prazo
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iPolanyi, K. (1944 [1980] , A Grande Transformação, Editora Campus, Rio de Janeiro, p: 164

Às vésperas de uma guerra obscena

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Às vésperas de uma guerra obscena

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Navia da frota dos EUA no Mediterrâneo, equipada com mísseis Tomahawk e deslocada para as proximidades da Síria na quinta-feira (29/8)
Navia da frota dos EUA no Mediterrâneo, equipada com mísseis Tomahawk e deslocada para as proximidades da Síria na quinta-feira (29/8)
Aliados a monarquias medievais, EUA querem ampliar seu poder geopolítico no Oriente Médio: eis o real motivo da escalada contra Damasco 
Por Tariq Ali, no London Review of Books | Tradução: Vinícius Gomes
O objetivo da “guerra limitada” organizada pelos EUA e seus vassalos europeus é simples. O regime sírio estava lentamente restabelecendo seu controle sobre o país, contra a oposição armada pelo Ocidente e seus Estados tributários na região (Arábia Saudita e Qatar). Essa situação exigia correção. Nessa deprimente guerra civil, era preciso fortalecer militar e psicologicamente a oposição.
Desde quando Obama afirmou que as armas químicas era a “linha-limite”, era claro que elas seriam utilizadas. Cui prodest? como costumavam perguntar os romanos. Quem se beneficia? Claramente, não o regime sírio.
Há várias semanas, dois jornalistas do Le Monde já tinham descoberto as armas químicas. A questão é: de fato foram usadas, quem as lançou? O governo Obama e seus seguidores gostariam que acreditássemos no seguinte enredo: Assad permitiu que os inspetores de armas químicas da ONU entrassem na Síria; então, anunciou a chegada deles lançando um ataque de armas químicas contra mulheres e crianças, a mais ou menos 15 quilômetros do hotel onde estavam hospedados. Isso simplesmente não faz sentido. Quem, então, cometeu a atrocidade?
No Iraque, sabemos que foram os EUA a utilizar “fósforo branco” em Fallujah, em 2004 (não havia “linhas-limites” exceto aquelas traçadas no chão por sangue iraquiano). Portanto, a justificativa é tão turva quanto nas guerras anteriores.
Desde a invasão e guerra no Iraque, o mundo árabe está dividido entre sunitas e xiitas. Apoiando a invasão à Síria estão dois velhos conhecidos: Arábia Saudita e Israel. Ambos querem o regime do Irã destruído. Os sauditas, por disputas de facção; os israelenses, por estarem desesperados para acabar com o Hezbollah. Esse é o grande objetivo que têm em mente e Washington, após resistir por um tempo, está voltando a considerá-lo. Bombardear a Síria é o primeiro passo. (…)
Os iranianos reagiram fortemente e ameaçaram retaliação apropriada. Pode ser um blefe, mas o que isso revela é que até o novo líder “moderado”, prestigiado pela mídia ocidental, assumiu posição não distinta à de Ahmadinejad. Teerã compreende bem o que está em jogo e por quê. Cada uma das intervenções ocidentais no mundo árabe e seus arredores tornou as condições piores. Os ataques que estão sendo planejados pelo Pentágono e suas filiais na OTAN provavelmente terão o mesmo padrão.
Enquanto isso, no Egito, um Pinochet árabe está restaurando a “ordem” da velha maneira violenta já consagrada e com o apoio dos líderes, ligeiramente constrangidos, do conglomerado EUA/Europa.
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CARTA DE INDIGNAÇÃO À POPULAÇÃO

carta enviada pela maria ivonete de souza

CARTA DE INDIGNAÇÃO À POPULAÇÃO 
Sinop, 03 de setembro de 2013 

Hoje, estivemos reunidos com representantes da Coordenação Regional-Norte do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que se encontra num processo de intensa mobilização na BR-163, km-890, motivados pela morosidade com que o INCRA/MDA está tratando a reforma agrária na região.   Fazem 10 anos que mais de mil e duzentas famílias organizadas em sete pré-assentamentos (12 de Outubro, Zumbi dos Palmares, Keno, Renascer, Olga Benário, Sonho de Anderson, Terra de Viver) aguardam acesso à terra e a regularização dos pré-assentamentos gerando grande instabilidade à vida e agricultura camponesa.

Somado a isto, um agravante ocorre no pré-assentamento 12 de Outubro: a construção da UHE-Sinop que atingirá, diretamente, mais de 30% da área sem que haja qualquer menção dessa devastação nos falhos estudos do EIA-RIMA coordenado pela Empresa de Estudos Energéticos (EPE/MME).

Isto posto, nesta reunião, foram feitas as seguintes denuncias: 
- No final de junho deste ano, em uma audiência que aconteceu depois de três dias de bloqueio do MST na BR-163, fora acordado pelo superintendente do INCRA/MDA em Mato Grosso, Barranco, que até o final de agosto todos os pré-assentamentos da região receberiam equipes técnicas do INCRA para dar andamento à regularização dos pré-assentamentos, no entanto, o esse acordo não foi cumprido; 

- No dia 26 de agosto famílias camponesas dos sete pré-assentamentos fecharam, novamente, a BR-163. E, ainda sem resposta do INCRA, no dia 30 de agosto a Polícia Rodoviária Federal, com mais de 40 homens da tropa de choque, impediu que as famílias continuassem com o bloqueio;  

- Os camponeses não se intimidaram e, organizadas, continuaram às margens da BR porque, dada as condições de abandono dos pré-assentamentos, vêem nessa ação a única forma de reivindicação. Contudo, desde o momento do despejo a Polícia Rodoviária Federal “visita” constantemente o local onde estão concentradas as famílias fazendo revistas e ameaças como: uso de bombas, bala de borracha, gás de pimenta e prisão das lideranças;

 - No momento da ação da Polícia Rodoviária Federal, numa atitude agressiva, os policiais chutaram pneus em chamas que resultou em um incêndio incontrolável nas pastagens e florestas, destruindo parte da produção do pré-assentamento 12 de Outubro; 

- A Polícia Rodoviária Federal monitora permanentemente o trecho da BR-163 que passa pelo assentamento fazendo constantes revistas, o que caracteriza (por não ser habitual) uma tentativa de intimidação as famílias mobilizadas;  

- Em meio a tudo isso, o superintendente Barranco, sem dar algum retorno para resolver as antigas reivindicações das famílias, esteve em Sinop/MT (50km do local da mobilização) em uma reunião partidária, no dia 01 de setembro, onde proferiu discurso de desdém para com a mobilização das famílias camponesas e um zeloso defensor do "direito de ir e vir na BR", uma postura que em nada diferencia dos governistas da famigerada extrema direita. 

Considerando as questões expostas, vimos declarar nossa solidariedade às famílias mobilizadas pelo MST e convidamos a população para apoiar suas reivindicações exigindo do GOVERNO FEDERAL/INCRA/MDA imediata regularização dos pré-assentamentos e o fim dos atos de intimidações da PRF.

Neste sentido, para que este clamor adentre os gabinetes palacianos e a população em geral seja informada, solicitamos sua subscrição e divulgação desta carta, bem como, o envio de mensagens para os contatos:
. Barranco/INCRA-MT: (65) 3644 1104, (65) 9949 5157- (66) 9689 70 99,osmar.rossetto@gmail.com;
. PRF/MT: (66) 9292 5491;
. Presidência da República: (61) 3411-5964sicplanalto@planalto.gov.br;
. cópias para Forum Teles Pires/Marciano forumtelespires@googlegroups.com.

Lutar! Construir a Reforma Agrária Popular!

Pela imediato atendimento das reivindicações dos camponeses em luta acampados na BR-163:
Alceu Zóia - trabalhador da educação - UNEMAT/Sinop;
Denizalde Pereira - trabalhador da educação - UNEMAT-Sinop;
Ilza Polini - trabalhadora da educação - Sinop/MT;
João de Deus da Silva Filho - trabalhador da saúde - SINDSEPE;
Maria Luiza Troian - trabalhadora da educação -SINPROTEC;
Maria Ivonete de Souza - trabalhadora da educação - UNEMAT-Sinop/MT;
Sueli Brito - trabalhadora da educação - Unemat-Sinop/MT;
Michèle Sato - UFMT Cuiabá
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Socialistas franceses querem ir à guerra com Obama

carta maior
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Internacional| 31/08/2013 | Copyleft 

Socialistas franceses querem ir à guerra com Obama

O presidente francês, François Hollande, se alinhou à estratégia norte-americana e se prepara para participar com Washington na provável ação militar contra o regime sírio de Bachar Al-Assad, em represália contra a suposta utilização de armas químicas em um ataque lançado dia 21 de agosto contra as posições dos rebeldes nos arredores de Damasco. Por Eduardo Febbro, de Paris

Paris - O socialismo francês vai à guerra com Barack Obama. O presidente francês se alinhou à estratégia norte-americana e se prepara para participar com Washington na provável ação militar contra o regime sírio de Bachar Al-Assad, em represália contra a suposta utilização de armas químicas em um ataque lançado dia 21 de agosto contra as posições dos rebeldes nos arredores de Damasco. Em uma entrevista publicada nesta sexta-feira pelo jornal Le Monde, o presidente francês confirmou que Paris participaria na magra coalizão (Estados Unidos, França e, talvez, a Liga Árabe) que aponta seus canhões para Damasco. François Hollande reiterou que a ofensiva de 21 de agosto constitui um “crime contra a humanidade” que merece, como resposta, uma intervenção “de alcance limitado”.

O chefe de Estado francês se converteu em um insistente partidário da ofensiva militar e passa a encarnar assim uma espécie de socialismo de novo perfil: militarista, intervencionista e aliado entusiasta da Casa Branca. De fato, a França é hoje o único aliado europeu de Barack Obama. Londres caiu fora da coalizão depois do voto do Parlamento, a Itália se opõe à intervenção e a Alemanha não entra no jogo desenhado. O mandatário francês não mudou sua linha desde que chegou ao poder em maio do ano passado. A França respaldou os rebeldes desde o princípio e foi também o primeiro país a reconhecer a legitimidade da Coalizão Nacional Síria como ente legal da oposição. Foi igualmente o primeiro país a admitir publicamente que estava armando o Exército Sírio livre (nome que levam as forças irregulares que combatem o regime de Bachar Al-Assad).

Hollande disse na entrevista ao Le Monde que “a matança química de Damasco não pode nem deve ficar impune”. Em seguida, precisou: “não sou favorável a uma ação internacional que pretenda liberar a Síria ou derrubar a ditadura. Mas creio sim que é preciso parar um regime que comete atos irreparáveis contra seu povo”. O cenário que fica estabelecido é tanto cômico quanto ilustrativo das convicções variáveis do socialismo francês. François Hollande, em vez de distanciar-se, prossegue com a ruptura iniciada por seu predecessor, o conservador Nicolas Sarkozy. O ex-chefe de Estado liderou em 2011 a coalizão que interveio na Líbia sob mandato da ONU para proteger a população civil.

Na verdade, a intervenção teve como meta a derrubada do coronel Khadafi. Sarkozy rompeu assim a linha adotada pelo ex-presidente Jacques Chirac que, em 2003, se opôs à invasão no Iraque programada com uma trama de mentiras pelo ex-presidente norte-americano George Bush. A crise que estourou naquele período entre França e Estados Unidos – conhecida como “a guerra das batatas fritas” – foi enorme. A conselheira para a segurança nacional de Bush, Condoleezza Rice, disse na época: “é preciso ignorar a Alemanha, perdoar a Rússia e castigar a França” (Moscou e Berlim também se opuseram na ONU à invasão do Iraque).

Mas os favores se devolvem à vista. François Hollande reintegra a Obama o apoio logístico que este ofereceu quando Paris ativou a ofensiva contra os integristas islâmicos no Mali e no Sahel. Paris e Washington estão mais próximos do que nunca. Depois que os deputados britânicos negaram a David Cameron a permissão para participar da guerra na Síria (285 votos contra 272), Paris é o único parceiro europeu de peso com que conta a administração norte-americana. O secretário de Estado John Kerry qualificou a França como “our oldest allies” (nosso aliado mais antigo). Para os britânicos, o tropeço é histórico. O aliado mais “antigo” e fiel sempre foi o Reino Unido. Paris ocupa daqui para frente esse estatuto privilegiado que deixa a imprensa francesa enlouquecida de orgulho. 

O giro histórico é ressentido na Grã Bretanha como uma gigantesca humilhação. A capa da última edição do jornal The Sun ilustra até o paroxismo o sentimento britânico: “DEATH NOTICE” (falecimento), escreve o jornal. Com isso, procura dizer que a relação privilegiada entre Washington e Londres morreu. Os europeus são muito zelosos quanto às suas relações especiais com a Casa Branca. Zelosos para não dizer puxa-sacos de Washington. Qualquer gesto de reconhecimento do EUA é visto como uma benção papal, um prêmio, uma boa nota ao aluno menor, um incentivo ao aprendiz. É lastimável, mas o complexo é típico de uma tira cômica. A ironia da história é que Hollande tenha se mostrado mais firme que a imagem e o apelido que recebeu de seus detratores: “o presidente brando”.

Não se sabe muito bem em que resultará o “castigo” a Síria. Mas as linhas já estão traçadas e os protagonistas assumem seu papel. A Alemanha terminou com a ambiguidade e afirmou: “não pretendemos participar de uma ação na Síria”. A OTAN olha para outro lado, a Itália se opôs desde o princípio, assim como a maioria dos países europeus. A operação militar prevista aponta essencialmente para a destruição de alvos militares específicos, como depósitos de munições, sistemas de comunicação, aeroportos, bases militares. É muito provável que depois desse breve “castigo” a guerra interna continue com seu inesgotável fluxo de atrocidades cometidas por ambas as partes, êxodo da população e matanças indiscriminadas.

Em termos de política internacional, em nome do “castigo a uma monstruosa violação de direitos humanos” (como disse Hollande), o mandatário francês forjou uma nova aliança com os Estados Unidos. Na mesma estratégia devem entrar gestos tão condenáveis como o bloqueio do espaço aéreo para impedir que o avião do presidente boliviano Evo Morales sobrevoasse o território francês com a desculpa de que o ex-agente da CIA e da NSA Edward Snowden estaria nele. Quem será a próxima vítima?

Tradução: Katarina Peixoto